Na recepção de ante-hontem a raínha tinha os olhos cheios de lagrimas
sufocadas e disse:
--Não tenho medo por mim, é por elle...
--Os politicos, agora vão ter juizo...--disse alguem. E ella respondeu:
--Os politicos não teem coração.
E o rei dizia a um e a outro:
--Seja bom portuguez e meu amigo.
Março--1908.
--Vou a Lisboa--diz o Columbano ao conde d'Arnoso.
--Tambem eu vou a essa Penitenciaria onde andam os assassinos á solta.
Março--1908.
Antonio José de Freitas:
--O Marianno de Carvalho tinha ido a Paris negociar um emprestimo e,
conversando com Rouvier, perguntou-lhe:
--Se se fizer a republica em Portugal?...
--Que me importa! Que me importa mesmo que se faça a republica em
Hespanha. Mas se se fizer a federação iberica, então alto lá! fazemos a
federação latina.
Rodrigo da Fonseca dizia dos Castilhos:
--Que familia! O melhor de todos é o cego--mas esse mesmo, se tivesse
olhos, era preciso furar-lhos!
Março--1908.
O João Chagas:
--O Alpoim foi quem nos forneceu as armas para a revolução. Foi o que
elle fez. Nós tinhamos homens, elles deram-nos as armas e uns contos de
reis. Todos elles se declaravam republicanos, menos o Moreira d'Almeida,
que disse:--Eu não só não sou republicano, mas sou
anti-republicano.--Quando sahiamos das reuniões, eu e o Afonso Costa
riamos ás gargalhadas.
Este João Chagas tão facil, tão insinuante, com o riso prompto nos
labios grossos e sua pôpa branca no alto da cabeça, nunca conversa,
nunca o vi conversar: se encontra alguem, seja onde fôr, conspira logo.
Tem passado a vida, sempre simpathico e facil, sempre bem vestido e
correcto como um actor que desempenha o seu papel. Mas no fundo d'esta
alma, sob este riso e esta pôpa que parece pintada, só existe uma
vontade que nunca esmorece, uma ambição tenaz e um egoismo feroz.
--Isto ha-de resolver-se em 1909. Ah, não passa d'ahi! É um conflicto
inevitavel. Que me importa o Porto?
E como eu duvide:
--Temos o exercito comnosco. Até na municipal. Na provincia ha terras em
que os regimentos são completamente nossos.
Abril--1908.
Hontem no Porto encontrei o Junqueiro, mais velho, mais magro, e a
proposito da atitude palaciana de Eduardo Burnay no _Jornal do
Commercio_, conta que elle em tempos, quando atacava o rei, o fôra
procurar ao Porto e lhe disséra do D. Carlos:
--D'uma vez, n'uma d'aquellas ceias que dava no Alemtejo aos esturdios
seus amigos, ofereceu a cada conviva uma navalha de ponta e mola, com as
armas reaes.
Novembro--1908.
A rainha não disse que conhecia o assassino do rei. Phrase textual
ouvida pelo Batalha Reis:
--Os outros não os conheço, mas aquella cara do homem das barbas nunca
mais me sae dos olhos[7].
Dezembro--1908.
O caso do dia é este:--Um alferes da guarnição no Paço, quando assistia
ao jantar levantou-se, e, contra todas as regras e todas as
conveniencias, falou ao rei pouco mais ou menos n'estes termos:--Vossa
Magestade anda iludido. Esta gente que o cerca engana-o. A situação do
paiz é deploravel, etc.
Imaginem, se podem, as atitudes, o espanto, o espectaculo d'esta gente,
interrompida pela primeira vez naquella representação em que o
formulario é respeitado como um culto. Mas na verdade o alferes disse o
que cada um sente no fundo da sua consciencia. Foi inconveniente, mas
poz o dedo na ferida. O rei está rodeado de ficções e de mentiras. Não
soube assumir as responsabilidades do pae, com decisão e coragem, nem
totalmente repelil-as.
Enredam-no. Os politicos dão-se o ar de o proteger e é elle quem os
protege. Hesita, tem medo... Sente-se que tudo isto vacila...
Janeiro--1909.
--Esta vida artificial como lhe sinto a falta!--exclama o Fialho ali ao
pé do Suisso.
--E porque não vive em Lisboa?
--Não posso! não posso! Se soubesse!... Tenho um irmão epileptico, que
meu pae me legou á hora da morte. Não devo abandonal-o, nem entregal-o a
mãos mercenarias... Depois as arvores, depois as vides, a que a gente
cria amor...--Uma pausa triste, uma hesitação, uma duvida e acrescenta
isto:--Não tenho tido quinze dias de felicidade em toda a minha vida!
Falamos de politica:
--Isto está a pedir sangue... E olhe: no Alemtejo não ha
republicanos--ha odios. O pobre não pode vêr o rico. É uma gente roída
de invejas e rancores, que passa annos e annos da vida a cubiçar um
campo...
* * * * *
O João Barreira, pequenino, inalteravel, de capinha:
--A revolução abortou em onze de Fevereiro porque os chefes foram todos
presos. O Chagas tinha nas mãos as chaves do movimento.
* * * * *
Quem são os regicidas?... O Ferreira do Amaral, ao sahir do ministerio,
declarou que não tinha apurado nada de definitivo. Diz:--Eu bem sabia,
por cartas anonimas, que se preparavam para me alijar, mas deixei-os
fazer...--Porquê, almirante?--A situação não me era agradavel.
* * * * *
Novos boatos de intentonas, de massacres, novos boatos de reacção. Agora
é certo!... Os regicidas vão ser presos. Conta-se que o Heitor Ferreira
dissera:--Vendi a carabina a Fulano.--O ministerio Amaral cahiu, porque,
dispondo de todos os elementos, não quiz prender os assassinos. Um dos
regicidas está em França, mas Clemenceau recusa-se a extradital-o.
* * * * *
O Mello Barreto garante como absolutamente autentico o boato que por ahi
correu, de que o rei se confessa todas as semanas.
* * * * *