«Era indigno de ser esposo d'ella!

E porque?! Por que as leis não consentiam

Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste.

E comtudo, se a mão da Providencia

Me conservasse a vida, dentro em pouco

Podéra conquistar de certo um nome

Tão nobre como o teu. Tive uma espada,

E sobeja ambição para elevar-me

Com ella aos feitos de sonhada gloria.

Bem sabes que as esporas mais brilhantes,

Nem sempre as traz aquelle que nascêra

Embalado na purpura, e que as minhas,

O corcel que montava, por mil vezes

Avante arremessaram dos mais nobres,

Mais valentes senhores, quando, lembras-te?

Carregando eu bradava: _Éste e victoria!_

O meu crime conheço, e não procuro

Minoral-o, descança, nem tão pouco

Implorar-te alguns dias de existencia,

Rapidas horas que sem ser contadas

Passarão sobre a pedra do meu tumulo!

«Delirio, como foi o do passado,

Não podia ser longo. A minha origem,

O meu nome, não são de mancha isentos;

Mas comtudo, apesar do teu orgulho,

Regeitar perfilhar-me!... nesta face,

Quaes olhos não verão que sou teu filho?

A minh'alma tambem de ti procede!

De ti, sim; por que tremes? de ti veiu

O indomavel vigor do meu caracter.

Não foi somente a vida que me deste,

Porém quanto podia emfim tornar-me

Em tudo igual a ti. Comtempla a obra

Do teu culpado amor! Na semelhança,

Semelhança fatal que vês no filho,

Irada te castiga a Providencia!

Est'alma não é pois a d'um bastardo,

Como a tua não soffre a tyrannia.

O passageiro sopro da existencia,

Nunca em mais o presei do que tu proprio,

Quando juntos na força do combate,

A galope os corceis, a espada em punho,

Por mil vezes nas renques do inimigo

Rompendo a ferro frio penetramos.

«O passado acabou, e dentro em pouco

O futuro com elle irá juntar-se,

«Mas oxalá que a mão do Omnipotente

He houvesse dado a morte em taes instantes!

«Era pouco deixar-me orfão no mundo

Do affecto maternal; ousaste ainda

Arrebatar-me a noiva! Mas que importa?

Sou teu filho, conheço-o neste instante,

E a sentença cruel que proferiste,

Posto venha de ti, não posso agora,

No fundo de minh'alma achal-a injusta.

«No peccado nasci, morro na infamia;

Por onde começou, termine a vida.

Errando o filho, o pae tambem errára;

Num, castigas os dois. Perante os homens

Eu, quem sabe? serei o mais culpado,

Porém Deus julgará entre nós ambos.»

XIV

Cruzando as mãos no peito Hugo fizera

Resoar os grilhões, e d'entre os chefes,

Que a sala do palacio povoavam,

Não houve um só, que ouvindo esse ruido

Deixasse de tremer. Depois cravaram

Sobre a fatal beldade a vista a um tempo.

Parisina, infeliz! pallida e fria,

Immovel como estatua de alabastro,

Dissemos que assistíra á scena horrivel,

Da perdição do amante. Os olhos fixos,

Scintillantes, abertos, desvairados,

Nem sequer por instantes se volveram.

Nem uma vez as palpebras, cerrando-se,

O fito olhar velaram; mas em torno

Das pupillas azues, e resplendentes,

Sem cessar se alargava o alvo circo!

Uma lagrima a custo conglobada,

Lentamente das palpebras saía,

Tremendo sobre a franja das pestanas:

Quem o sabe contar? nesse momento,

Os que a viam, pasmavam, não podendo

Crer que a olhos de humana creatura,

Fosse dado verter tão grossas lagrimas!

Quiz fallar, mas a voz morreu cortada:

Comtudo no som cavo que soltára,

Nesse longo suspiro, parecia

Que vinha o coração; apoz instantes

Tentára inda outra vez, porém debalde!

Do mais fundo do peito a voz partira

Num grito, num gemido prolongado,

E depois como a pedra, como a estatua

Derrubada da base, como tudo

O que é de vida falto emfim caíra

Digno emblema do tumulo da esposa,

Do traído senhor da casa d'Éste!

Porém não da mulher que sente n'alma

O remorso do crime, e nelle segue

Pelo ardor dos desejos instigada.

Do lethargo fatal tornára em breve,

Mas não para a razão; cada sentido

Por dor intensa fôra aniquilado.

Como das cordas do arco humedecidas

Lassas da chuva, as settas disparadas

Vão bater ao acaso, assim do cerebro

As magoadas fibras só soltavam

Desvairados, e vagos pensamentos.

O passado, e porvir! Ermo o passado!

Nas trevas do porvir apenas via

Um sinistro clarão, de espaço a espaço,

Semelhante ao do raio quando fende

As nuvens conglobadas no horisonte,

E cai sobre um logar deserto e triste.

Gelada de terror sentia n'alma

O peso do remorso; que existiam

A vergonha, o peccado, na consciencia,

Uma voz mal distincta lh'o lembrava;

Que a morte estava ali pairando livida

Sobre alguem, nesse instante o presentia.

Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida

O sopro que seus labios respiravam?

Era o ceo, era a terra, eram os homens,

Que tinha ante seus olhos deslumbrados?

Os homens, ou demonios que a miravam

Com sinistra expressão? Eram os mesmos

Cujo olhar noutro tempo revelava

Tão suave, e profunda sympathia?

Tudo era incerto e vago no seu animo,

Receios, e esperanças insensatas;

Agora um meigo riso, logo um pranto,

E no seu desvairado pensamento,

Cuidava ser aquelle um sonho horrivel

No qual o coração se debatia.

Porém d'elle, oh! debalde procurára

Acordar a infeliz jámais na vida!

XV

Na torre pardacenta do mosteiro,

Balançam lentamente agora os sinos,

E o som profundo e triste dentro d´alma,

Desperta dolorosos sentimentos.

Por aquelles que á sombra do cypreste,

Repousam para sempre, ou dentro em pouco

Terão de repousar, o canto funebre,

Que ouvis neste momento se desprende.

Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos;

Ante os olhos o cepo, ao lado um padre!

Braços nus o carrasco attento espera

Pelo instante fatal; certeiro e forte,

Deve o golpe caír. Horrivel quadro!

Mas comtudo ao redor avidamente,

A turba silenciosa se reune,

Para ver, Santo Deus! no cadafalso

Por ordem de seu pae morrer um filho!

XVI

É um'hora encantada a que precede

O derradeiro adeus do sol explendido!

Na pompa de seus raios fulgurantes,

Parece escarnecer da scena horrivel

Que se aproxima de seu termo agora.

Curvado aos pés do monge, em voz sumida

Hugo profere a derradeira prece,

Prece contricta, humilde, fervorosa.

Nessa fronte inclinada e pensativa

Bate um raio de luz, porém mais vivo,

Mais brilhante reflecte sobre a lamina,

Que proxima da victima responde

Por um forte, mas lugubre, reflexo.

Como est'hora suprema é dolorosa!

O crime fôra atroz, justo o castigo;

Mas comtudo o supplicio nesse instante

Faz gelar de terror quem o contempla!

XVII

As orações extremas acabaram;

O filho ao pae traidor, o audaz amante,

Tudo emfim confessou. Rapidas tocam

As horas no seu ultimo momento.

As ondadas madeichas de cabello

Já cairam no chão. O nobre manto

Bordado pelas mãos de Parisina,

Não deve acompanhal-o á sepultura.

Tentam vendar-lhe o rosto, não consente

Esta final affronta. O seu orgulho,

Comprimido no mais intimo d'alma

Pela expressão de fria indifferença,

Acorda nesse instante, repellindo

A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos.

«O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te,

Preso, algemado estou; co'a vista livre,

Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo

No logar do supplicio inclina a fronte.

Ao proferir esta palavra: «Fere»

Brilha o ferro no ar; silvando o golpe

Cai rapido e fatal. Rola a cabeça,

O corpo palpitante e transtornado,

Pula envolto no pó, que bebe o sangue

Saído em borbotões pelas arterias!

Inda instantes os labios estremecem,

Nos olhos inda fulge a luz da vida;

Tudo emfim acabou! Morto sem pompas,

Como deve morrer o homem culpado

Que se arrepende no momento estremo,

Elle o seu coração oppresso e triste

A Deus sómente consagrou ness'hora.

A imagem de seu pae, da propria amante

O que eram á sua alma atribulada?

Um sentimento das paixões terrestres

Não viera turbar naquelle instante

A pura contricção do seu espirito,

A não ser quando expondo a fronte nua,

Ao cutello do algoz quiz ver a morte.

Era o unico adeus que proferira,

Ás testemunhas do cruel supplicio.

XVIII

A multidão gelada e silenciosa,

Mal ousa respirar. Alguns gemidos

Cortados, mas profundos, se escutaram;

Nada mais, a não ser o som socturno

Do cutello batendo sobre o cepo.

Nada mais? houve um som, um grito horrivel,

Estridulo, selvagem, semelhante

Ao da mãe, que de um golpe repentino

Vê cair a seus pés sem vida o filho!

O grito de quem foi, de onde partiu?

De um seio feminil, e mais terriveis

Não os solta jámais o desespero!

XIX

Hugo jaz no sepulchro, e Parisina

Dissera acaso eterno adeus ao mundo,

Refugiando sua alma atribulada

No silencio da cella de um convento?

O veneno, o punhal talvez seriam

O severo castigo do seu crime?

Ou succumbira emfim nesse momento,

Em que vira brandir o duro ferro

Sobre a adorada fronte? compassiva

A mão da Providencia permittiu,

Que ao quebrar-se em seu peito confrangido

De angustia o coração, se terminasse

Tambem com elle a fragil existencia?

Não o soube ninguem. Aquella vida,

Ai! de mim! acabára neste mundo

Pela dor como a vida principia!

Setembro de 1856.

XXV

A VALSA

Venceste: sou teu, bem ves

Quão facil foi a victoria!

Cahi-te rendido aos pes.

E sem disputar a gloria.

Aos _golpes_ da tua mão

Expuz logo o coração!

Venceste: sinto nas veias

Correr o sangue agitado:

Todo o fogo do passado

Já nos sentidos me ateias.

Submisso, humilde, sugeito

Ao teu estranho poder

Existe todo o meu ser!

Em ti palpita o meu peito;

E a razão que me delira,

Em ti vive, em ti respira,

Com teu imperio a rendeste;

Sou teu: venceste, oh! venceste!

Quanto tempo decorreu

Desde aquell'hora maldita?

Quanto tempo est'alma afflicta

Na angustia se debateu,

Sem que um sorriso, um olhar

A viesse consolar!

Em vão buscava no ceo

As scintillantes estrellas;

Não via em nenhuma d'ellas

Nem formosura, nem lume,

E no prado por mais bellas

Que se ostentassem as flores,

Para mim não tinham cores,

Nem encantos, nem perfume!

..........................

Uma tarde, era o sol posto,

Vi-te assomar á janella;

Depois inclinar o rosto

Sobre a mão graciosa e bella,

E contemplar fascinada,

A natureza encantada.

A aragem com brando alento

Agitava os teus cabellos,

E julguei nesse momento

Ver-te á flor dos olhos bellos

Estremecer cristalina

Uma lagrima divina!

Sobre o cimo flexuoso

Do monte se reflectia

Ainda o clarão saudoso

Do brando expirar do dia,

Quando afogueada rompeu

A lua no azul do ceo.

Teu seio battia inquieto,

E eu senti no coração

A chamma do antigo affecto

Rebentar como um volcão!

De repente os olhos teus

Se volveram para os meus.

Quizemos fallar, a voz

Nenhum a poude soltar;

Mas que não dissemos nós

Naquelle inspirado olhar!...

Uma só vez na existencia

O diz a muda eloquencia!

........................

........................

Entrei no baile! a alegria

Saltava no teu semblante,

Quando a valsa delirante

Rompeu no vasto salão!

Era aquella melodia,

Que tanta vez a teu lado

Me fez batter agitado

De enthusiasmo o coração!

Ergueste a fronte animada,

E em teu rosto se trocou

A pallidez namorada

Pelo fogo da paixão!

Como o teu olhar fallou

Antes que dissesse a voz:

«Oh! tua outra vez eu sou!»

Depois no giro veloz

Da dança vertiginosa,

Como a tua voz formosa

Sobresaltada tremia!

Como em tua alma eu vivia!...

É que nesse instante Deus

Quiz unir as nossas vidas

Por um amplexo dos ceos!

No horisonte esmorecidas

As estrellas desmaiavam

Co'os resplendores da aurora

Que já no ceo despontavam.

Naquella encantada hora

Expirou nos labios teus

Um suspiro, e um adeus!

Um adeus, que promettia...

Mas quem pode revelar

O que nelle se dizia!

A aurora vinha a ráiar

E os clarões da manhã fria

Acaso viram jámais

Tão felizes dois mortaes?

.........................

.........................

Desde então ao teu poder,

Submisso, humilde, sugeito

Existe todo o meu ser.

Em ti palpita o meu peito,

E a razão que me delira,

Em ti vive, em ti respira,

Com teu imperio a rendeste,

Sou teu: venceste, oh! venceste!

Setembro da 1861.

XXVI

RECORDAÇÕES

Como foi, e ha quanto tempo

Que esse tão feliz momento,

Da minha vida acabou?!

Não sei, que importa? Era um dia

Que o sol vivido inundava

A luxuriante campina.

Intensa, glacial frieza

O coração me gelava,

Quando subito sentira

Um raio de luz divina

Que minh'alma illuminou.

Deslumbrado em vão buscava

Ver donde essa luz partia,

A mente me delirava

Co'a ventura que sentia!

Oh! depois vi claramente,

Que de teu rosto innocente

Partira o raio de luz,

Tão suave e tão sereno,

Como esse que nas pupillas,

Azuladas e tranquillas

Do anjo da nossa infancia

Melancolico reluz!

Parámos naquella estancia,

Dize, lembras-te, Luiza,

Como vinha fresca a brisa,

E que suave fragrancia

Rescendia a viração?

Tu firmavas-te ao meu braço,

E eu mal respirar podia

Que não sei quê me opprimia,

Mas com que doce oppressão!

Parava, não de cançaço,

Por que o peito mais valente,

De mais vigor não se anima,

Nem com mais força se sente

Do que eu me sentia então!

Foi fatal aquelle instante,

Para ti fatal, embora,

Tu viveste numa hora,

Inteira toda uma vida

Do mais delirante amor;

Porque a tua alma, querida,

Quando deveras se inflamma,

Devora co'a sua chamma

O prazer até á dor!

Duas lagrimas brilhantes

De teus olhos deslisaram,

Quando nos meus se cravaram

Formosos e scintillantes.

A expressão que eu nelles via,

Devêra ser semelhante

Á que o justo vê no dia

Do seu supremo juizo,

Nos do anjo fulgurante

Que lhe aponta o paraizo!

Como foi que tal encanto

A fatal mão do destino

Para sempre nos quebrou!?

Da noite o sombrio manto,

O teu semblante divino

A meus olhos occultou!

Oh! não foi nesse momento,

Porque inda no firmamento

O lampejo d'uma estrella,

As tuas pallidas faces

De um reflexo illuminou,

E inda um beijo, longo, ardente

Na tua boca innocente

A minha boca estampou!

Oh! não foi!! Depois ainda,

Na mesma noite encantada,

Te vi fulgurante e linda,

De brancas roupas trajada,

No turbilhão delirante

Do baile veloz passar;

Inda ali tanta esperança,

Tanto amor, tanta ventura,

Veiu minh'alma inundar

Inda ouvindo aquella valsa

De enthusiasmo estremecemos,

E desvairados corremos

Ao som da doida cadencia.

Oh! que fogo nesse instante

Nos inflammava a existencia!!

Eu cingia-te anhelante

Entre meus convulsos braços,

E com teus ligeiros passos

Tu mal tocavas o chão!

Aquella doce harmonia

De instante a instante augmentava.

Oh! como então nos battia

Agitado o coração!

Augmentava, e de repente,

Como cortada torrente,

A melodia parou;

E nos meus braços, querida,

Extenuada, abatida,

Por momentos te deixou.

A aurora vinha rompendo

Quando teus olhos aos meus,

Proferiam eloquentes

Aquelle saudoso adeus.

Ao longe o vasto Oceano,

Da brisa fresca agitado,

Ante nós bramia ufano.

Tu, volveste horrorisado

O rosto co'a vista d'elle!...

É que em breve a todo o pano,

O meu baixel correria

Sobre aquellas ondas torvas,

E de ti me apartaria!

Janeiro de 1851.

XXVII

SÊ FELIZ

Sê feliz! Hontem ainda

Contemplando o teu semblante,

Na sua innocencia infinda,

Porém triste nesse instante,

Roguei a Deus do mais fundo

Mais puro do coração,

Que uma lagrima, um desgosto,

Uma sombra de amargura,

Jámais viesse no mundo,

Turbar teu candido rosto.

Sê feliz: toda a ambição

Que por ti minh'alma encerra

É ver-te feliz na terra!

Nada mais. O amor profundo,

O mais violento embora,

Tem sempre na vida um'hora

De egoismo, e esta affeição,

Que uma só vez na existencia

No meu peito se accendeu,

Que jámais se ha de extinguir,

Tem a pureza do ceo,

Proveiu da tua essencia!

Se no presente ou porvir,

Alguem que te encante a vida

Existe ou tem de existir...

Não terei zelos... Unida,

Para sempre a outro affecto

Passarás junto de mim,

Embora, direi então:

«Sê feliz: toda a ambição,

Que por ti minh'alma encerra

É ver-te feliz na terra!»

E sabes?... ao Creador

Dou graças por me haver dado

Este puro sentimento

Em vez do fogo do amor.

Ai! se um dia, no momento

De ver-te, te houvesse amado!...

Se em vez da chamma suave,

Que em meu coração se inflamma,

Se ateasse aquella chamma,

Se houvesse emfim rebentado

Aquelle fatal volcão!...

Ai! de mim! quanta amargura!

Quanta angustia o coração

Não teria já passado!

Porem assim!... não, ai! não!

Sê feliz: toda a ambição

Que por ti minh'alma encerra,

É ver-te feliz na terra!

Maio de 1854.

XXVIII

A FOLHA DESBOTADA

Volve folha desbotada,

Outra vez á mão nevada

Que do tronco te ceifou,

Volve, e dize sem receio,

Que te apertei contra o ceio,

Que o meu olhar te adorou:

Vai discreta confidente,

Dize tudo quanto sente,

E calla o meu coração!

Vai, que a tua voz sentida,

Ha de ser por ella ouvida

Com ternura e compaixão.

Dize que ao ver um instante

Anuviado o seu semblante,

Pensativo o seu olhar,

De sobresalto e receio,

Sinto o coração no seio

De repente a palpitar!

Que a sonhei antes de vel-a,

Como bem fadada estrella,

Mensageira do Senhor!

Que ao vel-a a voz da consciencia

Disse: É esta na existencia

A tua estrella de amor!

De amor puro, intenso, ardente,

Mas que occulto eternamente

No meu peito ficará!

Que no infortunio nascido,

Só commigo tem vivido,

E commigo morrerá!

Ai! folhinha desbotada!

Outra vez á mão nevada

Volve de quem te ceifou!

Volve, e dize, sem receio,

Que te apertei contra o seio,

Que o meu olhar te adorou!

Maio de 1854.

XXIX

NUM ALBUM

Venham ver este retrato,

E respondam se o pintor,

Que desenhasse melhor,

O tirava mais exacto.

Eil-a! saltando da tela,

Viva, inteira, palpitante!

Pallido um pouco o semblante,

A boca graciosa e bella,

Quando o sorriso a desflora,

É como a rosa da aurora

Abrindo ao sopro de abril!

É mais! é ver num momento,

Quanto pode o pensamento

Sonhar de casto e gentil!

O cabello ondado e fino,

Negro como a noite escura,

Cai no collo alabastrino,

E faz resair a alvura

Do rosto fascinador.

Os olhos... oh! neste instante,

Tremo, hesito, não ha cor,

Não ha luz por mais brilhante,

Que possa emfim imitar

O reflexo scintillante

Da chamma do seu olhar!

Chamma que ás vezes traidora,

Se occulta na sombra escura,

Á espera que chegue um'hora,

Hora de morte ou ventura!,

Em que possa deslumbrar,

Com mais fogo e com mais vida,

O desvairado que ousar,

Miral-a sem recear,

Pela ver assim sumida!

Terminou?... e eu que julgava

Cobrir-me de eterna gloria,

Quando tanto me esmerava

Na minha copia ideal!

Agora que na memoria,

(Ou antes no coração)

Tenho vivo o original,

Vejo bem que não ha mão,

Por mais que saiba pintar,

Capaz de estampar na tela

A expressão graciosa e bella

D'essa face, e d'esse olhar!

Abril de 1859.

XXX

ONDE SE ENCONTRA A VENTURA?

Onde se encontra a ventura,

Esta encantada visão,

Que tantas vezes procura,

Mas debalde, o coração?

Nas pompas da formosura?

Nos esplendores da gloria?

No poder de conquistar

A mais difficil victoria

Com o mais timido olhar?

Oh! como então és feliz,

Porque tudo te revela,

Que não ha face mais bella,

Nem existencia tecida

De mais florído matiz!

Porém responde, na vida,

Quando tu passas radiante

D'essa luz que emfim só Deus,

Concede a um anjo dos seus!...

Quando ouves a cada instante

Dizer com voz anhelante:

«Lá chega, lá passa, é ella,

Que é tão feliz como é bella!»

Uma sombra de amargura,

Um sentimento profundo

Não te opprime o coração

E não te diz que a ventura

Se não encontra no mundo?!

Uma vez, sereno o ceo,

Como os teus olhos brilhava!

Airosa ante mim passava

Essa forma, esse ideal

Que não pode ser mortal!

Atravez do raro veo,

Que o semblante te encobria,

Uma lagrima descia;

Era de prazer ou dor!

Oh! de angustia parecia,

Pelo agitado tremor

Com que o peito te battia!

O mundo não sei se a via,

Porque a meu lado exclamava:

«Lá chega, lá passa, é ella,

Que é tão feliz como é bella!»

Mas quem sabe se acertava?!

Porque a ventura real

Se existe, é só no momento

Em que livre o pensamento

Se eleva ao mundo ideal!

E noss'alma a outra unida,

Foje á terra, se illumina

De um raio de luz divina,

E se esquece emfim da vida!

Julho de 1859.

XXXI

QUEM DIRÁ?

Quem dirá, vendo a expressão

Que brilha no teu olhar,

Que tu não tens coração?

Bem haja a mão tutelar,

Que á beira me suspendeu

Do abismo da perdição!

Que delirio foi o meu

Naquelles tão curtos dias

Que passei ao lado teu?

Oh! como tu respondias

Com o silencio eloquente

Ás palavras que partiam

Do meu coração ardente!

E depois, se num momento

Os labios já não podiam

Expressar o sentimento,

O fogo do meu affecto,

Como o teu olhar inquieto

A minh'alma interrogava

E todo paixão jurava,

Que era meu o teu amor!

Oh! que dias de ventura!...

Nos campos, abria a flor;

Por entre a tenra verdura,

Inda fraca, inda infantil,

Se escutava a voz das aves

Que saudavam abril.

E tu, como ellas, ditosa,

Ás suas notas suaves

Juntavas a voz formosa!

Ah! como eu vivia então!

Como de novo sentia

Rebentar no coração

Essa infinita alegria

Que nos desvaira a razão!

Por quanto tempo durou

O sonho que me encantava?

Breve foi, maldicta a mão

Que d'elle me despertou.

Quando mais certo julgava

Que era emfim minha a ventura,

No momento em que acabava,

De escutar dos labios teus

Aquelle estremoso adeus!

Adeus, que nesse momento

Com a esperança sorria

E tanto me promettia!...

Foi, oh Deus! que de repente,

Uma palavra maldicta,

Fez que eu visse claramente,

Cobrindo minh'alma afflicta

De espessa nuvem sombria!

........................

Quem dirá vendo a expressão

Que brilha no teu olhar,

Que tu não tens coração

Ou tem-lo para enganar?!

Abril de 1859.

XXXII

UM BRINDE

(Improviso)

Amigos, á formosura

Que nos cerca neste instante,

Erga-se a taça escumante

De purpurino licor.

Vivo enthusiasmo rebente

Agora de nossas almas,

Caiam palmas sobre palmas

Cada vez com mais ardor!

Aqui floresce na horta

A viçosa laranjeira,

Corre o Champanhe e o Madeira

Que offertara nivea mão,

Aqui não chegam as garras

De tanta velha leôa

Que esfaimada por Lisboa

Se atira a tanto leão.

Aqui livre em nosso peitos

Pula impaciente alegria,

Porque ao sol de um bello dia

Tudo vemos reflorir!

Que importa pois que os ministros

Resonem no parlamento,

E que os homens de São Bento

Nem sequer nos façam rir?

Para nós sorri-se o mundo,

Para nós a vida é esta,

Hoje festa, amanhã festa,

Gloria, encantos, illusões!

Junto a nós temos as bellas

Mais fragrantes do que as rosas,

Longe... o mundo das preciosas,

E o mundo dos papellões!

Eia pois! á formosura

Que me cerca neste instante

Erga-se a taça escumante

De purpurino licor.

Vivo enthusiasmo rebente

Agora de nossas almas,

Caiam palmas sobre palmas

Cada vez com mais ardor!

Abril de 1859.

XXXIII

AQUELLE DIA!

Jámais me ha de esquecer aquelle dia!

Do meigo outono a pallida folhagem

Inda os troncos do bosque revestia.

Sereno estava o ceo; doce a bafagem;

De toda a natureza

Infinita saudade respirava;

Mas por essa tristeza

Feliz o coração se dilatava!

Feliz, ai! tão feliz qu'inda á lembrança,

D'esses dias de amor e de ventura,

De paz e de esperança,

Se anima, e vê sorrir na noite escura,

Um reflexo da estrella resplendente

Que uma vez lhe brilhou serena e pura;

Inda a sombria nevoa do presente

Se rarefaz, se esvai, e se illumina

Tudo a seus olhos de uma luz divina!

Oh! tu lembras-te bem d'aquelle dia!

Nem o lento correr de tantos annos,

Nem as tardias horas que vieram

Depois cheias de amargos desenganos,

O encanto desfizeram

Da inspirada, divina poesia,

Que elle continha em si, que elle nos deu,

E nós guardmos como um dom do ceo!

Era ermo o logar, ermo, mas bello!

Profunda a solidão! De quando em quando,

Escutava-se o cantico singelo,

Da estrangeira avesinha que buscando

O sol do nosso inverno,

A voz desfalecida ia soltando

Com saudades do _ninho seu paterno_.

No extasi ideal do sentimento,

Tu volvias os olhos silenciosa,

Para o sereno azul do firmamento;

E da boca formosa,

Reprimir um suspiro em vão tentavas!

É que nesse momento,

Exausta a escala do prazer, anciosa

Uma nota na dor emfim buscavas!

Nas nossas almas existia um mundo

De indefenito amor;

Do pelago profundo

Onde ruge o furor

Insano, concentrado, atroz, maldicto,

D'esta cruenta guerra

Das ambições da terra,

Nem uma maldição, um som, um grito

Nos vinha perturbar!

Era a amplidão do ceo, a solidão da serra,

Ao longe... a voz do mar!

Depois como se a mão da Providencia

Inundasse meu ser naquelle instante

Da luz de outra existencia,

Julguei ter visto a origem fulgurante,

De onde provém a chamma

D'este immortal amor que nos inflamma!

Á ideia então da morte

Sentia-me sorrir; porque na hora,

Que nol-a desse a sorte,

Brilhava para nós serena e pura

Essa immortal aurora,

Que reluz nos umbraes da sepultura!

Iriam nossas almas,

Já livres de martirio,

Colher as flores e mimosas palmas

Que vicejam no empyreo!

Tudo em fim acabou! a noite escura,

Envolvera em seu manto aquelle dia!

E de tanta poesia

Que resta para nós? uma saudade,

E a esperança que um dia essa ventura

Nossa outra vez será na eternidade!

Agosto de 1858.

XXXIV

PARA RECITAR AO PIANO

(Primeira)

Era no outono quando a imagem tua

A luz da lua seductora vi.

Lembras-te ainda nessa noite Eliza,

Que doce brisa suspirava ali?

Toda de branco, em tua fronte bella,

Rosa singela se ostentava então,

Vi-te, e perdido de te ver buscava

Se me apartava da gentil vizão!

Era debalde; quanto mais te via,

Mais me perdia delirante amor;

Magicas fallas proferiste incerta,

Toda coberta de infantil pudor!

Tremulo, ancioso, quiz pedir-te um beijo

Louco desejo pois fugir-te vi!

Vendo-me triste para mim voltaste,

Não me fallaste; mas eu bem senti!

Versos de Bulhão Pato · 第 2 / 5 段