seu palacete de provincia, ainda em trajos de noiva, e acordando do seu
somno de virgem, para repellir o amor d’esse homem vulgar com rebelliões
de princeza captiva, transfigurada, inflammada, pedindo alguem que
tivesse espirito, um ideal de cultura, e fosse bravo, dedicado e doce,
com largas maneiras de senhor. E aquelle homemzinho de charrua, tão
singelo e tão gebo, filho d’um creado, gerado n’um ventre de mulher de
monte, herdeiro das boçalidades, grosserias moraes e joanetes paternos,
tendo virtudes previstas na Carta, um compadre em Lisboa, e explorando
o trabalho das aldeias com o ar de as proteger, terror dos candidatos,
emprestando a juro, senhor de mãos grossas, com as unhas esmagadas,
cabellos nos ouvidos e uma dôr sciatica pelas mudanças de tempo,
pronunciando sem graça e rindo com dentes verdes; esse homem estaria
ajoelhado aos pés d’ella, braços febris contra a sua cinta ondulosa,
suores na careca, e tartamudeando monosyllabos de satyro decrepito. E
via-o cheio de pretensão, fato novo, arrotando contos, dominado por um
vicio de rapariguinhas novas e endurecido no egoismo dyspeptico dos
viuvos, fazer cerco áquella pobre filha do almoxarife de coutada real,
ambiciosa como todas as engeitadas de principe, cheia dos formilhamentos
d’um luxo entrevisto em caçadas de côrte, espreitado pelas fechaduras,
aspirado no rumor das festas reaes, no telintim das baixellas, em
musicas de camara dominadas d’uma austera graça, nas _toilettes_ das
grandes damas, scintillas de _rivières_ e voejos das ventarolas pintadas
por Greuze e Galland, todos os requintes da alta vida, exagerados na
pragmatica de palacio e fazendo cyclone n’esse espirito de gazella
vaidosa.
E a vida de casados n’um horror de herdade, as janellas da camara
nupcial abrindo sobre algum pateo de lavoura, cheio de carretas do
captiveiro de Israel, ganhões em mangas de camisa assobiando ao gado que
bebe, cães errando de lingua fóra, e a raza campina ao largo, ceifada,
pellada, sem guarida, sem pascigo, sem arvores, anesthesiando a vista,
carbonisada de sol, e pondo um oceano de separação entre esse insidioso
caracter de mulher bella, e a nevrose scintillante das capitaes, por
elle tão ardentemente sonhada. Por mais que fizesse, e por escrupulosa
que fosse, essa mulher devia fatalmente vir a detestar o marido, tendo-o
sempre deante de si, no _deshabilée_ do rendeiro que tem gazes e teme a
apoplexia.
Depois o seu modo de ser amavel, de a abraçar mettendo de permeio um
grande ventre tympanico, de lhe passar na cara tão branca e susceptivel,
a torpe mão que mexia nos patacos da feria e na lanugem das crias; e
uma falta de intuição, de nascimento, de gosto, que davam mesmo vontade
de lhe ser hostil. Ella soffreu porventura estas coisas pacientemente,
reconsiderava eu, com a esperança de Lisboa onde a tinham educado como
uma princeza, interessada nas obras da intelligencia, recebendo todos
os _vient de paraître_ da litteratura e da musica, vestida em Paris no
meio d’aquelle deserto, cultivando plantas de estufa, fazendo Chopin a
uma pequena galga que tinha, pela necessidade d’uma alma poetica que
ao seu lado soffresse tambem, as inhospitas tristezas do abandono. Uma
das coisas, vim a sabel-o depois, que a fizeram receber altas horas por
primeiro amante, o secretario geral d’Evora, foi o vicio que o morgado
tinha de arrotar, emquanto ella esmaltava de Nocturnos e bocados biblicos
de Rubinstein, o religioso silencio perfumado da sua camara. Além de que,
mettia-se-lhe em chinelos nos aposentos. Tamanho odio a ganhou desde
então, que uma tarde, como elle não entendia as allusões, as ironias,
os chascos, ella pôl-o fóra com um gesto de rainha. E a desvergonha de
a querer a certa hora, nas satyriases da digestão, e sempre referencias
de pae Grandet ás contas pagas, aos vestidos de seda postos de parte
ao outro dia de recebidos, ás rendas de libra rasgadas em rompantes de
surda colera; por fórma que a pobre ave sabia quanto custava por anno,
quanto valia em cortiça, queijo grande ou lã de ovelha, o que era um
tormento! E successivamente, mordida de irritabilidades hystericas,
entrou a não sahir dos quartos, a não fallar ás creadas, a emmagrecer e
a tornar-se pallida, com elasticidades de cobra, tons azulados de mãos,
e essa deslumbrante alvura de lymphatica, sob cuja estatua tão fragil
ha contensões singulares de caprichos, requintes de graça nervosa, e
subitaneos repellões de impudor.
Desci a escada muito devagarinho, para não perturbar a adoração em que
elle ficára, fui um bocado ao club. Passava um pouco das duas. Ninguem
walsava; sob _abat-jours_ japonezes, as velas derretiam nas bobeches dos
candelabros, em mesas de jogo abandonadas com fadiga, momentos antes;
havia grupos nos vãos das janellas, grandes risos nos terrados, uma
animação de homens fallando ao mesmo tempo. Na sala de leitura, o amigo
Alvares gesticulando forte para um grupo de rapazes que esperneavam de
riso. Perguntei:
—Que diabo ha?
—Ah, meu rapaz, que escandalo mais catita! Perdeste em não estar,
perdeste tudo, vae carpir para o deserto a tua pouca fortuna, que não
estás em graça.
—Mas é por força caso espantoso!
—Imagina tu que o Castro enfia pelo baile mais a condessa hespanhola em
_toilette_ de espavento, uma sucia de brilhantes. Estava tudo cheio de
senhoras, o melhor. Ora filho, mal a viram apparecer foi uma debandada
geral! O director de serviço quer expulsar a mulherzinha, o Castro
vae-lhe tomar satisfação, levanta-se algazarra... Ah, gostei immenso, que
pagode! O caso é que isto anima-se. Nos mais annos uma semsaboria. Mas
muito bom! E vou interpellar a direcção.
—E eu dormir, respondi apertando as mãos á volta.
Na rua vi Guimarães pae, thesoureiro do Banco, fallar devagarinho ao
visconde Paredes, director e casca-grossa ventrudo, com meio kilo de
berloques, que alcunhava a litteratura de peste publica, e enriquecera
fornecendo mesclas ao exercito e falsificando os rapés. Quando
passei tinha o Guimarães umas notas na mão, que mostrava ao Paredes,
confrontando-as minuciosamente.
E ouvi de relance a voz ronronada do director:
—Está muito bom. Telegraphou?
—Vem reforço esta noite. Ámanhã de manhã, estamos-lhe em cima.
No dia seguinte, havia borborinho na praia, ninguem se interessava
nos mergulhos da corôa, de grupo em grupo ia gente informar-se, tomar
parecer, ou rir da indignação dos mais austeros patricios. Tinham-se
descoberto notas falsas em circulação, consideraveis depositos nas malas
do hespanhol, que meia hora antes fôra preso mais a condessa, deliciosa
traquinas que se divertia em pagar com ellas compras principescas, por
esses armazens de modas e novidades. Além d’isso, corria que muito boa
gente se compromettera na empreza, algumas cinco prensas surprehendidas
n’um palacio á Lapa, duas fabricas subterraneas que estavam trabalhando
á entrada da policia; muitas pedras lithographicas com modelos de notas,
carimbos de firmas falsas, ferramentas, tintas, uma escripturação
montada, chapas de mil feitios... Vinham já os primeiros calamitosos
ensaios de quebras fraudulentas com capitalistas fugidos, roubos
mysteriosos que a policia tinha ordem de deixar impunes, o contrabando em
grande escala, e duzias de moratorias especando uma geral desorganisação
do credito. E a essa hora o morgado com o filhito pela mão, quita-sol
entre os joelhos, de forro verde, um solideu de seda por baixo do
feltro desabado, lá ia para a sua lavoira, recolhido no camisote de
lucto, silencioso, cheio de ceremonias, e tendo o pensamento na bella
codorniz que acabavam de engaiolar no Aljube.—Pobre homem! dizia eu,
vendo-o partir no carrão. Ir para a herdade logo nos mezes em que não ha
pastagem...
MADONA DO CAMPO SANTO
Um temperamento, este Arthur! Côres biliosas, intractaveis cabellos
extraordinariamente negros, talhados á ninivita conforme a moda romantica
dos _ateliers_. Na estatura composta e nos hombros largos, uma reserva
trahia a alma dura, violencias, e insoffridos orgulhos. Nasciam d’elle
langores e enthusiasmos de indole calida, pueris alegrias, terrores,
fluctuações, desesperos e lacunas de caracter, que lhe tinham ficado
d’uma mocidade escusa, e da educação cortada de contratempos. Abandonando
as _troupes_ do café e os cenaculos de tabacaria e camarim, que fazem
opinião sem a ter, de tudo riem e de tudo fallam, tudo julgando e em
todos vendo meritos secundarios, elle afizera-se a illuminar o silencio
da sua vida, com a luz d’um talento extraordinario e profundo.
Não tinha admiradores, nem amigos, nem discipulos. E incomprehendido,
desconhecido, casmurro, sem a audacia de se impôr, nem paciencia de
supportar o insuccesso, o seu coração desconhecia os lances da abnegação
desinteressada, e sequestrado, intransigente, com os feros orgulhos do
pão secco, e a tristeza furiosa dos que soffreram na infancia, mordia a
gloriola dos favorecidos, comparando a sobriedade heroica da sua vida,
aos ruidos de encommenda e prosperidade crescente de todos esses inuteis.
Assim, na impetuosa edade em que a vida do artista se inflora n’um
_bouquet_ de impulsos cavalheirescos e espontaneos, sem calculos,
agiotagens ou reservas, aquelle velho de vinte annos não dava passo sem
palpar o terreno deredor, olhando as coisas com um sentimento de atroz
analyse e ambição egoista. Um diabo apenas, sabia levar este solitario,
interessar-lhe, insinuar-se, fazel-o rir.
Era o Albano, zingaro de escóla, dos que envelhecem a fazer o curso,
sempre cabulando, encalvecendo, sabendo de tudo, não tendo conhecimentos
completos de coisa nenhuma, e sentindo pelos regulamentos das aulas,
desprezos que os graves mestres faziam pagar com reprovações e annos
perdidos. Albano era um chupado de oculos fixos, com a sua careca
apostolica de falripas temporaes, maxillas de cão rateiro, bocca
sardonica com dentes de gume branco, e um corpo rachitico, corcovado,
esgrouviando do fato pelas curtas mangas da nisa, e pelas pernas curtas
das calças.
Os cafés conheciam-no pela grossa jovialidade, um rir nervoso que punha
guinchos d’alarme ao canto das suas palavras, e o phantastico humor
cheio de _pochades_, buliçoso e crivado de ironias, que lhe tinha valido
a raiva d’algumas pessoas em bonita posição. Pelos atrios das escolas,
essa figura torta servida por uma lingua damnada, punha má impressão, nos
premiados sobretudo, onde a sagacidade do cabula teimava em diagnosticar
os maiores herbivoros do curso. Citavam a sua phrase de todos os dias,
ao encontrar conhecidos, dita n’um rythmo cheio de pausas, que por si já
sibilava ironia.
—Bem bom! Bem bom!—Geito amargo n’um canto da bocca, e logo:—Então que
escandalos?
Sem nada affectar, andava ao facto de tudo, sabia fallar em tudo, lia
tudo, jornaes de sciencia, livros de todas as especialidades, poemas,
romances, historia, critica, e musica de todos os auctores, porque é de
saber que tocava maravilhosamente rabeca. Se lhe contavam o escandalo
suspirado, sem o qual morreria de paixão, de inanição e tristeza, era vêr
os guinchos de deleite em que entrava, e interjeições em que todo parecia
bulir.
Encontrára uma noite o Arthur na _Brasserie_, palavras trocadas a
respeito d’um chapeu de chuva esquecido, um jornal de gravuras folheado
em commum, e ficaram conhecidos. O fato velho de Albano, inspeccionado
com attenções minudentes, pareceu satisfazer o nosso homem.
E sympathisaram, tinham entrado logo a discutir, apertaram-se as mãos á
despedida, e ás noites depois de jantar, eram certos na _Brasserie_ para
o cavaco.
Pouco a pouco, as relações estreitaram-se quanto era possivel em indoles
de sobrecenho, como estas. O mais expansivo era Albano inda assim, com
as suas mordacidades cortantes, um largo desdem pelas coisas consagradas
d’antemão, e a concisa formula sobre os celebres e grandes homens—que
tinham todos sua perna podre, podendo esta ter apodrecido em varios
pontos do individuo, na consciencia, na cabeça ou em regiões vergonhosas.
E a esmiuçar biographias de condiscipulos e mestres, illustradas com os
detalhes pittorescos das vaidades assolapadas, calinices _ex-cathedra_,
e desenhos de typos feitos em ar comicamente grave, derivou d’ahi nos
personagens mais em publicidade, politicos, litteratos, e dinheirosos
influentes. Arthur que o ouvia regalado, em silencio, completou-lhe as
vistas criticas, esfibrando então com as glotonerias d’um homem posto de
banda, as individualidades da arte, que o outro conhecia pouco; e fez-lhe
a sua vida artistica, como antes de estudar em Roma tres vezes fôra
preterido nos concursos de pensionista, como vindo do estrangeiro com
amplas provas de artista tinha achado hostilidades entre irmãos d’armas,
dentro da academia mesmo, e por amor d’ella nos jornaes. E sem recursos,
n’um paiz pobre onde os amadores d’arte ornam as salas com oleographias,
e as galerias, escadas e vestibulos com gessos e cães de faiança, elle
referiu a sua inhospita miseria n’uma agua-furtada de Santos, faltas
de modêlos, desalentos e orgulhos desprezados. N’essa causa commum que
faziam, chegaram a estimar-se, indo cear economicamente de quando em
quando.
Era d’ordinario n’uma taberna do Bemformoso que tinham logar estes
festins com canôas, n’um cubiculo pintado de verde, com reposteiro de
ramagens, bico de gaz ao alto, e um gato amarello enorme, de collete
branco e ar caricatural, que ronronava molhando nos pratos as suas barbas
mephistophelicas. Muito especial alli o vinho, um grosso vinho pintado
de roxo que alem de servir para marcar roupa, afogar baratas e trazer
ictericia a quem se lhe affeiçoava, possuia a inolvidavel magia de dar
talento aos actores do Principe Real que o aproveitavam assim por todas
as fórmas, na tintura dos cabellos, na collagem das barbas postiças,
em injecções e banhos geraes, reviviscencia da memoria, extirpação de
callos, ou com sardinhas fritas nos entreactos... Nunca o taberneiro se
cançava em fazer o elogio historico do fabuloso elixir.
—Lá em Torres, o lavrador é muito entendido na arte, e homem de todo
o aceio. Em apanhando os vinhos na conta champa com elles p’ra dentro
d’um tonel novo, onde está um carneiro morto com tripas já se sabe, tudo
muito bem lavado. E alli se desfaz aquelle carneiro, n’aquelle vinho, até
restarem só ossos. Deixa afinar aquillo muito bem, e sempre digo aos
senhores que fica um balsamo mais sustancial! Os freguezes engordam todos
que não sei explicar.
—Olhe cá, dizia o estudante, de que morrem as gallinhas cá na estalagem?
—Mas de faca.
—Não se me finja carrasco! Quando desenterraram esta, coiso?
—Que diz o senhor?
—Vá! Em principios do mez passado li eu no jornal o convite da familia
para o enterro.
N’estas ceias discutia-se tudo, o Oriente, as doenças de cerebro,
mulheres, quadros, aguas de Cabeço de Vide, Beethoven, os coelhos
albinos, e quem sahia visconde ou casava rico. Albano que achava a
litteratura decadente na área latina, tinha uma adoração por Balzac.
Balzac e Beethoven! E o seu olhar fuzilava e o seu coração batia. Havia
uma coisa egual a escrever a Comedia Humana, era ter composto a pastoral
e a Symphonia Heroica.
Fóra d’isto, nada. Pintava Rastignac desafiando Paris na sepultura fresca
de Goriot, e o avaro Gobseck dilatando as pupillas de tigre contra os
diamantes d’Anastacia. E essas duquezas de grande ar, dando bailes de
rainhas, lançando os amantes nos grandes cargos, enchendo Paris da sua
belleza, corroendo a sociedade com o seu espirito e phantasia, aladas,
deslumbrantes, desprezando as leis, jogando, empenhando, descendo
dos fastigios ás vergonhas, sublimes e vis como a carne em que se
insculpiam, punham na cabeça do estudante um intangivel mundo feminino, a
que elle dava as suas paixões, os seus formilhamentos e furores de homem.
Amar a femea da rua dos Fanqueiros depois d’isso, era uma profanação
de ideal. Eis porque ficaria solteiro. E se o outro gostava d’amendoas
torradas?
O Albano ia vêr Arthur todos os dias, com o seu cachimbo operario ao
canto da bocca, o livro da vespera debaixo do braço.
—Bem bom! Bem bom! Então que escandalos hoje?
—Aquelle idiota do G. que partiu uma perna.
—Ora até que afinal! respondia Albano esfregando as mãos. E como quem
fundamenta o seu odiosinho: não era senhor de lhe offerecer um calice,
que não acceitasse logo. Bem bom! Foi castigo.
Se nas sessões parlamentares algum dos Castelares que alli grassam,
vergastava em demosthenicas o ministro com grossa arruaça das galerias,
se um condiscipulo soccava outro, ou qualquer vulto da sciencia
fraquejava em conferencias, relatorios ou debates de especialidade,
um prazer inexhaurivel fazia o Albano guinchar, bater palmas, n’uma
satisfação radiosa e sincera.
E a face de Arthur refloria, parecendo a ambos que os desastres alheios
os içavam em triumpho pelo mastro interminavel da fortuna.
Estes demolidores que esguichavam facecias lugubres sobre os
immortaloides que nas saias da Academia, á sombra copada dos archivos,
encalveciam a investigar da dentuça podre da rainha Catharina e dos
bastardos de Sancho, elaborando memorias de estructura cornea; que
faziam troça nas procissões e paradas, das mumias de guerra que viam
com pompa, cavalgando ginetes e destingindo immorredoiramente ao som
dos hymnos; que bandurreavam dos bilhostres politicos, dos oradores,
dos paspalhões e obsoletas industriaes nacionaes—moviam processos
scientificos d’escarneo contra essa rotina de paiz morto, rindo a ironia
dos fortes, com ribaldarias cynicas de _triolet_. Era Albano quem fallava
quasi sempre, inundando as ceias de canôas, com vinho e projectos de
regeneração publica, decretos mirabolantes convergindo a resolver de vez,
o insoluvel problema da vida portugueza contemporanea. Cada qual se punha
então a dizer o que faria em chegando a ministro. Albano optava pela
plantação da beterraba em grande, no que havia de gastar o quarto das
receitas do Estado. E pequeninas grandes obras collateraes, por exemplo
inundar a Europa de palitos feitos á machina, seis milhões por hora; pôr
em arremate uns bancos de bacalhau por elle descobertos em Cabo Verde;
enviar uma commissão de sabios á China fazer estudos sobre o rabicho... E
sempre no fim: Olá, peixe!—Aquillo deixava o esculptor boquiaberto.
—Mas a arte, a sciencia, nada? perguntava elle timidamente.
—Quanto á arte, dizia Albano riscando a careca com a sua unha em garra,
estou que daria resultado um conservatorio de musica e choral para os
atuns do Algarve. No que respeita a sciencia, fundava em Coimbra uma
faculdade anterior ao estudo das mais, a faculdade de pensar. Como vês, é
maravilhoso, simples e facil.
—Ahi está o genio, notava Arthur.
—Ai, ai! fazia o estudante, atochando o estomago gargantuano com savel
frito. Tinha elle uma irmã lindissima, figura de parisiense, meudinha,
nervosa, penetrante, musical.
Como Arthur pelo tempo adeante necessitou procural-o, forçoso foi dar-lhe
a morada e franquear-lhe a porta. A casa era pobre, terceiro andar para
mãe e filha, com sotão para o bohemio dormir. Arthur começou a gostar da
pequenita, a vir mais vezes, a olhar para ella de certo modo.
Depois um nome delicioso—Judith! E o esculptor pensava já muito
sériamente n’uma estatua de Holofernes, que tivesse a sua propria cabeça.
* * * * *
Um grande alto-relevo que esculpiu para não sei que fachada, trouxe-lhe
renome, por alguns dias exposto. Obra excellentemente lançada, esse
alto-relevo d’assumpto biblico, com figuras vaporisadas em attitudes
d’uma belleza piedosa e serena, e cabeças do mais fino toque. Essa
magnifica pagina de marmore, guardava o symbolismo ingenuo e a bondade
lyrica, que impressionam a indole sentimental de todo o bom portuguez.
Havia n’ella perfis de medalha, roupas que se collavam respirando, pés e
mãos de irreprehensivel trabalho, e o ar antigo que vem da leitura dos
prophetas. Os jornaes fallaram da obra, quasi toda a gente foi vêl-a, e o
_Occidente_ mesmo deu gravuras, o que lançou o esculptor. Por esse tempo
vinha elle para visinho de Albano, tendo alugado um rez-do-chão de que
fez _atelier_ e residencia. A casa tinha no fundo uns metros de quintal,
recinto ensombrado de grandes arvores e todo chilreante de pardalada.
Com o terreno inclinado, desfrutavam-se em chusmas lá longe, perspectivas
de cidade que rebenta de escombros, campos d’arrabalde, quintalorios
onde latadas tufavam, terrenos de pão, hortas retalhadas pelos trabalhos
da avenida nova, predios em ruina, casas perdidas em jardins, montões
d’entulho, bandeirolas, e na linha do horisonte as torrellas côr de óca
da Penitenciaria com cimos de ardozia em pyramide.
Debaixo das arvores, o esculptor installára a secção de chinquilho e
_cricket_ dos seus ocios artisticos, com succursal de trapesio e barras
fixas, da gymnastica que se impunha todas as manhãs, ao levantar. Davam
para alli as janellas dos predios proximos, e n’uma que Arthur vigiava,
vinha assomar curiosa e risonha muitas vezes, a cabecinha loira de
Judith. Adoravel essa cabecinha de craneo pequeno e testa pura, com
a sua face magrinha e pallida, bocca em coração, queixo petulante, e
um modo de rir com flechas d’aurora nos beiços, de timbrar a palavra
em gorgeios, e fazer cauda de _x x x_ aos pluraes—_ox olhox_, _ox
cabellox_, _já sabemox_... que encantavam a perder o rude trabalhador de
blocos. Qualquer mulher artificiosa de educação e _toilette_, tel-o-hia
fatigado ou ferido mediocremente. Esse perscrutador brutal, acostumado
ao estudo das linhas, dos gestos, das expressões physionomicas, todas
as mimicas que a estatuaria fixa e modela, tinha o odio dos artificios,
dos ares de palco que a vida das cidades imprime aos individuos, e as
mulheres exageram cuidando n’elles irradiar toda a belleza. Nascida em
orphandade e pobreza, provinciana no coração da cidade, vivendo com a
mãe sem relações, entregue ao trabalho caseiro e ao seu piano de estudo,
Judith conservava uma frescura cheia de individualidade, ligeirezas
d’alveloa a sessenta volteios por minuto, e uma graça bravia de corça,
que vinham antes da sua harmonia physica e da sua belleza innocente,
que d’uma educação prodigalisada com mais esmero. Arthur gostava d’ella
como um velho póde gostar d’uma creança, pela figura franzina, pela
alegria casta, e essa innocencia relampagueante dos olhos, viva, curiosa,
agitadiça, sem falsos pudores de palpebras descidas ou perturbadas,
que n’outra seria petulancia, e era n’ella excesso de virgindade, de
creancice e pureza d’alma.
Vestida de claro, percale rosa, qualquer cassa branca franzindo até cima
no peito com severidades de virgem huguenote, o corpete esvasando no
desenho arabe d’um vaso, mãos luminosas, estreitas, setineas, sahindo dos
punhos de renda em brancuras de magnolia, era deliciosa indo e vindo, dos
seus bicos de lacre para o piano, do piano para a janella, da janella ao
bastidor, do bastidor para a cozinha. E Arthur vendo-a buliçosa, n’um
formilhamento de sêr nubente e delicado, com paraisos de neve na carne,
toda impaciencias contidas, ondulações de quem está crescendo, gritinhos,
risadinhas, começos d’árias e dolencias de larynge, tinha vontade de lhe
estender o braço como um ramo d’arvore, para ella vir pousar debicando o
seu _corsage_ de madona, no _pri-pi-pi_ matinal das andorinhas na cimalha
dos campanarios. O que sobretudo elle adorava nas suas volatilisações
d’artista, eram as attitudes de Judith, d’uma tão inconsciente nobreza,
pura arte e graciosa factura, que o attrahiam, que o dominavam, enchendo
d’egoismos essa contemplação muda de esculptor. Por exemplo, como ella
sabia depois d’uma sonata, ficar apoiada no piano por tres dedos apenas,
sem peso, sem esforço, o busto um quasi nada para traz. A sua figura
tinha assim uma distincção de _miss_, doirada pelos olhos de loira, cujas
fibrilhas claras torvelinhavam com labyrinthos de hydras, nas aguas de
uma fonte.
D’entre os hombros sahia-lhe a garganta alta, vergando como haste de
flôr rara; o labio de cima tinha ao centro uma gotta de coral deliciosa,
que se desfazia no riso, e voltava a tremer, toda pendente, nas horas
contrafeitas; e nenhum prazer maior que vêl-a de perfil em fundos
violentos, com o seu moderno typo de cidade, exquisito e fino. Tinha a
edade em que a mulher está ainda sem sexo e todavia não é já uma creança,
fins de infancia em começos de adolescencia, o que ha de mais mimoso
na vida feminina, desejos que a admirem e esquecimentos logo d’essa
pequenina vaidade, rubores d’uma palavra mais alta, d’um riso largo,
rubores por coisa nenhuma. E uma encantadora desordem interior, de
ideias, sensações, gostos, e prazeres virginaes! Ditos sem intuito um mez
antes, modos de a olharem na rua, qualquer insignificancia quotidiana,
alarmavam-lhe agora o natural assustadiço.