Eram estes, ó musa, os pensamentos

Que vinham em tropel ao meu espirito,

Quando estava disposto a dirigir-me

Ao sitio que na vesp'ra me indicára

A ingenua irmã da tentadora Julia.

Começava a morder-me na consciencia

O remorso de haver atraiçoado

Aquelle anjo de amor e de candura.

Nisto sinto parar um trem á porta;

Olho, e vejo saltar de uma caleche,

Elegante e veloz como a gazella,

A minha irresistivel peccadora.

Quantos protestos até'li fizera,

Só com sentir-lhe a voz se evaporaram!

Corro á porta, ella sóbe, e com ternura

Aos meus tremulos braços se arremeça:

--«Tardavas tanto!... as horas d'este dia

Não terminavam nunca!... vim buscar-te;

Perdoa se fiz mal; mas o desejo

De te ver e abraçar era tão forte...

Vamos dar um passeio pelo campo,

E depois... serás meu, e eu serei tua!»--

Terminado este rapido discurso,

Mas cabal, eloquente, e peremptorio,

Peguei no meu chapeo, e em continente

Descemos e partimos na caleche.

Não podes duvidar que possuia

A mais commoda amante d'este mundo.

Quando o carro passou pelo Chiado,

Mais de vinte lunetas se assestaram

A um tempo sobre nós; e é bem provavel

Que mais de vinte bocas honradoras

Me ficassem na sombra remordendo;

Tanto melhor; é bom ser invejado.

Oh! que tarde de Abril! O sol, baixando,

Illuminava de clarões suaves

O firmamento azul; nos verdes prados

A flor estremecendo de alegria

Aos doces beijos da travessa aragem,

Como offrenda enviava ao ceo propicio

A pura essencia do virgineo seio.

Scintillava o prazer nos olhos negros

Da mulher que apesar de peccadora

Era bella, oh! tão bella como os anjos

Que o tentador Satan despenha ao mundo!

Formosuras fataes qu'inda conservam

Na fórma o que é do ceo para illudir-nos!

Ai de nós se encarâmos descuidados

A morbida expressão de certas frontes,

Onde a candura nos occulta o crime!

Alva era a face da elegante Julia;

Vivo o rubor que lhe animava os labios;

Adoravel a tinta fugitiva

Que lhe tocava levemente as palpebras;

Muda a boca; no olhar toda a eloquencia!

Entrámos na allameda. Era sol posto.

Ao chegarmos á porta, appareceu-me

Um personagem que d'ali saía,

Baixo, gordo, roliço, impertigado,

Sorriso de barão, cara opulenta,

E ar de um homem contente de si proprio.

--«É de certo barão ou brasileiro.»--

--«Brasileiro e barão»--disse-me Julia.

--«Visita d'esta casa ha muito tempo?»--

--«Ha muito tempo sim»--respondeu ella

Com certa hesitação--«Não lhe fallaste?»--

--«Felizmente escapei de tal desgraça!»--

Subi; cheguei á sala; ella deixou-me

Por algum tempo só junto á janella.

Sentei-me a respirar o vivo aroma

Da fresca viração da noite amena.

Mudára tudo em mim completamente:

Resfriára-se o fogo dos desejos,

E o sentimento despontava n'alma!

Vaporosa, ideal, dentro de pouco

A meus olhos surgíra uma figura

Cuja forma gentil me arrebatava!

No purissimo azul dos olhos castos,

Tremiam, scintillando, algumas lagrimas;

O sorriso, gelado á flor dos labios,

Como gela o sorriso da virtude

Quando pára assustada ante o peccado.

Tirando a corôa de virgineas flores,

Que lhe cingia a fronte immaculada,

Olhára para mim! Oh! Deus supremo!

A expressão d'esse olhar era a do anjo

Ao contemplar um infeliz na terra!

Depois, soltando a voz, estas palavras

Com doçura e tristeza proferíra:

--«Parto, e deixo-te no mundo!

Fujo, timida innocencia,

Ouvindo o rumor profundo

D'esta agitada existencia!

Vi-te um dia; era na hora

Em que a briza é mais saudosa,

Em que a luz do sol descora,

E dá mais perfume a rosa!

Est'alma toda candura,

Á tua alma se rendia;

E com que immensa ternura

Os teus protestos ouvia!

Protestos de um coração

Que sem susto, e sem tremor,

Respondia co'a traição

Ás provas do meu amor!

A grinalda qui'inda vês

Nesta fronte desbotada,

Vai cair-te em breve aos pés,

Mas vai cair desfolhada!

Na minha ingenua innocencia,

Aspiro tambem ao ceo,

Como aspira a grata essencia

Da flor que no val nasceu!

Fragil flor que em pura aurora,

Vendo o sol sorrindo, amou;

Mas d'esse amor numa hora

O vivo fogo a matou!»--

A voz emmudeceu. O olhar sereno

Sobre mim se cravou com mais ternura!

Era Lelia, ou seria a imagem d'ella

Que eu tinha ante meus olhos deslumbrados?

Tudo era incerto e vago no meu animo,

Como é vaga a impressão d'um bello sonho!

Aureola de luz resplandecente

Veiu então inundar aquella fronte.

Reconheci emfim, oh! era Lelia,

Que desprendêra a voz, que proferíra

Com tão profundo affecto aquellas fallas!

A seus pés nesse instante allucinado

Num extasi de amor me precipito,

Repetindo anhelante estas palavras:

--«Resurge outra vez das sombras

Da tristeza em que vivia

Est'alma, é toda alegria,

Volve á tua alma infantil.

És minha. Sou teu. A vida

Para nós vai ser agora

Mais risonha do que a aurora,

Mais florída do que abril!

Oh! se um dia, desvairado,

Ouzei trair-te, innocente,

Como o remorço pungente

Te veiu depois vingar!

Como agora, arrependido,

O meu coração procura

Dar-te emfim quanta ventura,

Quanto amor se pode dar!»--

Nesse momento uma infernal risada

Me fez estremecer. Subito acordo

Da suave impressão do mago sonho,

E que vejo ante mim?! uma figura

Ironica e fatal! Era o Diabo!

Tranzido de terror em vão procuro

Meus olhos desviar d'aquelles olhos,

Cuja sinistra luz me fascinava!

Suspendendo na mão livida e fria

A mesma c'roa de virginias flores,

Que eu tinha visto na graciosa fronte

Da celeste visão que me encantára,

Disse emfim com satanica ironia:

--«Olha: é esta a grinalda immaculada,

Da tua ingenua e seductora Lelia!

Agora, aqui a tens; custou cem libras,

Não ha muito, ao rotundo brasileiro

Que viste á porta d'esta nobre casa!

Julia commigo contractára a venda.

Se vens mais cedo um'hora inda podias

Das garras do falcão salvar a pomba!»--

Não ouvi nada mais: tinha perdido

A consciencia da vida nesse instante!

Quando, e como acordei d'aquelle estado,

Não t'o posso dizer; sei que a meus olhos

O espirito infernal se convertêra

Na figura gentil de um bello moço

Alto, airoso, elegante, e delicado.

--«Olha bem para mim, tornou sorrindo;

Inda te inspira horror o meu aspecto?

Já vês, meu caro amigo, que o Demonio

Não é sempre tão feio como o pintam.»--

--«_Vade retro Satan_»--disse eu, buscando

Uma pequena cruz que havia muito

Costumava trazer pendente ao peito,

E já forte de mim ia mostral-a,

Quando, oh Deus! me lembrei que nessa tarde

A mão fallaz de Julia m'a roubára.

Puz os olhos no chão desalentados;

O remorso cruel naquelle instante

A turvada consciencia me pungia!

--«Deixa escrupulos vãos, pobre poeta!

Olha em roda dos teus, encara o mundo,

Como o deve encarar quem tem bom senso.

Eu cheguei de Paris, e tinha medo

De perder o meu tempo nesta terra;

Mas, ah! que me enganei! tenho comprado

Um par de figurões quasi de graça!

Cantas a rosa, o nardo, a madre-silva,

Nunca tens um real, ó desgraçado!

Não faças versos mais; faze politica;

Improvisa um jornal; morde, abespinha,

Sem consciencia e sem dó, a honra alheia!

Hoje quiz apalpar a culta imprensa,

Famosa instituição que me tem dado

Ha tempos para cá milhares d'almas.

Entre um grupo de illustres publicistas,

Quasi todos catões, foi-me indicado

O primeiro catão dos nossos dias.

Uma palavra só fôra bastante

Para tudo explicar entre nós ambos.

Homem da situação, ou mais exacto,

Homem das situações, sabe de quanto

Se agita em torno a si nesta republica.

O que mais me espantou foi que no mundo

Podesse haver mortal tão venturoso!

Pasmam todos ao vêr o que elle come

Desde a meza do opr'ario á meza opipara,

De opulento negreiro ou potentado

De mais alto valor se acaso existe!

Póde zumbir a inveja em volta d'elle,

Morder-lhe a fama a cavilosa intriga,

Exaltado rugir o odio implacavel,

Nada d'isto consegue perturbal-o,

Nem cortar-lhe o seu acto digestivo!

É nedio, é luzidiu, é recebondo,

Como um gallo capão! Perdoa a imagem.

Crava os olhos attentos neste exemplo

De solida moral; segue as pizadas

Deste egrejeo varão, e eu te asseguro

Que has de em breve alcançar um nome illustre.

Tudo agora me corre ás maravilhas;

Nunca pensei que em terra tão pequena

Se podessem fazer tão bons negocios.

Hoje fui contratar com certa empreza

De um moderno jornal que se atirava,

Como lobo esfaimado, ao ministerio.

Era o mimo, era a flor, era o portento

Da incorrupta e briosa mocidade!

Essa, comprei-a então por attacado;

Escaparam só dois, pobres diabos,

Que nunca hão de passar da cepa torta!

Que dia tão feliz! a toda a pressa

Fui depois assistir ao desembarque

De um nobre titular, victima imbelle,

Do veneno infernal da torpe inveja.

O honrado cidadão vinha entregar-se

Nas mãos severas da imparcial justiça.

Fazia gosto vêr a comitiva

Dos invictos heroes que o circundavam.

Algum ranço burguez inda entre dentes

Se atrevêra a dizer que não passava

De um cadímo ladrão o illustre conde;

E se eu não chego a tempo, era filado

Quando saltasse ao caes por quatro guitas.

Vê tu pois quanto póde o meu imperio!

Com raras excepções, a livre imprensa

Não soltou nem sequer uma palavra!

É tempo de voltar á bella Julia:

Esta linda mulher era beata

Da esplendida edicção que existe agora.

Encontrei-a uma vez num dia santo

De grande devoção, quando acabava

De pôr aos pés de um padre os seus peccados.

Lelia vinha a seu lado; o porte ingenuo,

A singela espressão d'esta innocente,

Soprou-me o fogo de infernaes desejos.

Como vês, é distincto o meu aspecto,

E apesar do terror que ao mundo inspiro,

Muitas mulheres ha que intimamente

Se agradam mais de mim que dos janotas.

Oh! que austeras virtudes nesse dia

Me caíram nas mãos! Lelia, embebida

Nas suas orações, passou, cravando

Com modestia no chão os olhos bellos.

Não fez reparo em mim; mais forte ainda,

Me ficára a vaidade remordendo.

Lembrei-me então da irmã como instrumento

Para alcançar o fim que ambicionava.

Por entre o raro veo que lhe encobria

O rosto seductor, de espaço a espaço

Se viam scintillar os olhos negros

Com mais fogo e mais luz do que as estrellas

Quando as nuvens do ceo se rarefazem.

(A imagem é vulgar, porém confessa

Que tu proprio tens feito outras peores.)

Ella olhou para mim, aproximei-me,

Fallei-lhe e respondeu. Na mesma tarde

Perfeito accôrdo havia entre nós ambos.

Precisava ostentar-lhe á luz do mundo

O esplendido poder dos seus encantos.

Tudo pois lhe alcancei: casa opulenta,

Joias, vestidos, trens apparatosos,

Quanto emfim dá realce á formosura,

Lhe augmenta a seducção e a faz mais bella.

Nada d'isto porém causára effeito

No joven coração da casta Lelia.

Olhava para a irmã como assustada,

Quando a via ostentar tanta grandeza.

Por mil vezes tentei ver se podia

Aproximar-me d'ella; era impossivel.

Adivinhas porque? trazia ao peito

Pendente a cruz que a mãe lhe havia dado

Pouco antes de soltar o extremo alento.

Quando na flor da vida e da innocencia

Vejo a meu lado encauta formosura,

Oh! como sou feliz!--ninguem no mundo

Presa tanto como eu uma alma ingenua,

Mas é para a perder! Desculpa ao menos

Em nome da franqueza este teu servo.

Um sacerdote ancião que alem habita,

Naquella ermida que d'aqui se avista,

Teima em não m'a deixar; tu só podias

Ajudar-me a vencer nesta batalha.

Inda ha pouco menti quando te disse

Ser tarde já para salvar a pomba.

É tempo ainda, oh! vae! Colhe as primicias

D'aquelle coração que te idolatra.

Tudo é luz, seducção, amor, encanto,

Na voz, no olhar, na languida ternura

Da rosa virginal que tu despresas!

Anhelantes te esperam já seus labios,

O seu peito infantil por ti suspira,

No ouvido sente a voz dos teus protestos,

O subito rubor lhe affronta as faces!

Não a vês hesitar, tremer, fugir-te,

Acercar-se outra vez, sorrir a furto,

Escondendo nas mãos a fronte bella?

De novo inda luctar, mas já sem forças

Caír por fim num languido deliquio?

Oh! corre a ser feliz nos braços d'ella!»--

Um momento depois d'estas palavras,

Em doce consonancia extranhas vozes

De improviso romperam neste canto:

--«Seja a breve passagem da vida

Uma serie de ardentes delirios;

Quem procura colher os martyrios

Quando existem as rosas em flor?

Venturosos ergâmos as taças

Onde brilha o licor purpurino,

E soltemos as vozes num hymno

Consagrado aos deleites do amor!

Vem poeta: as tristezas do mundo

Não comprimem jámais nossas almas;

Nós cercâmos de flórdais palmas

A existencia votada ao prazer!

O que importa que a noite succeda

Aos sorrisos do astro diurno?

Para nós o seu manto nocturno

Mil delicias nos torna a trazer!»--

Apossou-se de mim o immundo espirito.

--«Sou teu, ó tentador, emfim lhe disse;

Ao teu fatal poder entrego est'alma!

Dize, dize, onde está essa que eu vejo,

Mas que procuro em vão cingir nos braços!»--

--«Onde está? vais sabel-o, e num momento

A seus pés cairás ebrio de gosto!»--

Ao secreto aposento onde jazia

A virgem dos meus sonhos, me dirige

O torpe embaidor. Entro em delirio,

E ardendo em chammas de brutaes desejos,

No casto ninho onde vivia a pomba!

De repente uma luz serena e branda

Veiu alegrar as trevas da minh'alma.

Outra vez á razão volto, e que vejo!

Ante mim venerando sacerdote,

Pondo-me ao peito a cruz que nessa tarde

A enganadora Julia me roubára.

Lelia, a seu lado, com as mãos erguidas,

E os olhos postos no sagrado emblema,

Estas doces palavras me dizia:

--«Deixou-te o negro espirito!

Feliz de novo agora,

Sorri tua alma em extasi

Ao ver a pura aurora,

Da qual sómente é nuncia

Na terra a humilde cruz!

Só ella, eterno simbolo

De amor e de piedade,

Brilha no mundo esplendida,

E diz á humanidade:

Surge das trevas lugubres;

Ascende á etherea luz!

Só ella quando rapida

A morte nos alcança,

Diffunde em nossos animos

O lume da esperança,

Que nos descobre a patria

Da gloria perennal!

Perde a tristeza o tumulo;

O sepulcral cipreste,

Deixando o aspecto funebre,

De flores se reveste!

Soam divinos canticos

Em coro angelical!

Oh! quem podéra pintar

A expressão que nesse instante

Tinha o candido semblante

Do meu anjo tutelar!

Como a pomba da arca santa

Que um dia á terra desceu,

Vinha dizer-me: Acabaram

As tempestades do ceo!

Deixa o mundo, antro medonho

Onde sómente fulgura

Nas curtas horas de um sonho

A branda luz da ventura!

Verás a meu lado agora

Sorrir eternos amores,

Como sorriem as flores,

Á luz da punicia aurora!»--

Julguei-me nesse instante transportado

Á mansão do Senhor. Caindo em extasi,

Disse, rompendo em delicioso pranto:

--«Em nome d'esta cruz, ó doce imagem,

Jura que para sempre has de ser minha.»--

--«Juro»--disse ella então. Nesse momento

Aproximou-se a nós o sacerdote,

Cuja fronte senil resplendecia

Co'a luz celeste que illumina o justo;

E unindo as nossas mãos, com voz solemne

A sacrosanta benção proferíra!

* * * * *

Aqui termina, ó musa, a minha historia.

Acordei do meu sonho, e depois d'elle

Tenho visto o demonio algumas vezes;

Não menos vezes a traidora Julia;

Porem Lelia, a gentil graciosa virgem,

A predilecta noiva da minh'alma,

Essa apenas em sonhos me apparece!

Maio de 1862.

XLVII

HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA

Desherdados no berço de heranças,

Desvalidos dos braços de mãe,

Quem nos cérca o viver de esperanças,

Nos educa, nos veste, e mantem?

CORO

O Bom Deus que proteje a innocencia,

De quem são nossos cantos de amor;

Desherdada é sómente a existencia,

Do infeliz que descrê do Senhor!

Onde o bem? Onde o mal? nós no mundo

Como iremos a vida encontrar?

Neste valle enredado e profundo

Quem nos ha de o caminho apontar?

O Bom Deus que proteje a innocencia,

De quem são nossos cantos de amor;

Desherdada é sómente a existencia,

Do infeliz que descrê do Senhor!

Quem virá ser-nos pae na orphandade?

Consolar nossos dias de dor?

Circundar-nos depois noutra edade,

De delicias, de sonhos, de amor?

O Bom Deus que proteje a innocencia,

De quem são nossos cantos de amor;

Desherdada é sómente a existencia,

Do infeliz que descrê do Senhor!

Dos thesouros de affecto que encerra

Entre vós maternal coração,

Quem vos faz a nós orphãos na terra,

Repartir d'esse affecto um quinhão?

O bom Deus que proteje a innocencia,

De quem são nossos cantos de amor;

Desherdada é sómente a existencia,

Do infeliz que descrê do Senhor!

E esse affecto ideal que illumina

O existir de um reflexo do ceo,

Que a soffrer e que a amar nos ensina,

Quem no peito materno o accendeu?

O Bom Deus que proteje a innocencia,

De quem são nossos cantos de amor;

Desherdada é sómente a existencia,

Do infeliz que descrê do Senhor!

Mas nós crêmos, sentimos, amâmos,

A Deus grande na terra e nos ceos,

E do intimo da alma exclamâmos:

Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus!

1850.

XLVIII

GRATIDÃO E SAUDADE

(Recitada no Theatro)

De candidos sonhos, de luz, e de flores,

Cercada a existencia começa a sorrir;

Alegre o presente nos falla de amores,

De amores nos falla brilhante o porvir!

Depois no horisonte sereno, e risonho,

Carregam-se as sombras, perturba-se a luz,

Esvae-se a ventura veloz como um sonho,

Que apenas instantes na vida reluz!

Assim penetrando no mundo das artes,

Ao tímido lume de frouxo clarão,

Olhava, e só via por todas as partes,

A meiga esperança sorrindo em botão!

De lyrios e rosas grinalda fragrante,

Cuidei mais ainda: cuidei vêl-a ahi;

Nos braços a aperto, convulsa, anhelante,

Aos labios a levo, na fronte a cingi!

Foi breve este sonho de amor, e de encanto;

Acordo, e procuro debalde uma flor;

Inundam-se os olhos de angustia e de pranto,

Ao ver que só restam espinhos e dor!

Só restam espinhos das pallidas rosas,

A quem pobre artista não ousa pedir

Os loiros frangrantes, as palmas viçosas,

Que a fronte de genio só devem cingir!

Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura,

Não quiz que durasse tão meiga illusão,

Em paga deixou-me no peito a doçura.

De terna, suave, leal _gratidão_!

Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma,

Sincera tributa nest'hora o dever!

Embora outras palmas morressem,--a palma

De gratas memorias não póde morrer!

Desfeitos os sonhos, fanadas as flores,

Quebrado o encanto da pura illusão,

Que resta ao artista?--espinhos e dores,

Saudades! mais nada no seu coração!

Saudades da gloria, da luz, da ventura,

Dos magicos sonhos, presente dos ceos,

Saudades que attestam a funda amargura,

Que sente ao dizer-vos agora um adeus!

1853.

XLIX

Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua

filha.[1]

«Não sabe o que é padecer,

Quem o filhinho que adora

Não viu ainda morrer!»

(A. Garrett)

--«Bem sei que era exilio a terra

Para ti, anjo do ceo!

Porém, filha, abandonar-me

Quando toda a minha vida

Era a luz d'um olhar teu!

Ouvir essa voz infante,

Ver a impaciente alegria

De teu candido semblante!

«Deixar-me assim na existencia

Triste, só, desamparado,

Aquella flor de innocencia!

Que lhe fiz? tinha-a cercado

De quanto amor neste mundo

Pela mão da Providencia

A peito de homem foi dado!

Oh! que affecto tão profundo!

E tu pudeste partir?

Pois não tiveste piedade

D'esta solemne amargura,

D'esta infinita saudade?

Vi-te inda olhar-me, e sorrir,

Erguer os olhos aos ceos,

No instante de proferir,

O fatal e extremo adeus!...

...........................

...........................

«Oh! volve outra vez a mim,

Desce á terra, anjo do ceo,

Vem dar-me a ventura emfim!

...........................

...........................

Olha: o vivo sol de Abril

Já nestes campos rompeu;

As rosas desabroxaram;

O rouxinol desprendeu

A voz em saudosos cantos;

Os sitios onde passaram

Os teus descuidados annos,

Não os vês cheios de encantos?

São estes! a mesma fonte,

Ferve alem; naquelle outeiro

O mesmo casal alveja;

As ramas do verde olmeiro,

Dão sombra á modesta igreja

Onde tu vinhas resar,

Quando o som da Ave-Maria,

N'hora meiga do sol posto,

De vaga melancolia

Toldava teu bello rosto!

Tudo o mesmo!?... esta inscripção!...

Este nome!... anjo do ceo,

Este nome, filha, é teu!!

Oh! meu Deus, por compaixão,

Na mesma pedra singela,

Juntae o meu nome ao d'ella!»--

...............................

...............................

...............................

E Deus ouviu a oração...

O mesmo tumulo encerra

Filha e pae. Na mesma lousa

Onde repousam na terra,

Uma lagrima saudosa

Vem hoje depôr tambem

A esposa, a viuva, a mãe!

1854.

[1] Quem tratou de perto Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca)

conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos

dedicados á sua memoria são um testemunho de saudade bem humilde,

mas bem sincero. Um dia o braço da Providencia arrebatou-lhe uma

filha, anjo que principiava a abrir as azas candidas, e que subindo

ao ceo levava o coração d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em

breve ao lado do estreito tumulo onde ella repousava ia juntar-se

o cadaver do pae!

L

CANÇÃO DOS PIRATAS

(Traduzido do Corsario de Byron)

Sobre as ondas do mar azul ferrete,

Sem limites são nossos pensamentos,

E como as ondas nossas almas livres,

Por quanto alcança a doidejante briza

Cobrindo a vaga de fervente escuma

Nós temos uma patria! Eis os dominios

Onde fluctua o pavilhão que é nosso,

Sceptro a que devem humilhar-se todos!

Turbulenta e selvagem quando passa!

Da lucta ao ocio em taes alternativas

A vida para nós tem mil encantos!

Mas estes, oh! quem póde descrevel-os?

Não serás tu, escravo dos deleites,

Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente

Das alterosas vagas desmaiáras!

Não serás tu, vaidoso aristocráta,

Educado no vicio e na opulencia,

Tu que nem pódes repousar no somno,

Nem achar attractivos nos prazeres.

Oh! quem póde no mundo compr'endel-os?

A não ser o incançavel peregrino,

D'estes plainos que ficam sem vestigios;

Do qual o coração affeito aos p'rigos

Pula orgulhoso em delirante jubilo

Quando se vê sobre o revolto abismo!

Só elle présa a lucta pela lucta

E espera ancioso a hora do combate.

Quando o fraco esmorece apenas sente

No mais profundo do agitado seio

A esperança que vívida desponta

E o fogo da Coragem que se accende!

Não nos assusta a morte, oh! não; comtanto

Que a nossos pés succumba o inimigo,

E comtudo mais triste que o repouso

Inda parece a morte! mas embora,

Embora, oh! póde vir! ao esperál-a

Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida;

E quando ella se acaba, pouco importa!

Caír pela doença, ou pela espada!

Haja um ente que prese inda algum resto

D'existencia senil! viva aspirando

Sobre o leito da dor um ar pesado,

Erguendo a custo a trémula cabeça!

Para nós são as relvas florescentes!

Emquanto ess'alma expira lentamente,

Foge a toda a pressão d'um salto a nossa!

Possa ainda ufanar-se esse cadaver,

Da cova estreita e do marmoreo tumulo

Que a vaidade dos seus lhe consagrára!

São raras, mas sinceras, nossas lagrimas,

Quando o oceano, abrindo-se, sepulta

No vasto seio os nossos camaradas!

Inda mesmo no meio dos banquetes

Funda tristeza nos rebenta d'alma

Quando a purpurea taça erguendo aos labios

A memoria dos nossos corôamos.

E o seu breve epithaphio é redigido,

Ao por do sol do dia da batalha,

Ao dividir as presas da victoria,

Quando a exclamam os rudes vencedores

Com a fronte anuviada de saudades:

Ai, de nós! como os bravos que morreram

Folgariam ditosos nesta hora!

Julho de 1861.

LI

NUM ALBUM

Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns

versos.

No reverso da folha onde escrevo,

Um cantor jovenil pulsa a lyra,

E magoado, e sentido, suspira,

Com saudosas memorias d'amor!

Na cadencia da lettra singela,

Qual murmurio de branda corrente,

Transparece sua alma innocente,

Toda vida, perfume, e calor!

Variegado, risonho, brilhante,

Inda agora na flor da innocencia

Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia

Atravez do seu prisma gentil:

Cuida extinctas ficções encantadas,

Crê perdido o seu sonho d'amores,

Julga vêr desbotadas as flores

Que adornavam sua harpa infantil!...

................................

Ai! poeta! ai de ti! que saudade,

Que saudade tão funda e sentida

Has de ter d'esses annos da vida,

Quando os vires ao longe ficar!

Que saudade tão funda do tempo

Em que tinhas sentido saudade,

Has de ter quando a triste orfandade

Dos affectos tua alma enluctar!

Ouve pois joven bardo que a lyra

Pulsas hoje com tanta amargura;

De illusões, de poesia e ventura,

Enche agora teus annos em flor.

Que são estes ephemeros sonhos,

Os que vem derramar grata essencia

Sobre a tarde da nossa existencia

Dar-lhes vida, perfume, e calor!

Agosto de 1854.

LII

Á memoria da Ex.ma Sr. D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha.

Na hora melancolica,

Do despedír do dia,

Quando se escuta o cantico,

Ou extranha melodia,

Que na deveza languido

Desprende o rouxinol;

Quando desponta pallida

No firmamento a lua,

E que inda incerta e trémula,

No mar azul fluctua

Co'a viva cor da purpura

A frouxa luz do sol!...

Versos de Bulhão Pato · 第 4 / 5 段