E as festas tiveram logar, apparecendo os ministros tunicados d’amarello,

e o rei com ramas de loiro no craneo, e ricas sandalias cobertas de

saphiras e perolas. Para chegar á campina onde estavam postas as mesas

do festim, atravessava-se o grande lago, calmo e magnifico como um

Mediterraneo. Era no tempo de maio, o ceu fazia tenda de montanha a

montanha e horisonte a horisonte; entre oasis de palmeiras, cedros,

baobabs e arecaes ondulantes, pequeninas aldeias riam sobre as aguas,

entre reviravoltas de pombos e inviolaveis cegonhas brancas, sagradas

no paiz. Violentos reverberos de sol enchiam a marinha toda d’arestas

refulgentes, verduras de juncaes por entre as ilhotas perdidas, humidas

massas de bosque em cujos mysterios, extaticos dormiam formidaveis

tumulos de heroes e reis barbaros, sacudindo dos verandahs arruidos

tapetes de folhas e cascatas de flôres.

Acastellavam-se em volta titanescos scenarios de serrania lascada,

convulsiva, aspera, côr de lilaz nos recovados á sombra, azul nas faces

meio luminosas, e fulvas ou côr de rosa pelos espinhaços onde mais vivas

diziam as incidencias do sol; e mais longe, cada vez mais, nas ultimas

escarpas de _silhouette_ apagada, fazia obeliscos a neve, enormes, n’um

scintillante crystal de facetas em flecha. Espendurado de barrocaes a

pique, pela vertente dos desfiladeiros onde cabritos montezes balavam de

cornatura demoniaca, os pagodes cobriam-se dos seus chapéos de feltro,

grutescos como clowns repicando ao vento carrilhões phantasticos de

campainhas. Então n’um grande trireme escarlate, esculpido de chimeras de

oiro, dragões alados, cães de Fó com sceptros na pata, o rei no meio dos

seus ministros, sob tendaes de purpura e ramos de oliveira, atravessou

o lago nas azas dos remos, como n’um fim de magica, apotheotico,

enramado, entre barcaças onde a turba se apinhava para o saudar ao som

de cantigas, que as guitarras repinicavam sob as unhas dos _bailhões_,

em acompanhamento ás rimas extrahidaa da real versaria. Bebia o rei por

copos d’antiga fórma, como lêra ser uso antigamente, o vinho que negritos

vasavam d’alto, rôxo-terra, de bellas amphoras lavradas de mascarões e

relevos. Gritavam-lhe muitos:

—Deixa provar, ó _reinadio_!—E vá de risota na companhia.

As barcaças levavam quem tinha querido entrar, gente de acaso, gente de

trabalho, mal vestida e grosseira. Menelau na sua tunica de linho, a meio

dos ministros, barriga proeminente e vasta, onde as pontas dos seus dedos

mal podiam cruzar-se, afigurava assim coroado de verde, d’estas gallinhas

cruas, expostas nas casas de pasto sobre ramilhetes de salsa—e á pôpa do

trireme um menestrel repetia-lhe as proprias composições.

Derrotavam por esta e aquella aldeia, e mais povo em lanchões advinha a

engrossar a esquadrilha.

—Pae, diziam pequeninos gentios de nariz arrebitado e face de cobre, o

rei assoa-se ás mangas com’a gente. Megeras de grenha revolta, pernas

nuas, tanga de riscado, cabellosas de tromba, pasmavam que o rei não

fosse de roca, como os idolos da freguezia.

E evaporado o encanto as desillusões começavam; até que aproaram n’um

desembarcadeiro pittoresco, onde colonias d’algas estendiam para a

rocha, supplices mãos de vergastadas—e a turba urrando, cantando,

brandindo maças, agitando as pennas d’avestruz doa saiões, fazendo

telintar braceletes de bronze nos membros, e collares de dentes dos

inimigos vencidos em combate singular, ia desembarcando em desordem,

arco ao hombro, flechas á cinta, aos saltos sobre as frescuras da areia

molle e salgadia. De pé no trireme, ia-os o rei passando em revista

preguiçosamente, enojado do fartum que deitavam, perguntando se povo era

aquillo, e no fim de contas já dizendo mal á sua vida.

Ninguém da corte o tinha querido acompanhar, nem o menestral, nem

marquez Fulgencio, o que amargou á sua benevola alma de creança, pueril,

desequilibrada, sem firmeza, ao mesmo tempo fidalga e pusillanime.

Lançado em plena campina, o banquete tinha simplicidades de menu, por

tal maneira rusticas e primitivas, que os pés-frescos entraram logo a

murmurar, n’uma raiva de fome estimulada pelas emanações do lago. Para

entalar uma bucha de pão com o meio litro de vinho, não valia a pena

sahir de casa, muito menos da cidade; que diabo de rei era este somitego,

que nem se explicava ao menos com dois dedos de beef? Os gritos de—carne!

carne!—pozeram de sobreaviso o monarcha, forçoso foi mandar abater os

bois que havia nas arribanas da granja. Como os cozinheiros do paço,

orgulhosos da sua sciencia e jerarchia, não tinham querido embarcar, os

convidados arregaçando as mangas e brandindo navalhões, deliberaram elles

mesmos fazer cozinha. E o arraial ganhou com isto episodios d’effeito

imprevisto, desordens carniceiras, alegrias ferozes d’insaciavel gula,

como n’um acampamento de nomadas.

Por toda a planicie acendiam fogueiras, subiam ás arvores para cortar

lenha, esfolavam e abriam pelo ventre corpulentas rezes dependuradas

nos galhos do pinheiral; entre as cabellugens viscosas do matto, na

exuberancia das relvas, aqui, além, viam-se abalar mulheres em cata

d’agua, levando cantaros á cabeça; por traz das rochas, nos maciços de

zambujeiro, alecrim selvagem, leitos de campanella, rosmaninho ou trevo,

languidos casaes rompiam á socapa, recompondo furtivamente nos vestidos,

a desordem do amor partilhado. E Menelau paternal, esfregava as suas mãos

prelaticias, rosnando:—ah seus maganões, toca fazer população! Cavalgando

pipas que sem cessar jorravam, outros bebiam por grandes escudellas,

olho turvo, maçã congestionada, arengando a oratoria das tabernas e dos

mercados. Mas o cheiro da carniça grelhada entre pedras, que entrou a

derramar-se no campo, trouxe os primeiros desenfreamentos do appetite,

os urros e pulos redobravam; magotes de gentio com vivas ao monarcha,

agitando ramos e farrapos, lá iam em danças da _Africana_, meio obscenas,

meio barbaras, deante da tenda regia desenrolando serpentes com vastas

perspectivas, n’um charivari de remoinhos e berros, em que se misturava

o basso som dos pés descalços no chão. O festim começou na relva, por

baixo dos pinheiros, aqui e além desordenadamente, com maltas de grossas

femeas, collarejas, lavadeiras, donas de tasca, senhoritas d’arrabalde,

deliciadas d’arengar na presença do rei, todo o calão officinal dos seus

mestres.

A titulo d’exemplo, Menelau impozera-se comer apenas d’aquelle nobre pão

suado nas lides do trabalho, heroicamente, tão saboroso e reconstituinte

no rezar da petição que os populares tinham feito. E por simples

comprazer d’agradar, ia manducando a grandes bocados esse rolão salobro e

massudo como argamassa, que sabia a terra e a bafio. Por vezes, a droga

vinha-lhe á bocca n’um solavanco d’azia, lagrimas involuntarias brotavam

dos seus olhos pisados, emquanto o povo murmurava—está commovido,

mariola! Querendo reanimar o monarcha, os pés-frescos tomavam liberdades

d’occasião, davam-lhe abraços em pleno ventre, propunham-lhe jogar o

_homem_, ou no melhor dos callos lhe iam ferrando pisadas esmagadoras,

mascavando brindes com vozes de vinho, n’um chafurdar d’insolentes

cordialidades. Ao mesmo tempo, e mais isto o maguava, ouvia elle os

versos que compozera em noites inspiradas, repetidos por boccas vinosas,

corruptos de calão, intercalados de riso e facecias, e subia-lhe um

desgosto de funebre reinar sobre tal babuge de homens. Fulgencio tinha

razão, tarde reconhecia isto, o pobre Menelau! Mas forçoso era parecer

alegre, mesmo respondendo a brindes, que em vez de lisongearem a sua

divina pessoa, o estavam enxovalhando mais e mais.

Com um riso livido marbreando-lhe a bocca contrafeita elle esboçava

gestos, que bruscamente se quebravam n’um asco, respondia palavras

incoherentes; e pelas fauces da canalha viam-se desapparecer os ultimos

nacos de boi e os ultimos picheis de vinho. Veio a noite, nas sonolencias

do campo os grillos crivavam o silencio de silvos, e como lampadas

accesas para uma boda, já as estrellas pendiam na tenda palpitante dos

céos. Blondes translucidas subiam do lago, condensavam-se, subiam mais,

ligeiramente, apagando nas serras a chanfradura dos desfiladeiros, e

confundindo bastiões de rocha com as torres asperas dos pagodes—pois

a essa hora ainda, espapaçados por baixo das arvores, os pés-frescos

bebiam ou rolavam nos braços das suas damas. E como o rei quizesse

voltar, muitos oppunham-se, cercavam-no, mais um pedacinho, amigo rei,

por quem é, apertando-se-lhe em volta n’uma quadrilha de ratoneiros.

A retirada foi quasi uma evasão, todos queriam embarcar no trireme;

muitos em zig-zagues, batiam no hombro de Menelau, dizendo—até sempre,

ó coiso, explica-te cá com um cigarro. E o rei impava da brôa comida,

sentia-se asphyxiar pausadamente, crescia-lhe o estomago dorido, e

suores d’angustia gelavam-se empastando-lhe os cabellos nas fontes.

Tarde o seu arrependimento chegava, de haver transigido com a populaça,

e abdicado do orgulho dynastico que mantinha a distancia, essa vil raça

de fellahs; esquecera que a realeza como o pau bichoso, dura podre muito

tempo, em se lhe não tocando; a sua travessia pelos versos fôra ridicula;

querendo viver do triste pão das cabanas, tinha sido idiota. E como

esponja embebida em liquidos, turgecia-lhe no estomago aquelle rolão

comido, desmedidamente, furiosamente, obstruindo-o n’um peso de metal que

enregela e se mobilisa. Para o desembarcar, os ministros fizeram padiola,

porque o monarcha nem se podia mexer; e atraz a turba esguedelhada,

praguejava e mugia á luz dos fachos, na alegria indecorosa do vinho.

Rubros clarões então descobriram os caes apinhados de burguezes, de

chapéo sobre os olhos e mãos nos bolsos, rindo baixo uns para os outros,

e voltando costas quando passava o cortejo.

Por vezes, do coração das trevas rompia um dichote cruel, que instigava

publicamente o escarneo, incitando á revolta; escuridões gordurosas

choviam das emboscadas, fervilhando rumores d’ameaça; e subitamente,

cortando o bairro nobre, babylonia de fachadas algidas, alpendres

lugubres, e torres roqueiras com gradaria carcomida, Menelau viu bem que

estava perdido. Nem uma luz nas frontarias, nem um viva na bocca das

familias patricias, que o viam passar co’a turba multa de pés-frescos.

E a sua bocca escaldava, o estomago crescia-lhe sempre, e esses labios

brancos murmuravam n’uma afflicção d’embuchado:—o meu reino por uma

botija de Sedlitz!

Ai, pobre Menelau! Quizera digerir pão ganho a trabalhar, como se de tal

fosse capaz o seu estomago d’ocioso, delicado, senhoril, dyspeptico, que

uma ascendencia de pompas, costumes galantes e prazeres, sómente educára

a viver do pão dos outros, e aqui está como se foi d’indigestão o bom

rei Menelau, tão querido do seu povo, que todos os annos inda agora, ha

lucto no dia da sua morte; e antes d’elle seis mezes ninguém trabalha de

magua, o que tambem se dá nos seis seguintes, apesar de mui laboriosos,

todos os habitantes do pequenino paiz dos pagodes. Para cumulo de pouca

sorte, morreu sem admirar a rica palma chifre e oiro, que pelos certamens

poeticos do outono, Mont-Real lhe endereçou em preito ás _Folhas e

Cascas_ rimadas, premio votado unanime pela nobre academia tolousina, na

secção: _sujet libre, quarents vers au plus_.

A palma figurou muitos decennios entre as joias da corôa; mas fatalidade!

veio um dia a republica, que a fez talhar em botões, para as cuecas de

gala do presidente.

JANTAR NO MOINHO

Estes dias luminosos em que nos apraz o amor das coisas simples, a

comprehensão e o cumprimento dos deveres honrados, passados no campo

e fóra da convivencia monotona dos trens de praça, dos _meetings_

republicanos com vivorio, dos typhos e do parlamento, são-nos

particularmente agradaveis e infiltram-nos no organismo fatigado,

particulas de saude que fazem alegre a alma, e dentro de nós cantam

marchas colossaes de poderosa instrumentação, _preghieras_ de rythmo

suavissimo e casto, toda uma opera de auroras e triumphos, cheia de

grandes arias e surprehendentes córos. O ceu não tem negrumes, é frio e

lavado o ar, transparencias em que o olhar se embebe sem esforço e a alma

sonha sem pesadelo. Tu bem conheces este estado gazoso da alma, caro

homem gordo que vens de me lêr, quando passas da rua onde móras na Baixa,

para o ar de Pedrouços ou Lavarrabos. Este purissimo azul cantado desde

que ha lyras, tão puro de lei, que nem as evolações morbigenas da poesia

chocha d’outros tempos conseguiram corromper e estragar, sempre novo para

os evohés de cada vate que chega, é o grande poema colossal, que cada um

de nós busca metrificar e comprehender, na aprendizagem artistica de cada

espirito em jornada para o supremo ideal de bondade, de justiça e d’amor.

Em cada manhã que rompe, pelas esplanadas que vagarosamente o arado

sulcou, e as primeiras folhiculas das seáras germinantes avelludam de um

tom verde e tenro; pelos barrancos franjados de arvoresitas sem folhas,

espinheiros cobertos de drupas escarlates, maciços d’alecrins selvagens,

losnas acres, rosmaninhos sombrios, estevas, piornos e murtas, o sol

verte a sua pulverisação de oiro n’uma serie de musicaes vibrações, cujo

rythmo só percebe uma pupilla impressionista; vibrações por que se afina

a musica dos passaros na pennugem dos ninhos e o _pizzicato_ do arvoredo

regorgitante de seiva; vibrações que provocam lentamente o desgelo em

refulgente orvalho, na concavidade dos pegos, á flor dos quaes anuros

irrompem coaxando, verdentos e amorosos, fazendo tambem os _couplets_ do

seu primeiro noivado d’este anno...

Com o meu chapeu derrubado e as minhas botas de couro cru, solidas e

altas, cinta preta e jaleca de pelles, á hora em que os senhores estão

digerindo ainda môlhos do Silva e carinhos d’itaïra, vou eu a pé, fumando

o meu cachimbo ou pensando nos meus alqueves, pelas veredas que passam

nas folhas de semeadura, ou como fulvas serpentes galgam as espinhas

dorsaes das cordilheiras.

Os cantos dos pardaes recordam-me sem saber porque, um canto d’ave

estrangeira, preciosa ave cujo perfil etrusco lembra uma pintura

exhumada dos sarcophagos de Corneto e Castellaccio, e cuja larynge é um

thesouro—mademoiselle Borghi, essa morena de olhos intelligentes e bocca

sarcastica, a quem Lisboa já deveu as maiores commoções e os mais vivos

enthusiasmos.

E á força de muito pensar na cantora, sob estas arvores que em voz baixa

cochicham e gentilmente me cumprimentam, as _coquettes_, julgo que a

voz d’ella me chega abafada no rumor das franças que o vento beija,

trazida sobre os monstros phantasticos de nuvens elegantissimas, que

chegam em caravanas como dromedarios dolentes, com a sua bagagem de chuva

talvez; ou ainda communicada pelos fios do telegrapho, em cujo extremo

Edisson tivesse a bondade de nos prender a sua simplissima e prodigiosa

descoberta.

N’uma aldeia lá baixo, ao fundo do aspero Alemtejo, onde passo a mór

parte do tempo, a raça é bella de linha, vigorosa e sobria, d’uma pureza

e simplicidade de costumes que me encantam, e governando-se como as

tribus dos primeiros dias, sem conhecer ente supremo, além d’um velho

lavrador patriarcha que reparte com os mais pobres, nos maus annos,

os seus celleiros. Admiravel, a ignorancia serena d’estas boas almas

pelo resto do mundo, e o seu desprezo ao mesmo tempo, pelos artificios

pelintras, que grassam como uma civilisação tuberculada, por terras mais

populosas da cercania,—cabeças de comarca com funccionarios a trezentos

mil reis e casaquinha de botões recomidos, ou pobres villotas, a que a

estação de caminho de ferro deu pretensões de centro culto e fidalga

indolencia. O circo de montanhas altissimas que serve de _fichu_ á

aldeia, isolou dos maus convivios a população laboriosa, cuja probidade

inabalavel é encantadora de vêr. Ao mesmo tempo, um respeito pelas

mulheres, um desvelo de familia para familia, uma religião poetica e

pagã da natureza... As raparigas casadeiras sahem sós pelos campos, em

cabello e roupinha curta, atravessam as eiras e os jogos de bola ao

domingo, n’uma confiança donairosa, que é sympathica a toda a gente. Á

porta das cabanas, a população das femeas costura e canta, n’uma paz

cheia de candura. No meio dos largos, oliveiras de troncos rocados onde

enxuga roupa. Os bois de trabalho, enormes, tendo um ar de pessoas de

familia, com leves cumprimentos de cabeça para um lado e outro, passam

junto ás portas sem guia, caminho dos seus curraes, á hora de beber; ou

na grande dorna da fonte, sorvem com intermittencias preguiçosas, a agua

que jorra por uma gotteira desconforme, em quanto aos seus pés quasi

nuas, espendurando-se-lhes dos cornos, creanças brincam como bandos de

novilhos descuidosos. Quando desce o astro, galvanoplastisando no poente

clarões de forja titanesca, e entra a vir por baixo das arvores uma

brisa refrigerante, as raparigas tomam os cantaros á cabeça, e direitas,

trigueiras, de olhos magnificos, mãos no quadril, abalam por grupos

cantando á fonte, com regularidades quasi architecturaes de figura. Vão

os campos adormecendo, algum cão de malhada tem latidos, a aldeia tem

recolhido aos lares, dos seus rusticos trabalhos, e faz-se assembléa

geral em redor da fonte, para saber como ficou cada um na colheita, se

fulana casa, e o burro do compadre vae melhor. Os rapazes arregaçados e

altos, figura secca e musculo d’aço, bellos adolescentes como Yalouleds

argelinos, tendo um ar calmo de estatuas, tiram agua para os cantaros das

irmãs e das primas, cantando sob os freixos que agitam com ar benevolo,

as suas cabelleiras de folhagem.

Os gados apertam-se cabriolando com sêde junto do bebedouro, fazendo

elegias com balidos, a exprimirem poeticamente as suas saudades do sol.

Trindades. Escurece. Por baixo dos parreiraes sem folhas, umas agora,

outras depois, vêem-se as moças em _silhouette_, equilibrando cantos

arabes, sem ondulações nas ancas, e como levadas n’um sopro.

—Até ámanhã! Até ámanhã!

—Como vae a tua vacca, Maria?

—Mal, por desgraça minha. Desde que o boi lhe morreu, o _alimal_ não tem

cara de gente!

Resposta que pinta a vida primitiva, amiga e em commum, d’esta familia

toda animal, homens e brutos, partilhando eguaes interesses e gozando

d’eguaes respeitos, sem distincção de fórmas ou categorias, o homem

auxiliando o bruto, o bruto auxiliando o homem, e todos com direito á

vida, e todos com direito á estima, santa vida!

* * * * *

Meio dia nos relogios de sol dos camponezes que varejam as oliveiras

(não podem calcular como houve azeitona este anno!...) e no estomago

valente das raparigas, que em baixo curvadas sobre a terra, apanham os

fructosinhos negros cantando:

Tenho dentro do meu peito

Um canivete doirado,

Para cortar um _pan-leve_

No dia do teu noivado.

O sol é como um botão d’oiro polido na farda azul do incommensuravel.

Subo as encostas apoiado ao meu bordão de rendeiro, e á medida que

subo alargam-se-me os horisontes, como pannos de fundo successivamente

corridos nos confins dos valles, que a luz retoca n’uma graça castissima

de tonalidades.

Á direita, um moinho braceja com os seus braços de vélas laboriosas,

dilatadas como azas de borboletas reaes. E penso no moinho de Daudet,

aquella deliciosa ruina no fundo da Provença legendaria! O vento faz-lhe

ranger as cordagens e o cavername. Á roda tudo verde, relvas altas e

humidas, tapeçarias interminaveis que ás ouviellas dos ferragiaes vão

descendo, com os seus _bouquets_ de arvoredo, renques de choupos e

salgueiros, casinholas e hortejos, o convento em ruinas onde as corujas

piam, e no declive silencioso, o cemiterio da aldeia, sem capella e sem

arvores, semeado de pontos negros com numeros brancos, e tendo aqui e

além, pequenas grades negras de sepulturas. Detenho sobre aquelle cerrado

os meus olhos. Ai de mim! Dos que me viram pequeno e me tiveram nos

joelhos, dos que brincaram comigo e todas as manhãs me vinham acordar

n’um cicio de beijos castos e risadinhas innocentes—pobres e queridos

deuses da minha alma!—muitos jazem além para nunca mais.

Doze badaladas na parochia. Os que lavram e os que varejam, os que

apanham azeitona e plantam bacello, param da faina.

—_Meio dia, panella vazia!_ é o que se ouve. E nas courellas, nos

olivaes, nos reconcavos da montanha e nos vinhedos do valle, ranchos

fazem roda, cantando para jantar. Biot, Helmoltz ou mesmo Tyndall,

se estivessem cá, iam logo calcular a distancia dos cantadores pela

intensidade mais ou menos amortecida com que aqui chegam as vozes. Eu

sigo caminho, fumando no meu cachimbo, solitario e nostalgico, com a

saudade brumosa dos que nunca tiveram _chance_ na vida.

Começa o montado, chão coberto de bolotas, arvores lacoonticas que pendem

carregadas de fructos, meio engastados nas suas capsulas serabulhentas.

A vara de suinos passa, fossando, tasquinhando, grunhindo. O suino mesmo

em sociedade, é macambuzio, coitado! Quantos vivem e morrem a comer

essa bolota farinosa, que a meia duzia dos seus irmãos felizes faz

bordar a ouro nas golas dos uniformes de gala! Detenho-me a calcular

melancolicamente, que por mil d’estes tristes assados em familia, e

patentes á venda por essas salchicharias, ha talvez um só que chega a

conselheiro. E esse consagrado mesmo, que monotono e que tristonho!...

Quasi sempre copía em côrte o ar rhinoceronte do rei João VI, calvo,

obeso, adiposo e molle. Mesmo a fallar na camara dos pares, do seu

_fauteuil_ côr de bronze, sob os olhares do arcebispo de Mytelene, a

sua voz é um grunhido nasal, bom para se repercutir em charneca, nada

mais. E o typo do massador, do auctor de prosa dura, victima de fluxos

hemorrhoidaes, callos _olho de perdiz_, e assaduras na região do perineo.

Sempre que elle é ministro, os artigos politicos da opposição representam

apenas—um raspão de costelleta.

E no seu fervor doutrinario, a maioria, o mais a que chega, é a servir ao

paiz _Son excellence Eugène Rougon_, com feijão branco.

* * * * *

Á janella do seu moinho, o moleiro de barrete azul e cigarro, faz-me os

seus cumprimentos de velho amigo, confessando que me não esperava tão

cedo, e dizendo que estou um homem, benza-me Deus!—o que a fallar serio

me não espanta, pois que lh’o oiço ha dez annos, sempre que nos vimos no

campo. Pomo’-nos a tagarellar sobre o que vae pelo mundo, nos casamentos

projectados, pauladas distribuidas desde a minha ultima estada na terra,

nas esperanças da seára e no preço do vinho. Que as decimas do anno hão

de augmentar, pelos modos? Ha uma coisa que não entende lá muito bem, o

pobre trabalhador, a quem o Estado tudo suga e nada dá.

—Uma comparação! diz-me elle com energico arregaçar de mangas.

Comprar uma creatura o seu porquinho, gastar na compra do bagaço e

farello com que o engorda, ás vezes uma quantia séria, e quando vae a

fazer chouriços e presuntos do bicho, vir a magana da justiça dizer—oh!

das cabras, salta p’ra cá tanto, por fazeres matança p’r’á fartura da

casa. Paga-se de ter burro, de ser casado, de ter filhos, de pisar a

terra de Deus, paga-se de tudo, senhores!... Com um dedo descuidoso

aponto-lhe a rir o varapau que elle esqueceu á porta. O moleiro encolhe

os hombros e responde:

—Mas em quem?

Encolho tambem os meus, sem lhe poder mostrar um costado criminoso, n’um

paiz onde todos mais ou menos o são.

Se quero jantar? Não recuso, e elle vem-me abrir a sua porta

hospitaleira, fazendo-me penetrar a sua morada cheia de saccos de

farinha, mós alvas, e trigos em montões sobre as grandes esteiras de

palma do Algarve. A mulher estende a toalha na banca, lisonjeada da

minha franqueza e orgulhosa de me receber á sua mesa, a santa creatura!

Uma pequena loira, de olhos espantados e bocca humida, um grande cão de

guarda de poderosa cabeça e pêllo negro, dois gatos malhados, e o rapaz

do carrego, chegam-se para me receber affavelmente, para me sorrirem,

para brincarem comigo e me fazerem festa.

E todos:

—Esta casa é sua! Esta casa é sua!

Dizem o moleiro e a mulher com a bocca, os gatos, os cães, a pequenina e

o rapaz com os olhos—bons olhos sinceros e castos onde Deus reflecte a

suprema bondade, e a biblia do azul deixa um capitulo da sua limpidez.

Jantamos. Mostram-me as habilidades da filhita, que já anda á escola.

Descubro um livro, dois livros.

A cidade do vicio · 第 16 / 17 段