O pregoeiro--_Uma mesa offerecida pelo imperador Napoleão I, o grande!_

Um adelo--_Ponha lá uma libra por ter sido d'esse sujeito ... e, em fim,

porque é de mosaico!_

Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram

rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquellas

regias salas ia successivamente passando para o povo que as invadia.

Não era sómente um leilão aquillo, era uma liquidação pronta e solemne

dos ultimos restos de um imperio extincto, de um cesarismo arruinado e

fallido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.--Extranho

espectaculo, de tal modo significativo que era quasi doloroso!

* * * * *

Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz.

Lá fóra, nos salões, revelava-se uma epoca poderosa.

Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.

N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos

annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se

perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia.

Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto

com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos

os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos.

Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as

disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por

toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de

costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas

proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o

minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria--uma

visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de

mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para

motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas

diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos

biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma

especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha

muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e

uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes

numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella

uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo

aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a

imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus

ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo,

marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes,

decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como

diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos

dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo

de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em

publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do

_Malade imaginaire_, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena:

ao lado do aphorismo, _Medicamen clister nobile est_.

E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão

os principios politicos de suas excellencias os executores

testamentarios da fallecida soberana.

Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar....

Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam

saber que nunca se abrem as caixas reservadas da _toilette_ de uma

senhora.

Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de

discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas

denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias,

que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima

d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus

simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um

novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens--a

constipação intestinal dos principes!

* * * * *

O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul

da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz

fallecida.

O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante

a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o

valor de cada coisa.

S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em

beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua

irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve

mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena

aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os

mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que

sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade!

* * * * *

Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por

s.ex.ª o consul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos

e dos cabeças de pau, Sua Magestade a rainha da Suecia terá a doce

consolação--tão sensivel ás almas sublimes--de receber duzentas libras a

maior da somma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos

despojos d'aquella que duas vezes fôra na terra sua irmã--como mulher e

como rainha!

* * * * *

Oh! como deverá ser bom e suave, na ultima estação da vida, quando os

rheumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada,

embrulharmo-nos tremulos na purpura real, no alto do nosso

throno,--tendo aos nossos pés os nossos vassallos inclinados e a nossa

cova aberta,--fitar serenamente no espaço a branca apparição d'aquella

que amamos no mundo e que nos espera entre as estrellas nas esfumadas

sombras do crepusculo, e podermos então exclamar em nossa consciencia:

«Sim, ella morreu ... mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó

Deus meu e dos meus exercitos, pois quizestes permittir que aquelle

objecto que lhe pertenceu e que ella tinha occulto por detraz de uma

cortina no seu quarto de lavatorio fosse venturosamente arrematado--por

trez mil e seiscentos!»

* * * * *

SCENAS DE RELIGIÃO.--Lemos no _Diario Illustrado_ o seguinte:

«Em additamento á noticia que ontem démos da saida processional do

Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje

informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e

D. Maria Cecilia da Conceição Almeida Fernandes, proprietarios do

acreditado estabelecimento de modista de chapeus e vestidos na travessa

de Santa Justa n.º 81, vae tambem n'essa procissão, distribuindo esmolas

aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e

por generoso e espontaneo offerecimento de seu pae, que é irmão do

Santissimo d'aquella freguezia.

«Leva a gentil menina, symbolo de caridade, vestido de faille azul

claro, com outro de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras, e

um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de

estrellas de oiro de lindo effeito.

«Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro annos successivos tem

levado a sua filhinha vestida de anjo n'aquelle acto religioso, offerece

no presente anno uma novidade elegante, e que decerto será do mais

apurado bom gosto, se attendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes,

e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é

variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites

de senhora.»

* * * * *

Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes

como elles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a

caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S.

Paulo com aquella palavra tão inspirada e tão bella.--O amor dos

corações puros e das consciencias boas!

Elles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo

vestido de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto

branco preso na cabeça por um diadema de estrellas de oiro de lindo

effeito!

Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo

Ignacio--_incorporeas mentes_--com esta descripção que o _Diario

Illustrado_ nos apresenta dos vossos anjos modernos!

Que dirão os cherubins, os seraphins e os archanjos, que dirão Miguel,

Raphael e Gabriel, elles nus, sem mais _toilette_ que as suas longas

azas candidas, ao verem junto de si nas chorêas sidereas o novo

anjo--Almeida Fernandes?!

Como ficarão vexados e humilhados no Céo--os outros--quando o cherubim

Almeida lhes apparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão

nos beiços, e o seu _vestido aventalado adiante_, e contar que foi o

papá Fernandes quem o arranjou assim para elle representar diante dos

homem a imagem da caridade!

Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador!

Lição terrivel de elegancia e de _chic_ ministrada a todo o reino dos

Céos pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande

importancia que isto vae dar ao estabelecimento do sr. Fernandes--no

Empireo!

Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr.

Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o territorio divino,

acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma succursal da

côrte celeste, e que depois de converter a sua familia em anjos de

tulle, elle mesmo acabe por apparecer aos seus freguezes transfigurado

em Deus ... de filó!

E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu

commercio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de

batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira:

Eu peccador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um

par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente

minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós--para

nos tomar medida. _Amen_!

* * * * *

Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no

catholicismo. Vamos ver agora como é que os operarios socialistas

entendem os principios do direito perante a revolução.

Ao passo que o _Diario Illustrado_, folha monarchica e catholica, nos

apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o _Pensamento Social_,

periodico revolucionario, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os

direitos do povo.

O _Pensamento Social_ diz assim:

«Teve logar a annunciada sessão da propaganda na associação do trabalho

nacional. Estiveram presentes cêrca de 60 companheiras, frequentando a

sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma

companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem.

Deu-se n'esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma

companheira, que tem apenas nove annos de edade, como que sensibilisada

pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a

palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu:

«Companheiros e companheiras.--Declaro-lhes que cada vez que tenho de

entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de agua e

cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; comtudo não posso deixar de

levantar a minha debil voz para dirigir duas palavras ás nossas

companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses.

Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos,

porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás

nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são

castigadas com o seu diminuto salario, como tambem as maltratam com

pancada.

«Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e

pedir ao meu Deus, se estamos em peccado mortal: perdoae-nos. Mas não,

que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os

nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas

associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é

muito difficil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que

não estamos em peccado mortal, e tambem poderemos dizer que se acabaram

os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e

companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação

para podermos alcançar o nosso triumpho, que é a emancipação de todos os

trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociaes. Depois os

nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom

dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não

esqueçaes dos nossos companheiros grevistas.--_Palmira da Conceição_.»

* * * * *

Esta creança de nove annos de edade que nos declara _que os olhos se lhe

arrasam de agua e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que

lhe tem succedido ter de entrar em assumptos de tal natureza_, é uma

verdadeira menina benta, um phenomeno! Diremos mesmo: é um milagre, é

uma pequena nossa senhora apparecida--da fabrica lisbonense de fiação e

tecidos!

Ella é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o

actual anjo Almeida Fernandes--nas festividades populares.

* * * * *

Ha pequenas differenças:

O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a

portadora da _emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres

sociaes._

O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro

inquieto de Alcantara.

O anjo caminha gravemente--enfunado, crespo de folhos e de rendas, como

um peru armado--a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica

_Alumnos de Minerva_, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e

espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o

mundo velho.

A deusa vem ao collo de um _companheiro_ membro da _Fraternidade

Operaria_ e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais

convicto e consciencioso _hymno da carta_, atraz da angelica vergontea

de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia

da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence,

mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na

futura organisação social.

O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.

A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação

e de erros de prosodia.

O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo

confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano

de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa.

Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais

efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios.

Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e

pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á

corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.

Não será tambem com a sua oradora de nove annos, _inspirada pela razão e

pela justiça_, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade

dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.

O trabalho--bem o sabemos--é uma coisa augusta e sagrada. O

commercio--desculpem-nos os senhores proletarios--é tão sagrado como o

trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas

obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que

consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um

serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.

O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o

pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois

quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis.

Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma

boneca de _vitrine_ e encarregando o _Diario Illustrado_ de lh'a

apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é

ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha,

para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal

entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo _Pensamento

Social_, orgão das classes operarias.

* * * * *

Já que fallamos no _Pensamento Social_ notemos que nem sempre nos parece

perfeitamente logico este jornal.

Succede que elle guerreia o burguez, o _infame burguez_, e não cessa

nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada

temos que objectar.

Quando se deu, porém, a _grève_ dos surradores, succedeu o seguinte:

Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a

phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que

apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de

ceder á _grève_ ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que

fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas,

associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles

mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em

fabrica, levantar os cortumes.

Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia

dos patrões curtidores o que o _Pensamento Social_ escolheu para os

flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que

exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser

burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o

_Pensamento Social_ não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu

caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem

trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.

* * * * *

Os operarios na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na

justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de

revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum

e que os srs. operarios injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos

burguezes--deveriam lembrar-se d'isto os srs. operarios--são na actual

organisação social, os alliados naturaes de todos os que trabalham e

padecem. Os srs. operarios fariam bem se, em logar de encarregarem a

menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem n'elles em

voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon:

«Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais

habeis dos revolucionarios. Sois vós que desde o terceiro seculo da era

christã, por meio das vossas federações municipaes, estendestes a

mortalha sobre o imperio dos romanos nas Gallias. Sem os barbaros que

vieram mudar a face das coisas, a republica, constituida por vós, teria

governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, oppondo a communa

ao castello, o rei aos grandes vassallos, vencestes o feudalismo. Sois

vós em fim que ha oitenta annos, tendes proclamado umas depois das

outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de

imprensa, liberdade de associação, liberdade de commercio e de

industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao

altar e ao throno; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a

egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das

contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da

opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os principios e lançastes os

fundamentos da revolução no seculo XIX. Nenhuma das coisas que se tentou

sem vós, viveu; nenhuma d'aquellas que vós emprehendestes falhou. Diante

da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o

ungido legitimo, o rei cidadão, desde que teem tido o infortunio de vos

desagradar, teem desfilado diante de vós como phantasmas.»

* * * * *

Lemos em alguns periodicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação

acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe

pôr brincos.

Parece-nos que este senhor ecclesiastico abusa das suas relações com as

santas a ponto de proceder com ellas de um modo como não desejaria

talvez que ellas procedessem com s.ex.ª ...

Como quer porém que seja, e admittindo-se mesmo que o sr. prior tenha o

maior prazer d'este mundo em que lhe façam furos no corpo, entendemos

que sua excellencia introduz no culto uma reforma arrojada, posto que

extremamente simplificativa, substituindo as antigas manifestações de

reverencia e de respeito devidas ás sagradas imagens--as genuflexões, o

incenso, a missa cantada, a novena e o panegyrico--pela verruma!

Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a

lavrar entre elles o receio que o sr. prior, adoptando definitivamente o

seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia--em vez de

pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes pregos!

Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a

lavrar entre elles o receio de que o sr. prior, adoptando

definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um

bello dia--em vez de pregar-lhes sermões--principiar a pregar-lhes

pregos!

Pede-se aos srs. assignantes das provincias o obsequio do mandarem

satisfazer a importancia das suas assignaturas em divida, por meio de

estampilhas ou do vales do correio. Correspondencia á calçada doa

Caetanos, 30, Lisboa.

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-03/04) · 第 10 / 10 题