composições lymphaticas de meia pagina, que o das _Folhas e Cascas_
secretamente refundia, para as audacias do volume orlado a côres, todo
em _cul-de-lampes_ do estylo mais puro, letras Ehrmann brincadas de
figuritas ridentes em attitudes de chimera, illuminado como uma biblia,
e impresso em China e Wattman de primeira. E outras aspirações de gloria
artistica d’aqui—ter palacios e kiosques por quintas e tapadas, com
marmores e bronzes celebres, esplendores de baixella constellados de
velho Limoges, cavalgatas historicas pelas florestas, festins de peru
para poetas em velludo e oiro, e uma bicharia engaiolada nos jardins do
paço, que pela noite era o terror do burgo de redor. Emfim, uma tarde
o povo que mendigava nas ruas ao desamparo, roendo talos na sombra
dos portões senhoriaes, ou acocorado psalmejando pelas escadarias dos
mosteiros, ouviu pela guela dos canhões annunciar, entre morteiros e
bandeirolas, barafundas de fidalgaria rolando em berlindas de côrte,
alabardeiros de tricorne e quita-sol, liteiras e palafrens em marcha, que
os brochadores acabavam os primeiros volumes da versaria real, e nas
monumentaes caleças pintadas de erotismos Watteau, viriam pela cidade
caminho do paço, á solemne entrega da famosa lucubração do reinante.
No couce do prestito, balanceado nas correias da pesada e alta traquitana
insculpida, dizia marquez Fulgencio para a preciosa marqueza, coifada de
marabús:
—Espantosa, a obra d’el-rei meu primo! Como execução, que colorido
biliar! Pelos fundilhos rotos da rima, vê-se carne morta do ideal. E a
emmaranhada fecundidade, bom Deus de Isac e Jacob!... Ah! nunca poderão
bem aprecial-a, sem tesoura e pente.
* * * * *
Rei Menelau era um magnanimo, foi um magnanimo em todos os dias do seu
reinado. Ante as supplicas dos que em chusma, quotidianamente affluiam
ás portas de palacio, n’esse tempo de miseria livida, o seu coração
vertia sincero dó. O que o compadecia mais era esmolarem a pé, as pobres
creaturas.
E na cathedral d’uma vez, quando uma velha lhe cahiu em joelhos pedindo
esmola, o monarcha foi todo admirado da pobre não trazer luvas. Mandava
dar a quem vinha restos do seu pantagruelico jantar, cem talheres para
a camarilha, baixella de oiro cinzelado, e quarenta artigos de menu,
intactos pela maior parte, e portas travessas vendidos depois aos ricos
hoteis da cidade. D’onde vinha receberem os pedintes em serviços de Saxe,
apenas esqueletos d’aves e peixes, de envolta com rodellas de limão e
cascas de fructa. E exquisito á mesa, o bom monarcha. Um fastio!... Para
lhe captarem o appetite, condecorados e eruditos cozinheiros esgotavam-se
em pastelarias de recheio phantasioso, molhos nunca sonhados, preparações
d’especiaria cara—o que vinha a custar rios de contribuições. O rei
mal tocava n’um prato ou n’outro. Quanto a beber, muita vez succedeu
erguer-se da mesa com olhos pequeninos, entoando coisas desavergonhadas
d’um certo naipe, aos beliscões secretos nas carnes de honor, com seu
fiosito de baba mui patife no beiço. D’elle dizia marquez Fulgencio
então, paternalmente:
—Coração de oiro, um nadinha piteireiro!
Suppliciados de miseria, como iam grassando vertiginosamente a fome e
a molestia nos burgos humildes da cidade, determinaram os pobres por
conselho da burguezia, implorar do rei quantos proventos este auferisse
na venda do precioso livro de versos, tão fallado por esses reinos afóra.
No memorial que a palacio foram levar, todo escripto por um
_doudejante_ da geração moderna, phrases equestres empenachadas de
imagens n’uma estrupida de hyperboles, hirtos substantivos cambaleando
entre adjectivos, como bebedos entre cabos de policia, tropegos
verbos remendados de prefixas e espinoteando em cambalhotas como
arlequins—empalhavam processionalmente os espantalhos classicos com
que a populaça se julga ennobrecer e heroismar aos olhos dos ricos
e poderosos, nos seus mezes de jejum forçado. Alli se allegava o
tradicional amor das blusas pelas monarchias; a coragem, valentia e
esforços havidos em commum, nas guerras contra o invasor; soffrimentos
sem queixa sangrados em inundações e subidas do milho, emquanto o paço
nas recepções de circumvisinhos monarchas, caros e nunca assaz amados
primos, walsava de calção curto, invertendo as barrigas das pernas
nos derrancos do cotillon; alli se chamava ao povo eterna creança,
leão indomado, Prometheu captivo na rocha, Atlas, e uma convergencia
de historicas calumnias, afinadas no sentido de surprehenderem á
bocca do cofre, mui lampeiramente, é verdade, os centos de mil reis
que rendesse a principesca edição de rimas e cascas. Tres periodos ou
quatro sobretudo, exalçavam com arte a mais pathetica, um certo rolão
vulgarisado nas comidas pobres, que pelos dizeres da petição, usava
amassar-se com suores de trabalho, amarguras da indigencia (que vida,
Jesus, que vida!) e altas dosagens mais d’outros liquidos humanos,
d’excreção dolorosa ao que parecia. «Esse pão negro e duro, excelso
senhor e rei, dizia o requerimento, é o dos que soffrem e trabalham em
prol das industrias e agriculturas patrias, é o pão do povo, o pão da
officina, o pão da pobreza. Rudes canceiras logram ganhal-o, suor de
nossas frontes o amassa; mas alimentando o corpo, elle enche ao mesmo
tempo a consciencia d’uma santissima paz inviolavel. Á noite, sob os
tectos das mansardas, quando a chuva...» Ia assim o panegyrico da brôa,
escorrido da penna doudejante, luzido, esfregado de novo, tocando pratos
e com porta-machados á frente; e em carriolas d’estylo passavam depois
allegorias d’instituto, com diademas á fadista e ventres estripados de
crina, rhetorica que para além de tres seculos, havia já figurava em
cortejos de pompa igual, elogios de sabios mortos por exemplo, introitos
de relatorios sobre os arrozaes, programmas de partido politico,
cabeçalhos de testamento e não sei que homilias de quaresma. «Oh! mas
esse pão vem-nos transfigurado quando legitimamente ganho, e iguaria
alguma de principe, por delicada que se antolhe, poderá igualar-lhe a
salutar influencia e excedel-o em exquisito sabor...» Justamente este
trecho comprometteu a fortuna da pretenção, por deixar cogitativo nosso
rei Menelau. Com que, exquisito e magnifico de sabor, hein? E assim
remordia elle sob os baldaquinos do throno, mexendo os dedos dos pés em
folgadas babuchas de missanga:
—Os cozinheiros do paço vão estancando os seus arsenaes de receitas,
sem que até hoje lhes tenha podido manifestar por seus meritos a minha
real satisfação. Ora que estes funccionarios nunca hão de fazer lulas
a meu contento!... E então que sinto um fraco positivamente por estas
vassallas de caldeirada... Oh, os cozinheiros! Condecoral-os foi
perdel-os. Desde que brilha no peito do chefe a commenda dos _zoilos
verdes_, vae a côrte notando decadencia nos fricassés—e pela minha santa
Padroeira que era um papo de milho, o pedaço de gallinha que hontem me
serviram no jantar de gala. Tambem, tornou elle bruscamente, mettendo
os dedos enroscados de anneis pelas buracarias do manto; como hão de
grosseiras gentes interpretar o paladar d’um principe? Vem todas de muito
baixo, para verem uma arte—e concluiu devagarinho—no comer. O que mais
serve a meu contento inda assim, é o cozinheiro da fazenda. Mas faz-me
almoçar contribuições em sangue, quasi cruas, de fórma que para as comer,
todo me enojo a retirar-lhe de cima as pelles de contribuintes, que
sempre vem agarradas co’a violencia da penhora. O caso é que me estragam
o estomago e vou estando obeso e branco como uma abbadessa. De vereadores
e merceeiros rotundos, poderão dizer os maldizentes, que me trazem na
barriga; mas sobre esta pansa espheroide que irão conjecturar senão que
ando aqui a digerir o thesouro?—Uma tristeza poetica empanava-lhe a face
de capadinho. Disse lentamente umas poucas de vezes, partindo as palavras
como quem as esburga de sentido «... amassado com o suor...»—quasi esteve
a esboçar um gesto de nojo, recordando calceteiros ignobeis, incrustados
de lama como animaes d’esgoto e suando bestialmente, que dias antes
vira n’uma rua, enfileirados no trabalho como captivos no ergastulo; mas
continuou «... iguaria de principe, por delicada que se antolhe, poderá
igualar-lhe a salutar influencia e excedel-o em esquisito sabor». Fez de
si para si:
—É talvez bom para diabetes esse pão celestial. E eu soffro!
Esteve sem fallar um bocado, e estrallejando a unha grande d’encontro
aos caninos de lobo, ergueu magestosamente a face na crispatura de quem
scisma, aquella face historica e rigida que a pragmatica mandava, nas
quedas de ministerio.
—Pois vou-me experimentar pão com suor, a vêr que tal. Mordomo!
Um janizaro rapado á navalha, grandes collarinhos especando o cerebello,
libré doirada com bolotas de relevo, e vastos lacis apopleticos de face,
ergueu magistralmente o reposteiro, acto continuo fazendo com a cabeça um
arco de cento e oitenta. O rei foi dizendo:
—Que promettese alguma coisa aos do memorial, tudo mesmo, mas ouça cá,
para o anno que vem. Se gostarem de musica, a banda toca o hymno lá baixo
no pateo. Mas hei por minha espontanea vontade não reverter o lucro das
minhas rimas em beneficio das classes famintas, agora que ellas tanto
exaltam o pão, primeiro ganho e depois comido. Sim, diga-lhes que iremos
ao _Te Deum_ na cathedral se as colheitas forem capazes, que tencionamos
não pedir mais dotação, nem auctorisar augmentos d’imposto além do duplo
dos que vigoram. Olhe, mordomo, ria-se para elles, coitados, que passam
mal segundo infiro, e são fieis e passivos vassallos, conforme afiançam
no seu favor de tantos do corrente. Quanto ao dinheiro temos pena, sim,
verdadeira penna de pato, mas vê bem o mordomo: elle tem destino, oh,
destino mui nobre e exemplificante. É que vamos comprar farinha, suar
o suor do trabalho que dizem ahi tão amaro e sublime, e com estas duas
coisas amassaremos pão de que nos iremos alimentando, e a côrte.
O mordomo attonito, sem atinar com palavras de resposta, esteve livido
d’assombro alguns momentos, e arquejava dentro da farda como um grande
kagado na sua concha.
—Mas, soberano senhor, aventurou elle com medo de vêr o projecto
realisado; que vai ser de Vossa Magestade com semelhante regimen?
—Descança, serei forte como um hercules.
—Que vae ser da côrte, tão dessorada mesmo comendo á barba longa! Forçada
talvez a trazer lunch, Jesus Maria! E baixa nos generos a semelhante
abstinencia; os salmões que meu sogro fornece, sem procura, apodrecendo
para ahi; a fructa que fornece meu genro desamparada; meu cunhado
fornecedor de vinhos, quebrando como um scelerado vil; e minhas sobrinhas
gallinheiras, meu irmão com mercearia, e meus compadres, primos, primas!
Ah, perdidos todos, deshonrados, abandonados, e por cima Vossa Magestade
não poderá sobreviver-lhes a pão secco.—E o desgraçado n’um desespero
medonho, arrojava o chinó pelos mosaicos do salão.
—Pobre mordomo! fazia o rei commovido. Ahi está um que me adora
sinceramente. E começou a mais linda ode sobre a amizade, endereçada
ao servidor; inexoravel porém na birra do pão com suor, e brandindo o
sceptro com sobrecenhos merovingicos:
—Sim, comel-o-hei, clamava elle por todo o palacio. A honra me vae n’isso
empenhada, que os grandes exemplos do alto devem partir. Quer virtudes no
throno o meu povo! Ostental-as vou. E se morrer na lucta, os chronistas
poderão dizer: foi sobrio e poeta, chegava a roer pão duro como os cães,
mas deixa versos de dar ciume aos maiores genios. Pobre diabo, convimos,
mas grande rei!—Toca a suar.
Ora foi desagradavel, muito desagradavel ao povoleu, a recusa do dinheiro
implorado.
A fome subia por toda a banda desabusando a canalha ruim. Vinham trigos
de longe a fabulosos preços, por terem sido vergonhosas as searas;
succediam-se os roubos, as quebras fraudulentas, os adulterios e os
suicidios. Nos cargos que pagava o estado, affluia toda a sorte de
frandulagem ignorante ou descarada, sorvendo os dinheiros na razão
inversa dos serviços e dos meritos.
Por vezes, quando algum d’esses se elevava por quatro discursos
retumbantes e meia duzia d’intrigas habeis, matilha de adeptos vinham
rodeal-o de prompto, conclamal-o emphaticamente nas folhas, jurar que era
elle o mais eminente dos contemporaneos, o melhor dos amigos e o mais
probo dos patricios—e assim se formavam pequenas côrtes ambiciosas, de
olho acceso á mira do propicio dia, em que levando de vencida as facções
contrarias, podessem de garra adunca e maxilla voraz, trinchar no que de
alimenticio ainda restasse n’esse esqueleto de nação. Dos baixos-fundos
ignorados da massa, viam-se romper de chofre creaturinhas verdes talhadas
em cunha, desconfiadas, molluscoides, escorregadias, que já no occaso de
mocidades subterraneas e suspeitas, furando, successivamente furando,
conseguiam á flôr da celebridade afitar por fim os cornichos, na mira
d’alguma posição culminante. E surdos mineiros exasperados pela vileza de
longos annos famintos, appareciam certa manhã ministros sem ninguem saber
por que modo, directores de secretaria, primeiros magistrados, poderosos
banqueiros, chefes de situação; e perguntava-se sem ninguem responder,
d’onde elles vinham, como tinham podido impôr-se, qual plano de conducta
iam seguir, ou por que tenebroso fio de maquinação e filaucia se logravam
incluir no circuito aureo da riqueza, da evidencia ou da gloria.
Realmente, n’uma raça de cobardes, punham calafrios taes audacias de
vampiros, e a ignorancia e cachexia publicas recuavam, de cada vez que
as investia violentamente algum d’esses insaciaveis polvos. Mortas as
actividades, empobrecidas as familias, assolado o paiz pelas quadrilhas
d’aventureiros politicos que nas ruinas das instituições se emboscavam a
pilhar quanto viesse, a fome do povo breve correu a gamma lançada entre a
humildade e a ameaça, por não ter mais que perdesse.
Se acontecia romper guerra nos seios d’uma facção ou entre facções
adversarias, medonhas revelações d’infamias commettidas davam um panico
geral. Vinha-se então a saber como fôra pago tal transfuga, quanto
custava tal emprestimo, ou o que auferia tal funccionario.
Por esses rasgões da fé protrahida e da lealdade sonegada, o olhar
mergulhava nas catacumbas da bancarrota, de cujos pilares pendiam
enforcados, verdenegros, os cadaveres da honra e brio nacionaes—e tinha
visões de medonhas catastrophes! Depois boatos sinistros em photosphera
a cada lugubre episodio, fundos falsos de calumnia, deboche e crime,
cingindo em espiras de serpe reputações cá fóra venerandas, e por
milhares engolfadas em podridão!
Semelhante desordem partia as molas de jogo harmonico na vida da
sociedade e da familia, a boa fé cessava, morria o credito, cada qual
n’uma hesitação eruptiva mirava de soslaio todo o mundo, estranhos,
parentes, irmãos d’armas, pensando o contrario do que lhe era afiançado,
remordendo os beiços n’um sarcasmo furioso, e com esta idéa vibrando
punhaladas sobre quem quer se aproximasse:
—Tu enganas-me, ladrão!
Como na lugubre éra feudal, o vasto soffrer pervertia as faculdades;
os loucos e maniacos eram aos milhares, havia no desenho das cabeças
predestinações de patibulo, e essa melancolia negra de mocho, que vem
dos estados doentios, ralados por uma dôr moral. Porque a rude batalha
da vida que tudo exacerbava, ia alterando em passo egual a physiologia
rythmica dos grandes centros, fazendo até exagerado e falso o testemunho
dos sentidos—do que davam prova os laivos de litteratura ou arte que
tinham resistido ainda, mau grado as apathias dominantes.
Assim, não eram raros os que vencidos de tedio morriam amaldiçoando
tudo; os que emigravam para não voltar; os que se reduziam á condição
d’immundos animaes, e os que em seitas informes, desprezivelmente rotos,
encarquilhados, perseguidos, vagabundos, por toda a banda prégavam
absurdos e desvarios.
No luxo dos ricos, notas d’extravagancia insolente davam medida d’eguaes
desregramentos.
As mulheres collavam os vestidos com relevos impudicos, imitando nos
córtes figuras de peixes, borboletas e aves, n’um charivari de côres
vivas e contrastes de gosto caraïba. N’esta agonia de raça tropega, sem
consciencia nem vigor, se a recusa de Menelau fez mau effeito, a nova do
pão amassado com suor do trabalho, e apoz comido em palacio, parcamente,
pobremente, como na loja mais fria d’um mendigo, longe de ser olhada como
grutesca, victoriaram-na em exemplo da mais sã philosophia. E entre essa
gente, Menelau subiu ainda.
* * * * *
Quando por toda a parte se espalhou que o monarcha, n’um impulso
de heroica bondade, pretendia começar a viver dos ganhos das suas
habilidades particulares, o pasmo da massa foi extremo, por se
pensar que a amplitude d’este capricho chegaria á doação voluntaria
e generosa, de tudo que o rei annualmente costumava sugar ás burras
da nação. Ter rei de graça, eis o pensamento offegante n’esse paiz
da fome. E a lenda transfigurava a figurinha regia, n’um messias de
estranha pureza e abnegação sem preço. Formou-se mesmo um partido
politico entre a juventude culta, tendo por lemma um pedacito de brôa,
e em guiza de programma arvorando as rigidas frugalidades de Sparta.
O jornalismo tomando conta do caso, atirou com elle aos escaninhos
da provincia, n’uma galhofa d’epithetos. Choveram sobre a corôa mais
bençãos e offrendas de polkas; as padarias coifaram-se pittorescamente
de taboletas, onde Menelau coroado d’espigas e todo nu como um deus
de fabula, estendia olympicamente os braços, mostrando pães saloios á
posteridade. E de repente outra nova correu de bocca em bocca, deixando
os povos attonitos—foi dizer-se que o rei ordenára festins por tres
dias, n’uma das suas quintas de prazer, para inauguração da era nova que
ia surgir. Esses festins teriam o cunho da mais estreita cordialidade,
seriam por ventura um laço de amor apertado entre as grandes classes
e o povo; todo o mundo alli se daria o tu da boa confraternidade sem
reservas; e cada pé-fresco saracoteando-se nas escovinhas fadistas da
sua condição, poderia em caso lhe fazer conta, beliscar os triceps das
gordas conselheiras decotadas, ou correr o braço d’envolta aos toutiços
dos magestosos dignitarios da côrte. Dispensar-se-hia o _toilette_, os
militares iriam sem armas, os camponios levariam os seus barretes, as
engommadeiras os seus capotes, os mendigos a piolharia accessoria. Nada
de ceremonias, bella sociedade, nada de ceremonias!
Sómente, como preventivo contra expansões de temperamento calido, se
dava de conselho ás damas não levarem braceletes, collares ou quaesquer
adornos de preço; se pedia aos agraciados de veneras não trazerem
placas cravejadas, mas simples pequenas fitas symbolicas da ordem a que
estivessem jungidos; se esperava do cavalheirismo dos senhores gatunos,
durante esses dias, a suspensão de escamotagens ás bolsas e lenços
d’assoar a que por desfastio eram dados, coisa pouca; como tambem se
pedia aos assassinos o obsequio de, por egual periodo, se divorciarem das
suas navalhas. Não por se temer desaguisado, que era bem conhecida a fina
educação, elevado caracter, e alto nascimento de tão flamenga tropa, mas
porque os ardores do sangue nacional fazem excitavel o brio, palavra puxa
palavra, figurão boquiaberto está a pedir santa empalmança ao relogio, e
d’ahi, como uma pessoa é fragil, sem querer, alguma vez... Emfim, nunca
fiando! Tanto mais, que as festas offereciam engodos da melhor confecção,
fontes de vinhaça gratis, pão molle, a bella favinha, e pela noite
fechada, ora adeus! com moçoilas, salve-se quem puder.
A cada poeta era permittido declamar trechos allusivos á obra de
regeneração que se ia emprehender: haveria loiro para os celebres e
vivazes, e Menelau mesmo fazia tenção de lêr um bocado de grande effeito.
Apoz os banquetes, danças nacionaes, fogo de vistas—c’os diabos, que
magnificencia! diziam todos por toda a parte.
Mas emquanto taes alegrias vehementes esfogueteavam assim nos clubs do
pé-fresco, extraordinarias batalhas se feriam em palacio, indomitas,
torvelinhantes, entre Menelau que teimava democratisar-se ao limite
n’aquelle passeio ás hortas, projectado, e toda a soberba côrte
envergonhada de semelhante dispauterio.
Porque emfim, se o monarcha descia do solio a fandanguear com patuleas
de jaqueta e bocca de sino, a illusão optica da magestade ficaria
perdida de todo, visto ella residir na persuasão geral de que o rei por
fórma alguma podia ser um homemzinho á semelhança de qualquer outro,
porém uma especie de semi-deus como o mikado japonez, meio mythico, meio
incomprehensivel, meio velado, e sempre complexo, vibrando medos de redor
quem se aproximasse, participando as propriedades da tromba-marinha,
tendo os lampejos da scentelha electrica, e em communicação com os
grandes espiritos errantes da sabedoria, da força, e da justiça. Desgraça
se algum vassallo sentisse a sua voz de cega-rega, lhe adivinhasse caspa,
lhe chegasse a suppôr fórma e natureza ordinaria, ou no grande polypeiro
da real batata, contar viesse, ter-lhe notado botões purulentos, como
na penca do mais elephantiaco general reformado. Ah, sendo assim, a
monarchia estaria perdida! Que iria ser depois d’isso, do estranho nimbo,
vetusto e terrifico, da velha realeza superficialmente doirada, que
respeito inspiraria ella, quando o mulherio tocando-lhe nos velludilhos
do manto reconhecesse logo que eram d’algodão, e pondo os olhos nos
borguezins vermelhos do principe, entrevisse a rir por uma fenda, na
culminancia dos callos, algum prosaico resquicio de piuga?
—Cautela, meu primo e soberano, cautela, dissera marquez Fulgencio, todo
peralvilho n’uma cabelleira empoada e profusa, assestando o _lorgnon_
com requintes impertinentes. A experiencia d’estes meus annos vos manda
contar, que o povo imagina os monarchas pelas effigies das moedas e
estampilhas, cuidando que elles só teem cabeça, e de relevo! Conheço a
fundo a predilecção que daes ás lulas, e de sobejo vos tenho mostrado
quanta benevolencia me inspiram essas pequeninas devassidões de paladar.
Sois rapaz, sabeis evitar a azia pelo bicarbonato... Desde os arabes
que a nossa familia cobre do seu real appetite, aquelles animaesinhos
filamentosos; ha mesmo em brazão de nossa casa, uma caldeirada de
lulas em campo de prata, que demonio! Mas se por ellas vos metterdes a
dentro no banquete que intentaes, a plebe verá que tendes intestino, ao
contrario dos deuses. E o carrascão, precioso soberano! Na nossa familia,
este sumo dá azas á lingua, principalmente sendo por conta do lavrador;
lembrai-vos que os segredos d’Estado devem ser inviolaveis.
Mas o rei ficou inflexivel ainda, impaciente mesmo e desgostado, por vêr
que o não seguiam no unico systema de restaurar o amor do seu povo, e
fornecer completas provas do quanto elle seria capaz de se sacrificar
pela felicidade dos subditos.
Todos os meios de persuasão esgotados, o ministerio dos antigos, que
sempre caprichára impôr o seu credo de rotina, secular e barbaro, ás
passividades deprimentes da corôa, julgou digno pedir a demissão; marquez
Fulgencio, que fôra n’um canto esfregar as palpebras corrugadas de
cynico, com cebola, volveu chorando aos borzeguins do primo, pedindo
para alli morrer, antes que transigir; e como urgia um profundo golpe
politico, foi chamado o partido novo, e jorraram as reformas, começando
pelos tres dias de festa e reconciliação geral, consoante o programma em
boato.
Apenas publicado esse programma, violentas sobr’excitações tetanisaram a
cidade, ninguém queria crêr, o commercio teve medo, fez-se lucto entre os
nobres, e o resto ria e farandolava em vivorio descommunal. Embalde as
grandes classes mandaram deputações, d’embate aos caprichos democraticos
do monarcha, fazendo-lhe sentir os perigos que havia, n’uma popularidade
jogada de tal fórma.
—Meu primo e soberano, as tradições de nossos maiores... aventurava
marquez Fulgencio.
—Os fornecimentos de meus parentes em atrazo, dizia lacrimoso o mordomo.
—As prosperidades d’esta gloriosa nação, entrou a dizer o alto commercio.
E Menelau impaciente:
—Não! Não! Não!
Appellou-se para a religião, e vieram os grandes mitrados de longas
paragens, implorar por sua vez. Não! O poeta favorito mesmo, que via
ameaçado o seu pascigo revigorante á mesa dos quarenta talheres, recebeu
na face morta uma recusa formal.
E os jornaes:
—Estamos sobre um vulcão. Ás armas!
Mas qual armas! O populacho que fazia os motins e intimidava os poderes,
estava do outro lado.