3 de Fevereiro--1908.

Venho agora de Lisboa e--caso curioso--a impressão geral é d'alivio.

Respira-se. Estava muita gente n'um grupo: o João Barreira, o Armando

Navarro, o Rangel de Lima, o Antonio Arroyo, o Columbano, o Maximiliano

d'Azevedo, e todos concordaram em que o rei era mau e quasi glorificaram

os homens que o assassinaram.

--Era um pulha, um pulha e um doido. Vejam o retrato que vem estampado

no _Je sais tout_... Era elle quem escrevia cartas anonimas á propria

mulher--afirma o João Barreira.

--Foi um grande exemplo e uma tremenda lição.

--Se escapa tinhamos ahi uma dictadura feroz. Era capaz de tudo!

Só o Manuel Ramos, obstinado e cego, teima:

--A memoria do rei há-de ser rehabilitada.

* * * * *

No conselho d'estado o João Franco foi absolutamente inconsciente. Por

proposta do Julio de Vilhena não se leram as actas da sessão anterior,

como é costume, para lhe não ser completamente desagradavel.

* * * * *

O João Franco teimou até á ultima, agarrou-se a tudo, para meter um

ministro no governo--o Penha Garcia. Disseram-lhe:

--Mas não pode ser, bem vê que o governo tem de revogar a maior parte

das suas medidas.

--Mas eu concordo com isso. Eu escrevo até uma carta concordando com

isso.

* * * * *

A ultima piada do ministro dos estrangeiros, Luciano Monteiro:

--Então V. Ex.^a não faz testamento?

--Não, o rei tambem o não fez...

* * * * *

O rei e os principes traziam rewolveres comsigo. Afirma-se que o

principe real e o infante D. Manuel ainda chegaram a dar dois tiros n'um

dos assassinos.

* * * * *

Hoje correram boatos de revolta no Porto, de ter chegado a Cascaes uma

esquadra ingleza, etc.. Tudo falso.

* * * * *

No Paço, na camarilha, havia dois partidos, o do rei e o da rainha. O da

rainha está agora de cima.

* * * * *

Insiste-se em que se o rei escapasse ao atentado havia uma hecatombe.

Diz-se que o Fontes, que tinha a qualidade intuitiva de conhecer os

homens, dizia de D. Carlos:--«Nunca o pude perceber».

* * * * *

Agora voltam-se as atenções para o novo rei. Dizem:--É Saboia.--No

conselho d'estado foi simpatico. Chorou, entregou-se nas mãos dos que o

ouviam:--Não estou preparado para reinar.

Os irmãos adoravam-se. O que foi assassinado zangava-se quando este lhe

chamava _prior do Crato_. D. Luiz Fillipe era mais reflectido. Este é

mais impetuoso--mas tem melhor coração.

Fevereiro--1908.

Nos ultimos tempos o rei tinha scenas violentissimas com a D. Amelia.

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A impressão no Porto foi curiosa: Quem ás onze horas da noite passava na

praça de D. Pedro via muita gente aos grupos de dez a onze pessoas cada

um. Ninguem discutia, não se falava alto. Era um borborinho de quem

conversa em segredo, a medo--ch... ch... ch...--ao ouvido. A noticia

soube-se pelo telephone do Borges & Irmão.

* * * * *

Foi no automovel do Baltar do _Janeiro_ que o Alpoim se safou para a

Hespanha.

* * * * *

As Anjos contaram á D. Maria Augusta que o electricista de S. Carlos

tinha tudo preparado para o D. Carlos morrer quando se encostasse ao

rebordo do camarote no theatro.

O homem suicidou-se quando se viu descoberto.

* * * * *

O novo rei não gosta de _sport_. Sofre de reumatismo. Adora a musica. Em

pequeno dizia:

--Reger uma orchestra n'uma grande sala e ouvir no fim os aplausos do

publico, isso sim, é que é gloria!...

As meninas da alta roda, falando d'elle, diziam desdenhosas:

--Isso são _mariquices_ do senhor infante.

* * * * *

Uma velha, a tia Julia, da familia Bordallo:

--Coitadinho do principe! Parecia mesmo uma menina!... E não estava

estragado como estes rapazes d'agora. Tinha uma carinha de menina. E não

era porque elle não _tivesse vontade_, era porque _o não deixavam!_...

* * * * *

Muita gente que tinha bombas em casa tem-nas deitado ao rio.

* * * * *

Da camarilha contam-se coisas como esta. Alguem me diz:

--Conheço uma senhora muito de bem, a quem este e aquelle (e cita os

nomes) foram fallar da parte do rei, para ir a bordo do _yacht_. Ella

deu-lhes uma desanda tremenda.

* * * * *

O João Franco já tinha organisado listas de proscripções. A alguns

administradores de concelho foram enviadas circulares, pedindo o nome

dos individuos que na localidade entravavam a marcha do governo.

* * * * *

O pae do João Franco e os redactores do _Jornal da Noite_ foram corridos

do Suisso.

* * * * *

Trindade Coelho conta que João Franco, nas vesperas dos acontecimentos,

foi consultar a bruxa--M.^{me} Brouillard, uma transmontana esperta que

ahi está em Lisboa.

* * * * *

Já ha seis contos para a familia do Buiça. Muita gente lhe arrancou

botões, cabellos, bocados de vestido. João de Deus Guimarães foi vel-o á

_morgue_. Era prohibido tocar no cadaver. Entrou em conversa com o

guarda:

--Ah! O Buiça tem ainda o braço rigido!

--Qual!

--Parece...

--Já teve, já, mas agora está lasso.

--Mas olhe que...

E aproximando-se do cadaver correu-lhe a mão pelo braço, como quem

apalpa, e deu-lhe _um formidavel aperto de mão_.

O _frigorifico_ é um buraco, e os tres cadaveres foram atirados uns por

cima dos outros a trouxe mouxe, de mistura com pedaços de gelo. Toda a

gente tira o chapéu e fala baixinho. O regicida está amarfanhado, com

lama na barba e nos cabellos. Seus olhos não são olhos de

morto--exprimem espanto e colera, e a figura é séria, é tremenda. Tem

rasgões, feridas na cara, e mãos nervosas, mãos delicadas de mulher.

* * * * *

Diz hoje um professor que conheceu o Buiça:

--Era um homem profundamente serio e que protestava sempre com colera,

quando se lhe falavam em politica:--Não me falem em politiquices! não me

falem em politiquices!

* * * * *

O João Pinto dos Santos:

--Emquanto estive preso alimentei-me de vegetaes e de odio. Nos

primeiros dias aquillo impressionou-me; mas logo que tive livros

serenei... Queriam fechar as janellas, mas eu disse ao Malaquias de

Lemos:--O ar não! o ar não m'o tirem, prefiro morrer! E tambem lhe peço

que quando bater á porta m'a abram logo, senão não aguento. Antes duas

balas!--Deixaram-me a janella aberta... Mandei vir uns poucos de fatos,

calças de verão, d'inverno, etc.--para ter a sensação de que estava

livre. Depois emprestaram-me livros. Entre outros um volume de viagens

na China, onde ha algumas paginas sobre a vida da mulher chineza. E

aquillo fez-me chorar, tão certo é que a desgraça nos aproxima dos

desgraçados. Afinal chegaram os livros que tinha pedido, um compendio

francez de philosophia, sete calhamaços de economia politica--e fui

quasi feliz. O juiz interrogou-me:--Porque está preso?--Não sei.--Há uma

testemunha que o viu no elevador da bibliotheca.--É falso. Estava n'uma

casa perto da bibliotheca, para combinar com o Alpoim e alguns amigos a

nossa atitude perante as prisões que estavam sendo feitas.--Chamou-se um

policia a quem o juiz perguntou: --Conhece o snr. João Pinto dos

Santos?--Não senhor.--Diante d'isto é claro que o juiz tinha de me

mandar embora. Que imagina que fez o João Franco? _O João Franco avocou

o processo a conselho de ministros e condemnou-me!_ Era odio pessoal. Na

municipal fui sempre bem tratado.

--E souberam?

--Alguma coisa presentimos na noite em que foi atacado o regimento de

Campo d'Ourique. Supozemos uma revolução gorada. Se atiram bombas ao

quartel eramos indubitavelmente fuzilados. Uma noite ouvimos formar as

tropas, carregaram com precipitação as armas, um oficial passou a correr

e diante do meu quarto bradou á sentinella:--Cuidado com esse

sujeito!--O Chagas disse-me hontem que, quando chegou á janella, um

soldado lhe fez um _manguito_. Os oficiaes é que continham a

soldadesca--mas até onde?

--E disse no seu depoimento que havia de matar o João Franco?

--É falso; o comandante da guarda falou-me n'isso e eu

respondi-lhe:--Bem vê V. Ex.^a que não quero que meus filhos possam

dizer:--Meu pae foi um assassino.--Isso não! Mas se um dia, depois de o

insultar bem insultado, n'uma discussão em plena camara, elle avançar

para mim, deito-lhe as mãos ás guellas, e nem V. Ex.^a nem toda a guarda

municipal m'o arrancam das unhas!

* * * * *

Ha quem diga do João Franco:--Foi sempre um cobarde. Em Coimbra a

valentia vinha-lhe do José Lobo e dos irmãos, uns tipos d'aquelle

feitio, e agora da municipal e da policia. O pae era a mesma coisa, e o

tio, o _Mil diabos da capinha_, dava tiros e fazia disturbios sempre que

tinha as costas quentes.

* * * * *

João Franco fazia cincoenta e quatro annos este mez de Fevereiro.

Memórias · 第 25 / 45 题