preso a Colombo. Nada mais natural que a mudança repentina das
impressões dos animos populares. A opinião corria em Hespanha
desfavoravel á Colombo, accusado por quantos Hespanhóes regressavam do
Haity, despeitados de se não terem enriquecido, quando haviam partido da
patria arrastados pela idéa de um Eldorado certo e immediato, que
lhes compensaria os trabalhos e sacrificios. Ninguem o defendia, e
secretas se guardavam suas communicações officiaes, noticiando-se,
apenas, seus procedimentos que pareciam tyrannicos.
Ao vel-o, porém, os moradores de Cadix, desembarcar preso, com ferros
aos pés, em andrajos despreziveis, e ser transportado da caravella que o
trouxera para o calabouço dos grandes criminosos, lembraram-se de subito
do quanto elle havia praticado de importante e portentoso, descobrindo
as Indias Occidentaes, lançando gloria imarcessivel sobre Hespanha, e
creando uma escola de marinheiros e exploradores, que levavam a bandeira
régia aos confins da terra! Quantos o accusavam até alli começaram por
delle apiedar-se, observando sua situação do momento; não tardaram em
tomar seu partido, e em declarar-se contrarios aos que o perseguiam!
Modificou-se assim de novo em Hespanha a opinião publica, sem que
esperasse informação, nem esclarecimentos, nem provas; por instinctos de
justiça, porém; por opposição á violencias, á arbitrios e
despotismos. Um grito unisono soou desde Cadix até ás mais distantes
cidades e povoações dos dous reinos de Castella e Aragão.
Logo que soube do acontecimento em Granada, onde estava então a Côrte
hespanhola, mostrou-se pezarosissima a rainha Isabel e arrependida do
que havia praticado. Tratou incontinente de remediar o mal, passou
ordens terminantes para Cadix, afim de soltarem-se os presos vindos de
S. Domingos; mandou entregar á Colombo a quantia de dous mil ducados,
pois que devia carecer de dinheiro, e por seu proprio punho
escreveu-lhe, convidando-o a dirigir-se á Granada, afim de explicar-lhe
os desgraçados successos, que tinham motivado tão desagradaveis
occurrencias.
Cumpriu Colombo a ordem de Isabel, satisfeito por lhe ser dirigida tão
distincta demonstração de affecto da Rainha. Cumpre dizer aqui que á
bordo já o commandante da caravella o tratara cordial e respeitosamente,
e quizera tirar-lhe dos pés os ferros que o apertavam e opprimiam: elle,
porém, o não consentira, declarando que obedecia ao que haviam os
reis de Hespanha ordenado á Bobadilla, como seu delegado, e só uma nova
decisão régia poderia allivial-o dos seus soffrimentos.
É curioso ler-se ainda em um escripto de Fernando Colombo, publicado
posteriormente em Hespanha, que no seu gabinete em Sevilha tinha
pendurados ás paredes aquelles ferros que manietaram a seu pae desde S.
Domingos até Cadix, e que este lhe pedira que á sua morte fossem com seu
corpo encerrados na sepultura, que se lhe abrisse. Seria invento do
filho para gloriar o pai? Posto que em nenhuma das obras impressas á
respeito de Colombo se falle deste incidente, e nem do destino que os
ferros tiveram, é verosimil a narrativa, desde que se estuda o caracter
altivo e o espirito heroico de Colombo.
Acolheu-o a Rainha benevolamente no magestoso edificio do Alhambra,
antigo palacio e fortaleza dos Arabes, edificado sobre montes apraziveis
ao lado da cidade de Granada, e dominando uma formosa e extensissima
veiga, entrecortada pelos dous rios Darro e Xenil, verdadeira maravilha
da architectura! Não lhe permittiu que se lhe lançasse aos pés;
levantou-o e affirmou-lhe sua confiança e amizade com palavras
repassadas do maior sentimento. Assegurou-lhe egualmente que jámais elle
desmerecera do seu conceito e que ella continuaria a dar-lhe provas do
seu affecto.
Destituido foi logo Bobadilla da sua commissão, e mandado recolher á
Hespanha; nomeado Ovando para substituil-o no governo das Indias
Occidentaes, durante a ausencia de Colombo, com ordens expressas de
partir immediatamente. Não tardou Ovando em seguir para seu destino, á
frente de imponente frota, no proposito de executar as ordens régias em
seus dominios das Indias Occidentaes.
Reclamou, no entanto, Colombo autorização de voltar para S. Domingos, e
auxilios poderosos com que pudesse dilatar os dominios de Hespanha nas
terras descobertas, convencido cada vez mais de que navegando ainda para
o Oeste encontraria por fim o continente da Asia, de que lhe pareciam
ser ilhas proximas os logares até então reconhecidos. Prometteu
Isabel acceder-lhe aos desejos, logo que houvesse recebido noticias da
commissão confiada á Ovando, e se certificasse de que a ordem publica e
a autoridade legal se tinham restabelecido em S. Domingos. Não pesaria
nessa resolução da Rainha influencia de Fernando de Aragão, que
considerava já dispensaveis os serviços de Colombo, porque novos
argonautas hespanhóes se applicavam, á seu exemplo, em excursões
exploradoras de terras, que, sem quasi sacrificios do thesouro,
continuariam e talvez completariam a obra por elle iniciada?
Qualquer que fosse a causa, certo é que arrastou-se muito tempo ainda
Colombo pela côrte, sem conseguir satisfação a seus projectos. Durante
os longos dias que assim decorriam, antes que alcançasse deferimento,
lembrou-se de uma ideia antiga, que sempre lhe ruminava o espirito, e
que era a de libertar o tumulo de Jesus Christo em Jerusalem; propunha-a
constantemente á Rainha, e escrevia egualmente á respeito ao Summo
Pontifice de Roma, implorando-lhe as bençãos e a intervenção
protectora para que podesse realizal-a! Ao terminar o anno de 1502 é que
resolveu a Rainha deixal-o partir para as Indias Occidentaes, influida
pelos seus discursos de que era necessaria para Hespanha uma descoberta
que excedesse á de Vasco da Gama e á de Pedro Alvares Cabral, afim de
que a Hespanha se não deixasse sobrepujar pela nação portugueza. Quatro
pequenas caravellas se lhe confiaram de novo, de cerca de 60 toneladas
cada uma, tripoladas por 150 homens.
Não era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia
um aventureiro obscuro, como o fôra na sua primeira viagem, e como o
haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instrucções para cuidar de
novos descobrimentos, dirigir-se á terra firme das Indias, pelo rumo de
Oeste, e abrir emfim relações commerciaes entre ellas e Hespanha;
prohibia-se-lhe, porém, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se
sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias
publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.
Resignou-se Colombo a tão estranhas resoluções. Que faria elle em
Hespanha, não querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu
genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e não o
interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava,
inspirava e electrisava?
Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta
viagem ás Indias Occidentaes. Estava já avelhantado, contava entre 60 a
70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de
forças physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do
espirito, que conservavam a robustez, a força, a energia da primitiva
mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepções, trabalhos e
soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, então possessão portugueza na costa
de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que começava a ser
frequentada e habitada pelos Hespanhóes como sua propriedade. Refeitos
ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de
Martinica, ou, como pensam alguns chronistas, na proxima de Santa
Lucia.
Posto que contrariamente ás ordens da Rainha, pensou que poderia tocar
em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito
ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse
proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.
Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando
autorisação para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de
navegar, e declarar-lhe na mesma occasião que tinha necessidade tambem
de receber viveres.--Acredital-o-heis?--Prohibiu-lhe Ovando que se
approximasse de S. Domingos!--Era assim expellido brutalmente das terras
de que se reputava pelo seu contrato com a corôa governador exclusivo e
almirante!--Mandou de novo Colombo supplicar á Ovando que permittisse,
pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que
ameaçava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de
seus pequenos e miseraveis navios! Até para tão legitima supplica
foi-lhe denegada a licença!
Como não transbordaria de dôr e de indignação sua alma, tão susceptivel
de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratidão de
homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos
memoraveis! Para com elle que fôra chefe e mestre de todos esses entes
secundarios, que agora dominavam!
Não teve remedio sinão fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como
pela experiencia maritima antevia a explosão de temporaes, e
particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro
escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a
tormenta que approximava.
Ella não faltou á seus calculos previdentes. O proprio porto de S.
Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola
que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha
Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla
exhalou a vida no seio das vagas em que foram as embarcações
submergidas.
Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de
Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da
Hespanha, e travou relações com os indigenas. Pisava em terra firme
Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a
costa para Léste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graças á Deus, e dahi
seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a
Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa
quantidade de ouro em joias, corôas, braceletes, que elles trocavam por
ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal
precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das
noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua até Porto Bello e
Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de
que a não encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a
localidade mais apropriada para a fundação de uma colonia européa,
e para ahi descançar algum tempo, concertar suas caravellas
bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.
Póde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias
começavam á esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via só
terras habitadas por selvagens, não deparava as cidades opulentas, o
commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japão, como o
haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam
penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente
esbarrava em regiões incultas e desprovidas de toda a civilisação! E
entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se não
conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Açoutado
pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas
imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia,
posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais
perigosos parceis.
Em Veragua deparou um excellente porto banhado por um rio navegavel, ao
qual deu o nome de Belém. Devia o solo conter ouro, e ser o sitio
apropriado para descançar das fadigas maritimas, que já agora tanto lhe
pesavam! Resolveu-se a edificar ahi uma povoação hespanhola, que
servisse á projectos futuros.
Escolhido o local, desembarcou com sua gente, e applicou-se á edificação
de uma cidade, fortificada convenientemente e sita ás ribas do rio.
Acolheram-no agradavelmente os indigenas ao principio; pouco tempo,
porém, depois, mudaram de procedimento, assaltaram-lhe a povoação, e bem
que repellidos voltaram por varias vezes como inimigos francos. Pensou
Colombo que lhes imporia a paz com a força de armas; collocou-se á
frente de setenta e cinco homens, e assaltou-os em sua aldêa mais
proxima. Destroçou-os em luta pertinaz e arrasou-lhes quasi inteiramente
a aldêa. Difficil, porém, tarefa a de domar gentios tão destemidos, e
que pertenciam á raça valente dos Caraibas, tanto mais audaciosos quanto
do interior precipitavam-se hordas e hordas no intuito de se
soccorrerem, e auxiliarem. E como poderia Colombo resistir-lhes com um
tão pequeno numero de hespanhoes, bem que suas armas de fogo e seu
denodo e valentia o amparassem? Preferiu abandonar seus intentos de ahi
fixar uma povoação européa, que não poderia sustentar-se por muito
tempo. Embarcou-se de novo, agora decidido a voltar para a Hespanha, e a
exigir melhores embarcações e mais poderosos elementos com que podesse
proseguir em seus designios. Não perdera ainda as esperanças de dilatar
sua gloria por novos feitos que praticasse! Um temporal, porém, o
assaltou logo depois da partida de Veragua. Tão maltratados ficaram seus
navios, que o almirante com dôr reconheceu-os innavegaveis. Faziam agua
por todos os poros; não havia meio de segurar-lhes as costuras; a cada
momento ameaçavam naufragar, e nem dia nem hora e nem minuto tinham de
descanço os navegantes occupados em esgotar as embarcações que se
afundavam á olhos vistos.
Difficultosamente arribou á Jamaica. Examinando com cuidado o estado das
caravellas, percebeu-as perdidas de todo, incapazes até de arrostar
aguas tranquillas. Não havia para ellas salvação, qualquer que fosse a
viagem. Não descobriu remedio sinão em abandonal-as por impossivel o
concerto. Conhecendo quanto eram bravios os indigenas da Jamaica, não
ousou desembarcar. Formou plano novo. Enterrou nas areias da praia as
suas caravellas, para que ao menos lhe servissem de morada. Encalhadas
assim e firmemente, para o convez transferiu os depositos de armas e o
resto de mantimentos e munições, e ahi armou leitos para si e para a
tripolação, como casas improvisadas. Por este modo poderia conter os
indigenas e defender-se quando assaltado, em quanto lhe não viessem
soccorros do Haity. Mandou apromptar a melhor lancha de bordo, nella
embarcou intrepidos navegantes e incumbiu-lhes fossem á S. Domingos
pedir embarcações, que o viessem buscar, compromettendo-se com Ovando
que não lhe disputaria o governo da ilha, e só queria navio, em que
podesse recolher-se á Hespanha. Pediu-lhes toda pressa em trazer-lhe
auxilios, e animou-os á seguir a costa meridional do Haity até chegar á
S. Domingos.
É mais facil que imagineis do que me seria pintar-vos os soffrimentos do
infeliz almirante: doente e obrigado a apasiguar a uns, consolar a
outros, animar os companheiros prostrados, desesperados, irritados, que
delle se queixavam, imputando-lhe temerarias e fantasticas emprezas. Não
menos de duas revoltas francamente irromperam; resultou de uma que se
embarcaram cerca de vinte e cinco sediciosos em escaleres e canôas de
gentios, e atiraram-se aos mares para se acolherem á S. Domingos, sem se
importarem com o commandante e companheiros que deixavam. Ao segundo
motim conseguiu Colombo oppôr resistencia, e feriu-se combate á bordo
dos navios encalhados; abandonados estes pelos sediciosos, foi mister
continuar a luta em terra, á vista dos gentios que se espantavam de
assistir á brigas entre os invasores. Houve mortes de parte á
parte, mas Colombo venceu e sustentou ainda sua autoridade!
Exasperava-se, todavia, porque mezes e mezes estavam decorrendo sem que
lhe viesse resposta de S. Domingos! Mais penosa e attribulada tornava-se
ainda sua situação, sómente alimentando-se com os vegetaes e fructas,
que por bem ou ameaças conseguia dos indigenas!
Felizmente que de S. Domingos chegou, no fim de um anno de soffrimentos
na Jamaica, uma pequena embarcação que se conseguira fretar, destinada a
receber á seu bordo Colombo e os tripolantes dos navios naufragados!
Seguiu então para S. Domingos; ahi recebeu-o Ovando convenientemente, e
prestou-lhe uma caravella em que seguisse viagem para Hespanha.
Que sentimento, que dores agudas não supportou Colombo, revendo a terra
que elle tanto amara, curvada agora pela mais terrivel tyrannia e
perseguidos e maltratados os gentios como animaes bravios! Tanto
Bobadilha como seu successor Ovando tratavam exclusivamente de escavar o
solo, procurando minas de ouro.
Para conseguir melhor seus intentos, aprisionavam indigenas,
obrigavam-n'os á fadigas superiores ás suas forças, atormentavam-n'os
com castigos atrozes, trucidavam-n'os á menor relutancia. Não parecia
sufficiente o arbitrio e violencia da autoridade official. A horda
hespanhola existente na ilha, famelica de riquezas, visionaria de
opulencias, atirava-se ás minas por si e por sua conta particular,
arrastados pela avidez de arrancar-lhes o thesouro. Para realizar seus
desejos não só escravisavam por seu lado, como com castigos barbaros
obrigavam os desditosos selvagens á trabalho excessivo á que não estavam
acostumados; resultava-lhes a morte mais ou menos apressada, conforme a
robustez dos corpos.
Taes foram os horrores praticados contra os infelizes indigenas, que a
voz eloquente de Las Casas acordou por fim os sentimentos religiosos da
Rainha. Impressionada Isabel com as noticias, ordenou que em vez de
escravisar os gentios, se mandassem buscar ás costas africanas pretos
afim de os substituirem no captiveiro. Infelizmente só com a
extincção dos miseros americanos é que socegou a tyrannia dos invasores,
e se puderam executar as ordens régias! Doze annos depois da descoberta
do Haity, cerca de um milhão de naturaes haviam perecido, victimas da
cobiça hespanhola, porque Ovando ao receber ordens régias terminantes
para não escravisal-os, e para substituil-os por pretos arrancados á
Africa, entendeu que a segurança dos hespanhoes exigia a diminuição de
seu numero, e então pretextando levantes e rebeldias delles, moveu-lhes
guerras continuadas, e permanentes assaltos. O exterminio augmentava de
fórma que a olhos vistos desappareciam os mal aventurados indigenas!
Horrorisa ainda hoje a noticia da matança em massa denominada de
Xaragua, em que mais de tres mil, velhos, moços, mulheres, crianças,
foram esmagados á passos de cavallo, despedaçados pelos cães de fila,
fuzilados pelos arcabuzes dos soldados, e cortados pelas espadas dos
hespanhoes, sem que se lhes attendesse ás vozes implorando misericordia,
e sem que os gentios oppuzessem a menor resistencia quando
surprehendidos em sua aldêa!
Que arrependimento não seria agora o de Colombo! De que lhe servia a
gloria do descobrimento da America deante do painel tenebroso, que aos
olhos se lhe desfraldava! Não fôra o algoz dos americanos. Fôra, porém,
quem ahi levara os carrascos para que exterminassem barbaramente uma
raça de homens innocentes e pacificos!
Desembarcado em Cadix, dirigiu-se Colombo para Sevilha, onde foi
obrigado a demorar-se alguns dias por se lhe aggravarem os padecimentos
physicos. Escreveu, no entanto, á Rainha, summariando-lhe os desastres
de sua ultima viagem. A morte inesperada de Isabel de Castella, em 1504,
cortou-lhe, porém, todas as esperanças de conseguir justiça ás suas
reclamações. Estava pobre, e tinha sido despojado do seu governo e dos
seus bens no Haity. Logo que pôde emprehender viagem, seguiu, todavia,
de Sevilha para Segovia á procurar D. Fernando de Aragão, que, além
do seu reino, governava como regente o de Castella, na ausencia da filha
D. Joanna, herdeira de Isabel. Bem que encontrasse frieza no acolhimento
que lhe fez o Rei, perseverou em suas supplicas, acompanhando-o a
Valhadolid.
Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se não levantou
mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver
tranquillo no tumulo. Após alguns annos seus herdeiros o transportaram
para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795,
cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam,
transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde
então repousam.
Minhas senhoras e senhores.
Até aqui historiámos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor
delles, o resultado que o mundo colheu de tão trabalhados e heroicos
esforços.
Muitos são e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e
de Colombo, e em todas as linguas européas. Bibliothecas
importantes formariam as collecções de livros publicados á respeito. E
portanto varias versões, differentes apreciações, contrarios juizos,
factos differentemente recontados e opposições manifestas, encontram-se,
desde os chronistas que só o cobrem de elogios até aquelles que procuram
a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.
Soffreu numerosas injustiças durante a vida. Não menos clamorosas se
levantaram contra sua reputação depois de sua morte.
Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados
á arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia
e insoffrida temeridade.
Ousou-se negar-lhe até a gloria do descobrimento da America,
asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e
entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez
que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.
Que é das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses
exploradores primitivos? Que é das narrações que elles fizeram? Como
antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava então na Europa?
Ainda da Atlantida de Platão encontraes o mytho, a legenda, que o grande
philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que não acredita. Quanto,
porém, ás viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que só depois
da morte de Colombo é que nellas fallou-se. É muito possivel que um ou
outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas
das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as
ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sinão
o acaso? Como, porém, só se espalharam estas noticias depois que Colombo
baixara á sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se
sagas, decantaram-se expedições de aventureiros que da Groelandia se
communicavam com a America; minuciaram-se tradições, e fabricaram-se
noticias escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante
esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?--Não, nada
delles se sabia, nem mesmo por meio de tradições oraes e que se
propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando
ellas fossem reaes, não eram conhecidas.
O que é verdade e verdade historica, é que de nenhuns elementos por
elles colligidos, si é que existiram, se aproveitou Colombo para ousar
ir em busca das Indias. Inspirava-o só a certeza de que havia de
encontral-as, logo que era redondo o hemispherio terrestre. Fallam
alguns escriptores hespanhoes de um piloto portuguez que lhe deixara na
ilha da Madeira derrotas e itinerarios á que havia procedido, e de que
resultara recolher elle a noticia de terras novas ao oeste. Demonstram,
porém, o asserto, com documentos? Não os teriam portuguezes publicado
quando acaso os houvessem encontrado? Quando mesmo alguma noticia
identica lhe chegasse aos ouvidos, perderia elle os direitos de
descobridor? Quantas vezes se apropria o genio inventor de
trabalhos anteriores de outros, mas confusos materiaes, e a elle se deve
a invenção e não aos antecedentes? Equivale o descobridor de terras ao
inventor. Assim Newton, assim Galileu, assim Leibnitz, assim Colombo. Do
feito de Colombo é que resultou para a Europa o conhecimento do novo
mundo. Antes delle tudo se ignorava.