Poz a isca no gume da pederneira desconforme, com o fuzil feriu fogo...

Os cães percebendo, vinham mansamente para elle de olhos doces,

ondulando as caudas alvadias. Desiderio Jacintho ajoelhára ao pé dos

pastos em monte, que tinham por cima a lenha cortada das arvores. Metteu

pacientemente a isca accesa por baixo de tudo, esteve assoprando até

apparecer labareda. Restolhos fóra, o rebanho estramalhava-se a fazer

cama, escolhendo para dormir os terrenos declivosos e desamparados, onde

a aragem désse de chapa. E como para além do lume tudo se perdia em

escuro, e a flamma da fogueira encandeava o pastor, ninguem viu uma pobre

ovelha, que extraviada do rebanho conseguia alfim encontral-o, extenuada

e esqueletica, trazendo de rastos com os dentes, o borreguinho parido de

manhã.

* * * * *

No campo e de verão, rompe o dia ás tres e meia, quando a cotovia faz a

primeira ascensão nos ceus, para dar do alto, aos volateis emboscados

nas folhas, nas hervas seccas das barreiras, nas tocas, nos cannaviaes

e nas balsas, rumor para a grande pastoral beethovnica da manhã. Accesa

na pallidez do horisonte, a estrella d’alva tem fremitos de palpebra

somnolenta.

Vae-se rasgando a nevoa das alturas, de envolta com exhalações silvestres

dos valles—e cardumes de nuvemzinhas brancas ondulam as barbatanas de

renda, por toda essa piscina cerula, que é desconforme como uma ambição

de rapaz. Foi quando Desiderio Jacintho, retomando os alforges e a manta,

assobiou aos rafeiros e fez partir o rebanho pela encosta da montanha.

Mesmo no cabeço, alastrava-se uma clareira redonda, entre pedregulhos e

restos de um moinho abandonado. E deitada n’uma attitude indifferente,

cabeça no chão, o focinho coberto de mucos, a pobre ovelha viu partir

as companheiras e deixou-se ficar de guarda ao cadaver do pequenino

borrego, das suas entranhas nascido. Prolongou-se a manhã, acordaram os

arvoredos e os passaros, passaram n’um vôo pesado, bandos de perdizes a

matar a sede lá baixo, nos raros pégos da ribeira... Veio o sol, abelhas

zumbindo, bandos de borboletas fulvas, gafanhotos e sardonicas nervosas,

tudo o que começava o seu dia alegremente, luctando, trabalhando,

cantando.

E o rebanho já longe, fazia no toque dos chocalhos plangente, uma poesia

rustica, simples e penetrada de melancolias.

Quando de repente, dois corvos pousaram nos alicerces do moinho. Eram

enormes esses corvos, com pennas azuladas luzindo de cerumen, crespas

e afiadas como cutelos de bom aço. E impertigavam-se um para o outro,

chegando os bicos n’um quasi beijo de alliança, aos saltinhos nas pedras,

firmando patas, balanceando os rabos, com olhos obliquos sobre a mãi e

sobre o filho. E estendendo os bicos corneos, dentados meudamente no

bordo, longos e negros, quedavam-se n’uma especie de consulta, sem

grasnar, sem mexer, como planeando campanha. O maior então atreveu-se

a olhar de perto os dorminhocos do rebanho, e veio marchando clareira

fóra contra o borreguinho morto, com sobrecenhos de inquisidor, sinistro

e fero—em quanto o outro ficava á espera, todo inquieto, voejando,

consultando as visinhanças, mais cobarde talvez! A ovelha nem dera rumor.

Conservava a cabeça inerte para a terra, as pernas dobrando sob o peso

do corpo, orelha cahida e molle, e sem movimento a cauda, parecendo

morta. Aquella postura extincta animou o carnivoro, que veio mesmo ao

pé do grupo, se poz a andar deredor mansamente, assentando a pata com

uma especie de precaução, geitos desdenhosos de cabeça e surdos ruidos

de serra no bico poderoso. Mas nos alicerces afastados do moinho, dois

corvos mais acabavam de pousar, inda maiores e mais negros.

Já o sol causticava nos saibros e vinha secco um chiar de cigarras nas

arvores. Attrahidos uns pelos outros agora, os malditos abatiam-se

aos bandos, depois de voejar em ellipsoides muito alto, por cima da

presa. E ás duzias, as cabeças funebres surgiam por traz das rochas,

armando conclaves de momento, debandando como _fantoches_, vindo de

novo remoinhar aos saltinhos, ondulando, subindo, descendo e quebrando

circuito, como n’uma dança selvagem.

O ataque parecia ordenar-se, á medida que se espessavam fileiras.

Havia já um chefe, velho corvo sem cauda, ferozmente faminto e audaz,

que afinal com um grande pulo, cahiu no cadaver ás bicadas. Os mais

cerraram-se, apertando circulo, cingindo os dois corpos immoveis, batendo

o chão compassadamente, com rythmos de marcha guerreira. E mal um d’elles

grasnou não sei que ordem de batalha, grasnaram tambem os mais, n’um côro

estridente e lugubre, que abria em risada, terminando em uma especie de

uivo, guttural e rouco. N’esse momento, a ovelha ergueu a cabeça devagar,

firmou meio corpo nas patas dianteiras, e esteve a olhar de narinas

altas, sanguinolentas pela mordedura dos moscardos gangrenosos.

* * * * *

Aquelle movimento fez uma hesitação no exercito de grasnadores fatidicos

cujo circulo se alargou, vergando em receios de castigo. Viam-se os bicos

alinhados, convergindo sobre a ovelha e cria examine em ar de pontaria,

e fazendo para dentro do circulo uma golilha negra de punhaes. E se ao

mesmo tempo as cabeças voltavam, d’esses olhos chammejantes, inquietos

e febris, fuzilava um sardonismo feroz, uma como certeza de victoria e

provocações mudas, em que havia intelligencia. Quando a ovelha fitava um

grupo, esse grupo immobilisava-se com attitudes marciaes, as pernas em

fila, caudas em fila, e azas pendentes como abas de casaca, n’um enterro.

Mas o resto convergia por detraz da mãi afflicta, de mansinho, aos

encontrões, com fremitos de impaciencia já, mas preferindo cansal-a pelo

cêrco, deixal-a agonisar para alli de impotencia, junto do filho coberto

de moscardos verdes. E como se sentiam fortes pelo numero, longe das

vistas de homem, senhores do campo e espicaçados de calma, entravam já de

escaramuça, armando sortida, aos pulos no mesmo sitio, enfunando as azas

como para aligeirar os corpos, e promptos ao primeiro signal. O corvo

velho estava na frente, contemplando o cadaver de cabeça reflexiva, com

idéas talvez na presa do leão. E muitos picavam o terreno ao acaso, como

a disfarçar os intentos, em quanto a ovelha se levantava custosamente, e

com o corpo mirrado, pernas oscillantes e narina afflicta, vinha cobrir

os restos do seu pequeno defunto.

Chovia fogo do ceu embaciado e calmo, como d’um capacete em braza. Fumos

sujos de queimadas, subiam direitos d’onde a onde; e era a hora terrivel

em que a paizagem não tem sombras, nem correntes o ar, e vem scintillas

cruas de todos os angulos e superficies.

O borreguito morto estava de olho esbugalhado, n’uma especie de extasi á

luz, meios risos na bocca entreaberta, onde já havia larvas de insectos.

E a ovelha guardava-o entre as patas, girando com a cabeça por um e outro

lado, á medida que a petulancia dos corvos recrudescia. Os seus balidos

frouxos, vindos do fundo do peito, tinham modulações de desespero

mortal, e umas vezes imploravam graça debalde, vibrando em lagrimas

de sangue, referindo que era aquelle o seu filho, contando a vida do

rebanho, querendo abalar pela commoção: outras vezes perdida a esperança,

eram uma imprecação á insensibilidade de Deus e do ceu, e rouquejavam

de angustia. O corvo velho por fim saltou de vez, e com uma bicada

gulosa arrancou um olho ao cadaver. Então os mais vieram em turbilhão,

esbofeteando a mãi com as azas metallicas, grasnando de voluptuosidade na

disputa de algum bocado. Com esforços desesperados, a ovelha resistia,

marrando nos algozes com a sua fronte sem cornos,—e recuava, punha em

rotação a anca e os membros posteriores, saltava bruscamente espicaçada,

n’essa grande lucta desegual. Apenas, esses bicos todos lacerando a

pelle do cordeiro, lhe desnudaram a vermelhidão da carne, não houve mais

resistencia possivel, tamanho o impeto da investida! Agonisando então,

por todo o corpo ferida e escorrendo sangue em borbotões, a ovelha já

não sabia que fazer. Balava rijo, erguendo o focinho coberto de mucos

rutilantes, perdera um olho na peleja—mas investindo sempre, a desgraçada!

Quando era já tudo impossivel, e o borrego pelos rasgões do ventre,

bolsou os intestinos n’um começo de podridão, nada póde dar ideia da

alegria selvagem e pantagruelico appetite, d’essa canalha sem freio.

Disputavam-se os bocados de bico para bico; e os mais atrevidos

alojavam-se por baixo da ovelha, no intuito de se banquetearem melhor.

N’um derradeiro balido, em que se exhalava tambem o esforço derradeiro,

deixou-se a mãe cahir para cima do filho, aniquilada, resignada, sem

queixa—e até á ultima convulsão defendeu o cadaver, offerecendo o triste

corpo da mumia em resgate por aquelles queridos despojos. Já se não

sentia ao largo o rebanho, e no silencio adusto do calvario, por todo o

dia á vontade, os corvos tiveram festa.

MEPHISTOPHELES E MARGARIDA

Domingo de entrudo. Alguma chuva, lama, poucas mascaras nas ruas.

A Clara vendera poucas flores, não por falta de canceiras, que a

viram onde circulava a turba, á porta da Trindade, pelas tabacarias e

pasteleiros, ao Passeio Publico, na Alta, na Baixa... Pouca sorte! Não

era bonita, não era gaiata, nem tinha fatos garridos; e pobre!... Era o

peor, palavra.

Quem ia agora fazer caso de similhante diabo, e comprar as violetas

fanadas e as tristes rosinhas murchas, dos _bouquets_ do seu açafatinho

de vimes?

Embalde baixou ella os preços, mettia o seu commercio ás ventas de quem

passava, apregoou, gemeu, supplicou, tentando dizer as miserias da sua

vida negra, dias sem comer, renda da casinhola a pagar, os filhos, frio,

doença... Mas encolhiam os hombros. Antes de tudo, os importunados

olhavam-lhe p’ra cara. E viam um estafermo amarellento e picado de

variola, covas nas faces, olhos mortos, sem brincos nem meias, o lenço da

cabeça amarrado adeante, um casibeque com remendos nos cotovêlos, a saia

desbotada, e gasnete com essa côr de burel, carcomida e velha, que deixa

adivinhar um corpo de arenque, chupado e ossoso.

E vendendo flores tão servidas como ella, inda por cima!

Um marujo que ia tocando com outros em guitarras, ferros velhos e

caçarolas arrombadas, n’esse carnaval de tabernas e bairros lugubres,

atirou-lhe um encontrão, dizendo:

—Vossê enrica com o estabelecimento. Oh laré!

E matulões em chinellos, cobertos de trapos, luzindo de papeis doirados,

todos sujos de vermelhão, dançando ao som das castanholas n’uma alegria

ignobil, gallegos, cabos de policia, vegetes de facalhão em riste e dedos

immundos, ao passar por ella beliscavam-na, dizendo-lhe ao ouvido recados

torpes, fufia, rainha das iscas e fandangueira de escada, convidando-a

para dormir em hospedarias de má nota. Quanto a vender flores, nem uma!

Um dia triste, esse domingo de carnaval. E passando pelos armazens de

comida, mercearias, pastelarias e restaurantes, á hora em que accendiam o

gaz, ella sentia um surdo desespero da sua penuria, ante esses rumores

de gente que apressava, comprava e comia, dizendo—não póde ser!—aos que

esmolavam na rua. Em todas as lojas ia um movimento de festa, sahia gente

com embrulhos de doces, cabazes de provisões festivas. Através os vidros

embaciados das casas de pasto, passavam _silhouettes_ de moços servindo

as mesas, ouvia-se o tinir dos talheres e das louças, vozes dizendo:

—Salta isto! salta aquillo!

As montras provocavam pela ostentação das peças frias, perús de recheio,

salchichas enroladas n’um leito de salsa e rodellas de limão, pinhas de

fructa afogadas em flores, os camarões, lagostas de patas hirsutas, e

as cabeças de vitella crúa, escanhoadas e tenras, que fazem pensar na

risonha Herodiade, mostrando em prato de oiro, a cabeça livida de João

Baptista.

—Flores baratas, oh freguezes, aqui estão ricas flores, muito baratas!...

Cahiu a noite, cada qual gosava. Iam bebedos caracollando na rua. E o ceu

tinha serenidades no alto, sob o frio luar de fevereiro... Clara foi para

casa doente.

—Ámanhã veremos, dizia ella esperançada ainda, borrifando com agua fresca

o cabazinho de ramilhetes já murchos. O filho mais novo estava em prantos

no berço, grunhindo talvez de fome. Clara deu-lhe a teta, mas a creança

recusou-se a pegar-lhe, sentindo o leite ruim, da febre, da caminhada, da

debilidade e má alimentação.

Ás quatro horas do dia seguinte é que Gabriel, o mais velho dos garotos,

appareceu em casa todo empoado, amarellento da noite perdida, e com uns

ares de pandego, que deixaram a pobre mãe boquiaberta. Nem uma unica

cautela vendera, das cinco com que abalára de casa, um dia antes. E a

situação carregou-se!

Visinhas, não as havia alli tão perto. O antro em que viviam, dava de

uma banda sobre quintalorios alagadios, emquanto da outra ia abrir n’um

desvão de muralha aluida, entre cocheiras fétidas, onde a toda a hora

moços esqualidos diziam maroteiras, ou repicavam fadinhos langorosos.

Aquella solidão punha incommunicaveis com o resto do mundo, os farrapos e

as fomes d’esses despreziveis.

Mesmo de dia, fazia noite na caverna, e gottejava do muro um pranto

deleterio, que Clara nunca conseguia estancar.

Esta existencia de privação e sobresalto, subterranea, quasi proscripta,

era de continuo sob a ameaça de tentações singulares, companheiras

da miseria e do abandono. Mesmo estruida e esqualida, a pobre era

ambicionada, espiada, accommettida. Em volta da sua toca, girava

esperando o instante critico, a cambada immunda das cocheiras perto,

homens sem edade, corcovados, rotos, batendo tamancos e batendo fados,

n’um asco de estrume que os degenerava em ratazanas de esgoto. Essa gente

cahida na ultima torpeza, serenos de noite guiando trens suspeitos, moços

de estrebaria limpando o gado e as immundicias do estabulo, sabendo

crimes, conhecendo os vagabundos, ladrões, assassinos e meretrizes, tinha

na cara em sulcos terrosos um attestado lugubre de infamia. Dois ou

tres tinham a Clara de olho, e se a viam recolher da venda, diziam-lhe

maroteiras, roncando de luxuria bestial. Nem se imagina a teimosia d’essa

canalha narcotisada para toda a especie de brio! Pela noite, sentindo

a viella deserta, vinham bater-lhe surdamente na porta, ou cantar-lhe

fados de alcouce, n’uma aravia baixa, onde esguichavam os erotismos do

degredo e sardanapalicas com pretos. E d’uma vez acordando a deshoras,

Clara sentiu-se abraçada pelas costas; e uma voz trescalando a podridão,

dizia-lhe em jactos de ancia—volta-te! volta-te! Havia entre todos um

corcunda que lhe inspirava terror. Era talvez um velho, ossudo e luzidio,

com voz guttural, o vinho carniceiro, typo de impudencia que nada teme

e nada respeita. Na cocheira chamavam-lhe o _Tromba_, pela montanhosa

constructura do nariz leproso e uma dentuça obliqua, asquerosa de carie.

Para bem dizer, era a ultima phase do homem degenerado em besta, especie

de gorilla sem força nem agilidade, conservando todavia nos meneios

cambados e nos traços physicos, evidente a herança do quadrumano-rei. Os

outros da cocheira inda conservavam algumas regalias de homem, guiavam

de noite _coupés_ fechados, podiam transportar-se uma vez ou outra na

almofada dos trens á laia de trintanarios, ou dormir fóra e guardar-se

de certos serviços. O _Tromba_ não. Era um pedaço da cocheira, uma

dependencia do estrume em que dia e noite se atascava o empedramento

do casebre, não podendo sahir mais que para dar agua ás cavalgaduras,

dormindo na palha pôdre pelas bestas esfocinhada das manjadouras,

sob os cheiros da urina, entre guinchos e pulos das argamassas, cuja

voracidade por vezes lhe espetava dentes na pelle sarnosa das canellas.

O alcool, as doenças obscenas e esse rachitismo larvado tão frequente

no sopé das cordilheiras altivolas, tinham-no imbecilisado a ponto de

lhe fazerem esquecer a maior parte dos termos, irracionalisando-o de um

modo assustador. No fundo das suas orbitas lugubres, uns olhos aguados,

mortos, cheios de uma especie de gomma de amido, jámais boliam para vêr.

Fallava por gritos, imprecações e monosyllabos, a homens e a bestas,

n’uma toada sorna, que apenas sifflava forte nos vortilhões de cólera.

Incapaz de commoções intermedias, era terrivel e extraordinario nas

tempestades interiores, que difficeis em salteal-o eram difficilimas de

esvaír, convulsionando-o assim por horas, n’um fluxo e refluxo de doido

furioso. Serviam-se d’elle os moços da cocheira como d’um macaco de

recreio ou d’um urso habilidoso; e em circulo no pateo á hora do almoço,

muitas vezes a Clara os surprehendeu embebedando o _Tromba_ para rirem

depois, vendo-o cabriolar entre farrapos, com uivos de animal feroz. O

_Tromba_ tinha uma paixão pela Clara, fez-lh’o entender umas poucas de

vezes, explicava-o a quem queria ouvir. Essa paixão repellente e sordida

permittia á risota soez dos malandrões de cavallariça, uma serie de

partidas da mais original obscenidade.

O subterraneo de Clara tinha fresta sobre o pateo da cocheira, abertura

oblonga, estreita, sem postigo nem vidraça, onde a horrivel focinhada

do _Tromba_ se collava atrozmente, nos dias vorazes de satyriase. E a

pobre não era senhora de andar na casa, arregaçar as mangas, pentear

os cabellos, curvar-se, dizer alto qualquer palavra, que essa voz

mecanica do idiota, feita de sopros de folle sobre uma palheta relaxada,

não uivasse de amor deshonesto, subindo e arquejando, conforme a

sobrexcitação despertada. Clara buscava furtar-se quanto era possivel

ao campo de visão da fresta. Arrumára as camas a um canto, fazia

a comida n’outro, tinha a louça no reconcavo de outro canto. E se

fugia das palavras d’elle, dos seus olhares chammejantes e propostas

desavergonhadas, era vêr a raiva do idiota impotente para a chamar a

si, como batia nas paredes murros de possesso, como enfiava os braços

pela setteira do covil, agitando as longas mãos de sapo á busca de

coisa que esfarrapasse e destruisse. Outras vezes mais quebrado,

limitava-se a ficar de sentinella ao buraco, a rondar a porta da rua

com sollicitudes de cão faminto. E Clara sentia os tamancos d’elle

batendo as pedras, via-lhe a face unida á hombreira com humildade

sombria, risos de pergaminho, uma magreza hoffmanica, e pela camisola

em rasgões, a cabellugem amarellenta do peito, empastada e fria, como

pêllos de cão morto ao relento. Os pequenos tinham um medo funebre de

vêl-o, choravam em o sentindo vir, recusando tudo o que elle, nos seus

momentos generosos de dinheiro comprava para lhes dar. Uma noite, o

_Tromba_ enfiou bruscamente pelo subterraneo antes que Clara tivesse

tempo de gritar, descalço, cansado, mais livido que de costume—e sem

palavra estendeu-lhe na mão aberta, umas poucas de libras. Ella ia talvez

tocar-lhe, deslumbrada, sem mesmo dar por isso. Mas o _Tromba_ recuára, e

em convulsos sobresaltos onde estralejava a dentuça com ruidos algidos de

ossadas, n’um turbilhão de walsa macabra:

—Se queres, vem-te deitar.

E como ella não dizia nada:

—Furtei ao patrão, não digas a ninguem. Tem lá muito, eu sei onde está.

Clara estremeceu de horror.

Elle disse:

—Anda dormir.

E do seu queixo em cornucopia, áquella ideia de prazer, uma baba

hydrophoba pingava-lhe em grandes gottas turvas. Em lagrimas, voltada

para um passado melhor, a pobre mulher recordava então o homem tão forte

e moço, a quem se entregára confiante, cheia de ventura e varrida de

quaesquer receios, e que depois de a beijar, de a gozar, cansar, infamar

e servir, tornado em fera se aborrecera um dia, fementindo quanto de leal

e socegado lhe promettera.

Ia em dois annos que elle abalára de casa, um dia de festa, no verão,

cantando rua abaixo de a ouvir chorar abraçada aos pequenos, véstia ao

hombro, n’uns fumos de bebedeira da vespera. Aquelle convivio de homem

vicioso que a opprimira tanto vendo-a fraca e dedicada, e a deshoras

arrastava para casa os rufiões e bebedos da sua laia, transformando em

prostibulo o antro em que os filhos viviam, exigindo baixezas da mulher,

explorando-lhe os cobres da labuta cruel que a derruia, pondo-a muitas

vezes pelos cabellos fóra da porta e para o meio da lama, mumificára em

pouco a mocidade d’ella, tornando-lhe carantonha o riso, fallindo-lhe as

carnes, esburgando-lhe as mãos, chuchando-lhe os seios, e pondo-a para

alli estupida, supersticiosa e megera. E por isso talvez ella o amava

ainda, e receberia se voltasse—ai quem dera!—o pae dos seus pequenos, que

partilhára do seu leito, e lhe tinha communicado na primeira scentelha do

desejo, o primeiro impulso da maternidade.

* * * * *

Pela noite nada havia de comer, e a pobre que se sentia peor, deu ao

mais velho os restos do dinheiro, a que fosse comprar ceia, um bocado

de pão, conductos, queijo, e manteiga para fazer papa ao pequerrucho.

O garoto sahiu, levando tres tostões na ponta do lenço. E antes de ir

ao padeiro, como era cedo ainda, alongou-se a passeio pela cidade. A

correr subiu os Paulistas, entrou no Calhariz, e foi indo, indo, até á

praça de Camões. Além da gente ociosa que flanava aos magotes, largando

a officina, altercando ás esquinas, entrando nas lojas de bebidas, ou

embasbacada seguindo na esteira das mascaras e musicatas burlescas, as

ruas arquejavam no viver dos dias de semana.

Estavam abertas as lojas, havia gaz nas _vitrines_, lanternas sobre as

taboletas dos armazens, barbeiros caros, postos medicos e photographias.

Rolavam os pregões enchendo a noite de vozes irregulares, noticias da

ultima hora, cautelas, a rica agua do Carmo...

E em fiadas, salpicando de lama os transeuntes, as carruagens

iam em todas as direcções, cruzando-se, serpenteando, cheias de

_sorties-de-bal_, mascarados finos, e pandegos com desavergonhadas.

Gabriel era um moreno de olhos avidos, presentido, precoce, e de uma

indolencia irritante. E por quanto se lhe deparava de bello, as danças,

rumas de costumes doirados pendendo nas sacadas dos guarda-roupas de

Entrudo, as _vitrines_ profusas de bijouterias, os bonecos, as porcelanas

pintadas, cofres de facetas irientes, terras-cotas, caraças, crystaes e

estojos, sentia uma cubiça invadil-o, e dentro em si proprio, na fogosa

imaginação dos primeiros annos, turbulenta e ingenua, creava um mundo de

folgares e extravagancias, a cada passo modificado, refundido, remendado,

feito de novo, e nunca definitivo, pelo que ia vendo na passeata das

ruas. Começou por exemplo a desejar os soldados, cavallinhos e carros

que via em exposição nos armazens de quinquilherias, á porta do Bernard,

defronte no Seixas, e mais abaixo ainda, na rua do Almada, na _vitrine_

da _Aguia de Ouro_, em toda a parte afinal.

Depois, ambicioso já de projectos, subia a um trem, botas á Frederica

e cabelleira de anneis, ou vestido de azul ao lado de um grande cão

senhoril, como aquelles lindos meninos que acabavam de passar, n’um alto

_landeau_ a quatro.

E de porta-machado, de bombeiro, de pagem, de velho, de diabinho e de

policia, dizendo adeus e esguichando toda a gente com uma borracha de

gomos verdes e encarnados, como via fazer a essa variedade de pequenos e

grandes, que se cruzavam nas ruas, tumultuando a pé ou de carruagem. E

percorreria as casas dos amigos, o Caetano da mercearia, o cabo Ferreira,

o primo Innocencio e os mais, levado pela mão das suas aias, ao collo

do papá, ou no carro do tio, entre criados de farda, velhos e graves,

que dessem excellencia, todos curvados de respeito. Recebel-o-hiam então

n’um côro extatico, sob saraivadas de beijos, na insolencia dos mimos

prodigalisados.

—Não te conheço, mascara, não te conheço! diria o Caetano intrigado,

aflautando a voz.

Á esquina do Loreto, Gabriel deteve-se um instante, aturdido pelo rodopio

da multidão. Vinham em duzias os trens do Calhariz, de S. Roque, do

Alecrim, Santa Catharina e toda a banda, sobre o Chiado que se alagava

em luz, incendindo ao fundo da rampa o _Gibraltar_, e cortando claros

de gaz na serpente humana, que nos asphaltos se agitava penosamente. O

tom dos gritos e vozes, ganhava sobre a respiração geral da cidade, uma

extraordinaria altura. A cada momento, grupos de mascaras rompiam da

gentana lugubre com o arsenal de chacotas sabidas, aos saltos, enfiando

em tumulto por esses armazens.

Eram pastorinhas com faces a vermelhão, marafonas de cigarro ao canto da

bocca, cuia disforme, guitarra á banda e olho frascario—e _pierrots_,

dominós de monco cahido, toda a sucia que escoicinha entre farrapos e

vinho.

Através os vidros das portinholas viam-se dentro dos carros, senhoras

empoadas, vestidos brancos, decotes de flores e laços, luvas de canhão

molle até ao cotovêlo, scintillações de joias, espumas de renda,

braceletes, leques e esmaltes nacarados de risos. Entre os amontoados de

fórmas brancas e fofas, como flores rompendo da neve, ás vezes immergiam

as cabecitas das creanças, em costumes de setim e oiro.

A cidade do vicio · 第 5 / 17 段