Partiu assim Colombo para sua terceira viagem de descobrimento das

Indias em julho de 1498, e agora do porto de S. Lucar.

Já algumas nações da Europa agitavam-se, no entanto, com o pensamento de

relacionar-se tambem com as Indias. Por que Hespanha e Portugal seriam

as unicas a ganhar louros gloriosos na historia do mundo, a dilatar os

conhecimentos e sciencias cosmographicas, a opulentar-se e enriquecer-se

em commercio e navegação? Faltavam á ellas elementos e meios para

emularem e competirem com os dous povos da peninsula iberica? Não

dispunham egualmente de homens habituados aos azares maritimos, de

temerarios chefes e soldados intrepidos para tomarem parte no movimento

assombroso e conquistador, cujas noticias causavam o espanto e a

admiração geral?

Que poderiam, porém, Francezes intentar quando seu rei, Carlos VIII,

vivia occupado em reunir á corôa franceza a Bretanha, no desejo de

completar a obra de seu finado pai, Luiz XI, que anciara unificar a

França em um só reino? Quando, além disso, iniciara guerras com Fernando

de Aragão por ciumes de dominar a Italia, e apoderar-se de Napoles e

Sicilia? Atrevidos eram ainda como sempre o haviam sido os normandos,

marinheiros audazes, e pois, em despeito das ordens régias, e apoiados

só em suas energias e temeridades particulares, começavam

espontaneamente á devassar as aguas do Atlantico, seguindo primeiramente

os passos dos portuguezes pelas Costas da Barbaria e da Guiné.

Adeantou-se-lhes, porém, Henrique VII de Inglaterra: resolvido á

partilhar as glorias de abrir caminho á seus subditos para a India,

convidou a um venesiano, de nome João Caboto e a seus filhos, residentes

em Bristol; autorizou-os á tripolarem navios, que seguindo como os

hespanhóes o rumo de Oeste, descobrissem terras e dellas se apossassem

em nome da corôa britannica. Não perdeu Caboto tempo; aprestou navios, e

ousou viajar affoitamente, antes que terminasse o anno de 1496.

Foram-lhe propicios os ventos, e acertada a direcção. Descobriu em

principios de 1497 terra na America Septentrional aos 58 gráos de

latitude; encaminhou-se dahi para o Sul e verificou varios pontos;

chegando á bahia de Cheasepeake, aos 34 gráos, no sólo fixou postes

declarativos do dominio britannico. Voltou para Inglaterra levando á seu

bordo algumas madeiras e bastantes gentios. Pararam ahi por alguns annos

as explorações por parte de Inglaterra, porque não resultavam da viagem

beneficios correspondentes ás despezas effectuadas. Si fôra Colombo o

primeiro que descobrira a America em 1492, e se apossara das ilhas do

mar das Antilhas; foi Caboto o primeiro europeu que avistou, em 1497, a

terra firme, bem que já no Haity se houvesse Colombo estabelecido e ahi

fundado a primeira povoação européa. Tanto, porém, um como o outro,

conjecturavam que tudo aquillo eram ilhas asiaticas e não propriamente

terra firme, ou um continente separado e novo.

Deixado este incidente, que muito esclarece, todavia, a historia do

descobrimento da America, acompanhemos á Colombo em 1498, na sua

terceira viagem executada, já depois da partida de Vasco da Gama, que em

1497 deixara a barra do Tejo, largando de Lisbôa, em busca egualmente

das Indias.

Com seus seis navios fundeou Colombo, segundo seu costume, na ilha

Gomera. A tres ordenou seguissem directamente para a cidade de Isabel,

no Haity. Com os outros tres, dirigiu-se para o Sul e arribou ás ilhas

de Cabo Verde. Dahi caminhou para OSO., e a 31 de julho descortinou aos

9 gráos de latitude terra desconhecida. Era a ilha que tomou o nome de

Trindade. Deslumbrando para o sul montanhas longinquas e que se perdiam

no espaço, para ellas proseguiu sua rota, e achou-se deante de um canal

rodeado de rochedos e recifes.

Espantou-se de ver o mar, bem que não agitado por ventos, levantar-se em

ondas altanadas e subir e descer furiosamente, banhando terras cobertas

de vegetação robusta e deslumbrante.

Passou instrucções aos commandantes dos navios e aos pilotos para se

acautelarem contra as correntes e impetos das vagas, emquanto elle

tratava de examinar o phenomeno.

Ordenou que das lanchas lançadas ao mar se examinasse seu fundo.

Provadas as aguas, percebeu-se que eram doces inteiramente. Comprehendeu

logo que se precipitavam alli rios caudalosos, que só de terras vastas e

não de pequenas ilhas podiam nascer tão possantes e tão abundantes.

Não se enganava. Alli rebentava o famoso Orenocco por suas numerosas e

tumultuarias boccas, despejando aguas altivas no Oceano e fazendo recuar

as salgadas do mar, prestando assim gosto adocicado ás vagas e causando

esse phenomeno de elevações extraordinarias, de correntes perigosas e de

ondas assoberbadas.

Communicou com a terra e pelos seus interpretes, que se entenderam com

os gentios, soube que penetrara no golpho denominado Pariá, que o paiz

era cultivado, e os indigenas mansos. É ponto ainda duvidoso si

desembarcou então o proprio Colombo, ou si apenas mandou pisar o

continente por seus officiaes. Como quer que seja, avistou emfim a terra

firme, travou relações com os indigenas, presenteou aos caciques com

innumeras bugigangas e vestimentas coloridas, e recebeu em troca fios de

perolas, que diziam os naturaes vinham do Oeste. Maravilhado e

satisfeitissimo, continuou sua viagem, tratando de sahir do golfo em que

se achava. Deparou caminho pela Bocca do Dragão, e penetrou no mar das

Antilhas: numerosas ilhas se lhe apresentaram ainda. A costa do Pariá

seria ainda uma ilha, ou era já parte do continente das Indias que por

alli se estendiam? Posto que mergulhado em duvidas, tomou as alturas,

verificou as localidades, e tratou de recolher-se ao Haity, para mais

tarde e acuradamente proceder á escrupulosa exploração.

Chegado á Isabel, soube que seu irmão Bartholomeu fundara uma nova

cidade ao sul da ilha, á qual dera o nome de S. Domingos, nas

proximidades das minas de Hayna, e que resultados mais compensadores

alcançavam suas fadigas, tendo-se extrahido já bastante ouro. Para

lá partiu incontinenti Colombo, e converteu S. Domingos em séde do

governo. Fundações de novas aldêas e fortes militares determinou tambem,

assegurando assim a posse da ilha e curvando os gentios a seu governo.

Concedeu a uns liberdade, com obrigação de pagar tributos; declarou

captivos os remissos, e empregou-os nos trabalhos da mineração. Quanto

aos prisioneiros de guerra, perseverou no systema de envial-os para

Hespanha, afim de lá se venderem como escravos.

Não viviam, porém, tranquillos os hespanhóes; intrigas, tumultos, rixas

entre si, ameaças de revoltas, tinham roubado muito tempo á Bartholomeu,

durante a ausencia de seu irmão. A presença deste não extinguiu as

tentativas sediciosas. Um capitão, Roldan, havia levantado o estandarte

da rebellião, e á frente de gente bastante tinha-se fortificado em um

posto militar, atacando dahi e assaltando as povoações hespanholas

vizinhas, e incitando as tribus de gentios a se não resignarem ao

jugo dos hespanhóes, que muitas eram e dirigidas todas por caciques

particulares. Foi o almirante compellido a guerrear de novo. Á frente de

numeroso corpo de soldados e servindo-se de cães de fila, e agora tambem

de cavallaria, de que já dispunha, e que muito assustavam e maltratavam

os gentios, dirigiu-se ás possessões do cacique Guarionez e desbaratou-o

completamente. O mesmo não pôde, porém, fazer no tocante aos revoltosos

hespanhóes capitaneados pelo chefe Roldan. Conjecturou ser melhor

politica transigir e conciliar-se, fingindo acredital-o arrependido de

haver-se levantado contra Bartholomeu, que elle accusava de injustiças

praticadas.

Era um bravo e ousado soldado, que Colombo poderia conter com geito, e

aproveitar para emprezas de vulto, bem que dahi podesse resultar quebra

de seu prestigio. Não seria mais desastrosa uma guerra civil, caso o

tratasse como qualquer outro rebelde e elle resistisse, como se deveria

temer?

Cumpre aqui dizer que o ouro e perolas enviadas para Hespanha, e as

communicações officiaes feitas por Colombo de que descobrira as terras

opulentas do Golfo do Pariá, e que dahi esperava colher copiosas

riquezas, incitaram os animos de muitos audazes aventureiros, que se

propuzeram logo aos reis catholicos para á suas expensas particulares

emprehenderem descobrimentos novos. Não annunciara o governo que

concederia patentes para suas emprezas? Animava-os, além disso, o bispo

Fonseca, e á um delles, Alonso Ojeda, seu protegido, antigo companheiro

e subordinado de Colombo, mas de quem agora se manifestava inimigo,

concedeu-se carta régia patente para por sua conta aprestar navios e

explorar continentes novos.

Quatro caravellas aprestou Ojeda, e partiu do porto de Santa Maria,

defronte de Cadiz, em maio de 1499, levando como seus socios e

companheiros um basco atrevido, por nome João de la Cósa, que aprendera

ás ordens tambem de Colombo, e o florentino Americo Vespucio, que

residia em Hespanha, e era muito applicado á estudos cosmographicos e á

confecção de cartas maritimas, e ambiciosissimo de tomar parte em

expedições da India. Foi esta a sua primeira viagem, sob o commando de

Ojeda, bem que elle em cartas particulares, que se publicaram, e que

muito teem illudido os historiadores, declarasse falsamente que já em

1497 viajara nas Indias Occidentaes: com quem e quando, nunca exhibiu

provas e nem deu ou deixou o menor esclarecimento, cahindo em

contradicções palpaveis, e em inexactidões á respeito dos gráos de

latitude, o que prova imaginara e não vira com seus olhos. Conseguiu

Ojeda do bispo Fonseca cópia do roteiro da terceira viagem de Colombo, e

dirigiu-se inteiramente por elle. Descahiu um pouco para o sul, e,

segundo affirma, descobriu terras que se conjecturam ser as Guyannas,

bem que credulos escriptores pensem ter elle chegado ao Brazil. Volveu

das Guyannas para o Norte, sem ter ultrapassado a linha, como elle

proprio o assevera. Atravessou o golfo de Pariá, e foi cosendo-se com a

terra firme. Desembarcou perto da Bocca do Dragão, e encontrando

valentes oppositores nos gentios, travou com elles combates

sanguinolentos, e perdeu bastante gente. Continuou, e ao entrar no golfo

de Venezuela, simularam os indigenas que o acolhiam amistosamente,

levando para bordo dos quatro navios hespanhóes cerca de vinte mulheres.

Confiadamente desceu á terra Ojeda. Foi então assaltado repentinamente,

e com difficuldades inauditas pôde voltar para seus navios. Revelaram-se

os indigenas valentes lidadores, e usavam de flexas, escudos e lanças,

batendo-se com alguma estrategia, e matando bastantes soldados adversos.

Proseguindo em suas aventuras, sem nenhum proveito, chegou ao Cabo da

Vela: faltando-lhe viveres, dirigiu-se ao Haity, quando recebera ordens

positivas em Hespanha para lá não desembarcar nessa ilha que era

privativa de Colombo.

Que decepção apoderou-se de Colombo ao saber que navegavam hespanhóes

por aquellas aguas e terras que elle reputava de seu governo e que

lhe não prestavam preito e homenagem! Não infringira a Corôa hespanhola

seus contratos concedendo-lhes licenças? Não se lhe desprestigiava a

autoridade?

Quantas difficuldades, perigos e desgostos para Colombo! Não lhe

bastavam as permanentes sedições de rebeldes hespanhóes contra sua

dominação. Não se haviam levantado Guemara e Moxica em 1500? Moxica e

seus companheiros haviam sido condemnados á morte e executados, e

Colombo precisava tornar-se mais severo e inexoravel com os

conspiradores. Felizmente para Colombo, occupou-se Ojeda em concertar

seus navios e refazer-se de viveres e aguada, e voltou para Hespanha sem

causar-lhe o menor desgosto.

As noticias, porém, que á Hespanha chegavam á respeito da situação do

Haity, das sublevações alli verificadas, e dos actos rigorosos que fôra

Colombo compellido á commetter, suscitaram de novo clamores do povo

contra Colombo, e impressionaram forte e desagradavelmente a propria

rainha Isabel á seu respeito. Não ouvia ella sómente queixas de

seus inimigos e relatorios parciaes do bispo Fonseca? Por elles julgou

conveniente decretar uma providencia destinada á syndicar o procedimento

de Colombo, e á averiguar a verdade das accusações, que constantemente

se lhe dirigiam. Nomeou á Bobadilha para seu representante nas Indias

Occidentaes, e muniu-o de plenos e geraes poderes para castigar quantos

julgasse criminosos, e retirar até das mãos de Colombo o governo da

colonia, caso o considerasse indispensavel.

Em julho de 1500 partiu Bobadilha para o Haity.

Apenas desembarcado em S. Domingos, chama as autoridades, mostra-lhes

seus plenos poderes, e declara-se na posse das conquistas,

aproveitando-se da ausencia de Colombo e de seu irmão, que estavam no

forte distante da Conceição.

Todos curvam-se á sua voz e ás ordens régias. Manda então Bobadilha

intimar á Colombo para que venha defender-se de accusações que contra

elle haviam sido endereçadas á Corôa. Não se temeu Colombo de

partir para S. Domingos. Bem, todavia, não havia chegado, foi preso com

seus irmãos e amigos, carregados todos de ferros, e encarcerados em uma

fortaleza. Processos se organizaram, ouviram-se como testemunhas quantos

se suspeitavam adversos ao almirante. Não houve crime de arbitrio,

tyrannia, concussão, ou roubo que lhe não fosse imputado. Embarcados em

uma caravella foram Colombo e seus companheiros de infortunio mandados

para Hespanha, com ferros aos pés, e ordens para serem vigiados por

guardas, quaes réos de horrorosos attentados. Assim pagavam os reis de

Hespanha á Christovam Colombo seu grande feito de descobrir um novo

mundo!

QUINTA CONFERENCIA

12 de julho de 1891

Entramos no seculo XVI. Resplendia elle, e corria seu primeiro anno, o

de 1500.

Devia, com certeza, ter-se fundamente impressionado a Europa com as

novas continuadas de expedições effectuadas por hespanhóes e portuguezes

em mares nunca até alli devassados, e descobrimentos de terras

inteiramente desconhecidas.

Portugal começara ao principiar o seculo XV. Unica nação persistira,

durante elle, em aprestar e atirar ao oceano uns apoz outros navios.

Tinha conseguido desencerrar os segredos dos mares; tinha conseguido

dissipar os terrores da zona torrida, corrido a costa d'Africa para

o sul, dobrado--primeiro povo--a linha equinocial, e attingido e

reconhecido emfim o Cabo da Boa-Esperança, ao sul, aos 34 gráos de

latitude. Abrira, portanto, o commercio da Guiné e da Mina, e

avassallara as copiosas ilhas, que desde os Açores ramalhetam o

Atlantico, em ambos os hemispherios. Hespanha começara, em 1492, á

explorar continentes novos, sob a direcção de Christovam Colombo, e

alcançara no curto espaço de oito annos penetrar no mar das Antilhas,

dominar importantes ilhas e avistar a terra firme do Pariá e Venezuela.

Estaria só á Hespanha e á Portugal destinada a gloriosa tarefa de

retalhar os mares, deparar terras novas, aperfeiçoar as sciencias

mathematicas e physicas, abrir relações commerciaes com povos

desconhecidos? E o que é mais, gravar na historia universal as paginas

mais deslumbrantes e proveitosas para a civilisação e a humanidade?

Certo é que, á excepção de Inglaterra, que em 1497 fixara marcos de

posse na costa Norte-Americana, graças ás ousadias dos Cabotos, mas

que ahi parara, nada mais promovendo; nem a França com seus destemidos

marinheiros normandos, que durante a edade média assolavam as praias de

Hespanha, Portugal, Napoles e da Sicilia; nem qualquer outra nação

européa se movia ao raiar do seculo XVI, primeiro dos tempos chamados

modernos, á seguir-lhes o exemplo.

A corôa hespanhola firmara o principio de concessões á particulares que

proseguissem na carreira das explorações, entendendo que era mais

conveniente politica aproveitar-se dos seus trabalhos, sem dispendios,

antes com vantagens para o thesouro.

Logo após Ojeda, quatro novos argonautas partiram de Hespanha, e no

mesmo anno de 1499, Pedro Alonzo Nino, Leppe, Bastides e Vicente Pinzon,

munidos de cartas patentes de concessão. Colombo aprendera na escola

maritima portugueza. Creara, porém, em Hespanha, ao devotar-se ao

serviço das corôas de Castella e Aragão, uma escola notavel egualmente

de marinheiros intrepidos e arrojados, que emulavam briosamente com

os portuguezes. Tanto Ojeda e os Pinzons, como Leppe, Nino e Bastides

eram discipulos de Colombo; haviam sido seus companheiros de emprezas

ultramarinas, e servido sob suas ordens desde a primeira viagem de

descobrimento em 1492. Os feitos e a gloria de Colombo attrahiam para a

vida maritima muitos hespanhóes ambiciosos que posteriormente

commetteram portentosas façanhas. Nino com uma só pequena caravella do

porte de 50 toneladas percorreu, em 1500, as costas de Venezuela e

Maracaibo; enriqueceu-se com perolas que em quantidade alcançara dos

gentios, e que levadas para a Europa suscitaram ainda mais a cubiça.

Vicente Pinzon, sahido tambem de Palos em fins de 1499, foi o primeiro á

dobrar a linha equinocial para o sul, em afastada latitude, commandando

quatro caravellas. Navegando então para o Oeste, descobriu a 28 de

janeiro de 1500, á varios gráos de latitude sul, uma terra, que

denominou Santa Maria da Consolação, e que parece ser o actual Cabo de

Santo Agostinho.

Era terra do Brazil, bem que ainda seja hoje duvidoso, si o Cabo de

Santo Agostinho, na provincia de Pernambuco, ou outro mais ao norte,

porque nos assentos do diario de bordo se não fixou exactamente a

latitude, e apenas um calculo approximado. Foi, portanto, Vicente Pinzon

o primeiro a avistar e pisar o continente brazileiro. No tocante á

Ojeda, pelo seu proprio jornal maritimo e por suas declarações no

processo judiciario dos filhos de Colombo contra a Corôa, ultimamente

publicado, resulta prova de que não passou a Equinocial para o sul.

Pinzon tomou posse, em nome dos reis de Hespanha, das terras que

avistara. Encontrando depois numerosos indigenas, que lhe resistiram com

denodo e lhe mataram dez homens da tripolação dos navios, teve que

abandonar o sitio e seguiu para NO. Achou-se em um mar de agua doce, sob

a linha equinocial, ahi descortinou tambem terras opulentas de arvoredo

e reconheceu que estava nas boccas de um rio caudaloso, com mais de

trinta leguas de largura. Era o nosso Amazonas, cujas aguas,

entranhando-se nas do oceano, e repellindo-as com força, subiam e

desciam a olhos vistos, levantavam vagas monstruosas, e roncavam com

medonho estampido. Saltou ahi em terra, e não encontrando opposição dos

gentios, apanhou por surpreza á muitos que embarcou nos navios, seguindo

logo depois para o Pariá. Um terrivel tufão causou o naufragio de duas

de suas caravellas. Salvaram-se á custo as restantes, que aportando

felizmente ao Haity, dahi voltaram em setembro para Hespanha. Bastides

não passou do golfo do Pariá, bem como Leppe, posto que este declarasse

em seu jornal de bordo que vira o hemispherio sul, quando confessa não

tomara os gráos de latitude. Dahi deriva-se haver muitos chronistas

assegurado que elle avistara o Brazil. Dando noticia das boccas de um

rio caudaloso, em que quasi se perdera, conjecturou-se ser o Amazonas,

quando deve ser o Orinoco, pois que, nenhum documento apparece que prove

haver Leppe ultrapassado a linha equinocial.

Emquanto assim e unicos navegavam os Hespanhóes pelos mares do Oeste,

não cessavam, por seu lado, os portuguezes de continuar em

descobrimentos ultramarinos para as bandas do Oriente. Em 1497 partira

Vasco da Gama, e voltara para Lisboa em 1498, aos 29 do mez de agosto.

As verdadeiras Indias haviam por elle sido descobertas, o mar Vermelho,

o golfo Persico, Calicut e a costa do Malabar; Sofala, Moçambique,

Melinde, Mombaça na Africa Oriental. Não contente ainda El-Rei D. Manoel

com as Indias encontradas por seus marinheiros, mandou que Corte Real,

em 1500, praticasse uma excursão ao Norte pelo Atlantico no proposito de

acompanhar os hespanhóes ao Oeste. Avistou este explorador a costa do

Labrador, e o rio S. Lourenço. Em segunda viagem, a que de novo se

arriscou, enterrou-se nos gelos do polo Norte, e ahi pereceu

desastradamente, sem que nenhumas noticias delle se recebessem.

Á 9 de março de 1500 largara tambem de Lisboa Pedro Alvares Cabral,

commandando armada importante, afim de continuar as explorações de Vasco

da Gama. Fugindo das calmarias da Africa Occidental, e pondo-se ao largo

e ao O. para mais ao sul demandar o Cabo da Boa-Esperança,

descobriu no dia 22 de abril as terras do Brazil. Achava-se defronte do

Monte Pascual na provincia da Bahia, aos 17 gráos de latitude.

Desembarcando os portuguezes no dia 23, travaram relações com os

indigenas que pareciam mansos, e tomaram tambem posse da terra. Nella

demoraram-se alguns dias, e deram-lhe o nome de Vera Cruz.

Allegou Hespanha seus direitos á terra do Brazil, descoberta antes e ao

N. por Vicente Pinzon: mas por convenios diplomaticos, e em consideração

do estipulado no tratado de Tordesilhas de 1492, abriu delles mão,

considerou-a conquista portugueza, e prohibiu a seus navegadores que no

futuro para ahi se dirigissem.

Nem Colombo, nem Caboto, nem Ojeda, nem Corte Real, nem Pinzon, nem

Cabral, acertaram jamais no conhecimento e apreciação das terras que ao

Oeste da Europa e da Africa haviam descoberto. Continuaram todos na

crença de que eram ilhas sinão costas da Asia, e portanto as

denominavam constantemente de Indias Occidentaes, e a seus habitantes de

indios.

Ninguem adivinhava que entre a Asia e a Europa existisse um continente

novo, inteiramente então desconhecido, habitado por uma raça diversa, e

onde ao lado de selvagens bravios e anthropophagos e selvagens mansos e

innocentes, residiam nações civilisadas como os Incas do Perú e os

Aztecas do Mexico!

Si Hespanha vangloriava-se com os descobrimentos de terras occidentaes

praticadas por Christovam Colombo, oppunha-lhe Portugal agora os das

Indias Orientaes, effectuados por Vasco da Gama. Eram os dous grandes

vultos, cuja fama rivalisava, e que espantavam a Europa com seus feitos

gigantescos. Si após Colombo, denodados Hespanhóes, como Ojeda, Vasco

Nunez de Balboã, Fernando Cortez e Francisco Pizarro ganharam-lhe

importantissima parte do continente Americano, e conquistaram até reinos

civilisados como os do Mexico e Perú, ao lado e no centro de povos

barbaros; Bartholomeu Dias não se manifesta tambem arrojado

navegador, e não commettera façanha reconhecendo o Cabo das Tormentas?

Duarte Coelho, Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque e João de

Castro não perscrutaram e avassallaram as verdadeiras terras indiaticas,

não submetteram as nações poderosas e opulentas do Malabar e golfo

Persico de Malaca? Não levantaram na Asia um assombroso imperio portuguez?

Deviam, portanto, ao saberem dessas excursões prodigiosas de Portuguezes

e Hespanhóes, incitar-se os espiritos interesseiros dos povos europeus.

Manifestou-se de feito um tal qual movimento, ao principiar o seculo

XVI, para que Portuguezes e Hespanhóes não fossem os unicos que

dominassem o mundo até alli ignorado. Que importava que os feitos dos

filhos da Iberia produzissem admiração e espanto, formassem verdadeiras

epopéas? Francezes e Inglezes e Hollandezes achariam tambem theatro

vasto para empregarem sua actividade e satisfazerem suas ambições. Havia

espaço para todos. Convinha não se conservarem tranquillos espectadores

do movimento. De 1500 em deante entraram, pois, em scena Inglezes,

Francezes e Hollandezes, em procura tambem de conquistas ultramarinas, e

particularmente na parte Norte da America e entre o Orinoco e o Amazonas

conseguiram plantar estabelecimentos e firmar posses de terras.

Emquanto se preparam ou se desenvolvem os acontecimentos, que temos

referido, bem que pareçam estranhos á primeira vista, mas que estudados

coincidem e explicam os relativos á Colombo e ao descobrimento da

America, prosigamos na narrativa de sua prisão e remessa para Hespanha.

Christovam Colombo e o descobrimento da America · 第 5 / 7 段