Era hoje que devia rebentar a contra revolução, para impôr ao Paço uma
dictadura militar.
* * * * *
Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. Coisas antigas e louça
das Caldas, velhos quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão
pelo Augusto Pina. O homem está aqui: é uma revista de
anno--dificuldades de que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro e
de ternura a envolver tudo isto...
Conheceu o rei e explica-o:
--Quando queria era um _charmeur_. Ás vezes ninguem o podia aturar e
mentia como uma cesta rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava
d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze annos, dizia com um
sorriso:--É minha filha.
E conclue:
--Era um grande pantomimeiro!
Fevereiro--1908.
O Antonio José de Freitas, amigo do Paço, do Arnoso e do Sabugosa:
--O rei era d'estes homens que gostam de esconder as boas qualidades e
de salientar os seus defeitos. Inteligente, de bom coração, artista, não
soube ou não quiz tratar com os homens. Podia ter com elle todos os que
pensam ou escrevem em Portugal--afastou-os. Ha annos para cá o caso
explica-se: garanto-lhe que, depois que teve o tipho, ficou impotente e
sentia-se humilhado e inferior ao primeiro gallego que passa na rua...
Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, ha casos da sua vida e da
vida palaciana que se não comprehendem.
--E como artista?
--Era elle, sem duvida, que fazia com talento os esboços. Mas, como não
tinha tempo--outros lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um
mal--começou a sel-o apenas ha um anno.
Fevereiro--1908.
Todos os dias no Paço se recebem cartas anonimas com ameaças de morte. O
medo é enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos o quadro horroroso,
e, se acorda de noite, quer por força vêr o filho.
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O Manuel Ramos:
Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe
arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:--Mas se Vossa
Magestade receia...--E elle logo decidido:--Eu não!--E assignava tudo. E
fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do
dinheiro, dos dez ou doze mil contos gastos a mais, ficou no bolso dos
politicos.
Fevereiro--1908.
A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. Teme-se um desembarque
de armas e munições.
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Foi prohibido o desfile do publico diante dos cadaveres regios, porque a
urna do rei era coberta de escarros!
Fevereiro--1908.
O João Chagas:
--Tem visto a atitude palaciana do _Dia_? Eu, de mim, tenho um caderno
com este titulo _Alpoim_ e todos os dias collo pedaços do _Janeiro_ e do
_Dia_. Tome logares porque vai assistir a um espectaculo
estraordinario... Nunca o estrangeiro fez tanta pressão sobre nós como
agora... Impõe-nos um governo--e esse governo, não podendo ser rotativo,
ha-de sahir da praça publica. Ora não sendo republicano, á maneira do
que se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. E verá! verá!...
Eu já disse: escrevo logo um artigo com este titulo _O Regicida_, se
elle e os seus amigos nos atraiçoarem--os seus amigos, que, diante de
mim e de Afonso Costa, se declaravam todos republicanos. D'antes
procuravam-nos todas as noites, agora fogem-nos. Vae ver, vae-os ver
servirem-se da policia contra nós. Oh, mas eu hei-de declarar que elles
é que nos forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer ás nossas mãos!
Março--1908.
O Brazão conta que na _première_ do _Othelo_, o irmão de Augusto Machado
foi cumprimental-o ao camarim:
--Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me dizer-te (aqui para nós) a
peça é uma grande borracheira...