Morreu ante hontem d'albuminuria o pobre D. João da Camara. Tinha feito
annos no dia 27. Conheci-o sempre, até nos maiores frios, de casaco
d'alpaca, a sorrir... Antes de acabar sahiu do torpôr e, em dois acessos
de delirio, descreveu o fim do mundo com terror e espanto. Depois rezou,
disse versos seus, e ficou, n'um ultimo suspiro. Remexeram-lhe nos
papeis e nos bolsos: só lhe encontraram recortes de jornaes, anuncios de
desgraçados pedindo esmola.
Mezes depois ainda os pobres o procuravam nos sitios do costume:--O
senhor D. João? o senhor D. João?--Morreu.--Morreu! morreu!...--E
partiam a chorar.
Agora é que eu sinto todo o encanto d'esse homem falando baixinho, a
olhar a gente por cima das lunetas. Andou mal vestido. Não soube o valor
do dinheiro. Desceu aos desgraçados com uma ternura e uma simplicidade
de fidalgo e de santo. Nos ultimos quatro annos ganhou alguns contos de
reis: deu tudo, levaram-lhe tudo. Até de madrugada o procuravam para lhe
pedirem dinheiro emprestado. E nunca o ouvi queixar-se, nem dizer mal de
ninguem. Foi um poeta e um santo. Deixa, alem de algumas obras
admiraveis, uma peça incompleta, com poucas scenas escriptas--_As
comadres de Panoia_, e talvez se lhe encontrem tambem apontamentos de
outra em que tanto falou e em que tanto sonhou--_O Sermão da Montanha_.