Já a saloia ia á porta, dizendo ao marido adeus com a sua mão nodosa,

muitas vezes, e ao descer parou, esteve a olhar saudosamente ainda, e

foi-se. O velho enternecido, ria já tranquillo, recolhendo de sobre

a cama do esfaqueado, os presentes da companheira. Ia repartir a sua

fruta mal-o queijo, com o amiguito de Santa Comba. Laranjas quatro;

eram seis molhitos de cerejas; e o rico queijo sem sal, muito branco,

vinha embrulhado n’uma folha de couve. Ia mettendo tudo nos grandes

bolsos do capotão de briche. O ultimo molhito de cerejas era magnifico e

rubro, inda humido das parras em que viera envolto; e de braço erguido,

cerejas contra a luz, o de Chellas mirava-as muito—eram da cerejeira de

ao pé do tanque, não se enganava. Os olhos riam-lhe de felicidade para

os fructos, como para queridos filhos. Plantára elle a boa arvore, ha

dez annos, n’um dia de orago, estando a mulher de parto. Tão graudas e

vermelhas!... Trincava-as uma por uma, mascando vagarosamente, de olho

pisco. De estalo, meu homem! Cuspia os caroços com orgulho, saboreando

a sua fructa, que viera da sua horta, colhida pelo seu rapaz e trazida

pela sua mulher! N’aquella embriaguez esquecera-se do pé da meia, em que

o dinheiro vinha. Estendeu a mão para a cama, machinalmente, á procura.

O pé de meia! O pé de meia! E não dando por elle, affirmava-se, mas não

o via, o rico pé de meia das economias... Baixou-se custosamente então,

a vêr debaixo da cama, e aos lados da banquinha, nas dobras da coberta,

em toda a parte—nada! Os seus olhos erravam por uma banda e por outra,

exprimindo um pasmo afflictivo agora, e o ar oppresso de quem quer gritar

e não póde. Fez para o marçano:

—Vossê viu por aqui, o pé de meia da companheira?

O outro fez não, com a cabeça. Não tinha visto! Que era? O pé de meia

da companheira? Por seu lado, o velho reflectia, olhando á roda.

Ninguem podia ter-lh’o assim furtado, não se salvasse! Entre a cama do

esfaqueado e as mais, abriam amplos intervallos—da direita era a janella,

da esquerda o canto. E o amigo das facadas nem se movera!... Diabo!

Surpreso, o marçano encarava-o de face, á espera, sem saber.

—É que o levou por engano, tornou o velho afinal.

—Levou quem?

—A companheira, homem! Aquillo é que se esqueceu, a cabecinha de vento, e

guardou o pé de meia. Pega cerejas. Deixal-a!

* * * * *

Pelo cahir da tarde, tinha-lhe voltado abruptamente o accesso de febre,

trazendo comsigo o desvario. Jactitante e curta, a respiração vinha

sifflante na guela, cornea de seccura. Acrescia a difficuldade de estar

deitado, parecendo que uma gargalheira de bronze o afogava, pondo-lhe

zumbidos no pavilhão, e deslocando-lhe as coisas aos circulos por

deante dos olhos, n’uma walsa lenta, em que os contornos e as côres,

se apagavam e fundiam. A espaços, despertando dos lethargos profundos

em que amodorrava horas e horas, ouvia o entrevado prégando mortes,

que já nas sombras da egreja velha, o riso das corujas tinha predicto

noites e noites. Com seculos de intervallo batiam horas no cuco da

enfermaria, alargando n’uma tortura livida, sem fim, as dôres e as

insomnias, e moendo os corpos pela vida morta em que os agitava. Por

vezes o enfermeiro de quarto, de varino, capuz derrubado e lanterna

á cinta, sahia ao guarda-vento para gritar—Dez horas! Duas horas!

Seis horas!—Seguia-se o barulho de passadas somnolentas, vozes que

trocavam ordens, pontos vermelhos de cigarro scintillando na treva do

corredor—eram os moços que se rendiam nos quartos, gente que batia

custosamente o lagedo, e outros levando em padiolas cobertas de negro,

quentes ainda, para o deposito, os miseraveis que vinham de expirar nas

enfermarias. Outra noite então começava, eterna, sem guarida, sob a calma

densa do ambito, que a bassa luz dos lampeões enchia de oscillações

mortiças, que docemente, em franjas vagas, vinham quebrar-se na sombra

tremula dos oito pilares da abobada.

Aqui e além, dois ou tres sonhavam co’a vida livre dos seus mesteres,

nas ruas, nos campos, nas fabricas e no lar, recompondo as scenas

quotidianas, dialogos de atelier, as pequenas birras de familia—e d’alli

para cima entrava um fervor afflictivo, subindo, descendo, intercalado de

haustos fundos, de suspiros oppressos, spasmos de asphyxia momentanea,

cansaços, impaciencias, raivas—depois era ainda a série dos que não

podiam dormir, e para todos os lados rolavam n’um esbrazeamento de sêde,

deitando os braços de fóra, pedindo agua, n’uma irritabilidade de

sentidos que os punha fulos ao menor ruido, ao attrito mais debil, ao

leve ondular de uma luz. E as respirações fundidas com esses movimentos

desordenados davam um concerto informe, alguma coisa como fervores de

cratera activa, ralos que em espira fugiam do rumor geral para morrer em

silvo, n’uma especie de sopro apagado, por vezes n’um ronco até.

—Carne fresca para esta noite! Carne para esta noite!—Que as maganas

estão-se a rir...

Uivo de besta-fera que alarmava de lugubre, a deshoras, zangando uns,

mortificando outros. Sómente desprezando a sucia, indifferente aos gritos

e aos terrores, o enfermeiro estava na cadeira de braços para o quarto da

madrugada, _Rocambole_ na mesa, lanterna ao lado, cachimbo acceso para

matar o somno, e certa idéa gulosa em dois dedos de carne, feminina e

sadia.

A sua sensação dominante, era um odio da vida negra eivada de miserias,

em que amortecem affectos e bons impulsos, todas as lealdades da

estima, abnegações do sangue, e os fluidos de uma sympathia que ás

vezes, instantaneamente, se contrahe. Porque o tirocinio da profissão

deserta de risos, constantemente em face do estertor, da allucinação

e do soffrimento, o eterno espectaculo de corpos doentes, pondo a nú

as podridões do temperamento e das faculdades, a crueza dos instinctos

e os urros da cubiça e do odio, aluira-lhe o ideal de generosidade,

estancando as fontes do bem, da pacienca e do amparo, quanto é inherente

á intelligencia e se bebe de salutar na educação.

Oh, a Julia, que sobrolho promettedor!...

E rolava todo amoroso, n’um espreguiçamento lubrico, cabeça para traz,

na molleza somnolenta que faz para assim dizer, atmosphera ao desejo.

Bocca aberta, cahidos os braços, cachimbo em ala esburacando o capote,

ficou a resonar espapaçado como um odre, e via-se o bigode cahido nas

commissuras, pondo-lhe na cara o laivo despotico de um mandarim feroz.

N’um sobresalto então, o marçano viu uma fórma núa que se debruçava para

elle, de olhos estourados, os braços em arco pintados de figuras azues,

ancoras, letras, cruzes, datas, e de mãos tremulas tacteava as roupas,

por baixo do travesseiro, á procura. De medo, nem pio deu. Olhava a

estranha cabeça, muito chata de fronte e alongada ao alto, pequenina,

afocinhada, de orelhas salientes. Apenas se mexeu, a fórma recuára sem

ruido, como se escorregasse, e as suas mãos buscavam sempre, com incisão

subtil e fina, pelos colchões, abaixo dos lençoes, sob o travesseiro. Que

é? Quem está? Que quer? A adunca fórma vinha com precauções minuciosas,

parecia crescer endireitando subitamente o tronco de livida magreza, em

que saltavam costellas, e a enorme ligadura passava cingindo-a desde

os sovacos até aos rins, com discos de sangue secco. Trespassado de

terror, o pequeno fazia tudo para gritar, em lucta com o pesadêlo das

mais noites—primogenito das grandes febres, em que mesmo acordado,

tresvairava. E a catalepsia era implacavel, completa, prendia-lhe os

braços, prendia-lhe as pernas, gelava-lhe a lingua, estrangulava-o pela

garganta. Via essa aranha de nodosos membros, amarellos, terrosos, cheios

de lanugem parda, cujos ossos davam estalos, indo e vindo, palpando o

leito dos pés á cabeceira, escorregando-lhe as mãos ao longo do corpo,

de olhos fixos, carcomido, atroz, cheirando a raposo e a mattagal. E não

partia, a gargalheira de aço que o estrangulava!...

Transparente da extraordinaria magreza, o larvado sêr dir-se-hia movido

por uma idéa fixa, procurando aqui e além, palpando tudo sem ruido. De

cada vez que as suas mãos tocavam a carne do rapaz, sentia elle uma

frialdade de reptil, pelle escamosa e aspera, que ao contacto dava

irritações doridas. Cada articulação lhe fazia uma massa redonda e

enorme, na linha torta dos membros.

Era todo anguloso e torcido, inutilisado por uma degenerescencia trahida

nos mais simples pormenores organicos, desde os musculos que mal

avultavam comidos de cachexia, até ás phalanges dos dedos, filiformes,

agitadiças, tendo o ar de vermes.

Afinal o estado fez crise, pela condensação de uma grande força nervosa—e

o pequeno deu um berro roufenho e brusco, muito curto, mas ao erguer-se

sentiu a guela oppressa pela pressão de uns dedos crispados. A aranha

cahira-lhe em cheio sobre o peito, tinha-se-lhe aferrado ás guelas,

de pupilla accesa, calada por cima d’elle, e toda inteiriçada na sua

magreza funambulesca. O pequeno debatia-se em vão; mas tinha os braços

livres e atirava-lhe murros ao focinho, dando pontapés sob as roupas, e

furtando o corpo a cada solavanco da guerreia. Luctaram dois segundos

assim, n’um silencio lugubre em que os halitos sifflavam; e o espectro

mordia nas mãos do garoto, aos pulos sobre a cama, furioso, tentando

arrancar-lhe o quer que fosse, mão nas guelas, e a outra mão aggredindo

sem descanso. Afinal conseguiu tirar-lhe o que era, pôz um pé no sobrado,

deixára-lhe as guelas livres. A lucta porém não cessou, era o marçano

quem atacava agora, aos gritos, agarrado ao pescoço do espectro. Tinham

acordado em volta, no entanto, chamavam por gente, estremunhados, sem

saber o que havia. De braços tisicos, o rapaz retinha a fórma núa, sem

largar, arquejando, implorando—dê-me isso! dê-me isso! Mas o disforme

sêr parecia de pedra, olhando de pé a creança que implorava. Tinha já

ensopada em sangue a ligadura, e dobrado para a frente queria avançar

um passo, dizer o quer que fosse, acenar com as mãos talvez; mas ao

tempo corriam, e o enfermeiro atirou-lhe um empurrão—seu malandro! seu

assassino!

Tinha-se reconhecido o das facadas, o que nunca mexia do seu lugar:

e como elle vinha para aggredir, o enfermeiro injuriando-o, n’um

chuveiro de infamias vertiginosas—que viera do Limoeiro para alli,

era um degredado por toda a vida, um assassino, um pulha e um

ladrão!—descarregou-lhe a bofetada em cheio, e com uma cara hedionda

viu-o cahir desamparado, todo um, vomitando sangue negro, que cheirava a

pôdre. Então disse alto, contra o guarda-vento:

—Eh, carreguem o canalha!

Os moços agarraram n’elle, um pelos pés, outro pela cabeça, e a custo

ergueram-no do chão. Ensopada, a enorme ligadura não podendo reter o

sangue das facadas abertas no esforço de luctar, pelos intersticios

deixava-o correr em fio, muito escuro, crepitante, espumoso, nas tabuas,

e pelas roupas, alagando tudo. Esse corpo resequido, sob cuja pelle

tendões sahiam retesados como varas, jogava solavancos para toda a

banda, com os braços, com as pernas, dando urros de touro agonisante.

A enfermaria estava agora em balburdia, e todos fallavam n’um fundo de

pavor, esbracejando, commentando o caso, fallando ao mesmo tempo.

Os moços vinham de atirar sobre a cama o rebelde, que a morte estorcia

em repellões profundos. Viram-se essas pernas flectidas como para um

salto, erguerem as rotulas juntas, contra a bocca torcida, d’onde um

sangue denso golfava ao de manso. E dobrado pela cinta, todo aquelle sêr

mexia, rolava, uivando, procurando apoio nos hombros, nos cotovêlos, nas

nadegas, alçando a cabeça, cahindo outra vez, e erguendo-se ainda para

luctar de novo, na ancia do ultimo arranco. Tinham chamado o interno

de serviço, que veio ao pé da cama, e seccamente, chupando o cigarro

disse—prompto!—e abalou de mãos nos bolsos. O fervor da respiração que

subira mal viera a agonia, cahia lento, com o ruido d’um comboio que

chega, e a mascara ficára rigida e baça, listrada de um bistre singular,

ao ultimo rolar convulso dos olhos. Coincidia com o aniquilamento da

face, a geral prostração dos membros—as pernas abatiam-se n’uma rigidez

de pedra, mettera-se-lhe o peito para dentro como sorvido, e pendida do

leito, a mão que estava fechada relaxou-se, deixando cahir no sobrado

sonoramente, umas após outras, as cinco meias corôas do marçano, que

condensando afinal as suas lembranças, acabava de reconhecer no morto, o

ladrão do armazem.

O HOMEM DA RABECA

A casa para onde me mudei nada tinha de confortavel e resguardada.

Sómente alta e mais clara que o primeiro andar da rua do Sol.

Devia já ser velha; os tectos baixos e o soalho carunchoso tremiam

em os chinellos arrastando. Pelos buracos do roda-pé, as baratas

saltavam de noite aos rebanhos, em cata de alimento. Mas de manhã a

coisa mudava—rompia alegremente o sol, como um companheiro folgasão,

e no parapeito da varanda, as pombas do marceneiro vinham arrulhar

beijando-se, com esse movimento _coquette_ de cabecinhas graciosas, em

que parece viver todo um mundo de pequenos segredos de _boudoir_. Um

pé de eloendro florido chamava as abelhas, abrindo-lhes as corollas

roseas n’um candido aroma de beijos, e em amphitheatro, alargando-se da

Baixa ao cimo das collinas de uma banda, e até ao azul do rio da outra,

a casaria da cidade, liberta dos ultimos vapores da noite, expunha as

suas fachadas brancas, monotonamente cortadas de janellas, sobre que

os tectos cahiam em pyramides alongadas, e de que as chaminés furavam

aggressivamente aqui e além, fumando na risonha luz recem-nascida.

A primeira coisa que pude notar na visinhança, foi que não havia uma

cara bonita. Em baixo na loja do predio fronteiro, a mulher do logar,

suja e gasta, era repellente com os seus enormes sapatos de ourelo e o

corpete do vestido constantemente descerrado, mostrando a carne trigueira

e chuchada dos seios. No primeiro andar, engommadeiras com cara de

homem, cabelludas e amarellas, vinham raro á janella para lançar olhares

obliquos sobre as casas alheias. Por cima era uma mestra—ao lado um

veterano eternamente á janella, de barrete azul, fumando no seu cachimbo

disforme. Na rua estreita e tortuosa, todos se conheciam; creanças

brincavam descalças e ranhosas, tocando latas; de manhã era uma gralhada

de janella para janella sobre a carestia das coisas e as carraspanas dos

maridos—e o mesmo padeiro servia as familias, demorando-se de palestra

pelas escadas.

Ás dez horas, em quanto fazia o almoço, sentia um rumor de passos

cansados, e uma voz dizer de quando em quando—_espera, homem, vae

devagarinho. Alguma vez dás comigo pela escada abaixo!_

Era o visinho do lado, o cego da rabeca, descendo com o pequeno. Iam para

o giro do dia, em quanto a velhota ficava enrolada em cobertores e meio

paralytica das pernas. Succedia topar com elles pelas ruas. O pae era

velho, typo commum dos cegos famintos, com a saccola pendente, rabeca

a tiracollo por um cordão verde e sujo, o chapeu amachucado, véstia de

saragoça. O habito de cantar para as janellas havia-o deitado um pouco

para traz, os olhos escancarados tinham uma serenidade vitrea, a bocca

era um nada atormentada aos cantos...

Em certos dias corriam a cidade inteira, beccos lobregos e ruas humidas

dos antigos bairros, onde parece errar ainda agora uma legenda de facadas

e a bulha de altercações vadias.

Á noite, internavam-se pelos baixos cafés de operarios, Alfama, Mouraria

e Bairro Alto; e alli amachucados a um canto, em quanto gemia a rabeca, o

rapaz erguendo a voz dizia as desgraças dos degredados e as lamentações

do Vimioso, terminando por estender o chapeu á esmola dos que bebiam.

Eram os unicos tristes da rua aquelles expulsos da fortuna, a velha que

ninguem via, o cego e o rapaz macilentos.

Voltavam tarde, extenuados.

—Vá homem, vá, parece que não tens força nas pernas! dizia o cego ao

pequeno.

Succedia, por vezes, Miguel recordar que não havia petroleo em casa,

que as provisões estavam por pagar no João tendeiro, e não seria fiado

real na manhã seguinte se não fosse de logo paga a pequena despeza.

Detinham-se então na escada ou á bocca de alguma loja. O pequeno estendia

a mão tenra e roxa, e n’ella o pae ia deixando cahir vagarosamente e com

pena, uma a uma, n’um _tlin-tlin_ methodico, as pobres moedas recolhidas

no trajecto do dia.

Ás vezes era pouco, tres, quatro vintens.

—Bemdicto seja Nosso Senhor! suspirava o cego, e passavam sem luz essa

noite.

Era nos domingos mais prospera a esmola e triplicava a receita.

Dizia o cego:

—Sempre é dia em que Deus Nosso Senhor descansou.

Por vezes até, uma pobre senhora, compassiva ante a velhice d’aquelle

homem, sem queixa mordendo as miserias do desamparo, offerecia-lhe um

pouco de fato, restos de refeição. Era um prazer, que se poupava o jantar

d’aquelle dia. E deante do pequeno Miguel, cujos olhos vagos e interiores

pareciam absortos n’uma contemplação lunatica, o cego desenrolava

carinhos doces e meigas insistencias para que trincasse os melhores

bocados, perguntas repetidas sobre se tinha frio, dôres de cabeça, os pés

molhados... Rareavam de inverno as esmolas; mal se podia andar na rua,

que a lama cuspida dos trens enchia tudo, e eram inclementes e eternas

as gotteiras dos telhados pingando sobre quem passava sem cobertura. Em

tempos d’aquelles nem os garotos da rua queriam musica—as creanças dos

varios andares, as melhores freguezas das pobres valsas e cantigas que o

velho executava na rabeca não podiam chegar á janella; se pediam esmola,

respondiam logo—Tenha paciencia!

Além d’isso um horror que a policia os fisgasse em flagrante

mendicidade... que seria depois, da velhota? O asylo glacial em que as

cabeças estão cheias de parasitas e os estomagos vazios de alimento,

seguir-se-hia enquadrado na pressão soberba e fria dos fiscaes e

administradores; separal-os-hiam brutamente, o velho para a caserna com

outros invalidos, como elle sem valia, a creança para a _Correcção_, em

que a lividez é patibular. N’esses amargurados dias era necessario comer

a rações. D’uma vez tinham feito um pataco. E a velhota, coitada, sem

remedio!...

A hora do jantar retardou-se n’aquelle dia. Quando era noite, o velho

fallou em irem comer alguma coisa. Queixou-se de não ter vontade, e deu

ao Miguel o dinheiro para que fosse comprar pão. A creança olhou-o com

uma especie de surpreza ingenua; á luz do gaz d’uma loja viu lagrimas

nos cilios tremulos do pae, cuja face cavada tinha uma côr terrena de

angustia. E sem saber porque poz-se a soluçar á esquina, longe d’elle,

para que não fosse ouvido. Ah! era bem negra aquella vida, era!

MATER DOLOROSA

A noite fôra surprehender o rebanho nos cabeços de Montalão, avançadas da

cordilheira adusta, que fechando valle pelo norte, vinham morrer pouco

a pouco em outeiros já cultivados, e mais raros á medida que em volume

e redondeza decresciam. Ia um d’esses verões alemtejanos, calcinantes e

sezonaticos, em que o sol arde desde o nascente ao occaso, não bole folha

a cicio imperceptivel, e todos os leitos de ribeiras sugadas e corcovas

de caminhos, faiscam sob a luz, em reverberações implacaveis; tempo em

que se trabalha de noite, as perdizes fazem ninho, figueiras e vinhas

dão fructos, e nos cantos das hortas, os ouriços se rebolam por baixo de

abrunheiros e damascos, a espetarem nas puas da sua armadura a provisão

de uns poucos de dias. Outeiros e courellas iam já ceifados; viam-se

restolhos amarellecidos rompendo da terra esboroenta, como barbugens

brancas em face de velho. De longe em longe, no _paiz_ cerealifero, uma

ou outra oliveira derreada, cortava um gesto afflicto na crueldade do

céo. E para a banda, em esquadrão cerrado, as azinheiras desfilavam em

negrumes guerreiros e formidaveis, cobrindo o solo por leguas e abalando

em silencio, como para alguma surpreza. Durante o dia inteiro o rebanho

percorrera a pastagem comida e recomida de Montalão, tendo acampado de

manhã nas planuras e faldas da cordilheira, subindo lento por corregos

e ladeiras, e topando as cumiadas por fim. Com similhantes calmas,

impossivel de dormir nos curraes; morriam ovelhas de asphyxia e morrinha,

pelas inclemencias do clima e putrilagens da agua—e a penuria dos pastos

trazia os gados magricellas, atrazava as crias e consumia os lavradores.

Desiderio Jacintho, pastor do rebanho ia em bons annos, nunca tinha visto

mortandade assim—nem que fosse coisa de Deus, para castigo dos nossos

peccados!

Não era o amo só que soffria os azares da calmaceira; que se as perdas

d’elle eram maiores, mais alentados tambem os lucros vinham, havendo

occasiões de lhe trazer pr’o monte soberanos aos saccos, das feiras onde

o mandavam vender cabeças.

Mas o pastor soffria por cima de todos—das onze ovelhas que no rebanho

tinha de seu, tres eram já mortas de gafeira e as outras Deus sabe!

Ora essa noite de restolho nos outeiros tinha sido mal dormida por elle,

e quasi levada no calculo dos mezes de trabalho, que havia de cumprir

para rehaver o triste dinheiro empregado nas suas ovelhas mortas. A um

occaso de extraordinario escarlate, intenso, gradual e enorme, rosando

arestas de fragas com fugitividades de ribalta, fórmas nuas de troncos,

eremiterios e clareiras, succedera uma reviviscencia de rumores,

desde a manhã interrompida—vôos de rolas e pombos, gritos de melros,

codornizes, papa-figos, e o _gri-gri_ dos melharucos, vivo e musical na

altura, predizendo a aura da tarde e pelo canto espaçado antecipando as

Ave-Marias rusticas dos campanarios. Vagarosamente, os cimos escureceram.

Foram-se as arvores fundindo em penumbras errantes, á medida que se

tornava plumbea e baça a calote incendida do ceu; e por fim, tambem o

ultimo riso da luz se foi, já serenamente dormia o campo, fatigado do dia

torrido e a espaços resonando no borborinho doce da folhagem. O rebanho

annunciára gradualmente esta transmutação de horisontes e emmurchecer de

tintas, pelos tons e duração dos balidos.

A cada vez que esbotava nas nuvens alguma d’essas glorias ephemeras côr

de bronze tonkin, esboçadas de acaso como em fins de tela impressionista,

deixando filtrar no erradio da perspectiva lentamente, uns filamentos

mais noctivagos de sombra, sahia d’essas gargantas um côro funebre

modulado em tremulos de pranto, absorvencias de elegia, rythmos de

ballada, e todo convulso ás vezes na afflicção dos mudos, que ao expirar

do amigo ou do irmão, querem blasphemar e têem a lingua impotente! Esse

côro dizia a tristeza de captivos, longe da patria, erguendo braços

supplices, entre vagalhões de sombra tragica e membros flagelladores

de espectros. E ás vezes de mansinho, como se fosse em segredo, fazia

palavras articuladas de queixa, e ia-se apagando, apagando... Correndo a

vista, poder-se-hia contar por corpos, esse exercito armado de chifres

e todo ruidoso dos chocalhos. Iam na frente os guias barbados, chibatos

enormes de pello fulvo e andar solemne, cornos altos, os grandes

chocalhos badalando. E de pescoço erguido, um ar mephistophelico de

barbas, toda a lanugem fluctuante no ventre, esses grandes bodes corriam

na pastagem adeante das mais cabeças, farejando, retouçando, trepando

pelos troncos baixos, subindo aos penedos e fazendo para assim dizer

no seu giro, o quadro graphico do acampamento a occupar. Após seguia a

grande massa das ovelhas, carneiros e cabritas, toda a pacifica e fecunda

legião das femeas e procreadores do rebanho, de cabeças rasteiras, a lã

negra, encarriçada e fofa, e a cornadura transversalmente estriada...

Tinha já soffrido tosquia a maior parte; de fórma que sob a pelle vincada

de tesouradas, os ossos de cada um saltavam na magreza angulosa, ao

menor solavanco dos corpos. E por entre a turba furavam os pequenos

mais velhos, brincalhões e vivos, cabriolando e cahindo, apoiados nas

ancas das mães, ou sugando as tetas com furia de esfomeados. Muitas

ovelhas, enfraquecidas de parto, seguiam devagar, parando a dar mama

ás crias novas, ou cortando gramineas n’um abatimento triste. E atraz

de tudo era a pequenada de meio dia, de um dia e de dois, pequeninos

informes cambaleando esmagados sobre altas pernas vestidas de pellugem

fina e longa, e abanando ao vento as orelhas espalmadas, sem curvatura

e sem meneios. Na vanguarda então, como a luz cahia mais, os bodes

erguiam o focinho parando de comer, viam de lado os ares embaciados, e

as ultimas franjas de oiro das nuvens acertadas ás tiras, sobre um ceu

côr de perola, palpitando nas ultimas radiações do sol. Para baixo, nas

chapadas, era uma confusão sombria de laivos que se deslocavam e fundiam,

tornando a espessura lobrega. E esbatiam-se as ramadas, perdida a noção

das distancias; um diluvio de treva vinha dos valles lento e sem rumor,

submergindo as aldeias, as florestas e as montanhas. Vendo a noite

cerrada, Desiderio Jacintho poz-se a ajuntar colmos, palhoças esquecidas,

fenos que estavam hirsutos á beira de uma alverca ou outra. Depois cortou

ramadas nos zambujeiros que havia, esteve a cardar nos dedos nodosos

o seu pedaço de isca, chapeu de borla para a nuca, a volta do cajado

apoiando o sovaco, um lenço amarello enrolado na cabeça e alforges ao

hombro.

A cidade do vicio · 第 4 / 17 段