Venho agora de Lisboa e--caso curioso--a impressão geral é d'alivio.
Respira-se. Estava muita gente n'um grupo: o João Barreira, o Armando
Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio Arroyo, o Columbano, o Maximiliano
d'Azevedo, e todos concordaram em que o rei era mau e quasi glorificaram
os homens que o assassinaram.
--Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam o retrato que vem estampado
no _Je sais tout_... Era elle quem escrevia cartas anonimas á propria
mulher--afirma o João Barreira.
--Foi um grande exemplo e uma tremenda lição.
--Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz. Era capaz de tudo!
Só o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima:
--A memoria do rei há-de ser rehabilitada.
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No conselho d'estado o João Franco foi absolutamente inconsciente. Por
proposta do Julio de Vilhena não se leram as actas da sessão anterior,
como é costume, para lhe não ser completamente desagradavel.
* * * * *
O João Franco teimou até á ultima, agarrou-se a tudo, para meter um
ministro no governo--o Penha Garcia. Disseram-lhe:
--Mas não pode ser, bem vê que o governo tem de revogar a maior parte
das suas medidas.
--Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até uma carta concordando com
isso.
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A ultima piada do ministro dos estrangeiros, Luciano Monteiro:
--Então V. Ex.^a não faz testamento?
--Não, o rei tambem o não fez...
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O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. Afirma-se que o
principe real e o infante D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um
dos assassinos.
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Hoje correram boatos de revolta no Porto, de ter chegado a Cascaes uma
esquadra ingleza, etc.. Tudo falso.
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No Paço, na camarilha, havia dois partidos, o do rei e o da rainha. O da
rainha está agora de cima.
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Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado havia uma hecatombe.
Diz-se que o Fontes, que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os
homens, dizia de D. Carlos:--«Nunca o pude perceber».
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Agora voltam-se as atenções para o novo rei. Dizem:--É Saboia.--No
conselho d'estado foi simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que o
ouviam:--Não estou preparado para reinar.
Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado zangava-se quando este lhe
chamava _prior do Crato_. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este é
mais impetuoso--mas tem melhor coração.
Fevereiro--1908.
Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas com a D. Amelia.
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A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás onze horas da noite passava na
praça de D. Pedro via muita gente aos grupos de dez a onze pessoas cada
um. Ninguem discutia, não se falava alto. Era um borborinho de quem
conversa em segredo, a medo--ch... ch... ch...--ao ouvido. A noticia
soube-se pelo telephone do Borges & Irmão.
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Foi no automovel do Baltar do _Janeiro_ que o Alpoim se safou para a
Hespanha.
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As Anjos contaram á D. Maria Augusta que o electricista de S. Carlos
tinha tudo preparado para o D. Carlos morrer quando se encostasse ao
rebordo do camarote no theatro.
O homem suicidou-se quando se viu descoberto.
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O novo rei não gosta de _sport_. Sofre de reumatismo. Adora a musica. Em
pequeno dizia:
--Reger uma orchestra n'uma grande sala e ouvir no fim os aplausos do
publico, isso sim, é que é gloria!...
As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam desdenhosas:
--Isso são _mariquices_ do senhor infante.
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Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:
--Coitadinho do principe! Parecia mesmo uma menina!... E não estava
estragado como estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. E não
era porque elle não _tivesse vontade_, era porque _o não deixavam!_...
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Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas deitado ao rio.
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Da camarilha contam-se coisas como esta. Alguem me diz:
--Conheço uma senhora muito de bem, a quem este e aquelle (e cita os
nomes) foram fallar da parte do rei, para ir a bordo do _yacht_. Ella
deu-lhes uma desanda tremenda.
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O João Franco já tinha organisado listas de proscripções. A alguns
administradores de concelho foram enviadas circulares, pedindo o nome
dos individuos que na localidade entravavam a marcha do governo.
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O pae do João Franco e os redactores do _Jornal da Noite_ foram corridos
do Suisso.
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Trindade Coelho conta que João Franco, nas vesperas dos acontecimentos,
foi consultar a bruxa--M.^{me} Brouillard, uma transmontana esperta que
ahi está em Lisboa.
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Já ha seis contos para a familia do Buiça. Muita gente lhe arrancou
botões, cabellos, bocados de vestido. João de Deus Guimarães foi vel-o á
_morgue_. Era prohibido tocar no cadaver. Entrou em conversa com o
guarda:
--Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido!
--Qual!
--Parece...
--Já teve, já, mas agora está lasso.
--Mas olhe que...
E aproximando-se do cadaver correu-lhe a mão pelo braço, como quem
apalpa, e deu-lhe _um formidavel aperto de mão_.
O _frigorifico_ é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por
cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a
gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida está amarfanhado, com
lama na barba e nos cabellos. Seus olhos não são olhos de
morto--exprimem espanto e colera, e a figura é séria, é tremenda. Tem
rasgões, feridas na cara, e mãos nervosas, mãos delicadas de mulher.
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Diz hoje um professor que conheceu o Buiça:
--Era um homem profundamente serio e que protestava sempre com colera,
quando se lhe falavam em politica:--Não me falem em politiquices! não me
falem em politiquices!
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O João Pinto dos Santos:
--Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes e de odio. Nos
primeiros dias aquillo impressionou-me; mas logo que tive livros
serenei... Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao Malaquias de
Lemos:--O ar não! o ar não m'o tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço
que quando bater á porta m'a abram logo, senão não aguento. Antes duas
balas!--Deixaram-me a janella aberta... Mandei vir uns poucos de fatos,
calças de verão, d'inverno, etc.--para ter a sensação de que estava
livre. Depois emprestaram-me livros. Entre outros um volume de viagens
na China, onde ha algumas paginas sobre a vida da mulher chineza. E
aquillo fez-me chorar, tão certo é que a desgraça nos aproxima dos
desgraçados. Afinal chegaram os livros que tinha pedido, um compendio
francez de philosophia, sete calhamaços de economia politica--e fui
quasi feliz. O juiz interrogou-me:--Porque está preso?--Não sei.--Há uma
testemunha que o viu no elevador da bibliotheca.--É falso. Estava n'uma
casa perto da bibliotheca, para combinar com o Alpoim e alguns amigos a
nossa atitude perante as prisões que estavam sendo feitas.--Chamou-se um
policia a quem o juiz perguntou: --Conhece o snr. João Pinto dos
Santos?--Não senhor.--Diante d'isto é claro que o juiz tinha de me
mandar embora. Que imagina que fez o João Franco? _O João Franco avocou
o processo a conselho de ministros e condemnou-me!_ Era odio pessoal. Na
municipal fui sempre bem tratado.
--E souberam?
--Alguma coisa presentimos na noite em que foi atacado o regimento de
Campo d'Ourique. Supozemos uma revolução gorada. Se atiram bombas ao
quartel eramos indubitavelmente fuzilados. Uma noite ouvimos formar as
tropas, carregaram com precipitação as armas, um oficial passou a correr
e diante do meu quarto bradou á sentinella:--Cuidado com esse
sujeito!--O Chagas disse-me hontem que, quando chegou á janella, um
soldado lhe fez um _manguito_. Os oficiaes é que continham a
soldadesca--mas até onde?
--E disse no seu depoimento que havia de matar o João Franco?
--É falso; o comandante da guarda falou-me n'isso e eu
respondi-lhe:--Bem vê V. Ex.^a que não quero que meus filhos possam
dizer:--Meu pae foi um assassino.--Isso não! Mas se um dia, depois de o
insultar bem insultado, n'uma discussão em plena camara, elle avançar
para mim, deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.^a nem toda a guarda
municipal m'o arrancam das unhas!
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Ha quem diga do João Franco:--Foi sempre um cobarde. Em Coimbra a
valentia vinha-lhe do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle
feitio, e agora da municipal e da policia. O pae era a mesma coisa, e o
tio, o _Mil diabos da capinha_, dava tiros e fazia disturbios sempre que
tinha as costas quentes.
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João Franco fazia cincoenta e quatro annos este mez de Fevereiro.