1 de Fevereiro--1908.

Está uma tarde linda, azul, morna, diaphana. Converso na livraria

Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e palido, o pintor Arthur

de Mello, que conheço do Porto, e diz n'um espanto, ainda

transtornado:--Acabam de matar agora o rei!--O quê?!--Eu vi, ouvi os

tiros, deitei a fugir...

Fecham-se á pressa os taipaes das lojas. Uma mulher do povo

exclama:--Mataram agora o rei. Vi os que o mataram. Eram tres. Dois lá

estam estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça

despedaçada!...--Ha palmas para o lado da praça da Figueira. Anoitece.

Um esquadrão desemboca da rua da Mouraria... Mais tarde no comboio, um

empregado do Jorge O'Neill confirma:--Vi do escriptorio um policia

correr atraz d'um dos assassinos. A certa altura cahiu-lhe o chapeu: era

calvo. O policia varou-o com um tiro.

E pela narração do Mello, do Armando Navarro e d'outros, que assistiram,

reconstituo assim a tragedia:

O comboio descarrilara. Seguia atrazado. Durante o trajecto o rei não

fumou nem jogou, como costumava. Vinha aprehensivo e a autopsia

demonstrou mais tarde que não tinha comido n'esse dia.

O Malaquias de Lemos contou que na vespera, em Villa Viçosa, o rei

jogara com o principe. Era ao entardecer. Na chaminé um grande brazeiro.

Trouxeram-lhe uma carta. Para a lêr melhor, levantou-se, chegando-se á

janella. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a em

bocadinhos que atirou ao lume. Petrificou-se um momento envolto na

sombra...--El-Rei não joga?--perguntou o principe.--Jogo,

jogo...--Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quasi não jantou

n'esse dia nem almoçou no seguinte.

Nem uma nuvem. «Tarde sem par»--escreveu Ramalho.--Linda tarde para uma

bomba--exclama uma menina da alta, na ponte da estação. Havia, é

natural, um certo receio, e a duqueza de Palmella, ao ouvido de João

Franco:--Não haverá perigo?--V. Ex.^a vae ver que ovação!--Tinha-lha

preparada para a recita da noite, em S. Carlos. O rei e a rainha

detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcellos Porto, que

queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D.

Carlos opoz-se. O carro descoberto partiu a chouto, com toda a familia

real junta. Ao pé da estatua um grupo... Dissiminados pela Arcada alguns

policias, e, sentado n'um banco da praça um homem de varino, que veio,

sem precipitação, colocar-se á porta do ministerio do reino[6].

Os empregados da fazenda tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram

tantos, que se não conheciam uns aos outros.--«Eu assisti--diz o

Navarro.--Fui para lá uma hora antes fumar o meu charuto. Tres descargas

cerradas partiram da Arcada do ministerio da fazenda. Ficou tudo

desorientado. Os policias deitaram a fugir»... Um negociante da rua de

S. Julião teve de os sacudir da escada. «Eu estava a quatro

passos--confirma o pintor Mello. Um homem subiu ás trazeiras do carro,

olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de rewolver. Vi um fumosinho

branco sahir-lhe do pescoço. O rei voltou-se, e, cem annos que eu viva,

nunca mais me esquece a expressão de espanto d'aquella mascara. Disse

uma palavra que não percebi bem»...--«Ao primeiro tiro--continua o

Navarro--a cabeça do rei descahiu para a frente, ao segundo tombou para

o lado». O Buiça, que tirára a carabina debaixo do gabão, apontava e

descarregava. O principe real ergueu-se--cahiu varado. A rainha, louca

de dôr, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores.--Então não

acodem?! Não ha quem me acuda?!--Ninguem. Um cartuxo falhara ao Buiça:

sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu

á cutilada. Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguem procurara

intervir--mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Succederam-se

então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A

policia disparava os rewolveres a torto e a direito. O Correia de

Oliveira esteve para ser morto:--Vinha de chapeu alto e foi o que me

valeu!... Um policia avançou direito a mim com o rewolver apontado,

exclamando como um doido:--Matei agora um! matei agora um!

* * * * *

Correu hoje que o João Franco se suicidára e que o tinham acabado a tiro

quando sahia do Paço.

* * * * *

O infante D. Afonso seguia desvairado atraz do carro, com o rewolver em

punho, dizendo:

--O mano nunca quiz ouvir os conselhos da mãe!

Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos o rei e principe, teve

este movimento colerico: bater no João Franco.

* * * * *

Acusam á boca cheia o João Franco--que não tomou precauções para o

rei--de se meter por um corredor quando foi ao Arsenal, e de, mais

tarde, endireitar por uma cavalariça, para se enfiar na carruagem. De

alguns ministros diz-se que, aos primeiros tiros, se esconderam no sotão

dos ministerios entre a papelada e as cadeiras sem fundo.

* * * * *

A rainha no Arsenal disse ao João Franco:

--Veja a sua obra...

* * * * *

O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao principe custou-lhe muito a

morrer. Foram ungidos depois de mortos. O padre não teve escrupulos,

porque os medicos garantiram-lhe que a vida podia prolongar-se por meios

artificiaes.

* * * * *

Do Arsenal seguiu a marcha tragica para as Necessidades; n'um carro a

rainha e o D. Manuel, n'outro carro o cadaver do rei, que a custo

conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de serviço amparava, e, no

ultimo, o duque de Bragança. Que se iria seguir? A revolução? Um

negrume, o terror do inesperado, afasta do Paço todos os que lá deviam

estar áquella hora. Vem a noite... Se seis tambores fossem rufar para

deante do Paço a monarchia acabava hoje mesmo. Espera-se tudo, espera-se

o peor. E cada um trata de não se comprometer, ou de se comprometer o

menos possivel...

* * * * *

Phrase cruel d'um popular:

--Foi caçado como elle caçava os javardos--e em tempo defezo.

* * * * *

No dia dois, depois da morte do rei, foram assaltados alguns quarteis,

evidentemente chamando as tropas á revolução. Em artilharia os soldados

sahiram das casernas e fizeram fogo: os oficiaes não os puderam conter.

Em Campo d'Ourique houve tiroteio. No alto da Avenida ficaram estendidas

vinte e tantas pessoas.

* * * * *

A caminho do Paço, depois do atentado, o pequeno dizia:

--Vamo-nos embora! vamo-nos embora!...

E a rainha:

--Has-de cumprir o teu dever até ao fim.

[Figura: _D. Carlos I de Portugal._]

O organisador da revolta militar era Candido dos Reis, oficial superior

da armada. Muitos oficiaes se reuniam no Arco da Bandeira.

* * * * *

Na tarde do regicidio estavam na Arcada homens com faixas á espanhola e

as faixas cheias de bombas. Diz-se tambem que havia varios grupos

postados nas esquinas até ás Necessidades.

* * * * *

A rainha, quando o João Franco chegou ao Paço:

--Foram portuguezes?

--Foram.

--Ahi tem o que o senhor fez dos portuguezes.

E a Maria Pia, que há muito o não pode ver:

--Diziam por ahi que o senhor era o coveiro da monarchia, mas o senhor

foi peor, foi o assassino do meu filho e do meu neto!

Isto cheira a phrase feita, mas como esta repetem-se, insiste-se,

inventam-se outras mais.

* * * * *

O João Franco tinha perdido a cabeça. Só elle mandava: não queria ouvir

ninguem. Quando fugiu d'uma esquadra um homem que estava preso pelo

fabrico de bombas, o juiz d'instrucção criminal foi-lhe dar parte do

caso. Ficou furioso:

--Vá beber da merda!

--Digo a V. Ex.^a que a policia não teve culpa...

--Vá beber da merda o senhor e a policia!

--Mas...

--Vá beber da merda! vá beber da merda! vá beber da merda!

* * * * *

Diz-se que o Alpoim estava escondido em casa do Teixeira de Souza e que

fugiu emquanto a policia lhe cercava a casa.

* * * * *

Paçô Vieira:

--Na noite do regicidio fui ao Paço, com o Campos Henriques. O Julio de

Vilhena, a quem procurei em casa, não foi porque lhe faltava um botão na

braguilha. Assisti a tudo: tiraram o rei e o principe de dentro do

carro. O rei estava disforme. A rainha, se tinha dito alguma coisa

desagradavel ao João Franco no Arsenal, no Paço não lhe disse palavra. A

Maria Pia perguntava de quando em quando:--A morte do rei será muito

sentida?--Estava tudo preparado para uma revolução. O Afonso Costa não

deu o signal porque esperava a morte do Franco. Pormenor absolutamente

authentico: o João Franco ainda se ofereceu para governador civil de

Lisboa.

--Na noite tragica o Antonio Candido foi dos raros que apareceram no

Paço. Estavam lá tambem o Campos Henriques e o Teixeira de Souza. Mais

ninguem--nem sequer o corpo diplomatico. Esperava-se a cada momento a

revolução. Os creados carregaram em padiolas pelas escadas acima os

corpos do rei e do principe. A D. Amelia passeava na sala de cá para lá,

infatigavelmente. Passou, perguntou-lhe:--Que diz o Antonio

Candido?--Elle não respondeu e ella continuou a passear de cá para lá

como um automato. A rainha velha estava sentada n'uma cadeira, sem uma

palavra, sem uma lagrima, d'olhos vitreos fixos na parede. E assim ficou

horas, muda e de pedra, emquanto a D. Amelia passeava na sala, de cá

para lá, infatigavelmente...

Memórias · 第 24 / 45 题