As _ladies_ de tez purissima e olhos de saphira córavam, de pensar na

renovação do requinte. Republicanos moderados, jacobinos de meia força

ou vermelhos puros, berravam em conclaves secretos contra a devassidão

e embrutecimento das realezas e aristocracias, jurando que a Convenção

Franceza e a Usurpação de Cromwell tinham sido providenciaes, no extirpar

de collectividades que se esforçavam em trazer a humanidade aos habitos

de locomoção dos verdadeiros brutos.

Novos discursos, novas sessões, novos duellos e novas brochuras. Do

gabinete inglez radiou uma nota ás potencias, pedindo confrontações e

parallelos minuciosos de costumes, no cyclo historico proposto.

A França declarou entre risos, que Luiz XVI era um primate da melhor

especie, e só das mãos fizera uso para assignar decretos que não lia,

levar á bocca magnificas pastilhas de chocholate, ou pedir clemencia

n’uma attitude de poltrão, em todo o seu doloroso captiveiro.

Italia e Hespanha viram no problema uma differença de raças, e encolheram

desdenhosamente os hombros, orgulhosas do seu berço latino. A Allemanha

pôz-se a meditar. E só Portugal n’um impulso de sympathia pela _fiel

alliada_, respondeu que desde Ourique, sendo vivos Tareja e o gallego

Transtamara seu amante, era uso separar-se a nobreza do povo, invertendo

aquella os locomotores, e pondo-se deredor dos principes, de cabeça para

a terra e pés para o firmamento, nos grandes saraus e recepções.

Inda sobre a questão pesaram annos, que ao mesmo tempo faziam curvar para

a terra a espinha dorsal e a cabeça branca do lord de Clifton.

O duque não tinha descendentes directos. Era um velho austero e

secco, solitario no seu ducado e possuidor da melhor fortuna rural da

Gran-Bretanha.

Tinha uma governante velha que muito amava, e fôra ama da loira

Ellen,—futura duquesa, se um garrotilho a não estrangula aos dezeseis,

pobre bichaninha gata! Repetidas vezes o governo propuzera ao duque por

sommas fabulosas, a venda da peça de roupa de Carlos Stuart. A rainha

escrevera-lhe do seu punho uma longa carta de familiaridade affectuosa,

sobre a reliquia de familia que seria crime deixar fóra dos archivos do

paiz, perdida talvez nas mãos dos collecionadores particulares, e nos

_bric-à-brac_ dos estrangeiros maniacos. Mas Clifton recusára todas as

propostas, allegando que o despojo era penhor de familia, a que andavam

ligadas grandes recordações e legendas.

Sentindo-se alfim pender para o tumulo e já de oitenta e tantos, lord

Clifton fez saber ao governo em certa manhã de gotta tenaz que a camisa,

ceroulas ou quer que fosse, entrariam no _South Kensington Museum_ no

proprio dia em que elle, lord Clifton, fechasse os olhos ao mundo, para

no craneiro do castello habitar o seu sarcophago de lapis-lazzuli,

que dez leopardos sustentavam e dezenas de escudos revestiam. A nobre

intenção do lord commoveu a orgulhosa e grande Inglaterra. Todos os clubs

revotaram homenagens ao benemerito, o parlamento e a rainha encheram-no

de honras, e por seu turno o povo fez-lhe ovações formidaveis, sob as

janellas do palacio.

E d’alli por deante, a ideia de todos era:

—Quando cerrará para sempre os olhos esse bom lord duque de Clifton?

No salão de honra de _Kensington_, o director tinha já marcado logar á

reliquia inestimavel, ao fundo da peça, sobre um estrado gothico, entre

as estatuas exhumadas no Peloponeso e bandeiras tomadas aos francezes nas

grandes batalhas do Imperio.

E uma tarde de inverno, os jornaes noticiaram a morte do lord.

Emquanto todas as classes sociaes vinham, luctuosas e graves, desfilar no

enterro, uma deputação de sabios presidida pelo principe de Galles, subia

as escadarias do solar para conduzir ao Museu a offerta do duque morto.

Ah, pobre gente!...

Desapparecera do estojo a peça de roupa de Carlos Stuart, camisa,

ceroulas ou quer que fosse, que a governante, aceada mulher do paiz dos

_highlands_, vendo para alli o lastimavel farrapo, atirára honestamente

com elle á barrela da lavadeira!

O MORGADO

Na Casa Branca, quando o trem parou, despertei ao ruido da portinhola que

se abria, e entrou um homem com uma creança de lucto.

—Tenha o senhor boas noites! disse elle, erguendo o chapeirão desabado.

E desembaraçando-se da capa hespanhola, bandada de roxo, com alamares

de corrente, poz-se a empurrar para baixo do banco a mala de tapete que

trouxera. Gordo de mais talvez, barriga importante onde um grilhão de

oiro escorria, ar compostamente sereno, barba toda. Depois de se sentar

resfolegou do esforço que fizera a empurrar a mala, ergueu a gola do

gabão ao pequenito, dizendo-lhe se tinha frio, se tinha somno, ou se

tinha fome—não me lembro já. A creança estava para um canto, e de dentro

do gabão pardo, os seus grandes olhos tristes erravam curiosamente por

mim, pensativos e humidos.

O homem correu-lhe a enorme mão pela carita fina, com uma ternura

bondosa, e voltado para mim sorria-se, como a pedir desculpa de ser tão

expansivo.

—É seu filho, hein? disse eu.

—Saberá que sim, tornou elle.

—Filho unico, talvez?

—Não tenho mais, infelizmente.

—É novito ainda.

—A fazer oito, pelo S. Miguel.

—Então padece?

Pareceu surprehendido do que eu dissera. Padece, o filho d’elle? Nunca

tomára remedio de botica, nem soffrera de molestia. Em todas as creanças,

os dentes põem abalo a romper, como o senhor sabe. Pois n’este vieram,

sem _ai_ nem _ui_! Padece, qual!...

Via-se um orgulho de progenitor n’essa maneira de dizer, distillando

idolatria sobre a pequenina larva enroscada ao canto da carruagem,

branca, magra, feita d’esse tecido molle que é senilidade na infancia, e

faz de ordinario os filhos dos velhos ou dos debochados.

Era verão, viajavamos de noite.

Tudo negro ao largo. Apenas de longe em longe, ardiam moutas em plena

charneca, com labareda que ás fumaradas davam tons rhembrandtescos e

baços. Nas ribanceiras da via, conforme se iam complicando os declives

do terreno e os amontoados do arvoredo e do matto, as lanternas do trem

alumiavam de imprevisto estranhas fórmas com todos os aspectos, troncos

hirtos, cannaviaes em borborinho, grandes pinheiros abrindo parasol,

estevas ondulando pelas escarpas da rocha a pique, e a terra esboroada

verberando os calores accumulados durante o dia. De passagem pelo areal,

poeiradas finas enchiam os ares, enfiando pelas janellas e cahindo ao

de manso no fato. E continuamente, como aldraba gigantesca soando por

um vasto corredor, o _trac-trac_ do trem ensurdecia na noite, subindo

em formidavel algazarra se os _rails_ afundavam rasgando outeiro ou

penhasco, ou apagando-se mais e mais, se iamos francamente correndo em

planura.

De bocado a bocado casinholas rompiam da sombra, e debruçando-nos viamos

o guarda postado de lanterna á banda, chapeirão cahido, immovel e negro,

solvendo-se rapido no turbilhão de fórmas que desfilavam. Succediam-se

estações contra estações, vastas savanas implacaveis como desertos,

pinhaes cerrados, ou trunfas de mattagal hirsutas pelos cabeços. Ás

vezes o homem erguia-se deitando a cabeça fóra da carruagem, e ficava

nas trevas sorvendo o rumor das boiadas adormecidas na pastagem, os

gritos dos ralos e grillos á bocca das regueiras mais providas de

frescura. N’estas distracções podia então olhal-o melhor, vêr-lhe o

fato, fixar-lhe a edade e estabelecer-lhe posição. Trazia jaqueta

escura, calças muito chatas de fundilhos dizendo os habitos sedentarios

da provincia. Nas botas cruas muito largas de tromba, havia saltos de

prateleira com esporas, e todo o vasto abdomen coberto por uma cinta, com

cadilhos profusos cahindo á banda.

No Poceirão, o pequeno que despertára do canto, quiz agua; e como eu

tinha o frasco cheio, puzlh’o á bocca logo.

—É dormir outro somno, seu morgado! disse-lhe a rir. E elle sempre

exprimindo-se pelos olhos penetrantes, com o seu narizinho afilado e a

bocca fria, muito breve, encarava-me sem dar palavra. O pai disse então:

—Cansado da jornada, não falla. Maroto!...

Achegava-lhe o gabão com um geito meudinho de ama secca, endireitando-lhe

as pernas, e pondo-lhe a capa enrolada em cochim por baixo do corpo. E

aberta a bolsa do tabaco, preparou uma cigarrada desconforme. Estendeu-me

as mortalhas depois de se ter servido.

—Fuma?

—Só depois de comer, obrigado, respondi.

—Como eu tal e qual, em rapaz. Agora fumo a toda a hora. Não incommodo,

não?

—Á vontade! Essa é boa.

A charneca era rasa e nua; algum grupo de pinheiros erguia em preto a

figura consternada, sobre o nascente esmaecido na commoção da antemanhã,

onde a estrella d’alva dizia como um girasol de saphira, gottejando

estames de luar.

—O senhor é alemtejano, disse eu, a vêr se entabolava palestra.

—Vivo ha muitos annos lá.

—Casado?

Elle apontou-me o camisote escuro em que eu ainda não tinha reparado, e

tornou baixo:

—Casado?...

E de mansinho:

—Viuvo, ando de preto pela mulher, não vê? E respirou com força.

A sua voz era branda, sem os tons ingratos, intimativos e duros, do

ricaço afeito a mandar ganhões e cavadores, a fazer contas á noite, a

dar palestra nas abegoarias e nas eiras, e a pesar todos os homens na

balança egoista dos contos de reis. Então encarando-o em cheio, vi que

era pallido, com olheiras papudas, sobr’olho hirsuto, e a testa fugindo

em dois fios de calva sobre as temporas luzidias.

—Ficou-lhe o pequenito, prosegui eu. É o que tem casar de certa edade;

faz-se tarde para educar os filhos depois.

Elle abanou a sua grande cabeça com ar grave, e a olhar distrahido para

fóra, quebrando a cinza do cigarro:

—Esse é um dos perigos, disse. Ha outros, se a mulher é nova...

—Ah, sim, tornei eu. Nova e leviana!—E olhei-o a rir. Vi-o pôr-se em pé

sob o impulso de uma mola interior, escarrar com ruido, dizer palavras

incertas:

—Felizmente não tenho razão de queixa... Levava as mãos ao ventre,

procurando o que fosse com gestos errantes.

—... sim, não tenho razão.

E pregava o camisote de lucto, ia ao pequeno, voltava á janella. Mas como

eu olhava para elle fez-se branco, e affirmou com força:

—Palavra de homem de bem!

—Mas juro que acredito! disse eu admirado da singular insistencia. Na

confusão tinha lançado fóra o cigarro, e buscava mortalhas pelos bolsos:

—Este mundo é uma comedia, olhe que é! Tenho-as soffrido boas, não ha que

vêr.

—Nunca se é completamente feliz, opinei do meu lado, e elle fez que sim

com a cabeça.

—O senhor está novo. N’essa edade os desastres não deixam mossa, vê a

gente tudo côr de rosa. Mas em velho, creia, a coisa é outra.—Estendeu o

braço para os campos que sahiam vagos da noite e da nebrina, sob o pallor

do ceu matinal. E com intervallos absortos:

—Tudo isto é meu!—Riscava com o braço o horisonte—Além fica a herdade das

Donas, além São Brissos que foi do Moira de Arrayollos, lá longe ainda se

vê a Martineta, terra guapa para sementeira! Vida, vida!...

E mais longe:

—Podia metter-me a arrotear descampados por ahi, tudo terras gordas,

virgens de colheita, aguas da mãe... Milhões em pouco tempo!

Riu-se com aspecto triste.

—Por ahi invejam-me a lavoira, gente feliz! Mette sempre cubiça aquillo

que é dos outros. Olhe que é assim!

—E porque não tenta essa agricultura em grande? inquiri.

—Ora, deixal-a! fez elle com um gesto desalentado. Quem vier atraz de

mim, fará o que entender.—E voltando-se:

—Cá o petiz... se chegar a homem, algum dia.

—Ha de chegar, porque não? tornei eu, e em resposta o velho disse-me:

—Muito obrigado ao senhor.

No Pinhal Novo, entrou gente de Setubal, encheram-se as carruagens,

a familia de um coronel sentou-se entre nós, e não fallámos mais. Ás

vezes olhava-o do meu canto, via-o espreitar o pequenito que dormia, com

uma sollicitude terna, filtrada de passivas tristezas. E os cabellos

brancos faziam-lhe corôa, abaixo das abas do chapeu. O coronel, enorme

como um cyclope, todo feito a crista de gallo, o cabello já branco muito

encarapinhado, rompia como uma torre sobre os mais passageiros, na

fanfarrona postura dos hercules de chafariz. E o morgado mirava-o com

humildades paisanas, de soslaio, sem se atrever a fital-o em frente,

n’uma admiração pelas lunetas azues e rutilante coloração d’aquella

magestosa senhoria, toda sonidos de esporas e espalhafatos de oiro

nos canhões da vestimenta. De tamanho esqualo exsudavam aspeitos de

sopeada bravura, fragores de carga e bramidos de commando. N’essa mão

fechada sentia-se o nervosismo de quem marcialmente comprime punhos de

durindana invencivel, na vanguarda dos esquadrões a toda a brida, e sob

fumaças de canhões ululantes. Um respeito vergava a obesa corpulencia do

morgado, quando um prior sacou farnel da mala, dizendo não ter almoçado

capazmente. Perguntou á volta se alguns dos senhores ou madamas eram

servidos. E patenteára um desconforme cabaz de provisões, fiambre, doze

ovos cozidos, um gordo frangão de recheio, tangerinas, e marmelada para

desenfastiar. O rubro coronel, que era um amigo pelos modos, não recusou

a sua golada de Porto.

—Está bello! dizia o prior. Sirva-se de laranjas, snr D. Emma, são

das nossas.—E a D. Emma, filha do coronel e zarolha, com plumachos

brancos n’um chapeu de telha escarlate, volveu com mimicas fastientas

que agradecia muito, mas não. O coronel pôz-se então a fallar. Era uma

vozita de incomparavel meiguice, toda pastosa nos _RR_, sollicita, mansa,

escorrendo falsetes de menino do côro. E com grandissima surpreza, o

morgado ouviu esse guerreiro côr de lacre, tão babylonico de construcção,

discreteando em tramas de cozinha, mal-o prior. Confessou-nos elle que

daria tudo por um legitimo recheio, mas o que se chama tudo!

Só dava verdadeiro merecimento a recheios, quem os sabia preparar. A

receita do _Cozinheiro dos Cozinheiros_ era uma burundanga de tasca.

E com soberbia, alevantando as charlateiras flammantes n’um pavoroso

jogo de omoplatas, desafiou alli quem lhe désse leis sobre a materia.

E no mais! geleias, podins, cremes, toda a qualidade de molhos, e umas

tripinhas do _Poôrto_, seu prior?

—Oh, isso é famosissimo! disse o reverendo, a mastigar fiambre com dentes

de fradalhão. E investindo os circumstantes por cada vez, em cata de

adversario, o famigero coronel gabava-se de ter lido tudo que andava

escripto sobre o assumpto, até calhamaços vindo de França! Contava mesmo

artigos seus no _Almanach Taborda_, provando os inconvenientes do cidrão

no podim d’ovos... o que lhe mereceu cumprimentos do prior, que não sabia

estar fallando _com o illustre litterato_. Tambem apreciava d’alma as

invenções da pastelaria, os bons podins, as ricas geleias, o cremesinho

de fructa alli na mesma da hora.

Bebericava com ruido de sorvos. E declarou ter em Azeitão uma moça, que

sabia temperar isso celestialmente, o que fez abaixar os tortos olhos da

D. Emma.

—Oh, disse uma azeitonada da familia, que estava de verde a um canto, com

dentes sahidos—como o papá não póde haver, faz lá ideia!

—Com effeito, affirmou o guerreiro rejubilado, a cozinha é o meu fraco.

Retorcia os bigodes de Fritz, e referiu como abichára a _Torre e Espada_

nas manobras de Tancos, por ter regalado sua excellencia o ministro da

guerra, n’um jantar subscripto entre a officialidade, onde elle fizera

tudo, desde uma certa sopinha de rabo de boi, que estava...—e com

basofia, beijou as pontas dos dedos a encarecer—até ás compotas, que

ficaram de estucha!

—Pois não lhe sabia, não lhe sabia da balda, snr. coronel Pureza! dizia o

prior com deslumbramentos na grossa faceira de glotão. E o guerreiro deu

receitas, como era a galantine, o sorvete de ananaz, e grande numero de

geleias singulares. Explicou as fôrmas, e dos feitios que melhor serviam

á boa apparencia dos preparados.

—Ora! ora! argumentava o prior, pasmado de tanta sabedoria.

—Inda não sabe o melhor, disse a de verde, com dentes rompendo um

focinhito de lebre. Faz gaiolas mais lindas!

—Ah! fez o reverendo cahido de surpreza em surpreza. E que lhes mettem?

Ao darmos em Lisboa, eu e o morgado apertámos as mãos, creio que lhe

disse alguma coisa affectuosa, e com a mesma voz funda e espaçada, tornou

elle:

—José Maria Cardenes, conhecido em todo o districto. E querendo, a casa

lá está.

Foi-se; já longe cumprimentou o Alvares, o amigo Alvares do Credito

Predial, que eu conhecia tambem. Fui-me logo a elle.

—Como está vossê, bem, obrigado, disse eu. E sem delongas:

—Olha cá, quem é aquelle velhote, hein?

O Alvares poz os oculos, esteve a vêr um pedaço:

—Ah, o morgado das Olhalvas. Bom velho, meu rapaz, mas que corno!...

E passado um momento:

—A mulher bem boa, c’os diabos!...

—Conhecel-a tu?

—Dizem. Póde ser verdade.

* * * * *

Dois annos depois n’uma estação de banhos, já por outubro, fumava na

praia uma tarde, quando um homem de lucto me veio cumprimentar, com um

arenque de rapaz pela mão.

—Como vae indo o senhor?

Fallava-lhe sem me recordar de o ter visto alguma vez—bem, obrigado, como

está? É seu filho, este pequeno? Doentinho, segundo parece...

—Nada, não senhor. Fraco. De maneira, que vim aos banhos. Diz o medico

que é bom, para a frouxidão de nervos.

—Sim, sim, dizia eu bocejando.

Elle puxou o pequeno para mim, fêl-o fallar, fêl-o andar—estava mais

crescido, não estava? mas pouco appetite... E afagava-o de leve, enlevado

n’aquella sujidade amarellenta, molle, sem reacção, somnambula e ephemera

como uma esponja do mar. A espaços, quando uma vela corria ao largo, o

macaquinho alongava a mão chata, desengonçada, lembrando pelos deditos

curtos um pé de ganso com palmouras, e gania:

—Oh pae! pae!

—Que é, Luiz?

—Olhe além uma embarcação.

Ficava a rir descóradamente o seu riso de esqueleto, em que jámais luzia

a emoção desordenada e viva das creanças rijas. Por vezes mesmo, querendo

fallar não sabia exprimir, esquecia as palavras, varriam-se-lhe as

ideias, e engasgado punha-se a olhar feito parvo, de redor. O pae então

ia-o ajudando, e vibravam na sua voz meiguices entretecidas com lagrimas.

Voltado para mim, resumia:

—Uma desconsolação, o que vê!

Animava-o cheio de sympathia por aquella dôr grave de velho, resignada e

muda, e punha-me a dizer:

—Que o mettesse n’um collegio, longe dos mimos da familia. Já se

desenvolvia! Os rapazes precisam encetar vida, pela dureza e pela lucta,

entre alguem que os hostilise e alguem que os guie. Dão sempre resultado

os habitos viris, ensaie isso—gymnastica gradual todas as manhãs, passear

a cavallo uma ou duas horas, corridas pela quinta, sobriedade na comida,

cama dura, habitos madrugadores. Verá como faz d’elle um rapagão. Os

rapazes, creia isto, só enrijam, torcendo-se como quem torce calabres.

Elle não se convencia, mostrava-me o corpinho do seu pequeno mollusco,

que se alongava de mez para mez, e tinha de manhã os tons velhos do

azebre, funestos e miseraveis.

—Se não tem mesmo síria p’ra nada! O senhor falla bem. E vamos que lhe

rebentava uma veia...

Baixo, pondo-me na espadua a sua mão pelluda:

—Ataques, aos dois e tres por dia.

Fazia voz rude para dizer:

—Filho de má semente nunca vem a ser boa arvore.

—Tem mãe? disse eu por acaso.

Esteve sem responder; por fim:

—Morreu, coitada! Inda trazemos lucto, como vê.—E mostrava-me o camisote.

Eu então reconheci o morgado do caminho de ferro, pobre homem! Estava

mais velho, barba toda branca, a face cahida e sulcada. E d’alli por

diante, ás tardes, davamos o giro da beira-mar, fumando cigarros na

melhor camaradagem. Elle fallava-me chãmente da sua lavoura e da vida

de provincia, quanto lhe rendia a cortiça, e como era mais barato pôr

bacello de charrua.

Ás vezes concentrava-se, e de mãos atraz das costas seguia-me sem

rumor. Era de uma timidez exagerada e susceptivel, não querendo nunca

incommodar, pedindo desculpa a cada passo, incapaz de pesar, dar ordens,

ou fazer-se valer. E no hotel, aos creados que o serviam:

—Muito agradecido ao senhor.

E a pedir qualquer coisa:

—Faz-me o obsequio...

As mulheres envergonhavam-no, faziam-no triste, ia-se embora. Fugia

dos grupos, evitava-me diante de gente, seguindo de cabeça baixa. Essa

organisação bondosa, tinha o instincto da sua inferioridade provinciana,

no mundo refinado que rodopiava em torno. E como eu teimava em lhe

mostrar o club, quasi se zangou comigo, e desappareceu por dois dias.

* * * * *

Entre as familias a banhos, farrapos de aristocracia pobre, banqueiros

absolvidos, camarilhas que se enrodilhavam comidas de hypotheca,

infantes, diplomatas e mais appendices de côrte em villegiatura, andava

um elegante _ménage_, fresco e jovial, sempre em evidencia, entrando

em toda a parte e dando tu a toda a gente, que era para assim dizer, a

impudencia da praia n’essa estação.

Todas as manhãs de braço dado os condes, marido e mulher, iam ao banho em

_toilettes_ claros, cochichando e rindo unidinhos, muito amigos, muito

noivos, dando a mão aos rapazes e olhando um pouco desdenhosamente as

senhoras. O herdeiro presumptivo fazia saltar o _lorgnon_ em os vendo

chegar, sorria o grande condestavel por baixo de um nariz em promontorio;

a côrte rumorejava... E os dois muito frescos, jasmins na lapella,

polaina escarlate sobre sapatos crus, debaixo de um guardasol japonez,

direito e bordado de cegonhas brancas, pecegueiros e papoilas em flôr,

deitavam o binoculo ao mar incendido na reverberação do sol, contra a

espuma pulverisando nas rochas, ou espanejando-se pelas areias pallidas

com felina indolencia, de envolta com a renda das algas, e o desenho

glauco e singular dos caranguejos.

Aqui e além, havia pequeninas cidades de barracas, senhoras de claro,

chapeus de palha, gente em trajos de banho, guigas embalando no vai-vem

da maré, marujinhos de unhas côr de rosa—e aos pedaços, na franja das

rochas, fortes desguarnecidos, bandos de cabeças palreiras, corpos

vogando á flôr d’agua, os que sahiam do banho aos guinchos, os que iam de

costas sobre a arfagem da onda...

E aquella vida de praia luzia ao sol alegremente, carros de palha á

espera, _chalets_ emboscados no fundo das quintas e jardins, a fluctuação

dos stores listrados sobre as sacadas abertas, heras trepando por

torrelas de ardozia, e rapazes com raparigas fazendo o seu cricket antes

de almoço, pelas aleas ensaibradas de fresco. E os jornaes que chegavam

de Lisboa, os japonezes do Domingo, á mistura com gelados de encommenda

vindos na barafunda do mesmo carro, em grandes caixas de folha...

Na sua cadeira da ilha, isolada da colonia feminina, altas maneiras de

andaluza petulante, a condessa libertava então os cabellos do bonezito

de palha atufado n’uma blonde diaphana, e accendia um cigarro no charuto

do conde, que na areia aos pés d’ella, como um Terra-Nova favorito,

a fitava com os seus olhos de gato bravo, amarellos e inquietos. A

espaços estendia a condessa o abanico para o mar, seguindo algum paquete

fumegante já na ultima linha d’agua,—e tão graciosa a fumar, que até as

velhas perdoavam!

Deitava-se para traz ao expellir fumo, n’um quasi espreguiçamento

amoroso, esticando as pernas sob o vestido apertado, de cuja orla

escarlate os pés sahiam batendo compasso na areia.

Ás vezes trazia na escarcella, cahindo á cinta por um cordão de oiro

fosco, alguma edição _bijou_. E em quanto o conde lia, descahida, as

mãos pendentes, uma ondulação por toda ella, a condessa sentia-se viver,

rolando n’um torpor a sua sombrinha japoneza bordada de cegonhas brancas.

Paquerettes des prés, vos couleurs assorties

Ne brillent pas toujours pour egayer les yeux...

Iam-se chegando então surrateiramente os gulosos da boa femea, os

estouvados, e o resto. Ella distribuia cigarros toda rosea do calor,

com uma sombra azulada por baixo das palpebras, feliz de ser o alvo, de

attrahir e deslumbrar as que lhe roubavam o córte dos corpetes muito

acertados nas costas, sem costura nos seios, modelando em graça hellenica

a provocante expansão das pomas, e a curva divina do ventre que tinha sob

o estofo, a lascivia escandente d’uma nudez de harem.

Conde e condessa de que? Um nome qualquer. Ninguem verifica titulos

n’uma terra onde elles cahem sobre quem passa, como antigamente as aguas

suspeitas. Elle um hespanhol da Andaluzia, trigueiro, nervoso, de olhos

allucinados, e parecendo-se diabolicamente com um marcador de bilhar que

eu conhecera em rapaz. E tinha os modos francos d’um senhor, ditos de

graça pícara, essa originalidade dos paizes do sol, brusca, deslocada

e jovial, onde parece retinir o turbilhão dos guizos e pandeiretas, de

quando escoicinham fandangos.

O Alvares que tudo sabia, pouco me disse do conde.

A cidade do vicio · 第 7 / 17 段