os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da
poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e
fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra
modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da
saudade eterna dos seus netos.
A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a
minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha
robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os
nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos
folhetins dos periodicos.
* * * * *
Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.
Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem
chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.
* * * * *
Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o
telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.
Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
que sua magestade ouvira--um solo de cornetim!
Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e
Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a
arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.
A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre
as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.
Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.
Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro
coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas
conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.
Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é
verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a
vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença
chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo
trecho de musica!--O que deve levar paulatinamente á loucura.
Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão
incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes,
ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro
remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha
presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse
instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos
cornetistas, mas somos tambem astronomos ... Toquemos o _Pirolito!_
E a posteridade nos abençoará.
* * * * *
Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder
politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente
uns aos outros:
--Não viram por ahi a hydra?
Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.
Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua
dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
imperfeito do verbo Mexer.
* * * * *
N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser
hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas
de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.
Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para
salvar a situação da falta da hydra:
* * * * *
O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal
pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as
d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente
enterrado.
N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e
determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao
que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e
discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios
alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.
* * * * *
Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o
triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira
cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
uma formula. A sua formula é esta: «..._O bucentauro do progresso
rasgando os flancos da montanha_ ...» Sempre que esse homem terrivel
arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido
uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua
cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para
lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e
phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro
estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica
ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.
* * * * *
Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e
philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da
morte,--comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro
rasgando os supracitados flancos,--que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a
vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro--o que à
hydra parecerá sufficiente--mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
ainda parece pouco.
O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica
romana.
* * * * *
Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião,
cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.
Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas
mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o
campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão
eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
orbe pela larga benção incondicional de Jesus.
Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um
recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das
podridões privilegiadas.
Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e
pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem
terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais
sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No
dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu
chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na
bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.
Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano
do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da
grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie
do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem,
nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos
teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar
usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um
canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos
sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza
humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do
sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.
És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires
para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para
o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua
outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila
e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de
horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os
homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do
padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua
dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus
filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as
suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo
tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas
dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos
enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram
cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um
bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,--cem
mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela
cidade inteira.
E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça
inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor
que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como
te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:
No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o
canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão
para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das
catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.
Não terás remedio senão acordar,--quer queiras, quer não--do teu pesado
somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois
ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão
com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de
ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é
condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que
tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna
justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a
elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de
interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande
voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:--«Deram-lhe o
baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia?
Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O
cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a
esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará
para baixo, para as profundidades do immenso vortice:--«Fogo eterno para
um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição
eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.
Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.
Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam
Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não
resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos
pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que
fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.
* * * * *
Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o
ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo
por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou--porque o digamos
n'outros termos--a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que
pretendemos consultar s. exª:
* * * * *
Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se
por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir
entretendo.
N'esta hypothese pergunta-se:
Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
o capricho de descartar-me?
Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo
indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros
impios e locomotores.
A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da
direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.
Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia
baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de
aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da
carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o
resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem
varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de
todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje
contradisse--que me conste--as declarações latinas feitas em seu nome
por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica,
e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no
paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
dos atheus.
* * * * *
Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á
funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa
resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:
Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a
communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim
uma affirmação civil.
Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é
facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem
ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha
perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo
o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente
demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o
attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria;
não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no
exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não
póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não
póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!
A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna
antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe
pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.
Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da
igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para
dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu
pae e de minha mãe--a minha perna está prohibida de a ter sem que a
igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando
eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna,
era--a perna da igreja.
Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o
catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de
ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira,
de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na
religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças
religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de
baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.
Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em
Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim
separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não
obedecem--o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
sua transgressão,--é claro que não póde ser unicamente pelo facto de
estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
designar a sepultura sagrada.
Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é
effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial
de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o
contrario.
Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se
encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha
perna.
Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a
creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade
de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
padre, morrer sem padre.
* * * * *
Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
cidade do Porto ou quem suas vezes fizer--Paços da Camara na Praça Nova,
esquina do Laranjal
Porto
Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados
pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de
todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia
inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.
Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que
tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de
comparecer.