CAPÍTULO III

Morte de el-rei.--É despedido brutalmente o marquês de

Pombal.--Soltura dos presos da Junqueira.--O marquês de Alorna na

portaria de Chelas.--Orgulho do marquês.--Seus esforços para uma

pronta reabilitação que alcançou.--Retirada da família de Alorna

para Almeirim.--Desilusões de Leonor.--Antagonismo moral do pai e da

filha.--Reacção desbragada do reinado de D. Maria I.--O ministério

da rainha.--Angeja.--Vila Nova.--Martinho de Melo.--O cardeal

da Cunha.--Tancredo e Maria de Almeida.--Desgôsto do marquês de

Alorna.--A côrte de D. Maria I.--A rainha e sua loucura.--O rei.--O

príncipe do Brasil.--O confessor da rainha arcebispo de Tessalónica

e o seu leigo.--Os marqueses de Marialva e a sua principesca

hospitalidade.--Festas típicas da sua casa.--Os Penalvas.--Várias

figuras do tempo.--O duque de Lafões e o mestre Gluk.--Pitoresco da

vida portuguesa, mas falta de influência feminina.--A castidade da

rainha e o teatro.--Do estado lastimável a que êle desceu.--Farças,

entremesses, tragédias.--Conflito entre Leonor de Almeida e

o seu meio.--Casamento que a liberta dêsse meio.--O conde de

Oeynhausen.--Cerimónia do seu baptisado.--Testemunha ocular que a

narra minuciosamente.--O sermão do frade dominicano.--Oposição do

marquês de Alorna ao casamento da filha.--Desobediência de Leonor e

seu casamento com o conde alemão.--Referência de Bocage a Alcipe.

A 24 de Fevereiro de 1777 morria el-rei D. José, e na manhã dêsse mesmo

dia, quando o marquês de Pombal, segundo o costume, se encaminhava

para os quartos em que o seu régio amo agonizava, tolhia-lhe o passo o

cardeal da Cunha, dizendo-lhe em tom altaneiro: «V. ex.ᵃ já não tem

nada que fazer aqui.»

Nesta frase desdenhosa resume-se uma das mais monstruosas ingratidões

da história. O cardeal fôra uma criatura do marquês; para ter chegado

ao fastígio do poder que ocupava agora, não tivera outra recomendação

alêm da que lhe dava, naquele tempo, o prestígio do seu nome. Como

êsse nome, ainda assim, era o de Távora, o cardeal teve a baixeza de

o renegar, só por julgar que isso seria um requinte de côrte feita

ao seu poderoso protector.[66] De resto, vaidoso e ignorante, a sua

Biblioteca, composta de onze mil volumes, inspirava ao conde da Ponte o

conhecido chiste das _onze mil virgens_; e nada mais nulo do que a sua

figura de estadista improvisado por um capricho do marquês de Pombal,

que tão cruelmente expiou a fraqueza de ter confiado nêle, ou o cálculo

de o ter querido como inofensivo companheiro de govêrno.

Formulou-se desde logo um programa completo de reacção, que rápidamente

se pôs em prática em seguida à morte de el-rei.

O primeiro sintoma dessa reacção impudente e súbita foi a desatenciosa

frieza com que o marquês, ontem omnipotente, começou de ser tratado

por todos aqueles que se haviam curvado, em abjecta adulação, ante os

excessos do seu poder e os abusos da sua autoridade.

Uma parte, e a mais louvável do programa dos novos conselheiros da

rainha, consistia em abrir de par em par as portas dos cárceres em que

jaziam desesperadas as vítimas da política pombalina e do ódio de D.

José.

Imagine-se a alegria, o férvido entusiasmo de Leonor de Almeida, quando

a notícia de que iam ser finalmente soltos, depois de um cativeiro de

dezoito anos, todos os sobreviventes da tragédia de Belêm, soou através

das grades que a separavam do mundo, sem contudo, a terem alheado de

nenhum dos seus interesses.

Era uma hora da noite quando o marquês apareceu no locutório de Chelas,

onde o estavam esperando a chorar de convulsa alegria as filhas e a

mulher. Figure-se o que seria o encontro dos dois esposos! Tinham-se

separado havia dezoito anos sem se tornarem mais a ver, nem sequer de

longe. A ela tinham-lhe arrancado dos braços um gentil cavaleiro, na

flor da mocidade, esbelto, airoso, desempenado e forte; êle deixava

uma mulher lindíssima, que a maternidade fizera mais adorável sem

a ter feito menos bela, e cujos olhos, de um azul violeta, cujos

louros cabelos abundantes, cuja fisionomia idealmente fina vemos

magistralmente reproduzida no retrato esplêndido que dela existe

ainda[67]. Que mudança nos dois! O marquês vinha curvo, cansado,

envelhecido e triste. As faces trazia-as precocemente avincadas

pelas meditações dolorosas; nos olhos havia-se-lhe apagado o fogo da

temerária juventude; os cabelos, outrora elegantemente polvilhados à

moda da côrte, vinham brancos sim, mas embranquecidos pelo martírio.

Por sôbre ela haviam rodado pesadamente, lentamente, os dias da

separação e da clausura; mas os vestígios de uma notável beleza ainda

se não haviam de todo apagado nesse rosto que a alegria de ver o seu

adorado ausente purpureava agora.

Nenhum requinte de garridice cortezã restava ao infeliz prisioneiro,

para quem Leonor de Almeida--sabendo que as suas cartas eram

interceptadas e lidas antes de serem entregues--pedia a quem as lesse,

empregando as frases da mais terna súplica, «uma capa de baeta ao

menos que o resguardasse dos rigores do frio no seu húmido càrcere.»[68]

Mas, velho como estava, lá dentro ardia a mesma chama impetuosa

de orgulho. Não queria aceitar a clemência régia como uma esmola

voluntária, senão como um preito justo, uma restiuìção devida a quem

muito a merecia.

Por isso, longe de se dar por satisfeito com a amnistia concedida

a quási todos os presos políticos do tempo de D. José, vê-lo hemos

em breve começar essa demanda longa e complicada da sua completa

reabilitação judicial, requerendo, acompanhado pelo conde de S.

Lourenço, D. João Ansberto de Noronha, e por três irmãos do marquês

Francisco Assis de Távora, a nomeação de uma junta de magistrados para

se pronunciarem acêrca da sua inocência ou culpabilidade. E emquanto

êsse tribunal, que, por ordem da rainha, não tardou a constituir-se,

demorou o seu parecer, o marquês recusou-se formalmente a ficar na

côrte.

Repugnava-lhe o papel de perdoado, a êle que se reputava vítima de um

julgamento iníquo. Foi, portanto, com a família estremecida para o

vale de Almeirim, onde possuía uma das suas mais formosas quintas.

* * * * *

As cartas de Leonor, que até aqui nos tinham acompanhado e amplamente

informado, faltam-nos neste momento. Só por intuìção poderemos

reconstruir os sentimentos novos, as emoções deliciosas, as surprêsas

melancólicas de que o espírito e o coração dela forma o teatro já agora

silencioso.

Mais tarde, falando de Almeirim, ela procura descrevê-lo com as frouxas

tintas de que dispunha a poesia falsa do seu tempo:

Nem pórticos marmóreos, nem colunas

Que cinzelasse em Paros mão perita,

Há de achar neste sítio: altos pinheiros

Formam de espêssa rama o nosso teto,

E gramínea alcatifa nos of’rece,

Para pensar logar acomodado.

Uma fonte serêna ali murmura,

E mil vezes afoita a fantasia,

Cuida ouvir revolver-se dentro d’água

A Naiade gentil que lhe preside.

Se agita o vento as canas buliçosas,

Se da serra um rochedo assusta a vista,

Mitológicos sonhos me recordam,

Ora aquela que a dor petrificara,

Ora a Ninfa medrosa e fugitiva

Que o pudor converteu em verde junco.[69]

Mas é provável que nessa hora singular da sua mocidade, hora de

ardentes esperanças, de violenta reacção contra a desgraça que por

tantos anos perseguiu todos os seus, hora rubra, iluminada de tôdas

as vivas côres de uma imaginação de poeta, Leonor não tivesse uma

predilecção muito pronunciada pelos pinheiros agudos, nem pelos

buliçosos canaviais da sua solitária Almeirim.

Só amam verdadeiramente o repouso no seio da natureza aqueles a quem a

vida frustrou tôdas as promessas feitas, e que dela cessaram de esperar

seja o que for.

Leonor esperava ainda muito do mundo; êle devia-lhe uma famosa

desforra. Emquanto lh’a não desse ou a não persuadisse a poder de

desilusões de que era um devedor insolúvel, Leonor não queria nem

descanso nem solidão.

O que ela provávelmente ambicionava agora, já cansada de regras

conventuais e de rezas e de misticismo, era mover-se, agitar-se, viver

em tôda a plenitude, e tôda a exuberante energia da sua mocidade,

em tôdas as faculdades do seu curioso e irrequieto espírito. Era

participar da alegria dos outros, de que tantos anos estivera

exilada; era falar com gente môça, despreocupada e feliz; ouvir os

discretos galanteios e as floridas frases namoradas dos rapazes do

seu tempo, e manifestar a graciosa agudeza do seu entendimento em

práticas literárias e eruditas com os celebrados engenhos da época;

era resvalar gentilmente entre finos requebros galantes, nos minuetes

dos esplêndidos saraus, acompanhada por um par preferido; era mostrar

emfim a olhos que soubessem apreciar e ver, a sua impecável formosura

peninsular, os seus grandes olhos luminosos e ardentes onde se

reflectia tanta exaltação, tanta espiritualidade e tanta vida.

O duque de Châtelet, que fêz a sua viagem a Lisboa justamente no ano

em que as filhas do marquês de Alorna deixaram o convento de Chelas

(1777), fala do abatimento em que as havia pôsto a longa reclusão

nestes termos precisos: _Vi duas raparigas que tinham entrado para a

prisão, acompanhando os pais, ainda na primeira infância e que saíam

com dezenove e vinte anos parecendo quarenta. (Voyage en Portugal du

duc de Châtelet)._

Ora a verdade é que não pareciam ter quarenta nem tinham vinte. Leonor

tinha vinte e seis anos; tinha vinte e cinco a irmã, e não podiam

parecer muito mais velhas, porque, posterior à data a que se refere o

duque de Châtelet, é o retrato da nossa biografada que ainda hoje se

admira numa das salas da magnífica vivenda dos marqueses de Fronteira,

em Bemfica, e nesse retrato a beleza imperial de Leonor ressalta com

expressão admirável. Não era sómente uma mulher bonita, era uma mulher

encantadora. Tinha a sagacidade crítica, o espírito leve e sarcástico,

e a observação nítida e profunda de um moralista. Nas suas poesias

contaminadas, é certo, pelas pechas da escola pseudo-clássica, em

que fôra educada e à qual subordinava o seu nativo engenho, cheias

de alusões mitológicas indispensáveis ao tempo, revela-se no entanto

um belo poder descritivo e uma fôrça de reflexão viril. Mais tarde

a educação que lhe deram as viagens e o conhecimento da literatura

estrangeira completaram e aperfeiçoaram o seu talento, e ela foi entre

nós, como a Stael em França, uma espécie de iniciadora, de reveladora

do pensamento e da poesia do Norte, que nos eram inteiramente

desconhecidos.

Em Almeirim, nessa espécie de entre-acto no meío de dois dramas

diversíssimos, Leonor sonhou de-certo com os triunfos que o seu

talento lhe ia conquistar, e com as delícias que lhe daria ao sair da

clausura a intimidade da família, agora completa. É tão natural êste

sentimento, que nem o mais scéptico espírito masculino seria capaz de

esquivar-se-lhe.

Mas não tardou que uma nuvem, prenúncio de muita tempestade interna,

ameaçasse de avolumar-se sôbre a fronte da juvenil poetisa.

O seu pai, o seu querido pai, o confidente da sua sombria mocidade, o

amigo com quem ela desabafava todos os seus pensamentos, ainda os mais

ocultos, o juiz continuamente invocado para julgar os seus versos, para

aconselhar as suas leituras, o espírito a que ela chamava irmão do seu,

e com o qual se comprazia em alar-se pelos livres espaços da abstracção

e da filosofia--que diverso lhe aparecia do que ela tinha imaginado em

longas horas de idealizadora e de inspirativa saudade! Que diferente

dessa figura ideal que ela se tinha deliciado em criar na solidão do

seu quarto de Chelas, quando escrevia envolta num roupão de sêda côr de

fogo, com os belos cabelos soltos, e feliz por sentir-se uma heroína

de romance, ou uma gentil figura, digna da história pelo infortúnio e

pela grandeza da resignação.

Oh! o marquês não mudara; era o mesmo homem rígido, inteiro, coerente,

que sempre fôra; seguia a lógica do seu destino, e mais nada. É certo

que êle recebera, pelas suas leituras juvenis, o influxo das ideas

que, provindas da Inglaterra liberal de 1688 e divulgadas pela França

filosófica e investigadora de Bayle, de Montesquieu, de Voltaire,

irrompiam para nós através da espêssa nuvem de preconceitos que nos

separavam do mundo, e se iam insinuando subtilmente nos espíritos mais

aptos para as acolherem. O marquês de Alorna pertencera áquele número,

bastante avultado, de fidalgos inteligentes, mas de uma inteligência

restrita, que aceitavam até certo limite,--imposto por êles--as novas

ideas em ebulição, contanto que elas não passassem da esfera puramente

abstracta para o campo dos factos definitivos e das leis reformadoras.

Queria, é certo, distinguir-se pelo pensamento livre e pelo critério

desassombrado[70] dessa plebe beata ou hipócrita, dissoluta ou

bestificada, que então enxameava, ociosa e resmungando avè-marias,

pelas portarias dos conventos de Lisboa, ou pelos pátios da fidalguia

opulenta, que a alimentava das migalhas dos seus banquetes, ou das

rações do seu refeitório; mas não admitia que essa plebe se emancipasse

pela educação, e se fizesse povo pelo trabalho, pela fôrça e pela

consciência dos seus direitos e deveres.

Depois vira o espírito das novas ideas encarnado no homem que êle

entre todos odiava, e tinha razão para odiar, no algoz da sua família,

no perseguidor da sua casta. A burguesia,--que para o marquês de Alorna

era representada pelo procurador oficioso, pelo boticário esguio e

grotesco, pelo escrevente _pedinchão_, pelo físico condescendente e

mesureiro, por tôda a caterva de aduladores e de parasitas que se

atropelavam nas ante-câmaras patrícias, e de cuja falange retardatária,

Tolentino, infelizmente um dêles, mas um dêles com génio, fêz

depois a sátira brilhante e a descrição pungitivamente exacta,--a

burguesia emancipara-se, levantara-se, enriquecera, civilizara-se,

creara indústrias e comércio e grandes lavouras[71] e manufacturas

florescentes sob a inteligente protecção de Pombal.

A Igreja, auxiliar e amiga da aristocracia em todo o antigo regime,

fôra despojada de grande parte dos seus privilégios e imunidades

pela mão poderosa do grande inimigo de Alorna. O marquês de Pombal

implantava ideas revolucionárias, servindo-se das armas do mais

intransigente absolutismo. Esta contradição fundamental da sua obra

é que a condenou a ser passageira e efémera. No espírito do pai

de Leonor todo êste espectáculo contemporâneo produziu o natural

retrocesso, que mais tarde se produziu tambêm em França no espírito da

nobreza momentâneamente subjugada e namorada pelas generosas concepções

da filosofia do século XVIII, e que essas mesmas concepções executadas

e levadas até às suas conseqùências lógicas encheram de justificado

pavor.

Leonor, que saía do convento cheia de belas máximas, propagadas

pelos filósofos da enciclopédia, e que julgava seu pai inteiramente

convertido às mesmas doutrinas de liberdade e de filosofia, teve

ao primeiro contacto real com o espírito endurecido do desenganado

fidalgo, uma verdadeira e cruel decepção.

Entre o pai e a filha cavou-se então um abismo moral que nunca mais

foi transposto. Êles que tão bem se tinham combinado por escrito, em

generalidades vagas sôbre a inanidade das grandezas, sôbre os prazeres

da filosofia, sôbre o pouco valor das convenções sociais; êles que

tinham ambos dissertado tão largamente sôbre o muito que o bem dos

povos sobrelevava ao bem dos imperantes[72] e sôbre outros temas

igualmente favoritos da filosofia declamatória e vaga do século--ei-los

que se achavam agora divergentes em quási tôdas as matérias que

versaram. A desgraça e os desenganos de um, levavam-no impetuosamente

arrastado por uma corrente contrária áquela que impelia Leonor,

vibrante de aspirações e de sonhos, para um futuro mais desassombrado

de convenções estreitas, mais livre de superstições e de tiranias.

O marquês de Alorna voltara completamente a ser o fidalgo devoto e

ferrenhamente aristocrático, com assômos violentos de revolta feudal,

que deixara de ser por momentos, durante o tempo em que «pérfidas

leituras de filósofos dignos de queima»[73] o tinham afastado do bom

caminho. Aceitava, até às suas conseqùências extremas, os princípios

da reacção que tumultuava impudente e feroz desde o paço, em que o rei

e a rainha viviam ajoelhados no oratório, até à rua; desde os camarins

forrados de tapeçarias de Arras, em que as damas da côrte tocavam no

cravo músicas de Haydn, de Gluck e de Jomelli, até à taverna em que as

rameiras e os mendigos cantavam ao som do violão nacional as sátiras

populares em que figuravam

Marquês, Mendonça e Mansilha[74].

os poderosos de ontem, hoje vituperados e cuspidos sem dó.

Comandava essa reacção desbragada o novo ministério da rainha, em

que Angeja e Vila Nova da Cerveira representavam a aristocracia

soberba, intransigente e cobiçosa, consumada na arte da cortesania

e da lisonja; em que a figura enigmática de Martinho de Melo se

destacava pela inteligência cultivada e fina, pela mordacidade irónica,

pelo conhecimento profundo das civilizações estranhas de que se

penetrara largamente em França, na Inglaterra e na Holanda, pela hábil

dissimulação com que ocultava, sob a aparência de um fiel servidor da

causa da nobreza, um espírito de radical e de livre-pensador, capaz

no fundo de continuar a obra de Pombal, se o scepticismo não fôsse um

corrosivo, um dissolvente do carácter e da vontade.

Ao pé dêle Aires de Sá e Melo, ministro da guerra e dos estrangeiros,

mas com vocação frustrada para cónego da patriarcal, não se cansava de

recomendar à tropa que rezasse quotidianamente o têrço, beijava a manga

de cada frade que encontrasse no caminho, e benzia-se tantas vezes ao

ouvir missa que era o espanto e a distracção cómica de quem lhe ficava

ao pé.

Quanto ao jôgo de xadrês complicado e subtil da diplomacia europeia,

era letra morta para o devoto ministro, que de resto, na arte da guerra

era tão profano como na de negociador.

O cardeal da Cunha completava êste banal ministério, ao qual devia

incumbir o gigantesco encargo de continuar, aperfeiçoando-a, a obra da

regeneração portuguesa, iniciada pelo grande ministro de D. José. Já

que não podiam nem queriam continuá-la, houve entre elles um preposito

o de restituir ao cemitério da história o Lázaro que a poderosa mão

do grande ministro galvanizara temporáriamente, e n’elle concordavam

com perfeita unanimidade o orgulho de uns, a habilidade de outros, a

demência e a ignorância do maior número.

Para o marquês de Alorna, essa reacção, uma das mais repentinas e

violentas, tinha ainda um grande defeito. Era branda em demasia.

Ao seu ulcerado espírito só satisfaria cabalmente a condenação

de Pombal a penas tão duras como as que êle infligira aos mais

conceituados membros da velha nobreza, e a reabilitação da memória

dos que tinham sido imolados ao que êle supunha um infernal enrêdo do

ministro de D. José. Queria, alêm disso, que os sobreviventes fôssem

restaurados em tôdas as suas honras e todos os seus haveres.

Que a sua própria inocência lhe fôsse reconhecida pela junta congregada

pela rainha, isso tinha êle por certo, e assim se realizou a breve

trecho.

Em Maio de 1777 expediu a soberana um decreto em que se declarava o

marquês de Alorna puro de tôda a culpa de inconfidência restituindo-o

às honras que por direito e nascimento lhe pertenciam[75].

Não ficava, porêm, ainda satisfeito o orgulho do marquês. Uma pretensão

tinha a mais, que muito perto do coração lhe tocava. Vinha a ser a

restituìção dos bens, honras e títulos da casa de Aveiro ao malogrado

primogénito do duque, D. Martinho de Mascarenhas, conhecido entre os

presos da Junqueira pelo _marquesito_.

Nem Latino, o qual explica larga e minuciosamente as diligências que

o marquês de Alorna empregou para êste fim, nem outros escritores que

temos lido, como Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas, etc., conhecem

os motivos particulares que determinaram o marquês de Alorna a meter-se

ousadamente em tão difícil empreendimento. O leitor, porêm, já pelo

capítulo precedente conhece êsses motivos. A filha mais nova do marquês

de Alorna fôra prometida em casamento ao ex-marquês de Gouveia.

* * * * *

Neste ponto permita-se que abramos um parêntesis para contar até ao fim

a lúgubre história de D. Martinho de Mascarenhas.

A instâncias do marquês de Alorna, que desde a sua saída da prisão não

descansava neste assunto, subiu à rainha uma _representação_ de que

Latino Coelho[76] extracta os principais articulados, e em que o filho

do duque de Aveiro se propunha comprovar que não podia ser infamado

pela culpa de seu pai, aduzindo que era immune da pena hereditária por

ser _nobilíssimo_, como descendente de régio tronco. Êste _memorial_

parece haver sido firmado por um letrado de fama áquele tempo na côrte

de D. Maria, chamado Francisco da Costa. E diz Latino que, ou porque o

causídico fôsse fogoso de índole, ou porque a tardança no bom despacho

da rainha azedasse os ânimos do defensor e do mandante, o caso é que o

advogado de Gouveia propugnara com veementes razões os direitos do seu

cliente.

«Trazendo em seu auxílio a constituìção de Arcadio, provava com

jurídicos fundamentos que não cabia aos filhos antenatos ao delito

a infâmia pelos crimes paternos. E agitando e resolvendo em sentido

liberal o mais grave problema dos publicistas, a origem da régia

autoridade, reproduzida em ousadas afirmações a doutrina de S. Thomás

e do padre João de Mariana, de que a suprema potestade no povo residia

e dêle era transferida condicionalmente para que a podesse reassumir e

exercer quando a salvação do Estado o reclamasse.»[77]

Concluía o advogado que os grandes de Portugal não podiam ser sujeitos

à pena de infâmia pelos delitos de seus maiores.[78]

O tom da doutrina, a segurança das asserções, a soberana e imperativa

altivez de tal súplica, respiravam, segundo assevera o historiador já

citado, por um lado a aristocrática altivez dessa nobreza da côrte que

Pombal esmagara por algum tempo, e cujo orgulho agora renascia mais

ulcerado e mais violento, por outro lado a revolucionária doutrina da

soberania nacional, que principiava a insinuar-se nos espíritos mais

adiantados.

O caso é que, no testemunho de muitos contemporâneos bem informados,

tais como o príncipe de Raffadali, que era ao tempo ministro

plenipotenciário de Nápoles em Lisboa, do cavalheiro de Pollon,

ministro plenipotenciário da Sardenha na mesma côrte, do autor das

_Cartas de Lisboa_ extractadas no _Jornal de Murr_, e de outros mais,

sentiu-se a rainha profundamente ofendida pelo desacato à régia

autoridade que nesse _memorial_ era feito, e chegou a manifestar o seu

formal desagrado ao marquês de Alorna, o qual, segundo o seu costume,

se retirou azedado para as suas propriedades longe da côrte.

Confirmando as suas asserções acêrca do desrespeitoso _memorial_,

Latino Coelho publica por extenso o edital do intendente geral de

polícia, datado de 13 de Março de 1781, _mandando recolher todos os

exemplares de vários papéis satíricos em prosa e em verso, e de um

extenso arrazoado em favor de Martinho de Mascarenhas_.[79]

Foram, portanto, absolutamente baldados todos os esforços mais ou menos

hábeis empregados pelo impetuoso marquês de Alorna.

O noivo de Maria de Almeida, o Tancredo dos sonhos heróicos e

romanescos das reclusas de Chelas, não participou do amplo favor com

que, a impulsos e sob a influência dos grandes da côrte, Angeja,

Vila Nova da Cerveira, Marialva, etc., e aproveitados destramente os

melindres de consciência da fraca e desgraçada rainha, se proclamou

judicialmente em alvarás expedidos em diversas épocas a inocência dos

implicados no terrível processo, exceptuando o duque de Aveiro, sua

descendência e os três subalternos seus cúmplices.

A certeza dolorosa de que seriam baldadas as suas diligências com o

fim de reabilitar e de restaurar na perdida jerarquia a D. Martinho

de Mascarenhas, parece haver obumbrado e entristecido ainda mais

profundamente o espírito já sobejamente melancólico do marquês.

Recorreu desde então mais freqùentemente à solidão das suas quintas

e herdades. Muito curioso de sciências matemáticas e de astronomia,

a sua principal diversão era o estudo dos corpos celestes. Numa

das composições mais felizes de Leonor de Almeida, a imitação da

_Primavera_, de Thompsom, refere-se ela por êste modo aos estudos de

seu pai:

Quando lá nessa Tempe solitária

No tranqùilo Almeirim as musas honras,

Ou nas rochas de Almada os céus estudas.

Lá, combatendo a turba de incertezas,

Ignorado, a teus pés vês os sistemas

Que a Newton e a Descartes deram fama.

* * * * *

Quando o marquês permanecia algum tempo em Lisboa, não deixavam de

concorrer às suas salas as figuras mais notáveis da côrte de D. Maria

I, que, por aliança ou parentesco, estavam tôdas estreitamente ligadas

com a ilustre casa de Alorna. Visitavam-no tambêm com freqùência os

estrangeiros famosos que por aqui passavam, e os diplomatas que aqui

representavam suas respectivas côrtes. Só infelizmente não brilhava

entre os freqùentadores dêsses saraus elegantes e falados por tanta

maneira o infeliz que havia sido noivo de D. Maria de Almeida. É para

nós, cronista, um verdadeiro enigma esta espécie de abandôno em que D.

Martinho se deixou subverter. Como pode conciliar-se a amizade que o

marquês de Alorna lhe votava, o seu porfiado interêsse em salvá-lo, com

a resolução que o levou a conceder a mão de Maria, a prometida noiva do

ex-marquês de Gouveia, ao conde da Ribeira Grande?

É bem provável que a irmã de Leonor, em quem as mais doces virtudes

da alma feminina--a piedade e o desinterêsse--parecem ter florescido

suavemente, quisesse ser fiel no desamparo e na miséria áquele que lhe

tinham permitido que amasse, quando havia a fundada esperança de que

a corôa de noivado por êle oferecida tivesse o esplendor soberbo de

uma corôa ducal. Mas fôsse qual fôsse o motivo que actuou no ânimo do

marquês de Alorna, o caso é que êle ajustou o casamento de sua filha

com o conde da Ribeira Grande, e que Maria se submeteu em silêncio.

O romance daqueles puros amores foi cortado em flor, justamente na hora

em que a figura, para nós apagada, quási indistinta de D. Martinho,

devia tornar-se trágicamente interessante para uma mulher inteligente,

romanesca e namorada.

O marquês de Gouveia desapareceu. Sumiu-se na onda negra da miséria.

Diz Camilo Castelo Branco que o sustentou até 1804, data em que morreu

numa humilde casinha de Buenos Aires, a bôlsa do conde de Óbidos,

do próprio marquês de Alorna, e finalmente de D. João VI. Timbraram

em socorrê-lo pecuniáriamente, livrando-lhe o corpo das agonias da

fome, já que não podiam ou não queriam livrar-lhe a alma de angústias

lancinantes com que a teimosa memória havia de inferná-la.

Educado, como o eram os fidalgos do seu tempo, na ignorância das

coisas positivas e do trabalho redentor, o infeliz não soube reagir.

Restavam-lhe três caminhos a seguir: o da revolta aberta contra a

iniqùidade da instituìção que o esmagava; o do labor que o emancipasse

das esmolas com que os da sua casta o manietaram e humilharam; ou o da

abjecta submissão à injustiça que lhe faziam. Foi o terceiro que êle

escolheu!

Tancredo era no fim de contas um mediano herói!

Maria de Almeida, essa, como dissemos, casou. Nas raras cartas dela

que temos à vista, respira-se, a par de uma elegância e de uma graça

feminina verdadeiramente encantadoras, a melancolia dolente e vaga da

alma que se sente ferida na mais delicada e secreta fibra das suas

asas. Morreu môça, mas estremecida pelos que a conheceram. Leonor tem

lamentos inconsoláveis na sua musa um pouco ingrata para lhe chorar a

morte prematura. Não era feliz, dizia ela com resignação suavíssima

talvez lembrada das quimeras da sua poética mocidade; mas consolavam-na

a música, os versos e os filhinhos que deixou na primeira infância.

A sua voz era famosa nas salas de Lisboa, os seus versos são

celebrados por Filinto, para quem ela é a formosa Daphne. Desta figura

inteiramente ignorada pela história, apenas entrevista pela crónica

do seu tempo, ressalta para nós, que lográmos através das suas cartas

conhecê-la um pouco, um encanto estranho, uma doçura indizível, como

que um pertinaz aroma de graça aérea e casta.

Na nossa infatigável busca de documentos que nos fizessem penetrar na

intimidade de Leonor de Almeida, topámos, sem querer, com êste pobre

idílio ignorado, cujo remate é de uma tão insondável e silenciosa

tristeza!...

Que nos seja perdoado o termo-nos demorado respirando o perfume que

dêle se exala, como de uma violeta esquecida entre as fôlhas de velino

de um livro de orações.

* * * * *

Dissemos que freqùentavam a casa de Alorna as figuras principais da

côrte. É azado, portanto, o ensejo para fazer uma rápida resenha dessa

côrte ainda fulgurante, ainda opulenta, e que foi a última digna dêsse

nome, a um tempo ôco e brilhante, que nós possuímos.

Não era bela a rainha que lhe presidia, mas um viajante inglês, tão

admirável observador como Horácio Walpole e tão fino _dilettante_ como

êste, que ao tempo estava em Lisboa, declarava que era verdadeiramente

impressionadora a gentil majestade do seu porte, a nobre expressão

bondosa e ao mesmo tempo imperativa da sua fisionomia.

De entendimento limitado e educação deplorávelmente defeituosa, essa

pobre rainha foi uma mártir do seu alto destino. Nascera para ser uma

excelente e cuidadosa espôsa e mãe; teve de governar, em crise de

transição tempestuosa e difícil, um país na sua generalidade ainda meio

bárbaro.

De um lado a piedade filial, que foi nela uma virtude acrisolada,

ordenava-lhe que respeitasse absolutamente as decisões, por violentas

que fôssem, com que D. José assinalou o seu reinado enérgico; por outro

lado uma reacção desenfreada, tomando as aparências de justiça, e

usando das armas que a Igreja põe na mão dos seus ministros, impelia-a

para o caminho da mais irreverente demolição de todo o reinado

precedente. Persuadiam-na a que castigasse aqueles que o pai tinha

amado; que reabilitasse os que o pai considerou como seus assassinos;

que desfizesse as sentenças que o pai confirmara; e ora lhe pintavam

com vivas côres o rei que a antecedeu a arder nas chamas do inferno,

pelo mal que tinha feito à fidalguia e aos ministros da Igreja, ora lhe

representavam com côres não menos vivas a sua futura condenação a penas

iguais, se não desfazia tôda a obra iníqua, ideada por Pombal, e que D.

José deixara executar. Esta luta foi dolorosa, foi cruel demais para o

cérebro fraco da infeliz rainha. Endoideceu!

Ouviam-na passar pelos vastos corredores do paço rompendo os ares

desesperadamente com a sua queixa ululante, com o uivo trágico da sua

loucura! Os gritos que ela soltava, agudos, dilacerantes, gritos de

alma penada, que implora o fim da negra expiação, ecoavam lúgubremente

pelas salas da Ajuda ou de Queluz.

Beckford, que lh’os ouviu, compara-os aos trágicos lamentos estrídulos

que as abóbadas do castello de Berkeley repercutiram quando a Eduardo

II foi infligida a mais crua e torturante das mortes.[80]

_Ai Jesus! Ai Jesus!_ gritava ela na amargura infinita da sua agonia,

julgando ver do meio de uma chama enorme, que lhe incendiava o quarto,

lambendo com milhares de línguas de púrpura a cama em que ela se

debatia, surgir o pai tal como o representa a estátua no Terreiro do

Paço, mas negro, calcinado, feito em carvão, emquanto uma multidão

de fantasmas horrendamente desfigurados--os fantasmas de Belêm--o

empurravam para baixo, para o inferno, para o eterno fogo que nunca se

consome, para a chama perpétua que nunca se apaga.[81] Que trágicas

visões shakespereanas as dessa pobre mulher fanática, instrumento

e vítima dos reaccionários que a enlouqueceram! As suas noites sem

sono ou cortadas de pesadelos atrocíssimos, as lutas acerbas da sua

consciência sem bússola e solicitada ardentemente para contrários

lados, as palavras cruéis dos seus conselheiros tão implacáveis no

ódio, tão exigentes na vingança, as incertezas em que se debatia o seu

obscuro entendimento, tudo faz dela a vítima expiatória de crimes cuja

razão de Estado nunca chegou a penetrar.

O historiador alemão Henrique Schaeffer, a quem se deve uma das

melhores histórias de Portugal que possuímos, o benévolo Beckford, que

tão íntimamente simpatizou com a alma portuguesa, o maledicente mas

penetrante Costigan, o duque de Châtelet, que na sua estada em Lisboa

freqùentou o paço e conviveu com a gente mais grada da côrte, todos

são unânimes no juízo favorável que acêrca da rainha formulam por bem

diversas maneiras.

«A rainha, diz Châtelet, é uma mulher verdadeiramente digna de estima

e respeito. Não possue, porêm, um só dos predicados que constituem

uma grande rainha. Ninguêm é mais caridoso e mais compassivo do que

ela. Mas estas excelentes qualidades são viciadas pela mal entendida e

excessiva devoção. O confessor (seria sempre êle?) obriga-a a despender

em devotos e penitentes exercícios o tempo que, sem dano da sua

salvação, poderia consagrar à felicidade dos seus povos.»

Escrevendo isto o duque de Châtelet não sabia que D. Maria I, a infeliz

e trágica rainha, quando passava assim as horas prostrada ante o

altar de Deus terrível, tinha como objecto único o alcançar à fôrça

de orações ardentes, de humildes súplicas, de rezas intermináveis a

salvação, não da sua própria alma, mas da alma dêsse pai que adorava,

e que lhe pintavam como a presa dos castigos do Eterno. Em vão lhe

diziam que era inexpiável o crime dêsse rei que perseguira os servos

da Igreja e os grandes vassalos da monarquia; ela, piedosa e doce

mulher, teimava em persuadir-se, embora pouco ortodoxamente, de que as

sentenças vingadoras e implacáveis do Deus de Israel se podem temperar

pela ternura humilde das nossas súplicas e pela ardente e copiosa

torrente das nossas lágrimas; que a chama deslumbradora e terrível do

Sinai se volvera, para nós, cristãos no dolente e inefável espectáculo

dos suplícios do Calvário!

Por isso chorava e rezava continuamente nos degraus do altar, pedindo

a Deus o perdão do pai que tanto amara, do pai em quem não queria nem

podia ver um condenado sem esperança.

«A misericórdia e a justiça, dizia Beckford, que são o lema com tanta

impropriedade escrito na bandeira do santo ofício, poderiam aplicar-se

com verdade irrefragável a esta princesa boa e virtuosa.»

_A decent fresh looking woman_, chamava-lhe Costigan, o menos cortesão

de todos. Pois até essa frescura física murchou, desapareceu no combate

interno em que a razão da infeliz rainha sossobrou finalmente.

* * * * *

Aquele que podia ser seu guia moral, seu companheiro e seu amparo, não

passava de uma das mais grotescas se não da mais grotesca figura da sua

côrte.

É ainda a Costigan que vamos pedir a descrição do marido que a política

portuguesa impôs à desventurada mulher. «Ao pé de D. Pedro III,

diz o espirituoso observador irlandês, o próprio rei Carlos III de

Espanha, tão célebre pela fealdade, pode ser considerado um verdadeiro

Adonis. O desalinhado aspecto da cabeleira loura sempre à banda, o

olhar azul claro, parado e estúpido, as feições ásperas, grosseiras

e desarmónicas, tudo lhe dava o estonteado aspecto--a êle, coitado,

que nem vinho provava--de um velho inglês vencido pela quási completa

ebriedade.»[82]

Vivia, de resto, a rezar, encerrado na sua devoção estreita,

formalista, sem generosidade e sem ideal, como uma ostra na sua rude

concha.

Não tinha mesmo sequer uma hora para se informar acêrca das coisas

públicas, que não perceberia, é certo, pois que todo o seu dia se

passava no seu oratório particular, na capela ou nas festas religiosas,

que em Portugal ostentavam naquele tempo o maior luzimento e a mais

soberba pompa. Eram elas o assombro dos viajantes estrangeiros, ainda

os mais cultos e bem informados, que nem no Vaticano tinham visto coisa

que se comparasse à beleza, majestade e perfeição com que na capela da

rainha se executavam as músicas de Jomelli, de Perez, de Haydn e de

outros mestres igualmente célebres.[83]

Quando el-rei acordava dêsse estranho sonambulismo místico, em que a

existência se lhe esvaía, tinha a mais puéril credulidade para tudo que

lhe diziam os homens da nobreza que o cercavam e que eram os chefes da

aristocracia.

O abade Garnier, cura da igreja de S. Luís, que então vivia em Lisboa,

e cujas cartas interceptadas no _Gabinete da abertura_ são fonte

preciosa de informação acêrca dos acontecimentos contemporâneos, pois

que o abade tinha a aguda faculdade observadora peculiar ao seu estudo,

diz acêrca de D. Pedro III isto mesmo, acrescentando que a rainha,

cujo espírito é muito justo, mais circunspecta nas suas falas, mais

moderada, mais prudente e esclarecida nas suas opiniões, não se deixa

tão fácilmente arrastar pelo que ouve em tôrno de si aos interesseiros

áulicos, que, não podendo convencè-la, por isso mesmo a enlouqueceram.

O duque de Châtelet, êsse julga D. Pedro devoto até ao fanatismo;

sombrio e silencioso, constantemente ocupado em preces e procissões.

Como é, pois, que tal rei podia ser um conselheiro eficaz e razoável

para a consciência tímida, nutrida de escrúpulos devotos e alanceantes

da infeliz filha de D. José I?!

Ao pé da rainha e do rei, de quem esboçámos os liniamentos vagos,

aparece uma formosa figura que a morte espreita já, com a caprichosa

preferência que a tem quási sempre atraído para os primogénitos de

Bragança.

É a figura do príncipe do Brasil, D. José. O marquês de Pombal

estremecia e educara políticamente êste môço, em quem antevia

porventura o continuador enérgico e eficaz da obra que êle sonhara, e

da qual chegara a realizar as edificações fundamentais.

Dizia-se, e há cartas de Leonor de Almeida a seu pai, escritas de

Chelas, que se referem com segurança a êste projecto, que a idea fixa

do marquês de Pombal consistia em fazer promulgar em vida de D. José

a lei sálica em Portugal, tornando nulos os direitos de D. Maria I, e

determinando assim que ao rei, seu instrumento passivo, sucedesse o

rei, seu discípulo inteligente.

É muito possível que, se tal houvesse sucedido, o primeiro acto do

príncipe fôsse expedir de si o velho conselheiro de seu avô, o velho

sustentáculo de uma política reformadora e enérgica. O marquês quereria

continuar a dominar absolutamente, fazendo render o serviço feito;

o juvenil monarca teria a natural sêde do mando, que é uma das mais

nobres ambições viris, e o conflito não podia evitar-se entre ministro

e rei.

Assim o vimos recentemente num exemplo famoso, e as leis da história

variam pouco nas suas conseqùências e na sua marcha. Tambêm Guilherme

II era discípulo e querido discípulo de Bismarck, e sabemos como êle

tratou o grande chanceler da Alemanha unificada e poderosa.

Não se pode, porêm, saber ao certo se esta idea germinou no espírito

do marquês de Pombal, ou se gratuitamente lhe foi atribuída pelos seus

inimigos, para mais o indisporem com a rainha D. Maria I. O que se

pode afirmar é que Pombal tinha comunicado ao príncipe do Brasil os

seus dois ódios dominantes, as duas paixões supremas, que moveram tôda

a sua política: o ódio ao inglês e o ódio ao jesuíta. Êle sabia que a

manha subtil e insinuante de um, e a fôrça brutal e triunfante de outro

tinham de minar e destruir esta fraca nação.

Inspirara-lhe igualmente o seu amor ao progresso material, e a sua

repugnância pela educação fradesca, que punha Portugal a cem léguas de

atrazo em relação às outras nações europeias.

Afastado dos negócios o grande ministro de D. José, o príncipe do

Brasil via com desespêro curvada de novo em atitude de abjecta

subserviência, diante do gabinete inglês a côrte de sua mãe.

O objecto da sua grande admiração era José II, imperador da Áustria,

com quem se correspondia através do duque de Lafões. Êste, durante a

sua longa permanência em Viana, privara íntimamente com o imperador

e com os primeiros personagens da sua luzida côrte, uma das mais

namoradas de arte que ainda brilharam no mundo.

O que o príncipe do Brasil mais admirava em José II era a sua concepção

moderna, civilista e centralizadora do Estado, eram as suas reformas

eclesiásticas e pedagógicas, empreendidas e realizadas contra o que

êle, imperador, classificava nas suas cartas como a _dominação dos

fakirs e dos ullemas_, e tendo por fim roubar à tríbu de Levi o

monopólio da inteligência humana[84]; era o seu combate eficaz contra

o ultramontanismo, contra os abusos de autoridade das congregações

religiosas, emfim, o seu amor da liberdade religiosa e do progresso

industrial, tão raros num soberano.

Vendo a natureza ociosa e a fradaria estulta, que ambos tinham

concluído a sua missão histórica, e que, portanto, só podiam ser um

tropêço e um obstáculo, manterem êste pobre país na ignorância e na

inércia, vendo a nossa inferioridade militar, que êle se não cansava

de atribuir à dominação do clero, fatalmente debilitadora da energia

de uma raça, outrora heróica, o príncipe do Brasil sonhava com uma

transformação tão radical no sentido religioso, social e económico,

como essa a que o imperador austríaco estava sujeitando o amálgama de

povos que constituiam o seu vasto e desordenado império, que antes dêle

se tornara um verdadeiro Estado teocrático à moda antiga.[85]

Não é que José II fôsse um liberal no sentido moderno da palavra. O

século XVIII não teve príncipes liberais. Nem José II, nem Frederico

da Prússia, nem Catarina o foram. Foi, porêm, o século em que os

imperantes tentaram introduzir reformas radicais na administração

dos respectivos Estados, usando, para estabelecer essas reformas

revolucionárias, das armas que o absolutismo levado aos seus extremos

limites lhes fornecia a todos. A rápida reacção que no espírito de uns

se operou, a inutilidade dos esforços dos outros, a tempestade medonha

que a boa vontade da maior parte desencadeou na Europa, mais uma vez

vieram confirmar a lei moral de que no mundo é indispensável a harmonia

entre os meios e os fins, e a lei histórica de que não pode vingar nem

frutificar pacíficamente uma revolução vinda de cima.

A crise por que então passou o mundo para que nêle florescesse

a liberdade política é a mesma, pouco mais ou menos, que hoje

atravessamos para que se melhorem e modifiquem as condições económicas

do maior número. E assim como então havia reis e imperadores filósofos,

que queriam dar à burguesia como um favor outorgado, o que ela exigia

como um direito irrefragável, assim hoje há, no ápice do edifício

social o papa, e mais abaixo os estados e soberanos, que querem

atender ao mal-estar das classes desvalidas, e conceder-lhes como

regalias aquilo que êles proclamam como imprescritível obrigação.

Nem a burguesia do século XVIII nem o quarto estado do século XIX

aceitam o favor partindo de cima. Uma conquistou o seu lugar; o outro

conquistá-lo há mais tarde, e muito sangue e muitas catástrofes

individuais e colectivas foram e serão o preço doloroso da conquista.

Será amanhã inútil a intervenção dos poderes estabelecidos, como foi

então efémera a obra revolucionária dos reis, como José e Frederico, e

de ministros como Pombal.

Do programa de José II, que tanto cativara o nosso príncipe do Brasil,

se disse que era a antecipação de tudo que mais tarde e durante a

Revolução fêz a assemblea constituinte. É que tanto a França de 1789

como o imperador da Áustria obedeciam ao mesmo ideal de razão pura,

proclamado pela filosofia do século.

Não admira que essa abstracção encantadora seduzisse tão completamente

o nosso pobre príncipe.[86]

Os que falavam com êle íntimamente percebiam sem custo o doloroso

desdem que as coisas da sua terra, voltadas, desde a morte de Pombal,

ao antigo estado, lhe produziam no cultivado espírito.

Pensava em libertar o seu país e a sua raça do jugo de um fanatismo

esterilizante, reflectido nas ideas e nos factos, desde a religião até

à economia, mas a morte, que teimou em prostrá-lo na flor dos anos, não

lhe deixou pôr em execução os seus projectos grandiosos, poupando-o

à triste decepção que aguarda todos os que julgam opôr eficazmente a

vontade individual ao fatalismo irredutível das correntes históricas

promanadas de remota origem. Assim tambêm o doce visionário que se

chamou Pedro V. morreu antes de ter cumprido as esperanças que sôbre

êle edificara esta nação _messiânica_, que há tanto tempo espera

debalde por um salvador providencial...

* * * * *

A morte do príncipe do Brasil, causada por um ataque de bexigas,

as quais, segundo então se murmurou, não foram logo cuidadosamente

tratadas, mais contribuiu ainda para lançar o espírito da já alucinada

rainha num inferno de agonias. O príncipe tinha o seu partido na côrte,

mas tinha tambêm contra si tôda a côrte magna dos conservadores, dos

reaccionários, dos fanáticos que tremiam do seu espírito de iniciativa,

da sua alta concepção da política de um povo, da sua preocupação do

ensino civilista e da administração, de tudo que fazia dêle a antítese

da rotina pachorrenta, que era o lema da sua côrte.

Não pode dizer-se que houvesse crime na sua morte, mas há quem assegure

que não houve tanta solicitude no tratamento da doença quanta seria

necessária para salvar esta vida preciosa.

Entre os que faziam oposição às tendências anti-jesuíticas, e às

aspirações generosas e liberais do príncipe D. José, avulta uma das

figuras mais pitorescas da côrte de D. Maria I, o seu confessor, fr.

Inácio de S. Caetano, mais conhecido pela dignidade de arcebispo de

Tessalónica.

Começara por jornaleiro, assentou praça de soldado, e foi cabo de

infantaria em Chaves; dalí vestiu a estamenha fradesca, e, feitos os

votos, cursou o que então se chamavam as _artes_ no colégio de Nossa

Senhora dos Remédios, em Évora, onde florescia, em todo o seu falso

esplendor, a filosofia desnaturadamente apelidada de aristotélica.

Não era, pois, inteiramente analfabeto, como teem querido dizer,

êsse frade obeso, jovial, de óptimo humor, que o marquês de Pombal

julgou suficientemente inofensivo para fazer dêle o confessor da então

princesa D. Maria. Logo que esta subiu ao trono, fr. Inácio foi elevado

à dignidade arqui-episcopal, à de grande inquisidor e principalmente à

de primeira influência no govêrno.

Acusam-no os que então o viram de perto--e é um dêles o observador

irlandês a que mais de uma vez nos temos socorrido pela sua ampla

informação, e pela sua mordacidade inteligente--de parecer engordar,

e farto e satisfeito, no meio dos desastres da nação que os bons

patriotas julgavam ameaçada de tornar breve a ser uma província de

Espanha.

Beckford, todavia, que viveu na mais estreita intimidade com o

arcebispo, fêz dêle um retrato encantador pela chanternidade, pela

despreocupação das grandezas, pela tolerância boníssima, pelo encanto

pitoresco da sua conversação risonha e maliciosa.

¿Não era um austero; quem o podia ser naquele meio? Não desdenhava,

apesar da suprema dignidade do seu cargo, o prazer, aliás platónico,

de perseguir com chocarrices de antigo furriel, pelas alamedas de

bucho de Queluz--sátiro pesado e folgasão--as ninfas ligeiras e nem

sempre cruéis que constituiam o alegre rebanho das açafatas. O seu tiro

certeiro contra as fraquezas do próximo que cruamente observava não se

distinguia pelos requintes da caridade evangélica.

Mas a verdade tambêm é que era honrado, é que, sendo inquisidor, nunca

se aprouve em perseguir nem odiar, e, tendo um poder absoluto no ânimo

da rainha, contrabalançou, emquanto viveu, as tendências ferozmente

reaccionárias e cruelmente odientas dos ministros do tempo, empenhados

em destruir a obra de Pombal, em não deixar penetrar no baluarte

assediado da sociedade portuguesa as ideas que lá fora eram propagadas

com insistência e acolhidas com avidez, e em restabelecer, na sua

antiga dominação soberba, a teocracia e a nobreza associadas na mesma

obra de retrocesso político e social.

Deve-se ao arcebispo de Tessalónica o não terem logo os jesuitas

reassumido a primitiva influência. E se depois, considerações

pessoais--porque não era um austero--o fizeram afrouxar na oposição

ao ultramontanismo e à grande fidalguia ambiciosa que já começava a

detestá-lo e a minar-lhe o poder, o certo é que foi sempre mal visto da

cúria romana, a cujas pretensões e exigências abusivas não cessou de

tenazmente opôr-se.[87]

Quando êle aparece acompanhado do leigo _besuntão_, que é seu

cozinheiro, seu criado de quarto, seu secretário e confidente,

curvam-se diante dos dois em atitude de abjecta adulação, chegando

mesmo a ajoelhar-se reverentes ante o arcebispo os mais altos

personagens da côrte. Todos apresentaram _memoriais_ e súplicas; uns

pedem lugares, outros promoções, alguns, mais astuciosos, a simples

bênção de que o arcebispo com a sua grossa malícia fradesca finge não

ser pródigo.

E êle, com aspecto desprezador, sem se enternecer, nem se lisonjear,

atravessa todo êste mundo de aduladores brazonados com a compostura de

um homem que houvesse nascido em berço de oiro. O leigo, na ausência do

arcebispo, é o objecto de quási iguais respeitos e cumprimentos.

São proverbiais as respostas sarcásticas de uma ironia acerada, de uma

agudeza epigramática verdadeiramente flageladora com que o confessor da

rainha retribuía as lisonjas dos nobres pretendentes que o cercavam. É

que, sob o aspecto grosseiro e chão, havia nêle um observador finório,

que sabia ler por detraz dos cumprimentos requintados, das frases

cortesãs, das elegantes reverências, a cobiça vil dos aspirantes de

rendosas prebendas, e o desdem íntimo com que se vingava da cruel

necessidade de o adular essa nobreza orgulhosa do seu sangue, que o

absolutismo dos dois últimos reinados havia envilecido tão sórdidamente.

Por isso o arcebispo, fugindo às pompas da côrte, às solenidades do

conselho, a _êsse mulherio de escada acima_ que lhe punha a cabeça em

água, e que nem mais nem menos era do que a rainha e as infantas, só

se sentia à vontade nos seus aposentos particulares, com um capote

sujo e cheio de remendos, um leitão assado na mesa, e a franqueza mais

risonha e mais sôlta na palavra e no olhar...

O leigo contava-lhe então quantos condes lhe haviam beijado a manga e

quantos tocado o escapulário, e quantos nobres lhe tinham preguntado

pela sua saúde preciosa, e quantos lhe tinham feito respeitosas

mesuras; e o prelado ria, ria em plena alegria de frade obeso e glutão,

que saboreia em liberdade, de envolta com as vitualhas de um bom

jantar, a cómica baixeza de cortesãos vistos por dentro...

Uma virtude cristã, a da piedade, doura e idealiza esta grosseira

figura de frade. Emquanto êle viveu, a rainha não conheceu os tormentos

que mais tarde infligiram à sua consciência de devota e ao seu coração

de filha... O inquisidor mor era pela tolerância absoluta contra

o fanatismo odiento e militante; o confessor da rainha era pelo

esquecimento do passado contra os que pretendiam fazer de vingança

o seu lema de govêrno. Não tem, pois, razão a história em maltratar

quem se recomenda num meio corrupto e cruel por esta divina virtude da

caridade e do perdão.

* * * * *

Em tôrno da família real e dos seus apêndices mais próximos, tais como

o ministério, o confessor, etc., reùne-se uma côrte ainda brilhante,

apesar dos golpes com que a mutilara a mão implacável do ministro de

D.José.

Os duques de Lafões e de Cadaval, os marqueses de Angeja e de Marialva

figuram entre os primeiros, e ao pé dêles enfileiravam-se opulentos

titulares, marqueses, condes, viscondes na posse de gloriosos nomes

tradicionais e representando todos antigas casas, ainda não decaídas da

sua primitiva opulência e grandeza, e que contribuíam para dar à vida

palaciana um tom de tradicional majestade hoje perdida.

Era celebrada a hospitalidade portuguesa mesmo entre os que mais

acremente censuravam os nossos defeitos de raça.

A mesa do marquês de Marialva, um dos mais lindos tipos de fidalgo, um

dos mais perfeitos exemplares da velha nobreza, espécie de patriarca

universalmente querido e respeitado desde o paço real até à rua, e que

durante o proconsulado pombalino fôra o desvelado protector de todos

os fracos, logrando muitas vezes alcançar a clemência régia para os

mais ameaçados pela cólera do ministro--à mesa do marquês de Marialva

assentavam-se quotidianamente dezenas de convivas; das cozinhas do seu

palácio saíam por dia _trezentas_ rações distribuídas entre a plebe

parasita da capital; o pátio cheio de seges, de estrume e de lacaios,

lembrando, no dizer malicioso de Beckford, um pátio de mala-posta,

conduzia ao célebre picadeiro, onde o velho marquês se divertia em

assombrar os amigos com os prodígios da sua destra e famosa equitação.

Subia-se dalí para os vastos aposentos, onde uma quantidade enorme de

relógios--engraçada mania do marquês--marcavam em gentis minuetes,

ou em figurações engenhosas, as horas que iam passando alegremente,

ora a ver as curiosidades da Índia e da Itália, que cobriam as mesas

ricamente envolvidas em damasco e veludo vermelho, ora a escutar as

agudas notas da voz de Policarpo, um dos primeiros tenores da capela da

rainha, que se acompanhava a si próprio tocando harpa, e que deliciava

os ouvintes com essa arte admirável, que foi o culto artístico, quási

exclusivo, do nosso século XVIII.

De vez em quando uma porta que se abria, logo fechada, deixava entrar

nas salas interiores uma adorável figura de mulher, de olhos lânguidos

e feiticeiros, olhos de portuguesa a quem um grupo de crianças cercavam

como grinaldas de flores vivas, e que trazia à memória do erudito

estrangeiro, que porventura a lobrigava rápidamente, uma esplêndida

alegoria de Rubens ou de Veronese.[88]

Para a grande sala dos banquetes em dia de mais pomposo ceremonial as

pesadas travessas de prata cinzelada, em que lourejam os leitões e as

grandes peças de caça, são trazidas por um longo séquito de escudeiros

e de capelães, no peito de muitos dos quais brilha a cruz de Cristo ou

de Aviz.[89] Êste modo de ser servido à mesa tem um ar inteiramente

feudal, e transporta a imaginação dos estrangeiros para os dias do

passado, em que os chefes guerreiros são servidos como reis pelos

nobres seus vassalos.

Um dia, no fim de um dêsses banquetes a que se assenta um grupo da mais

fina flor da nobreza de Portugal, correm todos a ouvir um missionário

que reconta terríveis milagres em que a cólera de Deus e a sua vingança

se manifestam medonhamente. A marquesa, os filhos e as filhas escutam

com ansiosa avidez a história milagrosa e terrível. A noite vem caindo

lentamente. Ninguêm se atreve a pedir luz, e a voz do missionário

continua trágica, cavernosa, falando das cóleras divinas e dos

tremendos castigos do Eterno... Assim o banquete da vida portuguesa,

de uma tão naturalista alegria, foi interrompido pela aparição do

lívido fanatismo, e o seu riso de caveira paralizou tôdas as nossas

energias, e o seu sôpro esterilizador queimou a vasta seara das nossas

esperanças, que verdejava ao sol de Deus.

* * * * *

Com essa tremenda superstição das coisas sacras, que tão funesta

impressão exerceu no espírito da nossa raça, conciliava muita vez a

fidalguia não só os mais soltos costumes, mas tambêm o mais risonho

paganismo cristão, e o mais desenfreado carnaval de alegria. E senão

vejamos esta scena característica.

Pelos terraços do palácio Marialva, onde metade da família está ocupada

em rezar ladaínhas e terços, e outra metade em tocar à guitarra as

voluptuosas _modinhas_ que Beckford adorava, brilha de repente a luz

trémula e fugaz dos archotes e das lanternas.

Ouve-se a bulha dos remos caindo na água perto das varandas que dão

sôbre o Tejo e de um escaler de cincoenta remadores que aproa ao cais,

sái o velho fidalgo acompanhado do filho D. José e seguido por uma

multidão estranha e pitoresca de músicos, de poetas, de toureiros, de

lacaios, de frades, de anões, de negros, de crianças de ambos os sexos

fantásticamente vestidas.

Vem de uma romaria ao altar de um santo que fica da outra banda do

Tejo. Rompe a marcha um corcundinha anão soprando uma minúscula

trombeta; ao corcunda segue-se um figurão alto, velho, desasado,

gingão, que se pavoneia muito contente no seu uniforme vistoso, e que

já, em não sei qual ilha remota, fêz o papel de governador. Um frade de

catadura feroz, mais alto do que Sansão, dois capuchinhos carregados

com cestos enormes de misteriosas provisões vem logo atrás. Aparecem

em seguida dois tipos não menos característicos: um boticário esguio,

esgrouviado, esquálido, cadavérico e trajando luto pesado; e uma

espécie de improvisador meio pateta, o bobo indispensável ao fidalgo

português, que atira versos destemperados e quadras sem nexo aos

curiosos que acodem de dentro do palácio às varandas para assistirem

ao desfilar da estranha, da pitoresca procissão, cuja rectaguarda é

ainda composta da turbamulta gritadora dos barqueiros e dos criados,

acarretando gaiolas de pássaros, lanternas, cestos de fruta, ramos de

flores, não sabemos que mais!

Vê-se bem que vida intensa, ainda então peculiar à raça portuguesa,

apesar de tôda a sua triste decadência, se traduzia neste voltar da

festa tão pitoresco, tão alegre e tão doidamente ruidoso!

* * * * *

Ao lado desta casa de fidalgo português, em quem as tradições antigas

teem uma preponderância acentuada, os Penalvas, mais cultos, mais

letrados, dão às suas festas um cunho de arte cosmopolita.

Na capela tocam-se as músicas mais escolhidas; na livraria aberta

ostentam-se as mais raras e mais antigas edições de clássicos

portugueses e antigos; quadros das escolas italiana e flamenga enchem

as paredes dos vastos salões; flores exóticas e flores dos nossos

jardins enfeitam os vasos antigos da Índia e do Japão; as senhoras não

aparecem, é certo, mas os académicos, os artistas de mais nota, as

ilustrações de todo o género, trocam ali, em conversação animada, ideas

que veem lá de fora e começam a cativar os espíritos mais cultos da

nação.

No meio da festa, em que fraternizam os homens da inteligência e os

homens da nobreza, sob o teto hospitaleiro dos marqueses de Penalva,

travam-se aqui e ali conversações parciais, confidências a meia voz...

O conde de S. Lourenço conta animadamente a sua viagem à Itália, as

impressões de arte que ali colheu, os cardiais com quem conversou...

O estrangeiro, que atentamente o escuta, mal sabe que a longa clausura

da Junqueira determinou no cérebro do nobre prisioneiro a alucinação

que consiste em julgar ter vivido uma vida inteira cheia de viagens, de

sensações, de prazeres completamente imaginários... Passa d’ali para

narrar a sua estada no congresso de Aix la Chapelle, a missão que ali

representou... As palavras do alucinado fidalgo excitam um movimento de

simpatia piedosa em quem o escuta. Foram os tratos da prisão que lhe

causaram aquela estranha perturbação mental.

O cérebro sofre, o orgulho, o belo orgulho da raça, êsse ninguêm lh’o

pôde amortecer! Há poucos dias atirou para o lugar mais recôndito e

mais secreto do paço com a sua chave de camarista, julgando-se mal

recebido pela rainha. Não é vulgar tamanho desprendimento nesse tempo

de vil subserviência ao capricho do monarca.

O conde de Vila Nova, futuro marquês de Abrantes, tem como S. Lourenço

uma mania, mas muito menos interessante.

O seu gôsto mais violento consiste em vestir opa vermelha e andar atrás

do Santíssimo, de campaínha na mão. Não há namorado tão cioso da sua

bela como Vila Nova da sua campaínha.[90] Não admite que outro lhe

toque, que mão profana a faça vibrar. As paróquias que cercam o seu

palácio nunca deixam que o sagrado viático seja conduzido a qualquer

enfêrmo sem prévio aviso feito a Vila Nova, que abala pressuroso a

empunhar a vibrante campaínha. E agita-a cheio de convicção, ou seja

noite alta, ou faça frio de gelar os ossos ao mais intrépido, ou caia

pino sôbre a cabeça dos transeuntes o sol do nosso ardente meio dia

de Julho, ou êle tenha de subir aos últimos andares de um miserável

casebre, ou de descer ao covil subterrâneo da mais imunda miséria.

Ali, no meio da festa, Vila Nova volta ansiosamente a cabeça a cada

movimento desusado com receio de que hesitem em transmitir-lhe o aviso

que porventura lhe seja enviado das duas ou três paróquias de que êle

é humilde servo e sacristão oficioso.

Quem é aquele velho elegante, afectado, garrido, com ademanes e

donaires de pisa-flôres, carmim nas faces e _môscas_ sublinhando o

sorriso inteligente e o agudo olhar brilhante?...

É o duque de Lafões, o fundador da nossa academia, um tipo de

_grand seigneur_ cosmopolita--à maneira do príncipe de Ligne, seu

contemporâneo e de certo seu amigo,--que durante o reinado de D. José

se conservara longe de Portugal, viajando na Europa, brilhando nas

côrtes de Versailles e de Vienna, conhecido de tôda a alta sociedade

europeia como _duque_ ou _príncipe_ de Bragança, convivendo com reis e

com poetas, com artistas e príncipes, com homens de gôsto e homens de

Estado, com _dandys_ e com pensadores...

Para se saber como êle patrocina as artes basta apontar o que êle

foi entre nós para o abade Correia da Serra e mais colegas seus

da academia; o que foi em Vienna para o nosso abade Costa, de que

mais tarde falaremos, e para Gluck, o famoso compositor, o carácter

intratável que lhe consagra a partitura da sua ópera _Helena e Páris_

com uma dedicatória, que faz tanta honra à fina inteligência aberta e

penetrante do duque, apta a compreender e estudar estas questões de

arte de uma subtileza tão delicada, como ao grande artista que nela

formula todo um programa de estética hoje realizado e então entrevisto

apenas.

Citarei algumas palavras dessa dedicatória:

Queixando-se da incompetência e da audácia da crítica do tempo que

condena o método do compositor sem sequer se penetrar dos princípios

que a êle presidem, Gluck conclúe dêste modo:

«Julgaram-se autorizados a pronunciar-se acêrca de _Alceste_ depois de

ensaios mal dirigidos e pior executados; calcularam numa sala o efeito

que a ópera produziria num teatro; é com a mesma sagacidade que em

uma cidade da Grécia quiseram noutro tempo julgar a alguns passos de

distância o efeito de estátuas esculpidas para serem colocadas sôbre

colunas altíssimas.

«Um dêsses delicados amadores que concentram a alma inteira nos

ouvidos achou uma ária demasiado áspera, um trecho em extremo

acentuado ou mal _preparado_ sem conhecer que, _dentro da situação

em que estava_ essa ária, êsse trecho era o sublime de expressão

e formava o mais feliz contraste. Um harmonista pedante nota uma

negligência engenhosa ou um êrro de impressão, e apressa-se em

denunciar um e outro como pecados irremissíveis contra os mistérios da

harmonia...

«É certo que não são mais felizes as outras artes, o que não é para

elas a crítica nem mais justa, nem mais esclarecida. Vossa Alteza

adivinha fácilmente a a razão disto. _Quanto mais se procura

conscienciosamente a perfeição e a verdade mais necessárias se tornam

na arte a precisão e a exactidão..._»

Vê-se por êste rápido trecho, que não amplificámos mais por não ser o

ensejo oportuno, como, entre o duque e o grande mestre revolucionário,

deviam ser freqùentes e familiares as relações artísticas; vê-se como

o _maestro_ confia na inteligência crítica do fidalgo, e que estreita

comunhão de ideais havia entre um e outro.[91]

O duque voltara a Portugal depois de ter saboreado lá fora o que

tinha de mais requintado a civilização e a alta cultura das primeiras

capitais do mundo. Tentara transplantar para aqui alguma coisa do

muito que admirara e vira, e de feito é a êle que se deve a fundação

da academia e a protecção generosa e inteligente aos trabalhos de

naturalistas e de sábios seus contemporâneos.

Ao lado desta figura de uma tão alta e tão refinada elegância, que pode

bem equiparar-se à de um Richelieu, à de um príncipe de Ligne, à de um

dos muitos que lá fora reùniam aos privilégios herdados do nascimento

as graças adquiridas numa cultura variadíssima e numa educação dada

pelos centros mais esplêndidos da vida intelectual--a sociedade

portuguesa do tempo oferece-nos uma infinidade de outras figuras

secundárias que se destacam ou pelo ridículo ou pelas afectações

características do seu papel social.

Monsenhor de Aguilar, cónego da patriarcal, um personagem do tempo,

aparece saltitante, chilreador, e murmurando a ouvidos indulgentes

segredos _voltaireanos_ contra a Igreja católica, de que vive e que

explora.[92]

A influência fradesca imprimia em Portugal o sêlo da ignorância

beata... A plebe, dissoluta e soez, adorava as procissões que

contentavam as suas moderadas exigências estéticas e religiosas, e

acudia fremente e doida de entusiasmo às touradas, onde o seu amor, o

seu culto da fôrça, era brutalmente acariciado. Não precisava de mais

nada para ser feliz.

A nobreza, essa, livre do jugo de Pombal, reassumiu a arrogância

antiga, governava no paço e nas secretarias do Estado, cuidava em

manter o povo na ignorância que o tinha curvo, submisso diante dos

seus abusos e caprichos, e discutia sériamente os milagres de vários

santos, e as tricas engenhosas de Belzebuth...

Beckford a propósito conta a história da conversão de uma velha inglesa

tísica, cujo corpo é levado à sepultura pelas mãos patrícias de

Assecas, S. Lourenço, Marialvas, etc., todos extasiados pelo milagre

dessa conversão inesperada, emquanto Acciaoli, o núncio, esfrega as

mãos de contente, dá estalinhos com os dedos, e faz figas ao Diabo,

lançando-lhe em rosto o roubo da alma da velha inglesa que o cão

tinhoso já julgava ter nas garras... «Feliz inglesa! exclama um dos do

nobre séquito. No outro mundo teve entrada no paraíso, e neste teve

a subida honra de ser levada à cova por homens da alta nobreza! Onde

houve já ventura assim?»

É verdade que debaixo desta fraseologia ôca e piegas, a história

secreta tem mil anedotas típicas dos costumes do tempo que não condizem

com tamanho zêlo pelo culto sagrado... Mas a Igreja é cheia de mansidão

e indulgência; os mosteiros, como o de Alcobaça e outros, regorgitam de

quanto a abundância tem de mais pantagruélico, e a sciência da vida de

mais requintado e cómodo...

Não há onde melhor se coma e onde mais voluptuosamente se saboreie o

lado material da existência que nesses retiros em que a carne devia

ter-se espiritualizado até ao renunciamento absoluto e ao sacrifício

supremo de tudo. Tanto o contraste entre o que se pratica e o que se

prega é frisante naquela época...

O padre Teodoro de Almeida revira os olhos, faz esgares hipócritas e

visagens devotas, e pronuncia discursos seráficos que o inglês, um

pouco scéptico, de onde colhemos estes quadros, classifica de _first

rate of hypocritical cant_.

Não é possível nomear cada uma das figuras que desfilam diante do

nosso olhar, fotografadas em flagrante realidade pelos observadores do

tempo. São os aduladores flexíveis, subtis, maleáveis, com meneios de

reptil e graças serpentinas; é a anãsinha Rosa, garrida e sentimental,

acompanhando a rainha, que morre por ela, para todos os lados e fazendo

parte integrante da côrte que não ousa rir-se daquela anomalia; é o

bobo João da Falperra, esgueirando-se hábilmente por tôdas as portas

que encontra abertas, e inspirando ao conhecido _leigo_ do arcebispo de

Tessalónica, tão famoso pelos epigramas e agudezas, êste dito tambêm

famoso:

«Na côrte penetram fácilmente homens de mérito superior, santos e

bobos. Os primeiros desaprendem logo que tudo sabem; os santos

fazem-se mártires; e os bobos são os que únicamente prosperam!»

Os fidalgos moços adoram a convivência do baixo povo, diante do qual

se sentem à vontade, sem que a própria ignorância os humilhe. Há nas

ruas de Lisboa serenatas e guitarradas, em que os filhos das primeiras

casas acompanham os seus criados e os amigos dêstes; o conde de Vila

Nova abre na noite de S. Pedro, à multidão da capital, os seus jardins

iluminados com lanternas venezianas, e no baile que desenrola sob as

árvores a sua desenfreada alegria, quermesse flamenga, os herdeiros de

casas principescas misturam-se jovialmente com a escuma das Vielas e

becos da cidade.[93]

É pitoresca, animada, caracteristicamente nacional esta vida, mas

falta-lhe, a espiritualizá-la suavemente, a influência da mulher então

menos que nula, e a cultura geral, que é deficiente e incompletíssima.

Há homens de primeira classe, talvez, mas segue-se-lhes logo, sem

intermédio algum, a massa ignorante e brutal onde não penetrara ainda

um raio de luz civilizadora.

* * * * *

A castidade da rainha não permite que uma única mulher pise as

tábuas do proscénio. Depois da quadra luxuosa e pomposíssima em que

a história do teatro português, no dizer curiosamente documentado do

eminente escritor Teófilo Braga, excede em grandeza a dos melhores

teatros do mundo e tem ligados à sua fama os nomes dos mais célebres

arquitectos, como Simão Caetano Nunes e Inácio de Oliveira; dos

melhores pintores e scenógrafos, como Servandoni, disputado à côrte

de Portugal pelas côrtes de França, Inglaterra e Polónia, Bibiena,

Azzolini; de compositores como Cimarosa Paisiello, Piccini, Jomelli;

de cantores como Caffarelli e Gizziello[94],--depois do curto mas

extraordinário esplendor das representações da _Ópera do Tejo_ ou

_Teatro dos Paços da Ribeira_, reduzido a ruínas pelo terremoto no

próprio ano em que D. José o tinha mandado executar pelos artistas

mais brilhantes do tempo, e onde sob a direcção do maestro napolitano

David Perez cantaram os _Castrati_ mais célebres (um dos quais foi

presenteado por el-rei, depois de executar uma _cantata_ de Jomelli

com uma galinha de oiro cercada de vinte e quatro pintainhos tambêm de

oiro),--depois dêsse período de luxo, de extravagante luxo artístico,

que tão pungente contraste faz com a miséria dos tempos e dos povos--o

teatro nacional, sob o reinado de D. Maria, tem apenas para encarnar

as suas criações mais ideais alentados mocetões de faces azues, de

barba, que declamam em grossa voz avinhada as suas queixas de amores ou

cantam em antipático falsete as suas árias e motetes. Noiva gentilmente

envolta em véus virginais, princeza viúva coberta de crepes do seu

luto, joven namorada fugindo à cobiça de um velho tutor libidinoso,

donzela de régio tronco perseguida pelo ódio de um tirano feroz,

Andromaca ou Ifigénia, Zaira ou Inês de Castro, Medéa ou a _Espôsa

Perseana_, tôdas as heroínas da tragédia ou do melodrama, da comédia

ou da ópera teem fatalmente de ser representadas pelos mesmos latagões

membrudos, de atlética musculatura e voz que em vão se esforça para

ter notas aflautadas. A arte chegara a êste apuro lamentável, e depois

de ter sido no tempo de D. João V e D. José decorativa, espectaculosa

e cesarista, mais feita, é verdade, para o regalo dos sentidos do que

para a educação da alma, ei-la que se tornava agora burlesca no aspecto

e nas intenções...

Nos teatros da Rua dos Condes e do Salitre freqùentados pela alta

aristocracia, e num dos quais a condessa de Pombeiro, loira, branca,

diáfana, aparece uma noite, seguindo o exemplo que então davam a rainha

e tôdas as damas _du bel air_, acompanhada por anãsinhas pretas, que

no fundo do camarote sublinham com tregeitos e esgares cómicos, mais

divertidos do que a peça, a mímica dos desgraçados actores, e dão uma

espécie de scenário africano à beleza do norte, aérea e fina da juvenil

patrícia portuguesa[95]; nos teatros da Rua dos Condes e do Salitre

representam-se longas trági-comedias _arregladas_ do italiano e do

francês, entremezes tambêm copiados ou traduzidos--perdida a tradição

do teatro admirável de Gil Vicente e das farças e comédias do Judeu e

de outros, em que a vida portuguesa se retrata como num espêlho ainda

mal polido, mas já fiel em dar o contôrno e a expressão.

Acabaram as noites febris da Cecília Rosa, da Zamperini, das irmãs

Pagnietti, da Todi, da Cecília Aguiar; a _embezerrada_ melancolia beata

dos régios personagens distinge em tudo, até no divertimento que mais

devia popularizar-se, e do qual se podia fazer um elemento de educação

e de civilização.

De vez em quando uma farça de Nicolau Luís os _Maridos peraltas_; o

_Viajante_; uma comédia arranjada ou feita por Manuel de Figueiredo o

_Fidalgo da sua própria casa_, o _Dramático afinado_, a _Mulher que

o não parece_, _Pássaro bisnau_; um entremez anónimo, _Fastásticas

basófias, lograções e calotes de D. Harpia_, as _Desordens dos

Paraltas_, os _Casadinhos_, o _Entremez da assembleia do Isque_, de

Leonardo Pimenta e Antas, e outras produções cómicas genuinamente

nossas, conseguem arrancar da entristecida e degenerada alma popular

uma forte explosão de riso alegre e sadio. Mas são raras e abandonadas

pela fidalguia da côrte essas noites de gaudio plebeu e português

de lei, em que aparece a punição risonha dos ridículos da moda,

executada pelos cómicos que saíram do povo e que a êle pertencem como o

excêntrico Nicolau Luís.

Nos teatros régios continua a tradição palaciana das óperas e

oratórias, umas portuguesas, como _Gli Orte Esperide_, de Jerónimo

Francisco de Lima, como _Il Natali de Geove_, de João Cordeiro da

Silva, como _Angélica_, de João Cordeiro da Silva Carvalho, o mestre de

Marcos Portugal, outras italianas, de Piccini e de Perez.

Nos outros teatros, a gravidade sonsa e mazorra da Arcádia impunha à

paciência dos espectadores a longa e fastidiosa melopeia das tragédias,

que a dúbia erudição de Francisco José Freire arranca à pobre e

desfigurada antiguidade de que o seu século ignora completamente o

espírito. É a _Medea_ e o _Edipo_ de Séneca, a _Hecuba_ de Euripides,

a _Efigénia em Aulide_, o _Mitridates_ de Racine que Filinto traduz

no seu português pedregoso e duríssimo, os _Scitas_ e o _Mafoma_ de

Voltaire, e _Alexandre na India_, o _Tamerlão na Pérsia_, o _Faramundo

na Boémia_, e as _Rigorosas leis da amizade cumpridas em Olimpiade_, de

Metastásio, a _Mais heróica virtude_ ou _Zenobia em Arménia_ do mesmo,

e _Constantino o grande_, ou a _Ambição castigada por si mesma_, e o

_Radamisto_, de Crébillon, são dezenas de tragi-comédias, de tragédias,

de melodramas, em que a nota do fastidioso predomina atrozmente, em que

os costumes portugueses, a alma portuguesa, o passado português nunca

ou raríssimas vezes transparecem.

O teatro italiano de Goldoni e Metastásio, o teatro francês do

século XVII, Voltaire e Crébillon, a Grécia inteiramente desfigurada

por traduções inábeis, eis o que alimenta o nosso teatro nacional,

freqùentado pela fidalguia ou patrocinado pela realeza.

* * * * *

Eis aqui os traços gerais (em que a cronologia nem sempre é

rigorosamente respeitada, mas cujo espírito nos parece verdadeiro,

pois foi colhido com escrúpulo nos documentos do tempo) da sociedade

que Leonor de Almeida conheceu e teve de aceitar ao sair do tranqùilo

remanso de Chelas e da paragem deliciosa de Almeirim. E esta sociedade

com os seus efeitos de luz e sombra, os seus tons brutais, a sua

separação completa entre os gostos íntimos e as representações

oficiais que a arte traduz, os seus preconceitos esmagadores, a sua

ignorância profunda, que a surpreendeu, e que decerto lhe desagradou

irresistívelmente. ¿Que lugar tinha ela, a erudita, a elegante poetisa

nesse _meio_ em que alguns homens apenas destacavam, e em que Bocage ia

aparecer como um fenómeno imprevisto, de que Filinto fugira indignado,

em que a inteligência tinha apenas um papel secundário, ou quando

muito ociosamente decorativo? Não lhe era permitido sequer dizer o

que pensava, porque o seu tempo estava justamente naquela transição

crítica e perigosa em que a hipocrisia se alia ao fanatismo, e em que a

palavra serve apenas para ocultar o que o espírito cogita... As amigas

afastavam-se porventura assustadas, humilhadas, daquela mulher viril

que bebera nas dores nobremente suportadas a sciência amarga da vida,

e que amando com entusiasmo os prazeres do espírito não pode, por mais

que nisso empregue patéticos esforços, subordinar-se a um _meio_ de

estupidez ou de futilidade.

Cada frase de Leonor era um conceito, e o chilrear inocente e pueril

de crianças que não sabiam o que era sofrer, lutar, dominar-se e

vencer-se, não podia de certo agradar ao seu entendimento viril e

profundamente cultivado.

Os homens--tão inferiores a ela pela inteligência, pela instrução, pela

energia antiga--olhavam-na sorrindo com êsse sorriso insuportávelmente

complacente, que êles se dignam opor ao mistério irritante de um grande

espírito de mulher.

Achavam-na provávelmente deslocada no seu país e no seu tempo, e

riam-se dela, raivosos de a não poderem desprezar...

O pai olhava-a inquieto, divergente de cada uma das suas opiniões

avançadas e ardentemente expostas com aquele calor que as suas cartas

manifestam, menos terno do que fôra na ausência, menos admirador do que

o deixava entrever nas frases escritas que ela relembrava com saudade.

¿Onde é que estavam as queridas ilusões que Leonor com tanto amor

nutrira? Que pena para o observador e para o moralista, que ela não

tenha deixado num _jornal_, como então tantas mulheres escreviam em

França, numa correspondência como as que tornam imortais tantos nomes

femininos que de outro modo a obscuridade subvertera--que pena que ela

não nos tenha deixado a confidência das amarguras que nessa crise da

vida a sua alma suportou! Há um jornal publicado muito recentemente

por uma jovem artista russa, morta na flor da vida, que exprime com

extraordinária intensidade essa dor singular da mulher em completa

desarmonia com o seu destino, com o seu _meio_, com o tempo em que vive!

Essas agonias requintadas que tão poucas teem sofrido, e que só uma

aristocracia diminuta de almas femininas pode experimentar, Leonor de

Almeida sofreu-as em viril silêncio estóico! Apenas percorrendo os

versos que ela fêz depois de sair de Chelas, de certo antes de casar (é

deficientíssima em datas e esclarecimentos cronológicos a edição das

obras da marquesa), encontramos nêles um eco da profunda melancolia

que a devora. Mas são tão pouco simples os versos daquele tempo, é tão

exagerada e tão artificial qualquer das suas formas, que essa expressão

de tristeza não conseguira comover-nos se a não a relacionássemos com

verdadeiras dores suportadas nesse período pela alma de Leonor de

Almeida.

É tão cortado de desilusões o presente que ela sonhara feliz até ao

êxtase, até ao arrebatamento, que a poetisa tem saudades das tristezas

de Chelas; ao menos a essas doirava-as a divina esperança, fada da

mentira, cuja missão é enganar-nos sempre, amolecendo-nos a alma,

roubando-nos a viril coragem do desespêro absoluto:

Ideias minhas, multidão de ideias,

Que algum dia da cítara eu fiava.

Vinde trazer-me as horas que eu passava

Ao som de menos ríspidas cadeias.

Bem que tristes, de paz as horas cheias

Saturno no seu corpo as sepultava

No feliz tempo em que eu inda ignorava

Que havia para mim outras mais feias.

Ide colher aos ermos tenebrosos

Os ais que lá deixei menos sentidos

Para modêlo dêstes tão queixosos.

Talvez que êsses antigos meus gemidos,

Com que eu domava os monstros furiosos,

Hoje abrandem meus fados desabridos.

E ainda noutro soneto da mesma época correspondendo à mesma sorte de

impressões:

Sei que o prazer qual frágil planta dura,

Que o progresso do tempo traz mudanças,

E que alegria é sempre mal segura.

Troco assuntos ditosos, por lembranças,

Basta a meus hinos glória sem ventura,

Honra, virtude e _murchas esperanças_.

Mas se esta velada confissão não bastasse para nos guiar nas nossas

investigações íntimas, teríamos em todo o caso o seu casamento.

Entre tantos fidalgos portugueses que freqùentavam a sua casa (alguns

dos quais, infelizmente para ela, corresponderiam por demais ao

retrato típico que ela traça de Bernardo da Silveira) um estranjeiro,

o conde de Oeynhausen Grovemburgo, que ela quer, que ela escolhe, quem

contra vontade do pai, que nem sequer lhe assiste ao casamento, ela

aceita para marido. ¿Há mais claro indício do desgôsto que, entre os

da sua raça e da sua terra, lhe inundou a alma ambiciosa, exigente,

perigosamente exaltada pelo belo?

* * * * *

No prefácio das obras de Leonor de Almeida, a que mais de uma vez nos

temos referido, vem a genealogia do conde de Oeynhausen traçada com

escrupuloso esmero pelas suas descendentes. De feito o conde descendia

de uma casa nobilíssima da Alemanha; era primo co-irmão do conde

Schaumbourg-Lippe, o que o não privava de pertencer a essa procissão

innumerável de fidalgos pobres, que então enxameava por tôdas as

côrtes do mundo, e que ofereciam o seu braço de soldado a todos os que

dêle precisassem para combater qualquer causa, fôsse ela qual fôsse,

contanto que rendesse para viver, e viver bem.

Leonor de Almeida, escrevendo ao pai do convento de Chelas, ainda, é

certo, em tempo do marquês de Pombal, referia-se desdenhosamente a

êsse bando de nobres aventureiros, que atrás do conde de Lippe tinham

penetrado tambêm em Portugal e ocupado muitos dos importantes postos do

exército, agora um tanto estrangeirado como de todo estrangeiro era o

seu comandante em chefe.

Citemos, como é nosso costume, a frase textual de Leonor:--«Creio que

tem lugar aqui a reflexão assás comum de que o maior despotismo cava

o princípio em que se despenha. Estamos a pique de nos engulirem os

ingleses ou os castelhanos. Os melhores soldados são os descontentes,

e restam para a frente dos nossos exércitos um estranho (o conde

de Lippe) e _vários bonecos_ que representam por arames como os da

comédia! Bons sucessores dos nossos guerreiros honrados!»

O caso é que um dos tais _bonecos_ a que Leonor se refere aqui, é o

conde de Oeynhausen. Êste, na côrte de Portugal, que a esta hora se

recomendava pela cegueira da superstição e pelo requinte do beatério

baboso, entendeu que o melhor meio de fazer caminho era tornar-se

católico.

Por uma felicidade, que nem sempre um narrador consciencioso dos factos

do passado topa no seu caminho, fomos deparar no livro do malicioso

irlandês Costigan, contemporâneo do conde de Oeynhausen em Portugal,

com a cerimónia imponente e luxuosa do seu baptismo.

O conde de Oeynhausen era respeitado na côrte pelos seus talentos

militares e pelo bom senso e conhecimento do mundo, e estas qualidades

pessoais, juntas à circunstância de pertencer, pelo nascimento, a uma

família de príncipes, levavam a rainha a ser madrinha do novo neófito

do catolicismo.

Na capela da Ajuda compareceu, pois, para êsse fim, a rainha D. Maria

I, acompanhada pelo príncipe seu marido, aquela figura caricatural

de que já demos esbôço imperfeito. Ao pé dos dois via-se Angeja, o

primeiro ministro, obeso, escuro, com baixo aspecto de onzeneiro judeu

e cercado ali mesmo de adulações e cumprimentos que há pouco convergiam

todos para a figura majestosa e imponente do exilado ministro de D.

José! A figurinha esperta, movediça, maliciosa de Martinho de Melo,

lança em tôrno de si os golpes rápidos do seu vivíssimo olhar, emquanto

Aires de Sá, magro, emmaciado, com um grande livro de _Horas_ na mão,

nem repara no que se passa em tôrno dêle, tão do coração se entrega às

rezas e orações ferventes que aquela cerimónia sugere ao seu espírito

de católico, tão ardentemente fixa o olhar extático nas imagens que

resplendem sôbre o altar, e nas cerimónias rituais celebradas junto

dêle. O conde da Ponte, camarista de el-rei e coronel de infantaria,

perfila-se perto do príncipe, com a sua face de eunuco, onde não

transparece o menor vestígio de barba. Endoideceu-lhe há pouco a mulher

que conveniências de família tinham forçado a um casamento odioso,

e vinga-se dela, do destino que o flagelou com secretas amarguras,

do mundo que o não poupa a epigramas e alusões empeçonhadas e a

conjecturas cruelmente indiscretas, fazendo da vida um assunto de

_rabelaiseana_ gargalhada, sendo em cada festa aquele conviva que põe

todos os outros em convulsões de riso, tendo um dito, uma resposta, um

repente, um chiste para cada acontecimento, para cada indivíduo, para

cada circunstância, para cada tragédia que passa... O alvo favorito

dos seus epigramas e ironias é o cardeal da Cunha, empavezado agora,

na sua balofa nulidade, com a importância adquirida na sombra do

grande marquês. Foi o conde da Ponte quem, como já dissemos, visitando

a livraria do cardeal, composta de onze mil volumes, fêz notar ao

bibliotecário que tinha ali sua eminência para servi-lo nem menos de

onze mil virgens!

Aos olhos de Costigan,--o soldado aventureiro doido pela fôrça, como

os da sua raça,--destaca-se a figura marcial do marquês das Minas,

«nascido para homem de guerra e homem de brio», mas tendo naquele

meio, degenerado e tão hostil aos fortes, adquirido defeitos que

lhe deslustram a instintiva nobreza da alma. Superior a muitos dos

seus compatriotas pela inteligência, pela energia e pela instrução,

contava-se que êle não duvidara entrar numa conspiração urdida no paço,

em que os primeiros fidalgos da côrte se tinham munido de _facas de

ponta_, para assassinarem o marquês de Pombal, caso êle tentasse reter

nas mãos o poder que a morte do rei fatalmente lhe arrancava...

A voz do frade dominicano, que se levanta estrondosa, acordando os

ecos da capela, arrancava Costigan à contemplação das diversas figuras

da côrte, salientes por esta ou aquela qualidade mais característica,

e levava-o a concentrar todo o seu poder de atenção nessa espécie de

eloqùência.

O frade extasiava-se ante o mérito daqueles que consagram a existência

à conversão de herejes e de infiéis. Lembrava quanto era extensa,

enorme, incontável a lista dos convertidos às verdades da nossa santa

religião. O seu santo patriarca, S. Domingos, outra coisa não fizera,

em tôda a sua santíssima vida, senão converter ímpios e infiéis

em quási todos os países da Europa, entre os ruins albigenses, os

protestantes da Alemanha e da França, os judeus e mouros de Portugal,

isto sem usar modo algum de fôrça ou compulsão, como êle prègador

afirmava ao seu pio auditório, mas sómente com os estupendos milagres

que operava, e com o flamejante raio da sua palavra poderosa. Desde

êsses remotos tempos até agora não houvera príncipe, nem monarca, tão

zeloso em animar as conversões à Santa Igreja como Sua Fidelíssima

Majestade ali presente, por cujos méritos Nosso Senhor e Nossa Senhora

a haviam de recompensar amplamente com a paz e prosperidade neste mundo

e uma coroa de glória no outro.

--«Deixai, continuava êle, deixai que as innumeráveis conversões,

presenceadas por esta augusta côrte, desde o feliz acesso ao trono de

Sua Majestade a Rainha, confirmem a verdade do que eu digo--deixai que

os sombrios huguenotes da França, os réprobos herejes da Inglaterra, os

seguidores alemães do cruel Calvino e do ímpio Lutero, os quais teem

sido em número incalculável baptisados dentro destas paredes, declarem

quão ferveroso e ardente tem sido o zêlo de Sua Majestade em os fazer

renunciar aos seus erros abomináveis, em se professarem filhos dóceis e

humildes da única Igreja infalível que existe sôbre a terra.

«Oh! que eu não tenha a voz de um milheiro de anjos (exclama em tom

mais férvido o inflamado prègador) para reconhecer dignamente a bondade

da Providência em nos enviar tão excelsa rainha, e para agradecer

ao meu glorioso patriarca S. Domingos por me haver inspirado a mim

o mais humilde, o mais indigno dos seus filhos, com eloqùência, com

argumentos, com retórica bastante, para reduzir e vencer o poderoso

raciocínio e as bem elaboradas objecções do nobre neófito que estamos a

ponto de admitir no seio da santa Igreja visível.»

Neste momento apareceu o neófito, estando já tudo preparado para a

cerimónia de o baptisarem. Ao pé da pia baptismal estava el-rei e a

rainha, e os olhos de ambos os régios personagens se arrazaram de

lágrimas no momento da piedosa celebração.

Tão depressa ela concluíu, a rainha, dirigindo-se graciosamente ao

católico recem-nato, enxugou com o seu próprio lenço de cambráia e

rendas algumas gotas de água benta que tinham caído sôbre os bofes

da sua camisa, dizendo-lhe «que esperava que isso o não constipasse,

pois que era uma espécie de água que nunca fazia mal a ninguêm». A

côrte inteira seguiu-se a cumprimentá-lo amávelmente, emquanto as

lindas vozes da capela real se erguiam para o alto num _Te Deum_

magistralmente executado, que completava a augusta, a pomposa, a

fidalga cerimónia.

* * * * *

Em 1779, dois anos depois da sua saída de Chelas, e poucos dias depois

do baptismo do conde de Oeynhausen, Leonor dava-lhe a mão de espôsa,

surda à voz do pai, que se levantava arrebatada e violenta, contra

esta escolha imprevista, esquecida dos mil protestos que havia feito

ao marquês de lhe obedecer sempre em tudo, e principalmente no magno

assunto do seu casamento, sem atender à pobreza do fidalgo alemão,

que estava em completa desproporção com a nobreza do seu nome, e às

dificuldades que por êste motivo o futuro fatalmente lhe guardava.

Sem documentos autênticos e positivos que nos elucidem acêrca das

impressões de Leonor ao deixar o convento e ao entrar no mundo e na

família, não podemos contudo deixar de atribuir a um desgôsto profundo

de tudo que em tôrno de si vira, esta resolução tão estranha e rápida.

O conhecimento íntimo do seu carácter é suficiente elemento para esta

conclusão, que afoitamente perfilhamos.

Os conflitos entre o pai e a filha, seria necessário uma profunda

ignorância da psicologia de ambos para os não agourar desde logo; o

antagonismo entre ela e o _meio_ social em que ia viver, ressalta

naturalmente da leitura das suas belas e generosas cartas, e da análise

documentada da sociedade estranha do seu tempo. Que melhor meio de

fugir a tão grandes dificuldades do que êsse casamento, que ia roubá-la

por muito tempo, talvez para sempre, à influência esterilizante e

deprimente da sociedade portuguesa, à ríspida autoridade, outrora tão

querida, do seu ulcerado pai?

Numa epístola sua a um amigo, Bocage, mais tarde, referindo-se a êsse

gôsto dos países estrangeiros, de que Leonor dá agora a manifestação

primeira, lamenta-se de não poder seguir-lhe o exemplo, planeia tambêm

fugir ao _meio_ asfixiante que o envolve. Êle tambêm:

... Como a grande, a majestosa Alcipe

Com pejo de existir cá onde há morte,

Ousara demandar no afoito adejo

Plagas imensas onde tudo é vida.

Mas Bocage, mais infeliz que a poetisa portuguesa, morreu amarrado ao

ignóbil poste da sua miséria, tendo as mais das vezes de contentar-se

com a plebe dos botequins, para lhe dar aquele nectar inebriante do

aplauso ruidoso e sincero, sem o qual a sua alma não podia viver.

Foram êsses botequins o teatro mais freqùente dos raptos do seu sublime

e independente espírito. Leonor fugiu para longe, gozou, conheceu, teve

tôdas as sensações exquisitamente delicadas, que um entendimento como

era o dela precisava para se desenvolver. A flor, porêm, daquela viçosa

fé nas ideas novas, que as suas cartas tão encantadoramente revelam,

murchou de todo no ar artificial das côrtes europeias que freqùentou. A

Leonor que volta é bem diversa daquela que partiu. E bem pode dizer-se

que a fase mais interessante da sua vida acaba aqui! Mas literáriamente

o progresso do seu talento é incontestável.

Como a Stael, ela trouxe a Portugal, de volta da Alemanha, a revelação

da profunda literatura do norte, então totalmente desconhecida por nós,

e o seu gôsto faz-se tão seguro e tão firme que é ela quem muito mais

tarde revela Herculano a si próprio, e o induz a seguir a carreira

das letras, segundo a confissão, feita pelo eminente historiador, que

trasladamos para aqui:

«Aquela mulher extraordinária, a quem só faltou outra pátria que não

fôsse esta pobre e esquecida terra de Portugal para ser uma das mais

brilhantes provas contra as vãs pretensões da superioridade excessiva

do nosso sexo, é que eu devo incitamento e protecção literária, quando

ainda no verdor dos anos dava os primeiros passos na estrada das

letras.»[96]

* * * * *

Não podemos seguir Leonor, no desenvolvimento do seu génio poético e

da sua carreira social tão brilhante. Outros o farão. O seu carácter

original que se foi transformando com a idade e com a evolução do

tempo, mais tarde outros o hão de descrever com o brilho e a precisão

que lhe são devidos. Nós com bastante pezar ficamos por aqui.

Scenas do século XVIII em Portugal · 第 9 / 15 题