Está uma tarde linda, azul, morna, diaphana. Converso na livraria
Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur
de Mello, que conheço do Porto, e diz n'um espanto, ainda
transtornado:--Acabam de matar agora o rei!--O quê?!--Eu vi, ouvi os
tiros, deitei a fugir...
Fecham-se á pressa os taipaes das lojas. Uma mulher do povo
exclama:--Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram tres. Dois lá
estam estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça
despedaçada!...--Ha palmas para o lado da praça da Figueira. Anoitece.
Um esquadrão desemboca da rua da Mouraria... Mais tarde no comboio, um
empregado do Jorge O'Neill confirma:--Vi do escriptorio um policia
correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura cahiu-lhe o chapeu: era
calvo. O policia varou-o com um tiro.
E pela narração do Mello, do Armando Navarro e d'outros, que assistiram,
reconstituo assim a tragedia:
O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante o trajecto o rei não
fumou nem jogou, como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia
demonstrou mais tarde que não tinha comido n'esse dia.
O Malaquias de Lemos contou que na vespera, em Villa Viçosa, o rei
jogara com o principe. Era ao entardecer. Na chaminé um grande brazeiro.
Trouxeram-lhe uma carta. Para a lêr melhor, levantou-se, chegando-se á
janella. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a em
bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na
sombra...--El-Rei não joga?--perguntou o principe.--Jogo,
jogo...--Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quasi não jantou
n'esse dia nem almoçou no seguinte.
Nem uma nuvem. «Tarde sem par»--escreveu Ramalho.--Linda tarde para uma
bomba--exclama uma menina da alta, na ponte da estação. Havia, é
natural, um certo receio, e a duqueza de Palmella, ao ouvido de João
Franco:--Não haverá perigo?--V. Ex.^a vae ver que ovação!--Tinha-lha
preparada para a recita da noite, em S. Carlos. O rei e a rainha
detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcellos Porto, que
queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D.
Carlos opoz-se. O carro descoberto partiu a chouto, com toda a familia
real junta. Ao pé da estatua um grupo... Dissiminados pela Arcada alguns
policias, e, sentado n'um banco da praça um homem de varino, que veio,
sem precipitação, colocar-se á porta do ministerio do reino[6].
Os empregados da fazenda tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram
tantos, que se não conheciam uns aos outros.--«Eu assisti--diz o
Navarro.--Fui para lá uma hora antes fumar o meu charuto. Tres descargas
cerradas partiram da Arcada do ministerio da fazenda. Ficou tudo
desorientado. Os policias deitaram a fugir»... Um negociante da rua de
S. Julião teve de os sacudir da escada. «Eu estava a quatro
passos--confirma o pintor Mello. Um homem subiu ás trazeiras do carro,
olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de rewolver. Vi um fumosinho
branco sahir-lhe do pescoço. O rei voltou-se, e, cem annos que eu viva,
nunca mais me esquece a expressão de espanto d'aquella mascara. Disse
uma palavra que não percebi bem»...--«Ao primeiro tiro--continua o
Navarro--a cabeça do rei descahiu para a frente, ao segundo tombou para
o lado». O Buiça, que tirára a carabina debaixo do gabão, apontava e
descarregava. O principe real ergueu-se--cahiu varado. A rainha, louca
de dôr, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores.--Então não
acodem?! Não ha quem me acuda?!--Ninguem. Um cartuxo falhara ao Buiça:
sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu
á cutilada. Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguem procurara
intervir--mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Succederam-se
então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A
policia disparava os rewolveres a torto e a direito. O Correia de
Oliveira esteve para ser morto:--Vinha de chapeu alto e foi o que me
valeu!... Um policia avançou direito a mim com o rewolver apontado,
exclamando como um doido:--Matei agora um! matei agora um!
* * * * *
Correu hoje que o João Franco se suicidára e que o tinham acabado a tiro
quando sahia do Paço.
* * * * *
O infante D. Afonso seguia desvairado atraz do carro, com o rewolver em
punho, dizendo:
--O mano nunca quiz ouvir os conselhos da mãe!
Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos o rei e principe, teve
este movimento colerico: bater no João Franco.
* * * * *
Acusam á boca cheia o João Franco--que não tomou precauções para o
rei--de se meter por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais
tarde, endireitar por uma cavalariça, para se enfiar na carruagem. De
alguns ministros diz-se que, aos primeiros tiros, se esconderam no sotão
dos ministerios entre a papelada e as cadeiras sem fundo.
* * * * *
A rainha no Arsenal disse ao João Franco:
--Veja a sua obra...
* * * * *
O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao principe custou-lhe muito a
morrer. Foram ungidos depois de mortos. O padre não teve escrupulos,
porque os medicos garantiram-lhe que a vida podia prolongar-se por meios
artificiaes.
* * * * *
Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as Necessidades; n'um carro a
rainha e o D. Manuel, n'outro carro o cadaver do rei, que a custo
conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de serviço amparava, e, no
ultimo, o duque de Bragança. Que se iria seguir? A revolução? Um
negrume, o terror do inesperado, afasta do Paço todos os que lá deviam
estar áquella hora. Vem a noite... Se seis tambores fossem rufar para
deante do Paço a monarchia acabava hoje mesmo. Espera-se tudo, espera-se
o peor. E cada um trata de não se comprometer, ou de se comprometer o
menos possivel...
* * * * *
Phrase cruel d'um popular:
--Foi caçado como elle caçava os javardos--e em tempo defezo.
* * * * *
No dia dois, depois da morte do rei, foram assaltados alguns quarteis,
evidentemente chamando as tropas á revolução. Em artilharia os soldados
sahiram das casernas e fizeram fogo: os oficiaes não os puderam conter.
Em Campo d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida ficaram estendidas
vinte e tantas pessoas.
* * * * *
A caminho do Paço, depois do atentado, o pequeno dizia:
--Vamo-nos embora! vamo-nos embora!...
E a rainha:
--Has-de cumprir o teu dever até ao fim.
[Figura: _D. Carlos I de Portugal._]
O organisador da revolta militar era Candido dos Reis, oficial superior
da armada. Muitos oficiaes se reuniam no Arco da Bandeira.
* * * * *
Na tarde do regicidio estavam na Arcada homens com faixas á espanhola e
as faixas cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios grupos
postados nas esquinas até ás Necessidades.
* * * * *
A rainha, quando o João Franco chegou ao Paço:
--Foram portuguezes?
--Foram.
--Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes.
E a Maria Pia, que há muito o não pode ver:
--Diziam por ahi que o senhor era o coveiro da monarchia, mas o senhor
foi peor, foi o assassino do meu filho e do meu neto!
Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se, insiste-se,
inventam-se outras mais.
* * * * *
O João Franco tinha perdido a cabeça. Só elle mandava: não queria ouvir
ninguem. Quando fugiu d'uma esquadra um homem que estava preso pelo
fabrico de bombas, o juiz d'instrucção criminal foi-lhe dar parte do
caso. Ficou furioso:
--Vá beber da merda!
--Digo a V. Ex.^a que a policia não teve culpa...
--Vá beber da merda o senhor e a policia!
--Mas...
--Vá beber da merda! vá beber da merda! vá beber da merda!
* * * * *
Diz-se que o Alpoim estava escondido em casa do Teixeira de Souza e que
fugiu emquanto a policia lhe cercava a casa.
* * * * *
Paçô Vieira:
--Na noite do regicidio fui ao Paço, com o Campos Henriques. O Julio de
Vilhena, a quem procurei em casa, não foi porque lhe faltava um botão na
braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e o principe de dentro do
carro. O rei estava disforme. A rainha, se tinha dito alguma coisa
desagradavel ao João Franco no Arsenal, no Paço não lhe disse palavra. A
Maria Pia perguntava de quando em quando:--A morte do rei será muito
sentida?--Estava tudo preparado para uma revolução. O Afonso Costa não
deu o signal porque esperava a morte do Franco. Pormenor absolutamente
authentico: o João Franco ainda se ofereceu para governador civil de
Lisboa.
--Na noite tragica o Antonio Candido foi dos raros que apareceram no
Paço. Estavam lá tambem o Campos Henriques e o Teixeira de Souza. Mais
ninguem--nem sequer o corpo diplomatico. Esperava-se a cada momento a
revolução. Os creados carregaram em padiolas pelas escadas acima os
corpos do rei e do principe. A D. Amelia passeava na sala de cá para lá,
infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:--Que diz o Antonio
Candido?--Elle não respondeu e ella continuou a passear de cá para lá
como um automato. A rainha velha estava sentada n'uma cadeira, sem uma
palavra, sem uma lagrima, d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou
horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia passeava na sala, de cá
para lá, infatigavelmente...