—Tinha apparecido em Lisboa ia em quatro annos, montado n’um cavallo

inglez e seguido d’um creado de farda e calção d’anta. Depois do cavallo,

deitára carro; vendera o carro um dia, e disparou dois tiros n’uma casa

de jogo. Pouco mais ou menos, percebes a coisa? Em seguida—o Alvares não

se lembrava bem—bordoadas no Marrare, um entrudo; em resumo appareceu de

condessa. Agora sério, trata de vendel-a por ahi, como vendeu o carro. E

ella, uma real zorra, filho!...

Rebolava os olhos por traz dos oculos fixos, e com certo suspiro canalha,

profundo e vicioso:

—Derrete-se a gente todo, só de pensar n’isso. Que fará... percebes a

coisa?—E abalou muito atarefado, limpando o suor do cachaço apopletico.

Demoravam-se os frios em chegar, dias lindos, o mar um delicioso lago. No

club, walsavam a toda a hora. Sob toldos e decorações, havia festas de

côrte na esplanada; uns navios de guerra ancorados na bahia, simulavam

defronte, no escuro das noites, bombardeamentos em regra, a fogos de

bengala—e toda a gente se divertia, gabando o serviço da marinha nacional.

E todos os dias regatas, cavalhadas, o tiro constitucional ás gaivotas,

um bazar de creches, o demonio! Nos primeiros logares, o conde e a

condessa, ajoujados, os melhores amigos do mundo, appareciam aos

commentarios da multidão—ella em _pompadour_ de sêda crua, bonnézito á

banda envolto n’uma gaze ligeira; elle premindo na orbita petulantemente

o monoculo, e impertigando o seu estomago alto de mundano. Faziam-se

loucuras em volta d’essa mulher disputada, conhecedora do que valia, e

pondo ao serviço do seu temperamento frio, as maneiras distinctas d’uma

senhora de raça. Era d’estas _cocottes_ severissimas em publico, artistas

por intuição, com predilecções requintadas e nervos irritantes, amando a

conversa, sabendo rir, excitando e fingindo não dar por isso. Nos seus

beiços havia um reflorir de romeira brava, humido e vivo, contrastando

com a pallidez mate das feições ovaes, e um _tic_ voluptuoso de narinas,

que no riso lhe bordava _scherzos_ de aristocratica finura.

Chegaram a apresentar-me o conde, que se convidou a jantar comigo n’esse

dia, e me pediu para lhe trocar não sei quantas notas de ouro.

De resto adoravel, sua pontinha de obscenidade temperada em cynismos

elegantes. Fallámos em rapaziadas, amores faceis, predilecções de vicios,

as regiões da femea que mais nos agradavam. Elle bebia excellentemente,

e a cada passo fazia revelações libertinas, de rapaz solteiro. Derivámos

d’ahi na hieraldica, quanto era distincto ter brazão na carruagem, um

ou dois castellos nas sierras, pomares em Andaluzia, e descender de

wisigothicos monarchas. E a paginas tantas, perguntei que opiniões

politicas tinha elle. Encolheu os hombros, gostava de reis, e de rainhas

ainda mais. Nada como as côrtes historicas, para a fermentação do luxo

artistico e do amor como prazer de gente fina. As monarchias não serviam

sómente, segundo pensava, para tornar os Estados felizes, mas a requintar

o gosto, fornecer ás artes assumptos nobres, e apurar a belleza patricia

das mulheres.

E virando-se para o creado:

—Eh, passa-me essas ervilhas da decadencia.

Bebia sem conta, copos sobre copos, batendo murros na mesa. Perguntou de

repente:

—Não haverá ahi com quem se walse?

—As senhoras estão todas no club, respondi eu.

Elle considerando a amphora de Estremoz cheia d’agua, que gottejava toda

pelos poros:

—São um poucochinho como os vasos rachados, as damas, fez notar. Muito

indiscretas pelas fendas.

Então cantarolando, bateu-me palmadas nos hombros, puxou fogo a um

charuto, e pouco mais de bebedo, erguendo-se, disse-me assim;

—Não adivinha o que vou fazer agora?

Confessei que não adivinhava.

Elle ajuntou:

—Trahir o amante de minha mulher, que diabo!... É a missão social dos

maridos.

—Oh, disse eu rindo, encantador!

* * * * *

Mas fui atraz d’elle rangendo os dentes de raiva, ganindo como um cão

esfaimado, ganas de lhe encher a cara de bofetadas, de o arrastar pelos

cabellos na immundicia das regueiras, de o deixar morto á pancada para

alli vilmente, como a sua torpeza merecia. Esta intenção exaltava-me

perante ella talvez—e o meu desejo crescia em tumulto com ideias

aventureiras, fugir com ella, tel-a comigo noite e dia, chupar-lhe o

sangue por uma punhalada, ou rolar agonisante de amor nos seus braços,

entre os cachões de uma torrente. O vinho exagerava-me tudo, a fórma das

casas, a buracaria das janellas, os rumores do mar, os echos da rua, e os

sons dos pianos.

Lá ao deante seguia elle a cambalear, cantarolando, e a sombra esguia do

seu corpo era como um reptil enorme que ondula, escorregando sem ruido.

Umas poucas de vezes, perdida a cabeça, desatei a correr atraz d’elle,

chave do bahu na mão, para lhe esmurrar as ventas. E de repente parava,

que era isto, que tinha eu com elles?... Rasgava-me o peito a certeza

de que os dois iam dormir, beijar-se, trocar juras, fazer promessas e

escarnecer de mim talvez, inda por cima. E como se ella fosse minha,

um ciume feroz golfava amarguras dentro de mim, bramindo vinganças

desordenadas. Afinal dobrou a rua, não o vi mais. Começou então um

desespero surdo, pela absoluta impotencia da desforra. Onde tinha elle

entrado, quaes as janellas do seu quarto, como surprehendel-os, fazer

escandalo, chamar-lhe a ella nomes infames?

A rua voltava bruscamente, havia uma rotundidade de largo, á esquerda

a fachada de uma igreja, depois ruellas tortas convergindo. E eu ia e

vinha escutando os passos, que ora soavam n’uma rua, ora na opposta, ora

morriam, ora pareciam ir-se aproximando. E a sombra que oscillava cosida

com as casas, uma vez se me afigurava á direita, outra á esquerda, e

assim.

Então precipitava-me contra ella, suando em bica, cabellos ao vento,

gravata ao lado—dava com um escuro de portal, sombras de arvores, algum

cão vagabundo roendo lixos. Um pescador que passava abalroou comigo,

dei-lhe um encontrão furibundo, quiz agarral-o tomando-o pelo outro.

—Desculpe, desculpe.

E corrido, atordoado, comecei a andar de cabeça baixa. Havia baile no

club. Que tinha isso?

Era fechar os olhos, via-a dentro de mim côr de fogo, côr de rosa, de

todas as côres. E cabellos turbulentos nas espaduas, pés nús, braços nús,

hombros nús, seios nús, toda ella núa.

Essa nudez, eloquencia victoriosa da carne, fulminava-me,

imbecilisava-me, fazia-me calafrios pela medulla abaixo. Nunca vira

bocca mais vermelha, nem dentes mais lascivos, nem expansão de ventre

mais deshonesta e divina. A tentação do asceta lendario evocada entre

privações, nas febres nervosas da loucura, não tinha concentração

mais calida, que o delirio em que eu fervia! E pela côr da sua face e

das mãos, pela esculptura dos hombros, dedos afilados e cabellinhos

espiralando no tom fulvo da nuca, eu reconstruia esse corpo de um

jacto—seria alta, cinta elastica, uma expansão de tulipa invertida, dos

quadris aos joelhos, rotulas macias, redondinhas, côr de rosa esvaído,

e tornozêlos finos, um pé estreito e alto... Então sacudiria a camisa,

friorenta, atirando os cabellos para as costas n’um geito colombino de

cabeça—e sobre uma pelle de urso branco, ante o espelho cingido em lilaz

e rosas pallidas, de Sèvres, sorriria namorando a propria belleza o pondo

riz nos hombros, de mão na cintura, como as bellas estatuas delphicas.

Passos na escada, empurravam a porta da alcova, apparecia um homem aos

tombos, chapeu para a nuca.

—_Buenas noches!_

E ahi despertava eu de novo, e me punha a correr pelas ruas, atraz do

primeiro homem que via, e á cata da primeira janella alumiada, qualquer

porta aberta, do menor rumor que despertasse os echos.

Umas poucas de horas andei n’essa vagabundagem furiosa, tropeçando,

fallando alto, querendo investir com tudo. Mas a fadiga vencia-me,

tinha os cabellos empastados de suor, vinha-me embriagando uma tristeza

estupida, desopilante e brutal. Então sentindo ar fresco, penetrado dos

cheiros acres do mar, ergui a cabeça para vêr á roda.

Estava na praia, deante das janellas do morgado, ainda alumiadas áquella

hora da noite.

Subi as escadas a correr, dei com elle em mangas de camisa, cabeça

amarrada n’um lenço da India, chinelos de mouro, um arquejar de soluços.

—Que é, velhote? disse eu surprehendido de o vêr afflicto. Alguma coisa

de cuidado, más noticias?...

Elle rompeu a chorar, agarrado a mim n’um desalento profundo.

—Não sei do pequeno, desde esta manhã que o meu filho desappareceu.

—Descance, não ha perigo. Perdeu-se, procura-se. Está ahi a brincar

n’alguma casa, com petizes da sua idade. Naturalissimo! Quando o largou o

amigo?

Referiu atabalhoadamente que tinha ido ao banho muito cedo, mais gente

na praia que o costume, uma algazarra do inferno, senhoras e homens em

confusão. Foi a fallar com um amigo, largou a mão da creança quando ia

por entre os grupos—o caso foi que o não viu mais.

Inda andou a procurar por todos os cantos, expediu banheiros pela praia

fóra, foi perguntando a uns e outros se o tinham visto, correu á policia,

ninguem soube dar-lhe razão de tal creatura.

Passeava desesperado pelo quarto, com suspiros oppressos, um peso no

peito, forjando destinos tragicos do pequenito—podiam tel-o roubado os

barqueiros, talvez morresse afogado, alguem lhe queria mal.

—Quem ha de querer-lhe aqui mal, homem de Deus? Nem o conhecem, descance.

Foi passar o dia a uma quinta, é o que foi. Familia que o levou, creanças

que o tomaram para amigo, e o não deixaram vir. Qualquer coisa natural,

emfim. Ámanhã vem trazer-lh’o a casa. Succede todos os dias!

Mas elle não attendia, torcendo as duas mãos cruzadas, indo furiosamente

de um lado para outro com o ar hirsuto d’um lobo, e gestos phreneticos

de quem debate algum problema interior.

—Eu morro, morro sem o meu filho!... dizia com o olhar extincto, parando

bruscamente na casa—E como eu o abraçava compungido de o vêr penar assim,

forçando-o a que descançasse no sophá, pretendendo distrahil-o com

palestras de acaso, sobre a praia, as boas mulheres abandonadas no banho,

noticias de jornaes, preços de gado ou qualquer coisa—de olhos no chão,

elle remordia febrilmente o beiço, e em estribilho fazia de quando em

quando:

—Valha-me Deus! Tive uma cruz bem pesada!

Eu fingia não ouvir os seus lamentos, e ia contando a scena do conde, o

seu cynismo de bebedo, e dos meus appetites sobre a bella condessa da

sombrinha japoneza. Que mulher, amigo morgado, que magnifica mulher! Uma

cantharida! E livre do vinho abria-me com elle, tinha andado atraz do

marido havia pouco, perdera-me d’elle sem saber, e que ciumes no meio da

noite negra! Relembrando o talhe opulento d’essa mulher, a pallidez real

da sua face, meneios estouvados, elegancia da cinta e dentes frescos,

outra vez sentia renascer-me o phrenesi voluptuoso; insensivelmente a

minha voz cahia, dizendo coisas libertinas ao ouvido do morgado. E a cada

passo consultava-o:

—Vossê não acha? Eu cá fazia isto e aquillo, e vossê, morgado?...

Quando porem o pensava interessado no que eu dizia, esquecido do pequeno,

e em repouso da aspera tormenta intima que havia tanto o minava, eil-o a

chorar outra vez, um chôro amarissimo e fundo, que mettia dó. E da sua

cabeça resignada, cahiam falripas algentes, n’uma aureola veneravel.

—Vê-se que é o filho unico, dizia-lhe eu contemplando-o. Tivesse o amigo

outro, já não seria tão susceptivel. Mas admiravel, morgado! Imagine

que é tudo atraz d’ella. Dizem-me até que um da familia real lhe fez

propostas de archi-millionario. Aqui sabe-se tudo. Mas console-se, seja

homem, aqui tem cigarros, distráia-se...

Que diabo, já se não roubam creanças para oleo! Estamos em paiz culto,

e n’uma pequena terra onde fallamos todos. Póde tranquillisar-se,

afianço-lh’o.

—E essa mulher, esse diabo, disse elle de repente, com uma especie de

angustia, é esposa d’esse homem, talvez?

—Ah, bom maganão; já toma calor! De resto, uma _cocotte_.

Mas esplendida, não imagina!

Esteve a olhar para mim, e furioso, como fallando para dentro de si

proprio:

—Horas em que tenho mesmo vontade de arrebentar p’ra ahi!...—E n’um rir

patibular que o transtornava: então é mesmo boa? Isto é lá vida, nem o

inferno!

Eu encarava-o já surprehendido,—e as lagrimas cahiam-lhe pelas barbas,

tocavam-se de luz um momento, e vinham rolando algumas pelo peitilho,

grossas e limpidas. Como encostava a cabeça á mão, vi-lhe na origem do

annular uma alliança fina, muito apertada, brilhando a espaços sob a

rosca carnuda do dedo. E aquillo recordou-me a esposa d’elle, morta,

viva, sei lá!...

—Meu amigo, disse eu impudentemente, o seu caso é triste, adivinho-o. Mas

tenha animo!

Vi-o pôr-se de pé subitamente, arquejante, moido do esforço, quasi sem me

poder fallar. Mas alguem vinha na escada fallando devagarinho, uma voz

disse muitas vezes:

—Pae! Pae!

—Ora ahi tem o Luizito. Não lhe dizia, piegas?

Veio abraçar-me pelas costas, quasi risonho, esquecido do mais, furioso

por abrir a porta, e enxugando lagrimas á pressa. Agarrei no candieiro

para alumiar, e elle como estava, de chinelos, em mangas de camisa,

poz-se a descer a escada ingreme, frouxamente esclarecida de cima para

mim.

O pequeno subia custosamente, carregado de bonito e bolos.

—Olhe, dizia com vozita espapada, um cavallo tão bonito! E estes soldados

Espere ahi! E uma caixa de musica, toque lá, ande.

Sem responder, o velho estacára de braços cahidos, cachaço sem

collarinho, os ignobeis chinelos mettidos nos pézorros de camponio,

mangas arregaçadas como um taberneiro. Olhava á porta da escada um

vulto de mulher embuçado n’uma _sortie-de-bal_, alto, fino e flexivel

de _silhouette_, derrubando sobre a frente o capuz da cobertura,

excentricamente talhada em dominó, de cujo bico cahia, sobre damasco e

rendas, um laço de pontas fluctuantes.

Apenas appareci com a luz, a mulher recuára para a rua, e no meio da

escada, irresoluto e tremulo, com um meio ar idiota, o morgado olhava

para mim, para o pequeno, e para tudo, sem saber o que fazia.

—Sobe, filho, sobe...

Veio atraz da creança de cabeça baixa, pisando os degraus com dificuldade

e todo pallido da apparição. Entrou a vestir á pressa o collete, pôz

collarinho e gravata, calçou as botas dando gemidos dos callos magoados.

E deante do espelho, coisa rara! olhava-se, mirava-se todo, passando n’um

geito febril pelos cabellos e barba, o pente de vulcanite.

E tremulo, tacteando as coisas, dizendo:

—Já venho, o senhor desculpe, eu venho n’um instantinho,

desculpe...—Chegou á escada amparado nos moveis, fechou a porta

cuidadosamente, e sem phosphoros, desceu a cambalear.

Ouvi o portão de baixo cahir, atirado com estrondo, vozes que se

afastavam cautelosas... E fiquei a sós com o pequenito. Então vieram-me á

lembrança as vacillações do morgado n’aquella viagem para Lisboa, quando

nos tinhamos visto pela primeira vez, o rigoroso lucto guardado por elle

em tres annos, a sua indole fugidia, a submissão que a todos mostrava, a

sua vergonha entre as mulheres, e do que a lingua do Alvares insinuára.

E ligando aquelles dados ao pequenino annel que lhe vira no dedo, á

graciosa _silhouette_ da dama embuçada, e singulares desalentos em que

o via mergulhar, adivinhei a coisa toda. Nada mais simples! E para o

patetinha que em silencio tasquinhava _bon-bons_:

—Então Luizito, grande passeio hoje?

Elle disse que sim com a cabeça.

—Gostas d’aquella senhora, gostas?

Mesma resposta.

—É a tia. Como se chama?

—É mamã, mamã, disse elle vivamente.

—É verdade, mamã. Não a vias ha muito tempo, hein?

—Não a via, repetiu elle, e a testinha comprimida, fugindo para traz, sem

esphericidade e sem bossas, fazia sahir aguçado o focinhito de bruto,

meudinho e pallido, com os buracos das ventas ranhosas, esmagadas a

murro, e a bocca fria, inexpressiva e inerte, que tinha a brevidade d’um

golpe.

D’alli a uma hora appareceu o morgado.

—Saiba o senhor que abalo ámanhã, exclamou elle com modos sacudidos, um

tremor nas mãos. E em ar de explicação: Vou viver de todo nos mattos.

Outro socego nas herdades! Queres, hein, Luiz?

Agarrei no chapeu para sahir, e apertando-o nos braços:

—Se precisar de mim escreva, adeus.

Elle abraçou-me convulsivamente, com angustia.

—E ahi está para que um homem é honrado sessenta annos! Olhe, palavra

de honra. Queria antes que o senhor não soubesse. Perdão. É a minha

vergonha! Não quiz crêr...

—É desgraça, vergonha não, disse eu gravemente. Que culpa póde ter o

senhor d’essa...

O velho apontou-me o camisote de lucto, e duramente, em resposta:

—Que morreu, faz tres annos! Ai! o que eu tenho soffrido, o que eu tenho

passado em quatro annos para cá!... Caramba, não esmigalho a cabeça por

olhar á creança. Quem cuidaria d’ella n’este mundo, desinteressadamente?

Diz que o dinheiro dá tudo; mentira! Talvez elle me roubasse a mulher.

E não haver leis para degolar as adulteras, que deixam os maridos, os

filhos, e debandam por esse mundo com miseraveis aventureiros! Ai,

nenhuma foi mais amada que a minha, todas as vontadinhas, todas as

creancices, todos os caprichos, até vinha doce de Lisboa em condeças,

aos sabbados de tarde. Pois enganava-me, para se vingar do amor que eu

lhe tinha! Vestidos todos os dias a chegarem, um _rôr_ de libras só em

musicas: e quando foi da exposição em Paris, e jornadas a Hespanha, mezes

inteiros por Lisboa, os verões nas melhores praias de banhos... E eu

sempre com uma boa vontade, uns cuidados, menina isto, menina aquillo,

e a perder noites no theatro, a ir com ella ás regatas, a arriscar-me

no mar, capaz de se virar o barco... Gostava d’ella, então, nunca se viu

alguem gostar d’uma mulher? Que sou um rustico bem o sei, filho d’um

triste creado, um reles homem de trabalho; ninguem me deu principios,

não tinha obrigação de adivinhar certas delicadezas. Mas ella podia bem

esperar que eu fechasse os olhos; para a não estorvar, até acharia meio

de morrer mais cedo. Uma esmola que fazia. Pois nem isso, infeliz de

mim! E inda aquillo vem reclamar o pequeno, que é muito meu! Pago-lhe as

lettras, pago tudo, esse traste que descance. Mas o meu filho, nunca!

Capaz de m’o envenenar, aquella perdida!

Tirar dos seus habitos um pobre velho; e ao cabo, fica-te para ahi

deshonrado, sem ter quem te dê caldos na doença, e quem te reze na

agonia. Pois foi o velho que a tirou da miseria, e da filha d’um reles

almoxarife fez uma senhora. Inda essa mulher se gaba de ter sangue

real nas veias. A mãe era _gansa_ de principe, não admira que a filha

sahisse o que sahiu. O senhor não faz ideia dos meus tormentos, não faz!

Basta dizer que apenas dormimos uma semana. E para nunca mais.—Tenho

vertigens, está uma calma, e desculpas, desculpas, entrou a explorar-me,

hoje tanto, ámanhã tanto, desprezos, más respostas, um ar de escarneo; e

um dia, vou pedir-lhe perdão de joelhos, e expulsou-me, dizendo que eu

era um labrego indigno d’ella, e que havia de fugir com o primeiro. Eu

tinha já desconfianças horriveis; o senhor perdoe-me, é desafogo—mas

uma noite acordo de repente e senti beijos. Desde essa hora foram-me a

embranquecer os cabellos, de noites que passava a chorar, a passear na

casa como doido, a morder a roupa para ninguem ouvir os gritos. Era um

ciume, uma febre, uma raiva de a morder toda, de a arranhar no peito,

de lhe puxar pelos cabellos, veja o senhor—mas que? se eu tinha dó de

a magoar, pobresinha, que ahi anda agora sem ter quem na aconselhe,

creança como é, ainda por cima maltratada de todos. Capazes são elles de

lhe bater; que ha taes canalhas n’esse mundo!... Ai! um dia foram-se-me

as duvidas, desgraçadamente vi. Expulsei-a, acabou-se; não sei como,

expulsei-a! A gente perde a cabeça, tem momentos de não saber o que faz.

Hoje, era differente. Emfim! Foi como se tivesse morrido. Até deitamos

lucto, veja o senhor. Pois assim mesmo me explora. Sou-lhe preciso

sempre, vem sollicitar o meu auxilio sem pejo, saca sobre o meu nome a

quantia que quer, o Vianna tem ordem... E nem ao menos, muito obrigado. A

perdição faz as mulheres crueis e sofregas. Tanto que fiz por evitar esta

desgraça, tanto! Perdoava-lhe a primeira, seria com ella um pai, como

d’antes.

Mas vicios, tenha paciencia, santa paciencia, em minha casa não!

Não! não! não! Antes degredado, antes cahir por esses barrancos bolindo

de bichos, antes a morte sem sacramentos. Adeus, disse elle, pondo sobre

mim os seus olhos supplicantes; não me despreze, não me queira mal,

no fundo todos somos uns podres, mas vem-me um phrenesi por ella ainda

hoje, ainda agora, sentil-o-hei toda a minha vida. É uma cegueira, é um

castigo, é um destino, de noite levanto-me como doido, vejo-a em toda

a parte, onde quer que vá, e por mais que faça para a esquecer. Fez

saltar a tampa do cofre hispano-arabe, tartaruga e oiro, onde estava uma

photographia sobre esmalte indestructivel. E n’uma especie de allucinação

arquejante, de furia nervosa, ficou a olhar longamente o retrato, como

se o visse brotar do medalhão, e pouco a pouco ir avultando, tornar-se

palpavel... Fallava-lhe com palavras doces, como a uma creança, em voz

baixa, cobrindo a figura de beijos, o olhar flambando d’amor.

—Que linda! Mesmo santa!—E n’um choro afflictivo, gaguejando: podias vir,

vês tu, eu tinha lá coragem de te mandar embora! E assim, nunca mais,

nunca mais!

Instinctivamente então, commovido por aquelle phrenetico amor de

septuagenario, que o absorvia, tão grutesco de feitio, tão vil de

expansão, cheguei-me ao cofre para vêr. Pobre velho ludibriado, assim

bom de maneiras, com delicadezas de instincto a espaços rompendo da rude

casca exterior! pensava eu... e n’isto dei um solavanco inesperado,

reconhecendo a anonyma condessa da sombrinha japonesa, successo da praia

na estação que ia, cocagna de toda essa mocidade roida e palaciana que

dandynava fazendo cæcum á corte em villegiatura, raro e fino animal

que o hespanhol andava mostrando, apreçando, explorando, offerecendo

cynicamente, interesseiramente, como n’um bazar asiatico d’escravas. No

espanto em que ficára, nem achei uma boa palavra que dizer ao morgado.

Que? Era então a condessa, aquelle impudor de raça, aquelle alegre

vicio vestido nos _magasins du Louvre_, cheio de attitudes Robida, com

elasticidades de cobra cascavel, tão provocadora a fumar nas frescas

manhãs de praia, entre as risonhas banalidades da alta gomma, assim

descaradamente distincta, fina, e espirituosa como uma parisiense de

Duez; era então ella a esposa de similhante alarve? Que _gaucherie_ de

debute, realmente! E vinha-me o escarneo de tão desprezivel origem. Uma

morgada da provincia, com creações de coelhos e magustos de bolota ás

chaminés da herdade... Singular, como ellas cursam de repente a alta

escola do _quartier Breda_, com uma canalhice tão chic, e sem largar o

palminho de terra parvoneza. Vão lá descobrir n’esse _sourire chapeau

rose_, um laivo sequer do gaspacho trastagano, vão! Francamente bom

homem, ia mentalmente confessando para mim, ao considerar na obesidade

amorosa do morgado—se fosse outra, condemnava-a por haver atraiçoado essa

tua molle bondade de porco gordo. És uma bella pessoa, sem offender quem

está. Todavia, eternisando comtigo a lua de mel dos bem casados, aqui

para nós, a condessa ficava d’um grutesco... Ha coisas, tu comprehendes,

que uma mulher de gosto não póde fazer sem compromettimento. Imagina tu,

que ella entrava a nutrir matrimonialmente em parallelo comtigo, conforme

é uso nos _ménages_ patriarchaes do teu districto. Diabo, diabo! Era

obsceno n’uma senhora.

A cidade do vicio · 第 8 / 17 段