Indias em julho de 1498, e agora do porto de S. Lucar.
Já algumas nações da Europa agitavam-se, no entanto, com o pensamento de
relacionar-se tambem com as Indias. Por que Hespanha e Portugal seriam
as unicas a ganhar louros gloriosos na historia do mundo, a dilatar os
conhecimentos e sciencias cosmographicas, a opulentar-se e enriquecer-se
em commercio e navegação? Faltavam á ellas elementos e meios para
emularem e competirem com os dous povos da peninsula iberica? Não
dispunham egualmente de homens habituados aos azares maritimos, de
temerarios chefes e soldados intrepidos para tomarem parte no movimento
assombroso e conquistador, cujas noticias causavam o espanto e a
admiração geral?
Que poderiam, porém, Francezes intentar quando seu rei, Carlos VIII,
vivia occupado em reunir á corôa franceza a Bretanha, no desejo de
completar a obra de seu finado pai, Luiz XI, que anciara unificar a
França em um só reino? Quando, além disso, iniciara guerras com Fernando
de Aragão por ciumes de dominar a Italia, e apoderar-se de Napoles e
Sicilia? Atrevidos eram ainda como sempre o haviam sido os normandos,
marinheiros audazes, e pois, em despeito das ordens régias, e apoiados
só em suas energias e temeridades particulares, começavam
espontaneamente á devassar as aguas do Atlantico, seguindo primeiramente
os passos dos portuguezes pelas Costas da Barbaria e da Guiné.
Adeantou-se-lhes, porém, Henrique VII de Inglaterra: resolvido á
partilhar as glorias de abrir caminho á seus subditos para a India,
convidou a um venesiano, de nome João Caboto e a seus filhos, residentes
em Bristol; autorizou-os á tripolarem navios, que seguindo como os
hespanhóes o rumo de Oeste, descobrissem terras e dellas se apossassem
em nome da corôa britannica. Não perdeu Caboto tempo; aprestou navios, e
ousou viajar affoitamente, antes que terminasse o anno de 1496.
Foram-lhe propicios os ventos, e acertada a direcção. Descobriu em
principios de 1497 terra na America Septentrional aos 58 gráos de
latitude; encaminhou-se dahi para o Sul e verificou varios pontos;
chegando á bahia de Cheasepeake, aos 34 gráos, no sólo fixou postes
declarativos do dominio britannico. Voltou para Inglaterra levando á seu
bordo algumas madeiras e bastantes gentios. Pararam ahi por alguns annos
as explorações por parte de Inglaterra, porque não resultavam da viagem
beneficios correspondentes ás despezas effectuadas. Si fôra Colombo o
primeiro que descobrira a America em 1492, e se apossara das ilhas do
mar das Antilhas; foi Caboto o primeiro europeu que avistou, em 1497, a
terra firme, bem que já no Haity se houvesse Colombo estabelecido e ahi
fundado a primeira povoação européa. Tanto, porém, um como o outro,
conjecturavam que tudo aquillo eram ilhas asiaticas e não propriamente
terra firme, ou um continente separado e novo.
Deixado este incidente, que muito esclarece, todavia, a historia do
descobrimento da America, acompanhemos á Colombo em 1498, na sua
terceira viagem executada, já depois da partida de Vasco da Gama, que em
1497 deixara a barra do Tejo, largando de Lisbôa, em busca egualmente
das Indias.
Com seus seis navios fundeou Colombo, segundo seu costume, na ilha
Gomera. A tres ordenou seguissem directamente para a cidade de Isabel,
no Haity. Com os outros tres, dirigiu-se para o Sul e arribou ás ilhas
de Cabo Verde. Dahi caminhou para OSO., e a 31 de julho descortinou aos
9 gráos de latitude terra desconhecida. Era a ilha que tomou o nome de
Trindade. Deslumbrando para o sul montanhas longinquas e que se perdiam
no espaço, para ellas proseguiu sua rota, e achou-se deante de um canal
rodeado de rochedos e recifes.
Espantou-se de ver o mar, bem que não agitado por ventos, levantar-se em
ondas altanadas e subir e descer furiosamente, banhando terras cobertas
de vegetação robusta e deslumbrante.
Passou instrucções aos commandantes dos navios e aos pilotos para se
acautelarem contra as correntes e impetos das vagas, emquanto elle
tratava de examinar o phenomeno.
Ordenou que das lanchas lançadas ao mar se examinasse seu fundo.
Provadas as aguas, percebeu-se que eram doces inteiramente. Comprehendeu
logo que se precipitavam alli rios caudalosos, que só de terras vastas e
não de pequenas ilhas podiam nascer tão possantes e tão abundantes.
Não se enganava. Alli rebentava o famoso Orenocco por suas numerosas e
tumultuarias boccas, despejando aguas altivas no Oceano e fazendo recuar
as salgadas do mar, prestando assim gosto adocicado ás vagas e causando
esse phenomeno de elevações extraordinarias, de correntes perigosas e de
ondas assoberbadas.
Communicou com a terra e pelos seus interpretes, que se entenderam com
os gentios, soube que penetrara no golpho denominado Pariá, que o paiz
era cultivado, e os indigenas mansos. É ponto ainda duvidoso si
desembarcou então o proprio Colombo, ou si apenas mandou pisar o
continente por seus officiaes. Como quer que seja, avistou emfim a terra
firme, travou relações com os indigenas, presenteou aos caciques com
innumeras bugigangas e vestimentas coloridas, e recebeu em troca fios de
perolas, que diziam os naturaes vinham do Oeste. Maravilhado e
satisfeitissimo, continuou sua viagem, tratando de sahir do golfo em que
se achava. Deparou caminho pela Bocca do Dragão, e penetrou no mar das
Antilhas: numerosas ilhas se lhe apresentaram ainda. A costa do Pariá
seria ainda uma ilha, ou era já parte do continente das Indias que por
alli se estendiam? Posto que mergulhado em duvidas, tomou as alturas,
verificou as localidades, e tratou de recolher-se ao Haity, para mais
tarde e acuradamente proceder á escrupulosa exploração.
Chegado á Isabel, soube que seu irmão Bartholomeu fundara uma nova
cidade ao sul da ilha, á qual dera o nome de S. Domingos, nas
proximidades das minas de Hayna, e que resultados mais compensadores
alcançavam suas fadigas, tendo-se extrahido já bastante ouro. Para
lá partiu incontinenti Colombo, e converteu S. Domingos em séde do
governo. Fundações de novas aldêas e fortes militares determinou tambem,
assegurando assim a posse da ilha e curvando os gentios a seu governo.
Concedeu a uns liberdade, com obrigação de pagar tributos; declarou
captivos os remissos, e empregou-os nos trabalhos da mineração. Quanto
aos prisioneiros de guerra, perseverou no systema de envial-os para
Hespanha, afim de lá se venderem como escravos.
Não viviam, porém, tranquillos os hespanhóes; intrigas, tumultos, rixas
entre si, ameaças de revoltas, tinham roubado muito tempo á Bartholomeu,
durante a ausencia de seu irmão. A presença deste não extinguiu as
tentativas sediciosas. Um capitão, Roldan, havia levantado o estandarte
da rebellião, e á frente de gente bastante tinha-se fortificado em um
posto militar, atacando dahi e assaltando as povoações hespanholas
vizinhas, e incitando as tribus de gentios a se não resignarem ao
jugo dos hespanhóes, que muitas eram e dirigidas todas por caciques
particulares. Foi o almirante compellido a guerrear de novo. Á frente de
numeroso corpo de soldados e servindo-se de cães de fila, e agora tambem
de cavallaria, de que já dispunha, e que muito assustavam e maltratavam
os gentios, dirigiu-se ás possessões do cacique Guarionez e desbaratou-o
completamente. O mesmo não pôde, porém, fazer no tocante aos revoltosos
hespanhóes capitaneados pelo chefe Roldan. Conjecturou ser melhor
politica transigir e conciliar-se, fingindo acredital-o arrependido de
haver-se levantado contra Bartholomeu, que elle accusava de injustiças
praticadas.
Era um bravo e ousado soldado, que Colombo poderia conter com geito, e
aproveitar para emprezas de vulto, bem que dahi podesse resultar quebra
de seu prestigio. Não seria mais desastrosa uma guerra civil, caso o
tratasse como qualquer outro rebelde e elle resistisse, como se deveria
temer?
Cumpre aqui dizer que o ouro e perolas enviadas para Hespanha, e as
communicações officiaes feitas por Colombo de que descobrira as terras
opulentas do Golfo do Pariá, e que dahi esperava colher copiosas
riquezas, incitaram os animos de muitos audazes aventureiros, que se
propuzeram logo aos reis catholicos para á suas expensas particulares
emprehenderem descobrimentos novos. Não annunciara o governo que
concederia patentes para suas emprezas? Animava-os, além disso, o bispo
Fonseca, e á um delles, Alonso Ojeda, seu protegido, antigo companheiro
e subordinado de Colombo, mas de quem agora se manifestava inimigo,
concedeu-se carta régia patente para por sua conta aprestar navios e
explorar continentes novos.
Quatro caravellas aprestou Ojeda, e partiu do porto de Santa Maria,
defronte de Cadiz, em maio de 1499, levando como seus socios e
companheiros um basco atrevido, por nome João de la Cósa, que aprendera
ás ordens tambem de Colombo, e o florentino Americo Vespucio, que
residia em Hespanha, e era muito applicado á estudos cosmographicos e á
confecção de cartas maritimas, e ambiciosissimo de tomar parte em
expedições da India. Foi esta a sua primeira viagem, sob o commando de
Ojeda, bem que elle em cartas particulares, que se publicaram, e que
muito teem illudido os historiadores, declarasse falsamente que já em
1497 viajara nas Indias Occidentaes: com quem e quando, nunca exhibiu
provas e nem deu ou deixou o menor esclarecimento, cahindo em
contradicções palpaveis, e em inexactidões á respeito dos gráos de
latitude, o que prova imaginara e não vira com seus olhos. Conseguiu
Ojeda do bispo Fonseca cópia do roteiro da terceira viagem de Colombo, e
dirigiu-se inteiramente por elle. Descahiu um pouco para o sul, e,
segundo affirma, descobriu terras que se conjecturam ser as Guyannas,
bem que credulos escriptores pensem ter elle chegado ao Brazil. Volveu
das Guyannas para o Norte, sem ter ultrapassado a linha, como elle
proprio o assevera. Atravessou o golfo de Pariá, e foi cosendo-se com a
terra firme. Desembarcou perto da Bocca do Dragão, e encontrando
valentes oppositores nos gentios, travou com elles combates
sanguinolentos, e perdeu bastante gente. Continuou, e ao entrar no golfo
de Venezuela, simularam os indigenas que o acolhiam amistosamente,
levando para bordo dos quatro navios hespanhóes cerca de vinte mulheres.
Confiadamente desceu á terra Ojeda. Foi então assaltado repentinamente,
e com difficuldades inauditas pôde voltar para seus navios. Revelaram-se
os indigenas valentes lidadores, e usavam de flexas, escudos e lanças,
batendo-se com alguma estrategia, e matando bastantes soldados adversos.
Proseguindo em suas aventuras, sem nenhum proveito, chegou ao Cabo da
Vela: faltando-lhe viveres, dirigiu-se ao Haity, quando recebera ordens
positivas em Hespanha para lá não desembarcar nessa ilha que era
privativa de Colombo.
Que decepção apoderou-se de Colombo ao saber que navegavam hespanhóes
por aquellas aguas e terras que elle reputava de seu governo e que
lhe não prestavam preito e homenagem! Não infringira a Corôa hespanhola
seus contratos concedendo-lhes licenças? Não se lhe desprestigiava a
autoridade?
Quantas difficuldades, perigos e desgostos para Colombo! Não lhe
bastavam as permanentes sedições de rebeldes hespanhóes contra sua
dominação. Não se haviam levantado Guemara e Moxica em 1500? Moxica e
seus companheiros haviam sido condemnados á morte e executados, e
Colombo precisava tornar-se mais severo e inexoravel com os
conspiradores. Felizmente para Colombo, occupou-se Ojeda em concertar
seus navios e refazer-se de viveres e aguada, e voltou para Hespanha sem
causar-lhe o menor desgosto.
As noticias, porém, que á Hespanha chegavam á respeito da situação do
Haity, das sublevações alli verificadas, e dos actos rigorosos que fôra
Colombo compellido á commetter, suscitaram de novo clamores do povo
contra Colombo, e impressionaram forte e desagradavelmente a propria
rainha Isabel á seu respeito. Não ouvia ella sómente queixas de
seus inimigos e relatorios parciaes do bispo Fonseca? Por elles julgou
conveniente decretar uma providencia destinada á syndicar o procedimento
de Colombo, e á averiguar a verdade das accusações, que constantemente
se lhe dirigiam. Nomeou á Bobadilha para seu representante nas Indias
Occidentaes, e muniu-o de plenos e geraes poderes para castigar quantos
julgasse criminosos, e retirar até das mãos de Colombo o governo da
colonia, caso o considerasse indispensavel.
Em julho de 1500 partiu Bobadilha para o Haity.
Apenas desembarcado em S. Domingos, chama as autoridades, mostra-lhes
seus plenos poderes, e declara-se na posse das conquistas,
aproveitando-se da ausencia de Colombo e de seu irmão, que estavam no
forte distante da Conceição.
Todos curvam-se á sua voz e ás ordens régias. Manda então Bobadilha
intimar á Colombo para que venha defender-se de accusações que contra
elle haviam sido endereçadas á Corôa. Não se temeu Colombo de
partir para S. Domingos. Bem, todavia, não havia chegado, foi preso com
seus irmãos e amigos, carregados todos de ferros, e encarcerados em uma
fortaleza. Processos se organizaram, ouviram-se como testemunhas quantos
se suspeitavam adversos ao almirante. Não houve crime de arbitrio,
tyrannia, concussão, ou roubo que lhe não fosse imputado. Embarcados em
uma caravella foram Colombo e seus companheiros de infortunio mandados
para Hespanha, com ferros aos pés, e ordens para serem vigiados por
guardas, quaes réos de horrorosos attentados. Assim pagavam os reis de
Hespanha á Christovam Colombo seu grande feito de descobrir um novo
mundo!
QUINTA CONFERENCIA
12 de julho de 1891
Entramos no seculo XVI. Resplendia elle, e corria seu primeiro anno, o
de 1500.
Devia, com certeza, ter-se fundamente impressionado a Europa com as
novas continuadas de expedições effectuadas por hespanhóes e portuguezes
em mares nunca até alli devassados, e descobrimentos de terras
inteiramente desconhecidas.
Portugal começara ao principiar o seculo XV. Unica nação persistira,
durante elle, em aprestar e atirar ao oceano uns apoz outros navios.
Tinha conseguido desencerrar os segredos dos mares; tinha conseguido
dissipar os terrores da zona torrida, corrido a costa d'Africa para
o sul, dobrado--primeiro povo--a linha equinocial, e attingido e
reconhecido emfim o Cabo da Boa-Esperança, ao sul, aos 34 gráos de
latitude. Abrira, portanto, o commercio da Guiné e da Mina, e
avassallara as copiosas ilhas, que desde os Açores ramalhetam o
Atlantico, em ambos os hemispherios. Hespanha começara, em 1492, á
explorar continentes novos, sob a direcção de Christovam Colombo, e
alcançara no curto espaço de oito annos penetrar no mar das Antilhas,
dominar importantes ilhas e avistar a terra firme do Pariá e Venezuela.
Estaria só á Hespanha e á Portugal destinada a gloriosa tarefa de
retalhar os mares, deparar terras novas, aperfeiçoar as sciencias
mathematicas e physicas, abrir relações commerciaes com povos
desconhecidos? E o que é mais, gravar na historia universal as paginas
mais deslumbrantes e proveitosas para a civilisação e a humanidade?
Certo é que, á excepção de Inglaterra, que em 1497 fixara marcos de
posse na costa Norte-Americana, graças ás ousadias dos Cabotos, mas
que ahi parara, nada mais promovendo; nem a França com seus destemidos
marinheiros normandos, que durante a edade média assolavam as praias de
Hespanha, Portugal, Napoles e da Sicilia; nem qualquer outra nação
européa se movia ao raiar do seculo XVI, primeiro dos tempos chamados
modernos, á seguir-lhes o exemplo.
A corôa hespanhola firmara o principio de concessões á particulares que
proseguissem na carreira das explorações, entendendo que era mais
conveniente politica aproveitar-se dos seus trabalhos, sem dispendios,
antes com vantagens para o thesouro.
Logo após Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no
mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon,
munidos de cartas patentes de concessão. Colombo aprendera na escola
maritima portugueza. Creara, porém, em Hespanha, ao devotar-se ao
serviço das corôas de Castella e Aragão, uma escola notavel egualmente
de marinheiros intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com
os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides
eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas
ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de
descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a
vida maritima muitos hespanhóes ambiciosos que posteriormente
commetteram portentosas façanhas. Nino com uma só pequena caravella do
porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e
Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcançara dos
gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubiça.
Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro á
dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando
quatro caravellas. Navegando então para o Oeste, descobriu a 28 de
janeiro de 1500, á varios gráos de latitude sul, uma terra, que
denominou Santa Maria da Consolação, e que parece ser o actual Cabo de
Santo Agostinho.
Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de
Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte,
porque nos assentos do diario de bordo se não fixou exactamente a
latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon
o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante á
Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declarações no
processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Corôa, ultimamente
publicado, resulta prova de que não passou a Equinocial para o sul.
Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que
avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com
denodo e lhe mataram dez homens da tripolação dos navios, teve que
abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob
a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo
e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de
trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas,
entranhando-se nas do oceano, e repellindo-as com força, subiam e
desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com
medonho estampido. Saltou ahi em terra, e não encontrando opposição dos
gentios, apanhou por surpreza á muitos que embarcou nos navios, seguindo
logo depois para o Pariá. Um terrivel tufão causou o naufragio de duas
de suas caravellas. Salvaram-se á custo as restantes, que aportando
felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides
não passou do golfo do Pariá, bem como Leppe, posto que este declarasse
em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa não
tomara os gráos de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas
assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um
rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas,
quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove
haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.
Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhóes pelos mares do Oeste,
não cessavam, por seu lado, os portuguezes de continuar em
descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira
Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto.
As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho,
o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moçambique,
Melinde, Mombaça na Africa Oriental. Não contente ainda El-Rei D. Manoel
com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real,
em 1500, praticasse uma excursão ao Norte pelo Atlantico no proposito de
acompanhar os hespanhóes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do
Labrador, e o rio S. Lourenço. Em segunda viagem, a que de novo se
arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu
desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.
Á 9 de março de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral,
commandando armada importante, afim de continuar as explorações de Vasco
da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo
e ao O. para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperança,
descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do
Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gráos de latitude.
Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relações com os
indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella
demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.
Allegou Hespanha seus direitos á terra do Brazil, descoberta antes e ao
N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em consideração
do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mão,
considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no
futuro para ahi se dirigissem.
Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem
Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciação das terras que ao
Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na
crença de que eram ilhas sinão costas da Asia, e portanto as
denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de
indios.
Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente
novo, inteiramente então desconhecido, habitado por uma raça diversa, e
onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e
innocentes, residiam nações civilisadas como os Incas do Perú e os
Aztecas do Mexico!
Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes
praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das
Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes
vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos
gigantescos. Si após Colombo, denodados Hespanhóes, como Ojeda, Vasco
Nunez de Balboã, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe
importantissima parte do continente Americano, e conquistaram até reinos
civilisados como os do Mexico e Perú, ao lado e no centro de povos
barbaros; Bartholomeu Dias não se manifesta tambem arrojado
navegador, e não commettera façanha reconhecendo o Cabo das Tormentas?
Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e João de
Castro não perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas,
não submetteram as nações poderosas e opulentas do Malabar e golfo
Persico de Malaca? Não levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?
Deviam, portanto, ao saberem dessas excursões prodigiosas de Portuguezes
e Hespanhóes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus.
Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo
XVI, para que Portuguezes e Hespanhóes não fossem os unicos que
dominassem o mundo até alli ignorado. Que importava que os feitos dos
filhos da Iberia produzissem admiração e espanto, formassem verdadeiras
epopéas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro
vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambições. Havia
espaço para todos. Convinha não se conservarem tranquillos espectadores
do movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes,
Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e
particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas
conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.
Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos
referido, bem que pareçam estranhos á primeira vista, mas que estudados
coincidem e explicam os relativos á Colombo e ao descobrimento da
America, prosigamos na narrativa de sua prisão e remessa para Hespanha.