Chegara, em 1500, a Cadix, após viagem curta, o navio, que conduzia

preso a Colombo. Nada mais natural que a mudança repentina das

impressões dos animos populares. A opinião corria em Hespanha

desfavoravel á Colombo, accusado por quantos Hespanhóes regressavam do

Haity, despeitados de se não terem enriquecido, quando haviam partido da

patria arrastados pela idéa de um Eldorado certo e immediato, que

lhes compensaria os trabalhos e sacrificios. Ninguem o defendia, e

secretas se guardavam suas communicações officiaes, noticiando-se,

apenas, seus procedimentos que pareciam tyrannicos.

Ao vel-o, porém, os moradores de Cadix, desembarcar preso, com ferros

aos pés, em andrajos despreziveis, e ser transportado da caravella que o

trouxera para o calabouço dos grandes criminosos, lembraram-se de subito

do quanto elle havia praticado de importante e portentoso, descobrindo

as Indias Occidentaes, lançando gloria imarcessivel sobre Hespanha, e

creando uma escola de marinheiros e exploradores, que levavam a bandeira

régia aos confins da terra! Quantos o accusavam até alli começaram por

delle apiedar-se, observando sua situação do momento; não tardaram em

tomar seu partido, e em declarar-se contrarios aos que o perseguiam!

Modificou-se assim de novo em Hespanha a opinião publica, sem que

esperasse informação, nem esclarecimentos, nem provas; por instinctos de

justiça, porém; por opposição á violencias, á arbitrios e

despotismos. Um grito unisono soou desde Cadix até ás mais distantes

cidades e povoações dos dous reinos de Castella e Aragão.

Logo que soube do acontecimento em Granada, onde estava então a Côrte

hespanhola, mostrou-se pezarosissima a rainha Isabel e arrependida do

que havia praticado. Tratou incontinente de remediar o mal, passou

ordens terminantes para Cadix, afim de soltarem-se os presos vindos de

S. Domingos; mandou entregar á Colombo a quantia de dous mil ducados,

pois que devia carecer de dinheiro, e por seu proprio punho

escreveu-lhe, convidando-o a dirigir-se á Granada, afim de explicar-lhe

os desgraçados successos, que tinham motivado tão desagradaveis

occurrencias.

Cumpriu Colombo a ordem de Isabel, satisfeito por lhe ser dirigida tão

distincta demonstração de affecto da Rainha. Cumpre dizer aqui que á

bordo já o commandante da caravella o tratara cordial e respeitosamente,

e quizera tirar-lhe dos pés os ferros que o apertavam e opprimiam: elle,

porém, o não consentira, declarando que obedecia ao que haviam os

reis de Hespanha ordenado á Bobadilla, como seu delegado, e só uma nova

decisão régia poderia allivial-o dos seus soffrimentos.

É curioso ler-se ainda em um escripto de Fernando Colombo, publicado

posteriormente em Hespanha, que no seu gabinete em Sevilha tinha

pendurados ás paredes aquelles ferros que manietaram a seu pae desde S.

Domingos até Cadix, e que este lhe pedira que á sua morte fossem com seu

corpo encerrados na sepultura, que se lhe abrisse. Seria invento do

filho para gloriar o pai? Posto que em nenhuma das obras impressas á

respeito de Colombo se falle deste incidente, e nem do destino que os

ferros tiveram, é verosimil a narrativa, desde que se estuda o caracter

altivo e o espirito heroico de Colombo.

Acolheu-o a Rainha benevolamente no magestoso edificio do Alhambra,

antigo palacio e fortaleza dos Arabes, edificado sobre montes apraziveis

ao lado da cidade de Granada, e dominando uma formosa e extensissima

veiga, entrecortada pelos dous rios Darro e Xenil, verdadeira maravilha

da architectura! Não lhe permittiu que se lhe lançasse aos pés;

levantou-o e affirmou-lhe sua confiança e amizade com palavras

repassadas do maior sentimento. Assegurou-lhe egualmente que jámais elle

desmerecera do seu conceito e que ella continuaria a dar-lhe provas do

seu affecto.

Destituido foi logo Bobadilla da sua commissão, e mandado recolher á

Hespanha; nomeado Ovando para substituil-o no governo das Indias

Occidentaes, durante a ausencia de Colombo, com ordens expressas de

partir immediatamente. Não tardou Ovando em seguir para seu destino, á

frente de imponente frota, no proposito de executar as ordens régias em

seus dominios das Indias Occidentaes.

Reclamou, no entanto, Colombo autorização de voltar para S. Domingos, e

auxilios poderosos com que pudesse dilatar os dominios de Hespanha nas

terras descobertas, convencido cada vez mais de que navegando ainda para

o Oeste encontraria por fim o continente da Asia, de que lhe pareciam

ser ilhas proximas os logares até então reconhecidos. Prometteu

Isabel acceder-lhe aos desejos, logo que houvesse recebido noticias da

commissão confiada á Ovando, e se certificasse de que a ordem publica e

a autoridade legal se tinham restabelecido em S. Domingos. Não pesaria

nessa resolução da Rainha influencia de Fernando de Aragão, que

considerava já dispensaveis os serviços de Colombo, porque novos

argonautas hespanhóes se applicavam, á seu exemplo, em excursões

exploradoras de terras, que, sem quasi sacrificios do thesouro,

continuariam e talvez completariam a obra por elle iniciada?

Qualquer que fosse a causa, certo é que arrastou-se muito tempo ainda

Colombo pela côrte, sem conseguir satisfação a seus projectos. Durante

os longos dias que assim decorriam, antes que alcançasse deferimento,

lembrou-se de uma ideia antiga, que sempre lhe ruminava o espirito, e

que era a de libertar o tumulo de Jesus Christo em Jerusalem; propunha-a

constantemente á Rainha, e escrevia egualmente á respeito ao Summo

Pontifice de Roma, implorando-lhe as bençãos e a intervenção

protectora para que podesse realizal-a! Ao terminar o anno de 1502 é que

resolveu a Rainha deixal-o partir para as Indias Occidentaes, influida

pelos seus discursos de que era necessaria para Hespanha uma descoberta

que excedesse á de Vasco da Gama e á de Pedro Alvares Cabral, afim de

que a Hespanha se não deixasse sobrepujar pela nação portugueza. Quatro

pequenas caravellas se lhe confiaram de novo, de cerca de 60 toneladas

cada uma, tripoladas por 150 homens.

Não era mais o poderoso governador de esquadras importantes: dir-se-hia

um aventureiro obscuro, como o fôra na sua primeira viagem, e como o

haviam sido Ojeda e Pinzon. Recebia, comtudo, instrucções para cuidar de

novos descobrimentos, dirigir-se á terra firme das Indias, pelo rumo de

Oeste, e abrir emfim relações commerciaes entre ellas e Hespanha;

prohibia-se-lhe, porém, desembarcar no Haity, que convinha conservar-se

sob o governo de Ovando, suspensos, no entanto, por conveniencias

publicas seus direitos firmados nos contratos de 1492.

Resignou-se Colombo a tão estranhas resoluções. Que faria elle em

Hespanha, não querendo cumpril-as? Vegetaria vergonhosamente quando seu

genio incitava-o ainda para grandiosos emprehendimentos, e não o

interesse, mas a gloria, a anciedade de gloria, o transportava,

inspirava e electrisava?

Em maio de 1502 partiu do porto de Cadiz, para executar sua quarta

viagem ás Indias Occidentaes. Estava já avelhantado, contava entre 60 a

70 annos de edade, e mostrava-se reduzido de corpo, e depauperado de

forças physicas. Era alimentado quasi exclusivamente pelas faculdades do

espirito, que conservavam a robustez, a força, a energia da primitiva

mocidade, sem que houvessem soffrido com as decepções, trabalhos e

soffrimentos. Demorou-se em Arzilla, então possessão portugueza na costa

de Marrocos, e depois na ilha da Grande Canaria, que começava a ser

frequentada e habitada pelos Hespanhóes como sua propriedade. Refeitos

ahi os navios de viveres, seguiu o rumo de Oeste e deu fundo na ilha de

Martinica, ou, como pensam alguns chronistas, na proxima de Santa

Lucia.

Posto que contrariamente ás ordens da Rainha, pensou que poderia tocar

em S. Domingos, para o fim de ahi deixar uma das caravellas muito

ronceira e deteriorada, e em seu logar receber outra com que pudesse

proseguir nas emprezas que lhe estavam confiadas.

Mandou Colombo a S. Domingos um dos seus officiaes pedir a Ovando

autorisação para trocar uma das suas caravellas, arruinada e incapaz de

navegar, e declarar-lhe na mesma occasião que tinha necessidade tambem

de receber viveres.--Acredital-o-heis?--Prohibiu-lhe Ovando que se

approximasse de S. Domingos!--Era assim expellido brutalmente das terras

de que se reputava pelo seu contrato com a corôa governador exclusivo e

almirante!--Mandou de novo Colombo supplicar á Ovando que permittisse,

pelo menos, que se abrigasse no porto durante uma tempestade que

ameaçava, que elle percebia imminente, e que poderia causar a perda de

seus pequenos e miseraveis navios! Até para tão legitima supplica

foi-lhe denegada a licença!

Como não transbordaria de dôr e de indignação sua alma, tão susceptivel

de todos os sentimentos compassivos? Como encararia essa ingratidão de

homens para com elle, que honrara e gloriara Hespanha com seus feitos

memoraveis! Para com elle que fôra chefe e mestre de todos esses entes

secundarios, que agora dominavam!

Não teve remedio sinão fazer-se ao largo com suas caravellas: mas como

pela experiencia maritima antevia a explosão de temporaes, e

particularmente dos daquellas paragens, procurou logo o primeiro

escondrijo da ilha, e uma enseada occulta onde se abrigou contra a

tormenta que approximava.

Ella não faltou á seus calculos previdentes. O proprio porto de S.

Domingos presenciou o naufragio de varias caravellas; a frota hespanhola

que dalli sahira dias antes, e em que se embarcara para Hespanha

Bobadilla, perdeu a maior parte de seus navios; o proprio Bobadilla

exhalou a vida no seio das vagas em que foram as embarcações

submergidas.

Amainado o tempo, proseguiu Colombo, e achou-se defronte do Cabo de

Honduras, no fundo da bahia. Desembarcou, tomou posse em nome da

Hespanha, e travou relações com os indigenas. Pisava em terra firme

Americana, e pensava ainda achar-se nas Indiaticas! Correu depois a

costa para Léste acompanhando-a; chegou ao Cabo de Graças á Deus, e dahi

seguindo para o Sul encontrou o territorio de Mosquitos e mais longe a

Costa-Rica. Em poder dos gentios com quem relacionou-se, viu copiosa

quantidade de ouro em joias, corôas, braceletes, que elles trocavam por

ninharias europeas, declarando que era o solo abundante desse metal

precioso. Da Costa-Rica assim por elle denominada por causa das

noticias, navegou ao longo de Nicaragua e Veragua até Porto Bello e

Golfo de Darien, procurando uma passagem para o Oeste. Desenganado de

que a não encontrava ainda, regressou para Veragua, por lhe parecer a

localidade mais apropriada para a fundação de uma colonia européa,

e para ahi descançar algum tempo, concertar suas caravellas

bastantemente deterioradas e refazer-se de viveres.

Póde-se dizer que seus sonhos de ouro de descobrir as verdadeiras Indias

começavam á esvaecer-se e evaporar-se quaes verdadeiras chimeras! Via só

terras habitadas por selvagens, não deparava as cidades opulentas, o

commercio importante das Indias, da China, das ilhas do Japão, como o

haviam descripto os viajores que da Europa, Egypto e Jerusalem haviam

penetrado no interior da Asia! E por mais que procurasse o occidente

esbarrava em regiões incultas e desprovidas de toda a civilisação! E

entretanto aquellas ilhas, aquelle continente eram a Asia, porque se não

conhecia outro solo que se lhe interpuzesse deante da Europa! Açoutado

pelos ventos, empurrado pelas correntes, dirigindo caravellas

imprestaveis e estragadas pelo tempo e pelos mares, manobrava, todavia,

posto que velho, com aquella pericia, que o distinguira no meio dos mais

perigosos parceis.

Em Veragua deparou um excellente porto banhado por um rio navegavel, ao

qual deu o nome de Belém. Devia o solo conter ouro, e ser o sitio

apropriado para descançar das fadigas maritimas, que já agora tanto lhe

pesavam! Resolveu-se a edificar ahi uma povoação hespanhola, que

servisse á projectos futuros.

Escolhido o local, desembarcou com sua gente, e applicou-se á edificação

de uma cidade, fortificada convenientemente e sita ás ribas do rio.

Acolheram-no agradavelmente os indigenas ao principio; pouco tempo,

porém, depois, mudaram de procedimento, assaltaram-lhe a povoação, e bem

que repellidos voltaram por varias vezes como inimigos francos. Pensou

Colombo que lhes imporia a paz com a força de armas; collocou-se á

frente de setenta e cinco homens, e assaltou-os em sua aldêa mais

proxima. Destroçou-os em luta pertinaz e arrasou-lhes quasi inteiramente

a aldêa. Difficil, porém, tarefa a de domar gentios tão destemidos, e

que pertenciam á raça valente dos Caraibas, tanto mais audaciosos quanto

do interior precipitavam-se hordas e hordas no intuito de se

soccorrerem, e auxiliarem. E como poderia Colombo resistir-lhes com um

tão pequeno numero de hespanhoes, bem que suas armas de fogo e seu

denodo e valentia o amparassem? Preferiu abandonar seus intentos de ahi

fixar uma povoação européa, que não poderia sustentar-se por muito

tempo. Embarcou-se de novo, agora decidido a voltar para a Hespanha, e a

exigir melhores embarcações e mais poderosos elementos com que podesse

proseguir em seus designios. Não perdera ainda as esperanças de dilatar

sua gloria por novos feitos que praticasse! Um temporal, porém, o

assaltou logo depois da partida de Veragua. Tão maltratados ficaram seus

navios, que o almirante com dôr reconheceu-os innavegaveis. Faziam agua

por todos os poros; não havia meio de segurar-lhes as costuras; a cada

momento ameaçavam naufragar, e nem dia nem hora e nem minuto tinham de

descanço os navegantes occupados em esgotar as embarcações que se

afundavam á olhos vistos.

Difficultosamente arribou á Jamaica. Examinando com cuidado o estado das

caravellas, percebeu-as perdidas de todo, incapazes até de arrostar

aguas tranquillas. Não havia para ellas salvação, qualquer que fosse a

viagem. Não descobriu remedio sinão em abandonal-as por impossivel o

concerto. Conhecendo quanto eram bravios os indigenas da Jamaica, não

ousou desembarcar. Formou plano novo. Enterrou nas areias da praia as

suas caravellas, para que ao menos lhe servissem de morada. Encalhadas

assim e firmemente, para o convez transferiu os depositos de armas e o

resto de mantimentos e munições, e ahi armou leitos para si e para a

tripolação, como casas improvisadas. Por este modo poderia conter os

indigenas e defender-se quando assaltado, em quanto lhe não viessem

soccorros do Haity. Mandou apromptar a melhor lancha de bordo, nella

embarcou intrepidos navegantes e incumbiu-lhes fossem á S. Domingos

pedir embarcações, que o viessem buscar, compromettendo-se com Ovando

que não lhe disputaria o governo da ilha, e só queria navio, em que

podesse recolher-se á Hespanha. Pediu-lhes toda pressa em trazer-lhe

auxilios, e animou-os á seguir a costa meridional do Haity até chegar á

S. Domingos.

É mais facil que imagineis do que me seria pintar-vos os soffrimentos do

infeliz almirante: doente e obrigado a apasiguar a uns, consolar a

outros, animar os companheiros prostrados, desesperados, irritados, que

delle se queixavam, imputando-lhe temerarias e fantasticas emprezas. Não

menos de duas revoltas francamente irromperam; resultou de uma que se

embarcaram cerca de vinte e cinco sediciosos em escaleres e canôas de

gentios, e atiraram-se aos mares para se acolherem á S. Domingos, sem se

importarem com o commandante e companheiros que deixavam. Ao segundo

motim conseguiu Colombo oppôr resistencia, e feriu-se combate á bordo

dos navios encalhados; abandonados estes pelos sediciosos, foi mister

continuar a luta em terra, á vista dos gentios que se espantavam de

assistir á brigas entre os invasores. Houve mortes de parte á

parte, mas Colombo venceu e sustentou ainda sua autoridade!

Exasperava-se, todavia, porque mezes e mezes estavam decorrendo sem que

lhe viesse resposta de S. Domingos! Mais penosa e attribulada tornava-se

ainda sua situação, sómente alimentando-se com os vegetaes e fructas,

que por bem ou ameaças conseguia dos indigenas!

Felizmente que de S. Domingos chegou, no fim de um anno de soffrimentos

na Jamaica, uma pequena embarcação que se conseguira fretar, destinada a

receber á seu bordo Colombo e os tripolantes dos navios naufragados!

Seguiu então para S. Domingos; ahi recebeu-o Ovando convenientemente, e

prestou-lhe uma caravella em que seguisse viagem para Hespanha.

Que sentimento, que dores agudas não supportou Colombo, revendo a terra

que elle tanto amara, curvada agora pela mais terrivel tyrannia e

perseguidos e maltratados os gentios como animaes bravios! Tanto

Bobadilha como seu successor Ovando tratavam exclusivamente de escavar o

solo, procurando minas de ouro.

Para conseguir melhor seus intentos, aprisionavam indigenas,

obrigavam-n'os á fadigas superiores ás suas forças, atormentavam-n'os

com castigos atrozes, trucidavam-n'os á menor relutancia. Não parecia

sufficiente o arbitrio e violencia da autoridade official. A horda

hespanhola existente na ilha, famelica de riquezas, visionaria de

opulencias, atirava-se ás minas por si e por sua conta particular,

arrastados pela avidez de arrancar-lhes o thesouro. Para realizar seus

desejos não só escravisavam por seu lado, como com castigos barbaros

obrigavam os desditosos selvagens á trabalho excessivo á que não estavam

acostumados; resultava-lhes a morte mais ou menos apressada, conforme a

robustez dos corpos.

Taes foram os horrores praticados contra os infelizes indigenas, que a

voz eloquente de Las Casas acordou por fim os sentimentos religiosos da

Rainha. Impressionada Isabel com as noticias, ordenou que em vez de

escravisar os gentios, se mandassem buscar ás costas africanas pretos

afim de os substituirem no captiveiro. Infelizmente só com a

extincção dos miseros americanos é que socegou a tyrannia dos invasores,

e se puderam executar as ordens régias! Doze annos depois da descoberta

do Haity, cerca de um milhão de naturaes haviam perecido, victimas da

cobiça hespanhola, porque Ovando ao receber ordens régias terminantes

para não escravisal-os, e para substituil-os por pretos arrancados á

Africa, entendeu que a segurança dos hespanhoes exigia a diminuição de

seu numero, e então pretextando levantes e rebeldias delles, moveu-lhes

guerras continuadas, e permanentes assaltos. O exterminio augmentava de

fórma que a olhos vistos desappareciam os mal aventurados indigenas!

Horrorisa ainda hoje a noticia da matança em massa denominada de

Xaragua, em que mais de tres mil, velhos, moços, mulheres, crianças,

foram esmagados á passos de cavallo, despedaçados pelos cães de fila,

fuzilados pelos arcabuzes dos soldados, e cortados pelas espadas dos

hespanhoes, sem que se lhes attendesse ás vozes implorando misericordia,

e sem que os gentios oppuzessem a menor resistencia quando

surprehendidos em sua aldêa!

Que arrependimento não seria agora o de Colombo! De que lhe servia a

gloria do descobrimento da America deante do painel tenebroso, que aos

olhos se lhe desfraldava! Não fôra o algoz dos americanos. Fôra, porém,

quem ahi levara os carrascos para que exterminassem barbaramente uma

raça de homens innocentes e pacificos!

Desembarcado em Cadix, dirigiu-se Colombo para Sevilha, onde foi

obrigado a demorar-se alguns dias por se lhe aggravarem os padecimentos

physicos. Escreveu, no entanto, á Rainha, summariando-lhe os desastres

de sua ultima viagem. A morte inesperada de Isabel de Castella, em 1504,

cortou-lhe, porém, todas as esperanças de conseguir justiça ás suas

reclamações. Estava pobre, e tinha sido despojado do seu governo e dos

seus bens no Haity. Logo que pôde emprehender viagem, seguiu, todavia,

de Sevilha para Segovia á procurar D. Fernando de Aragão, que, além

do seu reino, governava como regente o de Castella, na ausencia da filha

D. Joanna, herdeira de Isabel. Bem que encontrasse frieza no acolhimento

que lhe fez o Rei, perseverou em suas supplicas, acompanhando-o a

Valhadolid.

Ahi suas molestias o levaram de novo ao leito, do qual se não levantou

mais. Morreu em 1506. Nem mesmo depois de perder a vida, ficou o cadaver

tranquillo no tumulo. Após alguns annos seus herdeiros o transportaram

para Sevilha; tempos mais decorridos, para S. Domingos; ainda em 1795,

cedida pelos hespanhoes aos francezes a parte da ilha que possuiam,

transferiram-se os restos mortaes de Colombo para a de Cuba, onde desde

então repousam.

Minhas senhoras e senhores.

Até aqui historiámos os factos: agora apreciemos o verdadeiro valor

delles, o resultado que o mundo colheu de tão trabalhados e heroicos

esforços.

Muitos são e alguns excellentes os escriptores que tratam da America e

de Colombo, e em todas as linguas européas. Bibliothecas

importantes formariam as collecções de livros publicados á respeito. E

portanto varias versões, differentes apreciações, contrarios juizos,

factos differentemente recontados e opposições manifestas, encontram-se,

desde os chronistas que só o cobrem de elogios até aquelles que procuram

a todo transe escurecer-lhe a memoria, e denegrir-lhe os creditos.

Soffreu numerosas injustiças durante a vida. Não menos clamorosas se

levantaram contra sua reputação depois de sua morte.

Para se lhe reduzir a memoria espalharam-se muitos escriptos destinados

á arrancar-lhe os louros que conquistara com seu genio, pertinaz audacia

e insoffrida temeridade.

Ousou-se negar-lhe até a gloria do descobrimento da America,

asseverando-se que antes delle outros haviam reconhecido o novo mundo, e

entre esses scandinavos pelo Norte do continente, e um piloto portuguez

que na Madeira fallecera ao voltar de viagens que praticara.

Que é das provas escriptas, dos vestigios deixados por esses

exploradores primitivos? Que é das narrações que elles fizeram? Como

antes de Colombo ninguem nisso fallou? Como nada constava então na Europa?

Ainda da Atlantida de Platão encontraes o mytho, a legenda, que o grande

philosopho grego attribue aos egypcios, mas em que não acredita. Quanto,

porém, ás viagens dos noruegos e islandezes, cumpre dizer que só depois

da morte de Colombo é que nellas fallou-se. É muito possivel que um ou

outro navegante daquelles mares, impellido pelos ventos e correntezas

das aguas, avistasse costas desconhecidas do Norte da America, sem as

ter procurado de proposito e de sciencia certa. Que provaria isso sinão

o acaso? Como, porém, só se espalharam estas noticias depois que Colombo

baixara á sepultura? Entretanto inventaram-se lendas, imaginaram-se

sagas, decantaram-se expedições de aventureiros que da Groelandia se

communicavam com a America; minuciaram-se tradições, e fabricaram-se

noticias escriptas. Colheu Colombo ou qualquer outro navegante

esclarecimentos, indicios desses descobrimentos anteriores?--Não, nada

delles se sabia, nem mesmo por meio de tradições oraes e que se

propalassem. Nem no solo americano vestigio se encontrara. E quando

ellas fossem reaes, não eram conhecidas.

O que é verdade e verdade historica, é que de nenhuns elementos por

elles colligidos, si é que existiram, se aproveitou Colombo para ousar

ir em busca das Indias. Inspirava-o só a certeza de que havia de

encontral-as, logo que era redondo o hemispherio terrestre. Fallam

alguns escriptores hespanhoes de um piloto portuguez que lhe deixara na

ilha da Madeira derrotas e itinerarios á que havia procedido, e de que

resultara recolher elle a noticia de terras novas ao oeste. Demonstram,

porém, o asserto, com documentos? Não os teriam portuguezes publicado

quando acaso os houvessem encontrado? Quando mesmo alguma noticia

identica lhe chegasse aos ouvidos, perderia elle os direitos de

descobridor? Quantas vezes se apropria o genio inventor de

trabalhos anteriores de outros, mas confusos materiaes, e a elle se deve

a invenção e não aos antecedentes? Equivale o descobridor de terras ao

inventor. Assim Newton, assim Galileu, assim Leibnitz, assim Colombo. Do

feito de Colombo é que resultou para a Europa o conhecimento do novo

mundo. Antes delle tudo se ignorava.

Christovam Colombo e o descobrimento da America · 第 6 / 7 段