Leonor em Chelas.--Antiguidade e origem dêste convento.--Vida
conventual.--As cartas do marquês de Alorna a sua mulher.--Não são
escritas com sangue.--Correspondência entre Leonor e o pai.--O
incidente entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia.--Versão correcta
e autêntica dêste incidente que anda desfigurado nas biografias
de Leonor.--Estudos.--Leitura dos filósofos franceses.--Lutas de
Leonor com o pai, a mãe, a condessa do Vimieiro.--O esquecimento
do passado e do presente procurado no estudo.--Confiança que
Leonor tem no pai.--Festas de Chelas.--Outeiros.--Representação de
Atália.--Intermédios jocosos.--Coragem e alegria de Leonor através
de todo o seu infortúnio.--O problema religioso.--Ilusões simpáticas
do espírito de Leonor.--O marquês de Alorna condena Voltaire a ser
queimado.--Admirável resposta de Leonor.--Discussões acesas de Leonor
com os confessores do convento.--Lutas de consciência.--Antagonismo
entre Leonor e o seu meio.--Fantásticos projectos de salvar seus
pais.--Cartas a Luís XV e a Voltaire.--Mau francês e óptimos
sentimentos.--Controvérsias literárias e poéticas entre o marquês
de Alorna e Leonor.--Bom senso e bom gôsto do marquês.--O que
Leonor diz a respeito do amor.--A Zamparini e várias anedotas da
côrte.--O marquês de Gouveia e Maria de Almeida.--Entusiasmo com que
Leonor antevê a factura existência dos seus no campo.--Influência
de Rousseau.--Dois projectos de casamento para Leonor.--Retrato de
um fidalgo ignorante.--Versos de Chelas.--Os sonhos de Leonor.--O
príncipe azul.--Morte do rei que vem libertar a família de Alorna.
Como no anterior capítulo foi dito, a 14 de Dezembro de 1758 entravam a
marquesa de Alorna e suas filhas Leonor e Maria, no convento de Chelas.
Fica, como se sabe, nos subúrbios de Lisboa êste mosteiro, ao qual
frei Luís de Sousa consagra longos períodos de que citaremos os que
seguem:
«Junto à cidade de Lisboa, ao norte dela, em distância de quási uma
légua, há um vale por cópia de quintas e frescura de hortas e pomares
assás deleitoso, que chamam Vale de Chelas. Havia nêle pelos anos em
que vamos, de 1223, uma igreja tão antiga na primeira fundação que,
sem haver quem disso duvidasse, se referia ao tempo em que a primitiva
igreja florescia com favores do céu e perseguições da terra, porque
sendo regada com rios de sangue de infinitos mártires, que cada hora
padeciam, tomava fôrças do mesmo ferro e fogo com que era perseguida, e
ia crescendo e pulando, e tomando posse do mundo. Assim é cousa certa
que deram ocasião a se fundar esta igreja os gloriosos mártires S.
Felix e Santo Adriano, porque padecendo ambos em tempo de Diocleciano
imperador, animosa e santamente pela fé, Felix em Gerona de Catalunha,
aonde veio buscar o martírio, fugindo da cidade Scilitana em que
nascera, e da de Cesária em África, onde seus pais o criavam no estudo,
e Adriano sendo martirisado em Nicomédia de Bithinia, por varios casos,
e em tempos diferentes, vieram as santas relíquias de ambos, com
muitas de outros companheiros do martírio aportar neste vale, e no
lugar da igreja onde naquele tempo chegava o mar, que agora lhe fica
longe quási meia légua. Foram os mártires conhecidos pela relação de
quem os acompanhava, mas logo reconhecidos e reverenciados por meio de
esclarecidos milagres que obraram.
«Edificou-lhes igreja a devoção de Lisboa, e foram honrados nela
debaixo do nome de S. Felix, ou porque padeceu em terras de Espanha,
ou porque foi o primeiro em chegar ao vale; e em testemunho da grande
antiguidade ficou com o nome quási trocado no povo, chamando-se S. Pero
Fins de Achelas.
«Na entrada dos mouros, que depois sucedeu, de crer é que o mêdo e a
confusão que por castigo do céu oprimia os ânimos, usaria do remédio
mais fácil para salvar as santas relíquias, que era enterrá-las no
mesmo lugar e encomendá-las aos mesmos santos»[19].
* * * * *
«Lançados os mouros de Lisboa pelo braço e valor de el-rei D. Afonso
Henriques, purificadas as igrejas que haviam em pé, e reedificadas
pouco a pouco as que estavam em ruína, foi povoada esta de frades, o
que se vê das provisões e outros instrumentos autênticos do cartório
dela, que particularmente vimos, notámos e cotámos»[20].
Parece que os mouros reconquistando Lisboa aos leonenses expulsaram de
Chelas seus habitantes, e converteram a igreja em mesquita, porquanto
el-rei D. Afonso Henriques, tratando de purificar e restituir ao culto
divino vários templos que os infieis tinham profanado, fôra um dêles
o convento de Chelas, sendo celebrante o bispo de Lisboa D. João
Peculiar, e assistindo o soberano à cerimónia da purificação e ao
descobrimento e transladação das relíquias que estavam em duas caixas
de mármore, as quais foram colocadas na capela mor, de modo que ficaram
servindo de altares de S. Felix e de Santo Adrião[21].
Primeiramente foi o convento duplex, e povoado pelos cónegos regrantes
de Santo Agostinho. Deixou depois de ser duplex, e só nêle ficaram
religiosas; não se sabe, porêm, o ano em que isto sucedeu.
O que, porêm, de tudo que acêrca dêle se escreveu pode com certeza
deduzir-se, é que êste convento de Chelas é dos mais antigos e
memoráveis de Lisboa.
A porta principal da entrada é de um lindo gôsto manuelino. O convento
vasto, mas sem nenhuma beleza de arquitectura digna de nota. O côro em
1883 ainda se podia considerar um pequeno museu[22] onde se encontravam
várias obras artísticas, tais como quadros, jarras de merecimento,
imagens de prata, loiças do Japão, etc.
* * * * *
Não se recomendavam pela austeridade da clausura nem pelo ascetismo
contemplativo das monjas os conventos do século XVIII em tôda a Europa
ocidental.
Passara havia muito o tempo dos milagres, das visões místicas, da
_loucura da cruz_. Já ninguêm se supliciava em martírios de uma
pungitiva delícia, na expiação de grandes paixões terrenas, ou na
esperança ardente de uma sonhada bemaventurança. Um frígido sôpro
passara, esterilizante e devastador, pelas almas e pelas consciências
do tempo.
Leonor de Almeida não teve, pois, a sentir ali uma pressão que em parte
alguma já existia nessa época. Pelo contrário; seria doce e calma a
vida conventual para quem não tivesse lá dentro um desgôsto a minar-lhe
a existência.
Reflecte-se uma espécie de suavidade íntima, de alegria transcendente
no rosto das mulheres consagradas desde a mocidade à vida do claustro
ou às missões da caridade. Despindo as tumultuosas paixões e as
intermitentes alegrias humanas, elas despem tambêm a faculdade de
se interessarem, de se entristecerem, de vibrarem ao influxo dos
sentimentos mundanos.
Apagado nas almas o sombrio ascetismo mediévico, essa nevrose de
que o mundo cristão sofreu tão intensamente durante séculos, ficou
a doce calmaria conventual a substituí-lo. As rezas variadas, as
minuciosas práticas do culto, o cultivo caprichoso das mais lindas e
cheirosas flores, a produção geitosíssima de flores artificiais, de
paramentos ricamente bordados, de doces em que se exibia a fantasia
colectiva de cada convento, as distracções inocentes que dava a cada
uma êste trabalho, para todos proveitoso, a tagarelice natural a
pobres mulheres ignorantes sem responsabilidade de árduos deveres nem
compreensão nítida do seu sacrifício, as visitas à grade de parentes e
amigos enchiam ali o monótono giro dos dias e dos anos.
O século XVIII tinha tambêm os seus _outeiros_, as suas _eleições_, as
suas festas de locutórios e de igreja.
Acudiam poetas às solemnidades do _abadessado_ e, desde Filinto
até Bocage, quantos ali fizeram brilhar o seu engenho, glosando
motes, improvisando sonetos, repetindo quadras e décimas amaneiradas
e requintadas. Os filhos segundos das primeiras casas do país
interrompiam então as tropelias de toureiros, as arruaças nocturnas
com que se deleitavam em assustar o burguês pacífico, e vinham tambêm
espreitar sob o véu que a meio lhes ocultava o rosto, os lindos olhos
coriscantes, os rubros lábios risonhos, as morenas faces penugentas
como pêssegos, das suas primas e parentes, as lindas noviças, as doces
raparigas destinadas ao serviço de Deus, por não haver cá fora quem
as quisesse sem dote, ou por não consentirem as famílias que elas
deslustrassem a sua altiva prosápia em casamentos menos dignos da
preclara origem do seu nome.
Era um tempo estranho êste. A crença primitiva embotara-se nas almas,
deixando ainda nos lábios o seu vocabulário especial, a sua tecnologia
sagrada. Ninguêm se revoltava ainda abertamente contra os abusos de
um regímen religioso e político que, degenerando da sua nobre origem,
tinha conservado os defeitos e perdido as grandes qualidades que o
haviam feito longamente viver; ninguêm se revoltava em palavras, mas
as obras correspondiam ao relaxamento de tôda a disciplina, à tibieza
crescente de tôda a fé.
Leonor de Almeida, dentro do convento de Chelas, pôde, mercê dessa
transformação completa da disciplina conventual, ler, pensar,
instruir-se, formar uma concepção pessoal do mundo e da vida, sem que
ninguêm ousasse intervir no fôro íntimo da sua juvenil consciência.
Ninguêm, engano-me. Intervinham amiudadas vezes o pai, a mãe, a amiga
mais querida de Leonor, a condessa de Vimieiro, Teresa de Melo Breyner,
a quem ela, em versos e cartas, chama poéticamente e arcádicamente à
moda do tempo, a sua Tirce. Mas a todos estes ela iludia com hábeis
sofismas, ou contradizia com rigorosos argumentos. O mais penetrante
espírito com que o seu se correspondia era o do pai, o marquês de
Alorna, muito mais ilustrado, muito mais inteligente que o vulgar da
sua classe e do seu meio, mas imbuído de muitos dos preconceitos de
ambos.
Temos felizmente à vista parte das cartas inéditas dirigidas por Leonor
de Almeida ao marquês seu pai, e por elas podemos reconstruir a vida
das três senhoras no convento de Chelas, modificando e corrigindo com
a publicação de documentos autênticos alguns dos erros que se notam no
prólogo às obras poéticas da marquesa, publicadas em seis voluno ano de
1844.
Nesse prólogo, que não traz nome de autor, mas no qual se sente a
inspiração da filha da marquesa de Alorna, D. Henriqueta, então dama
camarista da senhora D. Maria II, se diz que o marquês de Alorna, pai
de Leonor, escrevia à espôsa do seu cárcere da Junqueira, tendo por
tinta o próprio sangue. Exagêro romanesco êste, que se acha desmentido
no prefácio do folheto escrito pelo próprio marquês de Alorna, e
publicado mais tarde pelo presbítero José de Sousa Amado, sob o título
que damos em nota[23].
Citemos o período que explica e esclarece êste ponto importante da vida
do prisioneiro:
«Naquelas prisões, onde por tanto tempo gemeu a inocência e o
merecimento, os presos eram privados de tinteiros, talvez pelo receio
de se relacionarem uns com os outros, ou com suas famílias. O autor,
porêm, desta memória excogitou um meio que muito bem lhe surtiu, para
haver tinta; e foi lavar os pés das cadeiras que lhe deram pintadas de
vermelho, com o vinagre que lhe ia ao jantar.»
Foi com esta tinta, de um róseo desmaiado, que temos à vista, que o
marquês escrevia à mulher e à filha.
Sem serem própriamente as clássicas masmorras de séculos mais cruéis
do que êste, que ainda o era tanto, os cárceres da Junqueira eram
suficientemente escuros e lôbregos e infectos para que não seja
necessário acrescentar à sua história tenebrosa a lenda do sangue usado
como tinta pelos prisioneiros desgraçados.
Em algumas das celas em que os presos viviam--como, por exemplo, na
do marquês--tão débil era a claridade do dia que penetrava por uma
estreita fresta, que a luz tinha de estar perpétuamente acesa para que
os infelizes que ali habitavam podessem escrever ou ler ou remendar
os seus miseráveis andrajos[24]. Por falta de tratamento e de curativo
ali enlouqueceu o conde de S. Lourenço, ali morreram o conde de Óbidos
e o conde da Ribeira. Ali sofreu inocente a mais atroz miséria D.
Martinho de Mascarenhas, o filho do duque de Aveiro, conhecido entre os
presos pelo _Marquesito_, e a cuja caridade engenhosa, a cuja bondosa
solicitude o pai de Leonor tanto deveu na sua enclausuração. O marquês
de Alorna foi, porêm, dos poucos que suportaram, em plena integridade
mental e sem grandes sofrimentos físicos, êsse período tenebroso e
cruel, êsse período de tormentosa perseguição que durou dezoito anos.
As cartas de Leonor, e algumas do marquês, que tivemos a fortuna de
ler, revelam os finos quilates dêsse carácter de fidalgo, fiel à
religião em que se criara, e na qual achou confôrto e fôrça para o
longo suplício; fiel à instituìção monárquica a cujos abusos devia a
sua imensa desgraça e a dos seus; coerente consigo próprio, como se não
pode ser nas épocas de transição, tais como aquela em que a filha vai
desenvolver-se e vai viver. O marquês de Alorna viajara, vira a côrte
de França no seu ainda absoluto esplendor de etiqueta e luxo; comparara
as cousas lá de fora com as nossas, e percebia a fundo a abjecta
decadência em que a pátria tinha caído.
No prefácio das obras, já citado, vem a narração do incidente,
ligeiramente cómico, havido entre Leonor e o arcebispo de Lacedemónia,
mas em circunstâncias que as cartas que temos à vista contradizem.
Nem o arcebispo ameaçou Leonor com as iras do marquês de Pombal, nem
a condenou a dois anos de clausura ainda mais estreita do que já era
a sua; nem tão pouco a gentil poetisa de Chelas lhe deu a resposta
_corneliana_ de que reza o prefácio. Foi muito mais pacífica e muito
menos romanesca a sua entrevista com o prelado. Ouçam-na tal qual ela a
narra a seu pai, em uma das suas cartas:
«Chegou meu irmão a Lisboa, bem galante e estimabilíssimo, não obstante
as melhoras de minha mãe, o ar frígido e coado das grades meteu mêdo ao
médico e não houve remédio de condescender com os desejos que ela tinha
de o ver. Passados três dias de meu irmão estar em Lisboa fêz que,
muito impaciente de ver minha mãe, obtivesse um tácito consentimento
da prelada, entrasse com um barril de água, que lhe custou, mas deu
tudo de barato. Jantou connosco, tivemos um dia de folga, todos juntos,
e saíu meu irmão à noite, segundo o costume conventual, o qual admite
aqui infinitas pessoas com qualquer pretexto. Minha mãe estava fora da
cama, muito contente com o filho, e nós igualmente com o irmão, nem
por sombras imaginávamos que isto seria prejudicial a coisa nenhuma.
Entretanto as freiras, furiosas contra nós, davam conta aos prelados,
com o aspecto mais horroroso que é possível, e no dia seguinte veio
a aia da prioreza chamar-me a mim e à mana, da parte do arcebispo de
Lacedemónia. A primeira coisa que me lembrou foi responder que não
queria lá ir. Mas permitiu Deus que minha mãe julgasse o contrário, e
fomos ambas, eu e a mana. Ao entrar na grade apresentaram-se-nos dois
homens; um dêles valia por um esquadrão; era uma baleia de rebuço em
um capote de baeta usada, um daqueles cónegos que pasma _à l’aspect
d’une soupe_, e sem mais cumprimento com as pupilas se assentaram os
nossos dois prelados. Êste gordo era o inspector, e o arcebispo, de
menor volume, disse: «V. Ex.ᵃˢ podem estar a seu gôsto.» Sentámo-nos,
escarrou êle, tossiu e se _rengorgeant_ na cadeira, principiou: «Sua
majestade, a quem constou o atentado que hontem cometeram seu irmão
e v. ex.ᵃˢ, violando a clausura, me manda repreender a v. ex.ᵃˢ
ásperamente, e é servido ordenar que v. ex.ᵃˢ não tornem à grade até
segunda ordem, e que andem vestidas honestamente, e que as suas criadas
se reformem nestes oito dias, passados os quais, se o não fizerem, tem
a prelada ordem para serem expulsas.» Eu e a mana ouvimos em silêncio,
modestamente, estes quatro versos, e acabada uma grande prelenga que
êle fêz sôbre as imunidades da clausura, respondi eu que o nome augusto
de sua majestade bastava para que pessoas que tinham sido educadas com
honra olhassem só com respeito quaisquer ordens, e que eu segurava a
s. ex.ᵃ que elas seriam executadas com fidelidade e prontidão. Porêm,
que o nome _atentado_ era tão horroroso, que depois de protestarmos
a nossa obediente submissão, restava ainda pôr na sua verdadeira luz
o pretendido _atentado_ e convertê-lo numa acção generosa, digna da
piedade dos nossos legisladores, e alêm disso conforme às liberdades
que eram concedidas a minha mãe. Pintei-lhe com côres bastantemente
vivas um filho que despreza o trabalho mais penoso para consolar uma
mãe aflita, e satisfazendo com o seu cansaço as apertadas leis da
clausura. Disse-lhe que havia uma multidão de casos idênticos, e que
só _dezesseis anos_ de pezares sem esperança de alívio davam motivo a
que abusassem do nosso estado as nossas acusadoras... A respeito dos
vestidos os nossos não foram invejados senão por limpos, e o arcebispo
mesmo se riu das respostas filosóficas (_sic_) que lhe dei, e da
prontidão com que me quis logo vestir de côr à sua escolha, achando-me
muito honrada, que el-rei se dignasse dar ordens em uma matéria que eu
muitas vezes deixava ao arbítrio do mercador... A reforma das criadas
consiste em dois covados de cassa postos na cabeça. Considere v. ex.ᵃ
que dificuldades e que casos fazem rodar um arcebispo de Lisboa aqui,
chamar-nos, repreender-nos, e no fim dizer-nos que não necessitávamos
de enfeites _porque somos muito bonitas_. Ria-se meu querido pai, e
olhe para estas cousas como merecem.»[25]
Esta citação dá o estilo epistolar de Leonor de Almeida, que sómente
ousámos alterar na pontuação e na ortografia, pois que ambas são muito
defeituosas. Viva e pronta na réplica, animosa na crise, sem covardia
de género nenhum, nem moral, nem física, e usando com facilidade
e graça a fraseologia peculiar do seu tempo em que a _filosofia_
intervem a propósito de tudo. Contamos por inteiro a anedota por
não ser inteiramente conforme à que se conta no prefácio das obras
poéticas da marquesa de Alorna, e por esta última versão ter sido
inalterávelmente repetida por todos os biógrafos que se teem ocupado da
nossa poetisa[26].
* * * * *
Nos dezoito anos do seu cativeiro, a primeira e mais querida ocupação
de Leonor de Almeida consiste no estudo e na leitura incessante de
todos os livros que lhe vêm parar às mãos. Não preside a essa leitura
nem método rigoroso, nem critério seguro. Em Portugal, e naquele tempo
não o havia nem nos melhores espíritos.
Muita vez Leonor se entusiasma por um autor que não merece êsse preito,
muita vez mistura à lista de grandes mestres, em literatura ou em
filosofia, um nome absolutamente medíocre; outras vezes, falando de
autores mais célebres, deixa entrever que os compreende mal, ou que não
os compreende de todo.
Mas a sêde de saber devorante, angustiosa, intensa e viva, como uma
paixão que é nela absorvente, ilude-lhe deliciosamente os longos anos,
os intermináveis dias da sua estreita e monótona clausura.
Leonor estuda latim e com singular aproveitamento; estuda o francês,
o italiano, o inglês, o alemão; chega a estudar o árabe! Aprende e
cultiva a música, canta no côro as belas melopeias sacras da liturgia
católica e conventual, e na grade, no lucutório, nos serões da
abadessa as cançonetas italianas com letra de Metastásio, as árias dos
compositores do tempo, franceses e italianos.
Por conselho do Dr. Inácio Tamagnini, seu médico e seu amigo, põe-se um
belo dia a estudar lógica, declarando ao pai que «não basta a lógica
natural, que isso não é mais que um caminho andado para a saber, e por
melhores que sejam as disposições, se a arte nos não diz que cousa
é _proposição lógica_, se nos não faz conhecer que cousa é _idea da
imaginação_ ou do _entendimento_, quais são os erros que nos vêm
dos sentidos e quais da autoridade, que cousa é crítica, o que são
as ideas simples ou complexas, o _silogismo_, o _maior_, o _menor_,
a _conclusão_, antimema, dilema, sorite, etc., nada disto revela a
natureza.»[27]
Portanto, ei-la que lê com afinco o professor Félice, o padre Teodoro,
e Wolfio, e Verney e Port Royal, aconselhando estes autores e estes
livros ao _Marquesito_ de Gouveia, companheiro de cárcere do marquês
de Alorna, e que êste sonhara dar mais tarde por marido a D. Maria de
Almeida, a encantadora e fina irmã de Leonor, tão letrada ou quási
tão letrada como ela, e para agradar à qual não bastam a nobreza,
a elegância patrícia, a formosura viril, é tambêm indispensável a
_filosofia_ e a lógica!
A respeito dêste novo estudo compreendido sob os conselhos do bom
médico, a quem o marquês de Alorna manda agradecer da Junqueira, a
vida e a educação intelectual da talentosa filha, eis como o pai lhe
responde inteiramente ao corrente do assunto versado:
«Parece-me muito bem o estudo da lógica, de que depende tudo quanto
cabe no discurso humano, e muito particularmente a poesia e a retórica.
«Desta última arte tambêm seria conveniente que visses algum tratado.
«Nesta matéria bem sabes que te tenho falado há muito tempo. A lógica
que algum dia te inculquei foi de Port Royal. Não conheço a de Mr.
Félice, mas como nessa matéria não se pode inventar nada de novo tudo
vem a dar no mesmo, com mais ou menos impertinência. É estudo algum
tanto fastidioso, principalmente para os que teem mais lógica natural,
mas os desta casta em pouco tempo o poderão devorar, e melhor é que não
se dilatem nêle com excesso, porque nesta matéria o demorado artifício
faz algum dano à boa natureza. Esta casta de lição tem um certo tempo
em que consiste a sua conveniência, e da mesma forma que é muito
proveitoso ter regras para se não equivocar com falsas aparências, como
sucede muitas vezes aos poetas, tambêm o espírito sofístico não presta
para nada.»
No meio dos seus estudos mais enfadonhos, as horas de distracção são
tomadas pela leitura.
Pede licença ao pai para ler Rousseau[28] e Condillac, e Diderot, e
Voltaire: decora Racine e Corneille, e ainda mais, Crébillon tambêm,
a quem a França chamou por muito tempo o seu Sofocles! Lê Pope, lê
Boileau, lê Cervantes. Tudo que lê a encanta, sem grande crítica, sem
muita finura de percepção, sem um pensamento de síntese a que tanta
leitura se subordine, mas devorada de curiosidade, e justificando
o dito de Fontenelle de que _basta a curiosidade para alimentar a
existência_.
De vez em quando, as influências de que já falámos e a superstição
implacável do seu meio, congregam-se numa espécie de conspiração contra
essa insaciável sêde de saber, que fatalmente há de ir minando nela a
integridade e a pureza da sua fé católica, a sua ingenuìdade de menina
e môça, e transformando-a numa criatura em absoluta desproporção,
em mal disfarçado antagonismo com a sociedade hipócrita e beata,
ignorantíssima e formalista, até ao fanatismo e à demência, em que ela
pelo seu nascimento e posição será chamada mais tarde a viver.
Então, da alma fogosa e irrequieta de Leonor saem palavras quentes
de viva eloqùência, defendendo o acesso dêsse _mundo interior_ cujas
visões a distraem, cujas maravilhas a enlevam, cujos prazeres puramente
espirituais a trazem absorta e esquecida da vida rial tão pungente e
tão lúgubremente solitária!...
Não, isso é que ela não consente que lhe roubem, essa vida fictícia
que ela edificou com os seu livros, com os seus poetas, com os amigos
dilectos da sua inteligência ávida e curiosa!
Nem os pedidos assustados da querida mãe, que ela envolve em carícias,
em cuidados, em requintes de filial meiguice; nem os conselhos
prudentes dêsse pai, a quem a sua alma se confessa com tão inefável e
incansável ternura de todos os instantes, com quem o seu espírito tanto
se compraz em conversar livremente, nem as cartas e as súplicas da
amiga, entre tôdas preferida, a demovem do seu plano.
E êste plano é bem próprio dêsse século literário que tanto viveu
pelo espírito, e que embora em Portugal não irradiasse os esplendores
intelectuais que teve lá fora, ainda assim nos deu aqui alguns
representantes típicos da ânsia de saber, de prescrutar, de sondar, de
conhecer que é como que o seu cunho inconfundível e profundo. Consiste
em estudar sempre, em estudar tudo, em fugir, pelos interesses vivos da
inteligência, às ansiedades extenuantes da vida quotidiana, em esquecer
o presente rial e concreto, pelas distracções violentas, que a uma
imaginação tão irrequieta e tão ardente oferecia o mundo infinito da
erudição, da poesia e da arte!
E depois é necessario não esquecer que Leonor de Almeida tinha no
passado um fantasma sanguinolento e trágico: o cadafalso de Belêm!
Tinha no presente um pesadelo lúgubre a entenebrecer-lhe a existência,
sempre que por um momento a abandonava a seu estranho sonambulismo
de erudita e de poetisa: o cárcere em que o pai ia consumindo hora a
hora a sua virilidade florente e bela! Tinha permanentemente a pairar
como nuvem lúgubre e prenhe de tempestades essa incerteza do seu
destino, êsse pavor do desconhecido, que o capricho e a tirania de
um homem omnipotente podia transformar em eterna clausura rigorosa e
inquebrantável[29].
Por isso, segundo mil vezes o repete, o estudo é a disciplina que
ela impôs ao espírito para o furtar ao desespêro, é o seu _alibi_
artificialmente inventado, com que ela se furta às visões tenebrosas
que lhe enchem de angústia a mocidade.
Muito orgulhosa, muito _viva_, muito rica de energia e de fôrça
espontânea, tendo uma destas organizações fadadas para o movimento,
para a luta, para o desdobramento magnífico de maravilhosas faculdades
complexas, ela sente quanto lhe é fácil sucumbir, logo que, defrontando
com o seu próprio destino, o contemple face a face, na trágica
realidade que o reveste.
E por isso foge de si própria, e por isso pede ao pai com eloqùência
sentida, que a deixe estudar, ler, trabalhar, para não sofrer muito,
para não cair vencida a meio do seu caminho áspero e duro!
«Minha mãe diz que sempre que abre os livros que v. ex.ᵃ sabe que eu
tenho, lhes encontra uma blasfémia. É certo que o seu modo de falar
(_sic_) que é inteiramente diverso da excessiva devoção de minha mãe
pode produzir êste efeito. Emfim, eu que me limito sempre ao que v.
ex.ᵃˢ podem querer, procuro modelar o horror desta melancólica inacção
com a lição que me é permitida. Leio tôdas as manhãs Bourdaloue ou
Fénélon, e depois disto história, poemas, lógica, metafísica. São as
matérias de que gosto e creio que me são permitidos os livros em que me
instruo, porque nenhum dêles deixa de ser nomeado por v. ex.ᵃ.
«A história natural faz as minhas delícias, e se v. ex.ᵃ me privar
disto, seguro que me priva daquilo que mais me recreia. Concluindo,
estou pronta para queimar mr. Buffon e todos os que me vierem à mão
dessa espécie.»
O pai que é, como já dissemos, um homem de sólido bom senso, que tem a
prudência dos pais, aguçada pela inteligência do meio em que a filha
terá de viver, não desanima e continua a aconselhar!...
Uma vez, por exemplo, escreve-lhe depois de lhe falar largamente de um
refutador de Voltaire, e a respeito das obras dêste:
«...Nisto é que me fundo, segundo o que alcança o meu entendimento,
para pretender que tu não leias muitas obras de Voltaire. A maior parte
são dignas de fogo, assim como o teem sido das censuras da Igreja,
e por êsse motivo até as que não teem embaraço devem ser lidas com
cautela. Êste autor é tido justamente pelo mais prejudicial que tem
havido há muito tempo, por ser católico, e depois disto não tanto pela
sua sabedoria como pela sua grande arte de falar. Com efeito não será
fácil encontrar-se outra maior, mas ao mesmo tempo nem sei que houvesse
nunca mais mal empregada, porque uma grande parte das suas obras, bem
se pode dizer afoitamente que compreendem quanto há de pior na escola
do deismo, do materialismo, do desafôro e da mais _alta patifaria_.
Fala em diferentes lugares como nunca falou um infiel nem hereje
contra a igreja romana. Procura sempre com o maior cuidado ocultar ou
destruir quanto nela houver de edificativo, e exagera quanto pode o
que se lhe tem visto de débil e humano. Essas coisas que a todos devem
fazer horror, são muito nocivas aos juizos novos, vivos e femininos,
e sem embargo de destituídas de provas, e às vezes opostas às mais
leves luzes naturais, são ditas com expressões tão engenhosas que o
demónio depara, e proferidas de um modo tão deliberado que fazem muitas
vezes grande impressão, principalmente em quem for mais sensível à
fôrça do consoante. Mas não é só Voltaire o autor pernicioso de quem
tu deves ter cuidado de fugir; há outros, tambem modernos, de que te
deves igualmente precatar, e contra os quais a lição de Bourdaloue e de
Fénélon não é certamente preservativo bastante.
«O teu entendimento, tambêm podes ter a certeza que não basta, porque
não houve até agora nenhum que fôsse livre de tentação e de ilusão;
mas alêm disto a minha conta tambêm se funda em que muito maior será
o proveito literário que vocês tirem dos livros que lhe não podem
preverter o coração e o juizo, do que dêsses que, por conta da moda e
de um apetite cego, se arriscam a resultar-lhe grande dano. No que
toca a história natural ninguêm no mundo com razão a pode condenar. É
das lições mais indiferentes que pode haver, mas sôbre a de mr. Buffon,
e só no que respeita a anatomia, me parece que não convêm a uma pessoa
do teu estado pela liberdade filosófica que tomou, etc.»[30] Ao que
Leonor, já se vê, se submete na aparência. Logo, porêm, que o conflito
se declara abertamente, ela ilude a vontade dos que a cercam ou lhe
resiste com pertinácia invencível, embora envolta nas formas do mais
cerimonioso respeito, da mais formal submissão.
É que rialmente sem êsse forte derivativo do estudo, que é nela uma
idea fixa, seria incomportável o seu destino[31].
«Em vinte e dois anos que já conto não se acha paciência nem filosofia
bastante para sofrer inalterávelmente tanto dano sem a esperança do
futuro.»[32] «Estes dias (o dia dos anos da mãe) em que se renovam as
memoráveis ideas que temos do passado, parece-me que trazem consigo um
pêso formidável.»
E esta idea de distrair-se violentamente para esquecer, aparece
mil vezes sob diversas formas, mas sempre expressa com sinceridade
espontânea.
O seu temperamento, diz ela, é muito melancólico. «Quando estou
divertida não sinto nada; quando rezo, e sou tão miserável que me não
diverte isso nada, sofro infinitamente.»
--«O que me custa é considerar a nossa infelicidade. É ver preso,
oprimido, pobre e tão distante a v. ex.ᵃ, é ver como se desbaratam
tôdas as ideas de felicidade que minha mãe formou, e a impossibilidade
que desgraçadamente tenho para poder desempenhar os meus desejos a
benefício de meus pais. _Estas são as causas das montanhas que tenho
sôbre o peito, e dos meus desfalecimentos._»[33]
É contra esta tristeza medonha que a sua impressionável e ardente
imaginação reage com insólita vivacidade. E sem afectação nem
fingimento, assim como descreve ao pai as torturas que a pungem longe
dêle, tambêm lhe narra as distracções com que ilude ou anestesia o seu
sofrer.
Nas noites de inverno reùnem-se no quarto de uma. Cantam, dansam,
dizem versos, falam em literatura, recitam poesias italianas.
Outras vezes há no convento exames dos respectivos estudos que teem
versado.
Leonor, mais erudita e sisuda, dá conta dos primeiros oito séculos
da história eclesiástica. (!) Maria, aquela doce e poética Maria que
Filinto Elísio crismara em Daphne, como crismara Leonor em Alcipe, é
examinada em poesia e em música!
Na eleição da abadessa acodem aos outeiros de Chelas, já celebrado
por ter enclausuradas as duas lindas, discretas e infelizes filhas do
marquês de Alorna, os poetas do tempo, os fidalgos tafuis parentes de
ambas, os belos espíritos curiosos daquela estéril quadra literária,
Garção, Filinto, etc.
E Leonor, alegre e vivaz, atira-lhe da janela para o pátio, em que se
êles atropelam curiosos e ávidos de vê-las, os motes alambicados, os
conceitos _preciosos_, ao estilo do tempo.
--Alcipe, venha mote!--clamam de baixo os vates freiráticos.
E _Alcipe_, e a irmã _Daphne_ e a companheira _Amaryllis_ (!) respondem
infatigáveis, e as décimas chovem, entrelaçam-se os _acrósticos_, e o
soneto desdobra-se monótono e falsamente majestoso, com o seu remate,
que pretende ser conceituoso e que é banal, como tôda essa poesia
dos outeiros e saraus poéticos do nosso século XVIII, tão vazio de
pensamento e tão pobre de forma.
Um dos encantos com que Alcipe deslumbra o seu auditório consiste
na memória prodigiosa que ela possue e que manifesta, repetindo a
décima galanteadora ou o alambicado soneto, mal o seu autor acaba de
improvisá-lo.
Há uma vibração de intensa alegria na descrição incorrecta,
desordenada, sem relêvo plástico, mas cheia de vida, que Leonor faz ao
pai dêsses dias de agitação, de festa, de comoção literária.
Vê-se que ela foi feita para brilhar, para gozar acremente e
violentamente da vida,--não da vida feita pelos obscuros e ásperos
deveres quotidianos, que dessa triunfam sómente os temperamentos
contrários ao de Leonor de Almeida: os que aceitam as tarefas monótonas
com resignação inquebrantável e o pêso do destino adverso com passiva
tranqùilidade, os que sabem enfastiar-se com coragem e aborrecer-se com
fleugma heróica;--mas da outra, da mais brilhante, que se compõe de
dias felizes e noites vitoriosas, da que embriaga o espírito, da que
excita perigosamente os sentidos, da que exalta em agudos espasmos a
imaginação e a fantasia...
Leonor não tem, infelizmente para ela, os salões esplêndidos de uma
côrte artística e literária como aqueles em que brilharam Vitória
Colona ou Margarida de Navarra, madame de Lafayete ou a marquesa de
Sévigné...
Não tem um centro de polida e graciosa conversação em que se toquem
ao de leve, polvilhando-os de oiro, os assuntos mais fúteis e os
mais áridos, os mais técnicos e os mais gerais, como aquele que, no
seu tempo, em Paris se substituía à própria côrte de Versailles, e
acabava por ofuscá-la absolutamente, aquele em que a parisiense, sua
contemporânea, se vingava com brilho incomparável da longa obscuridade
a que a mulher fôra condenada, no qual ela surgia envolvida nos mais
subtis encantos da inteligência, e nas mais deslumbradoras pompas
da beleza e da elegância, rainha voluptuosa de um mundo que a arte
iluminava com a sua luz azul, que a literatura impregnava do seu
capitoso encanto, e onde até a filosofia se fazia ligeira, acessível e
risonha para que ela a assimilasse, a propagasse, a compreendesse e lhe
rendesse culto.[34]
E emquanto lá fora a apoteose da mulher se celebra magnificamente,
ostentosamente, no meio do requintado luxo de uma época de sensualismo
espiritualizado--é muito obscuramente, no ridículo outeiro de um
convento do extremo da península, que esta criatura, feita para brilhar
na mais ampla e mais elevada esfera, se deleita em mostrar o seu
inquieto espírito, borboleta embriagada pelo néctar de uma falsa poesia.
¿Mas que importa o scenário, se ela o transfigurara com a sua
imaginação de chama? ¿Se ela o enfeita com tôdas as pompas de seu
espírito de sonhadora? ¿Se ela consegue ali conhecer o intenso gôzo de
ser admirada, de todos o mais forte, o mais entontecedor para certos
organismos de excepção?
Numa das oito noites consagradas à _festa da eleição_ Leonor representa
com Maria de Almeida, sua irmã, algumas scenas da tragédia de Racine
_Atália_. Atália é Maria de Almeida. Eis como ela a descreve:
--«A mana ficou linda. Estava de donaire[35] com um vestido de uma
espécie de velilho que se usa agora (porque a pragmática vai-se
profanando fortemente), com o fundo côr de rosa e prata, com listas
negras para fazer a rainha viúva, um véu do tal velilho branco e
prata, penteadas de plumas côr de rosa e negras.
«Eu ia vestida de um velilho azul claro e prata, com listas azul
ferrete, que é a côr que me fica melhor. O meu vestido foi copiado
de uma estampa do sumo sacerdote, e tinha barbas que me chegavam à
cintura.»[36]
Depois desta grave tragédia racineana, houve ainda um intermédio jocoso
em que Leonor reaparece vestida de _frialeira_[37], com gibão côr de
rosa e prata, mantéu verde e saia arregaçada, côr de rosa, branca, côr
de fogo e prata[38].
No baile que se seguiu à representação, tôdas as noviças de Chelas
queriam dansar com as duas irmãs. É que elas são de-veras lindas e
deliciosas de espírito, graça, gentileza e veia cómica. Leonor com o
seu belo rosto altivo, de uma correcção que não exclue o mimo, a bôca
finamente e espirituosamente recortada numa linha rubra e sinuosa, o
cabelo opulentíssimo que se levanta nos voluptuosos penteados do tempo,
ou que se espraia em ondas pelas espáduas esculturais, inspirando à
irmã versos entusiastas[39]; Maria, mais pálida, mais melancólica,
de olhar estranho e doce, e cuja voz celebrada por Filinto[40] é a
delícia dos serões de Chelas, como será mais tarde a delícia dos saraus
aristocráticos de Lisboa, onde ela aparecerá envolta no misterioso véu
de etérea graça com que se cobrem aquelas que a morte tem de colher em
flor!...
* * * * *
No dia dos anos do pai, mesmo preso e distante como está, da mãe
doente e triste, ou de qualquer das duas irmãs, há festa em Chelas
para obedecer ao tradicional costume antigo, cuja memória não deve
quebrar-se.
A iniciativa engenhosa de Leonor é que faz tudo. De dia vai ela para a
cozinha, arregaça as mangas, põe a nú os seus braços de deusa de uma
plástica impecável e de uma brancura lirial, e rola as finas massas,
e bate as alvas espumas, e manipula os saborosos cozinhados e faz ela
própria o jantar com a elegante majestade com que lavavam roupa as
princesas de Homero. Depois, findos os trabalhos grosseiros do dia,
vestem ambas belos vestidos de setim côr de laranja ou côr de rosa que
elas próprias cortaram e fizeram, de que inventaram ou executaram os
bordados ou as rendas, e convidando alguma amiga preferida, ou mesmo
descendo ao locutório e recebendo algum amigo dilecto, partilham com
êles do seu pequenino banquete. Á noite dansam, cantam, tocam, riem até
que o uso conventual as obrigue ao sossêgo da noite.
Quanta vitalidade, que poderoso optimismo bebido nas suas belas e
pacificadoras leituras, as filhas de Alorna não manifestam nesta
reacção contra a injusta fortuna e o bárbaro destino!
Não são lânguidas heroínas de um romantismo bastardo, são duas
organizações perfeitas, de pronta e viva sensibilidade, tão acessíveis
à dor como ao prazer, tão capazes de sofrerem com violência como de
gozarem com arrebatamento.
No meio da sua miséria, das suas iniqùidades, da tirania negra que
pesava sôbre as almas e sôbre os corpos, da superstição que nublava os
horizontes, era optimista e forte o século XVIII; e os seus filhos não
teriam obrado tão altas maravilhas, se a vontade fôsse nêles amolecida
e doente como nos seus descendentes miseráveis! A _sensiblerie_
começava, é certo, a ser moda em França, e a formular-se em livros,
em tratados filosóficos, em tiradas trágicas, em quadros simbólicos,
etc., etc. Mas a emotividade vibrante, estranha doença moderna, que
nos faz tão fracos, tão susceptíveis, de um melindre tão mórbido ante
as próprias dores e as alheias, não existia ainda. Foi o produto de
uma lenta evolução que então começava. Os defeitos grandíssimos e as
grandíssimas qualidades de que o passado se reveste aos nossos olhos,
vem justamente dessa ausência quási absoluta de sentimentalismo e de
ternura.
É isto que o faz ao mesmo tempo duro como o granito e resistente e
forte como êle. Despreza a vida humana, é verdade; mas não se enternece
diante das suas próprias dores, o que é um grande bem e quási que uma
virtude.
Ás grades de Chelas acodem os amigos mais queridos da família de
Alorna. Garção é um dêles[41], e Filinto Elísio é outro. Nas obras do
erudito escritor e nas da futura Marquesa de Alorna encontram-se as
poesias que entre si trocavam os dois. Uma vez doente, e julgando-se
perto da morte, Leonor consagra a
Francisco Manuel do Nascimento um soneto, que ela apelida ao terminá-lo:
Do rouco cisne a voz talvez extrema[42].
É Filinto quem lhe pôs o nome poético de Alcipe que ela nunca mais
deixou de usar nos seus versos. A amiga mais querida, é, como já
dissemos, a condessa de Vimieiro, D. Tereza de Melo Breiner, a autora
da _Osmia_, e irmã de Pedro de Melo Breiner, tambêm grande amigo das
enclausuradas senhoras. Tamagnini, o conde dos Arcos, Pedro Inácio
Quintela, administrador da casa de Alorna, Frei Alexandre da Silva,
depois bispo de Malaca, eis os outros amigos a quem, na truncada mas
preciosa correspondência que a Marquesa de Fronteira nos confiou,
Leonor de Almeida se refere com mais freqùência.
Não é natural que fôssem muito mais numerosos os seus visitantes do
tempo em que estar fora da privança de el-rei e do primeiro ministro
constituía um crime, quanto mais viver sob o permanente castigo que
ambos teimavam em infligir a esta família desventurada.
Os dezoito anos de cativeiro de Leonor não teem, pois, peripécias
interessantes ou dramáticas. Os únicos acontecimentos desta existência
conventual, monótona e triste, é dentro do espírito da nossa heroína
que temos de os procurar. Teem um interêsse de psicologia, não teem
nenhum outro. O corpo dela, preso dentro das grades de um convento, não
pode sequer mover-se para alcançar a saúde que naquele meio asfixiante
a ia de todo abandonando.[43]
Mas nunca o seu espírito repousa, pois que mil problemas das mais
diversas ordens e procedências se movem e agitam dentro dêle.
Um dêsses problemas, o mais sério para uma consciência sincera e lúcida
daquela época, era o religioso. Leonor de Almeida que, com o volver dos
anos, se fêz estreitamente devota e intransigentemente aristocrática,
era áquele tempo ledora assídua da enciclopédia, das obras de Alembert,
Diderot, Helvetius, Rousseau, etc., etc. Muita vez ilude e torneia a
dificuldade de conciliar esta leitura com as ordens expressas que tem
do pai, apresentando só um lado das doutrinas em que se embebe, ou
um aspecto dos livros que quotidianamente folheia, mas é de ver que
num espírito de mulher, acessível às influências externas--e sempre
espêlho que reflecte e não luz que irradia--estas leituras aturadas
haviam de produzir o seu efeito natural.
Nesta fase activa e interessante da sua vida espiritual, Leonor
partilha com muitos espíritos do seu século, educados na tradição
católica, uma doce e simpática ilusão.
Ela pretende conciliar o racionalismo filosófico com a religião bebida
na infância. Quer amar um Deus corrigido pela razão, uma religião
mondada de superstição e de abusos, uma Bíblia que Voltaire houvesse
préviamente aprovado, um evangelho em que o _Vicaire Savoyard_ não
encontrasse crítica alguma que apontar.
A _sã filosofia_, que estava então no seu fulgurante início,
patrocinada pelos reis, pelos príncipes, pelos bispos e pelos
grandes, não fôra ainda levada ao seu têrmo lógico por Saint-Just e
Robespierre... A velha sociedade julgava possível subsistir, inteira,
hierárquica, em pleno gôzo dos seus preconceitos, riquezas, privilégios
e excepções, desmoronados ao vento da ironia voltaireana, os alicerces
seculares em que assentava o seu domínio positivo.
Não admira que uma criança inteligente e sonhadora, tendo tido ocasião
de perceber a baixeza moral a que a superstição levara êste país,
tivesse a mesma ilusão que então deslumbrava tantos entendimentos
luminosos...
Leonor sentia-se permanentemente sob a censura disfarçada ou clara dos
que mais íntimamente privavam com ela. O próprio pai, esclarecido como
era, sentia mêdo ao perceber os assomos de independência espiritual,
que ela deixava transparecer nos conceitos, e naturalmente derivava de
cada uma das suas leituras.
Vejâmos as cartas com que Leonor respondia às observações prudentes e
cautelosas dêste amigo do seu coração, com o seu espírito melhor se
entendia.
«Eu li muitas vezes as _Reflexões_ de mr. de Bossuet, li parte da obra
de l’Abbadie, que me fatigou, mas que tornarei a ler com mais gôsto.
Fora disto tenho lido quanto achei a favor da religião, com desejo de
fortificar a doutrina com que me criaram. Agora há muito tempo que me
privo dessas leituras, de propósito, julgando que uma coisa superior
a tôdas as razões humanas escusa delas; e tratando de nutrir o meu
coração de virtudes que teem por fundamento esta crença, cultivo o
entendimento com os conhecimentos próprios para um génio curioso, sem
esperar daqui mais fruto que o de livrar-me da ociosidade e arruinar
de alguma sorte a fôrça da melancolia.
«Jámais entrou nos motivos da minha aplicação algum espírito de
singularidade e uma vaidade _gentílica_ como v. ex.ᵃ lhe chama,
incompatível com a modéstia de que desejo animar as minhas acções.
Gosto de saber quanto cabe nas minhas fôrças, mas antes quero ser
ignorante do que indócil.»[44]
E noutra carta sôbre o mesmo assunto a que volta freqùentemente,
revelando bem a importância que êle tem para o marquês de Alorna,
solícito conselheiro de sua filha, e talvez, como é natural do
seu sexo, do seu tempo e da sua raça, um pouco aterrado ante uma
superioridade feminina, a que êle não percebe aplicação prática de
espécie alguma:
«Sôbre Voltaire não acho que dizer, porque v. ex.ᵃ entende da matéria
melhor do que eu. Sôbre a controvérsia sou proìbida a falar por todos
os princípios, e até devo a S. Paulo a obrigação de me escusar o meu
parecer absolutamente. Contudo êle é reputado como um grande filósofo
e como o assombro dêste século. Eu me lastimo dos seus erros, mas
não posso deixar de confessar a v. ex.ᵃ que me vieram as lágrimas
aos olhos quando vi que v. ex.ᵃ lhe dava sentença de queima! De que
servem homens queimados, meu querido pai? Por ventura reconhecem êles
a verdade na fogueira? Não é Deus só quem deve pôr têrmo aos nossos
dias? Se Deus sofre os homens miseráveis sôbre a terra, que direito
teem os homens para os não sofrer? Eu conheço que v. ex.ᵃ tem muita
virtude e muito juizo para decidir bem, mas eu que son mulher, com o
coração muito pequeno, quando se fala em matar sempre me aflijo pelo
sentenciado, seja quem for. Não está mais na minha mão!
«Deus terá piedade da minha fraqueza se não é boa, em conseqùência
do preceito--de amar o próximo como a mim mesma;--queira Deus que
eu não diga alguma tolice que desagrade a v. ex.ᵃ, mas copiei o meu
sentimento, e disfarçá-lo parecer-me ia pior».[45]
Êste trecho é de uma incomparável nobreza e até de uma simplicidade
eloqùente e _sentida_, bem rara no estilo de Leonor de Almeida e da
geração sua contemporânea em Portugal. Bastava êle para justificar o
que no anterior capítulo escrevemos sôbre a concepção errada e cruel
que acêrca da justiça havia naquele tempo entre nós, até nos espíritos
mais cultos.
O marquês de Alorna tem direito a ser contado entre um dêles, e no
entanto, de ânimo leve, numa carta à filha escrita do cárcere, onde
agonizou dezoito anos, vítima da prepotência régia e da justiça da lei,
vê-se que êle condena à _pena de queima_ êsse Voltaire que defendeu
Calas, e que fêz ouvir a sua voz eloqùente e viva, a sua voz que tinha
asas e asas de fogo, em prol de tôdas as vítimas da iniqùidade humana,
da iniqùidade social, da iniqùidade religiosa!
Tão pouco preço se dava então à vida do homem e ao seu sofrimento.
Tão impiedosa e dura era a alma em que a superstição imprimira a sua
negra influência, e que a tirania criara aos seus peitos de fera! _The
milk of human kindness_, êsse leite da bondade humana, de que fala o
poeta inglês, não corria certamente nas veias dos nossos maiores. Foi
êste século que melhor do que tudo o sentiu, o criou, o fêz jorrar em
mananciais permanentes da alma da humanidade, amolecida por tantas
dores!... É bem verdade, e já aqui mesmo o repetimos, que pagámos
com uma porção de energia êsse acrescentamento das nossas faculdades
afectivas; mas abençoado o contrato que nos fêz bons, muito embora nos
deixasse mais fracos...
A questão religiosa vê-se que é, a par de outras que teem relação com
a sua superioridade literária, a origem de maiores tormentos para o
espírito de Leonor de Almeida. É tão curiosa esta fase da sua vida
íntima, que não resistimos a transcrever algumas das cartas que mais a
esclarecem:
«Vou-me restabelecendo com os esforços da medicina e da filosofia;
uma sem outra me seriam inúteis. Leio moderadamente, porque assim o
preciso para viver, e _apenas largo os livros não acho em redor de mim
senão contradições que me tiranizam_. A verdade e v. ex.ᵃ, que são
os objectos que me obrigam a estudar, são quem me consola das perdas
que faço, talvez, na opinião dos outros. A maior parte das pessoas
com quem falo estão sempre de parecer contrário ao meu, e aquelas
que concordam comigo ou não m’o confessam ou são tambêm vítimas dos
caprichos dos outros. As sciências são um nome vago, insignificante, e
elas em si mesmas são reputadas como um meio de ostentação; os melhores
entendem que elas servem como um meio para saber argumentar, e não
lhe vêem o fim com que eu as olho, de nos procurarem a felicidade e
regularem os costumes. Ontem tive vários argumentos com o confessor de
minha mãe, que sendo homem de infinito propósito e bom coração, está
entestado das ideas vulgares a respeito dos filósofos modernos, e não
admite absolutamente nenhum princípio honesto na aplicação fora, do
que serve únicamente para a salvação eterna. Tudo inutiliza. Chama à
poesia sciência de pagãos, à matemática sciência de loucos, à física
meio de estabelecer nova religião; emfim prognostica que daqui a dez
anos seguramente haverá alguma seita ou uma total _transtornação_ do
cristianismo. Esforcei-me inútilmente para provar que os filósofos,
ainda que erravam em muita cousa, não eram, contudo, incompatíveis com
o cristianismo sublime. E que a natureza que êles profundavam, era
aquela obra magnífica, que mais que tôdas provava a existência de Deus,
que êles olhavam com respeito as suas leis, de que Deus era o autor,
e que Jesus Cristo não veio senão aperfeiçoar. Inexorável a tôdas as
conseqùências que eu tirava dêstes princípios tão verdadeiros, recorreu
ao ordinário meio dos que teem sistema e não teem razão, encheu de
nomes injuriosos os escritores mais célebres dêste século e às injurias
e gestos apostólicos deu o valor de convicções. Pretendia tirar
argumentos contra Newton e outros herejes da sua irreligião, e nunca
pôde admitir o princípio de que em matéria scientífica vale mais o dito
de um sábio hereje, do que o de um santo ignorante.
«Eis aqui os homens de mais juizo e de maiores luzes que por cá temos!
«Eu que não quero, nem levemente, afastar-me da sujeição que devo à
Igreja e às ideas de meus pais, quero que v. ex.ᵃ me diga o que crê a
respeito dêstes pontos, em que os argumentos caíram, e que minha mãe
não pode decidir, porque não estudou nem ao menos leu nada sôbre estas
matérias. Sendo a minha razão livre como tôdas, a natureza e a ternura
me persuadem que só admita o que meu pai admitir.
«Disse eu que a conquista da América tinha sido um atentado contra
a espécie humana, porque a conversão daqueles povos devia ser menos
obra de cães de fila, espada e artilharia espanhola, que da razão e da
brandura; que Maomet persuadira a mentira com ferro e fogo, e Jesus
Cristo a verdade por meio da sua cruz e da missão dos seus apóstolos;
que não havia direito nenhum que permitisse tirarem-se as terras a seus
próprios donos, para se darem aos tiranos que as conquistaram. E que a
bula em que se fazia aos americanos a honra de os admitir na espécie
humana era escusada, porque êles antes disso já eram homens. Diziam-me
que devo crer que tudo isso foram obras meritórias.
«Os homens que se sacrificam por princípios de religião fazem-me
lembrar os sacrifícios de Osiris, de Saturno, de Hércules, de Marte, e
tanto fanatismo me parece uma coisa como outra.
«Não me absolveu o confessor porque eu lhe disse isto, e o de minha
mãe, a quem fui falar para me dizer os termos em que havia de ficar
para me absolverem, disse mil _arengas_, das quais vim a coligir que
êle, no fundo, estava nos meus princípios, e que o não queria confessar
para o não levarem ao santo ofício.
«Eu, que não tenho mêdo do santo ofício, como não tenho mêdo da
sem-razão e dos erros, quero saber se hei de mudar de opinião, porque o
confessor me reservou a absolvição até minha total emenda. O pecado que
eu confessava era o de ter dito diante de pessoas menos aplicadas o meu
sentimento nestas matérias.
«Lembrando-me ao mesmo tempo o texto de S. Paulo, em que nos recomenda
_não escandalizar_ os fracos; esta imprudência me atraíu tôda esta
arenga que me tem aborrecido, porque quanto mais medito menos saída
lhe acho. Os confessores são quási todos ignorantes e gente a quem
nunca exporei as minhas dúvidas.
«Torquemada e outros inquisidores são no meu conceito Nero e Calígula,
Cromwell[46] e outros monstros dêstes.
«Isto dizem que é pecado; será, mas é de razão e de piedade! V. ex.ᵃ
é meu pai, tem mais sciência que os frades, e tem-me mais amor, para
desejar o meu verdadeiro bem. Prouvera a Deus que me podesse confessar,
escusava-me o trabalho de aturar estes piedosos preocupados, ignorantes
e fanat... êste nome é proìbido. Perdôe-me v. ex.ᵃ enfadá-lo com estas
impertinências, mas só com v. ex.ᵃ é que me entendo, meu querido pai.
«Disse eu que todos os filósofos assentaram que a terra se movia;
dizem-me que eu disse uma blasfémia, porque Copernico foi condenado e
Galileu obrigado a desdizer-se.
«Disse que o clima era origem da côr negra nos homens, e que a povoação
da América era um mistério incompreensível, e provei estas duas
proposições. Responderam-me que a maldição de Cham e não _viagens
imaginárias_ eram a solução. Tudo isto é ridículo para quem tem lido
como eu, e o partido de calar-me que eu tomo há muito tempo, se basta
para tranqùilizar-me aparentemente, consterna-me porque receio que
minha mãe apreenda alguma coisa que a aflija, e assim tome v. ex.ᵃ
o trabalho de a tranqùilizar sôbre os meus princípios, e de dizer o
que quer que eu faça. Tôdas estas coisas compadeço eu com a pureza do
cristianismo. Eu olho para o evangelho e para os apóstolos como meus
mestres, tudo quanto os contradiz não admito, e a Igreja nossa mãe a
respeito e a olho com a mais submissa veneração. Contudo os homens são
sempre homens, e assim os considero. Se eu podesse escrever quanto
me lembra, v. ex.ᵃ veria que abomino as questões, e que a docilidade
é o que mais me agrada. Porêm, cada um dá diversa interpretação aos
termos em que argumento, e quando digo _razão, verdade, amor da ordem_,
entendem-me _sistema, ensino e transtornação_; neste têrmo sofrerei
eternamente um martírio quási incomportável...»[47]
Esta carta dá-nos em flagrante realidade a luta que nesse tempo se
tratava em muitas almas piedosas e elevadas, que compreendendo a pureza
inefável do cristianismo, e vendo-o interpretado por um sacerdócio ou
fanático até à loucura, ou ignorante até à sordidez boçal, não sabiam
conciliar contradições tão violentas como afligidoras.
Leonor de Almeida não conta senão os combates de consciência de uma
pobre mulher isolada, talvez um pouco puérilmente vaidosa da sua
incompleta sciência, bebida em leituras truncadas, sem método e
sem guia; mas que eloqùência sublime tem essa luta obscura quando
a relacionamos com tudo que a consciência humana tem sofrido para
se resgatar do cativeiro em que jazeu presa longos séculos! Com que
piedosa ternura, nós as almas libertas dêste tempo, devemos contemplar
os que padeceram suplícios sem conto para que a verdade relativa que
hoje é nossa posse atingisse emfim a sua alforria e o seu império!
Quantos mártires expiaram em fogueiras, em húmidas masmorras infectas,
em morticínios crudelíssimos, em hecatombes abomináveis, a aspiração
que tiveram à liberdade da sua consciência, à integridade do seu
pensamento, à expansão inteira da sua independência mental! E os
que tinham nascido nobres e francos e sinceros, e se corromperam e
degradaram rastejando na sombra corrupta da hipocrisia e da mentira,
porque lhes faltava a heroicidade com que se afronta o martírio, ou
porque os amolecia a sensibilidade estranha dos que sentem a própria
vida identificada a outras vidas?!
E os que sofreram como Leonor a luta ingente, a luta dolorosa entre
as doutrinas bebidas no leite maternal, sugeridas com infinito amor
por lábios de mel e olhos de inefável brandura, e sentiram irromper da
lição dos livros ou da observação dos factos, ou da lógica triunfante
do espírito reflectido e lúcido, a verdade que não pode ser nem
desmentida nem dominada, a verdade que baptiza como água lustral,
que queima como o fogo do céu, que pulveriza como raio destruindo os
edifícios erguidos pelos sofismas da hipocrisia ou pela imaginação
ignara das multidões?!
É grande, é imensa a dívida que contraímos com êsses que sofreram para
que nós conhecêssemos a tranqùila beatitude e a serêna alegria da
consciência libertada!
E não são pueris as queixas de Leonor logo que nos lembrarmos que para
pensar livremente, tudo que então valia um pouco em Portugal ou teve de
fugir, ou teve de degradar-se pela mentira!
Filinto, Ribeiro Sanches, Garção, Bocage, José Anastácio da Cunha, e
tantos e tantos outros lá estão a provar que o receio do confessor
pusilâmine não era uma desculpa vã!
E no entanto devemos confessar que quem estava na lógica da sua crença
eram os que discutiam acremente com a juvenil _livre-pensadora_ de
Chelas!
Não havia conciliação possível entre o velho e o novo credo.
Não se tratava do evangelho livremente comentado pelo espírito
individual, tratava-se da Igreja, poder político e poder social,
ao mesmo tempo que era poder religioso, e cujos dogmas definidos,
rigorosamente formulados, por um clero que, depositário da verdade, a
tinha traído em benefício dos seus interesses, formava hoje um corpo
que ou havia de triunfar inteiro ou inteiro caír.
O confessor da marquesa de Alorna, profetizando para dali a alguns anos
o cataclismo supremo em que a velha sociedade se afundasse, revelava
um tino, uma previdência e uma penetração bem raras no clero português
daquela época, e muito superior, em todo o caso, à filosofia optimista
e à incoerência anti-católica da sua contendora juvenil.
Com certeza que a esta carta comovedora, escrita ao pai, e que é como
a confissão palpitante de uma alma sincera, e que busca entre agonias
a verdade e a luz, o marquês, mais lógico consigo próprio e com a
educação que lhe tinha modelado e formado a inteligência, respondeu
pondo-se francamente do lado da autoridade e da tradição contra a
indisciplina da filha e a _vaidade gentílica_ do seu entendimento.
Mas não se limitou a esta escaramuça entre ela e os dois confessores a
inquietação da consciência de Leonor.
A amiga Tereza de Melo Breiner escreveu-lhe, lamentando a sua
índocilidade aos conselhos da Igreja, e mais de uma vez ou a chistosa
ironia ou a grave reflexão de Leonor dá lugar a conflitos entre ela e a
mãe, ou a amiga, ou os frades que a cercam.
A erudita reclusa conhece os textos dos doutores, as opiniões de S.
Paulo, de Santo Agostinho, de Tertuliano, as conclusões dos concílios,
as matérias sôbre que versam as diversas bulas, e confunde não raro os
seus adversários, mostrando-se muito mais instruída do que êles nos
assuntos que debatem em perpétuas controvérsias.
Mais uma carta sôbre o mesmo assunto, e com respeito à condessa
do Vimeiro: «Já vejo que v. ex.ᵃ tem curiosidade sôbre o que diz
Tirce[48] a respeito dos filósofos. Na realidade, esta estimável amiga,
o único defeito que tem é a tenacidade em certos pontos, e persuadida
uma vez de que a filosofia era o móvel das minhas acções, independente
de outros princípios mais sagrados, é impossível arrancar-lhe dos
miolos esta preocupação. Na carta que há mais tempo me escreveu e
a que deu origem a graça de D. Alexandre[49], discutia largamente
êsses pontos, e eu dei a resposta que então me pareceu razoável e
digna de mim e dela... A consideração que eu faço dos inferiores, o
desprêzo das acções más cometidas por fidalgos, o ódio à injustiça e
a contradição que isto tem com o sistema de certa fidalguia ridícula
que governa o mundo, são pontos críticos, e quem vê por outro modo
as coisas não me dá as desculpas, nem a razão que eu mereço. Tirce
(condessa de Vimeiro), que é uma santa, parece-lhe muito a propósito
que tôdas as coisas vão adubadas de frases místicas,--eu que amo a
religião e que a respeito muito para introduzi-la a torto e a direito,
e que tudo nesta parte que pode parecer uma afectação me aborrece
muito, emquanto tenho razão não cito livros santos. Como não sou
hereje, nem tenho tentações contra a fé, escuso de fazer a minha
protestação a cada instante, contentando-me com cativar o coração com
as verdades do evangelho sem dar nisso contas a ninguêm. Agradam-me as
coisas como são e prescindo de exterioridades equívocas. Tirce tem tido
por isto uma grande inquietação, querendo quási para seu sossêgo, que
eu lhe reze o _credo_ em cada carta. O meu génio já v. ex.ᵃ o conhece e
não é para ceder senão à ternura. A razão alheia é como a minha, e por
isso não me desvio do que julgo bem feito por motivo nenhum. Escrevi a
primeira carta na qual, sem abaixar o meu estilo a condescendências
aborrecíveis, cuidei de explicar-me segundo o sistema da nossa santa
religião, nos termos mais simples que me foi possível, e na boa
intenção de tranqùilizar a minha querida amiga e de salvar-me da idea
injuriosa que talvez ela tenha da minha submissão aos filósofos. Falei
com uma pessoa instruída, e desafio S. Paulo para que ache na minha
carta uma palavra condenável. Que efeito teve? Nenhum.
«Ficou Tirce como dantes, porêm calada. Torna outra vez a entender
comigo, e verá v. ex.ᵃ pelas minhas cartas com que fundamento. Eu quási
que estou tomando o partido de me calar. Na última carta dizia coisas
muito mais cristãs que em nenhuma das que remeto a v. ex.ᵃ, mas estou
certa que não há de bastar cousa nenhuma.»
Mas não é sómente a sua leitura dos filósofos e enciclopedistas, de
Alembert, a quem ela chama _o carácter mais amável_[50], de Voltaire,
que ela considera o _maior dos homens do século_[51], de Rousseau, _o
genio filósofo o mais raro e o mais estranho_[52], de Diderot, _menos
encantador que de Alembert, mas tão estimável como êle_[53]; não é
sómente a sua intimidade com os grandes escritores do tempo que a põe
em antagonismo permanente com o seu meio.
É tambêm na sua qualidade de poetisa, de _mulher de letras_, bicho
raro para a época, que de todo se esquecera ou de todo ignorava que
tivesse havido no século XVI uma floração encantadora de latinistas,
de eruditas e de literatas em tôrno da poética figura da princesa D.
Maria, nessa côrte de D. Manoel, que foi umas das mais brilhantes da
Renascença. O talento feminino foi sempre para o homem de tôdas as
épocas e de tôdas as nações uma anomalia repugnante, uma monstruosidade
inquietadora.
O talento, que é quási sempre o exagêro esplêndido de uma faculdade
da imaginação ou de uma espécie da sensibilidade, não se contenta
fácilmente com a obscuridade da vida doméstica.
Na transformação completa que a democracia imprimiu à sociedade
moderna, o talento da mulher, se é de escritora ou de artista, pode
tomar a forma especial de um produto cotado no mercado como outro
qualquer, e sendo assim hoje, o homem inteligente e ilustrado, se
não aplaude a mulher que trabalha pelo cérebro, chega ao menos a
compreender que o tolher-lhe o direito de trabalhar seria um criminoso
abuso da sua fôrça.
Na Inglaterra contemporânea centenas de mulheres escampam à miséria e
à perdição pelo trabalho. São romancistas, são jornalistas, escrevem
nas Revistas, colaboram em publicações especiais, publicam relações
de viagens, monagrafias de sciência ou de arte, pequenos tratados de
economia doméstica, etc. A França do século XIX conta entre os seus
mais altos espíritos e mais robustos escritores duas mulheres, uma das
quais ganhou com a pena manejada pela sua pequena mão nervosa a quantia
modesta, mas apetecível de um milhão!
Basta para emmudecer a vaidosa prosápia de qualquer burguês desdenhoso
da actualidade esta cifra, e a apresentação daqueles factos
incontestáveis.
Mas o Portugal do século XVIII, que a mão poderosa de Pombal tentava em
vão arrancar ao mais abjecto obscurantismo, à mais completa inanidade
mental, e que apenas sob êste valente impulso dava alguns sinais de
galvanizada energia nas indústrias práticas, nas sciências positivas,
o Portugal sem poesia, sem arte, sem elegância mundana, o Portugal dos
fidalgos analfabetos e arruaceiros, dos gordos capelães hipócritas e
devassos, dos parasitas, dos bobos, das velhas condessas beatas que
expiavam a banhos de água benta os pecados galantes da mocidade, o
Portugal em que soou o riso de Tolentino degradante e cómico, de que
Filinto fugiu assombrado, em que Bocage não achou lugar, e onde êle
chorou e blasfemou até morrer de libertinagem, de tédio e de agonia,
o Portugal asfixiante e meio bárbaro do tempo não tinha lugar que
oferecesse a uma mulher escritora, a uma mulher de talento superior e
de alto e desanuviado critério.
O seu meio ou havia de escorraçá-la a golpes de grosseiro escárneo, ou
havia de imporse-lhe, calando-a, humilhando-a, vencendo-a.
Percebiam isto muitos dos que a cercavam. Percebia-o a própria Leonor,
e como é seu hábito, hábito encantador e que enternece como uma flor
azul, nascida entre as fendas de uma agreste rocha--não é a doçura a
faculdade predominante dêste temperamento--é ao pai que ela confessa
mais êste conflito do seu destino.
Ouçamos o que numa carta lhe diz:
«Depois de ter estudado, como v. ex.ᵃ sabe e com o fim único da
minha felicidade, formei um pequeno plano para as minhas acções, que
sendo conforme com as intenções dos meus queridos pais, eu podesse
contentar-me tambêm e praticá-lo livremente. Meditei as minhas
obrigações a respeito de Deus, da sociedade, de mim mesma; avaliei
quanto me era possível, o estado do mundo, e principalmente o da minha
terra, e resultou daqui assentar fixamente que eu não podia ter uma
hora de sossêgo, se me lembrasse um só dia de escrever para o público.
Que a êste só serviam verdades disfarçadas ou mentiras positivas, que
a liberdade (ídolo do meu entendimento) seria uma vítima infeliz das
máximas estranhas da minha terra, e que se queria ter fortuna com ela
servisse o jugo da opinião pôsto pelas tôlas de idade, pelas ignorantes
de título, e por outros indivíduos semelhantes, a que eu chamo em
segrêdo baixa plebe.
«Cuidei de distinguir bastantemente o carácter das pessoas com quem
falo, e com quem estabeleço muito acauteladamente as minhas relações
literárias, debaixo da inspecção adorável da minha querida mãe.
Assentei que o número havia de ser muito pequeno e com efeito o é.
Mas fixo êste, tudo aquilo que não contradiz a idea que eu tenho
da virtude e da felicidade, que são para mim o mesmo, livremente o
pratico e com isso me recreio. Assentando fixamente que os meus versos
não encontram o parecer de nenhuma das pessoas a quem os mostro, de
quem quero o prémio, ora os dirijo a um, ora a outro dos três amigos
nossos que me entendem; e gosto de o fazer assim, porque me agradam os
ingleses bons e os alemães, onde vejo êste método estabelecido, como um
meio para facilitar e acender mais a imaginação. O gôsto da moralidade
tambêm me persuade a isto, porque fácilmente se oferecem reflexões,
supondo que alguem me escuta do que falando só. Parece-me alêm disto
que o meu trabalho não é uma honra, nem uma lisonja que faço áqueles
homens, mas sómente um sinal da minha gratidão pelo que êles contribuem
para o meu adiantamento com as suas conversações, com os seus livros, e
com a emulação que me dão com as suas obras. Nenhum dêles estima essas
coisas vãs que só teem valor entre os que sabem pouco. Filinto é um
carácter original para a nossa terra. Conhece bem que a felicidade está
em si, que lhe não vem dar honras que lhe fazem os fidalgos, não os
distingue senão pela virtude ou pelos talentos. É um filósofo incapaz
de sujeitar-se a lisonjas, nem de gabar-se das que recebe. V. ex.ᵃ
o conhecerá, e verá que dista muito da idea que v. ex.ᵃ forma. Neste
têrmo, achando, quási de portas a dentro, quanto era necessário para me
ocupar agradávelmente para aqui é que escrevo, não quero que me leia
ninguêm que possa reparar no que digo, porque quero falar o que entendo
e o que me inspiram a razão e a virtude.»[54]
Descontando no que a fraseologia do tempo tem de especial, de
affectado--e é isto justamente que imprime data--vê-se que os
sentimentos de Leonor estão a par do que mais elevado e nobre havia no
século. Não aceita da crença em que a educaram senão a puríssima moral
e a requintada essência evangélica; dos preconceitos sociais que bebeu
com o leite destaca lúcidamente tudo que há nêles de exagerado e iníquo.
Nós que fomos educados sob um regímen absolutamente oposto ao que
naquela época reinava, só pelo raciocínio conseguiremos dar um
verdadeiro aprêço a esta independência de um espírito de mulher, que a
tirania das ideas e a dos costumes não logrou acobardar, nem vencer.
De uma das fantasias mais simpáticas do romanesco espírito de Leonor
encontramos na correspondência inédita vários documentos.
Imaginou dirigir-se a Luís XV, a Voltaire, a diversos personagens
influentes da côrte de França e interessá-los pela causa de seu pai.
Não podemos afirmar que as cartas atingissem o seu destino, ou mesmo
que elas chegassem a ser enviadas áqueles a quem são dirigidas, mas
não resistimos à tentação de transcrever alguns trechos dos rascunhos
encontrados. Aqui estão em primeiro lugar passagens da carta dirigida a
Luís XV. O francês é defeituoso. Hoje, qualquer rapariga educada pelos
novos métodos, escrevia mais correctamente. Mas que entusiasmo pelos
seus essas cartas traduzem!
«_Sire. Avec le plus profond respect, avec la plus douce espérance dans
ces vertus qui ont acquis à Votre Magesté le glorieux titre de Bien
aimé si propre à faire la douce attente des malheureux, je viens oh
grand roi, faire retentir mes plaints devant votre trône auguste..._
«_Une malheureuse fille de vingt deux ans, vous demande, Sire, avec
des larmes, la protection pour un père et une famille que pendant
l’espace de quatorze ans ont épuisé tout l’horreur du destin le plus
rigoureux..._
«_Je suis prisionière depuis l’âge de huit ans avec ma mère et ma sœur.
Dans le temps où je commençais à goûter le délicieux plaisir d’être au
sein de ma famille, je fus arrachée des bras paternels; je vis traîner
mon malheureux père dans un afreux cachot._
«_Les frères, la mère, le père de celle qui m’a donné le jour, deux
oncles, je les ai vue tous expirer dans le plus honteux tourment._
«_Mon cœur affligé par ces blessures qui saignent toujours a nourri
dans le malheur les précieuses connaissances des biens qu’on m’enleva.
Chaque jour m’apporte un nouveau trait, chaque instant où je considère
ma famille avec les marques honteuses de l’infidélité, tout mon sang
bouillonne, je me sens mourir avec les désirs impuissants de faire voir
l’innocence et l’honneur de ceux qui me l’ont fait connaître dès le
berceau._»
Não é menos interessante nem menos romanesca nos intuitos a carta a
Voltaire do que a carta dirigida a Luís XV por intervenção de um dos
seus ministros.
Ao rei de França Leonor pedia a intercessão poderosa junto dos poderes
da terra para libertar seu pai. A Voltaire ela pede a rectificação de
apreciações que mais tarde lançarão a sombra de uma negra suspeita
sôbre a inocência da sua família estremecida.
E sempre a mesma ânsia de reabilitação, é sempre a mesma actividade
incansável de espírito, e sempre, ai de nós! o mesmo francês laborioso
e terrível!
«_C’est au defenseur de l’infortuné Calas que je porte mes plaintes. Un
cœur navré par la douleur, enflammé par la gloire, et charmé par vos
écrits sublimes, m’inspire un désir ardent de justifier devant les yeux
d’un sage, ma famille trop honnête pour endurer la calomnie._
«_C’est de vous, monsieur, que je me plains; c’est monsieur de
Voltaire, cet homme illustre qui brave les préjugés, cet ami du genre
human qu’avec la même plume dont il défend le juste opprimé répand le
poison de l’opprobe sur des innocents parce qu’ils n’eurent pas le
bonheur de naître en France. Votre siècle de Louis XV vient de tomber
dans les mains d’une jeune infortunée, que dans la catastrophe du
Portugal est envellopée avec sa famille dès son plus bas âge._
«_C’est moi, monsieur, la petite fille des marquis de Tavora._
«_Ces illustres malheureux, morts dans un echafaud, n’on point purgé,
la honte attachee au crime mais subi avec de l’honneur et du courage
des revers de son sort._
«_Ah monsieur! Si vous n’êtes point ému à la vue du tableau effrayant
de nous même, que penserai-je de la philosophie?_
«_Quel homme de bronze aurait pû écrire ce que vous dites, aprés avoir
connu les secrets ressorts de notre chute._
«_Savez vous que mon grand père a été l’objet de la haine du premier
ministre? Savez-vous que ma grand mère après son retour des Indes
orientales, n’avait jamais vû le moine que l’on fait son confesseur? La
moindre connaissance, le moindre soupçon des malheurs que menaçaient
mon Roi et ma patrie aurait obligé mes parents à verser volontairement
jusqu’à la dernière goutte de son sang? S’il était possible que l’on
pût concevoir cet horrible projet dans ma famille, un seul l’aurait
pensé, que les autres, renouvellant les creautés anciennes, eussent,
comme Brutus, fait mourir leurs enfants mêmes._
«_Les préjugés sont trop puissants dans le pays que m’a vue naître, et
celui de l’honneur[55] était le partage de ma famille. L’amour du Roi,
la paix de la societé, et le bien être de la famille, occupaient dans
ce temps de tenèbres les cœurs de mes parents._
«_Quand la maligne ambition, ce fiéau du genre humain, d’accord avec
l’envie, nous plangea dans le sein de l’amertume, la nature avec tous
les charmes, la grandeur, cette charmante folie des humains, étaient
notre partage. Les êtres les mieux partagés par la nature, étaient
aussi les mieux assortis par la fortune. Des époux jeunes e amoureux,
des femmes jolies e honnêtes, des pères tendres, tout nous promettaient
un bonheur inaltérable, quand l’orage vint tomber sur nos têtes. Je
fus arrachée des bras de mon père à l’âge de huit ans, avec ma plus
jeune sœur, et ma mère; quel tableau horrible! Dans cet âge heureux
des plaisirs et de l’amour, arrachée des bras d’un jeune époux le
plus aimable, qui joignait à la félicité d’êfre sage, et d’avoir des
lumières qu’il avait puisées en France, les grâces de la figure! Un
jeune homme aimable, un homme de lettres et de probité, fut arraché de
ses bras, dans une nuit funeste, et dans le même jour elle se vit sans
époux et sans père!_»
* * * * *
Como o marquês de Alorna fôsse grande entendedor em literatura, um
dos assuntos freqùentemente versados entre a filha e o pai era o da
poesia. O marquês admirava francamente o engenho de Leonor; achava
_maravilhosas_ as suas odes, _admiráveis_ os seus sonetos, e entre os
dois travam-se engenhosas palestras sôbre letras.
«O que me parece que te tem atrazado muito,--escreve-lhe êle um dia,--é
a demasiada crítica, e uma especulação excessiva da natureza e gôsto
verdadeiro dos poemas, juntamente com a preocupação dilatada a favor do
verso sôlto. Se não fôsse isso, e o demasiado trabalho e melancolia que
te fizeram adoecer, terias a estas horas composto coisas prodigiosas e
talvez de grande vulto.
«O bem que tem é que ainda estás a tempo de reparar o perdido. Se
te quiseres dar às obras morais, no gôsto de Pope e mais poetas
moralistas, farás maravilhas, com que todos fiquem espantados e te
resulte grande nome.
«O que fizeres à imitação de Camões há de ser muito agradável a todos,
desviando-te ao mesmo tempo do amoroso, que neste grande autor se
mostra com demasia. Eu entendo que êste género lamuriento foi uma
das coisas que mais deitou a perder e desacreditou a poesia. O que
ela agora, para se estabelecer no conceito de tanta gente que lhe é
contrária, necessita mais que tudo, é que haja poetas que preguem em
verso como S. Paulo, como Séneca, etc., e a _uma mulher da tua ordem e
da tua criação é a quem isso compete mais que a ninguêm_.»
O preconceito aristocrático, que é no marquês de uma fôrça
indestrutível, manifesta-se em mil frases características no género da
última citada; aqui vai outra ainda mais frisante, que arrancamos a
outra carta.
--«...Não há dúvida que o conde de Tarouca era às vezes algum tanto
empolado, mas tambêm é certo que aqueles a quem a natureza não deu uma
certa expressão eloqùente a ideas fora do comum, não querem nunca achar
naturalidade onde encontram qualquer elevação, e tudo querem reduzir
ao seu modo de falar e pensar rasteiro. Não digo isto a respeito de
nenhuma pessoa determinada, e só acrescento que quando encontrares
algum dêstes amantes da natureza (por naturalidade), será bom que
examines que tal é o seu estilo, e se o achares pertencente à classe
baixa podes ter por suspeitoso tudo que lhe ouvires a respeito de
elevações, principalmente de autor contemporâneo!»
Sôbre questões de técnica poética discutem, não raras vezes, os dois
eruditos correspondentes. Que lição para os que perdem a coragem e o
ânimo à menor contrariedade da vida, não dá êste homem no vigor da
virilidade, enclausurado, perseguido, cheio de privações crudelíssimas,
separado de todos os seus, e esta mulher em viço de anos, bela,
nobilíssima, prometida a uma existência de alegria e luxo, encerrada
desde a infância num triste convento, e tendo, apesar disso, suficiente
liberdade de espírito, suficiente heroicidade de ânimo para se
entreterem em discussões literárias, em controvérsias intelectuais, em
comentários eruditos às respectivas leituras, em matérias emfim que os
afastassem a ambos da contemplação do seu atroz destino sem esperança.
Leonor é pela poesia sôlta sem auxílio da rima, o marquês contradiz
neste ponto eruditamente o gôsto de sua filha.
--«É certo que vendo-te há tempos infinitos não fazer outra coisa
senão odes alatinadas, gabando cada vez mais esta casta de obra até
te mostrares de todo encantada a seu respeito, tive receio de que aí
ficasses para sempre, e que nunca mais te podessem reduzir a intentar
outra espécie de composições. Dêste modo não tem dúvida nenhuma
que perderias infinito daquela galanteria e grande arte de agradar
que todos te admiram, porque a maior parte da gente, entrando nela
innumeráveis poetas, não estão a favor da soltura do verso, nem é
natural que admitam as tais odes senão se forem poucas, e atendendo a
muitas outras coisas mais agradáveis da mesma autora. As ditas odes,
vista a sua natureza, tambêm me fazem temer do teu génio, que te
não separasses nunca delas, e com isso tinha tambêm mêdo que certas
imperfeições nas tuas produções, em lugar da emenda fôssem sempre a
crescer!... Alêm disto ficarias dêsse modo sem nunca chegares a ter
de todo a rima às tuas ordens, como acham todos preciso para um poeta
dizer em verso tudo que quiser, e sem cuja posse em tal grau não pode
ser admitido no dia de hoje nos primeiros assentos do Parnaso. O verso
sôlto com as circunstâncias que tu dizes é admirável, confesso que
dêsse modo não lhe faz a rima nenhuma falta, mas da forma que tu o
pintas aí é que está a maior dificuldade, e para a sua fabrica haverá
muitas mais prisões e quebradoiro de cabeça. Que a rima dá fôrça a
infinitas coisas que sem ela seriam semsabores, não tem dúvida nenhuma.
Será preocupação, mas da forma que todos estão encasquetados a favor
dessa dificuldade aparente, necessita o verso sôlto para agradar um tal
carácter que serão sem comparação em maior número os versos rimados
que possam parecer excelentes. A dita dificuldade sempre se exigiu na
poesia, e assim parece preciso para suprir a sublimidade que nem sempre
se pode encontrar, principalmente nas obras mais compridas. Entre os
antigos a diabrura dos pés ainda era de mais trabalho...
«Veremos as odes de Laura e Petrarca[56]. Entendo que serão excelentes
e sôbre o amor platónico não haveria pouco que dizer. Creio que o teu
é dessa casta (o que ela celebrava numa ode em que se fingia Petrarca
ou Laura), mas como a maior parte do mundo está a êste respeito de um
materialismo terrível, por essa razão estou pelo que já disse, e acho
preciso evitar-se tudo a que pela malignidade das gentes se pode dar
uma má interpretação.»
Leonor é que se não deixa fácilmente convencer. Apesar do bom senso
e do gôsto apurado do pai, ela cheia da sua razão, defende-se
enérgicamente.
«Diz v. ex.ᵃ que eu estou em termos de tresler em matéria de poesia,
quando eu entendo que nunca estive em melhores termos do que estou
presentemente.
«Será talvez demasiada presunção, porêm, se v. ex.ᵃ me conhecer bem,
verá que, o que eu disse não é o efeito de uma sujeição servil aos
antigos dos quais me desgostam infinitas coisas. É certo que as odes
de Horácio me agradam infinitamente, e que sempre me agradaram coisas
similhantes na nossa língua. Bem vejo que a rima é um adorno muito
bonito, porêm desnecessário em muitos casos quando a medida é certa e
o verso por si harmonioso. As odes pedem um certo vôo que não sofre a
mínima sujeição, e a das consoantes é lei forte que
Maudit soit le premier dont la verve insensée
Dans ces bornes étroits renferma la pensée.
«Não se encontrará fácilmente uma ode rimada que seja boa, e eu
aconselhava a todos que as fizessem assim, que lhe chamassem cantigas,
versos ou coisas, como chama um galante poeta da nossa terra a tôdas as
suas composições. V. ex.ᵃ não é dêste parecer, e é esta a minha única
desconsolação, porque a não ter esta razão de descontentar-me, tôdas as
mais estão da minha parte. V. ex.ᵃ bem sabe que cada palavra ou contêm
uma idea simples ou complexa, ou se desvia ou se dirige ao todo do
discurso. Não é possível que em tôdas as palavras das rimas se ache uma
concordância admirável com o desenho do poeta, e em tendo de quebrar o
discurso no fim do verso, já se rebate o vôo e sublimidade que exige
esta sorte de poema, nascem ideas novas, constrange-se a mente, não
corre como de fonte o tal licor de Castalia, e só numa língua em que
as palavras tenham muitas rimas consentirei que as odes sejam rimadas.
O poeta distingue tanto a poesia da rima que sendo o verso cheio,
harmonioso, livre e de palavras puras não prova menos recreio nos que
chamamos soltos que nos rimados. O ponto está em que as ideas sejam
claras, poéticas e bem formadas; o desenho regular e sublime segundo o
género em que escreve. Estou vendo que v. ex.ᵃ não há de gostar nada
do meu poema da _Morte_, porque é feito em verso sôlto. Nem o exemplo
de Camões, de João Franco(!) e de outros me poderão resolver a rimar
a tal obra, porque a autoridade que um e outro se arrogaram de falar
latim à portuguesa não é para se imitar. A esta hora está v. ex.ᵃ
fazendo muito escárneo da minha suficiência, porêm eu tendo, graças a
Deus, uma vontade bastantemente dócil, o meu entendimento tem muito
pouca sujeição, e diz _Almeno_[57] que eu sempre digo a torto e a
direito quanto quero.»
Eis como ela responde ao que o pai lhe diz a respeito de quanto é
necessário a uma mulher evitar assuntos amorosos que se prestem a
interpretações malignas.
--«O que eu compreendo sempre do amor, o que me obrigou a fazer
versos sôbre alguns assuntos ternos, vem a ser que o amor é o vínculo
suavíssimo e a primeira virtude da natureza humana; sempre o considerei
só digno das grandes almas, e tal qual o pinta ou o exige Platão.
Só êste apareceu aos meus olhos, e se há alguma coisa criminosa
ou perigosa de que se não deva falar, não é isso que eu entendo
quando falo de Laura e Petrarca. Estes dois amantes do século XIII,
gabados pela inocência e constância do seu amor e dos seus costumes,
pareceram-me dignos de os louvar nos meus versos, e como um autor
francês supôs Laura poetisa, e não aparecem os versos que ela fêz, as
duas odes são de Laura.
«Uma supondo Petrarca ausente na sua embaixada da Espanha, outra,
simplesmente explicando os seus sentimentos em resposta a uma canção
dêle.»
Ainda a respeito do amor, leiamos êste trecho de outra carta tão
singularmente característico do tempo, e não precisando de data para
que um crítico o reconheça imediatamente como pertencendo ao nosso
alambicado século XVIII.
--«Vejo o que v. ex.ᵃ me diz sôbre o amor. Êste sentimento ou paixão
que domina o mundo, segundo tenho observado, creio que assim como o
sono foge das pálpebras molhadas de lágrimas, assim êle se desvia dos
corações ocupados dos grandes trabalhos. Eu tenho lido e meditado muito
para ignorar absolutamente o que seja a natureza, e v. ex.ᵃ verá nos
meus _serões_, o meu coração sem algum véu. Mas verá igualmente a minha
antipatia por tudo isso. Eu tenho um gôsto nímiamente metafísico[58],
quási tudo me desgosta e me fatiga fora dos discursos e dos exercícios
da alma. Simplesmente sou apaixonada de platonismo, e creio que os
corações cândidos não poderiam nunca admitir outras ideas a respeito
do amor. Mas tudo isto se passa em mim em razão de discurso, e jámais
tomarei interêsse particular nestas matérias, que não seja dirigido
pela razão de uns pais que sabem únicamente o que me convêm. Eu tenho
bastante reserva nas minhas ideas; ninguêm sabe de que partido eu sou
em certas coisas em que a decisão é perigosa, pode v. ex.ᵃ descansar
nesta matéria.»
De resto não havia nenhuma afectação de falsa inocência de modéstia
hipócrita nas relações estabelecidas por escrito entre a filha e o
pai. Leonor não é uma _inocente_. Conhece pela sua leitura a vida, nem
parece que na educação daquele tempo houvesse o cuidado exagerado, e às
vezes contraproducente, que hoje há em livrar as raparigas de todo o
conhecimento rial das coisas.
A prova do que dizemos é que Leonor, no intento de distrair o pai,
conta-lhe as anedotas _salgadas_ do tempo, que de fora penetram até ela
através das grades de Chelas.
--«Uma coisa que tem feito grande bulha e em que nunca falei a v. ex.ᵃ
é na célebre actriz que exauriu os bolsos de todos os casquilhos e veio
pôr à viola a nossa terra, porque tendo (segundo entendo) pouquíssimo
merecimento, sabe encantar a todos e tem dado assunto a tôdas as
palestras, muito verso, muita apologia, muita satira, porêm tudo junto
é papel para aquentar camisas, e fica com muito honrada serventia. A
tal _madama_ chama-se Zamperini, não é demasiado bonita, canta muito
bem, e dizem que declama excelentemente; mas para crer isto precisa-se
fé, pois tudo quanto dizem é muito afastado das regras dessa arte,
que as necessita como qualquer outra. Dizem que é muito afectada,
nímiamente desembaraçada, e outras circunstâncias que impõem para os
ignorantes da nossa terra. O nosso Inácio Quintela tem desembolsado os
seus cabedais, o Anselmo da Cruz, o condinho de Oeiras ao princípio, e
um círculo grande de adoradores que aparecem pintados numa satira que
lhe fizeram.[59] É de um carácter muito singular. Com tôdas quantas
bugiarias pôde aprender no teatro engana a todos... Eu já estou
enfastiadíssima de Zamperini, mas não quis deixar de lhe dar estas
notícias que teem interessado tôda a nossa terra.»
Êste trecho e outros similhantes sôbre o valido da imperatriz da
Rússia, sôbre as pieguices freiráticas que ela se não cansa de repelir,
etc., etc., dá a nota da intimidade que havia entre Leonor e o pai.
Êste acompanha-a sempre com o mais prudente conselho, com a admiração
mais estimulante, com a bondade mais perfeita. O amor do pai, pode
chamar-se a única grande alegria moral que Leonor recebe durante os
anos do cativeiro.
* * * * *
Referimo-nos já por mais de uma vez a D. Martinho de Mascarenhas, filho
do duque de Aveiro, e encarcerado na Junqueira com o marquês de Alorna.
O pai de Leonor planeara que ao sair da sua prisão lhe daria a mão de
sua filha mais nova D. Maria de Almeida; e êste projecto, que não foi
levado a efeito, pois que nunca D. Maria I restituiu os seus títulos e
honras ao filho do homem que tinha tentado assassinar seu pai, enche,
no convento de Chelas, de romanesca alegria as três enclausuradas
senhoras.
As duas poetisas--Maria tambêm escrevia versos e tem uma graça
indescritível de expressão nas suas cartas--muito letradas ambas
como se sabe, baptisaram de Tancredo o marquesito de Gouveia[60],
acrescentando que só no herói do Tasso haviam encontrado as qualidades
cavalleirescas que distinguiam o carácter do jovem fidalgo português.
Leonor escrevia-lhe de Chelas: «Meu estimado mano.--Dou a v. ex.ᵃ
os parabens do dia de hoje e lhe seguro que a sua vida me interessa
imediatamente à de meus pais, pelo dobrado motivo do seu merecimento e
por depender dela o contentamento da pessoa mais amável que eu conheço
nêste mundo. V. ex.ᵃ pode julgar-se o homem mais feliz do mundo todo;
os sentimentos que premeiam os seus ferros e os cuidados que v. ex.ᵃ
tem no meu triste pai[61], devem suavizar tôdas as amarguras. Neste
_vale de lágrimas_ (como diz a Salve-Raínha), não era possível uma
aliança tão linda sem se merecer por desgostos tais como o nosso.
Que dias tão alegres nos tem preparado o infortúnio! Alegre-se v.
ex.ᵃ e consolêmo-nos mútuamente até que Deus quebre obstáculos tão
tiranos.» E outra vez no meio de uma carta dirigida ao pai: «E v.
ex.ᵃ, mano Tancredo, não me esquece um instante. V. ex.ᵃ, que é o
estimável companheiro de meu pai, tem parte com êle em todos os nossos
pensamentos.»
Quando a doença de D. José bastante pronunciada para tornar provável
a sua morte próxima dá alguma remota esperança de liberdade à infeliz
família de Alorna, Leonor com a sua habitual expansão, escreve ao pai
pintando-lhe os quadros de felicidade familiar, que a fantasia lhe
representa. «Vamos, como diz o mano Tancredo para o Vimeiro, para
Almeirim[62]; a nossa sociedade, até Deus olhará para ela com gôsto.
Nunca a virtude se há de desviar dela e a liberdade fará tôda a sua
delícia.»[63] «As ideas em tumulto não sofrem nenhuma ordem, quando
escrevo--acrescenta Leonor na desordenada alegria com que a desnorteia
a esperança, ou o prenúncio de uma próxima libertação.--O coração cheio
de sentimento e num tremor de impaciência desacomoda-se para escrever.
Nada me contentava agora senão voar e entrar como um pintasilgo por
essas janelas para conversar com v. ex.ᵃ. Que gôsto teria em vos ver?
Já lá estou... Vejo a v. ex.ᵃ alegre, e num cárcere, quási sem luz,
descorado, magro e com tôda a impressão dos seus trabalhos... Será
assim, meu querido pai? Melhor fôra que v. ex.ᵃ viesse aqui aonde eu
me acho. Só, em uma pequena casa, rodeada de livros, escrevendo com
as lágrimas nos olhos o que me não cabe no coração. Achar-me ia uma
célebre figura, com um roupão côr de fogo, forrado de peles escuras,
o capuz na cabeça, sem pós, despenteada, com tôda a desordem de quem
sente infinitas saudades. Que me diz v. ex.ᵃ ao delírio desta carta?...
Se v. ex.ᵃ visse o apetite, o alvorôço e as saudades com que eu estou,
tudo acharia pouco. Devéras, meu querido pai, o coração avistando a
meta desejada corre com uma velocidade atrás dela, que nem o tempo
incansável pode alcançá-lo... Diga v. ex.ᵃ ao mano Tancredo que a
condessa está convidada para madrinha da mana, para que tudo seja
completo.»
A idea de viver com os pais no campo (em Almeirim) lisonjeia-lhe
estranhamente a imaginação educada por Jean Jacques Rousseau, que então
andava revelando os encantos da simplicidade, os encantos da natureza,
às frívolas raínhas dos salões de Paris.
E tôda imbuída das máximas da filosofia reinante, de que eram
propagandistas os seus autores queridos, escreve ao pai, o velho
fidalgo que achava Voltaire digno de queima:
«Eu cuidei que ainda tinham algum poder sôbre v. ex.ᵃ os atractivos de
uma côrte brilhante, e que a glória, que de um certo modo se entende
ligada à ostentação, podia ser alguma tentação para v. ex.ᵃ que perdeu
o tempo melhor da sua vida no seio dos desastres (_sic_). Vejo que
não falta nada a v. ex.ᵃ, meu querido pai, e que avalia a felicidade
segundo a filosofia, que dá mais valor a ser homem que a ser fidalgo,
e isto que concorda inteiramente com os meus princípios dá-me um gôsto
inexplicável. Não aspira v. ex.ᵃ senão a uma vida oculta e tranqùila,
aspira a provar todo o preço da sua existência, aspira a tôdas as
delícias do coração sensível, e eu não aspiro senão a procurar-lh’as
e a gostar com v. ex.ᵃ os prazeres que se ignoram no tumulto da
côrte. Diz v. ex.ᵃ que «se esqueceu que poderia ser grande doutor
se aproveitasse todo êsse tempo», e eu digo que tudo quanto v. ex.ᵃ
podesse adquirir não produzia mais do que v. ex.ᵃ possue na disposição
em que se acha.
«E agora vou falar com o mano Tancredo. Pode v. ex.ᵃ segurar-lhe que
a sua linda noiva gostou sumamente das novas que êle dá do que sabe.
Estimou muito que soubesse as duas línguas italiana e francesa. Riu com
a medicina, desejando mais que êle antes fôsse físico do que médico.»
O perfume avelhantado de tôdas as cartas de Leonor é que é o seu
encanto supremo para o crítico. Como elas pertencem pelo estilo ao
tempo de que são datadas!... E como a par disso elas teem o cunho
individual da mulher que as escrevia, tão diversa das mulheres
portuguesas da sua classe, tão namorada de erudição a ponto de
parecer muitas vezes um poucochinho pedante. Mas essa leve tintura de
pedantismo deve ser-lhe perdoada se a considerarmos a natural reacção
de um espírito inteligente e culto contra a boçalidade que distinguia a
sua classe e a sociedade de que ela fazia parte muito a seu pezar. Os
que pretendem conhecer a fundo a ignorância do tempo em que destacaram
excepções raríssimas, leiam as descrições da sociedade portuguesa no
tempo de D. Maria I, feitas por estranhos sempre mais capazes de verem
bem aquilo que vêem pela primeira vez.[64] Ela mesmo dá mais de uma
vez ao pai nas suas cartas exemplos dessa boçalidade que a desespera.
Eis um dêles:
«Estávamos na grade com as primas S. Miguéis e outras pessoas de
confiança, de sorte que uma delas estava cantando algumas cançonetas,
cuja letra era de Metastásio, e caindo naturalmente a conversação sôbre
a galanteria dêste poeta, disse o Principal Boto em tom de doutor, que
o Metastásio não fizera mais que copiar Tibullo e Catullo, os quais
não andavam pelas mãos de todos, e por essa razão nos admirávamos
tanto das belezas de Metastásio, porêm êle que as achara já na língua
latina _traduzidas do grego_, não fizera mais do que roubar-lhes o
pensamento para as pôr nas suas obras. Eis aqui como por cá se fala,
meu pai, e se v. ex.ᵃ viesse havia de ouvir muitas destas. A uns que o
estabelecimento das Vestais fôra formado segundo a idea das Virgens do
Evangelho, a outros que as almas felizes eram conduzidas por _Júpiter_
aos Eliseus--mil frioleiras daqueles mesmos que teem a confiança de
criticarem as mulheres que podiam mandá-los jogar o pião com os rapazes
de escola.»[65]
Outras vezes fala dos desdens que pela _mulher aplicada_--é esta a
frase do tempo--teem e manifestam os rapazes fidalgos, os que levam a
vida em arruaças, façanhas de picaria, guitarradas nocturnas, orgias de
baixo nível. Beckfor mais de uma vez se refere ao gôsto de freqùências
baixas que há nos moços da fidalguia portuguesa, os quais se não
pejam de ter por amigos os picadores, os boleeiros, os lacaios, etc.,
com quem dansam o fado, e se associam para as grossas pancadarias.
Tudo que se lê com respeito à casta aristocrática em Portugal,
revela claramente como ela voluntáriamente abdicou, abastardando-se,
anulando-se, embrutecendo nas convivências de parasitas, bobos e
ignorantes de má laia... Tolentino é recebido nas grandes casas pelos
lados mais degradantes do seu carácter, pela veia de pedinte e de
adulador, que tão negramente macula o seu estro admirávelmente cómico.
A aristocracia, à qual sómente restavam os privilégios adquiridos
sem nenhuma das virtudes ou das heróicas façanhas que os haviam
justificado, havia fatalmente de desaparecer da scena social, logo que,
abolidos êsses privilégios e disperso aos quatro ventos o património
que os representava, ela aparecesse tal qual era, tal qual uma educação
corruptora e péssima a tinha feito lentamente, salvas raras excepções
que destacam com pitoresco relêvo, e que por isso mesmo não constituem
regra.
Leonor de Almeida percebia tudo isto. A sua inteligência mais vigorosa
do que feminilmente delicada, não lhe deixava a respeito da sua classe
em Portugal qualquer ilusão consoladora.
É por isso que tão ardentemente busca distanciar-se do _meio_ em
que nasceu e em que pensa terá de viver, é por isso que estuda
infatigávelmente, protestando por êste modo contra a ignorância que a
invade como uma maré lodosa e turva.
Duas vezes, durante o cativeiro de Leonor de Almeida, tiveram seus pais
o projecto de a casar, como naquele tempo se casava por conveniência de
família, por alto interêsse de raça.
Um dos noivos que para ela desejaram foi D. João de Bragança, o futuro
duque de Lafões, de quem falaremos mais tarde, já velho áquele tempo, e
que então, receoso da tirania política de Pombal, andava casquilhando e
brilhando pelas côrtes de Viena e de Versailles.
A êste projecto um tanto fantasioso, e que parece não ter tido sólidos
alicerces, pôs ponto o bom senso incontestável de Leonor e do marquês.
O outro noivo que quiseram dar-lhe, e com êste se adiantaram bastante
as negociações, que felizmente Leonor de Almeida conseguiu malograr a
final, era D. Brás da Silveira, filho primogénito de D. Nuno de Távora,
o qual, por ser irmão segundo do marquês de Távora, estava na prisão da
Junqueira juntamente com o marquês de Alorna. Uma filha de D. Nuno de
Távora casara com o conde da Redinha, e êste enlace de uma sua parenta
próxima com o filho do perseguidor da sua família inteira, desgostava
profundamente D. Leonor de Almeida. A sua principal objecção ao
casamento preconizado por seus pais, era ficar em virtude dêle cunhada
do conde da Redinha. Isto é que o ânimo cavalheiroso e tão ultrajado de
Leonor não podia aceitar livremente.
A propósito dêstes seus parentes Silveiras fêz Leonor nas cartas ao
pai um espirituoso e expressivo retrato que não deve ficar eternamente
inédito, porque representa mais que uma individualidade, a final de
contas obscura, representa a figura típica do fidalgo português,
enfatuado, ignorante e ridículo. O retratado é D. Bernardo da Silveira,
irmão daquele que os marqueses de Alorna desejavam para noivo de sua
filha.
Ouçamos, pois, esta num dos seus raros momentos de _verve_ endiabrada e
natural.
«O carácter da família dos Silveiras é coisa muito célebre. Parecem-me
fidalgos de província. O primo Bernardo é um daqueles que se pintam, e
eu o pintara se v. ex.ᵃ me desse licença para dar quatro gargalhadas
à custa do meu futuro cunhado, sem que isso ofendesse as minhas
obrigações, mas falar com meu pai é pensar alto, e vou dizendo:
«É um mocetão pela figura do mano, mas de cara muito peor, contudo,
persuadido da sua gentileza, crê piamente que andam nos seus ferros
tôdas as belezas do mundo e toma um ar de satisfação muito célebre que
faz rir.
«Com o desembaraço de colegial julga-se sábio, e zomba das belas
letras de que não entende nada, celebrando sempre a profundidade dos
autores de direito canónico, e os toiros, qualquer destas coisas muito
interessante em uma companhia de senhoras.
«Não crê na aplicação das mulheres, e trata-nos sempre com ar de
superioridade e de ignorantes, fatigando-se com explicações e pequenas
histórias bastantemente impertinentes.
«Como a tia Maria tem assoprado muito a vaidade dêste e abusado da
paciência, moleza e bondade do outro, observa-se uma certa altivez que
vistos ambos, parece o primo Bernardo um sogro, que me faz obséquios,
porque intenta casar seu filho comigo, e o outro um enteado, sem
confiança com o padrasto. Eu e a mana, defronte dêstes dois indivíduos,
tambêm nos podiam pintar, e se acaso se vê na minha cara a variedade
de coisas que me passam pela cabeça, tambêm haveria de que rir. A tia
Maria, em ar de Sybilla Comea, trata-me com o maior carinho, e eu
correspondo como devo, mas estou muito costumada a reflectir para não
distinguir o que é, do que parece. Do primo Brás (o futuro noivo) dará
minha mãe notícias, mas eu não posso fiar de ninguêm esta anedota.
«Para agradar à sua noiva, que é aplicada, começa agora os seus
estudos, por um jardim botânico e umas estufas.»
Quando o pai teima em apresentar a Leonor de Almeida as vantagens
sociais do casamento com D. Brás da Silveira, ela responde-lhe com
melancolia impressionadora:
«Estou nas fatais circunstâncias de ter que decidir-me, com um susto
inexplicável e com o mais vivo desejo de acertar e de ser útil aos
interesses de v. ex.ᵃˢ. Se me pertence a glória de ir com as minhas
ansiosas diligências libertá-los, pereçam todos os sistemas em que
eu tinha fundado a minha felicidade própria, e será uma sorte assás
digna de satisfazer-me aquela em que eu puder servir o meu querido
pai, e procurar o inteiro restabelecimento de minha mãe. Nada mais me
pode obrigar ao sacrifício da minha liberdade, e a tomar o trabalhoso
encargo de mãe de família. O coração e o pensamento todo ocupado das
minhas perdas e das minhas aquisições apresenta-me como um desastre
o sair dos braços da minha mãe, da casa de v. ex.ᵃ, para outra
desconhecida, onde me não leva nenhum princípio dos que a natureza
nestes laços poderia apresentar. O rapaz é um homem sem estudos; que
julgará dos meus? Tem uma irmã aliada com o algoz que abomino. Como
poderei eu ver de perto similhante gente? Mas representa meus avós (é
filho de um tio direito da marquesa de Alorna); trabalha na liberdade
de minha mãe, anuncia vagamente a de v. ex.ᵃ! Se me conseguir... oh!
meu querido pai, tomara antes de separar-me desta casa, abraçar nela
a v. ex.ᵃ, tomara que v. ex.ᵃ viesse aqui ensinar-me qual é o meu
dever. V. ex.ᵃˢ ambos é que melhor do que eu poderiam remediar tantas
perplexidades. Eu não sei o que digo, não sei o que faço, vivo em uma
escuridade impenetrável... Deus me socorra, e me faça atinar com o que
for melhor...»
Felizmente para a nossa biografada, o pai não teimou em dar-lhe para
marido um homem que Leonor não respeitava nem amava, e a sonâmbula
gentil do cláustro de Chelas continuou a ler, a sonhar, a instruir-se,
a reflectir na plena liberdade do seu indisciplinado e ardente espírito.
Pena é que não tenhamos outras revelações do que ela então pensava e
sentia, alêm das que encontramos nas suas cartas ao pai. Por muita
confiança que aos vinte e vinte e quatro anos se tenha nos pais, nunca
é a êles que uma alma juvenil se confessa inteiramente.
Os versos de Leonor feitos em Chelas e publicados no primeiro volume
das suas obras, são ainda menos reveladores do que as suas cartas.
Pelo modo de versejar, Leonor pertence inteiramente nesta primeira fase
da sua vida à escola pseudo-clássica do século XVIII, no que ela tem de
mais falso e de pior.
Uma interminologia enfadonha, uma quantidade incontável de nomes e
de alusões mitológicas--não da bela mitologia grega tão naturalista,
tão profunda nos seus símbolos, tão ladina nas suas encarnações
humanas,--mas de uma falsa mitologia, dentro da qual se não lobrigava
uma idea única, e que abonando em favor da erudição de Leonor, diz
muito pouco do seu coração e da sua sensibilidade.
O que, porêm, temos das suas belas cartas, de sobejo nos deixa perceber
quantos sonhos se abrigariam naquela ardente imaginação de rapariga.
Tancredo--o infeliz filho do duque de Aveiro, a que estava reservado
um destino tão negro--era o príncipe azul de Maria de Almeida. Leonor
havia de fantasiar mil vezes o seu. Não sabia donde êle tinha de surgir
um dia, mas estava certa de que viria na hora própria e de que não
seria parecido com nenhum daqueles que os interesses da família por
mais de uma vez tinham tentado impor-lhe.
Para _êle_ cuidava com esmero da sua formosura singular em que tantas
vezes ingénuamente se revê, com adorável garridice; para _êle_ adorna
o seu espírito de tôdas as graças, de tôdas as riquezas, de todos os
encantos... Será bravo como um herói; há nela a paixão _corneliana_ de
tôdas as grandezas épicas; mas será tambêm cultivado como um sábio,
eloqùente como um poeta, e profundo como um filósofo.
Bayard e Voltaire encarnados num só homem. Conversará com discreta
graça dos mil assuntos que a preocupam; terá as aspirações que ilustram
o seu tempo, pressentirá tôdas as grandes innovações de que ela antevê
com secreto enlêvo a próxima alvorada.
Nos cláustros húmidos e melancólicos do seu mosteiro escondido, Leonor
evoca essa figura maravilhosa, que não encontrará de certo jámais, e
nessa evocação mágica se consola de tôdas as lutuosas tristezas da
realidade.
Os que nunca viveram pela imaginação não podem conceber o que seja êste
dom milagroso com que ela enriquece os seus eleitos. Não sabem que na
pobreza, na solidão, na clausura, é possível ser-se feliz quando se
possue a chave de oiro dêsse país das quimeras a que sobem os que teem
asas!
E dêsse vago sonambulismo de poetisa, de erudita e de fantasista
adorável despertou um dia de súbito Leonor de Almeida ao sentir dobrar
fúnebremente todos os sinos de Lisboa, anunciando a morte de um rei, a
morte do rei que esmagara todos os seus.