30 de Janeiro--1911.

Janota e coçado, com uma flor na botoeira e a fumar um charuto de dez

reis, ahi vae o poeta Gomes Leal. Quem não viu n'outro tempo este homem

extraordinario, não conheceu um verdadeiro, um authentico poeta

satanico. Passou nas ruas de chapéo alto, falando com intimidade ás

estrellas e tocando no céo com as guias do bigode. Escreveu as paginas

das _Claridades do Sul_, da _Traição_ e do _Anti-Christo_. Viveu

alheado, como é indispensavel a quem convive todo o dia, tu cá, tu lá,

com o sonho. Cantou a plebe, destruiu os deuses, arremessou sarcasmos

aos banqueiros, satirisou o grotesco, e tocou-nos hombro com hombro,

apontando altivo o cravo vermelho da lapela:

--Amigos, as flores são as condecorações dos poetas!

Prodigalisou-o a caricatura: teve na vida misterios perturbantes: um dia

acometeram-no no comboio, em Espinho, quando regressava do Porto, até

onde seguira a rainha Maria Pia, depois de lhe atirar uma rosa

escarlate, que arrancou da botoeira, em plena praça, com um desdem

supremo pela burguezia endinheirada... Sim, foi este que teve a gloria

da cadeia, que cantou as estrellas, Jesus e Mephistopheles, foi este

mesmo homem, a quem falta roupa na cama no inverno glacial, e que sorri

com humildade para nós, avelhantado e timido... As janellas não teem

vidros, a roupa é pouca, mas tu viveste o que não vive um rei, e o

imperio deslumbrante, que creaste á custa de dôr, cheio de obscuridades

e de genio, com catadupas d'oiro, como nas lendas, e palidas figuras;

essa mescla de gritos, de paixão; esse sonho confuso e immenso,

pertence-te, e não ha quem t'o roube, mesmo com as janellas abertas de

par em par. Deixa entrar o frio--e sorri...

Agora vae todas as manhãs ouvir missa á Pena ou ao Resgate. É um homem

encolhido e friorento, que a banalidade tem gasto e desgasto como as

moedas fóra de curso que se fartaram de correr de mão em mão, e ainda ha

dias o encontrei no Porto, n'uma manhã de sol, de casaco de borracha e

colarinho suspeito. Ia pregar á Associação Catholica, e atravessava a

Praça entre os aplausos dos palidos sachristas, que o rodeavam como quem

força um deus, sem repararem que só levavam um simulacro. No sonho de

outrora não ha mãos que se atrevam a tocar... Elle sorria enlevado, com

o eterno charuto ao canto da bocca.

A vida feroz torna-nos grotescos. Consegue tudo. Deforma-nos. O proprio

sonho entra ás vezes no dominio da chacota. Onde, porém, Garrett chega

ao ridiculo, com tres cabelleiras postiças, Gomes Leal, de casaco de

borracha e discursos de propaganda, atinge o tragico... Eu bem sinto a

tristeza, bem sei, bem vejo o arranco, bem palpo a dôr. A figura que

cheira a bafio como se sahisse do fundo do armario do passado para a

plena luz, faz rir e faz chorar. No esforço para não ir ao fundo, no

gesto de naufrago que se apéga com desespero, quando a dôr estala por

todas as costuras, ha um rictus de clown. Olha lá: o peor é tu ousares

tocar no que ha em mim de mais sagrado, o peor é tu transformares-me o

sonho n'uma noticia do _Seculo_, o peor de tudo é tu atreveres-te a

tocar n'este jardim da vida--e, peor ainda, é que eu continuo a sorrir

como se possuisse o antigo thesouro de Ali-Baba. Mais um momento, outro

passo e reduzes-me á condição de trapo. Deitas-te commigo, acordo

comtigo ao meu lado, e ha occasiões em que até o som da minha voz me

sobresalta. Por ora debato-me, por ora sinto o coração opresso, fingindo

que não existes, mas ha já terror no meu sorriso, e, quando me ouço,

ouço-te tambem os passos. Sei perfeitamente que o momento terrivel

depende de um unico traço de separação--agora, já, d'aqui a bocado...

Estás por traz de mim e o minuto grotesco será quando eu deixar de te

conhecer e quando sentir a tua mão gelada... Estás por traz de mim!

estás por traz de mim! Bem sei que estás por traz de mim, e que vaes ser

a minha companhia até á cova. Confesso-te: o que me aterra não é o

momento que passou, nem o que ha-de vir--é o momento, que vale um

seculo, em que tenho de galgar o abysmo. Por ora teimo, por ora ainda

digo:--A sciencia, meu rapaz, sabes o que é? É um cifrão cortado.--Mas

como o digo!...

...Ha um momento tetrico nos _Espectros_ em que um novo personagem se

introduz em scena. Desde o principio que o sabemos atraz da frandulagem

de papelão: está alli presente, não como uma figura de theatro, mas

monstruoso, real e patente, como o Destino, á espera de intervir. Desde

então perco o fio da peça, não sigo mais os bonecos que se agitam no

tablado, só ouço o meu proprio monologo, e quedo-me d'olhos atonitos

n'outro espectaculo atroz. Tenho a certeza absoluta de que não ha forças

humanas que lhe detenham a marcha. Começa então a tragedia...

É este mesmo personagem que se intromete na vida do poeta. As palavras

conteem ainda e sempre as mesmas letras, mas até as palavras mirraram.

Esqueci tudo, troquei tudo pelo sonho, e, quando tu quizeres, de mim

proprio ficarei desconhecido! Como eu comprehendo agora aquella phrase

de outro poeta: «Sinto que não posso trabalhar! sinto que não posso

trabalhar!» É com esta angustia que te ouço os passos mais perto. Já não

é só a scena que tu enches, é a sala toda, figura invisivel, unico

personagem do drama, que te entranhas na alma dos espectadores. Emquanto

os bonecos teimam em pronunciar palavras que não ouço, que não teem

significação nem importam, tu levas-me, quer eu queira, quer não queira,

a sorrir com enlevo á propria banalidade.

* * * * *

A casa em que mora Gomes Leal, na esquina do palacio da Bemposta, parece

arrancada a um velho quadro de Velasquez, com a sua entrada de pedra e

um arco na escada. O soalho entreaberto oscila, as janellas não teem

vidros. Conheço-a. Já lá morei ha annos no mesmo quarto que dá para um

quintalorio, com duas ou trez oliveiras carcomidas. Do buraco, onde

nunca chega o sol, sae um frio de morte. Bato, a porta abre-se, o soalho

range, e o poeta surge com o velho chapeu ás trez pancadas, luvas

pretas--até de luvas escreve Gomes Leal!--e no quarto desagasalhado ha

luvas por toda a parte, por cima das mezas, entre os livros, penduradas

no tecto. O leito é um catre. Ao lado um Christo, uma mezinha de pé de

gallo, e no soalho apodrecido, montões de jornaes e de livros. Na

parede, que ressuma humidade, um quadro a crayon, com o vidro partido: o

retrato da mãe de Gomes Leal.

--Vivo só, não tenho familia. Minha mãe morreu-me e aqui estou como um

orphão.

--Vive isolado sempre?

--Levanto-me cedo, vou aos templos. Depois passo pelas bibliothecas e

pelos livreiros e venho para casa escrever. Almoço e janto onde calha.

Quando tenho bebo para esquecer, á noite escrevo, deito-me cedo e

durmo... Tenho trez livros para publicar: _As memorias d'um revoltado_,

continuação da historia da minha vida, _O macaco de Nero_, estudo de

Roma, e o livro em prosa _Cidade do Diabo_, onde trato da decadencia do

mundo moderno. Comecei tambem _Christo nos infernos_, poema em verso.

Conservo as minhas ideias religiosas, que não são incompativeis com a

republica, e ficarei contente por ver realisado o sonho de toda a minha

vida, que acalentei como um poeta, e que desejo que se não dissolva como

uma bola de sabão na cabeça d'um prego...

E queda-se n'um silencio amargo. A chuva cae lá fóra. A noite e um frio,

uma humidade de poço, trespassam-me...

No seu genio houve sempre sincopes, falhas, absurdos. Se tropeçou,

ergueu-se sempre mais alto. Aos trinta annos reage-se. Mas chega um

momento da vida em que a gente se sente transida pelo ar do sepulchro e

uma sombra desmedida avoluma-se e sufoca-nos. Foi d'esse negrume, que se

chama a Morte, que elle ouviu sahir uma voz cheia de ternura--a ternura

que toda a vida o envolveu--e que começou a falar-lhe baixinho. N'esse

momento Gomes Leal deixou de viver no mundo da realidade para cohabitar

com um phantasma...

Setembro--1907.

Antonio Corrêa d'Oliveira, ossos, nervos e a pelle necessaria para os

cobrir--com um chapeu alto e lustroso em cima--grande poeta, com raizes

profundas na natureza, tem na Beira uma tia que passa a vida em dialogos

estranhos com as arvores e as pedras. E mal chega á noite eil-a começa a

cumprir o seu fadario: leva até á madrugada a dar de beber

indistinctamente ás plantas do seu quintal e ás dos quintaes vizinhos,

n'uma aflicção, n'uma piedade que se estende até ás hervas ignoradas e

ruins. Monologando sempre, vae e vem,--que não fique alguma com

sede--com o regador nas mãos, até que a manhã a encontra exhausta,

feliz, encharcada até aos ossos e ainda embebida n'aquelle sonho

phrenetico de ternura... Toda a emoção do poeta está aqui, do grande

poeta que diz:--Sinto em mim uma força da natureza... hei-de

aproveital-a.--Os avós deram cabo da casa. O pae ninguem o arrancava ás

suas arvores, e um tio, personagem de Camillo, morreu cosido de facadas.

A mocidade do poeta foi tambem dolorosa. Chamavam-lhe magico. Para não

pezar á mãe escreveu á raza n'um tabelião e foi proposto de recebedor em

Cezimbra, elle que nunca soube sommar. Iam as mulheres dos pescadores

pedir-lhe perdão das decimas; e nunca na memoria de homem se viu

recebedor em semelhantes apuros, perplexo diante dos papeis, dos pobres,

da desgraça, das contas e da sua propria alma! Um dia gostou d'uma

mulher e escreveu os primeiros versos, _Ladainhas_,--Eu não sabia o que

eram versos, nem medir versos. Sahiu-me aquillo... Troçaram-me tanto que

estive para endoidecer. Sabe o que me valeu? Um artiguinho do Trindade

Coelho no _Reporter_. Essas palavras salvaram-me!

[Figura: _Corrêa d'Oliveira em 1903._]

Janeiro--1911.

Passei a noute de hontem em casa do Fernandes Thomaz, um velho

bibliophilo, coleccionador de autographos, de livros raros, de gravuras

antigas. Bom como o pão arruinou-se em papeis velhos... Eis emfim um

homem feliz, suponho eu, entre as estantes que revestem os muros, como a

traça entre as folhas d'um pergaminho. Ingenuo, surdo, com sessenta e

tres annos e coleccionador apaixonado de papeis velhos ainda por

cima--que sorte!...--De repente pega-me nas mãos e desata a chorar:

--Tenho sido um martir!

Á roda muitos documentos, muitos alfarrabios, muitos calhamaços

preciosos. São duas, tres salas catalogadas, onde tem livros e papeis

por toda a parte. A sua vida devia correr esquecida e placida, sem

sobresaltos nem duvidas, folheando, rabiscando, anotando, sonhando

sempre em coisas faceis.

--Não imagina o que tenho sofrido! Sempre gostei muito de creanças...

Trouxe para casa uma sobrinha, morreu-me de raiva nos braços. Minha mãe

um dia teimou:--Has-de casar.--Fiz-lhe a vontade. Casei. Minha mulher,

ao fim de dois annos, abalou levando-me quasi tudo o que eu tinha.

Demandas, processos--fiquei pobre. Agora meu filho quer ir por força

para a Africa.

E põe-se a chorar como uma creança, com a cabeça branca pousada sobre os

livros, os papeis, as gravuras...--deante d'aquella documentação cerrada

e inutil, que tem sido a razão da sua vida.

Memórias · 第 17 / 45 题