mascaras, onde estava muita gente parada. Deslumbrante de graça,
malicia, colorido e contraste, essa exposição de caras grutescas, pelo
cartão moldadas nas mais bizarras visagens. Gabriel, mesmo infeliz e
penetrado de um surdo ciume pelos prazeres que não podia gozar, teve
de rir com os mais em frente de muitas d’essas carrancas ensopadas de
vermelhão apopletico, branco de _clown_, amarello e até verde, com
barbaçanas de talhe demoniaco, os olhos vazios e spasmos, narizes
em ponta de alambique, verrugas medonhas aqui e além, e dentuças de
javali, cornamentas mephistophelicas, barretes imitando comadres e
_abat-jours_... Havia um gallo petulantissimo, enlevo e pasmo de quantos
seguiam. De bico aberto e olho vivo, o mariola dir-se-hia querer cantar.
E na rua em adoração á montra da loja, quem passava detinha-se a
commentar todas essas physionomias de cartão e encerado. Descobriam-se
então analogias eroticas—aquella parecia o fulano, a outra o sicrano,
aquell’outra era mesmo o jagodes tal... Saltavam risadas da turba, como
crepitação de vinho n’um copo. E uma ovarina cheia de vergonha abalou, no
meio da grita geral. Oh, a tal cabeça de gallo com a sua crista escarlate
tão finamente cortada no rebordo, o bico amarello, olhos espertos e o
todo invencivel de um guerreiro, fascinavam Gabriel, aparafusando-o alli
no chão, attrahindo-lhe as vistas, e fazendo-o perder a memoria de tudo
o mais. Como seria espirituoso enfial-a como um barrete, deitar a correr
rua fóra...
Có-có-rócó!
Có-có-rócó!
Ririam das janellas, as meninas atirar-lhe-hiam ovos e rebuçados, e
toda a gente teria desejos de saber quem era o gallinho gaiato, que tão
petulantemente cantava.
E sabendo-se que era elle, o Gabriel da Clara, que vendia cautelas e
dera um premio de 100$000 reis aos freguezes tendo ainda nove annos,
que successo não seria, que de bolos lhe não atirariam as senhoras!
Fluctuando n’estes castellos rendilhados de auroras e sonho, tinha
machinalmente levado as mãos ás algibeiras. E olhava sempre a radiante
cabeça de gallo, em desejos que lhe nascessem pennas pelo corpo, bellas
azas de côres nos hombros, e um admiravel rabo coberto de plumagens.
Có-có-rócó!
Có-có-rócó!
Sentiu alguma coisa dura no bolso. E veio-lhe de repente um repellão
interior—eram os tres tostões em patacos. Diabo! E encarando-o com ar de
provocação, a cabeça de gallo parecia escarnecel-o, armar-lhe fosquinhas,
dizendo-lhe a espaços:
—Compra-me, não és capaz... Não tens cheta, pobretão! Então marcha, zt,
rua!...
Isto agoniava Gabriel, que de olhos errantes, um abalo de crime, ia
tocando successivamente os patacos no bolso, ao acaso. Entrou na loja—ó
meu senhor!
O lojista remexia caraças, provava-as um instante na cara dos freguezes,
desenrolando crepes, dizendo preços, indo e vindo muito atarefado.
—Ó meu senhor! repetiu Gabriel mais humildemente.
—Que temos? disse o homem sem olhar.
—Quanto é aquelle gallo, faz favor?
O lojista dobrou-se por cima do balcão a ver quem fallava; e riu-se.
Aquelle riso era terrivel. Gabriel baixou a vista, arrependido de ter
entrado.
—Quinze tostões, disse o homem.
O pequeno recuou aterrado, como se o obrigassem a comprar, querendo ir-se
embora e ficando-se, pegado no chão de medo. N’isto, um senhor que veio
com tres lindos meninos, deu-lhe um encontrão casualmente, ao passar,
e vendo o gesto do pae, um d’esses anjinhos côr de rosa, embonecado e
loiro, ergueu a mãosinha para lhe puxar os cabellos. Os manos vieram logo
a empurrar tambem o mendigo, puxar-lhe os andrajos, varrendo a loja n’uma
colera frenetica e fria.
Vinham em velludo azul, fachas de setim pallido cingindo-lhe os saiotes,
meia perna nua, rebordos metallicos nas botas, e chapéos revirando á
maruja.
O maior era um delgadito de olho auctoritario, bocca frenetica estancando
um d’esses narizes unciformes, que a gente depois vê entre aros de oiro
no parlamento e na opera, com a aggressão de uma proa de guerra entre
lucarnas de beliches.
Eram desenxabidos os tres, d’uma magreza fina côr de pingo de tocha,
desfibrada e molle, que vem das ligações consanguineas e da chlorose dos
salões, mas vivamente incendida pela chamma inquieta dos olhos, luzidios
como dois onyx molhados. E á bocca da loja, bem firmados na lagea do
portal sobre tacões impertinentes, os tres manos rechaçavam Gabriel em
linha de batalha, tendo os braços estendidos, mãos retracteis e promptas
a espatifal-o, e esse tranquillo ar de victoria desdenhosa que serve a
humilhar de morte o vencido.
Gabriel corrido, humilhado, e com medo que elles levassem a cabeça de
gallo, estava fóra da porta com os punhos fechados, capaz de morrer de
vergonha. E abrindo temerosamente a boccarra, deitou fóra contra os
insolentes, talvez meio palmo de lingua.
—Estes _gajos_, lá por serem ricos... disse elle no meio da rua.
Mas sentia-se infeliz, desamparado como um cão, e roido de miseria, no
fundo da sua pequenez e da sua orphandade.
Em casa, roendo o pão mal-o queijo da ceia, aos pés do catre em que a mãe
se estirára, disse n’um vago de saudade:
—A esta hora, mãe, toda a gente está ahi a _reinar_, e a comer ricas
comidas. Se _a gente_ fossemos ricos...
Clara mascava os miolos do pão sem vontade, seguindo a penumbra errante,
que na muralha carbonosa e humida, a luz do candieiro sem petroleo, fazia
dançar vagarosamente.
Como não respondia, o Gabriel olhou-a.
—Não é verdade, mãe? Não é verdade?
—Viste o teu pae por ahi? perguntou ella.
Gabriel fez com a cabeça, que não.
—Tambem, nunca vê nada, o diabo! disse ella com mau modo, e ficou-se
absorta em não sei que lembranças reconditas.
Nem cinco reis em casa, cada vez mais exigentes os estomagos, a doença
cortando-lhe o recurso do trabalho, e no dia seguinte, o seu cordão de
oiro tão fallado, posto em leilão na casa de penhores, por atrazo de
juros.
Não havia muito que ouvira no pateo da cocheira, um moço contando aos
mais o crime do Largo da Paschoa—no dia anterior, um malvado que se
escondera debaixo da cama d’um merceeiro, e alta noite o degolára, depois
de com elle rolar n’uma lucta horrivel, de que o cadaver expunha os mais
atrozes signaes.
Surprehendido em fuga com um sacco de cobre, o assassino tinha confessado
tudo, brandindo o punho ensanguentado, n’um sardonismo altivo que lançára
terror por toda a cidade.
E outra vez o _Tromba_ viera com dinheiro, a fazer-lhe propostas!
Aquellas coisas lançavam Clara n’um desvario. Vinham-lhe presentimentos
tragicos, medos de tudo, da noite, do idiota, dos ladrões e de morrer de
repente, deixando ao desamparo as suas tristes creancinhas. E esse que
ella amára, em que sitio parava?
Por tabernas talvez com moças de faca, na prisão ou no hospital. E as
suas lagrimas corriam!
* * * * *
No dia seguinte, Clara não pôde sahir, sentindo-se mais alquebrada e
dorida. Mandou Gabriel á venda dos ramilhetes, com recommendações para
que não sujasse o açafatinho de vimes.
Os ramos eram uma desgraça de amachucados, murchos, sem aroma e sem
côr. Quem compraria aquelle esterco todo? Mas era entrudo... E a mulher
ensinou ao pequeno o itenerario a seguir—praça de Camões, Chiado, com
estações demoradas onde estivessem muitos senhores, na Havaneza, nas
pastelarias, á porta da Trindade por causa do baile infantil, esquinas do
Rocio, Passeio...
Foi-se Gabriel mais o precioso açafate de vimes, apregoando, offerecendo
a uns e a outros, dez reis o ramo, ramos grandes, era o resto! Ás tres
da tarde, desde a praça de Camões ao Rocio, era penoso o transito,
passeios apinhados de gente, mascaradas cruzando a via, trens cobertos
de caixeiros, homens a cavallo, policia em renques, muito chapeu
amachucado. Entre a Havaneza e o candelabro do largo, a concorrencia
ia furiosa e compacta, de janotas e vagabundos, cujo gaudio consistia
em fazer parar os trens para lhes lançar immundicias dentro, esguichos
de varios liquidos, cartuchos de pós, feijões e más palavras. Quem se
indignava soffria apupos, os dichotes do alto estylo, e triplicada dóse
de porcaria annexa.
Convergindo alli no antecipado intuito de gosar o mais possivel, cada
primate tratava de expedir berros furibundos e gargalhadas de bebedo.
Alguns ardentes e ratões tinham-se empoado em casa; outros armados de
borrachas com pipo esguio, regavam as golas e espinhaços da sociedade;
varios desabotoavam-se, beliscavam-se, aos abraços nas mulheres do povo e
pedindo desculpa do engano.
E a cada vegete galopando heroicamente na pileca derrancada, a aurea
juventude da casa Garrett nomeava-o pelo nome, chamava-o, fazia-o parar
para um segredo.
Em carros descobertos e camisa, de mascara microscopica e luva branca,
braços nus, pescoços nus, altas meias de sêda desenhando pernas nervosas,
as hespanholas appareceram ao alto, batendo palmas.
Houve na massa um urro. E o berreiro avassallando os ares, expluiu de
toda a banda, n’um triumpho indescriptivel. O elegante Ricardo até, da
primeira sociedade, saltando a um dos carros, lançou ás raparigas uma
alta contribuição de beijos. A esse tempo achava-se Gabriel á porta da
Trindade. Sahia gente do baile infantil.
Quanto Lisboa tinha de creanças radiosas, perfumadas, illuminadas e
frescas, vinha descendo d’aquelle baile findo, todos os tamanhos e todos
os vestuarios, n’uma riqueza inultrapassavel de estofos, bordaduras e
agaloados. Uma especie de gravidade e pedanteria, aprumava alguns dos
pequeninos heroes; viam-se grandes damas de quatro palmos roçagando
caudas pelo braço de adoraveis fidalgos de Luiz XIV, _coquettes_ e
roseas, rindo com as suas boquinhas em flexa. Havia polichinellos
microscopicos como illuminuras, preoccupados das marrecas, chapeu de
guizos á banda, beicinho em momo desdenhoso, e um azul cheio de sol
no olhar. Os pequerruchos de collo eram os mais diabolicos e vivos,
gesticulavam por cima do hombro das amas com as mãositas de covinhas,
as unhas chatas, mechas de cabello na testa, e babando sem respeito os
ricos fatos coloridos. Nas familias fecundas e ricas, quando a ninhada
iriente se ajoujava no fundo dos _landeaux_ descobertos, profundos e
ovaes, bulindo as cabelleiras luminosas, vestida das côres mais puras,
cingindo-se com os bracinhos curvos, trilando as divinas coisas da alma
balbuciante, atirando beijos a primos e primas nas pontas dos dedinhos
frescos, desinquieta, teimosa, ensolada, dir-se-hia uma familia de aves
do paraiso exercitando forças á borda do ninho, para debandar pipiando e
rindo, na vida musical das florestas.
Em cada detalhe de costume, setim, brocados, cachemira, rendas e
plumas, todo o bazar de estofos destinado a moldar os tenros corpinhos
de uma graça divina, se ia surprehender a passagem de dedos brancos e
delicados, e construir sem esforço a paixão das mães pelos seus bebés, a
dedicação das irmãs mais velhas, os orgulhos talvez de toda a familia,
que se impozera collaborar na pequenina obra prima, dando o estofo
uns, cortando outros no modelo, e cosendo a legião feminina, por algum
d’esses tranquillos serões em que as cabeças deredor da mesa n’um mimo se
retocam, sob a luz velada do candieiro.
E Gabriel de cabeça baixa, cheio de uma inveja lugubre, esguedelhado
como um monstro de conto, todo roto e todo sujo, pés descalços na lama,
calçotas recomidas na orla e incrustadas a remendos de côr, o ar bisonho
de um rapozinho engaiolado, estendia machinalmente o açafate de vimes,
vendo passar tantos principes e fidalgos; marquezitos de casaca a matiz e
caixa de rapé esmaltada; pastoras do Trianon levando papoilas e espigas
nos chapelitos de palha; poetas e cardeaes tasquinhando _bon-bons_ de
chocolate e baunilha; frageis judias de olhos pudicos, com pantalonas
de sêda clara, chapins de oiro e véos de lhama espumosa; os abbades de
côrte, tricorne á banda e bengalão ferrado—e Mephistopheles de quatro
annos, Marias Antoniettas de seis, Sakespeares de oito, de envolta com
alsacianas morenas e loiras, com magicas, primaveras, auroras e noites,
Margaridas de mãos cruzadas no collo e escarcella á banda, todo o mundo
celebre da historia e da arte, reduzido em escala infinitesima, alado de
petulancias vivas, rindo em graça virginal, tão scintillante de côr e
adoravel de pequenez, que dispersando em tribus pela rua, era como uma
chuva de flores em cachos, vertida de alguma cornucopia de deusa prodiga,
n’um dia de nupcias celestes.
—Flores a dez reis, flores a dez reis! É o resto, bons ramos...
E para Gabriel, ninguem olhava! Muitos ramilhetes estavam completamente
seccos, havendo perdido o aroma e as côres. Uma vez ou outra casualmente,
os olhos de uma senhora caridosa ou de um velho conde, detinham-se um
instante sobre a mercadoria reles do gaiato; mas passavam logo, sorrindo
alguns da miseria da pobre creatura, exprimindo outros uma sympathia
triste, e nenhum dando a esmolinha suspirada—não era _chic_!...
Por fim Gabriel atirava os ramilhetes sobre quem passava, e ainda assim
ninguem se condoia.
Algumas meninas zangaram-se, e uns poucos de senhores o repelliram com
dureza. Quando de repente um cocheiro, magnifico como um elephante,
cabeção de pelles e pescoço curto gritou á bruta—hé homem!
Conduzia um carro balanceado em molas, fofo e caricioso como uma alcova,
puxado a cavallos brancos.
E Gabriel que virára machinalmente a cabeça, viu ao alto da escadaria do
theatro, n’um cortejo de senhoras fidalgas e cavalheiros, os tres meninos
da loja de mascaras. O mais espigado ia de gallo, Gabriel reconheceu a
famosa cabeça da _vitrine_, de crista rutilante e alta como um penacho de
couraceiro, as barbas pendentes, bico amarello entreaberto... Para ser
completa a illusão, tinham vestido os braços do pequenito em azas de ave,
verdadeiras azas de pennas, recortadas, retracteis, cheias de cambiantes
e matizes. E se o menino cantava _có-có-ró-có_! agitando as azas e
debicando graciosamente as brancas mãos das senhoras, era uma risada de
todas as boccas, um frenesi de beijos, um triumpho sem exemplo...
Aquillo parecia a Gabriel uma affronta. Mas atirou ao gallo as ultimas
flores, sentindo a garganta presa de lagrimas, e os olhos turbados de
uma especie de vertigem. Um dos ramilhetes apanhou o mais pequeno dos
fidalguinhos, que se virou furioso do desacato, e dando com o descalção
da loja de caraças, sobre elle rompeu de mão erguida. Oh, nem alli o
poupavam! Gabriel então, não foi mais senhor de si—atirou-se a elle como
um leão, e tamanho socco lhe arrumou, que o sorvado petiz foi cahir
longe nas pedras, berrando despropositadamente. Prenderam-no. Esteve
dois dias n’uma estação, levaram-no ao tribunal depois. Foi ahi que a
Clara o encontrou, esfomeado, escaveirado, sem o cesto, sem flores e sem
cautelas, vazio de reacção, incapaz de se mexer e de fallar. A pobre
mulher olhou-o por um momento de olhos seccos, dizendo:
—Deus te faça differente de teu pae!
E esteve todo o tempo severa, concentrada, quasi indifferente ao que ia.
Gabriel nunca a tinha visto assim. Quando o mandaram com Deus, a mãe
disse-lhe seccamente:
—Anda!
E foram. A desgraçada encontrára no caminho uma leva de facinoras, que ia
embarcar para o degredo; n’essa enxurrada tinha reconhecido o amante.
* * * * *
E sempre atraz d’ella sem descanso, corcovado, lazarento e leproso,
batendo os enormes tamancos na calçada, cahindo de immundicia e
frangalhos, e em phrases cerradas ejaculando desejos, que de asquerosos
parecem violar a serenidade da natureza e do ceu, o _Tromba_ persegue-a
com os seus olhos de gomma suja, estudando avidamente as fadigas, as
fomes, desalentos e lagrimas da desgraçada, com o dinheiro do roubo
apertado na pata de reptil, e á espera que ella se entregue sem queixa,
um dia que não está longe talvez!
A CAMISA
Os antros de Londres eram no entanto rebuscados, não tendo Cromwell
achado carrasco que destroncasse a cabeça do bom rei Carlos.
Chegára a ultima noite do martyr, e nada de carrasco ainda. Todo o dia os
guardas attonitos, os famulos curvados e os grandes personagens do paiz,
tinham notado a lucta surda d’esse homem de ferro, que mudo e livido
passeava no grande salão do palacio.
Á meia noite, o ultimo agente chegou sem ter encontrado o braço que se
pedia para collaborador da forca, na obra do assassinato. Em tamboretes
de carvalho forrados de Cordova com pregaria e relevos doirados, os
grandes patriotas de negro empallideciam no silencio lugubre do recinto,
seguindo na face do protector todo um cyclone de refreadas coleras.
E antes que elle fizesse um signal, um velho espadaúdo ergueu-se, e com
tranquilla voz e gestos de bonhomia honesta, disse:
—Serei o executor da alta justiça!
Cromwell nem olhou para elle, e batendo na mesa:
—Ámanhã, ás cinco.
Como sombras solvendo-se n’uma tela branca, os patriotas abalaram
lentamente, embuçando-se nas capas. Chovia, e do céo carbonoso, rasgado
de torres e frontarias gothicas, uma melancolia funebre estendia as azas
silentemente, n’esse mysterio pardacento que é terrivel como a morte. No
dia seguinte ás cinco, o carrasco estava no seu logar, de vermelho, meia
mascara no rosto, barba ponteaguda e branca sobre o peito. E a cabeça de
Stuart cahiu, ante o Vaux-Hall apinhado de mundo e indeciso de nebrina.
—Bem, disse Cromwell; que desejas em paga do serviço que prestaste? Os
erarios estão exhaustos, mas pede o oiro que te aprouver. A invernia
destruiu as colheitas e matou de fome os servos, mas dize os dominios
que pretendes. Em Londres ha palacios maravilhosos que não pertencem ao
Estado, e serão teus se os escolheres. Falla pois!
O velho apenas queria uma cousa. E ao formular esse desejo unico, os
patriotas tremiam, receando serem expoliados.
—Qual? disse Cromwell.
Elle esteve sem fallar algum tempo, e após:
—Dar-me-has a camisa do decapitado, ensopada como está no sangue que
d’elle correu.
—Mais nada?
—Mais nada.
Cromwell não se conteve, que não dissesse:
—Como é que um homem da tua tempera é futil como uma mulher?
O velho córou sob a affronta, dizendo:
—Ingrato!
E sahiu. Mas no dia seguinte recebia a camisa ensanguentada do sangue
real.
Esse tropheu de infamia foi encerrado n’um cofre lavrado, em cuja tampa
uma inscripção latina commemorava o feito, n’uma solemnidade de estylo
que turgecia toda anglicanamente, em versiculos da Biblia. E pelas edades
fóra, a descendencia do carrasco teve a veneração da Inglaterra, por
via do despojo guardado no cofre de oiro precioso. Foi esta veneração
que mais tarde assentou um neto do excentrico sicario de Cromwell
na Camara Alta, e cuspiu na farda ducal que lhe vestira, uma lista
geral de condecorações e crachás. Em breve lord Wite, duque Clifton e
representante directo da familia aristocratisada, chegou a ministro, a
favorito e a cem vezes millionario.
Em certa quadra do anno, abalava de todos os pontos da Inglaterra uma
chusma de eruditos, famintos de camisa, em direitura ao castello de
Clifton, na esperança que a clemencia do proprietario lhe permittisse
como graça inestimavel, uns segundos de contemplação ante a reliquia do
rei santo. Senhores e servos se impunham a peregrinagem a Clifton, uma
vez na vida ao menos. E sobre a côr e feitio do veneravel farrapo e suas
nodoas, estranhas versões entraram a correr mundo. Brochuras referiam
que era camisa de dormir; enormes _in-folios_, pejados de investigações
pacientes e subtis, iam á affirmativa audaz, de que nem era de dormir nem
de trazer, nem camisola ao menos, porém simples e honestamente, um par de
ceroulas.
Foi de vêr a lucta que se travou então, apostas que se originaram do
caso, duellos a murro, a pontapé, marrada e tiro que tiveram logar. Em
Oxford e Cambridge, por todos os grandes collegios e clubs, a mocidade
esqueceu o _cricket_ e largou o remo, para se partir em facções—uma que
arvorava a camisa, e outra que fazia fluctuar a ceroula na ponta de um
chuço.
Nos claustros gothicos das universidades e embocadura das ruellas
medievaes, entenebrecidas a deshoras, de cada vez que um vulto affrontava
outro, de logo bramia n’um inglez furibundo:
—Quem vive? camisa ou ceroula?
E sendo contrarios os que altercavam, estabelecia-se de prompto o combate
e corria sangue a golfões, de vencidos e vencedores.
Os que expiravam, diziam no estupor da ultima hora:
—Morro pela ceroula!
E narrando o caso, o _Times_ escrevia:
—Mais uma victima da roupa branca de Sua Graciosa Magestade...
Ora, estavam as coisas n’estes termos, quando uma commissão de sabios e
philosophos, de mistura com alguns dos melhores camiseiros de Londres,
foi pelo governo da rainha encarregada de precisar a questão, e
restituir ao publico a tranquillidade para desejar, em tão tormentosas
circumstancias. A camara dos lords votou milhares de libras ao trabalho
pujante da sciencia e rouparia inglezas. Os jornaes publicaram retratos e
biographias dos commissionados, animando-os com apostrophes estridentes;
os clubs de nomeada abriam ao grupo eleito as suas salas de conferencia
e de jantar; e em toda a linha as apostas repetiam-se e os duellos
multiplicavam-se.
Ao mesmo tempo, choviam dos prelos as pesadas brochuras ricas de
argumentação, inultrapassaveis de logica e até ricamente providas de
certos promenores. Segundo o doutor Kater, a peça de roupa guardada no
cofre era um par de ceroulas, attendendo á malha negra que demarcava a
bifurcação das mangas,—maneira de vêr que mereceu uma sessão solemne ao
_Collegio dos Cirurgiões_, de Londres. Conforme se inferiu das actas e
boletins d’esta preciosa sociedade, a malha trahia a ceroula, por quanto
a sciencia confirma a relaxação de certos musculos pela decapitação.
Mas a alta chimica ingleza que tinha assistido em silencio ao debate,
interveio pedindo um resquicio, infinitesimo que fosse da substancia,
afim que os modernos processos de analyse lançassem o _ultimatum_ que
o caso urgia. O publico inglez porém não consentiu, tal o respeito dos
saxões pelos monumentos historicos! E n’uma solemne protestação, duzentos
_meetings_ fizeram sentir ao governo a sua vontade sobre a malha do bom
rei Carlos Stuart.
Sir Bell, o tribuno, fez um discurso genial, clamando reprobo e criminoso
aquelle que tocasse, com a ponta do nariz que fosse, no medalhão negro da
reliquia.
«... Pois que é unico no genero, e o Martyr não poderá brindar os museus
do Reino-Unido com outro de egual formato!» resumia elle no meio de um
trovão de applausos.
Photographos e pintores vieram piedosamente com suas machinas e
cavalletes ao castello de Clifton, reproduzir o singular endurecimento,
que tamanhas duvidas provocava.
E vendendo cópias a dois _schillings_, enriqueciam-se em dia e meio,
victoriados nas praças e ruas da grande cidade.
Lord Clifton abria com fidalga generosidade as suas portas, a romeiros e
sabios. Fizera emmoldurar um vidro na tampa do cofre de oiro em que se
conservava a santa roupa, orgulho de sua casa e alvo das attenções de um
grande povo.
—Assim vos curvaes ante o precioso documento do bom rei, dizia o duque
do seu _fauteuil_ do parlamento. Que farieis então, se como a sempre
chorada mão de meu illustre avô o houvesseis palpado fresco, n’um extasi,
chegando-o aos labios para o oscular reverentemente!...
E pelas suas barbas veneraveis e brancas, fios de lagrimas corriam.
Ao fim de um anno de disputas, conferencias grandiloquas, e as mais
cathedralescas hypotheses, a grande commissão de sabios recapitulou, que
uma de duas:
1.º—Ou no tempo do rei Carlos, reinava como refinada elegancia o fazer-se
das pernas braços, e em tal caso o farrapo de Clifton era sem duvida,
camisa confeccionada para um decapitado, por não apresentar abertura
entre as mangas, podendo-se a malha classificar de sanguinolenta...
2.º—... Ou caso contrario, era um par de ceroulas, e conseguintemente a
malha...
Seguia-se um latinorio pudico, para explicar a composição da historica
argamassa.
Alarme em toda a linha! Nas bibliothecas choviam archeologos e eruditos,
a investigar se de facto constituira prodigio de galanteria europêa no
tempo de Carlos, o trazer-se as mãos pelo chão.