6 de Março--1909.

Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui ha tempos cahiu de cama e disse a

alguem a chorar:

--D'esta vez é certo! Sinto que vou morrer... E a vida é tão linda!

Tinha oitenta e cinco annos. Os jornaes contaram d'elle esta coisa

enternecedora: D'uma vez foi recitar um monologo a um asylo de raparigas

da sua terra. O monologo começava assim: «Boas noites, meus

senhores...». Entrou no palco e disse a phrase:

Boas noites, meus senhores...

E as meninas do asylo, que o conheciam todas, levantaram-se e

responderam á uma:

--Muito boas noites, senhor Taborda!

A morte engrandece sempre, mas acho horrivel acabar na rua dos

Calafates, entre a convenção e a mentira, andar por cima, andar por

baixo, corôas secas, photographias e recordações de bastidores. Um velho

tem direito a morrer entre arvores, em plena natureza. Os bichos, quando

sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... São

mais felizes.

Março--1909.

As declarações do Ferreira do Amaral na Camara dos Pares vieram

autenticar o que se dizia do rei. O Ferreira do Amaral afirmou:--«A

reacção envolve o rei».--Acrescenta-se cá fóra que é um jesuita

hespanhol quem dirige o rei e o Paço, e parece certo que o Ferreira do

Amaral o impedia por vezes de ir de livro e contas á missa--fazendo-o

visitar no Porto tres fabricas por cada missa que ouvia...

* * * * *

Espalha-se que foi a rainha quem pôz fóra o Ferreira do Amaral, e que

elle quer lá voltar para lhe dar uma lição.

Março--1909.

Apresentam-me hoje um velho janota, o visconde da Torre da Murta. É um

velho magro e esticado, de luvas e chapeu alto. Cheio de pretensões e os

cabelos todos brancos. Parece ligado por arames. Vive na miseria. A

mulher enganou-o, deixou-o. Pagou-lhe as dividas--e ficou pobre: são as

Thomares que o sustentam. O velho conserva uma grande dignidade e só sae

de luvas e chapeu alto. Mas quem sobretudo lhe vale é a creada, uma

destas extraordinarias mulheres do povo, que nascem para os outros e que

já disse que quando morrer lhe ha-de deixar as suas economias «para o

senhor visconde não passar necessidades». O senhor visconde vive n'um

cubiculo, e da sua passada grandeza restam-lhe meia duzia de livros com

magnificas encadernações.

Março--1909.

Fuschini, que fui hoje visitar, está velho e tem uma doença de coração

muito adiantada.

--Porque não escreve as suas memorias?

--Não sei, custa-me. Tenho pensado em escrever a minha autobiographia...

Depois deixo-me d'isso.

E conta-me:

--Quando foi da conversão da divida externa fui eu e poucos mais que

obstamos a que viessem tres estrangeiros para Portugal mandar n'isto.

Creia... Chegaram a dizer-me:--Não faça questão, que será um dos membros

da junta.

E diz:

--Ao tempo da dictadura do João Franco lembrei-me de reunir em Lisboa um

congresso de todos os homens publicos. Procurei os republicanos, o

Afonso Costa, que me prometeram o seu apoio. Estava de relações cortadas

com o Hintze, mas mandei-lhe falar e elle fez-me ir ao Estoril. Disse-me

o peor que é possivel do rei e acrescentou:--Aceito a sua idéa... E tem

casa?--Tenho.--E se a policia intervier?--Resistimos e apelamos para o

povo.--Bem, vá falar ao José Luciano.--Procurei essa _vil alforreca_,

que exclamou:--Mas isso é a revolução!... Preciso de falar primeiro com

o Hintze. Tenho uma idéa melhor...--Dias depois o Hintze dizia-me:--O

José Luciano não quer fazer nada, disse-me que era melhor esperarmos

para Outubro, quando o rei regressar a Lisboa.--Tambem me lembrei de

escrever um manifesto dirigido ao estrangeiro e assignado pelos

estadistas portuguezes.--Excelente, disse-me logo o Hintze, venha cá

amanhã... Olhe, amanhã não, que é o enterro do Casal Ribeiro. Depois de

amanhã.--No dia seguinte estava morto.

Março--1909.

Eis a impressão geral: Foi a rainha quem tramou a queda do Ferreira do

Amaral. O Julio de Vilhena queria que saissem apenas dois ministros

regeneradores, substituindo-os por outros. Foi uma tramoia do Paço. Toda

a gente diz que a rainha está feita com os reaccionarios. O D. Carlos,

emquanto vivo, opunha-se-lhe, e, logo ás primeiras investidas--festas de

Santo Antonio, etc.--poz-se do lado dos que combatiam a reacção. Agora

manda. E conta-se que o Ferreira do Amaral entrou um dia d'estes no Paço

e perguntou pelo rei.--Está com o seu director espiritual.--Então

preciso de falar á rainha.--Está tambem com o seu director espiritual.

* * * * *

A rainha--dizem-no todos--arrisca-se um dia a ser desfeiteada. Acusam-na

de deitar a perder o rei.

Março--1909.

Barreira conta-me que varios republicanos teem insistido junto do

general Baracho para se pôr á frente d'um movimento.

--Bem sei, vocês querem que eu tire as castanhas do lume, para que os

outros as comam!

Março--1909.

O Cunha e Costa:

--O Ferreira do Amaral desarmava pela bonhomia. Um dia constou ao

Bernardino que para os lados do Campo Grande havia tumultos. Telefonou

ao Amaral:--São os reaccionarios que querem repetir as scenas de cinco

de Abril...--Vou indagar.--Meia hora depois:--Está? Sou o Amaral.--E

muito placidamente:--Ó Bernardino, olhe que aquelles homens que os

senhores mandaram para o Campo Grande ainda lá não chegaram...--!!!--Os

republicanos do _Mundo_, quando lhes constou que iam ser

atacados:--Senhor presidente do conselho, consta-nos isto...--A casa do

cidadão é inviolavel e todos teem o direito de se defender.--Ao Pimentel

Pinto, cheio de dividas e que não paga a ninguem, respondendo á acusação

de jantar com os makavenkos:--Janto, janto, mas pago, meus senhores,

pago sempre.--Ao Arroyo, quando lhe dizia:--Enganaram-no, almirante.--É

que eu sou um ingenuo.

Abril--1909.

Fazem correr por ahi esta infamia: que o Wenceslau de Lima é amante da

rainha D. Amelia.

* * * * *

O Eduardo Pimenta, que serviu com o Mousinho em Africa:

--Um orgulho desmedido, uma decisão rapida, e uma insensibilidade, como

nunca vi, ao frio, á fome, ao trabalho... D'uma vez, por qualquer

questiuncula, fomos obrigados a dar uma satisfação á Alemanha. Que

scena! O Mousinho arrancou do peito constelado todas as medalhas, todas

as condecorações--todas. Só lá deixou a Aguia Vermelha que obriga o

alemão a conservar-se de pé diante dos que a teem. Poz o _bonnet_ às

tres pancadas e entrou por a casa do consul dentro. Ergueram-se todos--e

elle, á porta, sacudido, impertinente, enorme, disse a phrase

protocolar:--O governo de Sua Magestade Fidelissima encarrega-me,

etc.--E sem esperar pela resposta, outra vez levou dois dedos ao

_bonnet_ e rodou sobre os calcanhares, deixando-os estupefactos.

* * * * *

Jayme de Seguier encontra o João Franco no estrangeiro. São amigos. E

João Franco que não queria, que jurára não tornar a falar em politica,

durante duas longas horas não conversou, não falou n'outra coisa.

--Tinha previsto tudo. Tinha previsto a minha morte: o que eu não

previra foi o assassinato do rei. Isso nunca me passou pela cabeça...

--Mas o que eu não comprehendo é que dissolvesse as côrtes estando

aliado com os progressistas...

--Tinha-lhes pedido ministros, recusaram-mos. Ficava enfraquecido. Isso

é que não. Não podendo tel-os como amigos, então antes como inimigos

declarados.

Quem me fornece estas notas (Jaime Victor) fala d'um João Franco cheio,

de sensibilidade e de coração, capaz de ir até ao fim...--P'ra diante!

p'ra diante contra tudo e contra todos!--Era um convencido. Diz-se que

os outros o empurravam. A verdade é que ninguem o podia deter: nem

palavras nem acções o faziam recuar; ia como uma bala na sua

trajectoria. Contam-me que n'um dos ultimos conselhos de ministros João

Franco expoz a situação: o movimento revolucionario, as medidas que

tomára, etc.. Vasconcellos Porto, placido e enorme, expoz a sua opinião

e concluiu:

--Deixe-os vir para a rua, que eu conto com o exercito. E depois de

vencermos, governaremos...

Ao que João Franco respondera:

--Não, podendo evitar-se o sangue--evitamol-o.

E Jaime Victor conclue:

--A morte de D. Carlos trouxe-nos extraordinarias complicações. Elle,

por exemplo, tinha seguro o tratado de comercio com o Brazil, que nunca

mais se fará. No Brazil fizeram-se despezas extraordinarias para o

receber.

Novembro--1909.

Guerra Junqueiro desalentado:

--Isto está liquidado, a ocasião passou. Agora o rei casa com uma

ingleza e vem para ahi um caixeiro qualquer da Inglaterra, que manobra

por traz da cortina. Não reparou n'isto?... Nas camaras passou uma lei

que os auctorisa a vender inscripções. É a bancarrota adiada por muito

tempo. D'aqui a annos o juro da divida interna é reduzido, mas vae-se

vivendo e paga-se ao estrangeiro, que é o principal.

* * * * *

Do João Franco diz:

--Mentia com o coração nas mãos... Então é que era ocasião. O Franco e o

rei eram dois cães damnados... A ocasião passou, a republica passou.

* * * * *

O Carneiro de Moura:

--Os bispos e as beatas deram para a imprensa reaccionaria, para _O

Portugal_, vinte contos. Já lá vão em pagodes!

[Figura: _Dantas Baracho._--Caricatura inedita de Celso Herminio.]

Novembro--1909.

Conta hoje o Fuschini--sempre com a Alice Lawrence atraz, sempre a

caminho da Sé, com o chapeu sobre os olhos e um rôlo de papeis debaixo

do braço, sempre sufocado quando sobe as escadas, porque o coração cada

vez lhe trabalha peor, sempre irrequieto e interessante, apesar da edade

e dos cabelos todos brancos:

--O Soveral é um homem de negocios[8]. O que elle quer é dinheiro. Já

tive todos os fios d'essa meada nas mãos... Obrigou agora o rei a ir á

Inglaterra fazer uma figura triste. Pois posso garantir-lhe que ha dois

mezes esteve em Lisboa um correspondente do _Dail Maily_, que contou á

Alice que o proprio duque de Fife mandára ao jornal o seu secretario

desmentir a noticia do casamento.

* * * * *

O Avelino de Almeida, jornalista com a especialidade de padres e beatas:

--Quem deu o dinheiro para _O Portugal_ foram as beatas. Um padre

lazarista é que andou metido n'isso. Arranjaram dezoito contos. Só a

viscondessa de Sarmento deu seis.

* * * * *

Um artigo curioso do _Corriere de la Sera_, assignado pelo Gomes dos

Santos:

«Um caso singularissimo poz recentemente a policia na pista d'uma

conspiração de aventureiros que punham o seu braço ao serviço do

radicalismo, promptos para tudo quanto lhes fosse ordenado em

nome... da utopia. Uma longa serie de crimes politicos que datam do

regicidio e cujos auctores até agora tinham ficado envoltos no

mysterio, coloca em evidencia os factos preteritos e abre um

caminho seguro para a liquidação das responsabilidades. Hoje

ninguem duvida da existencia d'uma sociedade secreta que, sob a

aparencia de loja maçonica, é o verdadeiro poder executivo do

partido revolucionario, o braço sempre prompto a ferir, a espada

que cae traiçoeiramente sobre as victimas designadas pelos

dirigentes da politica radical?

Ninguem ignora em Portugal as circumstancias em que se desenrolou o

regicidio. Na confusão da tarde tragica, a policia cae sobre dois

dos regicidas e mata-os em legitima defeza. Mas permanece sempre

firme a convicção de que os regicidas não eram sómente Buiça e

Costa, que pagaram com a vida o seu delicto! Esta convicção

fundava-se em factos de ordem material e moral, sobre os quaes não

havia duvida de especie alguma. A prova moral da existencia

d'outros cumplices reside na impossibilidade do atentado haver sido

organisado e levado a efeito apenas por dois homens. A prova

material forneceram-na numerosissimas testemunhas que viram a

carruagem real ser alvejada, simultaneamente, de varios pontos e

observaram a fuga de alguns dos cumplices do regicidio, um dos

quaes, perseguido pela policia quando fugia, com o rewolver

fumegante em punho, conseguiu perder-se de vista ao voltar uma rua,

confundindo-se depois com a multidão espavorida que fugia do logar

do crime.

É um vulgar principio de investigação judiciaria que os deliquentes

se devem procurar entre aquelles a quem o delicto aproveita. Ora

quem podia aproveitar com a carnificina da familia real? Se

houvesse produzido uma mudança politica, aproveitavam evidentemente

os republicanos cujo triumpho teria sido d'esta arte facilitado. Se

tivesse originado apenas (como realmente produziu) uma substituição

de governo resultaria proveitosa para os mesmos republicanos aos

quaes João Franco havia fechado todos os caminhos. Vendo presos os

seus principaes chefes e ameaçada toda a sua organisação, os

republicanos esperavam reconquistar, com um golpe de mão, as

posições primitivas. Não ha outras hypotheses a considerar, visto

que o crime não podia ter sido perpetrado por uma conspiração de

monarchicos nem representa um caso individual de terrorismo porque

os regicidas não eram anarchistas.

O Buiça e o Gosta eram republicados militantes: trabalhavam nas

ultimas filas dos revolucionarios. Livres pensadores, pertenciam á

sociedade de propaganda d'onde, de resto, teem sahido todos os

criminosos politicos. Homens de acção, pertenciam a uma loja

secreta, a «Montanha», mixto de instituição maçonica e de comité

revolucionario, sem local fixo e sem estatutos, que se reune a um

simples convite dos jornaes da seita, ninguem sabe onde e que se

compõe de homens _capazes de tudo_. Tudo deixa crer que o regicidio

foi ahi deliberado e que, como é costume, os executores foram

tirados á sorte, visto que apenas o sorteio explicava a escolha

d'um dos regicidas, cujo passado se não ilustra com actos de grande

coragem individual.

Mas sobre o regicidio, que inaugura a conhecida série de delictos

politicos, não mais se tratou de fazer luz. Não se chegou a apurar

quem foram os cumplices da emboscada e, se porventura se tentou

esclarecer o caso, acabaram por concluir que era melhor guardar

silencio sobre elle. No entretanto, occorriam novos factos que

vieram documentar melhor a existencia d'uma organisação que

liquidava pelo assassinio as dificuldades susceptiveis de embaraçar

o movimento revolucionario. Poucos mezes depois do regicidio, um

humilde engraxador apresentava-se á policia perfeitamente apavorado

e narrava que dois republicanos lhe tinham proposto lançar uma

bomba no coche que devia conduzir D. Manuel ao Parlamento. A

declaração era verdadeira? Ignoro-o. Mas a policia prende os dois

mencionados instigadores, um dos quaes é fulminado por uma

congestão cerebral no gabinete do juiz. Este, quando se prepara

para colher do denunciante novos esclarecimentos, vê o engraxador

morrer envenenado n'um hospital no meio de horriveis aflicções. O

desventurado declarava que morria por haver dito a verdade. Por

falta de provas o processo foi archivado, o que poz de bom humor a

imprensa revolucionaria, que já se dispunha a desviar a opinião

publica com um diversivo.

Poucos mezes depois outro crime vem afirmar a existencia da seita.

Alguns militares acusados de terem tomado parte no movimento

revolucionario de 28 de janeiro, foram condenados a penas graves

pelo tribunal, graças ao depoimento d'um sargento chamado Lima, que

se insurgiu e referiu o facto aos seus superiores. O sargento

passeava um dia em Setubal, para onde fôra transferido, quando um

revolucionario se lançou contra elle e lhe cravou um punhal no

coração. O assassino, preso quando fugia, allega uma historia

inverosimil de rivalidade que as investigações policiaes

desmentiram. Quanto á opinião da auctoridade e dos que conhecem de

perto as scenas, referidas anteriormente, da quadrilha

revolucionaria, é clara e expressa: o sargento foi condemnado á

morte por ter denunciado a existencia da conspiração.

Dois suicidios mysteriosos--um sob o comboio de Cascaes, outro na

redacção d'um jornal revolucionario--parecem ter intimas relações

com a existencia da Mão Negra local.

Diz-se que os suicidas, designados para certos cometimentos,

preferiram escapar pela morte ás intimações d'uma implacavel

organisação secreta. Não faço aqui menção do caso das bombas

explosivas com que ultimamente pretenderam alvejar algumas egrejas,

depois da execução de Ferrer. Não ha provas da intervenção da Mão

Negra, mas simples indicios de presumpção. Mas o que acabou de

esclarecer o paiz sobre a existencia d'uma formidavel e perigosa

associação secreta foi o recente crime de Cascaes, a que os jornaes

independentes dedicaram longas columnas.

Vão decorridos alguns mezes depois que na administração das

alfandegas se descobriu um importante furto de armas, que estavam

para chegar ao seu destino. A ausencia d'um operario da fabrica de

armas provou a sua responsabilidade no furto, logo confirmada pela

captura d'um cumplice--um dos implicados na revolução republicana

de 28 de janeiro--que era o receptador das armas roubadas. Já a

policia averiguou o destino das armas, que se reservavam, com a

complacencia de empregados aduaneiros, ao movimento revolucionario,

quando no meio dos rochedos das arribas de Cascaes, a oito

kilometros de Lisboa, se encontra assassinado mysteriosamente o

empregado da alfandega, auctor do furto.

Com os documentos que lhe encontraram nas algibeiras e com as

indicações fornecidas pela familia do assassinado, a policia

reconstituiu facilmente o crime. O pobre empregado, vendo

descoberto o furto das armas, dirigiu-se aos que o tinham impelido

e suplica-lhes que o salvem. Deram-lhe dinheiro para transpôr a

fronteira com promessa de o sustentarem no estrangeiro e o homem

refugiou-se em Badajoz, territorio hespanhol. Mas o dinheiro falta;

as promessas não são mantidas e o refugiado escreve aos que o

haviam levado ao crime, suplicando socorro. Como não obtivesse

resposta, ameaça-os com declarações. A Mão Negra destaca para

Badajoz um dos seus agentes, que o conduz a Lisboa enganado com

promessas de continuar a viagem para Africa; na primeira ocasião

levam-no a Cascaes a fim de seguir ocultamente para o seu novo

destino e matam-no, arrastando-o para o mar e precipitando-o do

alto das ribas.

O assassino foi preso na fronteira, quando tentava refugiar-se em

Hespanha, e conduzido a Lisboa, sob rigorosa escolta. Aqui, depois

de alguns dias de apertados interrogatorios, apanhado em

contradição, não sabendo explicar as manchas de sangue que tinha no

fato, confessa finalmente que cometera o crime,--e que, além de ser

antigo empregado n'um centro republicano, é membro da associação

secreta a «Montanha», como os regicidas, como os auctores dos

outros crimes politicos. É a existencia da Mão Negra averiguada e

confessada.

Os jornaes da seita, republicanos e revolucionarios, perante esta

sensacional descoberta, mantiveram a principio o maior silencio;

jornaes que costumavam ocupar columnas com o mais insignificante

acontecimento, evitaram, por todos os modos, referir-se a elle.

Depois, desesperados por não poderem conservar-se calados,

começaram a agredir violentamente e, por ultimo, a ameaçar a

imprensa independente que, mostrando-se bem informada, se ocupou

dos factos com uma certa largueza. E, emquanto a imprensa vermelha

assim procedia, a policia vinha a saber que os revolucionarios

tinham projectado fazer evadir o preso e teve a finura de o

transferir do deposito de segurança para uma caserna militar, onde

está de sentinella á vista.

Por outro lado, diz-se que as declarações relativas ao crime de

Cascaes revelaram uma nova pista para a descoberta dos regicidas e

a policia afadiga-se no intuito de descobrir e prender os membros

da Mão Negra. Alguns jornaes lembram, a proposito d'este facto, a

fuga precipitada de certa personagem para o estrangeiro. A Mão

Negra é uma especie de comité executivo, dentro do qual se encontra

todo o elemento revolucionario. Disporá o Estado de força para

resistir a esta formidavel organisação que nem sequer hesita ante o

crime?

A experiencia da fraqueza dos governos, que se sucederam no poder

após o regicidio, não auctorisa a responder tranquilamente a esta

interrogação...»

Dezembro--1909.

Segundo varias pessoas, ha efectivamente em Lisboa muitas agremiações

carbonarias.

Dezembro--1909.

O A... que se suicidou hontem tinha-se alcançado em não sei

quanto--outros, passeiam por essa Lisboa. Um, o M., alcançou-se em

dezoito contos. Castigaram-no reformando-o com o ordenado por inteiro.

* * * * *

Conta o Columbano que a seu pae Manuel Bordallo Pinheiro, pediu um dia

um companheiro de repartição:

--Tenho lá em casa na cocheira (do conde de Lumiares), um quadro muito

negro que queria que você visse.

Manuel Bordallo foi buscar a tela, limpou-a da bosta dos cavalos,

lavou-a da camada de negro... Era, nem mais nem menos, o retrato de

Carlos I d'Inglaterra, por Van Dyck, que o D. Luiz depois comprou e está

hoje na galeria do Paço d'Ajuda.

Dezembro--1909.

O Avelino d'Almeida:

--A verdadeira razão por que o _Seculo_ se fez republicano?... É que no

Paço, das ultimas vezes que o Silva Graça lá foi, receberam-no mal,

trataram-no d'alto.

* * * * *

--Um homem muito honesto o Hintze--diz o Carneiro de Moura--um homem

muito honesto que fazia assim:--Ó Val-Flôr, empreste-me vinte contos.--E

o Val-Flôr emprestava-lhos--e recebia do Estado compensações que valiam

o dôbro. Um homem muito honesto, o Hintze; que nunca tirou dos cofres do

Estado o valor de cincoenta mil reis.

Dezembro--1909.

Ministerio novo. O bloco foi comido. O Alpoim furioso, exclama, em pleno

Chiado:--O rei mentiu-nos! o rei é um imbecil! o rei tinha-nos prometido

o poder!

E o Vilaça conta:

--O José Luciano reuniu-nos hontem á noite, a mim, ao Beirão, ao Dias

Costa, ao Moreirinha e disse-nos:--Se os senhores estão no partido

apenas para serem pares do reino e para que os encha de favores, isto

acabou, hoje mesmo se liquida o partido progressista. Não podem recusar

as pastas que eu lhes indicar.--Todos se curvaram, o Vilaça, que perde

dez contos por anno, e o proprio Dias Costa, que de forma alguma queria

ser outra vez ministro.

Memórias · 第 33 / 45 题