Fresca, arrobada de perfume a brisa,

Lembras-te, Eliza? suspirava então;

Tu nos meus braços reclinaste a frente,

E meigamente me disseste: Não!

Setembro de 1852.

XXXV

(Segunda)

De luz, de encanto, de alegria infinda,

Aquelle rosto seductor esplende,

Brilha a ventura em sua face linda,

E vivo fogo o seu olhar accende!

Como a existencia para nós é bella

Entre a verdura d'esta amena estancia!

Aqui suspira a viração singela,

E esparge a rosa virginal fragrancia.

Livres, immunes neste doce enleio,

Dos gratos dias do saudoso abril,

Ouvir das aves o infantil gorgeio,

Gosar da sombra do enredado til...

Ella a meu lado, sobre os meus cravando,

Aquelles olhos cuja densa rama,

Agora occulta, logo vai deixando,

Brilhar o fogo da traidora chamma!

Se entro no baile onde o prazer se agita,

Eil-a, a formosa, no veloz passar,

Louca os seus olhos nos meus olhos fita,

E mil affectos me traduz no olhar!

De luz, de encanto, de alegria infinda,

Aquelle rosto seductor esplende;

Brilha a ventura em sua face linda,

E o ceo no fogo que esse olhar accende!

Abril de 1854.

XXXVI

(Terceira)

Lembras-te, Elisa, quando a face pallida,

Da casta lua despontou no ceo,

E d'entre a balsa suspirada, e languida,

Mavioso canto o rouxinol rompeu?

Naquella noite em que o perfume vívido

De mato agreste rescendia no ar,

Em que as estrellas fulguravam timidas

Nas doidas ondas do ceruleo mar!

Lembras-te, dize, quando tu, mirando-me,

Com todo o fogo de infantil paixão,

Em voz sumida murmuravas: _Amo-te!_

E me apertavas docemente a mão!

E que eu perdido de ventura olhando-te

Da meiga lua ao divinal fulgor,

Teu rosto de anjo contemplava estatico,

Candida pompa de inspirado amor!

Nesse momento fervorosa supplica

Do intimo d´alma murmuraste a Deus,

Que amor, que encanto nos teus olhos humidos,

Quando os cravastes na amplidão dos ceos!

Depois sentada nos degraus de marmore

Sombra encantada, celestial visão,

Que meigas fallas proferiste tremula,

Que mil protestos me juraste então!

Depois as rosas que animavam vívidas

Teu bello rosto, desmaiar eu vi

E vaga sombra de tristeza subita

Cerrar-me forte o coração senti!

Maio de 1853.

XXXVII

CIUMES DO PASSADO

Quando teu rosto adorado,

Da luz do amor se illumina,

Resplandecente a meu lado,

Não sabes por que anuviado

O meu semblante se inclina?

Por que um amargo sorriso

Pelos meus labios deslisa,

Quando teus labios, Luiza,

Me proferem anhelantes,

Tantos protestos de amor!

É que minh'alma se opprime

Á lembrança do passado,

Em que já outro a teu lado

Escutou essas palavras,

Que me repetes agora

Cada vez com mais ardor;

E que esses mordidos beijos

Que me perdem de ventura,

Dados co'a mesma ternura

Já perderam de desejos

Neste mundo outro tambem!

E tu não sabes, querida,

Os zelos que me devoram,

Á lembrança que na vida,

Já quizeste a mais alguem?!

Janeiro de 1851.

XXXVIII

NUM ALBUM

(Improviso)

Se eu fôsse um vate inspirado,

Cantor das rosas singelas,

Ah! quantas coisas tão bellas

Tinha aqui para dizer!

Mas eu tenho horror á brisa,

Odio ao prado, odio ás estrellas,

E então aos vates das _ellas_

Nem sequer os posso ver.

Tu tambem, posto que a vida

Para ti sorria agora

Como sorri uma aurora

Dos puros dias de abril,

Não morres pela açucena,

Nem deliras contemplando

A lua que vai passando

_Pelos vastos ceos d'anil_.

E inda bem que a Providencia

Te livrou de tal abysmo;

Ó terrivel romantismo,

Quando has de um dia acabar?

Eu conheço uma menina,

Bella, gentil, seductora,

Mas, meu Deus, é tão doutora

Que se não pode aturar!

Arranja umas taes carinhas,

Toma umas taes posições,

Falla em sonhos e illusões

No seu romantico ardor!...

Pois é pena, que é bonita,

Talvez seja até formosa;

Se não fosse _preciosa_

Era um ente encantador.

Se lhe dizem que é feliz,

Solta um suspiro profundo,

Porque ninguem neste mundo

Até hoje a comprehendeu!

Salvo um ente idolatrado

Porém esse... oh! desventura!

Para a fria sepultura

Na flor da vida desceu!

Emfim, se alguem lhe protesta

Que inda ha de viver tranquilla,

Ergue em extasi a pupilla

Pondo a mão no coração!

Imagina o desgraçado

Que tenha a louca mania

De ir batter comsigo um dia

Neste abysmo de paixão!

Oh! Bem hajas tu que és bella,

Gentil, graciosa, elegante;

A alegria em teu semblante

Co'a innocencia anda a saltar:

Bem hajas tu que detestas

Todos os vates das _ellas_,

E as romanticas donzellas,

Que andam sempre a declamar!

Janeiro de 1862.

XXXIX

AMOR E DUVIDA

Quando essa pallida frente

Por momentos pensativa

Cai ás vezes de repente,

E se amortece a luz viva

Que nos teus olhos resplende,

Sinto que est'alma se accende

De um fogo, de uma paixão,

Que me desvaira a razão!

A terrivel incerteza,

Esta duvida constante,

Desapparece um instante!

Creio em ti:--foge a tristeza

Que todo o meu ser domina;

Torno á vida, e livre aspiro

Num mundo que se illumina

Da encantada luz do amor!

Depois, se um flébil suspiro

Vem de teus labios á flor,

Oh! como então és amada!

Como tens aos pés rendida

Toda a força d'esta vida

Que por ninguem foi domada!

Mas é só por um instante!

Volta depois a incerteza,

Quando assume o teu semblante,

Aquella glacial frieza,

Que desalenta, que opprime,

Que faz profunda tristeza,

E destroe quanto é sublime!

Um dia no firmamento

O sol vívido brilhava,

E a aragem com brando alento

Entre as ramas suspirava!

Era ali, naquelle val,

Que parece destinado,

Para esconder na espessura

Os segredos da ventura!

O coração agitado

Nesse instante te pulsava,

E uma tristeza mortal

O semblante te anuviava.

Allucinado buscava

A causa d'onde nascia,

Quando um gesto, uma expressão

Me disse que eu só podia

Tirar-t'a do coração!

Sem mais ver, nem mais pensar

Com que delirio a teus pés

Me viste rendido então!...

Quem podia duvidar

Vendo a ingenua timidez

Do teu inspirado olhar?!

Os labios não revelaram

O que havia em nossas vidas,

Mas as vistas confundidas

Com que eloquencia fallaram!

Chegára a noite; do ceo

Vi scintillar uma estrella;

Era brilhante, e era bella,

Mas um presagio mortal,

Um cruel presentimento

Me disse nesse momento:

Não fites os olhos nella,

Porque essa luz é fatal.

Amanhã, espesso veo

de nuveus ha de envolvel-a;

E se de novo surgir

Será para te illudir.

E esta duvida cruel

Este constante hesitar

Quem m'o pode terminar

Quem, senão um teu olhar?

Junho de 1859.

XL

NUM ALBUM

Não vês tu como inconstante

Num instante,

Ruge o sul, e turba o ceo,

E que o mar, quedo, azulado,

Brame irado,

Sacudindo alto escarceo?

Não tens visto na manhã,

Flor louçã,

Junto ás aguas rebentar,

E á tarde, murcha, pendida,

Já sem vida,

Sem perfume, a desfolhar?

Pois então queres, amiga,

Que eu te diga

Que o amor não é assim?

Quando tudo empallidece,

Se emmurchece,

Se desbota, e morre emfim?!

Essas illusões doiradas,

Encantadas,

Do primeiro albor da vida,

São como a rosa louçã,

Da manhã,

Á tarde n'haste pendida;

São como o ceo azulado,

Que doirado

Pelo sol de ameno dia,

Se escurece de repente

Tristemente

Por uma nuvem sombria!

E tu não queres, amiga,

Que eu te diga

Que o amor não é assim?

Quando tudo empallidece,

Se emmurchece,

Se desbota, e morre emfim?!

Agosto de 1848.

XLI

SE CORAS NÃO CONTO.

Tu queres que eu conte um sonho que tive

Não sei se acordado, não sei se a dormir?

Foi todo singelo, foi todo innocente:

Tu córas, sorriste, tens medo d'ouvir?

Não córes, escuta, não fujas de mim,

Que o sonho foi sonho de casta paixão:

Já crês, não duvídas, verás como é lindo

O sonho innocente do meu coração:

Eu via em teus labios um meigo sorriso,

Em tens olhos negros um terno mirar,

Teu seio de neve a arfar docemente,

Sentia nas faces o teu respirar.

E tu não fallavas, mas eu entendia;

E tu não fallavas, mas eu bem ouvi!

Amor! na minh'alma a voz me dizia,

E um beijo na fronte não sei se o senti.

Já vês que o meu sonho foi sonho innocente;

O resto eu te conto; como has de gostar!

É todo singelo, de amores somente;

Verás que ao ouvil-o não has de córar.

Depois apertando teu corpo flexivel,

Cingindo teu collo no braço a tremer,

Ouvi uma falla, e o que ella dizia

Agora acordado não posso eu dizer.

Não posso contar-te, só pude sentil-a;

Não posso contar-t'a senão a sonhar:

No sonho innocente, no sonho d'amores,

Do qual, duvidosa, julgavas córar.

Não posso contar-t'a, nem sei se acordado

O que ella dizia se póde entender;

Eu sei que sonhando, pensei que era sonho,

E agora acordado a não posso esquecer.

Mas tu porque escondes a face córada?

Não tem nada o sonho que faça córar,

É todo singelo, é todo innocente;

Que importa um abraço, se é dado a sonhar?

Mas tu não te escondas, que eu fico em silencio;

Não quero offender-te a casta isenção;

Não torno a contar-te depois de acordado

O sonho innocente do meu coração.

Janeiro de 1847.

XLII

ANJO E VIRGEM.

Virgem, que era o que sentias

Quando ao vento desferias

Essas frouxas harmonias

De um incerto murmurar?

Virgem, que era o que sentias

Teu santo seio agitar?

Achavas o mundo um ermo,

Onde ao coração enfermo

Dos horisontes sem termo

Não vinha uma aura de amor?

Achavas o mundo um ermo,

Fertil só de fel e dor?

Ou teu suspirar sentido

Era por ver desmentido

De amor o sonho querido,

Que sonhaste, alma gentil?

Ou teu suspirar sentido

Foi dor ligeira, infantil?

Era o teu anjo innocente

Que passára mansamente

A sorrir divinamente,

Mas que outra vez não volveu?

Era o teu anjo innocente,

Que víras subir ao ceo?

E ficaste pensativa

Sobre esta terra captiva

D'esperança, e d'amor esquiva,

Coberta com veo de dó;

E ficaste pensativa

Ao ver-te perdida e só.

Oh! esse tenue gemido

Do seio teu despedido,

Qual anhelito sumido

Que a morte veiu cortar,

Oh! esse tenue gemido,

Que não pudeste occultar...

Foi longo adeus de saudade

Aos dias da tenra edade,

Que envoltos na eternidade

Ligeiros viste fugir;

Foi longo adeus de saudade

Ao teu primeiro sorrir!

Do ceo á terra baixaste,

E quando nella te achaste,

Tristemente suspiraste

Ao ver-te perdida e só;

Do ceo á terra baixaste,

Á terra de pranto e dó.

Virgem, virgem, mal pensavas,

Quando triste suspiravas,

E num gemido enviavas

Longo e doloroso adeus;

Virgem, virgem, mal pensavas

Que eras um anjo de Deus.

Março de 1849.

XLIII

A M.ME LOTTI

Na noite em que cedeu o producto do seu beneficio a favor de um asylo

de infancia desvallida.

Canta oh! canta alma inspirada,

Que jámais na tua vida

Tiveste a fronte cingida

Dos loiros que hoje vais ter.

Canta: os prantos da orfandade,

Á tua voz seductora,

Se vão convertendo agora

Em sorrisos de prazer!

Oh! jámais em teus triumphos

Quando erguendo o rosto altivo,

A teus pés tinhas captivo

O poder da multidão,

Jámais sentiste no peito

Entre o rumor delirante,

Batter, como neste instante,

De enthusiasmo o coração!

Cada nota que desprendas

Terá um eco no empyreo,

Por que as palmas do martyrio

Em rosas vais transformar.

Oh! bem haja a Providencia

Que na tua voz divina

Poz a graça que fascina,

E o condão de consolar!

Quando no giro brilhante

Da tua crescente gloria,

Te venha um dia á memoria

Esta noite triumphal,

Pára, escuta, e docemente

Sentirás no teu ouvido,

Um murmurio agradecido

De ternura filial.

São elles os desherdados,

Os que já sem lar paterno

Erguem preces ao Eterno,

E bençãos por teu amor;

São elles a quem um dia

Com teu inspirado canto

Tornaste em sorriso o pranto,

Em pura alegria a dor!

1860.

XLIV

PRIMAVERA

Contempla este ceo esplendido,

Ouve aquellas melodias

De tanta ingenua avesinha,

Que alegre, os serenos dias

Da primavera adivinha.

Não vês a olaia? vaidosa!

Só por vêr que a amendoeira,

Mais cedo desabrochou,

Vermelha como uma rosa,

De repente se tornou.

Oh! bem vinda primavera!

Ao vêr o sorriso terno

Da tua boca divina,

O prado, o monte, a campina,

Que o triste e gelado inverno

Sem piedade devastou,

Num momento se animou!

Em teu regaço a abundancia,

Esperançosa floresce;

Á sombra de teus verdores,

Entre a suave fragrancia

De tuas variadas flores,

Contente o pobre adormece.

E tu, minha vida, ao vêr-te

Sósinha a meu lado agora,

Nesta estação, nesta hora,

Neste encantado logar,

Á sombra d'essa verdura

Onde frouxa a luz desmaia,

Ante o mar que além suspira

Na loira areia da praia,

Não vês que a razão delira,

Que dentro do coração

Não cabe tanta ventura?!

Falta a vida, sim, a vida,

Para esta alegria immensa,

Das nossas almas, querida!

Viva, ardente, pura, intensa,

Nesses olhos brilha a chamma

Do amor que tua alma incerra;

Alma que ao sopro de Deus

Em divino amor se inflamma,

Alma que veiu dos ceos,

E que não cabe na terra.

Fugaz, tranzitorio, vão,

Será para nós o encanto

Que nos enche neste instante

De ventura o coração?

Será! que importa? constante

Virá depois a saudade,

Abraçar essas memorias

De infinda felicidade;

Como ao templo aonde as glorias,

De paz, de amor, de alegria,

Se celebraram um dia,

Mas templo que ao chão tombou,

Se abraça a hera viçosa,

Reveste as pobres ruinas,

Amparando carinhosa

Esse resto que ficou!

Uma lagrima extremece,

Vem de teus olhos á flor!

Minha vida, esquece, esquece,

Que póde haver na existencia

Momentos de acerba dor!

O sopro da Providencia,

Vivo está, vivo respira,

Neste ceo desassombrado,

Na corrente que suspira,

Neste cantico inspirado,

Que as aves soltam no val,

E d'elle provém a essencia

Do nosso amor immortal!

Contempla o vasto horisonte

Que o sol vivido illumina;

Olha as flores da campina;

Escuta as aguas da fonte;

Respira esta aragem pura,

Embalsamada, e suave;

Ouve o cantico d'essa ave,

Que improvisa na espessura!

Recolhe n'alma o perfume,

D'esta encantada poesia.

D'este sol, d'esta alegria,

Que em torno de nós fulgura,

E responde, minha vida,

Se a nossa alma neste instante

Póde com tanta ventura!

Abril de 1856.

XLV

VOLTAS

(Improviso)

Entre as flores da campina

Correm uns certos rumores.

Que tu, rosa purpurina,

És a inveja das mais flores.

F. C. M.

És rosa, bem vês; o aroma

Que do teu seio rescende,

A cor que a folha te accende,

A inveja que ao rosto assoma

De todas as outras flores,

Não t'o diz, quando no prado,

Aos primeiros resplendores

Do sol que tem despontado,

Ergues a fronte singela,

Mas ah! quão graciosa e bella?!

O lyrio que á sombra nasce,

Quando te sente e te aspira,

Não sabes como delira!!

Não tens visto tanta vez

Naquella timida face

Redobrar a pallidez?

E o rouxinol namorado

Que, assim que a lua derrama

Seu doce clarão no val

Por entre a viçosa rama,

Desprende a voz immortal

Improvisando inspirado

O seu hymno nupcial

Á noiva que Deus lhe ha dado!

Por quem suspira anhelante?

Por quem trémulo se inclina

Sobre a veia cristalina?

Quem procura nesse instante?

--És tu, rosa purpurina!

És tu, sim; porém a cor

Que tinhas tão viva outr'ora,

Porque a vais perdendo agora?

Dize, oh rosa, a occulta dor

Que te faz tão tristemente

Pender a encantada frente!

Agora entre as outras flores

Correm uns certos rumores...

Quaes são, não sei; mas ouvi

Que as mais bellas da campina

(Por quem és tão invejada)

Quando hoje chamam por ti,

Dizem--rosa namorada,

E não--rosa purpurina.

12 de Maio de 1860.

XLVI

LELIA

O POETA

Musa: o dia rompeu chuvoso e frio,

Eu não tenho um real, nem tu tão pouco,

Que és pobre como Job; por conseguinte

Que havemos de fazer?

A MUSA

Ficar em casa,

Discutindo as miserias d'este mundo.

Apraz-te a idéa? Vamos, meu poeta,

Em que estás a pensar?

O POETA

Numa aventura.

A MUSA

Não se póde contar?

O POETA

De certo póde.

A MUSA

Nesse caso aproxima-te do lume,

Accende este charuto, e principia.

O POETA

Ha dois annos, um dia, ou mais exacto,

Uma noite em que a lua resvalava

No firmamento azul, em que os modilhos

Do inspirado cantor da primavera

D'entre a balseira em flor se desprendiam,

Achava-me aspirando a branda aragem

Sentado no portal de uma vivenda

Da modesta apparencia, e collocada

Num sitio encantador. Naquella noite,

De que me hei de lembrar eternamente,

Tinham vindo esperar-me de emboscada

Alguns contrabandistas do parnazo,

D'entre os quaes destacava a face lívida

De certo esguio e pesaroso vate

Que te inspira notavel sympathia.

Fugi! elles ficaram declamando

As primeiras estrophes de uma nenia!

Vinha rompendo abril: como já disse,

Sereno estava o ceo, doce a bafagem,

E a rosa, a favorita, a bella noiva,

Por quem o rouxinol desde a alvorada

Solta a voz em prodigios de harmonia,

Corando abria o pudibundo seio

Aos doces carmes do adorado amante.

Passado pouco tempo esta cabeça

Começára a enredar-se em mil chimeras.

De repente uma voz sonora e fresca

Chegara ao meu ouvido. Era tão simples,

Tão suave, tão meiga a melodia,

Tão infantil a voz! Voltei os olhos,

E descobri um vulto na janella.

Que figura ideal! alta, mas fragil,

Como hastesinha de um arbusto novo.

A innocencia e virtude respiravam

Naquelle rosto candido e formoso.

Numa das mãos firmada a face tímida,

E na outra a madeixa loira escura

Que vinha em pittoresco desalinho

Espargir-se nos hombros de alabastro.

Como o cantor da selva que inspirado

Improvisava no florido bosque,

Cantava ella tambem; ave innocente,

Juntava mais um trilo ao hymno eterno,

Que aos pés de Deus a natureza erguia.

Oh! quão feliz seria quem no mundo

Alcançasse as primicias d'aquella alma!

Lembrei-me de as colher, e decidi-me

A apparecer-lhe no seguinte dia.

Com effeito assim fiz.

Era sol posto:

Cançada de correr pela campina,

Tinha vindo sentar-se pensativa

Nos degraus de uma cruz que se elevava

No adro estreito de modesta ermida.

Chegava emfim ess'hora em que saudosa

A mente se dilata em magos sonhos;

Hora em que alma absorta em gostos intimos

Perde a consciencia do exterior da vida.

Diversas nuvemsinhas esmaltavam

Para o lado do poente o firmamento.

O bronze deu signal d'_Ave-Maria_.

Ella ergueu-se, e depois, firmando os joelhos

Sobre os degraus da cruz, soltou dos labios

A singela oração; passado instantes,

A pomba estremeceu, mas de alegria.

A viva chamma de amoroso affecto

Brilhou no puro azul d'aquelles olhos,

Quando nos meus attentos se fitaram;

E um sorriso de angelica ternura

Entreabrira os seus labios purpurinos.

Eu peguei-lhe nas mãos alvas de neve,

Que estremeciam apertando as minhas,

E pronunciei mansinho estas palavras:

--«Sim, sou eu, que tu tens visto,

Tanta vez naquelles sonhos

Bellos, candidos, risonhos,

Da tua idade infantil.

És minha. Sou teu. A vida

Para nós vai ser agora

Mais alegre do que a aurora,

Mais florída do que Abril!

Oh! que longas confidencias

Nos esperam nestes prados!

Que dias tão descuidados!

Que instantes de tanto amor!

Buscando ao crescer do dia

Entre o bosque a sombra densa,

Sentindo a alegria immensa

Do sol, do campo e da flor!

És minha: do ceo proveiu

O poder que a ti me prende,

Mas diverso fogo accende

O teu e meu coração:

Tu no mundo és a innocencia,

Eu sou na terra a poesia;

Tu dás-me a tua alegria,

Eu dou-te a minha paixão!

Dou-te as sombras da tristeza

Que acertam sobre teu rosto,

Como as sombras do sol posto

Na rosa agreste do val.

Recebes num meigo abraço

Meu profundo sentimento,

E dás-me o contentamento

Do teu seio virginal.»--

Indisivel prazer brilhou nas faces

Da ingenua virgem, quando ouviu as fallas

Que ancioso proferi, e com ternura

Disse, cravando em mim seus olhos bellos:

--«Orphã de paes, só tenho neste mundo

Apenas uma irmã; nós habitamos

Naquella casa que d'aqui se avista

Entre a verdura d'esse val ameno.

Já mil vezes em sonhos encantados

Eu ouvi tua voz, vi tua imagem.

Agora emfim és meu e para sempre.

Não é verdade? dize.»--perguntava

Com extremo, firmando-se ao meu braço.

Os pallidos clarões do astro saudoso

Despontavam no ceo; por entre as ramas

A aragem susurrava brandamente,

E o rouxinol occulto nas balseiras

Soltava algumas rapidas volatas,

Experimentando a voz que dentro em pouco

Iria improvisar o hymno da noite.

Caminhámos ao longo da alameda

Que terminava em frente da vivenda

Onde Lelia (era este o nome d'ella)

Passára os dias da ditosa infancia.

Á entrada do portal dei de repente

Com a vista no pallido semblante

De uma bella mulher. Cumprimentei-a.

Ergueu-se e veiu a nós sorrindo alegre.

--«É Julia, minha irmã»--me disse Lelia.

Segundei um rasgado cumprimento,

A que ella respondeu com a gentileza

De uma senhora de elevada classe.

Convidou-me a subir, eu dei-lhe o braço,

E acceitei promptamente este convite,

No que fiz um chapado disparate!

«Tibia luz, temperada para amantes,»

Illuminava uma pequena sala,

Onde o luxo e bom gosto respiravam.

Em primeiro logar é necessario

Que eu te faça um retrato a largos traços

(Como agora se diz) da encantadora

E provocante dona d'essa casa,

Era alta, sorriso malicioso,

Boca fresca, e vermelha como a rosa,

(É velha a imagem mas é sempre boa!)

Cabello basto, fino, muito escuro,

Olhos da mesma cor, e quasi sempre

Por doce morbidez meio cerrados.

Quando porém ás vezes dardejavam

Por entre a negra sombra das pestanas

Um só raio da luz que os inflammava...

Ai d'aquelle que ousava descuidado

Mirar de leve essa traidora chamma!

Que te direi do pé pequeno e curvo,

Que na estreita prisão de uma botinha

De setim preto estava clausurado?

Não sei; mas sei que ao vel-o me esquecêra

A poesia da lua e das estrellas,

Do Tejo de cristal, da mansa brisa,

De tudo o mais que tenho por mil vezes,

Estafado em mau verso e peior prosa,

Para só contemplar os mil encantos,

Que tinha aquelle pé!

E a pobre Lelia,

A meiga apparição que nos meus braços

Tinha vindo entregar-se sem receio,

Onde estava? calada e pensativa,

Contemplando o meu rosto, onde subia

O sangue accezo em ondas de desejos.

Em presença d'aquella peccadora,

Esqueceu-me de todo o sentimento

Que me inspirára o anjo de innocencia.

Sou poeta; bem sabes que os poetas

Não são de certo os entes mais constantes!

Depois a essa mulher!... Oh! quem no mundo

Podera resistir? Se nesse instante

A visses no _fauteuil_ reclinada!

O vestido entre _roxo e cor de rosa_,

Apesar da invasão das _crinolines_,

Deixava perceber divinas fórmas.

No cabello uma rosa perfumada,

E no turgido seio, que ondulava

Atravez da finissima cambraia,

Viçoso ramo de singelas flores.

Ella viu a impressão que produzira

No pobre peccador que a contemplava,

E descerrando a boca num sorriso

Quiz fallar, mas a voz morreu nos labios,

E a eloquencia do olhar disse-me tudo.

Pouco a pouco nas faces desmaiadas

Se accendêra o rubor; nos olhos negros

Scintillou por instantes uma lagrima,

«Precursora de languido deliquio».

Meiga, sonora então, como seria

A voz do archanjo que descesse á terra,

Junto a mim murmurou a voz de Lelia:

--«Vou deixar-te; amanhã, no mesmo sitio,

Á mesma hora, de novo nos veremos;

Vou resar a oração que me ensinára,

Minha mãe quando eu era pequenina.

Vou resal-a por ti!»--Oh! por instincto;

A innocencia fugia do peccado.

Quiz seguil-a tambem, mas por encanto,

Por encanto fatal, senti-me preso

Ao supremo poder d'aquelles olhos

Que nos meus se reviam com ternura.

De novo aquelle pé que me perdera,

Se firmou num pequeno tamborete,

E d'essa vez deixando a descuberto,

Um fragmento de perna, que faria

Morrer de desespero uma andaluza.

Esvaeceu-se então completamente

A meus olhos o anjo da candura,

Das commoções divinas, da virtude,

E achei-me só, perdido, face a face

Ante o demonio das paixões terrestres!

Dei-lhe a mão, e senti num paroxismo

De desejo e de amor fugir a vida.

Quando a razão voltou, como o murmurio

Da fresca viração da primavera,

O sopro perfumado de seus labios

Vinha affagar-me docemente a fronte.

Os anneis do cabello ondado e negro,

Espargindo-se, avaros procuravam

Occultar-me da vista aquelle seio!

Impaciente os affasto devorando,

Num beijo, em mil, um mundo de delicias!

Oh! como então no peito me pulava

O coração vaidoso e triumphante!

No languido quebranto que succede

Ao febril desvario dos sentidos,

Julia estava a meu lado; amortecida,

Por entre densa rama das pestanas,

Partia a luz das languidas pupillas.

Desmaiára de amor a rosa esplendida,

E voltava de novo áquella face,

A pallidez do lyrio das campinas.

Abatida e indolente, erguêra a fronte;

Caminhámos os dois para a janella:

Os primeiros clarões da madrugada,

Vinham rompendo já no firmamento.

Chegava emfim a hora, era forçoso

Dizer adeus á seductora imagem!

II

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Casta filha do ceo, pura innocencia,

Como o sorriso alegre de teus labios

Me torna aos dias da ditosa infancia,

E me faz existir algumas horas

No doce enlevo de passados sonhos!

Quantas vezes porém ao ver-te, ó rosa,

Nas agruras da terra, eu te contemplo

Com viva compaixão! Tão facilmente

Se evapora o perfume de teu seio,

Se perde o viço de teu meigo rosto!

Caes subito no chão pallida e triste!

E porque? porque o sopro envenenado

Do mundo te crestou. Alheia ao crime,

És fulminadada pelos crimes de outros!

Versos de Bulhão Pato · 第 3 / 5 段