4 de Janeiro--1908.

Morreu ante hontem d'albuminuria o pobre D. João da Camara. Tinha feito

annos no dia 27. Conheci-o sempre, até nos maiores frios, de casaco

d'alpaca, a sorrir... Antes de acabar sahiu do torpôr e, em dois acessos

de delirio, descreveu o fim do mundo com terror e espanto. Depois rezou,

disse versos seus, e ficou, n'um ultimo suspiro. Remexeram-lhe nos

papeis e nos bolsos: só lhe encontraram recortes de jornaes, anuncios de

desgraçados pedindo esmola.

Mezes depois ainda os pobres o procuravam nos sitios do costume:--O

senhor D. João? o senhor D. João?--Morreu.--Morreu! morreu!...--E

partiam a chorar.

Agora é que eu sinto todo o encanto d'esse homem falando baixinho, a

olhar a gente por cima das lunetas. Andou mal vestido. Não soube o valor

do dinheiro. Desceu aos desgraçados com uma ternura e uma simplicidade

de fidalgo e de santo. Nos ultimos quatro annos ganhou alguns contos de

reis: deu tudo, levaram-lhe tudo. Até de madrugada o procuravam para lhe

pedirem dinheiro emprestado. E nunca o ouvi queixar-se, nem dizer mal de

ninguem. Foi um poeta e um santo. Deixa, alem de algumas obras

admiraveis, uma peça incompleta, com poucas scenas escriptas--_As

comadres de Panoia_, e talvez se lhe encontrem tambem apontamentos de

outra em que tanto falou e em que tanto sonhou--_O Sermão da Montanha_.

Memórias · 第 15 / 45 题