Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão

experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino

humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande

maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se

indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da

sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta

noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.»

A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de

esphacelamento cerebral.

Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de

caturras?--É unicamente o que perguntamos.

* * * * *

O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara

governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a

coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão

social.

A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por

fazer.

A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo

o principio em que se funda.

A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.

Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de

uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma

Turquia está muito adeante de nós.

Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem

destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e

dissolvem-se na banalidade.

As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos

personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás

camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as

mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.

Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para

assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses

exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a

burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso

moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de

cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento

similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.

Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de

circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos

do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de

funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal?

* * * * *

Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É

catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é

militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma

electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado;

quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito

permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena

de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de

governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,

uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica

de cordas, uma photographa, etc.

Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se

disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que

pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido

opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o

partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente

conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É

evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da

industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção

das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a

universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a

magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o

governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se

distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,

a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.

A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de

não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade

e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o

partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder

perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e

a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não

pódem constituir principios de programma, são communs a todos os

partidos ou não são especiaes de partido nenhum.

Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos

mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia

completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando

constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo

vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e

digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.

* * * * *

Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica

converte-se fatalmente em uma questão de compadres.

O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo,

corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o

appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo

appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos

compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou

diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no

favor da urna.

O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma

todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a

expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria

consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria

commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!

Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais

competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e

de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem

moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido:

a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos

preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,

é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo

deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito

e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado,

aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o

insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.

Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e

como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de

_compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do

ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão

correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz

apenas:--É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o

compadre, vou para o partido d'elle.

O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do

machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do

governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir

o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de

que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando

como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a

engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a

tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.

A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa

contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,

esse poder é unicamente--o da comadre.

A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no

dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais

rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra--palavras, palavras,

unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,

real; compadrice, comadrice--eis tudo.

* * * * *

Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja

decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que

ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma

miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse

remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de

quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos,

socialistas, federalistas, positivistas--o que quizerem--com tanto que

sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia

e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio

philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa

que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe

resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo

reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das

concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos

revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos

conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento

actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos

mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.

* * * * *

Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que

sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto

pela municipalidade de Lisboa:--tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas

que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:

caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento--_dealbatum

sepulchrum_!

As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01) · 第 4 / 4 段