Sob a algidez d’um raio de lua, vel-a-hia volitar de cabellos esmanchados

pelos rosaes do paraiso, entre flocos de neve, levada no rythmo das

walsas do _Freyschutz_, toda pallida n’um sudario luminoso, e com a

belleza morta d’essa Mathilde que o Dante evoca trazendo flôres no

regaço, dolorosa e vaga, nos tercetos do _Purgatorio_. Adejaria entre

rosas, pousando os labios na viva caricia d’esses corações vegetaes, toda

banhada n’um rosicler de pureza infinita. E a cada passo, bemfazejas e

candidas, ondulariam flôres em saudações amorosas, supplicando a esmola

d’ella as colher na passagem.

Junquilhos haviam talvez bordar-lhe grinaldas de noivado, na fimbria

austera da tunica; lilazes e jasmins de neve viriam pelos seus cabellos

rolar, na audacia de lhe sorverem os celestes perfumes; lirios brancos

e palmas lhe brotariam do peito immaculado; humildes floritas viriam

adoral-a á flôr das relvas, para morrer sob os seus pés, depois de lhe

haverem beijado as frias mãos d’estatuela, admiraveis e brancas.

E esquecendo as mais flôres, sempre preferindo as rosas, indo por entre

ellas n’uma via lactea de perfumes, e colhendo-as com dolencias musicas

de gestos, para encher regaçadas, coroar a fronte, ou debical-as uma a

uma, com a sua graça d’insecto, Judith iria atravez os interminaveis

jardins da bemaventurança, serenamente, ligeiramente, transfigurada n’uma

expressão divina de repouso, plastica e impalpavel a um tempo, no manso

vôo espiritualisado e extatico d’uma Assumpção do Veronezo, sempre,

sempre...

* * * * *

Entanto chegavam á porta do Albano, que disse ao esculptor para

subir. Mas passava de nove horas, Arthur vinha um pouco fatigado, e

separaram-se. Seguia o esculptor caminho de casa n’uma prostração

doentia, cabisbaixo e lento, quando ao voltar da rua esbarrondou com

um par amoroso, que ao rez das paredes, buscando o auxilio immoral das

sombras, velejava cochichando no melhor aconchego.

Casualmente Arthur voltara-se, e pôde vêr uma grande dona de saias

bufantes, em passo de carga, dando o braço a um louva-a-Deus de grenha

espessa.

—Eh Flores! fez elle sobre o par que se ia escamugindo já por uma

travessinha mais aphrodisiaca. Eh Flores!—E como o par fazia não ouvir, e

Arthur necessitava de fallar ao _ártista_, foi-lhe na esteira com grandes

brados—Eh Flores! Eh Flores!

Monteado por tão insolita maneira o jacobino fez alto, poz a dona n’um

recanto, e veio parlamentar com o perseguidor, bastante mal humorado.

—Diabo, diabo! Que systema pessimo rebater as asserções d’um homem que

vae espairecendo com sua dama um bocado. Que me quer vossê a estas horas?

—Quem vem a ser aquella nau?

—Que? Nau! Aquella é a grande Barbara de Loures, que vendo-se adorada por

um homem das classes superiores, não pôde resistir-lhe.

E baixando a voz n’uma lascivia desordenada e surda: de encher a cama,

c’um raio! Em eu as vendo de barba, hum! já sei—com’as castanhas, muito

boas e muito quentes. Diz que só _ajuntando-se_... Mas ando a vêr se a

atraco pela politica. Que a gaja é uma republicana escamadissima. Para

embrulhos não quer senão o _Facho_. Ai, mas que carninhas!

—Pois é matriculal-a, disse Arthur.

—Hein? fez amigo Flores espinoteando, como beliscado no posterior das

zonas medias.

—N’um club jacobino, está visto.

—Ando a pensar em servir-me d’ella para tornar os mercados republicanos.

Isto, passada a lua de mel! fez elle com grande ostentação. Olhe que se

angariam n’aquella Praça magnificos correligionarios, gente destemida,

malta de pulso, arruaceiros! Entre as mulheres sobretudo. Porque as

mulheres são uma força desaproveitada, já ousei dizel-o no famoso comicio

de 24! Ellas muito serviçaes, muito sinceras! e nas _bernardas_, olhe que

não sei! Em summa, Alcantara com dois ou tres clubs de femeaço, dá brado.

Se tal metto em cabeça á grande Barbara, ella por um lado, eu por outro,

e não dou á caranguejola do throno um mez para se mandar mudar. Que eu

tive já esta ideia para creadas de servir. Mas vossê sabe, a municipal

incute-lhes respeito ás instituições. Emquanto estiver a guarda, podemos

contar que a creada de servir é pela monarchia.—E circumvagando olhares

desconfiados, poz-se mysteriosamente a dizer que o não largavam,

malandros! não era senhor de fazer um passo na rua.

—Mas quem? perguntou Arthur.

—A policia, homem! Como lhes faço medo, mandam-me guardar á vista. Erros

do paço. Pois vou-me. Não sabem elles que a obra da revolução é fatal

como a das tempestades. Até sempre. Marcha-se porque se marcha; é boa

essa!

—Espere cá, espere cá, disse Arthur que não tinha podido sustar-lhe a

verborrhêa de Quixote vingador. Preciso de vossê, appareça de manhã.

Quero sessenta roseiras do melhor, custe o que custar. Pés com flôr, o

mais vigoroso que houver. Ámanhã sem falta então. Conhece vossê quem

venda?

—Eu não, mas a grande Barbara deve ter noticia d’esse ramo de commercio.

Não gosto de rebater asserções de ninguem, mas é muito, sessenta

roseiras. Dará vossê baile?

—Não, dou de jantar a alguem, d’aqui por deante.

—Caspite, provaremos dos vinhos. Então casa armada? Se vossê faz gosto,

pintamos-lhe frescos na casa de jantar. Alguma coisa no genero Pompeia,

como se não conhece por cá.

—Não, não, disse Arthur. Só necessito as roseiras.

—Concedido. Adeusinho. Soube vossê da grande manifestação republicana do

_Mortalha e Onça_ em Caparica? Anda tudo ahi cheio, guarda reforçada. E o

ministerio cae!

Imagine que eram os clubs todos, mais de trinta pessoas, tudo em grande

burricada, com barretes phrygios e cannas verdes, cantando a Marselheza.

O _Trinta_ botou artigo de fundo. Ah, foi imponente! Ao jantar vieram

felicitações dos democratas da Amora. D’esta vez o rei embarca! O meu

discurso vem no _Facho_, vossê deve ter lido.

—Não li.

—Vossê não é homem que se instrua com jornaes. Indole molle. Faz mal. Eu

cá, sempre na brecha!

—Olá! disse a matrona com grandes berros de impaciencia. Despachar,

gentes.

—Adeusinho, que a dama desafina. E os malandros a rondarem-me os passos.

Eu vos direi, tyrannos! clamou elle mostrando punhos ameaçadores ás

esquinas desertas. Então de manhã. Eu indago das roseiras. Saudinha.

E trate de me vêr aquelle discurso, homem. Vem no _Facho_ de hontem,

terceira pagina, ao alto da quarta columna. Lá verá asserções que ninguem

póde rebater.—E foi-se a passos tragicos, com as abas do frac avoejando.

Em tres dias fez-se uma revolta em casa do esculptor. Veio terra vegetal

para grandes canteiros talhados de redor das paredes, e em volta ás

arvores; um jardineiro plantou com mão profusa as roseiras compradas a

Campo d’Ourique, no Petit, ou remettidas pelo Loureiro do Porto. Ao mesmo

tempo adquiria Arthur dois grandes volumes de floricultura, disposto a

estudar a fundo o problema das rosas. Muitos exemplares que não cabiam no

jardimzito, povoaram o _atelier_, alinhavam-se no corredor, e dir-se-hia

velarem o somno do pobre rapaz, espreitando para dentro da alcova. A

residencia então tomou um ar permanente de festa, onde os perfumes

erravam de em torno ás estatuas, n’um mysterio nupcial que fazia inda

mais triste o artista. Da janella, toda friorenta n’um chaile, Judith

tinha assistido aos trabalhos, com uma sollicitude attenta e silenciosa.

Albano não apparecia, por seu lado.

—Então faz-se agora jardineiro? disse ella quando uma noite o esculptor

lhe trouxe o primeiro bouquet de rosas brancas. Elle balbuciou confuso o

quer que fosse em explicação—que as manhãs eram longas, tinha agora pouco

trabalho, era um meio de entreter tempo. Depois adorava as rosas. E aqui

fez por exaltar-se, tivera predilecção por aquellas flôres desde pequeno.

E como ella mordendo as petalas devagarinho, uma a uma, o mirava com os

seus olhos attentos, Arthur cada vez mais escarlate balbuciou coisas

vagas, e a voz perdeu-se-lhe. Essa vez fallaram pouco. A mamã dormitava

no seu quarto, o irmão sahira para um leilão de livros.

Ella tinha uma roupa escura muito simples, cingida ao corpo e cahindo

em pregas amplas, onde a brancura das mãos ficava luminosa apertando o

bouquet. Pareceu-lhe mais alta, nunca elle a vira tão pallida, e d’um

austero tom cahindo para rigido, quando se faziam silencios entre os

dois. Puzera uma romeira branca collada ao pescoço n’um desenho monacal.

E contou a Arthur que se sentira doente n’aquelles dias, um frio nos

ossos, pequenas tosses que a fatigavam, de noite mesmo sonhara coisas

funestas.

—Porque não veio cá? disse ella em queixume. Foram uns serões tão

tristes!

—Outro dia larguei Albano tarde. Podia incommodar, não subi.

—Incommodar! fez ella com um modo admirado. E voltando á sua ideia negra

contou d’umas borboletas sombrias, que a mamã vira entrar pela janella á

noitinha. E o tempo mais frio, sempre nuvens, parece que tudo chora...

Ia comendo irresistivelmente as rosas, toda disfarçada e a medo, como uma

creança que faz uma maldade.

Á porta da escada, quando Arthur já se ia embora, ella com modos

acanhados disse que lhe queria pedir uma coisa, mas tinha vergonha,

receava que elle se puzesse a rir.

—Oh não, disse o esculptor todo serio. Que é?

—Guarde este dinheiro, tornou Judith muito baixinho, guarde, foi d’umas

rendas que fiz para o armazem. E entregou-lhe dez tostões—Agora oiça cá,

é muito serio, sim, muito serio. Alli defronte ha uma capella, mande lá

dizer duas missas, no altar de Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha;

prometta, ande.

—Mas prometto.

—Diga ao padre que é por intenção d’uma pessoa doente, que necessita

muito de viver. Diz, sim?

—Digo.

—Eu estarei na janella da sala rezando. Sabe rezar? perguntou ella

ingenuamente.

—Meu Deus, ensinaram-me.

—Inda bem, Nossa Senhora ha de ouvil-o. Tudo o que eu fôr ganhando será

para ella, coitadinha, que é pobre. E não diga a ninguem, nem á mamã, nem

ao Albano.

—Posso saber, disse elle, por quem faz esses sacrificios?

—Nada, respondeu ella baixando a vista. Vae sendo velhinha a mamã, e

depois Albano não vive senão com livros. Para lhes tratar da roupa com

amor é preciso ser da familia. Uma estranha não quer senão que lhe

paguem. Quem havia cuidar d’elles se eu morresse!

Aquella infantil preoccupação fez pena a Arthur, que lhe beijou

respeitosamente as mãos, pela primeira vez.

—Gosta de mim? disse ella olhando-o de face com grandes olhos ingenuos,

em quanto lhe prendia na casa uma d’aquellas rosas brancas do ramo.

—Mas muito, juro, muito!

—E foi por minha causa que mandou vir as roseiras?

—Não, não, palavra.

—Shut! foi tal. Albano deu a entender. Eu mesma adivinharia. Hemos sempre

ser amigos, quer? Se Nossa Senhora fosse servida dar-me saude, quem sabe

ainda... Mas sinto-me tão fraca, e o tempo muda, depois...

Fez com o polegar na ponta do queixo, o gesto d’uma coisa que se

aniquila. E chorava. Foi como Arthur a viu em sonhos d’alli por deante.

Todas as manhãs lhe mandava rosas em grandes corbeilles. Mas nunca mais

aquella visão de flôr, que emmurchece e pende, se lhe apagou do espirito.

* * * * *

Por esse tempo de feito, Judith adoeceu. Havia uns mezes que ella andava

pallida, com o bistre das olheiras mais fundo e mais largo, recolhimentos

religiosos, certos langores de cabeça, uma tristeza nos dias de frio.

Á noite, Arthur vinha lêr alguma coisa, fallar do que corria, e saber

como estavam. Via-lhe sempre um riso de esmalte amoravel, os cabellos

enrolando muito baixos, no occiput, em duas rosaceas de oiro baço, um

bocado de pescoço flaccido, e essa pallidez de mãos, cerosa e diaphana,

que põe em cuidados os medicos. Como symptoma inquietante, nada. Nem

dôr, nem prurido, nem ardencias de febre. Uma fraqueza crescente, um

emmagrecimento sem causa, fastios, e em certos dias, cansaço. Consultado

pelo artista, Albano ficou calado—e pela primeira vez não rematou com o

bem bom! do estribilho.

N’esse calvo gasto de toda a emoção, envelhecido antes de feito,

com postiças indifferenças pela familia, cynismos de philosopho e

superioridades de sabio, via Arthur surdamente ir-se mostrando a alma

mais affectuosa, á medida que Judith desfallecia. Elle que até alli

tratára a irmã como uma cadellinha de collo, correndo uma vez por outra

a sua velha mão pelos cabellos d’ella, com benevolencias de pedagogo

e sobrancerias de senhor, descia agora do seu sotão de anachoreta nos

entre-actos dos livros, com a rabeca debaixo do braço, calva pensativa, e

os myopes olhos perscrutando atraz dos oculos fixos. E alli sentado aos

pés d’ella com um ar de artificial expansão, tocava-lhe os bocados de

que Judith mais gostava, Schubert, Massenet ou Haydn, em cuja musica ha

tremulinas de lua no azul dithyrambico dos lagos, por onde arfa a neve

dos cysnes, em tapeçarias de nenuphares. A _Célèbre Rêverie_ fazia-a

chorar, assim como uma queixa de creança abandonada, por um caminho que

mergulha nos bosques, sinuoso, e se perde em subsolos de floresta—e a voz

esmorecendo a distancia, na noite, no desamparo, na fome... A espaços,

inda ella chora na aura que faz ondular a herva dos descampados. É um

dulcissimo e vago suspiro, uma supplica de alguem que embalde esmola por

esses montes á chuva, á procura de cabana onde passar a noite, d’um ninho

de ave onde dormir, da saccola do velho mendigo ao menos, para repousar a

cabeça...

E a meio da clareira onde a chuva bate, lá longe, reunindo forças que a

desamparam, inda o anjinho implora, e chama, e soluça. O vento leva o

rumor d’essa voz que esvaece, repetindo manso, de mansinho, a supplica,

tresvairada pela febre na oração!

—Oh cala-te! fazes-me mal! dizia ella detendo-lhe o arco inspirado. E em

redor todos calados, deixavam errar a imaginação nas brumas pallidas

do sonho, soffrendo em commum d’esses presentimentos cujo phantastico

é rhembrantesco, como nas noites de Walpurgis. Albano para distrahil-a

tocava-lhe então coisas vivas e alegres, walsas, coplas, bailados

meyerbeereanos—o dos patinadores, no _Propheta_, onde os grupos vão por

turbilhões n’um impeto de vida brutal, sob a neve, á luz dos fachos; a

bacchanal do _Roberto_ que uma lascivia quente penetra, entre murmurios

de beijos e o espumar das taças; e essa deliciosa walsa das wilis do

_Hamlet_, quando Ophelia vem louca, coroada de flôres e vestida de

branco, musica tão volatil, tão sentida e tão doce, que a orchestra

entrecorta de rumores de agua e echos fluctuantes da campina.

Judith conhecia a sorte das mulheres n’essas operas celebres; quasi todas

morriam de amor, abandonadas, violadas, incomprehendidas. E por alegre

que fosse o trecho tocado, na sua mente os vultos lendarios corriam

de mãos em cruz e olhos vazios, evaporados do marmore romantico das

sepulturas. Por outro lado, ella não podia passar sem ouvir o irmão,

por uma hora ou duas. Distrahia-se ao menos assim, era como se fosse

uma _soirée_. E deitada na marqueza com a nuca sobre as mãos, um papa

abafando-lhe os pés, ficava assim muito tempo, muda, com o espirito

longe, e immovel como adormecida. Para a contentar, Albano revolvia o

reportorio classico, _gavotes_ de Lurli, poemas ingenuos de Gery, certas

sonatas faceis de Beethoven, o Mendelssohn menos complicado, e esse

menuete de Boccherini d’uma tessitura galanteadora e aerea, que diz

a vida de salão no seculo dezoito, e ella nunca se cançava de ouvir.

A musica amansava ao mesmo tempo o esculptor, regularisando-lhe as

descargas dos nervos, mostrando-lhe os lados dôces e feminis da vida,

dando o poema de cada impressão, de cada côr e cada sêr, sagrando tudo,

as arvores antigas como deuses e altas como monumentos, as paixões

nobres do homem, todos os infinitamente pequenos do amor e da bondade

universal. E Judith sempre mais fraca que no dia anterior, com a

exquisita melancolia virginal dos anjos doentes, olhos cheios de ceu, e a

graça hysterica de um sangue pobre. Uma manhã não pôde erguer-se. Albano

vestiu-a, tomou-a no collo como uma creança, e dôcemente veio sentar-se

com ella ao pé da vidraça. Piscava os olhos vermelhos, tufados, com um

_tic_ nervoso de palpebras, careca desolada, fingindo humor feliz, como

se nada em casa houvesse de inspirar cuidados; e dizia muitas vezes—Bem

bom! Bem bom! Mas a sua voz tremia com um degelo de lagrimas na guela; e

deitada no hombro d’elle, Judith fitava-o com esses olhos inquisidores na

fixidez d’uma ideia negra, constellados, profundos e crueis, de enferma

que vem de lêr uma sentença na face do medico. O tempo arrefecia, iam nos

ceus galopadas de nuvens, grandes chuveiros nos longes, dias pardos, as

primeiras severidades luctuosas do outono.

Vortilhões de nevoa afogavam de manhã toda a paizagem de construcções

esboçadas e bairros por terra, como esfumaçando dos tectos n’algum vasto

incendio de cidadella. Essa fumarada crayonava nos seus ventres de

monstro, escadas de Rembrandt d’uma profundeza insondavel, boqueirões

que mastigavam com as suas maxillas tenebrosas, flammejantes linguas que

vinham sobre os tectos lamber alguma presa estranha, membros destroncados

que rolavam em explosões de minas pre-historicas.—E confundindo os cimos

na formidavel confusão da abobada, iam-se franjando em rendas de tom

alvacento, insculpiam trevos de ogiva barbara, columnellos, e escadarias

com grandes mendigos encapuchados na sombra. A espaços, algum feixe de

sol amarellentava essa betuminosa e lugubre architectura, campindo fundos

d’apotheose murillana, nos truculentos ceus, onde o azul raro abria a sua

elysea flôr de colorido.

No quintal de Arthur, os platanos choravam dos ramos, folhas doentias,

na aggressão do vento—e desnudando os troncos dolorosos, dir-se-hiam

esqueletos despegando dos membros farrapos de sudario ou de pelle. Uma

regressão de seivas ia por jardins e alamedas, na melancolia torporosa

dos primeiros frios. E ella ia-se devagarinho, quasi sem febre, o menor

escarro de sangue, resvalando serenamente pelo mal como por um tapete de

flôres. Apenas uma pequena tosse secca a fatigava muito, cavando-lhe as

feições a duras enxadadas. Arthur vinha sempre, tendo agora com ella

liberdades de irmão e velho amigo. Fallavam pouco.

Ella cansava, a voz ia-se-lhe sumindo como um fio de agua, nas

profundezas do peito. E de mãos dadas olhavam-se os dois, n’uma

quietação, como _babies_. Ás vezes, raras, ella sorria, os seus olhos

ganhavam lucidez como condensando a vida toda d’esse corpo franzino, e

ficavam assim. Viera a maldita insomnia, uma inquietação, zumbidos. E as

noites eternas torturavam-na, sem uns pobres minutos ao menos, de repouso.

Albano e o esculptor repartiram então entre si o tempo de vela, porque a

pobre mamã velha e doente, não tinha mais forças para noites perdidas.

Atrozes, essas noites sem conto, gastas a procurar posição de repouso,

e successivamente alagadas em suores debilitantes. Raras vezes a tosse

lhe permittia dormitar momentos, voltava-se para um lado e para outro,

pedia rumas de travesseiros para logo os repellir com fadiga—e uma

oppressão no peito, um ralo interior, um dolorir de membros, que lhe

faziam insupportaveis certas horas. Pela madrugada, em o ar indo a

regelar, a tossinha redobrava, teimava, insistia por horas, horas, horas,

até dar com ella para a banda sem accordo, asphyxiada e rôxa. Então

sobrevinham terrores, desvairamentos, hesitações. Jesus, se estaria

morta! E no silencio da casa, elles olhavam-se com desesperos mudos.

Albano applicava sinapismos, punha-lhe aos labios aguas aromaticas com

ether, auscultava-a por todos os lados, ou ia-lhe procurando as pulsações

com os olhos sobre o relogio de segundos. Ainda não! Ella respira. E

sorviam o ar com ruidos freneticos. Arthur ia logo accender sua lampada

d’alcool para amornar um caldo. Ao largo a manhã bocejava n’um tedio

nevoento e frigido; ruidos de carroças sacudindo ferragens, operarios

que partiam, mugidos de vaccas e pregões vagos, punham em volta da

pobre gente afflicta, vidas áparte, egoistas, explorando-se com raivas

subterraneas, sem fazerem reparo n’aquella agonia de terceiro andar. Ao

meio dia, em tempo de sol, se acaso a sentiam mais reanimada, e tinha

mastigado o beef ou tomára bem a colher de Madeira, a mamã vestia-a com

grandes precauções de flanellas, enrolavam-na em chailes para a sentar ao

pé da janella, n’uma velha poltrona em coiro verde, da casa de jantar.

Albano e Arthur disputavam-se o encargo de lhe pegarem ao collo, da

alcova para a janella, da janella para a alcova, o que fazia sorrir a

boquinha desbotada de Judith. Tomando-a nos braços, cada um d’elles nunca

deixava de a sentir mais leve que no dia anterior, por mais que fizesse

por se illudir. Albano trouxera um clinico celebre da Escóla, que por

amor do estudante todos os dias vinha com o seu bom riso d’esperança,

resuscitar a enferma, que aljofrava no riso pallido a mais admiravel

resignação. Se alguma coisa parecia dar-lhe pena, era que se affligissem

tanto por ella. Agradecia em effusões excessivas o menor serviço que

lhe rendiam, tudo achando bom, e sempre a dizer que não precisava de

coisa alguma. Pequenas vaidades comtudo, ainda vinham como ephemeras

margaritas, á flôr d’essa existencia de sylpho que se evaporava, gotta

agora, gotta logo, imperceptivelmente, como um perfume raro. Sempre fôra

um dos requintes penetrantes da sua preoccupação feminina, ter mãos

de rainha ou de santa, com unhas esmaltadas de opala. E mirando agora

a transparencia dos seus dedinhos mirrados, com vagos tons d’azul na

raiz das unhas, o momo do labio maguava-se todo. Espiralitas rebeldes

soltas da coifa, vinham de manhã nimbar-lhe em oiro o marfim da testa. E

torcendo-as contra a luz, ella deixava vêr lenitivos de momento, e como

um secreto orgulho na face murcha de soffrer. Mas cada vez perdia mais

o gosto das côres claras, branco, côr de rosa, violeta pallido, fazendo

na escolha dos vestidos severidades de viuva e de velha. A vista d’um

chapeu, d’uma visite, qualquer vestuario de sahir, atravessavam-na de

melancolias lividas—começava talvez dentro d’ella a horrivel saudade da

vida alegre, luminosa, cheia de replicas e luvas frescas, das raparigas

sadias e casadoiras, receios indefinidos de nunca mais vir á janella

por seu pé, e essa nostalgia insondavel dos que vão morrer na flôr dos

annos, nostalgia das velhas affeições queridas, do bom sol de inverno,

das grandes arvores seculares, da mocidade dos outros, do amor, das aguas

que se espelham, gorgeios de creanças, e da terra inteira e vigorosa—que

embrutece a dôr, e Deus sabe se vae impulsionar com desesperos sinistros

a chimica tragica das sepulturas. Por ventura a ideia de morrer lhe tinha

acudido n’aquellas desfallencias de noites brancas, em que esphacelada de

tosse, ella mesma se illudia, assim imaginando afugentar a morte. Tanto

que dizia sempre estar melhor, fallava em residir uns dias na quinta dos

Fonsecas, em mudando o tempo. Só d’uma vez, contando-lhe Arthur como se

desempenhára das missas na capella defronte, por intenção d’ella, como

estivesse esse dia peior, lhe ouviram ambiguamente dizer com uma voz

abafada e tremula:

—Tem de ser, paciencia!

A cidade do vicio · 第 12 / 17 段