Vel-a sorrir entre os campos,

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VERSOS

DE

BULHÃO PATO

LISBOA

Typ. da Sociedade Typographica Franco-Portugueza.

6, Rua do Thesouro Velho, 6.

1862

A HELENA

Lembras-te, Helena, o dia em que deixámos

O teu saudoso valle, e lentamente

Pela elevada encosta caminhámos?

O sol do estio ardente,

Já não brilhava nos frondosos ramos

Do arvoredo virente.

Chegára o fim do outono: a natureza,

Sem ter os mimos da estação festiva,

Nem aquelle esplendor e gentileza

Que tem na quadra estiva,

Na languida tristeza,

Na luz branda e serena

D'aquelle ameno dia,

Que immensa poesia,

E que saudade respirava, Helena!

Subindo pelo monte,

Chegámos ao casal onde habitava

A tua protegida,

Aquella pobre anciã que se agarrava

Aos restos d'esta vida!

Assim que te avistou, ergueu a fronte

Curvada ao peso de tão longa edade,

Sorrindo nesse instante

Com tal vida, que a luz da mocidade

Parecia alegrar o seu semblante!

Estendeste-lhe a mão, entre as mãos d'ella,

Grosseiras pelo habito constante

Do trabalho da terra,

Queimadas pelo vento sibilante,

E pelo sol da serra,

Produzia essa mão graciosa e bella,

Effeito similhante

Ao que por entre o mato

Produziria a rosa de Benguela,

A flor mais alva e de mais fino trato!

Vinte annos tu contavas nesse dia;

A fiel servidora,

Era a primeira vez que não podia

Deixar a casa ao despontar da aurora,

E cheia de alegria

Caminhar para o valle como outr'ora,

Depôr uma lembrança em teu regaço,

E unir-te ao coração num meigo abraço!

Tu, na força da vida,

Circundada de luz e formosura,

Foste levar á pobre desvalida

Os dons do lar paterno;

Alegrar com teu riso de ternura

Aquelle frio inverno!

Ao ver-te com teus braços,

Nos seus braços senis entrelaçados,

A ventura nos olhos encantados,

A inspiração na fronte deslumbrante,

Afigurou-me então o pensamento

Ver um anjo descido dos espaços,

D'aspecto fulgurante,

Enviado por Deus nesse momento,

Para animar os derradeiros dias

De quem cançado do lidar constante

Abre o seio na morte ás alegrias!

As lagrimas de gosto,

Corriam cristalinas

No rosto d'ella e no teu bello rosto!

Como orvalhos do ceo aquelles prantos,

Um brilhava na hera das ruinas,

Outro na flor de festivaes encantos,

Na rosa das campinas!

Quando voltaste a mim illuminava

O teu semblante uma alegria infinda.

Depois quizeste ainda

Ir visitar a ermida que ficava

No apice do monte:

Firmaste-te ao meu braço, e caminhámos.

No esplendido horisonte

Já declinava o sol quando chegámos.

Era singelo, mas sublime o quadro!

Em roda o mato agreste;

No meio a pobre ermida; ao lado d'ella

Um secular cypreste,

E sobre a cruz do adro

Pendente uma capella

De algumas tristes, desbotadas flores,

Talvez emblema de profundas dores!

Oh! como tu, suspensa

Num extasi ideal de sentimento,

Expandias o livre pensamento

Pela amplidão immensa!

Como depois descendo das alturas

Aonde te arrojára a phantazia,

Parece que a tua alma me trazia

Occulto premio de immortaes venturas!

Tanto expressava o teu olhar profundo,

Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia

O homem neste mundo,

Jámais me trouxe a idéa

Do suppremo poder da Providencia

Com tamanha eloquencia!

O sol quasi no termo

Com um brando reflexo,

Cingia a cruz do ermo

Em amoroso amplexo!

O rei da creação, o astro orgulhoso,

Que enche a terra de luz,

Tambem vinha prostrar-se saudoso

Aos pés da humilde cruz!

Era solemne e santo

Naquell'hora supprema o teu aspecto!

Nos labios a oração, no rosto o pranto,

As mãos cruzadas sobre o seio inquieto,

Os olhos postos na amplidão do espaço,

E em derredor da frente

Um luminoso traço

A inundarte de luz resplandecente!

..................................

Branda a tarde expirou! D'aquelle dia,

E de outros dias de íntimas venturas,

De immensa poesia,

Nasceram essas paginas obscuras,

Que hoje a teus pés deponho,

Como saudoso emblema,

Do tempo em que sorrira

O nosso bello sonho!

Terias um poema,

Se tão gratas memorias

Podessem ser cantadas numa lyra

Votada a eternas glorias!

Emfim: se um pensamento,

Se uma singela idéa onde transpire

O perfume de vivo sentimento,

Nestas folhas traçar a minha penna...

A estrophe, o canto que o leitor admire,

Seja o teu nome, Helena!

6 de Junho de 1862.

I

A CONVALESCENTE NO OUTONO

Revive teu rosto pallido

Á chamma do meu amor;

De novo com mais ardor

Pula em teu seio, querida,

O sangue, o prazer, a vida.

O sopro que na existencia

D'esta luz nos illumina,

Não se ha de extinguir jámais;

Oh! provém da mesma essencia,

Da mesma porção divina,

Com que a mão da Providencia

Torna as almas immortais!

Firma teu braço ao meu braço,

Vem commigo respirar

Este ar vivo e salutar.

Não sentes na luz do ceo,

E no perfume saudoso

Do bosque espesso e formoso,

Que o doce outono volveu?

As folhas que pelo chão

Crestadas dispersa o vento,

Não desprendem um lamento

Que intristece o coração!?

E a voz d'essa ave amorosa,

Que alem na balsa murmura,

Melancolico modilho,

Não parece a voz saudosa

Da mãe que adormenta o filho

Entre os braços com ternura?

D'aquelle pobre casal,

O fumo que vae subindo

Em ondulante espiral,

Não diz que em volta do lar

Se reune a pobre gente,

Que já de perto pressente,

O frio inverno chegar?

Não vês que ha tanta tristeza

Na voz que se eleva a Deus

Agora da natureza!

Oh! mas como aos olhos teus,

E como ao meu coração

É grata a melancolia

D'esta languida estação!

Toda a explendida poesia

Do ceo, da terra, e das flores,

Quando mil cansões de amores

Improvisa o rouxinol,

Alegrando o mez de maio

Desde os clarões do arreból

Até que em doce desmaio

Nas aguas se occulte o sol,

Terá, sim, tem mais frescura,

Mais vida e mais esplendor,

Mas não tem tanta ternura,

Nem respira tanto amor!

Paremos aqui, descansa

Um momento neste abrigo;

O sopro da aragem mansa

Anda em roda a murmurar,

E um raio de sol amigo,

A teus pés se vem prostrar

...........................

Oh! que noites de amargura!

Que horas lentas de agonia!

Que instantes naquelle dia,

Quando tu sem voz, sem gesto,

Suspensa num fio a vida...

Emfim te julguei perdida!

Chegára a noite; uma estrella,

Uma só, não transluzia

No ceo triste e carregado;

Oppresso e desalentado,

O coração me batia.

Pouco a pouco no horisonte

Foi rompendo a nevoa densa;

Era a vida, a luz, o dia,

Aquella alegria immensa,

Que no murmurar da fonte,

No perfume da campina,

Na brisa e na voz divina

Do amoroso rouxinol,

Seduz, arrebata, inspira,

Quando acorda a terra em canticos,

Aos raios vivos do sol!

«Pois tudo se anima agora,

Tudo nasce com a aurora,

Tudo é vida e tudo é luz;

Só nesta face adorada,

Inerte, fria, gelada,

Nem um só clarão reluz!»

Ouviu Deus naquelle instante

A minha supplica ardente;

Em teu lívido semblante

Vi despontar docemente

Um reflexo semelhante

Ao que o sol derrama á tarde

Sobre as nuvens do ponente.

Prostrei-me a rogar então;

E essa estrella de bonança,

Essa casta divindade,

Risonha irmã do infortunio,

Companheira da saudade,

Que o mundo chama--Esperança--

Senti-a no coração!

Com aquelle sol explendido

Que rompêra a nevoa densa,

E com a alegria immensa

Do mar, da terra, e dos ceos,

Quiz de novo a Providencia

Que eu visse nos olhos teus

O mundo, a luz, a existencia!

Agora pois, neste instante,

Agora, que lá distante,

O sino da pobre ermida

Dá signal do fim do dia,

Co' a prece da _Ave-Maria_,

Ergâ-mos, ambos querida,

Graças mil a Deus piedoso,

Por te haver tornado á vida!

Setembro de 1854.

II

FELIZ DE AMOR!

Não sabes que ao ver-te triste,

E pensativa a meu lado,

O rosto na mão firmado.

E os olhos postos no chão,

Calado, ancioso, anhelante,

Quero ler no teu semblante

A causa da dôr constante

Que te opprime o coração?

Pois não basta o meu amor

Para te dar a ventura?

Responde: quando a luz pura

Do sol vem beijar a flor,

Não lhe accende mais a côr?

Não lhe dá mais formosura?

Agora, quando se inflamma

Em teu peito aquella chamma,

Á qual tudo se illumina

De viva, encantada luz,

Dize: é quando, minha vida,

Pallida, triste, abatida,

A tua fronte se inclina,

E melancolica sombra,

De mal contida amargura

Nos teus olhos se traduz?!

Certeza de que és amada

Com quanto poder na terra

Em peito de homem se encerra,

Tem-la em tua alma gravada!

Então de fundo desgosto

Porque vem nuvem pesada

Carregar teu bello rosto?

Pois se ao vívido calor

Do sol a rosa fulgura

E redobra aroma e côr,

Não te ha de dar a ventura

A chamma do meu amor?!

Maio de 1859.

III

VAES PARTIR!

Vaes partir! cada instante que passa

Aproxima o adeus derradeiro,

Para mim neste mundo o primeiro,

Que teus olhos proferem aos meus!

Vaes partir! nessas morbidas palpebras,

Treme agora uma lagrima anciosa,

Já deslisa na face formosa,

Já teus labios me dizem adeus!

Vaes partir! contemplar esses campos,

Que o sol vivo de abril illumina,

Ver as relvas da alegre campina

Já cobertas agora de flor.

Escutar as estrophes sentidas

Que de tarde improvisam as aves,

Recordar os instantes suaves

De outros dias de encanto, e de amor.

Vaes partir! vaes tornar aos logares

Testemunhas de um ceo de delicias,

Que em suaves risonhas caricias,

Para nós neste mundo brilhou!

Cada flor, cada tronco viçoso,

Cada espaço de relva florída

Vae lembrar-te uma scena da vida,

Um momento feliz que passou!

Quando for aos clarões da alvorada

O perfume das plantas mais brando,

Quando as aves voarem em bando,

E cantarem ditosas no val;

Quando as aguas correrem mais vivas,

Pelo verde declivio do monte,

Quando as rosas erguerem a fronte

Animadas de um sopro vital...

Que saudade! ai que funda saudade

Has de ter d'esse tempo encantado,

Em que bella e feliz a meu lado

Viste as pompas da terra e dos ceos!

Quando a aurora era a pura alegria,

Uma vaga saudade o sol posto,

Quando meigo sorria teu rosto

Se eu fitava meus olhos nos teus!

.................................

Vaes partir! cada instante que passa

Aproxima o adeus derradeiro,

Para mim neste mundo o primeiro

Que teus olhos proferem aos meus!

Vaes partir! nessas morbidas palpebras,

Treme agora uma lagrima anciosa,

Já deslisa na face formosa,

Já teus labios me dizem adeus!

Abril de 1855.

IV

A JULIA

(Da Paquita)

Naquella deserta ermida,

Que alveja na serrania,

Deu signal, Julia querida,

O sino da _Ave-Maria_.

Este som tão conhecido

Da nossa innocente infancia,

Como agora vem sentido

Trazer-me viva á lembrança,

Toda essa doce fragrancia

D'aquelle existir d'então!

Ai! lembrança não, saudade!

Saudade Julia, tão funda...

Mas tão grata, que me innunda

De ventura o coração.

Espera... se neste instante

Mandasse á terra o Senhor,

Anjo de meigo semblante,

E aos dias d'aquella edade

Nos tornasse o seu amor...

Oh! responde-me, querida,

Se quanto depois na vida

De bello nos ha passado,

Não devera ser trocado

Por esses dias em flor?!

Que lá vão! lembras-te ainda?

Tu risonha doidejavas,

Por entre as moitas de flores

Como ellas fragrante e linda.

Quando o som pausado e lento

D'_Ave-Maria_ escutavas,

Então naquelle momento

Aos pés da Cruz te prostravas!...

Que fronte de anjo era a tua

Vista ao reflexo amoroso

Dos frouxos raios da lua!

Uma tarde, ao pôr do sol,

No recosto pedregoso

Do monte nos encontrámos;

Lembras-te! essa hora bateu,

Porem nós mal a escutámos!

Os olhos, tu perturbada,

Baixavas, e no semblante

Não sei que luz te brilhava,

Eu sei que naquelle instante

O prazer me enlouqueceu.

Oh! fatal loucura aquella!

Tinha-me ali tão perdido,

Que, sem mais ver, delirante

Nos braços te arrebatei.

Não sei por onde vagava,

Nem quanto, nem como andei;

Só me lembra que a ventura

Ali real me fallava,

E que aos incertos lampejos

Das estrellas desmaiadas,

Impremi ardentes beijos

Nas tuas faces rosadas!

Foi breve aquelle delirio;

Ao menos breve o julguei;

E quando, outra vez á vida

De sobressalto voltei,

Desbotada como um lyrio

Pelos vendavaes batido,

Nos meus braços te encontrei!

Setembro de 1851

V

IMPROVISO

Porque languida essa frente

Descai, quando a tarde espira?

Porque nesse olhar dormente

Tua alma ingenua suspira?

Porque? ai! porque? responde;

Que se amor do ceo procura,

Eil-o; em meu peito se esconde;

Vive, é teu, tens a ventura!

Verás como então brilhante,

Seduz, toma vida, inspira,

Esse teu bello semblante,

Que apenas hoje se admira!

Ilha da Madeira--Novembro de 1850.

VI

A UM RETRATO

És tu, sim, o mesmo olhar,

A mesma ardente expressão,

Com que teus olhos sabiam,

Tão habilmente occultar

O gêlo do coração.

Como fascina o teu ser?

Agora, que eu posso ver,

Vejo bem que não és bella.

Quem for buscar no teu rosto,

A severa correcção

Que esta palavra revela,

Tirar feição, por feição...

Não pode achal-a, bem sei.

Oh! mas nessa viva luz,

Que teus olhos illumina,

Ha de achar, como eu achei,

O fogo que nos seduz,

A chamma que nos fascina!

E agora vais escutar;

Agora, que a Providencia

Piedosa me quiz salvar

D'essa fatal influencia,

Vais saber como te amei!

Não é sómente da gloria,

Das illusões, da ventura,

Que é doce narrar a historia.

Repassando na memoria

Tantas scenas de amargura,

Vendo-as saltar palpitantes

Ante meus olhos agora,

Com toda a sinistra pompa

Da vida que tinham d'antes,

Ao ver de quanto é capaz,

Não sabes?... na propria dor,

O coração se compraz!

Medindo o padecimento

Do martyrio atroz e lento

Que me trouxe o teu amor,

S'inda aterrado contemplo,

As crenças que fui depôr

Sobre as aras d'esse templo,

A dor do arrependimento

Ha de salvar-me da culpa

Ante os olhos do Senhor.

Ai de ti! mil vezes mais

És tu desgraçada agora!

Viveste, reinaste um'hora,

E com que imperio! jámais,

Em delirio o pensamento

Te fez julgar adorada

Como eu te adorei, jámais!

Ninguem neste mundo ousára,

Erguer a mão para um culto

Tão santo como eu criára!

Tu foste a que, cega um dia,

Por loucura e por vaidade,

As crenças que nelle havia,

Destruiste sem piedade!

Punida estás, bem punida,

Sabe pois que amor do ceo,

Amor como foi o meu,

Encontra-se um só na vida!

Inda ao ver-te... porque não,

Porque t'o devo occultar?!

Este morto coração,

De novo sinto pular

Em meu peito fatigado!

Emfim, se o destino agora,

Quer que não possa existir

Da esperança do porvir,

Deixal-o existir embora,

Da saudade do passado!

Esse é meu como tu foste

Na illusão de tanto amor,

E tu mesma, tu, que um dia

Com semblante mudo e frio

Lhe disseste o extremo adeus,

Com quanto remorso e dor

Has de ter rogado a Deus

Perdão de tal desvario!

E dizes tu que ao _dever_,

Sacrificaste a existencia

E sujeitaste o meu ser!!...

Pois ha dever neste mundo,

Que aos olhos da Providencia,

Possa mais alto valer

Do que aquelle amor profundo

Que tu fizeste nascer?!

.............................

.............................

Quando foi? vivo o momento,

E quanto então nos cercava

Existe em meu pensamento:

Era á tarde; o firmamento,

De nuvens se carregava,

E nos fraguedos da costa

O mar soturno quebrava.

Olhei-te, e vi nesse instante,

Assumir o teu semblante,

Aquella mesma expressão,

Que de toda a natureza

Fatal respirava então.

Pausada, lenta, glacial,

A tua voz respondia,

A tudo que eu proferia!

E depois dos labios teus

Desprendeste um frio adeus!

Cuidaste sacrificar

A Deus em tua loucura,

Sem ver que foste apagar

A chamma d'essa ternura

Que só elle pode dar,

E te atreveste a tentar

O poder do Creador,

Na obra da creatura!

Ai de ti! mil vezes mais

És tu desgraçada agora!

Viveste, reinaste um'hora,

E d'esse imperio, jámais

Na terra serás senhora!

Fevereiro de 1855.

VII

QUIEN NO AMA, NO VIVE

Pois não vês que se a luz do sol nascente

Á rosa na manhã desabroxada,

Não illumina as folhas, desbotada

Fica n'aste pendente,

Sem perfume, sem vida abandonada?

Dize: então queres tu que a formosura

Que o Senhor estampou no teu semblante,

Sem renome, sem gloria, passe obscura

No mundo em que radiante

Ostentar-se podia magestosa?

Queres vel-a abatida como a rosa

Que o sol não illumina?

Pois o que falta a essa fronte bella?

Oh! vais sabel-o:--O amor!

Que se anime e reviva á luz divina

E verás se depois alguem ao vel-a

Lhe nega o seu fulgor!

Ajuda 1850.

VIII

AMANHÃ!

Resta um dia, mais um dia,

Algumas horas ainda

De amor, de ternura infinda!

Amanhã nos olhos teus,

Uma lagrima sentida;

Em teus labios, um _adeus_!

O instante da despedida

Tão perto está!... Minha vida,

Crava teus olhos nos meus,

Um sorriso, um beijo ainda,

Mais um'hora de ternura,

De amor, de alegria infinda

Antes d'esse longo _adeus_!

Adeus de tanta amargura!

Sabe Deus! oh! sabe Deus,

Quando outros dias virão,

Tão gratos ao coração!

Quando nessa face linda

Verei sorrir a ventura;

Mas agora um beijo ainda

Antes que chegue o momento

De soltar o extremo _adeus_!

Oh! tira do pensamento,

A hora da despedida;

Mais um instante de vida,

De delicia e gloria infinda!...

Amanhã!... ai! não te lembres

De tal dia de amargura!

Crava teus olhos nos meus;

Inda um'hora de ventura,

De amor, de alegria infinda

Sorrindo nos olhos teus:

Um beijo, mais outro ainda,

O derradeiro: oh! _adeus_!

Abril de 1857.

ANJO CAÍDO

Na flor da vida, formosa,

Ingenua, casta, innocente,

Eras tu no mundo, rosa!

Quem te arrojou de repente

Para o abysmo fatal!

Viste um dia o sol de abril;

O teu seio virginal

Sorriu alegre e gentil.

Ergueu-se aos clarões suaves

D'aquella doce alvorada

A tua face encantada.

Amaste o doce gorgeio

Que desprendiam as aves,

E no teu candido seio

Quanto amor, quanta illusão

Alegre pulava então!

Mal haja o fatal destino,

Maldita a sinistra mão,

Que em teu calix purpurino

Derramou fera e brutal

Esse veneno fatal.

Hoje és bella; mas teu rosto

Que outr'ora alegre sorria,

É todo melancolia!

Hoje nem sol, nem estrella,

Para ti brilha no ceo;

Mal haja quem te perdeu!

Novembro de 1857.

X

PIEDADE!

Em torno da mesma idéa,

Meu ardente pensamento

Constantemente volteia.

Que horas estas de tormento!

E póde viver-se assim?

Que força tens, coração?

Pois tudo que sinto em mim

És capaz de supportar?

Oh! basta! por compaixão

Deixa emfim de palpitar!

Agosto de 1856.

XI

BELLEZA E MORTE

Quando Deus á terra envia

Um anjo dos seus, é breve

A vida que lhe confia.

.........................

Como a flor branca de neve

Que ao primeiro alvor do dia

No prado desabroxou,

Assim ella veiu ao mundo,

E tão rapida passou,

Que d'este rumor profundo

Nem um som, nem um gemido

Por esse anjo foi ouvido!

Nasceu, e sorrindo amou!

Quem ao vel-a tão ditosa

Tão feliz por ser amada,

E tão feliz por amar,

Bella, fragrante, viçosa,

Cheia de vida no olhar,

De luz na face encantada;

Quem diria que esse amor

Seria a chamma fatal,

Que a devia emfim matar!?

Pobre florinha do val,

Da aurora ao primeiro alvor

Nasceu, e sorrindo, amou,

Mas com a tarde... expirou!

Junho de 1857.

XII

ORAÇÃO DA MANHÃ

Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho

Vem reflorindo a aurora;

A voz do rouxinol,

Mais inspirada agora,

Sauda a luz do sol.

A perfumada aragem

Beija no campo a flor;

Tudo sorri á imagem,

Do nosso Creador.

No bosque as avesinhas

Soltam os hymnos seus;

No berço as criancinhas

Resam tambem a Deus.

«Por minha mãe, por ella,

E por meu pae, Senhor!

Dai-lhes propicia estrella,

Gloria, ventura, amor!

«Cercai de mil delicias,

A sua vida emfim,

Como elles de caricias

Me tem cercado a mim.

«As preces da innocencia

No ceo ouvidas são;

E a minha, oh Providencia,

Parte do coração,

«Parte ao florir da aurora,

Co'a voz do rouxinol,

Que se desprende agora

Saudando a luz do sol!»

Junho de 1859.

XIII

CARIDADE

Á Ex.ma Sr.a Viscondessa d'Asseca

Como avesinhas implumes

Enjeitadas nos seus ninhos,

Deixa a sorte os pobresinhos,

Sem lar, sem pão, sem carinhos

De maternal coração.

Escutando os seus queixumes,

Compassiva a Providencia,

Volve os olhos á innocencia,

E em sua eterna clemencia

Da-lhes lar, ensino, e pão.

Mais vivos torna os desejos

No seio da caridade,

Que á desvalida orfandade

Vai com sincera piedade

Inundar de puro amor;

Amor, que em candidos beijos,

Suavemente procura

Dar conforto na amargura,

Aos que fez a desventura,

Orfãos no berço e na dor.

A quem busca a Providencia

Para amparar o destino,

Do que pobre e pequenino

Se encontra sem luz, sem tino,

Logo no mundo ao nascer!?

Anjos de viva clemencia,

Que onde existe o sofrimento,

Correm, voam num momento,

A dar todo o sentimento,

Que taes almas sabem ter!

São ellas mães, são esposas,

E recordando os carinhos

Que tiveram seus filhinhos,

Não podem ver pobresinhos

Sem amor, sem lar, sem pão!

No berço desfolham rosas,

Onde espinhos só havia,

E o sol de pura alegria,

Já de affectos alumia,

Dos orfãos o coração.

Salve pois, oh Caridade!

Que assim abres o teu seio,

Áquelle que sem esteio,

Á luz d'este mundo veiu

Para viver na afflicção.

Salve casta divindade!

Terna irmã da desventura,

Que os suspiros da amargura

Convertes á creatura

Em risos de gratidão!

Junho de 1856.

XIV

BELLA SEM CORAÇÃO

Era uma esplendida imagem

De olhos rasgados e bellos;

Negros, negros os cabellos;

Boca gentil como a rosa,

Que á luz da manhã formosa

Sorri ao sopro da aragem.

Alta, graciosa, elegante,

Um ar de tal distincção,

Na figura e no semblante,

Que eu disse commigo ao vel-a:

«Como esta mulher é bella,

Sobre tudo na expressão

De pallidez namorada,

Que tem na face encantada!

Esta sim, por Deus o juro,

Esta ha de ter coração!»

A estação, o sitio, a hora...

Era a hora do sol posto,

E um frouxo raio de luz

Vinha bater-lhe no rosto.

A estação o meigo outono,

Quando o prado se descora,

No bosque cessa a harmonia,

Quando tudo emfim seduz

Com vaga melancolia.

O sitio, ameno e saudoso,

Onde livre a alma podia

Dar-se inteira aos sentimentos

De paz, de amor, de poesia!

Aproximei-me da imagem

Meiga, risonha, singela;

Soltára a voz, era bella,

Bella sim, vibrante e pura,

Mas sem aquella ternura,

Sem aquelle sentimento,

Que diz tudo num momento!

Sem tremor, sem sobresalto,

Voz que dos labios saía,

Dos labios só, que se via,

Não provir do coração;

Voz sonora, porem fria;

Bella sim, mas sem paixão.

«Pois essa gentil figura,

Esse pallido semblante,

Essa expressão de ternura

Que todo o teu ar respira,

A luz do olhar scintillante,

Dize emfim: quanto se admira,

Quanto ao ver-te nos encanta,

Será sem alma, e sem vida?!»

Sorrindo me respondeu:

«Aqui não ha coração!»

Mas eu vi que elle bateu

D'essa vez precipitado

Por que a sua nivea mão

Tentou comprimil-o em vão!

E no olhar enamorado,

E na voz que estremecia,

Oh! Deus! o que não dizia

A bella sem coração!

Setembro de 1856.

XV

PERDOASTE!

Anjo offendido; outra vez,

Volve teus olhos do ceo

Áquelle que te offendeu!

Vel-o abatido a teus pés,

Anjo esquece, e compassivo,

Num sorriso de perdão,

Torna a dar-lhe o coração.

A cada instante mais vivo

O remorso cresce em mim;

Perdoa, oh! perdoa, emfim!

Offendi-te num momento

De terrivel desvario;

Era o ciume violento!

O rubor da castidade

A tua face affrontava,

E eu cego, eu perdido, ousava

Proseguir! oh! por piedade,

Por piedade, anjo do ceo,

Perdoa a quem te offendeu!

Em breve a razão voltou,

E com ella essa anciedade

Do desgraçado que ousou

Num momento de loucura

Offender a divindade.

Nas trevas da noite escura,

Nem ao menos uma estrella,

Brilhava serena e bella!

E eu caminhava em delirio

Sem força para acabar

A vida que era um martyrio!

A tão profunda amargura

Quem me podia arrancar,

Quem, senão um teu olhar?

Lá, nas sombras do horisonte,

Despontou por fim a luz,

A mesma que em tua fronte

Bella e placida reluz.

No peito afflicto e cançado

Senti dilatar-se então

Este oppresso coração;

O teu olhar adorado

A mim outra vez volveu,

Terno, meigo, apaixonado.

Perdoaste, anjo do ceo!

Abril de 1857.

XVI

TRES RETRATOS

(Num album)

Como as horas passam rapidas

Nesta doce companhia!

Brilha impaciente alegria

Em tudo á roda de mim.

Nunca fui tão venturoso,

Nunca a mão da Providencia

Fez com que eu visse a existencia

Tão bella e risonha emfim.

Esta noite, quando a lua

No horisonte resvalava,

Inspirado a saudava

Nas balsas o rouxinol.

Vem agora a primavera

Abrindo o virginio manto,

Cada dia um novo encanto

Nos traz o romper do sol.

Como a vida assim é bella,

Nesta amena convivencia,

Com tres anjos de innocencia

De formosura, e de amor!

Dezaseis annos talvez

Não tem Julia, bem contados,

Alta, airosa, olhos rasgados,

E sorriso encantador.

O pesinho estreito e breve

Cinturinha delicada,

A fronte um pouco inclinada,

Com seu ar sentimental.

Na ramagem das pestanas

Occulta a traidora chamma,

Que no instante em que se inflamma

Dardeja um raio mortal.

Mas que morte tão suave!

Inda ha pouco, em certa hora,

Que essa chamma seductora

O coração me accendeu...

Se é morte esquecer a terra,

Naquelle instante morria,

Por que tudo o que sentia,

Era a ventura do ceo!

Vel-a sorrir entre os campos,

Bella, candida, animada,

Como as flores que a alvorada

De sua luz inundou!...

Vel-a, co'as mãos impacientes,

Afastar do rosto bello,

O basto e fino cabello,

Que a aragem desalinhou!

Vel-a depois pensativa,

Quando tibio o sol declina,

Na corrente cristalina

Os olhos negros fitar!

Vagas sombras de tristeza

Que vem toldar-lhe o semblante,

São tão bellas nesse instante,

Dizem tanto sem fallar!

Laura, Elisa, as outras duas,

Laura, pallida e morena,

Baixa um pouco, mão pequena,

Expressivas as feições;

Os olhos claros e vivos,

No seu brilho insinuante,

Reflectem a cada instante

Milhares de sensações.

Eliza, a timida Eliza,

Que innocente singeleza,

Que perfume, que belleza

Naquella face gentil!

Cabellos loiros cendrados,

Olhos d'esse azul escuro,

Que é semelhante ao ceo puro

De um bello dia de abril!

As rosas da formosura

Sempre vivas no semblante,

O corpo esbelto e ondulante,

Se é permittida a expressão;

Uma tal ingenuidade,

No seu todo se revela,

Que em se olhando para ella,

Bate alegre o coração.

Tirados daguerreotypo

Não ficavam mais exactos

De certo estes tres retratos

Que procurei desenhar;

Qual porém é mais sympathico,

Mais perfeito, deve agora

Dizel-o a amavel senhora

Do livro onde os vou deixar.

Eu de certo não me atrevo!

Nos olhos tem Julia a chamma

Que nos sentidos derrama

Torrentes de languidez!

Laura... Eliza... mil encantos;

Emfim, não sei qual prefiro,

Não sei a que mais admiro,

Sei que adoro a todas tres!

Setembro de 1857.

XVII

ADEUS

Vai-te, oh! vai sombra mentida,

Para nunca mais volver!

Vai-te, deixa-me na vida,

Que esse teu estranho ser,

Fatal sempre me tem sido,

Fatal sempre me ha de ser.

Qual era a traidora mão

Que para ti me impellia?

Eu desvairado não via,

Ser aquelle um fulgor vão

Que no horisonte luzia?!

Crente a vista repousava

Na luz clara, intensa, bella,

Que para a terra manava

Do seio da meiga estrella,

E que minh'alma inundava

D'aquella celeste chamma

Que a vida e razão inflamma

No ardente fogo de amor!

Deixei-me cegar por ella;

Quanto e como então vivia

Ao grato e doce calor

D'essa que assim me perdia,

Não sei; porem sei que um dia,

Num'hora de maldição,

Não vi mais no firmamento

O seu mentido clarão.

Desvairado em tal momento

Fugi sem norte e sem tino;

Mas quem foge ao seu destino!?

Numa d'estas noites placidas,

Em que as estrellas fulgentes,

Reflectem vívida luz,

Á flor das aguas dormentes;

Em que o rouxinol seduz,

Co'as inspiradas endeixas

Soltando sentidas queixas,

D'entre as balseiras virentes;

Quando respira no ar,

Do monte que o mato veste

Aquelle perfume agreste,

Que é tão grato de aspirar;

Quando emfim a natureza,

No seu mais pleno vigor

Ergue a Deus seu hymno eterno

De graças, de paz, de amor!

Eu na minha alma abatida,

Procurava, mas em vão,

Uma só nota do canto

Immenso da creação.

Debalde encontrar buscava,

Naquella ardente anciedade

Em que o peito arqueja e cança,

No passado uma saudade,

No porvir uma esperança!

Debalde a vista alongava,

Pelo ceo onde as estrellas,

Resplandeciam tão bellas!

Em meu peito arido e morto

O reflexo d'uma d'ellas

Nem sequer compenetrava!

Fatigado, exangue, absorto,

Sem luz, sem norte, e sem tino

Prosseguia o meu destino!

Quando ao chegar um instante

Em que afflicto a vista erguia,

Dei com teu bello semblante,

Pallido, triste, abatido,

Que para mim se volvia

Saudoso e compadecido.

Oh! tão fundo sentimento

Brilhava nos olhos teus

Que ao ver-te nesse momento

Quem te não dissera um anjo

Do ceo á terra descido,

E que volve arrependido,

Outra vez aos pés de Deus!

Lá, na extrema do horisonte

Vinha então rompendo a lua;

Melancolica a luz sua,

O teu semblante inundou;

E nunca no prado ou monte,

Aquella face formosa,

Outra tão pallida rosa

De um reflexo illuminou!

Comtemplava-te perdido,

De esperança, amor, e gosto,

Quando teu languido rosto,

Pouco a pouco se animou;

E a tua voz docemente

Murmurando ao meu ouvido,

De novo um amor ardente

Outra vez me protestou.

Hesitava em crer-te ainda;

Mas o pobre coração,

Quando se vê na desgraça

Encontra a crença tão linda!

A plenos tragos a taça,

D'esse philtro enganador

Ancioso esgotava então,

Sem me lembrar que no fundo,

Estava o fel da traição.

Vai-te, adeus, pallida sombra,

Vai, porque este coração,

Por tuas mãos lacerado,

Com a tua vista se assombra,

E de ti foge aterrado!

Janeiro de 1855.

XVIII

A VISÃO DO BAILE

Foi num baile que a viste cercada

De perfumes, de luz, de harmonia,

Onde viva, impaciente alegria,

Nos semblantes andava a saltar;

E ella triste, abatida, indolente

Entre as pompas da festa encantada,

Co'a tristeza na face estampada,

E infinita saudade no olhar.

Ai! que luz! que expressão nesses olhos

Quando instantes nos teus se cravaram!

De repente em tropel acordaram

Mil affectos no teu coração!

E debalde a seu lado quizeste

Revelar o que n'alma sentias,

As palavras, a voz eram frias

Para aquella infinita paixão.

D'essa noite os instantes voaram,

Entre amor, entre gloria e ventura,

E no fim com que immensa ternura,

Seu olhar para ti se volveu!

É que havia chegado o momento

De deixar essa estancia inundada

Dos primeiros clarões da alvorada,

Que já vinha rompendo no ceo

Mas depois, quando o sol d'esse dia

Desmaiava nas veigas virentes,

Quando as aves soltavam gementes

A voz doce nas balsas em flor,

Não a viste assomar á janella,

E sorrindo, mirar-te um instante?

Não brilhava naquelle semblante,

Um sublime reflexo de amor!?

No sonoro recinto do templo

Quando as preces sinceras subiam,

Quando os hymnos sagrados se ouviam

Aspirando suaves aos ceos,

Não ouviste dizer-lhe: «Sou tua,

Ante Deus, ante os olhos do mundo

Que este affecto suave e profundo,

Vem do ceo e é bemdicto de Deus!»

Hoje pois, que na luz d'esses olhos,

Nessas fontes de amor e candura,

Encontraste na terra a ventura,

Cuidas tu em deixal-a, e partir?

Oh! não vês que é fatal o destino,

Que chegou para ti essa hora

De encontrar a mulher seductora

Que te deve encantar o porvir?

Ai, poeta, debalde procuras

Esquecer a visão adorada;

Ai! debalde! tua alma inspirada

Outra igual neste mundo encontrou!

São irmãs, e co'a mesma ternura

Viverão abraçadas no mundo,

Num affecto sincero e profundo

A suprema vontade as juntou!

31 de Março de 1857.

XIX

RECEIOS

Ás vezes, quando a teu lado

Comparo a expressão que outr'ora

Tinha teu rosto adorado,

Á sua expressão de agora...

Não sei que tristeza vaga

Que impressão sentida e funda,

O meu coração esmaga!

Oh! mas sei que a alma se inunda

De uma subita amargura,

De uma tal angustia e dor,

Que toda a luz da ventura,

Que me vem do teu amor

Toda com ella se apaga!

Loucuras serão, delirio

D'este ardente imaginar;

Serão, sim; mas o martyrio,

Com que me sinto acabar,

Só tem poder tua mão

Para de todo o findar

Neste oppresso coração!

Setembro de 1855.

XX

LEMBRAS-TE?

Lembras-te? frouxa expirava

Aquella doce harmonia

Que em nossas almas entrava.

De uma luz tão resplendente

Teu limpido olhar brilhava,

Como a da aurora nascente,

E aurora gentil sorria,

No meigo azul de teus olhos

Para raiar entre rosas

Fragrantes e sem abrolhos.

Quando mais tenue partiu

A cadencia saudosa,

Tua boca proferiu

Não sei que cortadas fallas,

Que o ouvido não sentiu,

Porque vieste graval-as

Com a voz do ceo no peito,

Que a ti rendido e sujeito

Anhelando t'as ouviu.

Ao proferil-as, dormente

O teu olhar descaíra,

E em teu pallido semblante

A expressão se reflectíra

Dos affectos que agitavam

A tua alma nesse instante.

Ai! nesse instante do ceo,

Que á terra breve fugíra,

Que a elle inteiro volveu!

No horisonte estremeciam,

Ebrias de amor as estrellas,

E teus olhos se fitavam

Na luz scintillante d'ellas;

É que no ceo procuravam

O eterno d'aquelle instante

Que na terra presentiam

Que passaria inconstante.

O alvor da nascente aurora,

Que no horisonte assomava,

Das estrellas desmaiava

A viva luz, e inda agora,

Tenho em minh'alma, querida,

A expressão com que me olhaste

Apontando para ella!

É que essa aurora tão bella

Não brilhava mais na vida!

Janeiro de 1849.

XXI

POIS SER PALLIDA É DEFEITO?

Pois ser pallida é defeito?

E de todo o coração,

Diz, pondo a mão sobre o peito,

Que um rostosinho desfeito

Não pode inspirar paixão?

Ora diga: a rosa é bella

Quando o sol lhe accende a cor,

É bella sim, mas ao vel-a

Desmaiar n'haste singela

Não lhe inspira mais amor?

Viçosa, fresca, orvalhada,

De manhã é toda luz;

Mas á tarde desmaiada,

Co'a pallidez namorada,

Oh! quanto mais nos seduz!

Está convencida vejo,

Deveras não, inda não?

Pois se é todo o seu desejo

Ser corada, dê-me um beijo,

E verá se cora ou não!

Porque esconde o rosto lindo?

Santo Deus! descubra-o já!

Aposto que vai sentindo

Um certo rubor subindo...

Ai! como corada está!

Neste espelho, olhe-se agora,

Veja bem que linda cor;

Quando nasce a fresca aurora,

A luz que a face lhe cora,

Não tem mais vivo fulgor.

Sorri-se a furto, bem vejo,

Occulta o rosto na mão:

Pois vamos, agora um beijo,

Quem cumpriu o seu desejo,

Não merece, diga, não?

Junho de 1852.

XXII

DEVER

Sê bem vinda estação melancolica!

Sê bem vinda! minh'alma abatida,

No teu seio procura essa vida,

Que tão bella, e tão breve passou!

Oh! são estes os campos formosos,

É bem este o deserto mosteiro,

Onde ouvíra o adeus derradeiro

Que teu peito anhelante soltou!

Já nas folhas do bosque frondoso

Se desbota a risonha verdura,

E co'a aragem que á tarde murmura,

Vão caindo dispersas no chão.

Já nos campos de todo cessaram,

Os modilhos da ingenua avesinha,

Que nas moitas espessas se aninha,

Presentindo a invernosa estação.

Que saudade na luz que desmaia,

Nestes campos sem viço nem flores,

Quando á tarde os incertos fulgores

Do sol tibio resplendem no ceo!

Que saudade na aragem agreste,

Que deriva do cimo do monte,

E no azul d'este vasto horisonte,

Onde pallida a lua rompeu!

Foi aqui nestas margens viçosas

Hoje tristes, desertas, sombrias,

Que sorriram os unicos dias,

Para mim de ventura e de amor;

Quando tu inspirada a meu lado

Caminhavas com tremulo passo,

E firmando-te alegre ao meu braço

Davas graças da vida ao Senhor.

Era aqui, junto á cruz mutilada,

Aos extremos reflexos do dia

Quando o sino da ermida se ouvia

Dar signal da singela oração,

Que tu vinhas prostrar-te soltando

Com voz flebil a prece sentida,

Pelo bem, pelo amor, pela vida,

Dos que a sorte deixou na afflição.

E depois nos meus olhos cravando

Os teus olhos de pranto orvalhados

Os protestos mil vezes jurados,

Vinhas mais uma vez proferir;

Nesse esforço baldado do espirito,

Que nas frases da terra procura

Expressar a celeste ventura,

Que sómente se pode sentir.

E pensar que este ceo de delicias

Se acabou para nós na existencia!

Que não temos mais nada que a essencia

Da saudade que d'elle ficou!...

Ver que a mão de um poder sobrehumano,

Nos traz cegos do mesmo delirio,

E votarmos a vida ao martyrio,

Porque o mundo um fantasma creou!!

Pois se Deus quiz ligar nossas almas,

Se é fatal que ellas sejam unidas,

Queres tu desprender duas vidas

Que se acharam irmãs ao nascer?

Vês que foi a suprema vontade

Que as juntou num abraço divino,

E ousas tu, desvairada e sem tino,

Separal-as á voz do _dever_!

O _dever_?! O dever mais sagrado

E mais santo que temos no mundo,

É mantermos o affecto profundo

Que d'um sopro divino nasceu;

Attentar contra a sua existencia,

Debelar sem piedade essa vida,

Não será como ser suicida

E affrontar a vontade do ceo!?

Sobre as aras de um templo mentido,

Num altar pelos homens creado,

Vais queimar quanto ha puro e sagrado,

Por um falso julgar da razão!

Sem pensar no teu crer insensato

Que não póde jámais ser extincto,

Este amor tão profundo que eu sinto

E tu sentes co'a mesma paixão!

..................................

Oh! de novo a meu lado, querida,

Volve, em quanto no ceo e na terra,

Nos agrestes perfumes da serra,

A suave estação respirar!

Volve pois, porque as veigas frondosas

Não perderam de todo a verdura,

E inda a mesma infinita ventura

Neste sitio has de agora encontrar.

Setembro de 1856.

XXIII

Á morte da Ex.ma Sr.a D. M. Henriqueta de Campos Valdez

Bella, graciosa e timida,

Na aurora da existencia

Rosa de grata essencia

Sorrias em botão!

A luz do sol explendido

Vinha inundar-te a frente,

Suave e docemente

Beijar-te a viração!

Como os affectos intimos

Da maternal ternura

Enchiam de ventura,

A tua vida em flor!

E como a face candida

Serena, reflectia

A magica poesia

D'ess'alma toda amor!

Dos pensamentos lugubres,

Das ambições da terra,

Das maguas que ella encerra,

Dos crimes que contém,

Jámais a teu espirito

Chegará o som profundo,

Anjo descido ao mundo

Só para amar o bem!

Um dia, a immensa abobada,

Azul e resplendente,

Toldou-se de repente

Ao sopro do tufão!

Era o primeiro fremito,

Nuncio da tempestade,

Que vinha sem piedade

Rosa, lançar-te ao chão.

Ao ver abrir-se o tumulo

Sorrias sem receio,

E se a teus olhos veiu

Funda expressão de dor,

Foi quando a boca tremula

Da mãe que te perdia,

Á tua enfim se unia,

Com mais profundo amor!

Então, como ella, pallida,

Soltando o extremo alento,

Volveste num momento

Á gloria perennal!

E logo fria, gellida,

Sem ter nem cor nem vida,

Par'ceste adormecida,

No seio maternal!

Setembro de 1856.

XXIV

PARISINA

A Pedro Jacome Corrêa

MEU CARO AMIGO.

A idéa de emprehender a imitação d'este bello romance do autor do

Child-Harold, devo-a ao meu amigo. A obra teria ficado em meio, se não

fossem os desejos que manifestou de vel-a concluida. É por isto que tomo

a liberdade de lh'a offerecer agora que vou dal-a ao publico.

Chamo-lhe imitação, porque me parece mais modesto o titulo, posto não seja

essa a opinião geral, nem talvez fosse a minha noutras circumstancias.

Nesta porém, creio que mais distante ficaria do original, quanto mais

escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle.

Não sei se faço perceber bem a minha idéa: intendo que interpretar as

obras do genio, é mais difficil do que imital-as de longe. A traducção

deve ser a copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem

tido este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o

pensamento predominante da composição, e conservar alguns toques da cor

primitiva do quadro. Não sei se o alcancei. Se numa ou noutra passagem

menos infeliz da minha tentativa o leitor sentir aquelle sabor

particular que se encontra em todas as composições do grande poeta,

dar-me-hei por satisfeito; se, como é mais provavel, nem isso houver

conseguido, terei o castigo na indifferença publica. Com o que eu

decerto conto é com a benevolencia do meu bom amigo para desculpar a

insignificancia d'esta offerta ao

Seu do coração

Janeiro de 1857.

BULHÃO PATO.

PARISINA

Imitação

I

É na hora, em que a voz bella e sentida

Do meigo rouxinol, entre a folhagem

Das balsas escondido, solta ao vento

A saudosa canção do fim do dia:

Hora solemne e grata em que os amantes

Renovam mil protestos de ternura,

De constancia e d'amor; em que o susurro

Da fresca viração vai confundir-se

Co'o murmurar da trepida corrente.

De cristalino orvalho borrifadas,

As vicejantes flores da campina

Mais vivo aroma espargem no ambiente.

Accendem-se no ceo milhões de estrellas,

É mais escuro o azul á flor das vagas,

E a verdura do bosque é mais sombria.

Entre as trevas e a luz, o firmamento

Jaz velado por languido crepusculo,

Que rapido se esvai nos frouxos raios

Da lua, despontando no horisonte.

II

Mas não é para ouvir os doces carmes

Do amoroso cantor, que Parisina

Do palacio feudal ao parque desce;

Nem para contemplar a luz brilhante

Das tremulas estrellas, que divaga

Por entre as sombras que diffunde a noite.

Se procura um desvio na espessura,

Não é para aspirar o vivo aroma

Das matisadas flores; e se escuta,

Não é de certo para ouvir das aguas

O brando murmurar. Sons mais queridos

Espera o seu ouvido nesse instante.

Rangendo as folhas seccas denunciam

Que se aproxima alguem: empallidece

De susto e de prazer ao mesmo tempo.

D'entre as ramas que a brisa doidejante

De espaço a espaço agita, mansamente

Parte emfim uma voz: é voz amiga;

De subito o rubor lhe volta ás faces,

E mais livre, porém não menos forte,

Bate-lhe o coração no peito agora.

Mais um momento só é já passado,

Aos pés da bella jaz o cego amante.

III

O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca,

Que lhes importa nesse doce instante?

Tudo é nada a seus olhos deslumbrados

Pelo fogo do amor; tudo se perde,

Se confunde, e se esvai nesse delirio!

Nos suspiros que vem do fundo d'alma,

Nesses mesmos, respira tal ventura,

Que, se fosse mais longa, dentro em pouco

A vida ou a razão succumbiria!

Oh! quem sente lavrar dentro do peito

O fogo da paixão com tanto imperio,

Não pensa na desgraça, nem se lembra

Da curta duração de taes enganos!

Ai! quantas vezes despertâmos antes

De saber que não volta o mago sonho!!

IV

Vão partir: vão deixar com passos lentos

O encantado logar que presenceára

O seu transporte em delirante crime.

Vão partir: e apesar dos mil protestos,

Da esperança que em breve hão de juntar-se,

Dor profunda no peito lhes comprime

Agora o coração, como se fosse

Aquella a derradeira despedida.

Parisina, cravando os olhos languidos

No firmamento azul, treme, sentindo

Que aquelle ceo não pode perdoar-lhe.

Elle outra vez a cinge contra o peito;

Um suspiro, um adeus, inda outro beijo,

É forçoso partir, levando n'alma

Os amargos, crueis presentimentos,

Que de perto acompanham sempre o crime.

V

Tranquillo no seu leito solitario,

Hugo repousa, e pode sem receio

Livremente soltar o pensamento.

Porém ella descança a fronte pallida

Das fadigas do amor, junto do esposo.

Sonhando, em voz sumida solta um nome,

E suppondo estreitar contra seu peito,

Agitado e febril, o terno amante,

Entre os braços comprime esse que dorme

Agora ao lado seu. Subito acorda

Á suave impressão do meigo abraço

O esposo que se julga idolatrado,

Até nos sonhos da adorada esposa!

VI

Sobre o seu coração com quanto affecto

Reclina aquella fronte encantadora!

Com quanto afan procura ouvir as frases,

Que de seus labios solta entrecortadas!

Mas.... que ouviu? Santo Deus! Nesse momento,

Azo, o altivo senhor, estremecêra

Como tendo escutado a voz do archanjo!

Oh! deve estremecer, porque a sentença,

A sentença fatal que os seus ouvidos

Acabam de escutar, vai despenhal-o

Para sempre no abismo da desgraça!

O nome que ella em sonhos proferíra,

Que soára tremendo como a vaga,

Quando arremeça aos concavos rochedos

A debil prancha que sustenta o naufrago,

Esse nome qual foi? O nome de Hugo;

Hugo, o filho da pobre e linda Branca,

Que o principe illudiu, e sem piedade

Depois abandonou! Hugo, seu filho,

Fructo innocente de um amor culpado!

VII

Azo arranca o punhal, mas pára olhando-a!

Quem podera immolar um ser tão bello?!

Oh! ninguem! Apesar do negro crime,

Da nefanda traição, faltam-lhe as forças,

Ao contemplal-a assim adormecida.

Nem a acorda sequer, mas por instantes

No seu rosto encantado crava os olhos.

Se de subito agora despertasse,

A infeliz nesse olhar sentíra a morte!

Pela fronte do principe traído,

Frio corre o suor, e á luz da lampada

Estremecem brilhando as grossas bagas.

E ella dorme! Oh! mal sabe que os seus dias

Nesse instante fatal foram contados!

VIII

Assim que o sol desponta no horisonte,

Azo corre a indagar pelos que o cercam,

E as derradeiras provas apparecem.

As aias da princeza, largo tempo

Conniventes no crime, revelaram

Quanto havia de occulto nesse drama.

Não tem que duvidar! Azo, escutando

A longa historia de tão negro crime,

Sente em ondas subir-lhe o sangue ás faces,

Que de profunda cholera se inflammam.

IX

Na vasta sala do feudal palacio

O orgulhoso Senhor da casa d'Éste,

Sobre o purpureo throno está sentado.

Nobres, pagens, soldados o circundam,

Os olhos crava nos culpados ambos,

Ambos jovens e bellos. Duros ferros

Tem sujeitos os pulsos do mancebo,

Que fôra brutalmente desarmado

Por mercenarias mãos da nobre espada.

Na presença de um pae é d'este modo

Que deve, oh Christo, apresentar-se um filho?!

Porém, Hugo infeliz, nesse momento,

Tem de ouvir a sentença incontrastavel

Dos labios paternaes, prestar ouvidos

Á triste narração do seu opprobrio!

E comtudo a expressão do nobre rosto,

A distincta altivez conserva ainda!

X

Pallida, sem alento e silenciosa,

Aguarda Parisina nesse instante

As palavras fataes. O seu destino

Quão rapido mudou! Ha pouco ainda,

D'aquelles olhos a celeste chamma

Pelos salões doirados espargia

A meiga seducção. Se nesses olhos

Visse alguem borbulhar uma só lagrima,

Mil cavalleiros da mais nobre estirpe,

Arrancando da espada, a vingariam!

Mas agora, infeliz! quantos a cercam,

Mal disfarçam no rosto carregado

A contida expressão do seu desprezo!

E elle, o amante adorado da sua alma,

Elle, oh Deus! que liberto por instantes,

Por instantes que fosse, a houvera salvo,

Jaz preso ao lado seu em duros ferros!

Jaz ali, mas não vê que aquellas palpebras

Onde outr'ora fugia a cor suave

Da terna violeta, convidando

A mil sequiosos, demorados beijos,

Se entumecem, velando a vista immovel

Das pupillas, nas quaes a dor intensa

Accumula uma lagrima apoz outra!

XI

Oh! por ella tambem, nesse momento,

Derramára o infeliz amargo pranto,

Se de tantos a vista a não cercasse.

A dor que o devorava, parecia

No mais intimo d'alma adormecida;

A fronte macilenta e transtornada,

Conservava-se altiva. Por mais forte,

Mais acerbo que fosse o seu tormento,

Não quizera humilhar-se na presença

D'aquella multidão que o comtemplava.

A companheira bella de infortunio,

Não se atrevia a olhar. Ao recordar-se

Das horas do passado, do seu crime,

Da vingança de um pae, do seu destino,

E sobre tudo do destino d'ella,

Não ousava lançar sobre esse rosto

A desvairada vista, receando

Que, cedendo ao remorso, revelasse

Quanto o seu coração fôra culpado.

XII

Azo emfim sólta a voz:

«Ha pouco ainda,

Numa esposa e num filho resumia

Toda a minha ventura neste mundo.

A aurora dissipou tão bello sonho!

Antes do pôr do sol, nem um nem outro

Me devem pertencer. Quebrem-se embora,

As ligações mais caras da minh'alma!

Hugo! um padre te espera, e depois d'elle

A justa punição do teu peccado.

Ergue preces ao ceo antes que o lume

Das estrellas se accenda no horisonte:

Talvez te dê perdão. Mas neste mundo

Não existe logar onde possâmos

Nós ambos respirar. Adeus, não quero

Assistir ao teu ultimo momento!

Porém tu, fragil ser, ensanguentada

Terás de vêr cair essa cabeça.

Vai, traidora mulher; sobre a tua alma

Pese o remorso da desgraça d'elle!

Vai-te, adeus, e se podes, contemplando

Este exemplo fatal, ter vida ainda,

Gosa d'ella, que livre t'a concedo!»

XIII

Velando a face pallida e sombria,

Onde as veias inchando palpitavam,

Como se o sangue em ondas refluisse

Do coração á fronte, Azo ficára

Callado longo tempo. Hugo, soltando

Profunda, porém firme, a voz do peito,

Roga ao pae que o escute alguns momentos.

O principe em silencio lh'o concede:

«Tu bem sabes que a morte não receio;

Tinto em sangue mil vezes nas batalhas

Me viste ao lado teu, onde mais forte,

Mais travado e mortal, era o combate.

Então deves lembrar-te que esta espada,

Que ha pouco os teus escravos me arrancaram,

Derramára mais sangue do que em breve

Fará correr a mão do teu carrasco.

Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa?

Quite me deixas d'esse dote infame!

Presente, viva tenho na memoria

A injuria com que as faces affrontaste

De minha pobre mãe; e a vil herança

Que recebi no berço, inda me accende

O semblante de cholera e vergonha.

«No tumulo onde agora ella repousa,

Irá juntar-se em breve o meu cadaver.

Transido o peito seu por mil desgostos,

Separada do corpo esta cabeça,

Entre os mortos dirão até que ponto

Foste amante fiel, pae carinhoso.

«Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes

Que trocámos affronta por affronta.

A mulher a que chamas tua esposa,

Victima ingenua do teu fero orgulho,

Não te lembras que fôra largo tempo

Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a,

Contemplando o seu rosto, desejaste-a,

E para emfim provar que não podia

Pertencer-me jámais ousaste affoito,

Allegar o teu crime e a minha origem.

Versos de Bulhão Pato · 第 1 / 5 段