20 de Fevereiro--1908.

Era hoje que devia rebentar a contra revolução, para impôr ao Paço uma

dictadura militar.

* * * * *

Hoje fui a casa do Schvalbach, ao Conservatorio. Coisas antigas e louça

das Caldas, velhos quadros do Liborio e tectos pintados em caramanchão

pelo Augusto Pina. O homem está aqui: é uma revista de

anno--dificuldades de que sae com um sorriso, enredo, e um fio de oiro e

de ternura a envolver tudo isto...

Conheceu o rei e explica-o:

--Quando queria era um _charmeur_. Ás vezes ninguem o podia aturar e

mentia como uma cesta rôta. Ultimamente déra nesta: quando se falava

d'alguma rapariga bonita, ahi dos seus quinze annos, dizia com um

sorriso:--É minha filha.

E conclue:

--Era um grande pantomimeiro!

Fevereiro--1908.

O Antonio José de Freitas, amigo do Paço, do Arnoso e do Sabugosa:

--O rei era d'estes homens que gostam de esconder as boas qualidades e

de salientar os seus defeitos. Inteligente, de bom coração, artista, não

soube ou não quiz tratar com os homens. Podia ter com elle todos os que

pensam ou escrevem em Portugal--afastou-os. Ha annos para cá o caso

explica-se: garanto-lhe que, depois que teve o tipho, ficou impotente e

sentia-se humilhado e inferior ao primeiro gallego que passa na rua...

Ha cartas d'elle adoraveis de simplicidade, ha casos da sua vida e da

vida palaciana que se não comprehendem.

--E como artista?

--Era elle, sem duvida, que fazia com talento os esboços. Mas, como não

tinha tempo--outros lhe acabavam os quadros... Como rei só teve um

mal--começou a sel-o apenas ha um anno.

Fevereiro--1908.

Todos os dias no Paço se recebem cartas anonimas com ameaças de morte. O

medo é enorme. A rainha tem sempre deante dos olhos o quadro horroroso,

e, se acorda de noite, quer por força vêr o filho.

* * * * *

O Manuel Ramos:

Serviam-se, o Franco e os outros, da pimponice do rei, para lhe

arrancarem medidas de repressão. Se o viam hesitar:--Mas se Vossa

Magestade receia...--E elle logo decidido:--Eu não!--E assignava tudo. E

fique você sabendo: não foi elle só que comeu: a maior parte do

dinheiro, dos dez ou doze mil contos gastos a mais, ficou no bolso dos

politicos.

Fevereiro--1908.

A guarda-fiscal de Cascaes tem ordens apertadas. Teme-se um desembarque

de armas e munições.

* * * * *

Foi prohibido o desfile do publico diante dos cadaveres regios, porque a

urna do rei era coberta de escarros!

Fevereiro--1908.

O João Chagas:

--Tem visto a atitude palaciana do _Dia_? Eu, de mim, tenho um caderno

com este titulo _Alpoim_ e todos os dias collo pedaços do _Janeiro_ e do

_Dia_. Tome logares porque vai assistir a um espectaculo

estraordinario... Nunca o estrangeiro fez tanta pressão sobre nós como

agora... Impõe-nos um governo--e esse governo, não podendo ser rotativo,

ha-de sahir da praça publica. Ora não sendo republicano, á maneira do

que se fez na Italia ou no Brasil, vae ser do Alpoim. E verá! verá!...

Eu já disse: escrevo logo um artigo com este titulo _O Regicida_, se

elle e os seus amigos nos atraiçoarem--os seus amigos, que, diante de

mim e de Afonso Costa, se declaravam todos republicanos. D'antes

procuravam-nos todas as noites, agora fogem-nos. Vae ver, vae-os ver

servirem-se da policia contra nós. Oh, mas eu hei-de declarar que elles

é que nos forneciam as bombas! O Alpoim ha-de morrer ás nossas mãos!

Março--1908.

O Brazão conta que na _première_ do _Othelo_, o irmão de Augusto Machado

foi cumprimental-o ao camarim:

--Vaes admiravelmente no papel, mas deixa-me dizer-te (aqui para nós) a

peça é uma grande borracheira...

Memórias · 第 29 / 45 题