Espalha-se que, se isto não socegar, o rei e a rainha se vão embora e o
estrangeiro toma conta das colonias. Pede-se repressão. Diz-se que há
oficiaes de artilharia e cavalaria que querem fazer uma _intentona_--e
os politicos já se não entendem por causa das nomeações dos governadores
civis!
* * * * *
O João Chagas surge na livraria, mais gordo, com um esplendido casacão
alvadio:
--Tenho estado preso diferentes vezes, mas nunca senti tanto a falta de
liberdade como d'esta. Das outras falava, tinha ar e luz á minha
disposição. Agora foi a incomunicabilidade absoluta. E, se atirassem
bombas ao quartel, eramos despedaçados. E eu, que sabia que alguns
grupos tinham combinado tudo como quem resolve um problema--dizia
comigo:--Se esses diabos não têm a caridade de se lembrarem de nós,
estamos perdidos!--Um dia á noite tive a impressão nitida de que iamos
ser fusilados. Ouvi reboliço, as tropas carregaram as armas, e até senti
que, com a precipitação, deixavam cahir alguns cartuxos. Tentei
espreitar por um postigo. Um oficial que passou correndo disse á
sentinela:--Cuidado!--O frio era mortal. O soldado encostou-se á
porta--não pude espreitar. Ignorava tudo. Estendi-me em cima da cama e
só ás quatro horas da manhã sucumbi de cansaço... Que horas! É horrivel
morrer assim sem lucta. Cheguei a fazer um pequeno testamento...
[Figura: _Oliveira Martins._--Desenho de Antonio Carneiro.]
E o João Pinto dos Santos:
--Pude ver d'uma vez o _Diario Illustrado_, nas mãos d'um soldado, com o
retrato do rei, mas calculei:--chegaram de Vila Viçosa.
--Mas nem sequer reparou na tarja de luto?
--Eu não. O Antonio José d'Almeida diz que reparou e que desconfiou que
o rei tinha sido morto.
--Os oficiaes--continua o Chagas--trataram-me muito bem, mas á despedida
disse-lhes:--Agradeço-lhes muito a amabilidade com que me trataram, mas
para outra vez prefiro ir para a Penitenciaria. Lá talvez chegue algum
rumor.
E conclue:
--Acalmação sim, acalmação, se assim o entenderem, _durante alguns
mezes_. Ah não foi em vão que trabalhamos vinte annos!...
* * * * *
Fui hoje ao café do Gelo ver o sitio onde o Buiça se reunia com os
amigos. O café é já de si curioso, com duas salas d'aspecto
completamente diverso, uma para o Rocio, d'aparato; outra, nas
trazeiras, baixa, para os freguezes envergonhados, com portas para a rua
do Principe. Era ali, n'aquella meza, do canto, á direita quem entra
pelas trazeiras, que o professor se juntava com os outros e passavam
horas a conversar baixinho.
--Eram muitos?
--Ás vezes doze ou quinze--diz o creado.--E ficavam até tarde em grandes
discussões...
* * * * *
Todos os politicos são concordes n'isto: o D. Carlos gastara nos ultimos
annos, alem da dotação, dez ou doze mil contos.
* * * * *
E toda a gente diz que era um mentiroso e que difamava a mulher. Ainda
hoje alguem contou que um dia apareceram uns papeis inventando infamias
da rainha com a Sandoval. Investigou-se. E o José Luciano disse
logo:--Escusam de procurar, isso é d'El-Rei.
* * * * *
O _Seculo_, disse-me o Avelino d'Almeida, tem tido tiragens de 160:000
exemplares.
Fevereiro--1908.
Depois da morte do rei o Arnoso foi ao Malaquias de Lemos propor-lhe a
contra revolução.
--Nem me fale n'isso. Se veem para a rua corro-os a bala raza e vou já
d'aqui contar tudo ao Ferreira do Amaral.