reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova
ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei,
certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!
Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem
n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto,
levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.
Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
_pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados,
fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa,
com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da
freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração
de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
venezianamente na agua.
Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da
ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação
humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
tinham um debrum de gente.--Enorme romagem nunca vista. A cidade do
Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do
paiz estavam ahi reunidos. Para que?
Para celebrar um puro facto scientifico--a solução de um problema de
mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que
phenomeno! que revolução!
Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de
determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos
iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus
casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões
domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os
mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a
longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos
caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de
plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.
Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum
pessoal.
Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma
funccionalidade diversa.
Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder
politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já
por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder,
irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera
espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.
A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão
symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era
tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação,
que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções
de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os
individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e
o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se
acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço
cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de
conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
aperfeiçoamento e para a felicidade.
Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem
os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi
elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que
determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
das sociedades.
A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
victorias, um d'esses triumphos:--a conquista de perto de meio seculo de
paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
instituições.
Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por
um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos
reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo
com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo
debatida entre dois principes.
A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que
progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
affirmação d'esse progresso.
A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a
especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.
Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este
seu novo hospede? Não lhe apparecendo!
V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais
irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª
que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos
do seu stylo declamatorio--ao mesmo tempo alambicado e labrego--_as
chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
ex.ª--dizemos--não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma
cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.
Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece
completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades
democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população
portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.
É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª
nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a
sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.
Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes
como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.
* * * * *
Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.
Eis o que ao depois occorreu:
* * * * *
A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes,
choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e
Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de
suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?
--Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das
mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.
Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão
aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:
--Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.
E deixaram-o ir.
* * * * *
Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos
deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
abysmo,--sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na
redea.
* * * * *
Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões,
retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a
saudade da mangedoura na alma.--Tão poderoso e fecundo é o ascendente
moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades
officiaes!
* * * * *
Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha
do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os
circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
sr. José Dias Ferreira.
Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder,
o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:
--A mim, rapazes!
E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»--os rapazes foram a elle.
* * * * *
Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
assim elle mesmo?
Atonitos elles vêem--caso que os olhos se lhes recusam acreditar--que a
burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!
Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o
sr. Fontes veloz encavalgara o poder.
* * * * *
O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões
do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a
Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o
seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão
para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de
dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.
Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a
delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª
abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque
de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave
auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá
azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!
Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa
intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
bolsa do alforge ministerial.
Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra,
enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.
* * * * *
E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo
logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com
arnica o seu galo.
* * * * *
Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve
jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.
O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre
estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns
kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª
* * * * *
Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores
deputados:
* * * * *
Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
os parapeitos até ao tecto.
Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre
o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.
Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um
individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
dôr--Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.
Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente
feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço
com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos
calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.
No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o
coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.
Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.
Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
amplas sobrecasacas pomposas. Sente--se que elles respiram com exforço.
O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
Robespierre--São os empaturrados da coisa publica.
Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés
mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos
sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que
descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.--São os espinhelas
cahidas do systema que felizmente nos rege.
No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de
inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma
sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.
--Sr. presidente--diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca,
lacrimejante--Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.
Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
cabeça.
Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma
resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido
mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação,
a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a
constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em
extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do
trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão
ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e
da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica
constitucional.
Diz mais o orador:
--«Sr. presidente!--e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e
pathetica--li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram
aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
porque elles serão consolados».
E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
camara:--«Muito bem! muito bem!»
Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por
Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin
e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo
victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas
questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores
desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos
srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.
Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita
dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não
queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este
moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da
nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no
meio dos applausos geraes de todo o parlamento.
E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a
applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.
A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está,
como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de
Kant, de Hegel e de Hartman.
Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da
philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela
indisciplina mental.
Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo
philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.
Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases
definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho
triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o
filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.
Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande
peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de
pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi
o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
politico do imperador Guilherme?
Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal
senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica
arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?
Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos
preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua
ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na
peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado
philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e
contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua
elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.