No casinholo inhospito em que morava, esses esboços de marmore faziam

por baixo da pedra a desbastar ainda, assombrosas tentativas de evasão,

resurreição, de gritar por soccorro, como visagens por traz de espessos

veus, medonhos arremedos d’angustia, estorsões dentro da lava solida

que os constrangia: e no supplicio d’aquella immobilidade viva querendo

cuspir entulhos da bocca n’um grito dilacerante, romper com os seus

membros o atoleiro que a envolvel-os se petrificava todo, communicando a

atroz sensação d’um soffrimento alarmante, tão magistralmente lançados

esses primeiros golpes de grande esculptor. Era assim que de informes

pedregulhos, rompiam admiraveis trechos acabados e vivos; braços

invocando os ceus de mãos descarnadas; cabeças radiando suavidades

esquivas, de nariz palpitante e bocca em supplica, tocadas talvez na

visão paradisiaca do fra _Angelico_; busto d’uma impossivel delicadeza,

sempre cingidos em romeiras de monacal desenho, onde pequeninas mãos

apertavam rosas, surprehendentes e brancas, com pétalas finas como

papel...—e para baixo o infame bloco impassivel soterrava o resto,

desconforme, anguloso, hostil, brutal, como o tronco adusto soterra e

termina a dryade na floresta sagrada da antiguidade. Estas tentativas

de sceptico iniciando prodigios de cinzel para o sarcasmo de os pôr de

banda logo, indo de obra prima em obra prima como um eterno descontente,

no proposito de enraivecer a posteridade que o buscasse acaso n’uma

obra completa, tudo achando mesquinho e pobre, e sem pretender da

vida algum dos seus miseraveis triumphos, gloria, fortuna, estimulos

ou emulos, faziam ellas só, toda uma arte estrondosa e moderna, cheia

de singularidades e grandezas é certo, mas assignalavam no artista

desconfortos de gigante e amarguras de vencido. Uma estatua seguia

outra, e outra; e todas a alturas differentes eram postas de banda

com teimosia colerica. Dias inteiros, mezes inteiros, levava no meio

d’aquelles destroços d’olympo novo, sem fallar, sem trabalhar, exasperado

de virgindade, consumido na chamma funebre do alcool, fazendo medonhos

esforços para a reconstruir toda na ideia e parando onde se não lembrava,

com medo de perverter a sua adoração de escravo, magro, revoltado,

quasi faminto, com rosetas escandentes na face morta, e a bocca n’um

rictus tragico de cariatide. A sua poderosa estatura curvava-se para

a terra lentamente, aqui e além já lhe nevavam cabellos, a aguardente

poz-se a agitar-lhe na allucinação que o ia invadindo, frageis

phantasmas exhumados do passado—e via-a, fallava com ella, sentia as

suas desgraças, deslumbrava-se na sua belleza, tinha com ella longos

colloquios. Gargalhava pelas ruas sósinho, argumentando comsigo mesmo

em voz alta; o fato cahia-lhe de miseria aos pedaços, deixou d’usar

camisa, as suas botas cambavam. N’esse embrutecer cruel comtudo, lucidos

espaços riam d’onde a onde; então n’um convergir de ultimos esforços,

volvia aos ensaios, aos seus esboços, começava e recomeçava, modificando,

inutilisando, com a ancia d’um naufrago e o desespero emphatico d’um

rebelde.

Viam-se no _atelier_ espalhados por duzias, como occupações d’esses

curtos intervallos de razão, pares de mãos divinamente esculpidas, longos

dedos, unhas de opala transparente, celestes delicadezas de toque, mas

todos eguaes e como reproduzidos do mesmo modêlo raro. Ou copias sem

numero d’uma mascara de gesso, soffredora e candida, que na parede,

envolta em crepes, olhava pelo vazio das orbitas. Tal insistencia nos

accessorios da mesma figura, exprimia o sentimento immutavel, mais remoto

ou menos, da dôr. Era a arte d’um taciturno, immobilisando a imaginação

do artista, mas crystallisando cada bocado em perfeições surprehendentes.

E Albano? Emfim como ultimo relampago, uma vez Arthur descobriu que

acabara a estatua, ao fim de a haver começado doze vezes. Mas essa, que

maravilha unica de genio! Desabrochava completa, estendendo os braços

para invocar Deus, por um assombro d’equilibrio lançada na attitude de

quem desprende vôos, desennovelando-se da base como uma labareda de

sarça, em zig-zags aéreos. Esse phenomeno de estranha belleza, era ao

mesmo tempo um prodigio d’audacia, palpitava, fallava, sentia-se soffrer

e respirar como uma creatura.

Tinha uma simples roupa em longas pregas, a romeira cingida até á barba

com austeridades claustraes, tranças meio enroladas ainda, soltando-se

da nuca n’uma expressão espavorida e subitanea. E alli para um canto,

acocorado por baixo d’uma juba de velho leão cahido, contemplou Arthur

longamente a sua obra, com olhos extinctos onde pela derradeira vez

passara um fogo subterraneo de cratera.

Pelas joelheiras laceradas, furavam os seus joelhos carcomidos, e a barba

indomita de mendigo, espargia sobre os ossos do peito lugubres fios

brancos, vestindo-lhe a nudez por uma especie de instinctivo pudor.

Ante o asceta miseravel, essa apparição de madona ascendia em escapadas

de genio do seu pedestal floreteado, que representava um enorme bouquet

das flores que Judith amara tanto. N’isto ouviu dizerem perto o nome

d’ella.

Sem curiosidade voltou a cabeça, estava Albano ao pé d’elle devorando a

estatua, maravilhado, attonito, imbecil.

—Ah, és tu, disse Arthur que se levantou n’um pulo, sem mostras d’alegria

comtudo, vendo Albano correcto n’um vestuario de gentleman. Tens tabaco,

por acaso?—Albano desviou a vista um momento, para procurar charutos nas

algibeiras; então Arthur com um martello, fez a estatua em pedaços[1].

[1] São estes restos da mais assombrosa esculptura que tem visto o mundo,

que soldados por agulhas de ferro, ornam hoje o tumulo de Judith, e mais

todos os esboços, meias estatuas, fragmentos e ensaios, que por morte

d’Arthur foram achados no _atelier_.

A INDIGESTÃO

N’um pequenino paiz do sol, batido dos ventos, riscado de brancas

serranias e coberto de laranjeiras, celebridades e patuscas historias,

governava um bom e gorducho rei, Menelau de nome, de estatura meã e

ventre espherico, cheio de benevolas ociosidades para o seu povo, e

senhor d’umas brancas mãos de prelado, que como actividade só sabiam

deixar cahir por entre os dedos, as bellas moedas dos erarios publicos.

Vinha el-rei Menelau d’uma ascendencia mui nobre e antiga, que nos

brazões ostentava symbolos de todas as nobrezas em campos de mil côres,

e nas suas veias conseguira fazer circular um precioso licôr feito

com sangue de todas as dynastias da terra, desde as mais antigas até

ás mais modernas. Este licôr branco como leite, tão nobre conseguira

estillar-se pelas edades fóra, tinha uma composição extraordinaria de

anemia, infecundidade, preguiça, tristeza e doçura. Por sua côr separava

o rei dos fidalgos que o tinham azul aguado, e do povo que sempre o

derramara escarlate, por obedecer a seu senhor. A côrte de que o rei

se rodeava, era confeccionada com os mais puros nobres do reino, nomes

historicos ouvidos em todas as partes do mundo, primos e credores uns dos

outros, gente correcta de modos, desdenhosa pelas camadas ultimas, pouco

atribulada em labores mentaes, e captando as reaes sympathias por um ramo

qualquer d’instincto recreativo.

Havia por exemplo, os que sabiam perder ao bilhar com Sua Magestade

encantada de lhes ter ganho sem esforço, os que traziam de fóra bons

ditos e finas partidas galantes, os que atiravam aos pombos, os que

walsavam, os que subtrahiam _brevas_ ás caixas sem arrombamento do

charão onde o rei usava guardal-os, os que aguarellavam picantemente

caricaturas dos inimigos politicos de Sua Magestade, os que lhe elogiavam

os dotes e convenciam de grandeza, os que lhe escreviam discursos,

compravam cavallos, dictavam o estylo das equipagens, faziam suave a vida

vendando-lhe os descontentamentos da massa e truncando-lhe a leitura dos

jornaes, quem por elle mandava, comia, tinha ideias, effervescencias,

pratos de trufas em molhos sabios, comichões, contas nos estofadores e

lojas de _bric-à-brac_, alegrias, clarões de vinho generoso, e babas

gulosas nas bellas espaduas alabastrinas.

A bondade triste de Menelau permittia em volta nas camarilhas, desleixos

de attitudes e palavras que ao povo, a distancia, se afiguravam rotulos

das sardanapalicas do alcaçar, onde as cortezãs bebessem por calices

sagrados, e pallidos arcebispos de mitra á zamparina, fossem aventurando

_can-cans_ fadistas com lindas açafatas unctuosas de maneiras e

causticantes de pedraria. O monarcha no entanto estiolava, alquebrado

de conviver na turba-multa que ia quotidianamente pelos salões do paço,

e nostalgico talvez dos aconchegos de familia pobre que não tinha. Não

era para solavancos de politica cynica, o pobre rei de sangue dessorado,

achaques parranas, e absolutas tendencias caseiras para um dominó de

compadres. E a cada vez que via em lucta os partidos, disputando-se

opiparas prebendas, negociando crachás e titulos, anichando os seus

sacristas e ganymedes, vomitando infamias pela guela da imprensa,

dissolvendo os costumes e preterindo os meritos, o gorducho Menelau

enterrando a corôa de oiro até aos olhos e roendo na ponteira do

sceptro, punha-se acabrunhado a gritar que não resistia, davam com elle

de pantana, e era seu real desejo abdicar para se ir ás alcalinas de

Cauterets. Embalde n’esses terriveis momentos de cobardia, eram chamados

ao paço todos os chronistas e archeologos do reino, a citarem a Menelau

uma quantidade d’expedientes e ditos de velhos reis seus antepassados,

em analogos lances de governação tormentosa. E era muito para vêr, como

tão veneraveis e poentos sabios se esfarinhavam em diligencias, para do

pichel da historia vasarem no branco coração do rei, litros e litros do

heroismo das primeiras dynastias.

Embalde os cornetins facundos das bandas marciaes vinham animal-o com

offertas de marchas, hymnos e mazurkas de superfina trama; lidadores de

toiros lhe consagravam sortes de ferros curtos e ricas pégas de cernelha;

directoras de collegio lhe davam celebridade expondo nos armazens de

modas, retratos seus a froco com olhos de contas amarellas; e doirados

ministros escorreitos de pomada odorifera nas poupas, em saltitantes

coplas lhe certificavam ás horas d’assignatura regia, que tudo marchava

a trote no seu reinado, os subditos nadando em jubilo por vêl-o de saude

mal-os meninos, a roda andando no dia seguinte, e essa noite um raio de

pecita nova nos Buffos, onde os decotes das femeas nem tinham principio

nem fim.

Alentos de tão jucunda prosperidade que pavoneavam em gloria o

ministerio, deixavam frio a Menelau, sombrio e mais que nunca absorvido

na estulta ideia de abdicar. O ministerio consternado recorreu então a

expedientes febris, pôz-lhe bismas e sedenhos, deu-lhe injecções, fez

desfilar paradas em grande uniforme, com sonidos de tambores e clarins,

expediu-lhe em commissões os altos corpos dirigentes do espirito

publico—as sciencias representadas n’um auctor de graxas impermeaveis,

as artes repousando n’um grave brochador de frontarias, as litteraturas,

as industrias, o clero... Mas nenhuma supplica commovia o rei Menelau,

que só ambicionava ir comer a dotação n’um velho palacio campestre, bem

longe, com tapadas onde bramissem veados, e á sombra de cujos arvoredos

elle podesse concluir a sua fortaleza de miolo de figueira, tão gabada

pelo plenipotenciario da Suissa.

* * * * *

Havia na côrte um poeta de longa coma de azeviche, fallado por seus

trovares, e pelo qual uma a uma, todas as damas se perdiam. E encontrando

Menelau a cozer moedas nos forros do manto, como salvaguarda em caso de

desterro, assim lhe fallou:

—Que funda tristeza faz murchar para a terra como lirio ceifado, a fronte

augusta de Vossa Magestade? Saudades acaso, de linda castellã que se foi

com seu donzel no palafrem da aventura, mordida pelo aspide da ingratidão?

Considerou o rei no menestrel, e respondeu d’esta sorte:

—Ah, meu muito amado menestrel, que não sabes como doloroso é ser

homem assim pequeno, e carregar aos hombros inda por cima, mais de

quinhentos nomes de familia! Os povos comprehendemnos hoje menos, que

os orientalistas os jerogliphos. Se passamos na rua, vassallo algum se

prostra; os _maestrinos_ abocanham de musicas burlescas a dyspepsia que

nos punge; e desde que se falla d’um rei, todo o mundo pergunta de qual

naipe. Queres tu de trespasse o meu throno e dependencias? É dos mais

pequenos e gloriosos do mundo, Deus lhe lançou a pedra fundamental. Como

vês, não deita fumo nem cheiro, ha porta para a escada; o diabo é que

oscilla como um dente velho. Mas descança, tenho a guarda aqui perto!

Não imaginas como isto era, aqui ha oitocentos annos. Nobreza nem raça!

Calcula o trabalho de meus antecessores em fabricar fidalguia de primeira

qualidade, chegando a haver monarcha que n’esse intuito cavalheiro, legou

aos reinos não menos de dezeseis e dezoito bastardos. Nos degraus d’esta

machina, onde empoleirado dou beija-mão aos do meu sequito, ha nodoas de

sangue d’um valor incalculavel, o que resta em documento de parricidios,

fratricidios, filicidios e assassinatos de menor formato, todos os

brilhantes feitos historicos das monarchias. Archeologos impertinentes

vinham disfarçados ás vezes, raspar para dentro de saquiteis, estas

sagradas particulas de crimes abençoados por Deus, para d’ellas fazerem

venda aos colleccionadores. Razão por que revesti os degraus com este

amor de alcatifa escarlate—d’um _chic_!... O rumor que se ouve não vem

da ira popular, mas de ratos que me offerecem serenadas. Posteriormente

fiz obras, forçado pela canalha, confesso. Abri janella para um saguão

que chamam parlamento, e para despejos ha o barril do _Jornal official_.

Levas isto por meia libra diaria, hein?

—Corôa e tudo, meu senhor?

—De certo, disse o rei Menelau. E com riso triste:

—É de latão, menestrel! A outra roubaram-m’a para pagar uns navios de

guerra.

O poeta esteve scismando que responderia. E alto para comsigo, ia dizendo:

—No theatro das _Maravilhas_ vão dar revista d’apparato, com musica

e bailados. A vêr se o empresario fica com estas chinezices por uns

tostões...

—Já lhe tenho alugado em varias peças, o meu throno e soldados. Mas

vomitam-me tudo de vinho!

—Estomagos vermelhos! disse o poeta. E fazendo uma pequena pausa,

perguntou:

—Os generaes de Vossa Magestade... não sei como diga, sim... acham-se em

estado de servir?

—Para commissões, grande tirocinio! Faltam rodisios nos mais gloriosos.

Pintados porém, ficam em folha.

—E quantos mil soldados, mesmo assim?

—Quando me casei muitos. Mas o presumptivo é fogoso, tu sabes. Com a

mania das pellas e a educação guerreira que leva em palacio, tem amolgado

regimentos sobre regimentos. Eis por que o ministro da guerra vae chamar

as reservas, e elevar o principe a coronel.

—Bem, bem, disse o poeta, vou-me de longada, a vêr se deparo ahi um adelo.

—Dar-te-hei como luvas, se o negocio fôr a meu talante, a grã-cruz dos

_zoilos verdes_, valor, lealdade...

O poeta que já ia á porta derrancado nos salamaleques da etiqueta,

avançou ás palavras do gordo Menelau.

—Inda mais grã-cruzes, senhor? Mas vejo-me todo pingado d’ellas, não ha

ammoniaco já que as saponifique. Ambicionára antes de Vossa Magestade

graça de menos vulto.

—Falla pois, disse o monarcha.

—Se Vossa Magestade editasse o meu livro de versos?...

—Que é versos?

—Queixas de intimo e amargo soffrer, volveu o menestrel rolando os olhos

mortos, como nas declarações d’amor.

Se uma organisação eleita, como a minha ou a de Vossa Magestade, se

surprehende algum dia envenenada por desgostos sem lenitivo, tão grandes

que é pouco o mundo para os conter, desanda a versejar fatalmente. Pelo

verso, meu senhor e rei, as maguas volatilisam-se da alma, como os

perfumes das amphoras, e esvoaçam palpitantes em espiras de musica á

região dos nevoeiros.

—Meu Deus, disse o rei. Que necessidade eu tinha de ser poeta! E para o

menestrel:

—Fico por editor do livro, a tua ideia encanta-me! Mas como chamal-o?

O poeta ergueu n’um jubilo as duas mãos viscosas:

—_Folhas e Cascas_, meu senhor!

—Mas excellente!

—_Folhas_, em memoria dos vellinos com que Vossa Magestade collabora no

volume, _Cascas_ em memoria do resto.

Menelau ficou scismando no que ouvira ao poeta. _Queixas de intimo e

amargo soffrer... Se uma organisação eleita como a minha ou a de Vossa

Magestade... Pelo verso as maguas volatilisam-se da alma como perfumes,

e esvoaçam em espiras de musica..._ E a imaginação alava-se-lhe no

vortilhar d’estes alvitres subtis. Tambem elle soffria perdido nos

prosaismos do moderno mundo, tão grosseiro que o não cortejava, tão

sceptico que lhe punha em duvida a origem divina, tão egoista que pensava

truncar-lhe a dotação. Oh, iam longe os tempos de poderio e triumpho,

quando pomposamente os reis entravam nas cidades á frente das cavalgatas

decorativas, entre evohés e flôres, envoltos no clangor das trombetas

dos arautos; ou acceitavam nos mosteiros gothicos os gordos festins dos

dom priores com arengas biblicas; ou nas florestas, ainda sobre alazões

fogosos, caçando os veados reaes, viam nimbar-se de clarões celestes n’um

maciço de folhedos, a apparição d’algum santo patrono, que resmungava

parolas desconhecidas, apontando o ceu. Então eram elles senhores e

mandatarios, luziam as corôas em fulgores omnipotentes, e ao menor dos

seus gestos cahia no pó a plebe assombrada, oscillavam da forca rebeldes

e apostatas, e o Papa lhes remettia por nuncios purpurados o ultimo

bilhetinho do Eterno com sellos da chancella celeste. E tudo abatido

agora, as realezas da terra e as realezas do ceu, o empyreo e os thronos,

nem obediencia nem fé!

E insensivelmente, monarcha Menelau rimava já...

D’alli a tempos o menestrel voltou desanimado. Correra tudo, casas de

penhores, caixas de theatro, capellistas, irmandades do Santissimo e

bailes campestres. Ninguem queria o throno real e suas dependencias.

Concertos recentes, feitos por obreiros barbaros com o famoso camartello

constitucional, tinham-lhe tirado o merito como obra de arte. Estava

agora uma architetura hybrida, sem typo nem estylo, com pedaços de

todos os cyclos historicos, e sangue de todos os morticinios politicos.

Cada revolta desfilando por elle, cada usurpação fazendo-o oscillar, a

invasão estrangeira vinda por amparal-o, lhe tinham arrancado dos nichos

rendilhados, dos frisos em voluta, dos columnellos e architraves, a

estatueta d’um prestigio, o florão d’um dom exclusivo, e a cariatide de

uma tradição herdada. E emquanto com formidavel impudencia o escabello

rude da canalha ia em cada sedição tomando dimensões cyclopicas, o pobre

throno carcomido fazia pender mais e mais o seu docel esfiado—cabeça

decrepita offerecendo o gasnete ao nó corredio do cadafalso!

Era já o alegre tempo dos reis exilados, villegiando pelos hoteis do

boulevard Hausseman e camarins das _estrellas_ novas, indo cear _chez_

Bignon, _chez_ Vachette, e _chez_ todos os restaurantes de sumptuosos

gabinetes, com leitos Gauthier, bidé, mesa de jantar e o pequenino pente

de madreperola, discreto e util, que alisa a não deixar vestigios,

depois dos _can-cans_ em pelota, os cabellos esmanchados de Coralia,

Fanny Essler ou Rosita Maury. Pelas corôas nem meia davam. Todos os dias

os expressos atiravam ao vortilhão de Paris, principes e princezas,

herdeiros sem reino que herdar, reis e rainhas em paletot côr de mel

e _cache-misère_ côr de pombo, gran-duques tamanho de grãos de milho,

barbados como maçarocas, e tão poderosos, que se cahiam das calças na

sua capital, vinham esmurrar as ventas em paiz estrangeiro. No hotel

Druot, alternavam-se as vendas das collecções Demidoff com os leilões

das rainhas caloteiras. Esses desthronados não soffriam muito porém,

que os embriagava a verve de Audran, Halevy e Planquette, sopro de vida

nova, subtil e perfido, que ia expungindo os dynastas da velha sagração

poetica, pondo-os a correr mundo de lingua fóra, e com guizadas de

_couplets_ na colleira.

E dos varandins de palacio, lançando os olhos pela infiel cidade que o

repellia, rei Menelau dava suspiros pensando nos collegas, mas sempre

versejando, o excommungado!

* * * * *

—Muito bem, disse o monarcha certa manhã, ao cabo de reflectir demorado.

O principe é novo para as redeas do governo; por outro lado, ninguem

me quer a estalagem com a reputação que lhe fizemos. Que remedio senão

reembutir-me no throno?

E aparando com um canivetinho de oiro, a penna de pato das litteraturas

celebres, proseguia:

—Pois que sou das raras organisações eleitas, e pelo verso se volatilisam

maguas, etc..., por que me não farei poeta, e publicarei tambem um volume

de folhas e cascas? A ociosidade indispõe-me com o povo. Quero pelo

trabalho reconduzir-me ao seu respeito. Escreverei para ser grande.

Pôz-se então a rimar com toda a gana, os assumptos nobres da sua côrte,

virtudes e birras domesticas das açafatas e damas de honor, as dôres de

dentes do grande chanceller que punham o gabinete em crise, um ou outro

parto feliz da sua galga favorita, attingindo mesmo uma ode sobre a baixa

dos algodões, muito gabada no corpo do commercio.

Esta nova phase governativa creou-lhe hostilidades e carinhos na imprensa

e classes obreiras. Os republicanos compararam-no a Nero dedilhando

lyra, á face de Roma estorcida em clarões de incendio. Nos grupos de

mundanos corria em risadinhas surdas o dito mordaz d’um certo marquez

Fulgencio, ao ouvir lêr a real ode. E a maioria saudava no excelso rei um

d’esses genios poeticos, mandados por Deus de onde a onde, á glorificação

dos povos, que por sua doçura, esforços, sabedoria ou martyrios, muito

haviam bemerecido da omnipotencia.

Duas sortidas ou tres, jogadas pelo gordo Menelau á popularidade que

lhe escorregava e fugia, o certificaram da boa impressão que nos animos

deixára a nova da sua coqueluche poetica. Eram lojistas que vinham

á porta com os metros em attitude, pessoas que lhe faziam adeusinho

nas ruas, dois jornalistas ou tres que lhe sorriam como a collegas,

descobrindo calvas de vasta auctoridade e saber. E d’uma vez que a sua

caleche se virou por conselho do ministerio, n’uma das grandes ruas da

cidade, mais de mil pessoas vieram offertar ao soberano, pedaços de

adhesivo e outras miudezas de affecto. Já a sua bella face de moleiro

ruborescia n’um bem-estar regalado, e os reaes olhos de goraz, velados

em palpebras somnolentas, ousavam fitar por um certo tempo, menos

assustadiços e supplicantes, a turba-multa das ruas, entrevista nos

passeios de carruagem. Dizia-se em geral:

—Mas é um homem intelligente, nosso rei Menelau. Escreve, por exemplo.

Para desculpal-o das incoherencias de governo e certo esbanjamento dos

dinheiros, os amigos opinavam:

—Que diabo! Um poeta!

E nos centros litterarios, como as suas rimas largavam por analyse,

descamações de caspa e esquirolitas de veado, esses mesmos amigos

juntavam:

—Como ha de ser bom poeta nosso rei Menelau, afadigado como anda

nas coisas da governação? O reino atravessava um periodo singular.

A industria de engeitar filhos, deixando de ser monopolio das altas

classes, democratisava tresvairada, por toda a matulagem de beccos

e cabanas de aldeia e cidade. Quem roubava de cem contos para cima

era absolvido e condecorado; quem tirava um lenço ou um pataco ia

degredado por toda a vida. Os juizes escolhiam-se entre forçados, e os

titulares entre pulhas. Evidenciando um cynismo mordaz que era moda, os

primogenitos diziam nos salões ás ricas herdeiras:

—Tenciono fazer como meu pae, que nunca se casou.

Os assassinos invadiam as estradas para arcabuzar as diligencias,

lavravam por toda a banda fomes biblicas e pestes asiaticas. Como

Saturno, os coroneis devoravam os regimentos; os generaes cobriam-se de

gloria e medalhas nas secretarias, casas de batota e chás officiaes; e os

aspirantes de lanceiros eram as primeiras bailarinas do exercito! Todos

os dias quebravam casas bancarias, havia leilões por dividas, abriam

armazens de penhores, ou os jornaes annunciavam suicidios. E no respeito

a sciencias, os astronomos fixavam a terra nos espaços, e todos os astros

em roda descabellados em corrumaças de pandega, ou fandangueando em

desnalgado bailete.

Os poucos espiritos sãos, voltados sobre um passado de historicas pompas,

contemplavam n’uma apathia desopilante, perdoando as vergonhas presentes

pelas glorias de então.

Espicaçado pelo exito, rei Menelau invadia os dominios da alta arte

poetica, o soneto pastoril, o acrostico recamado de doçuras do Hymeto,

o logogripho cheio de trocadilhos e imagens cartonadas, sublimidades

metricas onde a real inspiração tinha vôos de gallinacea. As suas

preoccupações litterarias subiram a ponto, que até uma penna de

bastardinho mandou cravar na ponta do sceptro, inda assim não lhe

fosse escapar a inspiração que o ferroasse acaso, ás horas solemnes da

pragmatica. Não era raro apparecerem os discursos da corôa e respostas

aos plenipotenciarios, crivados de rimas e allusões mythologicas que

faziam a confusão dos funccionarios, e chegaram mesmo a levantar

hostilidades com os inglezes.

Bem depressa porém, a atmosphera de sympathia e favor em que os loiros de

Menelau refloriam, fizeram o rei baboso de sua pessoa, infiltrando-lhe

ambições de mais vasto diametro, filaucias de grande homem, e insidias

felinas de creança amimada. Nos conselhos da corôa, embuçado no velho

manto real, que a agulha da rainha illustrara de passagens com o desenho

de centopeias, batia o pé se lhe negavam dinheiro para frescatas a que

era dado, allegando ser na verdade um monarcha mal empregado em tal

pelintrice de paiz.

A cidade do vicio · 第 14 / 17 段