hortas nos dias bonitos. Mas o estudante não o podia aturar, mesmo ganas
de lhe remendar os fundilhos com lama da bota direita. E encontrando-o
donairosamente na rua a cahir das calcitas amarellas, e cambando a bota
de joanetes pelintras, passava de largo acenando-lhe com a cabeça calva.
—Vivendo, obrigado. Inda não rebentou o subterraneo de polvora,
paciencia! Mas bem bom, a coisa marcha. Saudinha.—E virava a esquina,
concertando os oculos.
* * * * *
Uma tarde, flanava Arthur por entre as boscagens do Campo Grande, fumando
cachimbo n’uma d’aquellas indolencias d’artista, que abrem lenitivo no
meio dos grandes trabalhos, quando ao virar d’uma alea, deu de cara com
Albano que trazia um ramo enorme de rosas. Havia talvez quatro noites que
o bohemio não vinha á _brasserie_, coisa de espantar o esculptor, affeito
como estava á regularidade desesperante do companheiro.
—Mas que florido elle vem, que primaveril! disse Arthur com grandes
expansões. Farçante! Vem perpetrar _bouquets_ fóra de portas, para
ninguem suspeitar dos amores em que anda enredado....
Albano ficou a desempoeirar com o lenço, as incommensuraveis botas de
duas solas em que velejava. E disse:
—Fui-me vêr um homemzinho áquella quinta, que passa a vida cultivando
rosas. Typo curioso de velhote, amador de boas loiças, todo requintado,
hei de apresentar-te. Imagina que tudo é do seculo passado em casa
d’elle, mobilia, porcelanas, creados, musica, até os gatos. Mas boa
gente! Então carregam-me sempre de rosas. Repara que vem aqui soberbos
exemplares, hein? E elle, uma paciencia!... Sorvia o perfume das flôres
uma por uma, dando pequeninas aspirações sem contacto nas petalas,
saltitando d’esta para aquella, como se andasse a educar uma pituitaria
intelligente, afim de extremar gradações n’um mesmo perfume subtil.
As rosas eram deslumbrantes na verdade, pelo tamanho, pela côr, pelo
capricho das volutas petalares, exquisitas _nuances_ de tecido, e
caricioso setim dos ninhos interiores, descerrados como escrinios de
duqueza ao peso das gottas d’agua que a manhã, boa amiga, lhes chorára
no seio ao passar. As escarlates eram colossaes como dhalias, d’um
funebre velludo se olhadas de través, com manchas de pellucia cereja
destacando das convexidades á luz, e longinquos perfumes onde a narina
se embotava e perdia. Uma graça aristocratica idealisava as amarellas,
perfumadas de violeta e chá hysson, côr de gemma nos seios, e com petalas
quebrando polyedro á volta dos estames, velados n’uma cupula trifoliar
de pequeninas peças. E as brancas então, que virginaes!... Pareciam
esgotar-se em esforços, ainda as mais abertas, para conservarem fórmas
pudicas de botão. E retrahindo-se, tinham castidades de rapariga nua,
que depois do banho, toda em perolas d’agua, contra si mesma se cerra,
e defende e furta ao amor mythologico dos cysnes. No coração d’essas
maravilhosas Ophelias, arfavam roseos tons de carne viva, ondulações
molles de femea, e immaculadas frescuras de adolescencia loira, dirieis
uma _coquetterie_ de donzella ao apear no primeiro baile. Arthur ia
cortar uma das brancas, quando o estudante detendo-lhe os dedos, disse
bruscamente:
—Essa não. A outra escarlate é mais bonita, corta.
Mas Arthur preferia aquella branca, qualquer outra, não se importava,
mas branca. Não havia de ir pela rua com um paspalhão côr de baeta na
botoeira. Albano porem, insistia birrento:
—Corta uma amarella, dizia elle, leva duas mesmo, ess’outra
vermelho-esmaiado, mas nas brancas não toques.
Arthur teimando a querer uma rosa branca, perguntava-lhe rindo:
—Trata-se de entretecer corôa mystica para alguma irmã hospitaleira da
tua paixão? Mas que extraordinario scelerado!
Houve mesmo uma lucta entre os dois.
—Larga! implorava Albano. Tenho apenas seis rosas brancas. Uma que leves
faz falta.
—Mas porque essa avareza?—E o esculptor a insistir, a não largar! Albano
vencido, tomou-lhe o braço, mas sem deixar cortar a rosa. Era o cahir da
tarde, foram conversando em direitura ás portas, já o sol amarellecia nas
arvores.
—Homem, disse Albano, pondo o lenço em torno ao pé das suas preciosas
flores, é que se dá uma coisa singular.
—Por exemplo? fez Arthur como quem se não deixará embair.
—Não me dirás, porque é que pondo nós hombro a hombro de todos os sêres
que nos são uteis, um medico que lhes vigia os menores actos, desde
que nascem até que morrem, não dispendemos eguaes cuidados no que toca
á nossa propria conservação? Por mil sabios artificios de cruzamento
e alimentação, chegamos a conglobar n’um cavallo as qualidades de
força, elegancia, ligeireza e bravura, que separadamente faziam as
caracteristicas de muitas castas diversas. Ha botanicos que se esgotam a
procurar em flôres, em tuberculos e fructos, os effeitos de coloração e
turgecencia mais inesperados. Conheces a lenda das tulipas azues, tens já
visto peras de seis kilos, sabes d’aquella casta ingleza de bois quasi
exclusivamente feitos de musculo, e não te são estranhas por certo essas
maravilhosas aristocracias de cães, pombos viajantes e animaes ferozes
convertidos á domesticidade, traduzindo o resultado de dezenas e mesmo
centenas d’annos, da tenacidade e sciencia do homem.
Pois emquanto dos typos estancados, das fórmas envelhecidas, e da
nutrição quasi morta, fazemos jorrar impetos de seiva nova, forjamos
modêlos viris de raça, e nucleos de mundo capazes de viverem outra
eternidade, nunca pensámos seriamente em restaurar, decrepitas gentes que
somos, a pobre familia humana, pelo mesmo processo por que depuramos um
cavallo, uma tulipa, ou crystallisamos artificialmente um diamante.
—Os elementos de ensaio tão passivos abaixo de nós, não offerecem a
mesma docilidade no bicho homem, disse Arthur, e o estudante encolheu os
hombros sem se importar com isso.
—Resulta que a depauperação dos sangues, a senilidade dos corpos, e
envilecimento consequente de tudo aquillo que originava força, andam tão
horrivelmente adiantados, que em breves seculos meia familia greco-latina
ter-se-ha extinguido inteiramente. Por agora desapparecem familias
e classes; mais tarde irão na voragem nações e povos inteiros, pela
immobilidade das allianças e acção corrosiva das aptidões morbidas, que
todos os dias engrossam de numero e violencia. Já olhaste bem Lisboa?
Vale a pena como estudo de monstruosidade. Por cem mil habitantes,
trezentas mil enfermidades, tres enfermidades por habitante. Velhas
molestias do tempo das Conquistas, trazidas de todo o mundo em despojo
de vassallagem, copulando ha quatro seculos através da nossa pobre
raça, teem gerado uma tropa extravagante de males que pullulam com
vida propria, divergindo conforme a cachexia do tronco que apodrentam,
multiplicando-se, resistindo á therapeutica, disfarçando as suas
operações, indo a degenerar por graus e descobrindo n’uma recahida, a
guela hiante das baterias, dando cabo de nós com tanta elegancia, tão
scientifica, tão precisa, tão artistica, tão mathematicamente, que
achamos graça á partida, e ao carrasco sorrimos de gratidão, no ultimo
alento.
Todos os annos esta aprazivel cidade brinda os seus habitantes com uma
febre nova, e á similhança das publicações com gravuras, que distribuem
chromos no fim dos volumes, anda ella preparando para d’aqui a tempos
tambem, a sua febre colorida, venho a dizer amarella.
Em doenças nervosas, vê tu a inesgotavel variedade e a exhuberancia
de padrões! É tudo que vae do tic nervoso, tão patusco, as convulsões
macabras da eclampsia. O divertido é então approximar duas affecções
pelos reophoros, isto é, um macho e uma femea, para depois ir estudando
a incommensuravel progenie resultante. Conforme estatisticas, Lisboa tem
hoje por este processo dez vezes mais doidos que pessoas de siso, e mais
ha quem chame idiotia ao siso d’essas pessoas.
—Exige-se em resumo que o medico intervenha, vamos, disse Arthur que não
tinha prestado attenção.
—Tal qual! affirmou o estudante. Hygiene em scena, para refazer o
homem senil, couraçal-o n’uma energia d’aço, estriar-lhe musculos,
engrossar-lhe os ossos, agigantar-lhe a estatura, e pôr-lhe o cerebro
alli bem lucido. As exhuberancias da saude fal-o-hão moralmente grande,
sagaz e leve, com o sentimento viril da honra, susceptibilidades no brio,
benevolencias para os fracos, e olho vivo para descortinar ao longe os
perigos. Emfim, hygiene, para garantir o futuro do mundo. Até aqui os
governos tem posto cada miseravel que nasce, entre o padre e o cabo de
policia. O padre faz d’elle um idiota e um cobarde—o cabo de policia
reverte a coisa que fica n’um contribuinte. Precisamos mandar á tabúa o
reverendo, e pôr a distancia o esbirro; depois do que, o medico dará o
braço ao misero explorado, para lhe ensinar a ser um homem. Constituido
em dictador, o medico crearia a phalange lacedemonica da Hellade,
adaptada á vida moderna, prescrevendo aos fortes o programma d’educação
de Gargantua, e pondo o resto em tratamento.
—Esse resto, por signal que te havia dar cuidados, disse Arthur bocejando.
—Não conseguiria talvez regenerar engoiados, mas havia de pôr embargos
á propagação dos aleijões e contagio dos virus. Antes de lançar o que
chamam tributo de sangue, a lei diz ao conscrito: despe-te! Eis o que eu
faria tambem, antes de dar ingresso na vida social a qualquer trocatintas.
—Vago, disse o artista. Em conclusão, pareces-te diabolicamente com o
menos fluente dos parlamentares que achincalhas. Escusas de proseguir,
sei o que vaes dizer—e foi volubilmente arengando—que o problema era
fazer sabios em hercules; d’ahi para cima não custava crear sociedades
modêlos. Admittamos! Uma vez extremados os fracos dos fortes, creada a
tal guarda lacedemonica com o seu espirito de casta assente na força e no
saber, urgia só pôr de observação os sêres inferiores, para lhes extrahir
pacientemente, as parcellas de utilidade que os desalmados tivessem a
habilidade de dar. A vêr como? Vigiando de perto esse burgo suspeito,
como a Judeia vigiava os leprosos. Fazendo essas entidades mortificadas
voltar pela descendencia ás fórmas modêlos, que a hygiene houvesse
imposto em craveira, antes de conferir diplomas de cidadão a alguem. Oh!
dirias tu, nada mais simples de conseguir. A sciencia é muito explicita
n’este ponto. E citarias apparatosamente. Se por um lado, os principios
morbidos de dois sêres que procriam, vão multiplicar-se no feto e não
sommar-se; por outro, os elementos morbidos de qualquer dos progenitores
pouca preponderancia alcançarão na progenie, se o progenitor restante
possuir em excesso perfeições, que por hereditariedade fossem capazes
de neutralisar a doentia acção d’aquelles elementos. Seguir-se-hiam
exemplos tirados de fontes insuspeitas e puras. Conta Chiara que M.elle
X, 38 annos... O grande Perroud constata que n’um logar dos Alpes,
um _couple_ da melhor saude... E mais o doutor este, e alienistas,
hygienistas, facultativos militares, um pandemonio de principes da
medicina! Podias mesmo aproveitar de Balzac, trechos arrancados á
Physiologia do Casamento, sobre o instincto da mulher procurar marido
nos temperamentos oppostos ao seu, a sua habilidade genetica de corrigir
nos filhos a saude dos paes, e certos vicios mesmo de conformatura, a
menos que se não trate de qualidades exclusivas ao homem, como fórmas
d’esqueleto, estreitura nas cadeiras, pernas direitas, força muscular,
coragem... E para cortejo, sendo preciso, versos de Horacio espremidos no
proposito de escorrerem fulminantes conceitos sobre os maus cruzamentos,
nebulosas do Hamlet ditas a Ophelia no mesmo sentido, emfim a cavalgata
de logares communs que os eruditos gostam de vêr piaffar nas memorias e
conferencias.
—Bem bom! dizia Albano, bem bom!
—D’aqui, um mundo de leis a catalogar para uso dos _vauriens_ do teu
lazareto. Exemplos. Quanto germina, quer solo estrangeiro. Brada aos ceus
propagar monstros, até as artes soffrem com isso. Assim, ordenarias pelas
allianças, grandes transfusões de sangue primitivo, rutilante, fecundo em
ímpetos. Angariar colonos nas boas raças estranhas e novas, magnificos
escocezes de seis e sete pés, camponios do Wurtemberg, lombardos e
tyrolezes filhos dos colossaes modêlos de Buonaroti e Bandinelli, e
negralhões do Cabo, que tu affirmas serem brancos engraxados, por birra
de fazer divergir, na fachada ao menos, a civilisação africana das mais.
E punir de morte casamentos entre primos ou individuos com elemento
anatomico do mesmo signal, já que de constituições identicas só brotam
degenerados e monstros. Nervoso que desposasse nervosa, zás! cabeça fóra.
Primo que aza arrastasse á prima, costa d’Africa com elle, não é verdade?
Mas, notou Arthur com modulações comicas de phrase, palavra de honra
que não vejo em tudo isto, coisa que justifique a tua ignobil avareza
de rosas brancas para um velho amigo, que tem por essas maravilhosas
flores uma fraqueza das mais irresistiveis. Calculaste mal, meu velho!
A divagação de hygiene não deu para me engodares até casa, e eu não vou
d’aqui com a lapella desmobilada. Uma rosa, vá!
—Meu pae, proseguiu tranquillamente o estudante parecendo não ter ouvido
o que o esculptor dissera, era um nervoso de humor oscillante, cheio de
feítios bizarros, susceptivel d’estomago, vivendo de palpitações bruscas,
e com dias de não fallar a ninguem.
Confesso-te que me custava a soffrer ás vezes, pobre homem! Então
repentes, um domingo rasgou o papel da sala, escarlate, porque diz que
lhe estava a arrancar os olhos por dentro do craneo, e eram dôres
horriveis. Superficies polidas, muito vastas, allucinavam-n’o, punha-se
aos gritos, inteiriçado n’uma convulsão; e em cincoenta annos de vivo
não foi senhor de correr a mão por velludo, que a syncope logo o não
castigasse. Só a musica domava esses estados, cahia em somnolencias,
lingua traçada, era atroz! Quanto a minha mãe, é a mulherzinha que tu
sabes, semanas inteiras preoccupada com as mentiras lugubres dos jornaes,
chorando o infortunio de toda a gataria dos visinhos, psalmejando
rezas nos dias aziagos, e não comendo carne por ser crime matar
animaesinhos de Deus. Accrescenta a isto irritabilidades e niquices do
mais doloroso hysterismo, explicadas sempre pelo que a superstição tem
de mais phantasmagorico no sacco; terás a pobre senhora! Ouve agora a
descendencia d’este casal singular: entre a Judith e eu, viram a luz tres
pimpolhos. Um que morreu á nascença; outro surdo-mudo, com uma cabeça
medonha, esteve doze annos n’um grande berço de verga, até que se foi.
Mas o terceiro está vivo e escorreito, e vae deitando um corpo! Por
exemplo, fez dezeseis annos hoje. Vemol-o tres vezes por semana, pódes
vir comnosco um dia, é aqui perto...
Estavam a meio da avenida Estephania, escurecera—e corriam terras de cada
banda, alteando aqui, socavando alem, esfumadas n’um vapor sepulchral que
o gaz estrellejava. Á esquerda, na planura que declina cingida em altos
gradeamentos, como iam entrando na cidade, viram a mole do hospital
Estephania boquiaberta de janellas, flambar por dentro a vida lugubre da
enfermaria, como um Molloch punico, digerindo ao rubro algum sacrificio
humano. Da direita era um muro de hospicio, fechando terrenos carcomidos,
onde muito para lá, na impassivel sombra, um gigantesco dado dormia.
N’isto vieram de lá grandes vozes de clamor, elles tinham-se parado a
ouvir. Eram cantigas n’um tom destoado, arrastando-se, esguichando em
uivos, rouquejos sanguisedentos, brados de gente que pede soccorro, e
esse rir imitando o rir humano, sardonico mas inconsciente, que faz
arripiar os cabellos. Arthur surprehendido, perguntou que seria.
—São as jaulas de Rilhafolles, disse Albano, é talvez meu irmão a
festejar os dezoito. Deixei-o agitado hontem, o director mesmo fallou
em lhe reprimir as vivacidades com um certo collete, que me parece ter
grandes sympathias na casa. É a primeira vez que lh’o vestem. Nem admira,
a gente está em uso de estreiar fato novo pelos anniversarios. Elle põe
um bello collete. Bem bom! pobre rapaz, bem bom!
—Que? Está além doido? disse o outro.
—Sim, fez com uma affectação de indifferença o estudante; mas ha já
tempos, tanto que nos acostumámos. O vaidoso persuadiu-se uma occasião
que era el-rei D. Diniz, e ateimava que era, e partia tudo apesar de o
acreditarmos; d’uma vez lá em casa, teve uma furia que ia estrangulando
as mulherzinhas. De então para cá, essas convicções teem descido com
o hospital. Agora imaginando-se milho, foge das gallinhas para não ser
tragado. Mas cuido que as metempsicoses não param aqui, porque se declara
amphora de vidro, chá preto, uma infinidade de coisas, conforme as luas.
Ora não me chamarás orgulhoso, ouvindo da minha propria bocca que sou o
filho mais bem conformado de meus paes. Olha bem p’ra mim, tens por amigo
um velho de nascença. Quanto a minha irmã...—Arthur pozera-se pallido, e
por seu lado Albano mirava cuidadosamente o esplendido ramo de rosas.
—Essa tem saude, ao menos, aventurou o esculptor.
—Saude! Terá; o certo é que fazemos prodigios todas as manhãs, para ella
tomar uma chicara de leite e dois biscoitos. Porque nunca tem vontade
de comer, nunca!—Mas logo, mas ao jantar, mas eu não posso, mas se me
faz mal; um desespero, homem! A outra mulherzinha chora, e eu alli feito
carrasco, para ella ter medo e almoçar. Hein? Se elles me vissem a metter
pedacinhos de biscoito pelo bico do canario a dentro...
—Que ha de a gente fazer, disse Arthur.
—Sim, tornou Albano, toma-se amor a estas bagatellas, por mais que se
não queira. A Judith, tu não imaginas, pesa tanto como uma penna. Depois
seccuras sempre, noites de ficar anichada n’um capote meu, ao pé da mãe,
com medos de tudo. E allucinações então, não se falla. Enfia altas
horas pelo quarto da outra, por um estalo que ouviu no sobrado, os olhos
do gato ás escuras, qualquer badalada na Estrella; precocidades, umas
melancolias que eu nem sei... São os paes conspirando no sangue para
darem com ella na cova, como acabaram com os outros!
E ahi está no que dão allianças degeneradas. Aquillo vae-se definhando,
definhando, e verás que me morre um dia, ámanhã, sei lá, quando mal me
descuide...
—Diabo, disse Arthur fazendo ares joviaes para lhe afastar os maus
sonhos, estás lugubre como um cangalheiro. Sabes lá que vae succeder,
sabes lá nada! Ora fallemos d’esse ramo de rosas que evitas como
um escolho de palestra, e eu persisto em não largar. Desde que nos
encontrámos, te fiz saber que não passaria sem uma grande rosa branca
esta noite. Tens cinco minutos, vá!
—Ah, sim, as rosas, tornou o estudante. Aquillo é antes um insecto que
uma rapariga, não queres saber? Vive de rosas.
—Todas as raparigas vivem de flôres, mais ou menos.
—Effeitos poeticos no caso! Com a differença que a Judith mastiga
n’ellas, engole-as, suga-as com um deleite inexprimivel. É mesmo o unico
prato para que não perdeu o appetite. Isto de pequenina; mas o vicio
tem ido a crescer. Talvez lhe evitem hemoptyses, por isso lh’as deixo
comer: tudo tem as suas compensações. Desde que está nubente, nos
periodos criticos, sabes, certos dias de raleira, ou em tendo febre,
aquillo torna-se n’uma sofreguidão feroz, uma voluptuosidade de larva
horticola, e põe-se a devorar cabazes de rosas como uma esfomeada. Em
casa fazemos provisões, deves ter notado. Por exemplo, nunca ficamos sem
ellas de noite. É como quem sustenta um passaro. Mas custa caro esse luxo
excentrico. Por vezes o mercado está exhausto. Immediações de bailes
ricos, ou vesperas de dia santo, pedem um dinheirão por meia duzia de
flôres fanadas. Então a mãe vem dizer-me: se fosses vêr os Fonsecas, eram
velhos amigos de teu pae, inda assim não estejam doentes...
E ahi venho em peregrinagem á quinta do meu amigo do seculo passado,
aturar-lhe as manias, ouvil-o sobre porcelanas, familia rosa, familia
verde, as cinco côres de Ming, e revestiduras _craquelées_, e as cascas
d’ovo, e _potiches_ du Barry, e um labyrintho de classificações,
de fôrmas extravagantes, de fabricas, de seculos e biographias de
fabricantes celebres, de fazerem bocejar o mais authentico christão.
Então pergunto pelas collecções de roseiras, fallo do tempo que
faz, finjo interessar-me todo em coisas de jardim, aterro-me das
bichas-cadellas comerem os pobres botõesinhos novos, digo especies ao
acaso...—E a Judithzinha, quer saber a velha Fonseca, inda gosta muito
de rosas?—Oh, sempre!—Fonseca, o teu braço, diz a boa matrona. Ouves?
Inda gosta muito, pobre menina! Vá, mandemos-lhe um bom ramo, que fazem
as rosas n’essas roseiras?—E os dois adeante, ajoujados como quando eram
novos, borboleteando pelas ruas da quinta, parando em frente das roseiras
mais raras, colhem, colhem.—Se eu tivesse uma filha! medita em voz alta
a velha n’um suspiro esteril, e o Fonseca todo risonho vae-lhe dizendo
que aguarde, tudo póde ser... Ella tem o seu riso doloroso de senhora
só, e pondo-lhe no hombro, coquettemente ainda, a touquinha branca,
muito florida de laços roxos, diz-lhe n’uma censura amigavel:—Promessas
sempre tu tiveste. Mas só promessas, grande mau!—E trago de lá um soberbo
braçado de rosas frescas, com muitos beijos e muitos recados para as
mulherzinhas, chova ou vente, seja inverno ou seja verão. Que diabo, não
te rirás, mas fico contente comigo, parece que ganhei o meu dia. A gente
tem pieguices tambem, uma ou outra vez. Judith terá hoje uma bella ceia.
Bem bom! Judith vae regalar-se por dois dias com as melhores rosas de
Portugal. Até me ponho somitego, todas as rosas me parecem poucas para
ella.—E pondo-lhe o ramo deante: vá, corta a tua rosa branca, a Judith
é mesmo uma perdição que tem pelas brancas. Eu até faço experiencias.
Quando ella fica uns dias sem rosas, appareço-lhe com uma no casaco,
casualidade, assim como não tendo feito reparo. Nos primeiros momentos
desvia os olhos, conversamos, vou-me demorando, porque assim, porque
assado, e vejo-a erguel-os de repente sobre a flôr, scintillantes de
gula; ora experimenta um dia! A palestra vae sobre mil coisas pueris, e
ella agitada já, a não estar dois segundos no mesmo ponto, a piscar as
palpebras com os primeiros symptomas d’uma fascinação quasi toxica. Quer
então abalar desgostada, sabendo que estou alli para a vêr debater-se
nos seus nervos, mas a rosa é mais forte que ella, muito mais, muito
mais. E vem tocal-a com piparotes amaveis, vae, vem, anda á roda de mim
borboleteando, a fingir que está bem, e a rosa lhe não deu mau olhado.
Repara-lhe nos olhos, de coisas medonhas que dizem, voracidades, furias,
todos irritados de fluido, lampejantes, dando punhaladas na flôr! Mas
a rosa vence-a, pobre Judith, vence-a de todo, e vem tirar-m’a da
casa subtilmente, põe-se a cortar-lhe as petalas ás dentadinhas: está
prompta! Depois o paladar mais scientifico, um sentimento da equivalencia
sensorial nos varios sentidos... Dás-lhe uma rosa ás escuras, ella
mastiga-a, e diz-te logo a côr que era, o grupo que a flôr marcava
n’alguma grande familia, tudo. Mas morre, verás, aquillo morre. Fortunas
minhas! Nem de rosas se póde viver, que eu saiba.
Enfim, disse elle estendendo o ramo para Arthur, tira lá uma, tira.
—Não, fez o esculptor bruscamente.
—És tolo, gritou Albano, corta essa tal rosa branca, vão muitas aqui para
a ceia d’ella.
—Palavra que não quero, insistiu Arthur. Era graça, gosto lá de flôres!
Albano teve um riso nos cantos da bocca, disse bem bom! bem bom! no
entono de quem fica rosnando, e foram subindo a Alegria caminho de casa.
O esculptor marchava distrahido, um pouco atraz do companheiro, mãos
nos bolsos, cachimbo apagado, absorto n’aquella doentia singularidade
de Judith comer rosas, tão extraordinaria, ligeira, graciosa e poetica,
que dirieis um episodio de lenda mystica, pintado por algum veneziano da
edade gothica, em fundo de oiro byzantino.
Pela mente do artista alava-se essa vaporosa e singular creança, como o
colibri mais ligeiro e a borboleta mais velludosa, na metamorphose do
insecto que espaneja pedrarias das azas, e no perfume dos calices orvalha
a bocca em sede.