E os olhos fechavam-se-lhe no amortecimento de uma enorme fadiga, quando

muito ao de manso outra vez, as taes passadinhas soaram abafando ruidos,

como de alguem que fosse, encostado ás paredes, tacteando as coisas na

escuridade. A vontade d’elle era gritar—quem anda ahi?—procurava os

phosphoros, mas vinha uma cobardia fundil-o todo, batiam-lhe os dentes—se

fossem ladrões!... E na sua mente lendas de malfeitores tomavam relevo,

attitudes tragicas, em que brilhavam navalhas e corria sangue. E os

seus ouvidos zumbiam no terror d’aquella espectativa, e um phosphoro

raspado na parede, abria clarões tibios, a cuja luz, a figura do larapio

tomava relevos de sinistra audacia, o _tic_ sagaz de um animal feroz,

pescoço estendido, á escuta para dentro, e cabeça chata, de um desenho

de carnivoro, a que duas grandes orelhas despegadas das temporas, davam

o aspecto de um mocho, esgalgado e lugubre. _Ó Jasué! Ó Jasué!_... E a

voz que assim dissera, abafava-se em segredar entrecortado, parecendo

voar por todos os pontos da casa, da abobada da loja á escadinha da

cava: quando da rua um silvo discreto, lá longe, na precaução de um

plano estudado, fazia cahir o phosphoro e correr a sombra do larapio,

aos encontrões nas trevas. O marçano fazia então para gritar esforços

desesperados; levavam o dinheiro da loja e a fazenda, o Pinto matal-o-hia

em sabendo... E aquella suprema ideia galvanisando-o todo, fazia-o saltar

da cama com um berro rouco, braços no ar, incoherencias de possesso... O

larapio porem voltava, tinha-se-lhe atirado ás guelas, sacudia-o—quatro

da manhã! Era o ajudante de quarto, com o remedio n’um copinho de folha.

* * * * *

Afinal, abrindo olhos conscientes, ao fim de não sei quantas semanas

de parvoice morbida, conseguiu dar fé com tranquillidade, dos seus

companheiros de camarata, os visinhos mórmente. Era já n’uma manhã de

maio, nos dias em que a humidade das ruelas profundas e o frio dos

interiores desabrigados, fazem parellelo ingrato com a tepidez da luz

exterior, tão benefica que pelos troncos entorpecidos na hibernagem faz

subir revigoramentos de seiva, e vae brotando dos bolbos decorações

patheticas de folhas, como accende nas faces rubores de saude, e nos

corpos rodopios de alegria insaciavel. Essa magnificencia gradual da

terra paramentada de coloridos finos, relvas mosqueadas de malmequeres,

papoilas e maios, as transições infinitas do verde que ondula do amarello

ao anil, bosquejando fundos de oasis ás casinholas rusticas das hortas,

feria pelo contraste os habitantes da velha enfermaria, de paredes

impenetraveis, pilares gigantescos, e esse calor insipido de fogões que

ardem, noite e dia, com intensidade prefixa n’uma escala, amollentando

corpos e favorecendo as fermentações. Alguns hospitalados que melhoravam,

derreados ainda pelo assedio de longas enfermidades, iam de janella em

janella e cama em cama, espreitando a agitação da cidade alastrada em

baixo, na expansão irregular de um bairro pobre, predios esguios, beccos

de escadinhas, quintalorios afunilados, ou a coragem dos infelizes que em

crise hesitavam, entre a franca convalescença e o franco paroxismo.

Um velho camponez de Chellas por exemplo, ingenuo e palreiro, era d’uma

solicitude tocante. Tinha a face rude e calcinada das intemperies do

campo, mãos disformes com dedos curvos, que a convivencia da enxada já

não deixava endireitar, suiça amarella e raza imbecilisando o riso, e

um sincero interesse pela sorte dos companheiros de doença. Curvado no

capotão de briche da casa, barretinho branco atado no coronal, elle

ia encostado ás camas, todas as manhãs saber dos seus doentes, ajudar

os moços no serviço das rações e distribuição dos remedios, contar a

sua vida aos que já iam melhor, dizer brejeirices aos que se punham á

janella, alentar os que se amarguravam ou rezar pelos que já não sentiam.

E uma noite em que o da cama 24 morreu, o de Chellas sentado na cama,

olhos nos dois punhos, chorou umas poucas de horas, como se fosse

da familia, o que fez escandalo nas gentes do serviço, o enfermeiro

principalmente, que chupando o cachimbo, olho morto, lhe chamou em voz

alta—_grande pantomineiro_! O marçano tinha um amor pelo bom homem,

ingenuo como elle, fallando n’um tom descansado que lhe recordava as

gentes de Santa Comba, e que sabia esses proverbios rudimentares, sobre

estados de tempo ou saude, signaes de colheitas ou fortuna pessoal, em

que o povo usa synthetisar o seu patrimonio de observações seculares

e anonymas. Era o velho de Chellas a unica pessoa que lhe mostrára

interesse, querendo saber d’onde era, que fazia, o nome do pai, se na

loja era bem tratado, e que tal de _paparóca_...

Assim, na manhã em que a melhora se esboçou lealmente no marçano, pelo

espirito lucido que volvia ao cabo de um periodo agudo, em que a febre

lhe vedára de todo, percepções fieis e coherentes juizos, a primeira

cara que afrontou, abrindo os olhos de um somno reparador, foi a do

camponez que lhe sorriu, da cama do visinho do canto, a cujos pés estava

assentado. E foi elle quem, no fim de uma grande parlenda sobre a doença

de ambos, com o braço estendido lhe foi apresentando a enfermaria toda,

com a historia de cada doente, as respectivas manias, as gracinhas dos

moços, as invasões bruscas da estudantada, que escancarava as portas do

guarda-vento, para em risos e replicas se espraiar depois, em volta de

cada caso clinico mais curioso. De tudo, n’essa estufa de efflorescencias

morbidas, havia um typo—velhos paralyticos, doenças febris, uma collecção

completa de tisicos em todos os graus, classificados por ordem, cardiacos

de face terrosa e respiração intermittente, enfermidades viciosas que

eram a hilaridade dos convalescentes, anemias, bocios, tumores, um museu

de torpeza physica, fazendo o orgulho de uma população e o delirio de um

clinico. E reproduzindo o riso, a voz e o gesto do doutor, o velho de

Chellas em pé junto ao leito do marçano, arremedava aquelle, d’uma vez

que mostrando a enfermaria a um collega da provincia, dizia alegremente:

—Faz-se o que é possivel para haver de tudo, meu caro. Dá trabalho, não

nego, mas com boa vontade...

—Bento nome de Deus! fazia amedrontado o rapazito, em quanto radioso da

emoção que produzia, o outro tomava folegos, n’um orgulho de contar tão

bem.

—Vê vossê o do numero 13, vê? dizia elle.—Esboçava o typo, detalhando

devagar—aquelle gordo, todo calvo, passando o fogão... Anda por dois

annos que mora cá, entrevadito de todo, e fôra do matadouro. Mau,

santinho, como nunca vi! Desde que entrou, não diz senão agua!—quando tem

sede. Cova!—se os colchões vão abaixo c’o peso do corpanzil, e assim.

De estar para o mesmo lado, semanas e semanas, faz-se-lhe o corpo em

chaga viva; e teem-lhe uma raiva na casa!... Nem admira—não arranjando

recommendações, não avezando gorgeta, nem bom ar ao menos... A principio

vinha a filha, domingos e quintas, com lembranças, sua fruta, e umas

certas pratinhas... Eram descomposturas de morte na rapariga, que por fim

mudou de bairro, entende? aborrecida do trambolho ruim. E o que fica de

contente, em alguem morrendo!—Á força de viver aqui, já conhece o estado

da creatura pelo fungar da respiração. Estando para haver carne fresca,

avisa logo, a rir, como vingado d’alguma birra velha.

Aquelle contar, dava calefrios ao marçano, cuja phantasia ensopada em

toscas superstições de provincia, creava no leito 13, uma incarnação

de diabo sarcastico, vivendo da tortura alheia, perto dos delirios, na

allucinação das febres e no coração das dôres, batendo a therapeutica,

fazendo as crenças debandar, e no crepusculo da agonia alongando sobre

os corpos, azas de morcego, farpadas e verdes, faminto das almas côr de

luar. Mas na sua monotonia implacavel, o velho ia para deante, verboso

e contente, insistindo no caso, biographando uns e outros, referindo

as rações de carne assada, as fomes tradicionaes da dieta, os grandes

desalentos de quando tombava a noite na enfermaria enorme, á hora em

que os accessos vem accelerados, o rhythmo das respirações se turba,

uma afflição convulsa esmaga peitos e coragens, e ás janellas fumando,

os lividos enfermeiros bocejam de tedio e mau humor. Cabisbaixo então,

o velho pensando na sua velha e o marçano em sua mãi, sorriam um para o

outro de tristes, com um desejo no bello sol dos prados, e nos tectos

humildes sob que tinham dormido n’outro tempo. Quando a narrativa chegou

á cama em que o de Chellas estava assentado, o marçano pôz a vista pela

primeira vez no vulto do doente seu visinho, atufado em roupas até ás

orelhas, e immovel como se fôra morto. Tinha entrado com facadas no lado

esquerdo, ia em mez e meio, conforme o velho contou. Poucas palavras,

olhos sempre fechados—quer vêr?

E destapando a cara do intractavel companheiro, o de Chellas gritou-lhe:

—Eh camarada, dê os bons dias á gente!...

O doente virou dolorosamente a cara para o lado d’onde partia a voz. O

movimento que fez, instinctivo quasi, arrancou-lhe das profundezas do

peito um gemido extincto, e o marçano pôde vêr entre a dobra do lençol

ensanguentado e o algodão do barrete de dormir, uma face chupada e rôxa,

cujo olho parecia dormir sob a palpebra cahida, pelle de elephante com

barba rara, enormes orelhas que despegadas do craneo davam a esse todo,

a expressão nocturna e lugubre de um mocho derreado. Deu um repellão na

cama, uma especie de grito brusco que poz em alarme a população proxima.

—Alguma dôr? quiz saber o de Chellas.

—Nada! nada!—e confuso, tremulo de susto, o marçano tinha desejos de

reatar palestra, readquirir sangue frio, rir mesmo do que o outro

contava, mas voltavam-lhe ideias negras, parecia-lhe aquillo um

carcere, os homens sêres ferozes devorando-se em eternas luctas e

eternas intrigas, toda a cidade um covil, e a enfermaria um monturo. E

aproximando reminiscencias, comparando feições, dizia para comsigo ter já

visto aquella face terrosa. Onde? Fosse lá saber! Mas ficára inquieto,

peor, uma coisa parecia estrangulal-o, roubar-lhe o socego e o calor do

corpo. Olhava á roda, vazio de consciencia, opprimido, as mãos errantes

nas roupas.

Fazia magnifico sol n’essa manhã, quinta-feira de Ascensão por signal,

e era de vêr como os convalescentes, abandonando jornaes e palestras,

vinham apinhar-se por traz dos vidros da enfermaria, alongando os olhos

pela paizagem fronteira. Avistava-se já no arrabalde, um pouco das

montanhas da Graça e do Monte, e além, no pendor do valle que se estende

contra a Penha, searas a espigar, picadas de vivos pontos de flôres.

Como era dia da _espiga_, pelas veredas que as terras demarcavam, os

grupos da gente operaria com exercitos de pequenada, iam entre as searas,

serpenteando com fatos de domingo, para colher o ramilhete de papoilas e

espigas, que no dizer da lenda lhes traria ao ninho, felicidades e paz.

Logo de manhã, o paralytico que na velha cadeira de rodas corria tudo,

pedira ao de Chellas para lhe deslocar o vehiculo contra a janella,

saudoso dos tempos em que, como aquella gentana toda, espairecia os

ocios do dia santo, blusa nova, madama ao lado, e o fedelho trotando no

bengalão do pae. Tambem esse foi apontado pelo de Chellas ao marçano.

O rapaz olhou-o de longe, viu uma cara grave expressando saudades de

venturas mortas, e estupida indifferença pelo que em volta vivia.

Tempos! Tempos! E o velho abanava a cabeça todo grave, de olhos no chão.

—Já tem a companheira no cemiterio, contava. O rapaz fez-se-lhe homem,

e foi degredado por navalhadas. Ninguem herdaria o nome do ferreiro

honrado, nem a ferramenta do officio, que por cincoenta annos, as mãos

d’elle haviam puído na bella coragem de um labor sem treguas. Tudo

n’esse hospital era pois triste, cheirando a tumba—miserias, desgraças,

quedas!... Tremia a alma com frio. E tambem pensativo, o velho de

Chellas, erguia o olhar sobre a paizagem fronteira, viva de mundo e

penetrada dos fremitos da aura e do sol, que manso, mansinho, iam fazendo

ondular os colmos das searas e as folhitas das oliveiras. Áquella hora,

tudo abriria no seu pobre logarejo, corollas de risos matinaes, simples

e sinceros como a alma dos prados verdes, exhalada no cantico dos

passaros e na bruma cerula do entardecer. Iria chamando á festa o sino

da egreja; gente de casaes aos ranchos, entrava talvez o velho portal

de ogiva, gothico da primeira dynastia, e no arraial flautins e bombo,

animariam o bailarico de cochopas com moleiros, espessos como bezerros.

D’uma banda o rio espelhado, e da outra collinas verdes picadas de

pomares em flôr, altas noras ronceiras, e moinhos de vento em rodopio,

enquadrariam a paizagem n’uma suavidade casta, cheia de fecundos sonhos,

nupcias, beijos, atomos de sol e borboletas sacudindo o iris das suas

azas turbulentas. Cada corolla seria um ninho, e uma fuchsia cada insecto

bicôr. Nas colmeias das hortas, abelhas iriam fazendo pacientemente,

cathedraes de favo, gothicas e fulvas, com o perfume de todas as flôres

e a doçura de todas as nectareas. Um deus coroado de folhas, crinas ao

vento e riso de auroras, baccho pelos cachos do carcaz, meio homem,

meio monstro, esculpido nas troncagens das cepas, entre tufos de parras

e cannaviaes, ou nos farrapos de nevoa, á hora em que espadana o sol

das cordilheiras, espargiria sobre a natureza ebria, a munificencia

das suas graças sem par. E na ponta da aldeia, á porta da casinhola

terrea, a velhota de roca hirta no cós das saias, faria bailar o fuso

nos dedos, longe do fuso e da roca porém, tendo o pensamento no seu

velho do hospital, e chorando por isso mesmo. Ah, pae do ceu! Que seria

das vaccas, das leiras de repolho, do batatal e da jumenta parida!... E

campo fóra, apanhando espigas, chapeu largo e cantiga prompta, elle via

a gentana trepando, serpenteando, correndo, e ficava-se amuado de estar

preso, de se vêr doente, espectador de tantas miserias e de tantas dôres!

Assim estiveram calados, deu uma hora no cuco da enfermaria, e o marçano

attento no das facadas, via-lhe a immobilidade do corpo afogado em roupa

até aos cabellos, e o quebramento da postura, sempre a mesma, vazia e

morta. Fazia-lhe um medo algido aquelle homem tão quieto, a que nenhum

remedio arrancava melhoras, sempre na mesma, sempre na mesma, não dando

palavra, não respondendo ao medico, nem ao menos deixando vêr uma pagina

sequer do que fazia por fóra.

—E como vae elle? perguntou o marçano, indicando ao de Chellas o vulto,

de soslaio.

A resposta do velho foi:

—Diz que marcha.—E tão laconicamente dita, a sentença de morte deu

allivio ao pequeno, que muito baixo para dentro de si, ousou dizer—ainda

bem!—como se o mundo lhe ficasse aberto, por se fechar mais aquella cova.

* * * * *

Permittia-se áquella hora entrada na enfermaria, e em quanto com

esmeros postiços, os moços alisavam a roupa aos protegidos, refazendo

as dobras, achegando á cama bancas de cabeceira, e pondo a geito os

escarradores,—pessoas da rua, acanhadas, passeando os olhos de cama

em cama, á procura do seu doente, iam entrando receosas, as mulheres

sobretudo, de tanto homem estiraçado. Os que na vida ainda tinham pessoa

chegada, velhos paes ou maridos, irmãos, amigos, companheiros de predio

ou de officina, levavam os olhos para o guarda-vento, á espera d’um rosto

conhecido, que lhes viesse sorrir e fallar. O entrevado deixára-se ficar

na eterna attitude de dois annos, indifferente ao que ia, n’um egoismo

imbecil em que fuzilava rancor. E da janella mettia dó tambem, a face

do paralytico, pintando uma d’essas tristezas planturosas e mudas, que

até fazem pena ás creanças, e de que a gente toda a vida se lembra.

Nenhum d’elles tinha quem lhe quizesse já, e as affeições dispensadas

aos outros, mulheres revendo maridos, filhos beijando os paes, irmãos

beijando irmãos, e amigos dizendo o que ia por fóra, escandalos de

rua, casos de officina, projectos e desastres, faziam na alma dos dois

como um estridor de bofetada, insulto que se não perdôa, e traz odio

como reacção. Mas de repente, atraz do velho de Chellas, alguma voz

atabalhoada disse:—Eh, marido!...

Voltou-se elle logo áquelle timbre conhecido, braços abertos, querendo

erguer-se d’onde estava sentado e sem poder. Era a sua velha saloia, de

botas crúas e lenço amarello.

—Eh, companheira!...—Largando o chalito de baetilha, a pobre tinha-lhe

cahido em cheio no peito, chorando sem fallar, e toda alegre por vêl-o já

de pé.

Riam em volta d’essas ternuras de setenta annos, vivas e sãs, que

tinham, tão simples, um perfume casto de bodas de oiro, ao tempo em que

um moço, apontando o leito do marçano, disse para um senhor—é aqui! E

inesperadamente, o pobre rapaz deu de cara com o Pinto, solemne no frack

preto dos dias santos, suiça rasa e cabello á escovinha, o alto ventre

liberal, d’onde medalhão e corrente escorriam, n’um pus de riqueza gorda

e chinfrim. O merceeiro adeantou-se, face austera de patrão, chapeu alto

pendente, e mantinha de pavões bordados. Entrou logo n’uma lenga-lenga

nasal e rapida, sem deixar fallar, onde pesava a nota hostil da sua

posição superior. Como estás? Como não estás?

Que lhe tinham botado causticos—quantos, mesmo assim? E proseguiu—se

purgavam? Era essencial, para puxar os humores.

Deixa doer quem doe! Elle bem lhe recommendára na loja, tivesse

resguardos. Advertir um homem casmurros, é malhar n’um ferro frio. E

quasi o mandava ficar bom no dia seguinte, impacientado, embirrativo,

pela falta que fazia na loja.

Veio o senhor enfermeiro de mãos nos bolsos, o grande avental com chapa

da casa, bonnézito á banda. E sabedor da alta posição que occupava

aquella figura, o Pinto fez-lhe a reverencia, estendeu-lhe a mão com

o grande riso de receber visitas, deu-lhe—_bossa senhoria_. Entraram

a conversar na vida, tão trabalhosa para quem não queria andar á

dependencia. E o Pinto disse o seu negocio, como tinha começado na rua

dos Vinagres com a tendinha do canto, de sociedade com outro. E como

subira pouco a pouco, sempre com honra, felizmente. N’um entorpecimento,

o outro escutava, olhando por cima a chafra-nafra da enfermaria, tão

pittoresca pelos visitantes que entravam, e pelo barulho das vozes que se

embatiam. O merceeiro então, para lisonjear tão precioso donato, fallou

nas doenças do tempo, na sabedoria dos enfermeiros, _tão entendidos_ que

chegavam a embrulhar cirurgiões—e pela primeira vez, o funccionario teve

um gesto de concordancia, e disse com magestade batendo o avental—sim,

sim!

—Se a doença do rapaz daria para muito ainda?

—Conforme, disse o enfermeiro. E com ares profundos:—Não se póde prevêr.

_Logo por conseguinte_, póde estar um mez, dois...

—Dois! disse o Pinto com espanto.

—Tres, ou mais. Conforme. Vae melhor, vae melhor. Mas o Pinto já não

o attendia. Dois mezes! E encarava duramente o marçano, como se o

estivessem roubando.

O pequeno lamentava, de cabeça baixa:

—Que por sua vontade não estava alli. Se o snr. Pinto cuidava que era

fortuna, a vida de doente... Ah! elle não tinha culpa, por sua desgraça,

não tinha culpa...

Mas o merceeiro sem attender, voltava á carga, atacando, fazendo-se

ouvir. E o tom secco, cerrado e baixo da sua voz, opprimia pela dureza,

vinha em saraivada cortando respostas e lamurias, alquebrando mais o

pequeno, e pondo-lhe nos dedos e na espinha, a frialdade cruel do medo.

—Nem todos teriam esperado como elle, tres semanas assim. Era mesmo

abusar! E que se a coisa dava para tarde, não teria remedio senão tomar

outro. Meu rico, dizia-lhe enterrando a cabeça nos hombros, com um brusco

movimento ascensional de espaduas; custa! Mas é marchar para a terra.

Reprehendia-o como de costume, pela fraqueza physica, a miseria dos

ossitos cambados, a carne molle que cedia prostrada ao mais leve esforço,

caniculas de braços, peito para dentro, amarellidões de uma lesma. E a

sua carne triumphante e rubra, que a fartura da mesa regalava e mantinha,

cuspia desprezos aridos n’essa miseria de fedelho chupado, que vergava em

cobardias de vime. Servia lá, nem o diabo! E vendo-lhe lagrimas, temendo

que tivessem reparado, fazia a voz alta, amansando a expressão do dizer.

—Cura-se, deixa. Com descanso e tempo, inda vens a dar ahi um

granadeiro.—E queria rir; era hediondo a rir! Por fim tirou a bolsa,

ficou-se a olhar á volta para que vissem, mexia nas meias corôas novas,

fazendo-as tenir, e uma a uma, deixou-lhe cahir cinco na roupa, que

telintaram chamando as attenções de toda a casa, pessoal e doentes. Os

que ficavam perto, ergueram um rumor de admiração sympathica—que rico

patrão, a bella pessoa, feliz de quem servia homens assim! E pediam de

mão estendida, o ar exhausto, para tabaco. Ao tenir da moeda, o das

facadas abrira olho, immovel nas roupas, e pelo canto via attentamente

o rapaz entretido nas meias corôas generosas, e o Pinto a distribuir os

meudos que tinha, fazendo alargar o côro de bençãos, oleoso de orgulho,

o medalhão oscillando no seu ventre burguez. O episodio fizera esquecer

o par de Chellas, velho ao pé da velha, isolados dos mais, e referindo

negocios de casa, esperanças no anno e o pequeno lucro das vaccas. Tinham

sido abençoadas as aguas de abril, a sementeira enchia olho, nascera um

burrico, e na venda do leite, o rapazote tinha dias de seis tostões e

mais. O velho impacientado, mexia a perna doente, como a infiltrar-lhe

vigor.

—Esta maldita que não enrija! dizia. Esta negregada sempre na mesma!—E

procurava quedar-se de pé firme, por minutos, até que forçado a sentar-se

rogava pragas, zangado da edade, da fraqueza e da demora.

—Paciencia, volvia a velha. É já por pouco!

E arregaçando o saiote azul, de estamparia pobre, tirou da enorme

algibeira de retalhos um queijo fresco, as primeiras cerejas do hortejo,

quatro ricas laranjas, e o pé de meia do dinheiro, para se abrir c’os

enfermeiros em tendo alta. Um no outro, repousavam olhos tranquillos,

na tocante amizade d’essa ligação tão longa, que a velhice despira

já de erupções e arrulhos. E fallavam de tudo ao mesmo tempo, para

aproveitar bem a visita—quando elle sahisse, não era verdade?... e as

dôres que tinha soffrido, passeios ao sol, na cerca, por ordem do doutor,

as chuvas, e das manhãs que vinham brumosas ainda, e da vida de cada

qual na enfermaria... Interessada, a velha ria para os lados, a um e a

outro, feliz por dar a sua piedade de mulher ao infortunio dos tristes,

que sobre enfermos eram ainda por cima desamparados de affeições. Por

descuido ficára entreaberto o guarda-vento, e como estivessem voltados

para lá, viram passar no corredor um padre, de barrete e estola negra, e

atraz, pouco depois, o sacrista que levava uma grande lanterna accesa e

cruz alçada.

Encararam-se brancos, adivinhando a mesma coisa funebre. O queixo da

velha tremia, e na crise nervosa que viera, os seus braços apertavam a

cinta do velho, como a furtal-o a perigos. Era a Uncção, a alguem que

partia d’este mundo.

—Adeus, disse ella tristemente.

Tornou o marido—adeus! E a olhar se ficou, bestificado nos aspectos

sepulcraes da catacumba, a reconstruir aos pedaços, scena por scena e

grito por grito, o lugubre drama da vida hospitalar, que desgrenhadas

visões alumiavam, a labaredas de horror. Essa passagem do padre no

corredor, lançára um calafrio nos catres—parecia menos triste o

paralytico, e da sua cama o entrevado ria alto, com um gargalhar imbecil

que era diabolico, exprimindo deleites de uma vingança, sinistra de vêr.

Desentoada, sem modulações, como sahindo de uma larynge sem cordas, a sua

voz cascalhava a espaços, acima do borborinho geral.

—Lá vae padre, lá vae padre! Carne fresca para hoje!...

A cidade do vicio · 第 3 / 17 段