Janota e coçado, com uma flor na botoeira e a fumar um charuto de dez
reis, ahi vae o poeta Gomes Leal. Quem não viu n'outro tempo este homem
extraordinario, não conheceu um verdadeiro, um authentico poeta
satanico. Passou nas ruas de chapéo alto, falando com intimidade ás
estrellas e tocando no céo com as guias do bigode. Escreveu as paginas
das _Claridades do Sul_, da _Traição_ e do _Anti-Christo_. Viveu
alheado, como é indispensavel a quem convive todo o dia, tu cá, tu lá,
com o sonho. Cantou a plebe, destruiu os deuses, arremessou sarcasmos
aos banqueiros, satirisou o grotesco, e tocou-nos hombro com hombro,
apontando altivo o cravo vermelho da lapela:
--Amigos, as flores são as condecorações dos poetas!
Prodigalisou-o a caricatura: teve na vida misterios perturbantes: um dia
acometeram-no no comboio, em Espinho, quando regressava do Porto, até
onde seguira a rainha Maria Pia, depois de lhe atirar uma rosa
escarlate, que arrancou da botoeira, em plena praça, com um desdem
supremo pela burguezia endinheirada... Sim, foi este que teve a gloria
da cadeia, que cantou as estrellas, Jesus e Mephistopheles, foi este
mesmo homem, a quem falta roupa na cama no inverno glacial, e que sorri
com humildade para nós, avelhantado e timido... As janellas não teem
vidros, a roupa é pouca, mas tu viveste o que não vive um rei, e o
imperio deslumbrante, que creaste á custa de dôr, cheio de obscuridades
e de genio, com catadupas d'oiro, como nas lendas, e palidas figuras;
essa mescla de gritos, de paixão; esse sonho confuso e immenso,
pertence-te, e não ha quem t'o roube, mesmo com as janellas abertas de
par em par. Deixa entrar o frio--e sorri...
Agora vae todas as manhãs ouvir missa á Pena ou ao Resgate. É um homem
encolhido e friorento, que a banalidade tem gasto e desgasto como as
moedas fóra de curso que se fartaram de correr de mão em mão, e ainda ha
dias o encontrei no Porto, n'uma manhã de sol, de casaco de borracha e
colarinho suspeito. Ia pregar á Associação Catholica, e atravessava a
Praça entre os aplausos dos palidos sachristas, que o rodeavam como quem
força um deus, sem repararem que só levavam um simulacro. No sonho de
outrora não ha mãos que se atrevam a tocar... Elle sorria enlevado, com
o eterno charuto ao canto da bocca.
A vida feroz torna-nos grotescos. Consegue tudo. Deforma-nos. O proprio
sonho entra ás vezes no dominio da chacota. Onde, porém, Garrett chega
ao ridiculo, com tres cabelleiras postiças, Gomes Leal, de casaco de
borracha e discursos de propaganda, atinge o tragico... Eu bem sinto a
tristeza, bem sei, bem vejo o arranco, bem palpo a dôr. A figura que
cheira a bafio como se sahisse do fundo do armario do passado para a
plena luz, faz rir e faz chorar. No esforço para não ir ao fundo, no
gesto de naufrago que se apéga com desespero, quando a dôr estala por
todas as costuras, ha um rictus de clown. Olha lá: o peor é tu ousares
tocar no que ha em mim de mais sagrado, o peor é tu transformares-me o
sonho n'uma noticia do _Seculo_, o peor de tudo é tu atreveres-te a
tocar n'este jardim da vida--e, peor ainda, é que eu continuo a sorrir
como se possuisse o antigo thesouro de Ali-Baba. Mais um momento, outro
passo e reduzes-me á condição de trapo. Deitas-te commigo, acordo
comtigo ao meu lado, e ha occasiões em que até o som da minha voz me
sobresalta. Por ora debato-me, por ora sinto o coração opresso, fingindo
que não existes, mas ha já terror no meu sorriso, e, quando me ouço,
ouço-te tambem os passos. Sei perfeitamente que o momento terrivel
depende de um unico traço de separação--agora, já, d'aqui a bocado...
Estás por traz de mim e o minuto grotesco será quando eu deixar de te
conhecer e quando sentir a tua mão gelada... Estás por traz de mim!
estás por traz de mim! Bem sei que estás por traz de mim, e que vaes ser
a minha companhia até á cova. Confesso-te: o que me aterra não é o
momento que passou, nem o que ha-de vir--é o momento, que vale um
seculo, em que tenho de galgar o abysmo. Por ora teimo, por ora ainda
digo:--A sciencia, meu rapaz, sabes o que é? É um cifrão cortado.--Mas
como o digo!...
...Ha um momento tetrico nos _Espectros_ em que um novo personagem se
introduz em scena. Desde o principio que o sabemos atraz da frandulagem
de papelão: está alli presente, não como uma figura de theatro, mas
monstruoso, real e patente, como o Destino, á espera de intervir. Desde
então perco o fio da peça, não sigo mais os bonecos que se agitam no
tablado, só ouço o meu proprio monologo, e quedo-me d'olhos atonitos
n'outro espectaculo atroz. Tenho a certeza absoluta de que não ha forças
humanas que lhe detenham a marcha. Começa então a tragedia...
É este mesmo personagem que se intromete na vida do poeta. As palavras
conteem ainda e sempre as mesmas letras, mas até as palavras mirraram.
Esqueci tudo, troquei tudo pelo sonho, e, quando tu quizeres, de mim
proprio ficarei desconhecido! Como eu comprehendo agora aquella phrase
de outro poeta: «Sinto que não posso trabalhar! sinto que não posso
trabalhar!» É com esta angustia que te ouço os passos mais perto. Já não
é só a scena que tu enches, é a sala toda, figura invisivel, unico
personagem do drama, que te entranhas na alma dos espectadores. Emquanto
os bonecos teimam em pronunciar palavras que não ouço, que não teem
significação nem importam, tu levas-me, quer eu queira, quer não queira,
a sorrir com enlevo á propria banalidade.
* * * * *
A casa em que mora Gomes Leal, na esquina do palacio da Bemposta, parece
arrancada a um velho quadro de Velasquez, com a sua entrada de pedra e
um arco na escada. O soalho entreaberto oscila, as janellas não teem
vidros. Conheço-a. Já lá morei ha annos no mesmo quarto que dá para um
quintalorio, com duas ou trez oliveiras carcomidas. Do buraco, onde
nunca chega o sol, sae um frio de morte. Bato, a porta abre-se, o soalho
range, e o poeta surge com o velho chapeu ás trez pancadas, luvas
pretas--até de luvas escreve Gomes Leal!--e no quarto desagasalhado ha
luvas por toda a parte, por cima das mezas, entre os livros, penduradas
no tecto. O leito é um catre. Ao lado um Christo, uma mezinha de pé de
gallo, e no soalho apodrecido, montões de jornaes e de livros. Na
parede, que ressuma humidade, um quadro a crayon, com o vidro partido: o
retrato da mãe de Gomes Leal.
--Vivo só, não tenho familia. Minha mãe morreu-me e aqui estou como um
orphão.
--Vive isolado sempre?
--Levanto-me cedo, vou aos templos. Depois passo pelas bibliothecas e
pelos livreiros e venho para casa escrever. Almoço e janto onde calha.
Quando tenho bebo para esquecer, á noite escrevo, deito-me cedo e
durmo... Tenho trez livros para publicar: _As memorias d'um revoltado_,
continuação da historia da minha vida, _O macaco de Nero_, estudo de
Roma, e o livro em prosa _Cidade do Diabo_, onde trato da decadencia do
mundo moderno. Comecei tambem _Christo nos infernos_, poema em verso.
Conservo as minhas ideias religiosas, que não são incompativeis com a
republica, e ficarei contente por ver realisado o sonho de toda a minha
vida, que acalentei como um poeta, e que desejo que se não dissolva como
uma bola de sabão na cabeça d'um prego...
E queda-se n'um silencio amargo. A chuva cae lá fóra. A noite e um frio,
uma humidade de poço, trespassam-me...
No seu genio houve sempre sincopes, falhas, absurdos. Se tropeçou,
ergueu-se sempre mais alto. Aos trinta annos reage-se. Mas chega um
momento da vida em que a gente se sente transida pelo ar do sepulchro e
uma sombra desmedida avoluma-se e sufoca-nos. Foi d'esse negrume, que se
chama a Morte, que elle ouviu sahir uma voz cheia de ternura--a ternura
que toda a vida o envolveu--e que começou a falar-lhe baixinho. N'esse
momento Gomes Leal deixou de viver no mundo da realidade para cohabitar
com um phantasma...
Setembro--1907.
Antonio Corrêa d'Oliveira, ossos, nervos e a pelle necessaria para os
cobrir--com um chapeu alto e lustroso em cima--grande poeta, com raizes
profundas na natureza, tem na Beira uma tia que passa a vida em dialogos
estranhos com as arvores e as pedras. E mal chega á noite eil-a começa a
cumprir o seu fadario: leva até á madrugada a dar de beber
indistinctamente ás plantas do seu quintal e ás dos quintaes vizinhos,
n'uma aflicção, n'uma piedade que se estende até ás hervas ignoradas e
ruins. Monologando sempre, vae e vem,--que não fique alguma com
sede--com o regador nas mãos, até que a manhã a encontra exhausta,
feliz, encharcada até aos ossos e ainda embebida n'aquelle sonho
phrenetico de ternura... Toda a emoção do poeta está aqui, do grande
poeta que diz:--Sinto em mim uma força da natureza... hei-de
aproveital-a.--Os avós deram cabo da casa. O pae ninguem o arrancava ás
suas arvores, e um tio, personagem de Camillo, morreu cosido de facadas.
A mocidade do poeta foi tambem dolorosa. Chamavam-lhe magico. Para não
pezar á mãe escreveu á raza n'um tabelião e foi proposto de recebedor em
Cezimbra, elle que nunca soube sommar. Iam as mulheres dos pescadores
pedir-lhe perdão das decimas; e nunca na memoria de homem se viu
recebedor em semelhantes apuros, perplexo diante dos papeis, dos pobres,
da desgraça, das contas e da sua propria alma! Um dia gostou d'uma
mulher e escreveu os primeiros versos, _Ladainhas_,--Eu não sabia o que
eram versos, nem medir versos. Sahiu-me aquillo... Troçaram-me tanto que
estive para endoidecer. Sabe o que me valeu? Um artiguinho do Trindade
Coelho no _Reporter_. Essas palavras salvaram-me!
[Figura: _Corrêa d'Oliveira em 1903._]
Janeiro--1911.
Passei a noute de hontem em casa do Fernandes Thomaz, um velho
bibliophilo, coleccionador de autographos, de livros raros, de gravuras
antigas. Bom como o pão arruinou-se em papeis velhos... Eis emfim um
homem feliz, suponho eu, entre as estantes que revestem os muros, como a
traça entre as folhas d'um pergaminho. Ingenuo, surdo, com sessenta e
tres annos e coleccionador apaixonado de papeis velhos ainda por
cima--que sorte!...--De repente pega-me nas mãos e desata a chorar:
--Tenho sido um martir!
Á roda muitos documentos, muitos alfarrabios, muitos calhamaços
preciosos. São duas, tres salas catalogadas, onde tem livros e papeis
por toda a parte. A sua vida devia correr esquecida e placida, sem
sobresaltos nem duvidas, folheando, rabiscando, anotando, sonhando
sempre em coisas faceis.
--Não imagina o que tenho sofrido! Sempre gostei muito de creanças...
Trouxe para casa uma sobrinha, morreu-me de raiva nos braços. Minha mãe
um dia teimou:--Has-de casar.--Fiz-lhe a vontade. Casei. Minha mulher,
ao fim de dois annos, abalou levando-me quasi tudo o que eu tinha.
Demandas, processos--fiquei pobre. Agora meu filho quer ir por força
para a Africa.
E põe-se a chorar como uma creança, com a cabeça branca pousada sobre os
livros, os papeis, as gravuras...--deante d'aquella documentação cerrada
e inutil, que tem sido a razão da sua vida.