tinham podido extremar-se ainda, subitaneas tempestades marulhavam—os
seus olhos accendiam constellações de sonho; certas maneiras de detalhar
a respiração dir-se-hiam suspiros; cerrava muito os braços contra as
costellas, pondo no busto duas azas de amphora etrusca, como se uma
febre de abraços lhe viesse. E tão impressionavel, que a menor nuvem a
fazia nervosa, e a menor sensação d’altura lhe dava syncopes; em dias
de chuva, collada por traz dos vidros, olhos baixos, um susto da fria
consternação pardacenta, pousava em immobilidades de chôro, como uma
andorinha roubada aos seus novellos de ellipses, pelo bom tempo, no
lapis-lazzuli do ceu. E então uma familiaridade a conversar!
Ainda não conhecia Arthur de quinze dias ou vinte, e já sem preambulos
entrava a querer saber o que elle tinha feito durante o dia, a que horas
tinha sahido, a que horas recolhia, e como é que sendo tão novo, podia
viver tão só.
Esse plebeu, rosnador como os cães de fila, intratavel, sem paciencia
para massadas, macambuzio e mal disposto, sentia uma immortal felicidade
em responder ás perguntinhas d’ella, em adivinhar ao seu lado e por
seu mando, todas as charadas e logogriphos do almanach, em guial-a nos
desenhos e trazer-lhe florões para bordados. Deante de Judith a aspereza
d’elle adoçava-se n’uma timidez serviçal, recolhida se ella o não mandava
fallar, radiosa quando lhe sorria. E á flôr da sua larga face operaria,
vinha um rubor de felicidade, n’essas visitas passadas em palestras
triviaes, casos de jornal e vida caseira, em que desfilava a tragedia
narrada pelo localista, as carestias da Praça, uma musica nova, e do que
cada um tivera para jantar.
As narrativas de naufragios, choques de comboios, explosões de minas,
cidades inundadas, incendios e roubos celebres, duzentas, trezentas
mortes, um supplemento algido d’orphandades, viuvezes e desamparos,
obras-primas do bello horrido que a phantasia dos _reporter-yankees_ a
meudo exporta para chocar os nervos lassos da velha Europa, faziam nas
duas pobres senhoras impressão fulminante. Arthur lia o caso, e abaladas,
dando exclamações em volta d’elle, mãe e filha commentavam o desastre
choramigando, fazendo hypotheses, phantasiando promenores.
A mãe, parando de costurar, calculava:
—Trezentas pessoas mortas, vamos que duzentas eram casadas, e cento e
cincoenta tinham filhos... Cento e cincoenta orphãos, já nós cá temos!
Nome de Maria! Agora, dêmos cem pessoas a mais de um filho... Onde
esta desgraça vae parar! As pessoas a quem estas victimas protegessem,
parentes velhos, pobresinhos de porta, creados antigos, empregados das
suas lojas... sim, porque haviam ter seu commercio, a sua vida... e ahi
fica tudo ao desamparo...—seguia-se um grande suspiro—Ai! ai! Este mundo,
bem pensando... E para mais, em sexta-feira! Emquanto uns riem, outros
choram.—E já não dormia bem aquella noite. Em que afflicções se veriam os
desgraçadinhos por aguas do mar? E que pensariam elles n’aquella hora?
Por vezes Arthur surprehendia-se tambem commovido, porque interessado
no contraste d’aquella simplicidade ingenua e sincera, pouco a pouco,
sem n’isso reparar, ia sendo por ella dominado. O sentimento de quasi
paternidade que lhe vinha ao pé de Judith, revelava-o elle nos presentes
que lhe fazia, medalhões com baixos-relevos de Virgens e Christos,
beniterios de espaldares rendilhados, albuns de aquarella e carvões
de paizagem, flôres, quinquilharias e até ninhos, dos passaros que
nidificavam nos grandes platanos do quintal.
Nunca se esqueceria da ineffavel frescura de lagrimas que sentira no
peito, a vez que indo vêl-a com uma grande rosa branca, toda orvalhada,
ella viera com uns geitinhos infantis tirar-lh’a muito delicadamente,
emquanto os seus olhos claros scintillavam. E desfolhando a rosa com
os dentes, petala por petala, fôra-a comendo com a especie de gula
voluptuosa com que os canarios debicam folhas d’alface, e tendo sempre os
ardentes olhos pregados n’elle.
Todas as manhãs ao erguer, Arthur fazia a sua hora de gymnastica
revigorante, preparatoria dos trabalhos do dia. Começava com vinte kilos
em cada braço, ia d’alli aos saltos elasticos sobre pranchões fixados a
variadas alturas, depois fazia as distensões, torsões e suspensões do
trapesio, acabando no _moinho_, grande trabalho de destreza, que exige
olho fino, corpo d’aço e precisão de mathematico.
Da janella, se acontecia estar levantada, Judith dava gritos de susto,
pedia-lhe para suspender os trabalhos, ameaçando-o ficar de mal com elle,
se proseguisse.
Arthur socegava-a com palavras de valentia, intimamente lisonjeado ao
menor dos seus gritinhos hystericos—e se na janella do sotão as lentes do
Albano brilhavam, era uma festa entre os tres.
O habito de tecer mundos de chimera e bizarrias d’espirito onde residir a
maior parte do anno, dava ao estudante a mais completa indifferença, ou
apenas alguma ligeira attenção, para as coisas triviaes que lhe giravam
á roda. A familia merecia-lhe uma especie de benevolencia, sem effusões
nem longos entretenimentos; para designar as duas senhoras dizia—_as
mulherzinhas, lá em casa_; e apenas ás horas da comida, nas preguiças
depois do jantar, se demorava a conversar um pouco em coisas que lhe não
inspiravam interesse, e deixava correr para o não acharem antipathico.
Quasi sempre as suas palavras eram breves n’esses cavacos domesticos,
sim, não, está visto, está claro; ou aquelle interminavel—Bem bom! Bem
bom! que servia para exprimir tudo, tedio, satisfação interior, fome,
desgosto de viver, necessidades de fazer a barba, e assim. Para se não
dar ao trabalho de explicar um ponto controverso, estava sempre d’accordo
no que a mãe e a irmã diziam. Por vezes fazia á mesa silencios de
pensador, sorvia a sopa bruscamente, cortava os pedaços n’uma gravidade
de sabio, cabeça baixa, camarinhas de suor no coronal marbreado de calva.
Jámais n’esses momentos, ellas lhe interrompiam a meditação, o jantar
corria triste. Tinham-se affeito áquella reserva de velho juiz as duas
senhoras, e já não estranhavam. A mãe vendo-o calado, pensava no marido
que fôra assim toda a vida, macilento, sorvido, com os seus oculos
verdes, nevralgias singulares, e cheio de excentricidades. E Judith amava
o irmão como um avô, vendo-o sempre benevolo apesar de casmurro, dedicado
no fundo, e com pequeninos presentes de quando em quando. Por vezes, os
olhos d’elle sondavam-na por cima dos oculos com sollicitudes antigas,
n’uma satisfação de a verem galante, com a sua bata de rendas cingida
á cintura fina. E as duas foram-lhe descobrindo virtudes tocantes, uma
virgindade de gostos, traços de caracter generoso, e pieguices mascaradas
n’aquella selvageria. Levava noites a traduzir romances por uma miseria,
no intento d’augmentar a modesta renda de que vivia a familia, afim de
nada faltar em casa. Nos dias de annos, começos de estação, ou pelas
festas, calado sempre, com a sua nisa parda de seis annos, uma corrente
de latão no relogio, descia alta noite em meias, do seu antro de doutor
Fausto, quando ellas dormiam; e como a boa fada do Natal deixava-lhes
á porta dos quartos, na mesa de jantar, sobre cabides, ou nas mais
reconditas gavetas do guarda-vestidos, pequenas peças de _toilette_,
quinquilharias namoradas semanas e semanas n’uma _vitrine_, regateadas,
ambicionadas, e por fim adquiridas com a feria, que aos sabbados recebia
pelos fasciculos traduzidos. Furtava-se então aos prazeres da surpreza,
aos agradecimentos e aos beijos, sahindo logo de manhã como um ladrão.
Bem bom! Bem bom! Porque o seu odio pelas effusões domesticas, pelas
ternuras choramigadas, ia á ferocidade. Certas _calineries_ de paes para
filhos e irmãos para irmãs, envergonhavam-no; nunca tinha dado um beijo;
e comsigo mesmo, considerando as femeas, vinham-lhe honestidades de
Antonio entre as bacchanaes nocturnas da Thebaida. A rabeca porém era o
seu confidente linguareiro, que tudo ia contar, exprimir, soluçar. E o
que ella dizia d’esse magricella envelhecido, que doçuras de temperamento
lhe sondava, que profunda bondade punha em jogo, que frescura interior
deixava vêr, e que indomavel paixão de juventude! Do quintal, Arthur e
quem estava, applaudiam deslumbrados; Judith tinha soluços nervosos,
toda vibrante na emoção magnetica d’um arco assim movido; Albano apenas,
impassivel, limpando a calva apostolica, bem bom! bem bom! sorria um
pouco do successo.
Percebera elle o que se estava passando entre a irmã e o artista.
E com um certo riso fazia reservas prudentes, ficando calculadamente a
distancia d’aquellas expansões. A rabeca sómente, nas passagens idyllicas
de Judith com o esculptor, por Albano adivinhadas ou surprehendidas,
ousava em surdina fazer o seu commentario ironico, e dar o seu parecer
disfarçado, traduzindo pela vibração chorosa ou risonha, o pensamento
occulto do rabequista. As conversas de Judith mais o esculptor, ella da
janella, elle do quintal, eram o que ha de primitivo em arte de amar.
—Bons dias, que lindo tempo hoje, não está?
—Está, dizia elle.
—Rico para um passeio ao campo.
—Eu gostava mais no rio.
—Podia virar-se o bote...
E Judith fazia um adoravel gesto de medo.
Tornava o Arthur:
—Então o nosso homem, inda dorme?
—Qual! Foi para a escóla já.
—E a visinha nunca sahe d’ahi...
—Muito pouco! Com esta vista da janella, é como se todos os dias andasse
duas leguas de campo.
Ou derivavam no eterno motivo:
—Ora veja como vão adiantadas as obras da avenida!
—Ah, muito! Ainda hontem a casa amarella, acolá adeante, estava em pé, e
só lá vejo agora as paredes das lojas.
O esculptor punha-se a explicar a avenida, dizia o golpe de vista
decorativo de quando ella fosse cheia de construcções, o palacio de
crystal com as suas naves radiando da rotunda em cupula, torres nos
angulos com janellas de balaustres marmoreos, arvores de sombra, palacios
de mil architecturas, bazares scintillantes, estatuas e jogos d’agua...
—Para esse tempo, dizia Judith fazendo olhos tristes, já não sou viva,
que pena!
Arthur phantasiava-lhe a brincar destinos de princeza, ter palacio entre
parques, desenhado por Garnier, um _coupé_ tirado por cavallos brancos,
um marido conde, que fosse loiro e a adorasse, e primeira ordem em S.
Carlos. Vêl-a-hia atravessar a cidade em _landeau_, na primavera, ás tres
horas, sob a tepidez d’um ceu amoroso, toda setim malva e plumas brancas,
sem fazer caso dos cumprimentos d’um pobre artista como elle. Ella
ria com esforço áquella ingratidão phantasiada, com um oh! de creança
resentida. Apoiando no parapeito as mãosinhas brancas, ia-se debruçando
para o vêr melhor; a gotta coral do seu labio tinha momosinhos rubros de
quem chora—e calados n’um embevecimento, olhavam-se muito serios, com
alguma idéa profunda e nupcial. Coincidia com estas tagarellices dos
dois, uma preoccupação de Judith em se fazer senhora. Declarava todos os
dias estar mais alta, ir engrossando de quadris. Viera-lhe uma febre de
_ménage_, passava dias arrumando, desdobrando roupas, pondo _balayeuse_
nos vestidos usados, marchando como um _I_ para se dar o aspecto
imperativo. Todo o seu empenho era representar uma dona de casa; e para
isso, como via a mamã fazer, era admiravel desenvolvendo preoccupações,
projectos, argucias e pequenos ralhos de cozinha. Viam-na atravessar os
quartos com braçados de roupa, muito impertigada, o ar severo, e virar-se
de repente a vêr se o vestido ia arrastando. Por não conservar os seus
dentes _d’algum dia_, a pobre mamã tinha de comprimir espevitadamente
os beiços, para chamar alto. A careta stereotypada nada tinha de
captivante; pois assim mesmo Judith a imitava! Com creanças então, que
adoravel miniatura de comedia! Judith pretendia adivinhar todos os
incommodos ou appetites d’essas pequeninas poeiras, através das birras
mais inesperadas. E mil peças, dançava com ellas, erguia-as ao alto
esticando os braços, balanceava-as nos joelhos, estava constantemente a
penteal-as, a beijal-as, a deital-as como uma Virgem, no regaço, a cantar
para que dormissem, a despil-as, a vestil-as, a inventar-lhes incommodos,
como pretexto para fazer brilhar as suas habilidades de pequena mamã.
Se Arthur estava presente, estes ensaios para esposa eram mil vezes
repetidos, exagerados e postos em relevo, n’um sentimento de pedanteria
innocente. Por vezes, no meio d’alguma scena difficil, os olhos de
Judith levantavam-se sobre o esculptor, havia n’ella um retrahimento de
se vêr observada, e ia-se embora de corrida. Todas estas preoccupações
se trahiam n’um tom encantador de caricatura, e contemplando-a, a gente
pensava com finos prazeres de bric-á-braquista, n’essas figurinhas
d’esmalte tão vivas, walsando no oiro das _bonbonnières_, fugaces,
illuminadas no galante estylo pastoral do seculo dezoito. Mas não raro
era tambem um esquecimento do papel, em meio d’alguma postura mais
de proposito composta. Então a creança dava de repente um salto, uma
risadita, e quebrado o encanto, reapparecia na sua graça plumosa e
ingenua d’ave do paraiso.
Os momentos com ella repousavam o artista d’outros fatigantes dias
levados na faina de procurar modêlos, fazer moldagens custosas,
desbastar a rija constructura dos blocos; e mil attenções postas em bem
ferir a estatua esboçada, retocar as coisas miudas da fórma, fremitos
de roupas, serpentinado das carnes, todos os pequenos _tics_ d’onde
resulta na estatua a volatilisação da vida. N’uma população degenerada
por decrepitudes de raça, vicios de grande cidade, privações de pobreza
e demasias de trabalho, o esculptor mal achava corpo que valesse a
pena copiar. Na sua missão d’artista, em certos dias, era-lhe forçoso
então percorrer os centros vitaes da população, os caes, os mercados,
os arsenaes, os quarteis, os navios e as fabricas, a buscar entre os
pelitrapos e _va-nu-pieds_ do trabalho, as fortes linhas harmonicas dos
modêlos.
Era assim que se lhe deparava aqui um pé bem lançado e livre, no garoto
da rua ou servente de pedreiro; além as espaduas e braços d’Atlas,
estriados, membrudos, sob a camisola de lã dos catraeiros côr de cobre;
torsos de damnados miguelangescos entre os forjadores das officinas; e
traços de Antinos n’uma ou n’outra cara enfarruscada, adolescencias doces
de punhos e jarretes, seios e gargantas fulvas como o bronze tonkin;
pedaços de natureza nobre, descorrelacionados do resto e esparsos sem
ordem nem logica, por figuras vulgares, amortecidas nos excessos da
labuta quotidiana.
E as difficuldades para trazer ao _atelier_ qualquer d’esses donos de um
trecho vivo de esculptura, artimanhas a empregar, longos preludios de
explicações, promessas de boa gorgeta, uma canceira atroz de persuasões
e engodos! As mulheres escandalisadas do convite, injuriavam-no em pleno
mercado, rudes ferreiros riam-se d’elle com chascos; e poucos queriam
seguil-o!
Alguns ao fim de quatro sessões ou cinco, fatigados de pousar, abalavam e
não vinham mais. E Arthur desapacientado, mortificado, nervoso, ulcerado
de coleras, destruia o que estava feito, cahindo em longos tedios de
ociosidade.
* * * * *
Arthur vivia como um asceta, sósinho em casa entre as ferramentas
de officio, desenhos e gessos classicos, servido por um gallego
extraordinario de avareza, e visitado por tres ou quatro amigos de seu
pae, que raras vezes appareciam. Aos domingos, se acontecia haver numero,
formava-se um chinquilho pacato, em que Albano era parceiro do gallego,
contra o Arthur que fazia causa commum com o amigo Flores, _ártista_
pintor. Amigo Flores era o jovial folião, que os francezes já modelaram
em caricatura, no zinco dos castiçaes baratos, com a palheta em riste
e o seu chapéo de pluma derrubado á banda. Era um sêr filiforme de
cara quixotesca, bigodes fluctuantes e pera em cauda de rapoza, alto,
republicano e cheio de zumbaias, grande cabelleira ao vento, feltro
derrubado, botina torta, e umas taes denguices com damas!... O orgulho
da sua arte, forçava-o a attitudes photographicas, mão no peito e uma
perna arqueando á frente da outra; ou então descoberto, como quem pousa
para a historia, tendo um ar sonhador, os dedos na gaforina que de crespa
lhe nimbava a cabeça, olhos em alvo, como a meditar o plano d’um quadro.
Quando o contradiziam, amigo Flores tinha a phrase:
—Não rebata as minhas asserções!
Era um jacobino temeroso, que nunca se cançava em referir os seus
esforços pela grande causa.
Tomando a pera nos longos dedos d’esqueleto, fazia notar:
—Quando vier a nossa republica, a sua primeira obra será dar-me um beijo
e dizer-me assim, obrigado, querido pae.
Em mimicas de sagui, todo esguedelhado á moda romantica, com tremuras
d’ebrio e palavras jactitantes, amigo Flores fallava então nos trabalhos
dos pretendidos clubs revolucionarios, as soalheiras apanhadas na
via dolorosa da propaganda, portas que lhe atiravam ás ventas pelas
eleições, mil ingratidões bebidas sem queixa. Fazia arremedos de quem
investe o toureiro—Sim, que fallasse Alcantara! E Alcolena, e Ajuda,
e essa rapaziada dos Terremotos toda, para contarem do que elle João
Maria Guedes Flores, sósinho e solitario, tinha feito e conseguido. Por
sua energia se levára a cabo no Pateo da Galé, o famoso comicio de 24,
onde Ajuda nas barbas da policia mandada por ordem do _tyranno_, tinha
posto as coisas em pratos limpos. E uma data de clubs fundados por
elle, o _Mortalha e Onça_ de Alcolena, com duas Liberdades de gesso na
sala das sessões, e um realejo alli tocando a Marselheza noite e dia,
para arreliar o paço, apre! Se tinham visto o artigo do _Trinta_, todo
escamado? Ninguem tinha visto. Arthur pretendia chamal-o pacificamente
aos pinceis então, para discretearem antes sobre taboletas de
_phantesia_, e bellas gallinheiras da Praça, por uma das quaes, Barbara
de Loures, ruiva maritornes que enchia o mercado com os seus uberes de
turina, entre raspões de hortaliceiros, o _ártista_ andava morto. Mas
Albano queria vêr por força como era feito um jacobino, investigar das
conquistas do partido popular, metter sonda na obra da revolução. Que
não rebatessem as asserções do homem! E amigo Flores ia dizendo que
o rei ficava de cal em o encontrando na rua, o Fontes mesmo pensára
em subornal-o, dar-lhe posta afim de lhe calar o bico. E d’uma vez na
calçada da Ajuda, ia muito bem, matutando sim senhor, e ouve _pst! pst!_
E volta-se, era D. Fernando fazendo-lhe signaes. Podia hoje estar n’uma
posição independente, mas não era como esses pandilhas monarchicos que
se vendiam por um logar; preferia seguir as suas ideias, ser fiel á
causa do povo. Enchia a bocca de povo, a vontade do povo, a soberania
do povo, o veto do povo, o suor e mais excreções do povo. E batendo nos
peitos concavos, olho acceso, gambia fina, um ar chimerico de walsa,
deixava desconfiar pela attitude que o povo fosse elle, grão senhor
d’arraia miuda, chefe dos sediciosos, e vingador futuro de mil torturas
soffridas. A cada passo, a sua arenga vinha infectada com essas phrases
de _meeting_, tympanicas pela falta de sentido, escorrendo indignações
de bacharel faminto, a que os jornalistas vermelhos teem dado voga entre
as classes ignorantes, ensinando-lhes a fanfarronada, sem lhes ensinarem
coisa melhor. E vinham os direitos do homem, o corpo social, a dignidade
humana, as liberdades d’este seculo, tiradas sobre a podridão da corôa, e
mil allusões contra o que cada qual fazia por mez... Por vezes, ao atirar
da malha contra o paulito do jogo, a vehemencia do _ártista_ era tão
soberba, que se ficava n’um panico, á espera de lhe vêr sahir dos bolsos,
hordas de federalistas, communistas, todo o arraial d’opprimidos em linha
de guerra, brandindo armas, formando barricadas, cantando _Ça ira!_ e
roubando lenços d’assoar. Albano mirava-o como um animal curioso, todo
grave e compenetrado; e secretamente, como um irmão da seita escarlate,
fazia-lhe pequenos signaes de adhesão, applaudia em risinhos, como quem
sabe de tudo, na mira de lhe inspirar confiança.
Aquelle apoio vehemente, endoidecia o _ártista_, que nos dias de loquela
entrava n’uma quantidade de revelações d’alta politica. A coisa marchava!
Um trunfo dos republicanos dissera-lhe na redacção do _Facho_:
—Dez como vossê, Flores, e a realeza não dura tres semanas! Tinham mesmo
chegado a pedir-lhe artigos de fundo, d’aquelles damnados, d’aquelles
fortes. A provincia dava-lhe vivas; _Sola e Vira_, um directorio do
bairro central, chegára a lançar-lhe nas actas, votos de louvor. Isso
lá muito fallado! Abria um riso mysterioso para confessar que havia
incredulos que se punham a dizer aos seus botões, a republica está ainda
para tarde. Não aconselhava ao povo portuguez aquella falta de confiança
nos que andavam á testa do movimento. Já o tinha dito no famoso comicio
de 24. Na proxima legislatura, seis é que cantavam na urna.
—Seis que? disse Albano.
—Mas deputados! Um d’elles, e amigo Flores descia o olhar, nunca
acceitaria o mandato de tão illustres irmãos d’armas.
—Mas Flores, implorava Albano, mau irmão, acceita por obsequio.
—A coisa está séria! dizia Arthur. E a voz de João Maria Guedes Flores,
baixava.
No _Facho_ pensava-se em comprar o exercito, havia aguardente para
adhesões espontaneas... E agora shut! nada de darem á lingua, hein?
—Eu cá ouvi fallar n’um subterraneo de polvora até ao paço, segredava
Albano tendo primeiro fechado as portas, e lançando ás paredes olhares
tresvairados.
Amigo Flores recuou theatralmente.
—C’os diabos! Mas é a anarchia! Mas vão-se lançar no puro nihilismo!
Isso sempre eu temi! A soberania popular não quer sangue!—Mas Albano
atropellava revelações com revelações, tendo o _ártista_ seguro por um
braço, arquejante, magnetisado, escutando por todos os póros.
—E depois, não é tudo, homem. Entrou um navio com armas pela Figueira
dentro; Celorico agita-se; Santa Comba diz que não paga; Moita poz
barrete phrygio; todo o paiz vae levantar-se como um homem...
—Quando?
—Ámanhã talvez!...
—Bem m’o dizia o Guerra! fez amigo Flores, como se prophecias biblicas
viessem de realisar-se.
—Quem viver verá as grandes coisas, ponderou Arthur. Inglaterra jámais
nos perdoa. E a Russia, a Austria, Hespanha...
—Hespanha, disse o _ártista_, com os seus males intestinos...
—Infeliz! fez compungidamente o estudante. Mas coragem! Grevy escrevera
a Magalhães, dizendo-lhe contassem com elle; havia mesmo umas certas
palavras do presidente Grant...
Emfim, qualquer manhã, a monarchia acordava pela barra fóra, caminho do
desterro.
—Pois vou já convocar o _Mortalha e Onça_, clamava possesso amigo Flores,
rompendo por essas ruas esbaforido, sem mais querer ouvir.
Se concluira alguma obra, convidava toda a gente a ir dar opinião,
o Arthur, um porta-machado das suas relações, que lhe servira para
modêlo de Herodes n’uma _Degolação de Innocentes_; o gallego avaro, e
quando Deus queria, o proprio Albano. Amigo Flores pintava taboletas,
frontarias de loja, e casas de jantar de dez palmos, em terceiros andares
restaurados. Onde quer que a sua brocha tocasse, a serra de Cintra era
certa, com dentaduras do castello dos Mouros, os torreões da Peninha e
damas de azul em _pic-nics_ na relva. Se lhe observavam tal destempero
n’uma fachada de talho ou tabacaria, amigo Flores tirava altivamente o
seu feltro, esbandalhava a trunfa com os dedos de esqueleto...
—Não rebata as minhas asserções!
E a liberdade com que advertia o esculptor das incorrecções de cinzel, a
fereza supraciliar com que o chamava de parte para lhe dizer que aquelle
pé, alli, não estava a seu gosto; os modos de velho mestre com que lhe
rendia elogios, dando-lhe conselhos, que fosse indo, nada de desalentar,
e trabalhasse para ser um _ártista_!...
Porque no intuito de reconfortar esse talento de rapaz na sombra,
pretendia impôr-se como exemplo de lucta, afinal triumphante.
—O caso é, trauteava elle afiambrando a perna, que cheguei á verdade e
tenho hoje côr. Custou, mas posso orgulhar-me, venci. Homem, basta um
caso—tal campo d’alfaces pintei a fresco n’um retiro de Rio Mouro, que
todas as manhãs n’aquella casa, é um poder do mundo de grillos!