É hoje o dia do enterro. Essa gente que veio de fóra para assistir ao
funeral, principes, duques, generaes, diplomatas, está cheia de medo. E
por ahi diz-se á bocca cheia:
--Ainda bem que foram portuguezes os que executaram o rei. É a primeira
vez que um rei portuguez morre ás mãos do seu povo. Até agora acabavam
ás mãos das camarilhas.
* * * * *
Não me sae dos olhos este quadro do enterro. Esperam-se bombas... Os
sinos tocam, todos os sinos das egrejas; rufam os tambores cobertos de
luto. Desfilam coches com principes e carros com fardas. Um homem
apregoa:--_O ultimo granadeiro!_ quem quer _O ultimo granadeiro?_--Mais
carros, mais coches, o filho do imperador da Allemanha, guardado por uma
escolta de prussianos, que o pae mandou com elle com medo que lh'o
matem. Tropas em fila, carroças de gala, generaes, diplomatas glabros,
com o olho desconfiado e vontade que aquillo termine depressa... Agora a
carroça com o sceptro e a corôa, e outra com crepes a rasto como se
levasse o luto da monarchia.--_O ultimo granadeiro!_...--Mais coches, e
aqui e alli o desfile cortado pela multidão irrespeitosa. Um laivo de
grotesco na tragedia, riscos exagerados de carvão que fazem medo...
Phisionomias lividas nas fardas pomposas, decorações, gente que mal se
atreve a olhar a plebe temerosa--silencio e um largo ah! a que se segue
uma gritaria d'inferno. Bicha de carros interminavel, mortos por
largarem n'uma abalada de pavor--carros funerarios passando entre a
indiferença gelada--farrapos de multidão que atravessam o prestito
propositalmente, tropas esbandalhadas, corôas que parecem velhas... E
por fim mais tropas e o mesmo grito insistente:--_O ultimo granadeiro!_
quem quer _O ultimo granadeiro?_...
Dias mais tarde havia sujeitos que se chegavam á beira das pessoas que
deitavam luto e perguntavam-lhe com ar de troça:--Então morreu-lhe
alguem da familia?...
* * * * *
O Correia d'Oliveira:
--Se visse!... Quasi ninguem tirava o chapeu quando o enterro passou...
A sombra do rei comeu, sumiu a do principe.
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Tem-se distribuido muitos papeis com estes dizeres:
Morte aos Sanguinarios Afonso Costa, Alpoim, Ribeira Brava, os
Verdadeiros Assassinos