O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca.
_Hurrah!_
* * * * *
Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandysmo, da boa
estreia d'estes hyppicos torneios especialmente destinados a apurarem em
Portugal a famosa, a incomparavel, a unica raça ... das tipoias!
Parabéus a todo o _Sport_ europeu, e ao nosso defunto Lagoia!
* * * * *
Hontem no theatro de D. Maria--primeira representação da _Magdalena_,
especie de _Dalila_, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do
Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas
ás curiosidades do _chic_, na Baixa.
* * * * *
N'este drama ha tres typos principaes:
_O amante_--Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro--de
Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de
figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim
portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra
da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico--sob os symptomas
lancinantes e urgentissimos da colica.
_A noiva_--Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com
livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor
e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões,
não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua
mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e
rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em
vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais
disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo
modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama
finalmente senão uma coisa--o talento!... Pobre rapariga! desditosa
burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O _talento!... a
divina inspiração!... o supremo encanto!.._ Coitada! se acreditas
n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa,
humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de _soirées_ que te
appareça, á primeira _bas-bleu_ que te escreva cartas, ou á primeira
actriz que te beije e abrace. O talento!... Mas não ha nada
verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a
perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples
fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a
_toilette_ e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de
apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para
que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um
meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O
talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça:
_A amante do noivo_--Uma actriz que foi educada no convento com a noiva
o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento,
com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma
_lorette_; uma artista _aux camelias_; grande genio de _petit-lieu_;
celebridade baptisada com _Champagne_, entre rapazes, depois das ceias,
em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que
exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma
paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia
com o _cancan_, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca
chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de
_pale-ale;_ que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com
rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena
penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos
sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz
extravasado.
_O drama_. O noivo acha que _Tant-de-charmes_ é mil vezes mais
interessante do que _La-vertu-même_. Por tanto o noivo abandona a noiva
virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae
então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com
tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este
mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão
de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,--de
sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe
restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer
perder aos outros.
O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno
cáe.
* * * * *
Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e
no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos
a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em
casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel
juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da
casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher
cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem
mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que
lhe falta, e retira-se em pleno escandalo.
O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta
_ménagére,_ que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo
recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz _cocodette_.
Pois bem: é essa mulher que se vae embora--notae-o bem, minhas queridas
burguezas!--é essa mulher que se vae embora, a que ahi, deante de vós,
está dando o unico exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas
d'esta peça teem o lyrismo, a eloquencia, a convenção litteraria; só
esta é que inteiramente possue a verdade e o juizo.
O que todas vós tendes que fazer perante a concorrencia e o cotejo a que
vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do
theatro ou no _demi-monde_, é tomardes o braço dos vossos maridos e
sairdes com elles.
Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com
as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de
Lamartine e de Musset; teem o systema nervoso exaltado, a imaginação
plethorica, o temperamento irritado, e o juizo das coisas praticas
derrancado ou extincto.
As creaturas artificiaes, morbidas, irritantes pelos poderosos
contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pelle,
serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão
comsigo. Ellas teem um prestigio de vicios triumphantes, de elegantes
indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perennes, com
que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca
luctar.
Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha
as palpebras e engrossa a pelle com o correr das lagrimas: ellas teem a
sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de
Saxe--inalteravel mimo de galeria ou de étagère.
Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo affastada do ideal de
Praxiteles pelos habitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas
vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: ellas teem
as mãos finas, afiladas, pallidas, transparentes, que obrigam a sonhar
estranhas caricias e que são o resultado de quinze annos de ociosidade
estupida de serralho, de chloroses e de massas de amendoas.
Vós tendes uma passagem de miudos e pacientes pontos n'um dos vincos do
setim dos vossos sapatos: ellas teem uns sapatos por noite e umas luvas
por dia.
Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Ellas são a dissipação e o
vicio.
Ora os homens educados pela sociedade, por si proprios, e em grande
parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções litterarias e
poeticas, nos falsos ideaes epidemicos do sentimentalismo, da
melancolia, da paixão, dos amores fataes, os homens assim educados,
quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam--por enjoar a
virtude.
Não queiraes reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e deshonra-vos.
Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande
aviso, maior talvez do que o auctor suppunha: As _Magdalenas_ não sobem
as escadas das casas em que ha mulheres honestas.
E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?...
Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos
pouco mais teem feito do que procurar convencer a sociedade d'esses
direitos e d'essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem
constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os
dramaturgos!
Não lhes parece que vae sendo tempo de darmos a velha questão por
discutida?...
* * * * *
Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não
somos nós os que fugimos para a Thebaida, a flagellar o nosso pobre
corpo, ao aspecto das peccadoras espirituosas a cujos pés passou a sua
vida, em extase, a geração litteraria que nos precedeu. Sómente para que
levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar
arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados
os nossos antecessores.
* * * * *
Chegamos do palacio das Janellas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do
espolio de sua magestade a imperatriz, ultimamente fallecida.
Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,--á marquez de
Pombal.
Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro imperio, no
estylo chato, _parvennu_, pretencioso, mas rico, do seculo de Bonaparte,
esse Luiz XIV de caserna.
Mesas, sophás, tremós, de fórmas rectangulares, riscados pela regoa,
guarnecidos de columnas parallelas, de capiteis de bronze.--O que quer
que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do
genio!
As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres--tudo
bronze, macisso, pesado.
As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos
de fria inspiração bucolica bebida com assucar e agua de flôr de laranja
na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel.
Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapeus na cabeça
e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo
molhado em saliva o pó das tellas e das estatuetas, ou apoiando a sola
da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho,
enche os salões e vae deitando os lanços.