Janeiro--1909.
Fala-se hoje d'um Munhoz, oficial do exercito, tipo acabado de
lisboeta--café, conversa e parodia, cheio de graça popular e literaria.
Já reformado, vae aos domingos aos touros para a Outra Banda, com um
cabaz no braço e um chalemanta ás costas... Esteve amigado com uma
mulher já _fannée_, mas ainda com linha e um grande nariz imperial, que
ahi andou por Lisboa e se fazia passar como aparentada com as mais
ilustres familias de Hespanha. A mulher não tinha dinheiro, mas alguem
presenteara-a, quando a deixou, com uma rica mobilia. E Munhoz e ella
iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido, amanhã uma comoda,
depois um sofá...
--E que tal, Munhoz?
--Vae-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes. Olha, menino, hoje
almoçamos nós um _bidet_--e por signal que não estava nada mau!...
* * * * *
Lá no alto, no friorento Paço d'Ajuda, entre gente caduca e algumas
damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma
figura de tragedia, a regar as flores d'um tapete. Mataram-lhe o pae, o
filho e o neto. Peor: envelheceu. Se pára de regar conta:--Um... dois...
três...--A quem se refere? Ao pae, ao rei, ao principe, todos
assassinados? Senta-se á meza e diz a figuras imaginarias ou aos
phantasmas que se sentam a seu lado:--Come, Luiz? Não queres d'este
prato, Carlos?--E lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores
que não reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher
elegante, que despertou paixões e inspirou poetas, parece uma velha
actriz, cheia de rugas, sem contracto, fóra do seu meio e da sua época.
Ao vel-a passar, baixando a cabeça para aqui e para acolá, no mesmo
gesto machinal, a gente supõe que o passado sahiu do sepulchro e teima
em sorrir-nos, com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer
amarelo...
* * * * *
O D. Afonso adora o sobrinho. Afiança:--Se m'o matarem quero ser rei uma
hora, mas n'essa hora hei-de mandar...
* * * * *
--E o rei?
--O rei...--diz alguem que foi duas ou tres vezes ao Paço--O rei é um
fidalguinho muito religioso e temente a Deus, e cheio de vontade e de
orgulho.--E acrescenta:--Não trata, como o pae, a gente por tu, mas por
você.
Janeiro--1909.
Fala-se com o Antonio José de Freitas, do D. Pedro V e um do lado diz:
--Era um pedante.
--Se era! O que vocês não sabem é que deixou vinte e tantos calhamaços
sobre coisas militares com o titulo em latim. E de todos esses livros
não se apura uma pagina...
Do D. Luiz e da D. Maria Pia narra anecdotas, ditos...
--O D. Luiz mandava-me chamar muitas vezes ao Paço--e algumas por causa
do Shakespeare. Uma vez quiz discutir o _Hamlet_ commigo--elle que me
roubou duzentas e tantas phrases!--e eu disse-lhe:--Pois sim, vamos lá
discutir, mas V. Magestade não ha-de extranhar que eu me defenda com
quantos argumentos tenha, nem que fale mais alto, porque fui professor
de meninos e tenho esse mau habito. Alem de tudo isso sou um homem
nervoso...--E discuti, discuti com unhas e dentes. Por fim elle
disse-me:--Pois sim, Freitas, mas você o que não pôde é conceber o
_Hamlet_ como eu, sob o ponto de vista de dissimulador, porque não tem a
minha categoria. Só um principe sabe o que é dissimular...
E eu respondi logo:
--Se V. Magestade dissimula por causa da sua categoria, é porque é um
diplomata; se é por organisação é porque é um histerico...
E elle mandou-me embora.
* * * * *
Quem os põe assim aos reis, ao D. Carlos, ao D. Luiz, ao imperador do
Brazil, são os grandes homens, o Victor Hugo, o Rossini, os que os
incensam a torto e a direito. O D. Luiz era inteligente e conhecia os
classicos musicaes, mas, como não estudava, tocava mal. Pois um dia o
Rossini, em Paris, depois de o ouvir, disse-lhe:--Vou organisar um
concerto em minha casa, para que V. Magestade, que é um dos melhores
musicos que conheço, seja ouvido e apreciado.
* * * * *
O D. Luiz, como todos os fidalgos portuguezes, gostava de conviver com
gente baixa. Quando se iam embora os ajudantes e a côrte, ficava com os
particulares, com a gente que lhe chamava _doutor Tavares_, e então
regalava-se de escandalo, de ditos, de má lingua ordinaria.
* * * * *
Não me admira que elle gostasse da Rosa Damasceno. Era uma mulher
_caline_, muito meiga. Na intimidade devia ser adoravel. E boa. Desde
que foi amante de D. Luiz, dava todo o dinheiro que ganhava no theatro.
* * * * *
A Maria Pia é uma mulher inteligente, apezar de pessimamente educada,
sem mãe. Detestavam-se, mas que diplomatas, ella e o rei! Quando se
anunciou o casamento do D. Carlos, D. Luiz disse-me:
--Casa por amôr. Fez a côrte á mulher, escreveram-se, elle mandou-lhe
flôres e ia para a plateia d'um theatro em Paris namoral-a para o
camarote.
* * * * *
Não sei quem fala do Saldanha...
--Foi o diabo para o mandarem para Londres, quando se quizeram vêr
livres d'elle. O governo perguntou para a Inglaterra e de lá responderam
que não era _persona grata_. Foi preciso que o D. Fernando escrevesse á
rainha Victoria, que acabou por ceder, dizendo:--Mandem lá esse velho
pecador.
Fevereiro--1909.
O Judice Bicker, oficial da armada e antigo governador da Guiné no tempo
do Hintze:
--Não, não me falem em dictaduras nem em governos de repressão! Quando
fui governador da Guiné apareceram-me lá um dia cem homens mandados pelo
governo. E com elles uma simples lista de nomes, sem a minima indicação
de crimes. Nada. Era gente que o governo me mandava e de que se queria
desfazer. Que lhes havia de fazer na Guiné? Sentei-lhes praça, e d'esses
_criminosos_, aos quaes nunca tive ocasião de aplicar um castigo, seis
mezes depois tinham morrido _cincoenta_ de febres!...
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No outro dia--diz o Freitas--estive com a rainha D. Amelia. Está uma
mulher amarella e feia, enorme, com as mãos do tamanho do Maximiliano
d'Azevedo. E, como lhe notasse os dedos cheios de joias, estranhei,
perguntei e explicaram-me:--São os aneis de brilhantes, que ella
arrancou aos cadaveres do marido e do filho--e que traz sempre comsigo.
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Um empregado da fazenda:
--Em cada um dos grandes bairros de Lisboa ha milhares de processos de
dividas á fazenda parados. Companhia que tenha votos paga quando quer e
como quer. Só os desgraçados são penhorados. Isto representa muitas
centenas de contos, que se perdem por empenho, por politica, por
desleixo.
Fevereiro--1909.
O Pad'Zé contado pelo Vicente da Camara:
--O extravagante Pad'Zé era no fundo um homem methodico. Quando chegava
a Coimbra ia sempre com grandes ideias de aprumo e arranjo: uma cama
para dormir, uma meza para escrever, etc.. Excusado será dizer que, meia
duzia de dias depois, dormia no chão. Mas á cabeceira lá estavam sempre
muito arranjadinhos os seus livros e os seus papeis. Se no dia em que se
matou, na propria hora em que deitou a mão ao rewolver, alguem o
convidasse para uma ceia,--adeus suicidio! adeus morte! trocava-a por
uma guitarrada.
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No dia em que fugiu para Badajoz o D. João da Camara encontrou-o: levava
para o exilio um livro de Garrett, um par de meias e cinco mil reis
emprestados.
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Trazia sempre nas algibeiras envolucros de bombas e mostrava-os ás vezes
aos amigos, no Suisso. Na algibeira do medico que morreu na explosão foi
encontrada uma carta sua, pedindo-lhe que lhe mandasse pelo portador
«seis peras do Fundão». Trazia-as ás vezes pela rua n'uma malinha de
mão, e, quando ia ao urinol, pedia ao Anibal Soares, de quem era amigo
intimo, para lha segurar:--Mas tem cuidado que são ovos!...--observava
sempre.
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Dizem por ahi que se matou, para não matar... Tinha-lhe cahido em sorte,
n'uma _loja_, executar um alto personagem...