perscrutando as faces e gestos de todos. Recrudesciam-lhe cuidados pelos
outros, a mamã que não comia, Albano que não socegava de noite, o Arthur
sempre concentrado; depois eram as gavetas todas desarrumadas talvez,
roupa que se ia accumulando de semanas, e ella a não poder costurar,
Jesus! o irmão com falta de camizas engommadas. Mas ia levantar-se,
andar, ter forças um d’estes dias, não era verdade? Já não deixava a
cama, e nem suster podia a pobre cabecita de passaro. Voltavam-lhe
fervores de monja por toda a côrte dos ceus, paixões da musica séria,
grave, triste, que permuta confidencias de sêr para sêr, e em cuja
secreta essencia a alma se banha, para despertar em mundos translucidos
de reminiscencias divinas e indefinidas imagens, resolver a dôr pelas
lagrimas, e impôr os grandes sacrificios na vida, sem rebellião nem
blasphemia. N’este irresoluto spasmo de espirito bruxoleante, ella ia
d’um a outro bocado sem coherencia nem logica, querendo apenas pela
vibração, traduzido o estranho cosmos interior, que instantaneamente
lhe chegava e instantaneamente partia. Embalde o estudante lhe evitava
os dolorosos, os convulsivos, os doentios, os sem esperança—Chopin
que parece ter escripto sob o inferno d’uma chaga por todo o corpo,
excruciado em torturas freneticas; Massenet o poeta das emoções
indefiniveis; Beethoven mysterioso como o mar, terrivel e dôce como elle;
e os outros, Gounod, Berlioz, Widor, Schumann... Mas eram esses que ella
pedia a toda a hora, estendida no seu leito de cassas immaculadas, entre
rosas que esfolhavam meio comidas por esses vagarosos dentinhos, mãos em
cruz como certas estatuas de mausoleu, o espirito errante. Ao anoitecer
punham a lamparina longe, a um canto da alcova, uma penumbra morna
ondulava tufando impalpaveis fórmas de mil coisas evocadas; e era quando
Judith gostava mais de ouvir o irmão.
Na dubia e calma atmosphera, a musica equiparava todos esses organismos,
polarisando-lhes a emoção n’uma mesma corrente de gostos e affinidade de
devaneios. Aos gestos d’esse arco requintado, debandavam os allegros como
pombas que vindo beber n’uma urna tumular de creança, partissem levando
no bico ultimas lagrimas de mãe n’ella choradas. Esboçavam os scherzos
fugacidades de cherubins em marcha do ceu á terra, n’uma grande espira
biblica, com stalactites d’iris e revoadas d’espiritos santos, entre os
threnos das cytharas e chuveiros de rosas mysticas. Por intervallos,
suspensões faziam a alma indecisa recuar, reflectir, sacudir as plumas,
tomar folego. E em meio da longinqua harmonia quebradiça, serena,
carinhosa, supplicante, retinia subitamente um grito. Então os prestos
desemboscavam-se, sahiam d’agua para algum sabbat n’uma flecha de lua,
faziam-se e desfaziam-se, perseguindo-se, beijando-se, voando em pares
por baixo das folhagens multiplas de arecas e nogaes perfumosos, vergando
aos circulos como nos corpos de baile, pousando em grupos dissolventes,
balanceando-se em grinaldas de flôres por cima dos murmurios da agua, ou
ficando a rezar o motivo baixinho.
—Meu Deus, Judith, tu dormes, minha filha?
—Não, mamã, estava a pensar, vês tu, que é tão bom viver!
Albano nada dizia com medo de se ouvir; Arthur tinha receios de
perguntar. Depois, era evidente. Começava a romagem dos tisicos n’essas
frias manhãs côr de teia d’aranha e folhas mortas, em que a cidade vae
pagando ao cemiterio o seu tributo de cem virgens. Na face de Judith, dos
malares ao queixo, um claro-escuro projectado na pallidez fazia-lhe a
_masque_ rigida e severa.
Para mais, tudo acabrunhava o pesadêlo funebre; dir-se-hia ganharem as
coisas de roda, physionomias crueis e implacaveis caracteres. Qualquer
agouro caseiro de que Albano sempre se rira, deixava-o pensativo ás
vezes, realisado agora. Alta noite, a calada do predio apavorava pela
glacial enormidade, fazendo um enorme rir de caraça, baixo, vazio,
sardonico; a pendula da casa de jantar irritava-lhe os nervos; lentos
chuveiros iam rolando na terra negra, como prantos por vestidos de lucto;
e nos descampados da Avenida, os uivos lamentosos dos cães noctambulos,
pediam á cidade arquejante no seu somno de vicio, como pobres jaus,
esmolas de corpos para matar a fome aos cemiterios. Aggressões em tudo.
Se Judith passava pelo somno, os relogios davam horas muito alto,
para ella despertar. Estalava o sobrado, quando punham mil precauções
em pisal-o. Repetidas _soirées_ com piano e canto até de manhã, na
visinhança; gatos cabriolando n’um esbanjamento de prazer, por essas
casas; e a mamã apavorada, bradando no meio d’um sonho tenebroso—Jesus,
minha filha morreu!
Por vezes tudo parecia um pesadêlo transitorio. Ella podia lá morrer!
Morre-se lá com dezeseis annos! A natureza tem necessidade de corrigir
por estes modêlos de innocencia e intangivel doçura como Judith, maus
rebentos que produz e cadeias de monstros que deixa propagar, sem
piedade nem consciencia. E argumentos dos livros. Os organismos novos
arrancam dos proprios seios extraordinarias forças de reacção, com que se
defendem dos males que os assaltam, até os deixar varados no campo.
Coisa alguma nasce sem um destino e um fim, Arthur, pois não é verdade?
Vem ao mundo a mulher para mãe. Logo, Judith não podia morrer ainda. De
repente cahiam em si desconhecendo-se, a si mesmos perguntando desde que
tempo podera amassar-se-lhes dentro tanta fragilidade, tanta estupidez
incoherente, tanta miseria. Cada um d’elles a occultas do outro, punha a
sorte de Judith em loteria.
—Se emquanto fôr por esta rua, nenhum cão ladrar, ella melhorará, dizia
Arthur apressando o passo, n’um terror de ouvir signal desfavoravel. E se
effectivamente ladravam, enraivecido, fazendo um gesto violento:
—Não vale! Não vale! dizia elle transtornado.
A voz de Judith baixava sempre, baixava, cahia o pulso, a tosse era mal
um suspiro.
—Por estes dias... dissera o velho pratico, e Albano tinha entrado a rir
lugubremente.
—Ora adeus! Póde lá ser! Por estes dias!
Estava essa vez a manhã mais deliciosa, picada de friositos confortantes,
nem a primeira nuvem, toda a cidade fumava, e flechas de sol embutiam
jerogliphos n’um vehemente ceu d’Andaluzia, e grande rumor de pregões,
como houvera peixe...
Não, elles não consentiriam que a sua pobre amiguinha fosse para os
covões da fria terra molhada, dura, surda, que rangia as mandibulas na
escuridão, e se enroscava corroendo tudo, apodrecendo tudo, substituindo
tudo, e d’envolta remexendo no mesmo cadinho d’alchimia torva, velhos
ninhos e cadaveres, cabellos loiros e folhas seccas, ultimos risos e
virginaes capellas.
Buscavam excitar-se, reanimar reciprocamente as masculas energias
decahidas, com dizeres de que não criam uma só palavra. Ante a impotencia
nos meios de reagir, vinham-lhes cobardias, transigencias graduaes em
materia de fé, vacillações atrozes. Deus atravessava ás vezes essas
cabeças desnorteadas, n’um fundo de nevoa sebastianica, carrancudo, com
o sarcasmo feroz d’um tyranno que se vinga de o não terem acreditado em
começo.
Elles n’uma vil duvida, tendo nos ouvidos a prophecia do clinico, _por
estes dias, por estes dias, por estes dias_! contavam as horas que
só restavam talvez, perguntando quando seria, appellando para alguem
que tudo podesse, fosse quem fosse, Deus ou o demonio. E renegavam
dos seus grandes principios d’outr’ora, hesitantes, será, não será?
entreolhando-se n’uma d’essas angustias verdenegras, cobardes,
mesquinhas, despreziveis, inevitaveis, humanas, que são a bilis do
coração, profundamente amargas. Quando foi meio dia, por uma temperatura
a mais amoravel, com abelhas zumbindo nas escapadas de sol, borboletas
que arfavam, carruagens descendo dos bairros aristocraticos para a cidade
commercial, raparigas que punham os ultimos _pompadours_ claros, todo
o mundo que se desentorpecia passeando, respirando, cantando, pareceu
Judith sensivelmente melhor. Os seus olhos fizeram-se docemente humidos,
sem esbrazeamentos de febre; nem uma suffocação de tosse; a voz mesmo
subiu um pouco; e coisa que não fôra vista em toda aquella semana, teve
um riso quasi feliz. Vinha o sol alegremente pela alcova, festival e
fulvo; ella mirava as suas mãos diaphanas com enlevos de _baby_. Albano
deu-lhe a colher de Madeira, uma grande pilula de carne, e tintas menos
baças pareceram reflorir-lhe por transparencia na pelle. Aquillo deu
vislumbres de esperança ao esculptor, que lhe poz junto dos labios, muito
jovial, uma bella rosa branca, por milagre obtida já n’aquelle tempo,
ultima talvez do anno. Porque nunca se veio a saber como o pobre rapaz
tinha artes de arranjar o seu pequeno ramo todas as manhãs.
Passava de seis dias que Judith parecia haver esquecido as flôres, de
entorpecida na mollidão da febre, por fórma que havia rosas por toda a
parte, nos grandes jarrões do aparador, vergando por cachos no centro
de mesa, ou murchas em cabazinhos por todos os cantos. Erravam assim no
ambito perfumes fanados de egreja, recolhimentos de penitencia, e halitos
tepidos d’oração.
Arthur veio encontrar Albano, que subira ao sotão para trazer a rabeca.
—Mas que vem a ser isto? dizia elle alvoroçado. Melhorou tanto!—E
abraçava todo feliz o companheiro. Albano poz n’elle os olhos mortos, não
fez senão dizer bem bom! umas poucas de vezes, e viram-se-lhe as lagrimas
correndo a quatro e quatro.
—Estás agora piegas, tornou o esculptor cuidando que eram d’alegria.
E desceram. Judith tinha querido vestir-se, mas fallava com os dentes
cerrados e muito pouco, riso immovel, rolando os olhos n’um vagar quasi
dramatico. Albano achou-lhe o pulso regularissimo; conservava-o entre os
dedos contando, trinta e uma, trinta e duas, trinta e tres... Subitamente
o grande silencio d’um relogio que pára. Judith sorria para todos.
Como o irmão estava á cabeceira do leito, teve de virar a cabeça um
quasi nada, e ainda o viu todo tremulo, encostado á parede. Mas o pulso
recomeçára, trinta e quatro, trinta e cinco... E tão contente, a pobre
velha mamã! Fôra Nossa Senhora da Penha, e mais o santo tal, e uma grande
esmola que ella tinha deitado ás almas de S. Domingos. Quando estiveres
melhor, querida filhinha, iremos aos Fonsecas n’um dia assim como este,
em carruagem fechada.—Ia dizer surrateiramente ao ouvido de Albano, no
vão da janella: parece-me que ella tem as pontas dos dedinhos frias. Se
fechassemos as vidraças? Vae tu vêr.—E para Judith, carinhosamente:
muda-se de vida, mal te ponhas boa, deixa isso cá por minha conta. Esse
habito de não comeres ás horas, não dormires com medo de tudo, e nunca
dares um passo fóra de casa, não póde ser salutar a ninguem, o doutor
m’o disse: muito menos a ti que és tão debil, querida filhinha. Bem
t’o recommendava eu; nunca querias attender, cabecita ôca!—Mil planos
então successivamente, se retalhavam e abatiam na loquela feliz da pobre
velhota, mudarem de casa, mandar fazer uma grande pelliça a Judith para
o inverno proximo, e noites de theatro, e passeios, e tudo. Sorriam
todos, Albano por comprazer dos mais, ceu e terra deslumbrados na fulva
magnificencia do astro. Aos platanos d’Arthur, tinham subitamente voltado
passaros chilreando n’esse ephemero bom tempo; repicavam sinos por todos
os campanarios da cidade; salvas no largo azul-myosothis do rio, predios
que embandeiravam içando pau de fileira, musicas dispersas de regimento,
uma doce alegria de pombas voando de caramanchel em caramanchel e beira
em beira. Vendo Judith tranquillamente na velha marqueza, mirando as suas
mãos exangues, um pouco cheia de cara, e como preludiando convalescença
proxima, Arthur mesmo sentia-se reconfortado, após tanta noite de
maceração e vigilia. E dizendo que já vinha, foi a casa vêr se descançava
um pouco. A mudez que Judith conservára, tinha-se rompido áquellas
palavras. E dissera:
—Não se demore, n’uma voz que impressionou profundamente o esculptor,
timbres de cabra, como se a emitisse o phonographo, e tão espaçada que
dir-se-hia não lhe irem occorrendo logo as palavras.
—Ha-de ser fraqueza, disse Arthur, querendo por força que ella estivesse
melhor.
Pela tarde, mais de quatro horas, estava elle no _atelier_, á espera que
amigo Flores chegasse de casa do Albano, onde o mandára saber de Judith,
quando o _ártista_ appareceu.
—Então como está? disse o pobre rapaz muito pallido.
Amigo Flores sacudiu a juba onde fios brancos corriam, e respondeu:
—Já boa. Escusado ter lá ido. E a escada que é alta!...
O outro não entendeu, repetiu-lhe:
—Hein? Melhor?
—Já boa!
—Vossê manga comigo? gritou-lhe Arthur com violencia desmedida.
—Não rebata as minhas asserções. Morreu!
Arthur deu um rugido de leão espingardeado, atirou-se a elle com furias
de doido, e pelos hombros derribou-o sobre um grande gesso do _atelier_.
—Morta, que? Morta? dizia elle a tremer, com o outro debaixo do joelho,
as mãos crispadas errando, e um riso horrivel na bocca. Morta? Este
canalha!...
Ia alcançal-o pelas guelas com a cabeça perdida de dôr, mas presentindo
o lance, amigo Flores furtou-lhe o corpo de repente, e Arthur cahiu de
bruços, desamparado, como se fôra morto.
—Diabo, diabo! fez o jacobino attonito. Fui-lhe rebater as asserções, era
a pequena. Hum! Indole molle; pouco dará.
Quando sem chapeu n’essa noite, envelhecido e lugubre, Arthur veio para
modelar o rosto e mãos de Judith, encontrou Albano assentado na cama onde
a irmã estava morta. Ao lado, espedaçado n’um impeto de colera, via-se o
Stradivarius que o pobre careca vibrava tão bem, sendo ella viva.
Elles viram-se e não trocaram palavra, minados por esse febril e
medonho tedio, que vem na ultima noite aos enforcados. O egoismo sereno
das fórmas em roda, infiltrava-lhes desprezos áridos por tudo, uma
quisilia de vingança contra a cidade, d’ella não vestir o lucto que os
imbecilisava a ambos.
A pancada do relogio na casa do jantar era tão nitida, tão viva, tão
insupportavel, que Arthur desconcertado fez parar a pendula. Assim
as horas iam sem elles saber, e aquella ultima noite foi tres vezes
mais pequena. Sómente a bocados, do fundo da Estrella, vinha em dobres
arquejantes aquelle tragico sino que fôra o pavor de Judith pela
alta noite, no inverno, quando o rir dos ventos cortava a solidão de
imprecações, e muito embrulhada no velho capote d’Albano, ella se ia
anichar ao pé da mamã, rolando para todos os lados os seus bonitos olhos
assustadiços. E esse velho phantasma agora lamentava-a como de longe, um
gigante amoroso, encarcerado n’uma velha torre de menagem. Não sei que
arzinho escapado por fendas, punha ondulações nas cortinas. Por cima dos
moveis, na mesa do centro, ou esmagadas sobre as costas das cadeiras,
peças de roupa abandonavam-se em attitudes vazias, enrodilhavam-se,
cahiam, remexidas dos bahús por mãos convulsas, trazidas ao acaso sem
luz, postas de parte, atiradas com desespero, e por fim esquecidas na
ultima _toilette_ de Judith. Um cangalheiro gordo, com a andaina preta
esfiada de miseria, cabello em escova bordando cimalha por cima d’uma
testa baixa, toda polida de gordura, viera tomar medidas para o caixão.
Albano sem saber o que fazia, tinha empurrado o homem brutalmente, que se
fosse embora quando não matava-o, e a gritar que não queria a sua irmã
pisada, quando lhe deitassem a terra por cima da cova.
Estacado á porta da alcova, braços cahidos, collarinho sem botão, o
collete abotoado ao acaso, Arthur viu de relance aquella desordem de
gavetas abertas, a ultima chicara de caldo fria na beira do aparador,
colheres pelo chão, a um canto o centro de mesa com pinhas de rosas
esmorecendo sem agua no crystal do jarrão proeminente—e por tudo aquillo
os seus olhos iam vitrosos d’imbecilidade. Um grande tule pendia
n’um cabide, com vincos ainda da loja, cortes nitidos de tesoura na
base; e por elle abaixo, com folhas de panno envernizado, grinaldas
brancas desabrochando efflorencias de quinquilharia vulgar, n’um asco
de tintas frescas ainda. Ao redor d’um crucifixo de pau, assustador,
como esculptura, velas altas derretiam nos castiçaes da sala. Duas
hospitaleiras com grandes rosarios badalando á cinta, andavam á roda
bulindo, aconchegando as coisas de olhos baixos, psalmejando rezas
lugubres em latim barbarengo. Elle via-as na sombra negra dos biocos,
aborridas, resfolegando, bocejar muitas vezes com mau modo, emquanto
as suas rezas seguiam de cór, n’uma lenga-lenga afadigosa. Mas entre a
realidade e os seus olhos, um vago de bruma interpunha-se, fazendo-lhe
vêr as coisas n’uma perspectiva remotissima. A morte de Judith
surgia-lhe indefinida como n’um pesadêlo, sem maguas d’aresta viva, sem
biographia, nem vehementes saudades inconsolaveis, sem lagrimas mesmo,
descorrelacionada, confusa, como phosphorencia do cerebro doente. Era uma
impressão de coisa passada n’outros tempos, com outras pessoas, n’outros
logares. De quando em quando, as _corbeilles_ em misulas nos vãos da casa
de jantar, esfolhavam rosas silenciosamente, deixando folhas murchas irem
cahindo n’um pranto humilde. E Arthur n’uma cadeira baixa considerava as
pequeninas graças d’aquella doce amiga, como ella cortava as espinhas
com os seus dentinhos brancos, vivacidades sedosas dos seus garços olhos
que piscavam n’um fremito irrequieto, e todas as manhãs os seus bons
dias chilreantes de trepadora. E apodrece para ahi n’esse desconforme
cemiterio, calcada a pés juntos por coveiros ferozes e descarnados! Dez
horas, onze horas, duas da manhã, tres, quatro...
Pôz-se a amassar gesso para a mascara, quando o viu plastico penetrou
timidamente na camara e foi para o cadaver.
—Gostavas d’ella? perguntou o estudante n’um tom estupido. O esculptor
fez com a cabeça que sim, e o outro ficou a vel-o applicar o gesso.
Sobre a colcha afogada em flôres, tochas á cabeceira, dormia ella vestida
de noiva para os esponsaes da bemaventurança, o nariz afilando n’uma
aresta fina como um gume. Cerrada com ancia, essa bocca dir-se-hia um
sulco a buril. Quem teria coragem de viver sem ella n’este crapuloso e
vil mundo, quem?
E como o esculptor comprimia certos pontos do rosto, os olhos, azas do
nariz, as maçãs da face, todas as proeminencias e fossetas das feições,
Albano n’uma ternura magoada, desviando-lhe o braço:
—Olha que isso faz doer, coitadinha!
Esta simples phrase fez que os olhares se encontrassem, medindo a
horrivel desgraça; veio-lhes o mesmo brado d’aniquilação supplicante; e
n’um choro de profundos soluços e grandes lagrimas que rolavam no branco
setim da morta, abraçaram-se por cima do leito, e assim estiveram, por
muito tempo, n’aquella postura. Uma das hospitaleiras, que tinha ido
roendo pão e queijo que trouxera na mala, entre o livro de orações,
unguentos, e um frasco com agua benta, foi para dizer baixinho alguma
coisa ao estudante, que alheio a tudo nem a ouviu, e fez um gesto de
hombros evasivo. Aquillo forçou a pobre mulher a ir ter com Arthur. Era
uma anafada, minhota de fallas, mais velha que nova, com sua grande
verruga no queixo. Pedia dinheiro para a agua de Labarraque. Arthur
descollava a mascara de gesso ao tempo, e áquellas palavras os seus olhos
cahiram sobre Judith, viram-lhe a face marbreada de roxo, tomando a
expressão carrancuda d’uma mulher offendida. E teve os olhos longamente
n’aquelle desmoronar. Por um canto dos beiços tufavam n’uma espuma
viscosa, bolhas de gaz podre que punham ruidos de fervor. Já moscas se
abatiam por dezenas no rebordo das palpebras e fendas do nariz, depondo
larvas.
A irmã minhota de lado, desviando a outra que se pozera a dormitar:
—Já cheira.
Um calafrio alvorotou Arthur áquella horrivel palavra.
Só na parede, ao debil ondular das tochas, arfava a sombra deitada de
Judith, n’uma tranquilla respiração, e dir-se-hia dormindo, tão placida,
a virgem das rosas brancas!
Ainda hoje ouço dizer, que Arthur seria o mais extraordinario esculptor
do seu tempo, se aquella morte subita o não desorienta no foco das suas
grandes faculdades. Elle antes de tudo era uma cabeça fraca, que por uma
indole singularmente recatada e hesitante, jámais ousara sasonar e polir
as indomaveis paixões da sua alma. Como nos abandonados d’affectos desde
o berço, aquelle primeiro amor de mulher alanceando-o no mais fogoso da
edade, devia explosir por fórma a perturbar-lhe dentro o rythmo placido
do coração e do cerebro.
O certo foi que mudou de residencia ao outro dia da morte de Judith, e
Albano nunca mais o viu. Embalde o pobre careca o andou procurando por
toda a banda, agora que tanto precisava d’aquelle grande irmão. Nunca
mais o taberneiro do Bemformoso ouvira fallar d’elle, na _brasserie_
quasi estava esquecido; as ruas deixaram de o vêr. Á mingua de melhor
coisa onde matar tempo, Albano decidiu-se a acabar o curso. E esses
annos que foram passando, tornaram o esculptor n’um singular personagem.
Morto o idolo que soubera inspirar-lhe culto absorvente, o amor d’elle
deformou-se, ampliou-se, derivou por excessos que o frenesi tornava
assustadores, ou transfigurava-o o talento em prodigos d’arte ás vezes,
como é uso nas gentes d’_atelier_, que amam sempre materialisar as mais
fortes emoções. Elle não via nem fallava a ninguem; tinha tomado amor
á aguardente, morava n’um arrabalde distante, todo curvado d’espinha
e envelhecendo o mais depressa possivel. Amigo Flores, que alfim
desposara a grande Barbara, nunca vinha áquella thebaida; o gallego
avaro aposentara nos bucolismos da aldeia natal—e assim Arthur vivia
miseravelmente, sem companhias, sem trabalho, sem amigos, sem fato, com
uma juba feroz e uma barba intractavel, atormentado por não sei que
estranho calor no cerebro, e escutando as grandes coleras desordenadas
do coração revolto. O primeiro anno corrido sobre a morte de Judith,
fôra para elle um d’esses terremotos de caracter mal forjado contra as
asperidões da vida, que ao menor abalo esbeiçam fendas, por onde se vêem
estrebuchar fraquezas e escorrer restos de crenças, lucta de paixão,
hesitação, saudade e loucura, que a educação plastica do artista ia
moldando lentamente, desesperadamente, em lucidos pedaços d’estatuaria.
Ao cabo d’alguns mezes, quando já iam embotando as irritabilidades mais
lancinantes da dôr, por fadiga dos centros de sensação, muitos detalhes
finos d’essa divina figura de creança, escapavam á memoria d’Arthur,
empallideciam, ou vinham-lhe apenas como esforço de reminiscencia, nas
más horas de desconforto. Sómente as grandes linhas dramaticas da sua
morte, relevos scenicos, attitudes que ella tomava, detalhes de perfil,
um modo de inclinar a cabeça, certos timbres da sua voz melodica que elle
ouvia de noite, ainda agora estando tudo tranquillo, ficaram-lhe para
sempre na ideia, vehementes e nitidos, por sympathia ao ramo d’arte que
professava. Dez vezes ou doze, com deseguaes intervallos, começara n’um
bloco ou outro a estatua da mesma mulher em diversas posturas, e outras
tantas o cinzel desalentado lhe cahira das mãos em meio da obra, na
pavorosa desconfiança de estar profanando o divino ideal preconcebido,
com facturas de mediocre nobreza.