Faz hoje annos que morreu Antonio Nobre. Foi uma figura inconfundivel de
poeta. Por mim nunca encontrei tambem rapaz mais lindo. Um pouco
afectado talvez... Em pequeno ia com Eduardo Caminha enterrar os seus
versos no jardim solitario do Palacio, e pedia, com os olhos limpidos e
sofregos, uma Biblia para repousar a cabeça quando o levassem no
caixão... Estou a ve-lo, com uma camisola de pescador, saltar pela
janella da casa á beira rio, de Mattosinhos, onde Alberto d'Oliveira já
imperava, esse mesmo Alberto d'Oliveira, esperto e tão dominador, que,
quando entrava em casa dos outros, começava por os convencer a
desarrumar os móveis, para os arrumar de novo a seu modo... Antonio
Nobre usava uma abotoadura de cabeças de pregos e sorria com um modo e
um ar de ternura e desdem. Fugiam d'elle antes de publicar o _Só_; os
poetas do seu tempo odiaram-no depois de publicar o _Só_. Ser diferente
dos outros é já uma desgraça; ser superior aos outros é uma desgraça
muito maior. Viveu efectivamente isolado. No concurso para consul
quizeram reprová-lo: foi preciso que Alberto d'Oliveira explicasse ao
jury quem era o poeta Antonio Nobre. Não pôde formar-se em Coimbra, e
até os seus amigos mais intimos lhe fugiram. Entrou na morte como tinha
vivido--só. Até Alberto d'Oliveira teve de interromper uma amizade de
irmão quando se encontrou diante d'este dilema: ou deixar-se dominar por
elle, que o tratava como uma creança, ou feril-o em pleno coração:--A
nossa amizade é de tal ordem que não admite que lhe desçam dois ou trez
pontos á craveira. Ou mante-la ou quebra-la.--Quebrou-a. O ilustre
escriptor possue d'esse tempo um caixão enorme, tão pesado como o que
levou o poeta para a cova, com as cartas afectadas e vivas de Antonio
Nobre, as cartas que tem obrigação de publicar, com um prefacio que só
elle pode e deve escrever.
Digamol-o, digamol-o... No fundo detestaram-no, detestaram-no todos. Não
lhe poderam perdoar a impertinencia, o desdem, o genio. Era um sêr
diferente. Não agradava a ninguem. Só as mulheres o amaram. Era um
Poeta. Desconheceu a vida pratica. Tinha a consciencia do seu valor, e
uma superioridade que se não podia aturar. Estavamos todos mortos por
nos desfazermos d'esse ser aparte, d'esse eterno consul sem consulado,
d'esse estudante de Coimbra que os lentes reprovavam e que nos fazia
sombra. Mas debalde o arredamos: houve uma coisa nova que passou no
mundo e que ficou no mundo--que nos ficou na alma...
[Figura: _Antonio Nobre no caixão._]
Agora estamos todos apaziguados, todos podemos esquecer a superioridade,
a afectação e o desdem infantil de Antonio Nobre.
Foi para a cova completar trinta e tres annos n'um dia de chuva como
este, frio e sujo, o poeta insolente como um principe e adoravel como
uma creança. Quantos estavam alli á beira do tumulo? Meia duzia escassa,
o Frei, o Justino, o Eduardo de Souza, eu--e quem mais? quantos mais? Os
jornaes deram a sua morte em duas rapidas linhas. Respirou-se.
Hoje é um dos poetas portuguezes com mais admiradores. É um poeta de
simpathia. Nunca teve sorte senão depois de morto. Porquê? Porque não
misturou, como nós todos, o sonho com a vida pratica. Ao contrario,
raros homens terão posto tão de acordo a vida com o sonho. Fez mais:
suprimiu a vida. Correu o globo e só a si proprio se encontrou. Viu o
mundo e nunca assistiu a outro drama que não fosse o da sua alma. E
poentes, arvores, estrellas ou pedras, entraram-lhe no coração como
espadas. Nenhum outro exprimiu d'uma forma tão sua o universo. Que
universo dirás? O meu? o teu?... Não, o que elle descobriu, scismando
como um navegador, á prôa do seu barco... Por isso nunca hão-de faltar
sonhadores que evoquem essa singular figura de poeta, que uma vez
atravessou a terra, soluçou, monologou como Hamlet, e sumiu-se logo no
sepulchro.