Cada pequenina folha rebentando, trazia ao mesmo tempo, herdadas

lascivias secretas, como uma ancia nupcial que alongava os peciolos em

pescoço para os beijos do amor frenetico, revirava os apices como linguas

á descoberta d’alguma nova sensação, irritando em titillações mysteriosas

sobre os reversos das folhas, as villosidades e pellos, no doido prazer

esbanjado de uma kermesse. Do entresolo dos bosques vinham susurros de

catadupas, azenhas trabalhando, gemidos de caules vergastados, ou ultimos

idyllios de folhas outoniças que esvoaçam já mortas. N’essa transição de

quadra, a natureza chorava melancolias lyricas, e se o bocejo da nevoa

rasgada, deixava contemplar por momentos algum florão de ceu brunido a

reverberos de sol, viam-se no azul pallido, sobre o engaste do horisonte,

os dulcissimos furta-côres que teem certos nós da madreperola, tons de

nacar, junquilho, turqueza e oiro, fundindo em maravilhosos reflexos.

Nas setteirás da grande chaminé provinciana, larga e alta como um torreão

de solar, o vento bramia em todos os tons, da raiva á supplica, querendo

a todo o transe assaltar a vivenda, implorando, dizendo segredinhos,

batendo pancadas humildes, e quedando-se após como salteador, na

esperança que fossem abrir.

De noite, uma chuva batera as vidraças e cahira sonoramente nas

telhas, sob os golpes da ventania inclemente. Tempo que desalentava os

trabalhadores e embebia de tristuras a alma fragil das mulheres!

Pelos vidros da alcova, via-se um bocado do jardim, pimenteiras verdes

fazendo oscillar ao vento o seu pranto de folhitas oblongas, eloendros

sem flôr, cedros anões, pyramidaes e bojudos, canteiros de anemonas,

rainunculos, goivos, rosaes e alfazemas, toda a flora chinfrim dos

quintalorios de provincia. E alongando os olhos, Maria de Jesus via mesmo

deitada, os queridos arbustos que os pardaes debicavam, e todas essas

flôres mal abertas, que nos canteiros punham mosaicos de irregulares

coloridos.

A casa ficava d’alto, sobre uma ondulação dos saibros, por fórma que

das janellas acima mesmo da parede do quintal, podiam dominar-se todas

as perspectivas agricultadas do valle. Eram renques de castanheiros

á orla do rio barrento, que a planura repartia em veigas ferteis,

laranjaes, olivaes, latadas e quintarolas cingidas por sebes de piteiras

e sabugueiros, cantos de courella onde pascia a indolencia fulva dos

bois, jumentos e ovelhas roendo pellugens nos vallados. Mais para lá,

grandes amphitheatros de outeiros, hirsutos de matto e crenelados de

penhas lugubres, armavam escadarias de cyclopes contra a nevoa ondulosa

dos ceus—e nitidamente cortados em brancos de caliça violentos, sem

claro-escuro, fins de aldeia iam-se esbatendo nos primeiros planos,

collina abaixo, casas terreas com chaminés sahindo em torrella das

frontarias, esbracejos de parreiras por cima dos muros, medas de azinho

e serras de palha em cathedral, carros de matto erriçados de fueiros,

portões de adegas com mariolas provando o tinto, mulheres fazendo meia

nos poiaes das portas, gallinhas e porcos revolvendo as estrumeiras

podres, ruidos de bigorna, cantos de gallos, e no cotovêlo da estrada, já

distante, dois paus em cruz historiando um assassinato.

No quintal, por cima do palheiro, a um lado, havia um mirante com

balaustrada de louça, a que se subia por uma escada de tijolo, orlada de

craveiros e cachos de fuchsias. Entre palheiro e mirante era o pombal.

A cama da doentinha ficava n’um angulo da alcova, e por entre as

cortinas podia ella, mesmo deitada, alongar a vista contra a residencia

das queridas aves, que em grupos na cimalha do mirante, nos angulos

do telhado, ou á porta das pequeninas moradas, se agachavam tristes,

pennas em tufos, cabecinhas debaixo da aza, ou bico alto, espreitando a

hostilidade parda do ceu. Um ou outro pombo audacioso voava ás vezes por

cima do mirante, em arrulhos timidos, saltitando nos balaustres, cauda

em leque n’um gracioso movimento de subida e descida, e esse debicar de

volatil ocioso, que procura distrahir-se fazendo mal.

A rajada porém fazia-o volver logo ao ninho, impotente para o vôo, de

cabeça baixa e azas molhadas. Mesmo tossindo, face irritada de rosetas

funebres, guela secca de febre, Maria de Jesus seguia as sortidas dos

seus amiguinhos, cheia de dó porque elles soffriam.

Esse dia foi cruel para todos! Ás duas horas, a febre trouxera desvario,

e o Santo do Outeiro, com a barretina ao lado e cruz em riste, mais o

embuçado de aos pés da cama fazendo rolar pela barba fulva, grandes

lagrimas silenciosas, volveram a encher de scenas tragicas a mente da

pobre criança, walsando, passando, estacando, esgrimindo gestos de todas

as fórmas, e descobrindo á luz uma face em que se repintavam todas as

emoções e momices. Tão alto o resfolegar, que se ouvia nos quartos

proximos, arquejante, estriduloso, acabando por vezes em silvo. A pelle

secca, de contactos asperos, queimava como se fôra uma braza, e no peito

que tomára tons amarellos, o animal feroz do coração, comprimido na

jaula, batia de encontro ás paredes, pondo na carne solavancos temerosos

de vêr. Ao mesmo tempo, espicaçava-lhe o tronco o cinto de causticos

que lhe fôra applicado; machinalmente os seus beiços diziam—agua!—e

escancarados n’um pasmo vitreo, os olhos erravam no tecto á procura de

um ponto tranquillo, onde não chegasse em galope o _djerid_ de phantasmas

traiçoeiros. Bateram Trindades, já os ultimos ares do dia eram absorvidos

na sombra dos aguaceiros, e da alcova esclarecida a luz de lampada,

nada se descortinava sobre o pombal ou sobre o jardim. Mas os vidros

da janella tremeram de leve, uma grande mão de dedos esguios bateu

devagarinho, bateu...

Dôces e tristes, os olhos da velha mãi reconheceram na treva, a aza

do pombo negro fatidica e implacavel, a que o indeciso da noite dava

proporções desmesuradas. A tremer chegou-se á filha, viu-lhe um riso

suavissimo, espiritualisado de angustia e todo luminoso de innocencia.

Cahira o arquejar da respiração, as palpebras cerravam-se-lhe repousando,

e no desenho do corpo indeciso nas penumbras do quarto, a pallidez da

cara sómente, punha em redor o divino clarão de uma aureola de martyrio.

—Os pombos! tornava surdamente a velha, os pombos!...

E era toda a sua queixa.

* * * * *

Pelo dia seguinte a esperança estava perdida. Os tecidos flaccidos

abandonaram-se a uma lassidão tenaz, sem resposta a estimulos de qualquer

ordem. Mal se sentia a respiração da doente, e como um pendulo que

faz em cada vez oscillações de menor arco, assim o impulso do coração,

successivamente enfraquecia. Ao chegar de manhã o velho doutor Patricio,

inda sentiu sob os dedos nodosos, o pulso vermiforme que ondulando fugia

n’um fio tenuissimo. Ás dez, a onda partida do coração era menos viva já,

e mal chegava abaixo do cotovêlo.

Depois fez-se inda mais curta, e lembrava assim o exercito em retirada

que lentamente desguarnece um acampamento. Mal lhe sentiu frias as

extremidades, e n’um desvairamento de morte, pôde estudar no rosto da

filha a anatomia mortificada e plumbea, que é o _toilette_ do corpo para

as bodas do cemiterio, a pobre velha desatou a bradar pelas casas como

doida, tropeçando nos moveis e despedaçando as roupas da sua misera

viuvez.

Corriam ao appello os velhos amigos da casa, e as santas mulheres que

tinham visto nascer a pobre Maria. E um chôro cortado de lamentos, enchia

a casa, fazendo alarme nas ruas. Alguem notára desusada actividade no

pombal. Os chefes entravam pelas casinholas e picavam raivosamente as

femeas no agasalho do choco, fazendo-as abalar dos ninhos; e em revoadas

doidas por cima do mirante, a turba frenetica afugentava alguma coisa dos

ares, parecendo perseguir um inimigo occulto, sem arrufos, sem arrulhos,

mas por uma fórma incansavel. Na vertigem da debandada eram profanados

os ninhos, rolavam os ovos do alto, ou vinham-se esmigalhar nos tijolos

da escadaria os pobres borrachos, brutalmente investidos pelos paes.

Por vezes toda a buliçosa legião pousada nos cimos do mirante, armava

linha de batalha com graça marcial, em que faziam mosaico as armaduras

de plumas dos peitos, e o furta côres dos pescoços levianos. O pombo

negro, que dir-se-hia ter crescido pela noite, parecia commandar o veloz

regimento, e no extremo da fileira, cabeça alta e olhos inquietos,

estudava o horisonte tumultuoso das nuvens, que um dardo de sol

ensanguentava a espaços.

Ia pela abobada uma decoração dantesca, profusa em contrastes de negro e

branco, com fumaradas errantes que o vento acossava de onde a onde. Por

instantes condensada em cupula, ou rachando em zig-zagues de oiro sob o

choque dos bulcões em peleja, uma felpa de negro electrico, pastelava

ameaçadoramente a amplidão, n’um tom unido azul d’aço, felpa que era como

o grosso do invencivel exercito de nuvens. Não havia ainda trovões, e o

ar rarefeito transmittia sons difficilmente. Além d’isso, dava-se nos

sêres e nas coisas uma suspensão de assombro, recolhimentos de plateia á

escuta d’um lance tragico.

Viam-se chegar galopando os ultimos esquadrões da tormenta, ao de manso,

n’um pittoresco de emboscada, com as suas provisões d’agua e fogo.

Aquillo galgava por cima das montanhas, ennovellando-se em musculaturas

titanicas como nos despenhados de Milton, e subindo a tomar fileira na

formidavel ordenação da batalha. Alguns medonhos athletas ficavam por

momentos em pé sobre os morros crenelados da cordilheira, alongando os

braços n’uma selvageria de fórmas. E arrojando ao largo os capacetes e

escudos, pousavam de cabelleira em floresta, a provocar em volta esses

anões terrenos que se agachavam de medo.

Mas outros mais arrogantes, vinham logo atraz d’esses na escalada

emprehendida, cavalgando-os, cingindo-os em lucta singular, e subindo ás

costas dos que vinham depois. E bagagens, animaes de ataque, leões em

rebanhos, jaguares e pantheras, carbonosos elephantes armados de torres,

carros de guerra com panoplias de tridentes... Ante essa invasão sem

barreiras, a natureza amedrontada retrahia-se em fremitos. Nem um vôo,

de arvore a arvore. Nos pinheiros, castanheiros, e oliveiras de troncos

rocados, havia gestos de supplica e dôr centenaria. Por baixo da sua

velha ponte romana, e todo cosido com os pedregulhos e juncos do leito,

desertava o rio sem rumor. Um trovão principiou em surdina do extremo

horisonte, veio vindo, vindo mais retumbante, como se quizesse fender

essa basilica armada em funeral. O pombo negro abria n’esse instante

as azas a pairar um segundo, e no mais alto do mirante pousou-se n’um

grande vaso de cactos, como n’um miradouro de fortaleza cercada. Tinha a

cabeça vibrante, bico no ar, o peito rufado—e com os seus olhos castanhos

observava os ceus de lado, altivamente, no seu posto. Cahiam já grossas

gottas de chuva, que o ar riscavam de arames parallelos, rolando pelo

terreno em espheroides vestidos de poeiras fulvas.

Em magotes por essas azinhagas, enxada ao hombro, ramos de trovisco

nos chapeirões, jumentos pela arreata, os trabalhadores recolhiam-se á

villa, amedrontrados, recomeçando a _Magnifica_, um ar de deslumbramento

estupido. E alongando os pescoços n’uma angustia, as vaccadas mugiam

fundo, sob o peso da asphyxiante atmosphera. Branca de encontro á fuligem

do ar, a villa resahia agora n’um minucioso desenho de casas lavadas,

chaminés aggressivas, e portas carreteiras fechando por cancellões de

ripa, como se um grande reverbero em meio da sombra a rembranisasse.

Começavam ruidos subterraneos, vertigens bruscas de relampagos...

Nuvemzinhas pallidas, gazes de tessitura fragil, punhos de _valencienne_,

e plumas de leques rasgados em crispações de raiva, corriam, pousavam,

debandavam, damasquinando os negrumes com phantasias niveas.

E o pombo negro não descançava nunca! Viam-no voejar em ellipsoides cada

vez mais largas, investir bruscamente pelas ventanas do pombal, cuspindo

de dentro a palha dos ninhos com turbilhões de pennugem.

A sua actividade tinha coleras e vertigens. Elle fazia debandar o

batalhão dos guerreiros, ia e vinha allucinado, mais negro que nunca,

reflexos de aço nas azas, e um alvoroto de pennugens na raiz do bico.

As mulheres menos maguadas, que para distrahir-se vinham olhar pelos

vidros as arvores do jardim e a vida do pombal, espantavam-se de

similhante tumulto de aves.

—Que terão os pombos? Que adivinharão os pombos? perguntavam fingindo

ignorancia. Todas porém sabiam a historia da deserção. Era o agouro

realisado, toda a familia de almas que ia emigrar, acompanhando ao

céo a sua irmã, envolvendo-a na jornada, defendendo-a com as azas,

alimentando-a com arrulhos, vestindo-a da brancura divina da sua pureza,

e emittindo-lhe o esplendor da sua graça.

Quando o velho doutor chegou, a face de Maria cavára-se de todo, havia na

sua testa diaphaneidades de cera, e um tom verde-negro raiando-lhe das

fontes, afogava-lhe as feições n’um como luzeiro phosphorente. Nas azas

do nariz vincadas a ferro, pontos fulvos depunham-se em crystallisação

microscopica, como o pollen de uma funerea flôr desmanchada. E os olhos

abertos, gelados de humores, perdida a transparencia, davam á physionomia

uma singular expressão de acabamento, angustia e suavidade idiota,

deixando vêr no terrivel relance, como o animal se ia transfazendo em

coisa.

—Rezem, disse o velho em voz alta, pondo o chapeu para sahir, no meio dos

choros renovados.

Os ultimos pombos abriam as azas, abalando por sua ordem, a installar-se

na enorme serpente, que se desenrolava palpitando sob a irisação de um

ultimo raio de sol doentio.

—Os pombos! os pombos!... dizia agora toda a gente.

O ROUBO

Á porta da enfermaria pousaram a maca, á espera.

—Eh Ramon! gritou o enfermeiro, do fundo. Um servente já velho, olhou na

direcção da voz, e de venta no ar, mangas arregaçadas, o labio estupido,

farejava. O enfermeiro juntou:

—Cama do canto, vá!

E com o seu geito vagaroso, abria em volta de um que expirava, o biombo

isolador, papel azul e verde, com ramitos de rosas e borboletas.

Alta e interminavel, a enfermaria recordava ainda o claustro d’onde

nascera, com as suas pilastras de cantaria bruta, a abobada caiada de

que os lampeões cahiam symetricamente, e janellas d’uma banda e outra,

encimadas de respiradouros circulares. Tinha talvez cem doentes a

caserna desconforme, em cujo circuito se viam pequenas bancas de pinho

com escarradores de folha, boletins clinicos pendendo a cada cabeceira, e

na brancura amarellenta das fronhas, cabeças lividas de olhos estoirados,

que se sentiam sós entre tanta gente, e mais soffriam de contemplar os

males circumvisinhos. O enfermeiro era um de olhos biliosos e barba dura,

cuja rude voz destillava monosyllabos roucos. O seu ventre abahulava-se

em obesidades balôfas e a face livida, picada de variola, tinha uma

expressão cobarde, espesinhada por esse longo mister de humilhações.

Os ajudantes, gallegos velhos, não eram mais dôces de modos, e dia e

noite altercando sobre qualquer coisa, batiam os sapatorros no sobrado,

mostrando pelos descosidos da camisa, musculaturas de toiro sob epidermes

de gallinha cozida.

Era quasi noite, e estagnava á flôr das coisas, uma penumbra morna em que

se multiplicavam as larvas da febre, na atroz labuta da podridão. Tinham

descoberto a maca no entanto, o enfermeiro viera vêr pachorrentamente, e

com um dedo mostrára aos serventes a cama do canto, já prompta a receber

hospede. Cada um d’elles então, foi a seu lado da maca; o mais baixo

agarrou nos varaes da frente, o mais secco nos de traz. O enfermeiro

disse—upa!—e em direitura á cama, a maca atravessou a enfermaria. O

doente que vinha de entrar, era um rapazito enfezado e triste, cabeça

oblonga toda rapada, um geito de dizer provinciano, e essa doçura de

olhar em que se estrellam todas as resignações. Devia contar treze annos,

e viera aos dez de Santa Comba, recommendado ao Pinto por um lojista da

terra. A vida na loja, durante os tres annos, fôra uma aspera peleja, de

madrugada ás onze horas da noite, dia a dia, sem repouso. Era elle quem

varria, como marçano mais novo, quem punha os taipaes, e manhãsinha abria

a porta, limpava o pó e moía o café. Mettido no saguão de lagedo ou na

cozinha tenebrosa da loja, onde de verão e inverno, uma baba salitrosa

e gelada chorava da cantaria immunda e das paredes pulverulentas, ahi

passava os dias, só com uma triste camisa coberta de nodoas, arregaçada

nas mangas e rota por toda a parte, calças de cotim sobre as pernas núas,

e tamancos nos pés sem meias, engordurados e torpes. Os invernos tinham

sido implacaveis n’esse antro, mesmo para o montanhezito afeito aos

gelos das serras beirãs. Como os portaes não tinham portas, um ventinho

horrivel cortava pelo corredor, da loja ao saguão, zebrando nas carnes

listrões arroxados, pondo frieiras nas mãos dos caixeiros, e tornando

a cozinha inhabitavel e mortifera. O marçano não se queixava. Nunca na

sua vida tivera jaleca, as calças de cotim safado, luzentes de sebo,

não lhe resguardavam as pernitas esqueleticas, e cortado á escovinha, o

cabello não podia resguardar-lhe a pelle do craneo. Quando chovia, peor

ainda. A agua inundando o saguão, golfava na cosinha, escorrendo pela

anfractuosidade das pedras, e vindo molhar os fardos do armazem.

Era então preciso desarrumar aquillo tudo, carregar saccos de assucar,

costaes de bacalhau, barricas de peixe secco e manteiga, caixotes de

golozeimas, lavar o chão, todos os preventivos exigidos. E sempre elle, o

mais fraco e pequeno de todos, carregava com esses trabalhos pesados, e

aturava os ralhos. Duas ou tres vezes, o Pinto insinuado pelos caixeiros,

lhe batera com uma corda molhada, porque se queimava o café, porque

tinham bolor os rebuçados, e algumas vezes, porque as arganassas invadiam

os caixotes da fazenda. Era o joguete das intrigas do armazem, o ponto

obrigado das chacotas villãs dos caixeiros, o alvo dos ralhos e a victima

dos delirios viciosos, d’esses tres ou quatro encarcerados brutaes, que

só podiam deixar a loja tres horas por quinzena.

Nos dias agrestes em que era forçado a residir no saguão, sentia por

vezes já nos ultimos tempos, a cada lufada de vento, picadas interiores,

ardencias mortaes no peito, oppressões vagas, um mau estar indefinido.

E aquillo coincidia com uma sensação de fraqueza geral, dôres nas

articulações, esquecimentos de membros e vertigens frequentes. O terceiro

inverno foi o mais terrivel, e n’uma manhã em que a febre o calcinava e

o delirio lhe fazia dizer incoherencias, quando furiosos os caixeiros

o iam tirar da cama a pontapés, deram com a sua respiração arquejante,

viram-lhe os olhos sem luz, e desceram com medo. E quando anoiteceu,

mesmo em mangas de camisa e calças de cotim, o pobre dava entrada no

hospital, na maca da esquadra proxima, e aos hombros de quatro gallegos.

* * * * *

Essas primeiras horas de enfermaria foram para o rapazelho um desconforto

mortal. Estrangulava-o uma sensação glacial de abandono e de pavôr, a

ideia de matadouro onde se morre abandonado ao som de risadas, entre

agonias atrozes, sem sacramentos e sem palavras de piedade. Dos fechos da

abobada penumbrosa, os lampeões quadrados cahiam com luz triste, immovel

na atmosphera podre do ambito, clarões que se amorteciam nos angulos da

peça, em cujas muralhas, sombras de pilares traçavam fórmas de arvores

colossaes.

No amontoado de leitos, e no sonho phantastico d’aquella luz amarellenta

de craneiro, o marçano mal pôde no fervor da febre que o minava,

reconstruir com verdade pelo que via, a vida purulenta do estabulo, para

onde a cidade varria os seus tumores e as suas miserias. Pareceu-lhe que

o deitavam ao pé de uma grande janella, n’algum canto de sombra luctuosa.

Duas mãos enormes ergueram-lhe a cabeça para lhe metter o travesseiro,

sentiu as coberturas comprimidas aos pés, e erguendo a vista, deu com

uma cara gordalhuda e chata de enfermeiro, bigodes cahindo aos cantos

da beiçada horrenda, e esse ar de enfado ainda peor que a raiva, que

pronostica a indifferença e o embrutecimento, de corações onde todas

as cordas estão partidas. Cahiu então n’um estupor profundo, e assim

ficou como os outros, arquejando, a pelle secca, bocca aberta e lingua

cornea, pequenos gritos afflictivos, que a espaços marcavam as visões

do delirio, que ia evocando. Nunca soube dizer os dias e as noites,

que assim esteve atolado em modorra sinistra, com listrões plumbeos

na face, carnes flaccidas, e sempre aquella oppressão que o afogava

com teimosia cruel, se abandonando os travesseiros altos, procurava

estender-se um momento sobre algum lado. Ás vezes, alguem lhe chegava

ao pé, faziam-no sentar bruscamente na cama, com perguntas rapidas, se

estava melhor, que voltasse a cabeça, estivesse socegado, ou erguesse

o braço, para lhe cortarem as bolhas que o cinto de causticos abrira,

pondo vermelho e doloroso no thorax, todo um circuito de carne viva.

O que o atormentava eram as percussões que sobre chagas abertas lhe

faziam, de manhã e á tarde, á hora da visita clinica. Se pedia mais

devagar, o enfermeiro impunha-lhe silencio, e aquelles olhos de bilioso,

vitrificados como n’uma porcelana chineza, davam um calefrio ao pobre

rapaz. Noites atrozes, crescia-lhe a febre, e perdido o tino, punha-se

a disparatar. Todas as scenas dos tres annos de loja se desmanchavam e

reproduziam n’esses desvarios escandentes—a noite em que fôra roubado

o armazem, e d’uma vez que ficára a zorra da mulata portas a dentro,

batuqueando co’a malta, e ainda as sovas do Pinto com uma corda molhada,

por não ter apparecido o gato. Nada volvia a agitar-se com mais frenetica

insistencia, n’esse pequeno cerebro atormentado pelo mal, que o roubo da

loja. Os caixeiros tinham-se escapulido ao fechar da porta, e elle ficára

só, em noite de S. João.

Deitado na enxerga do subsolo, barriga para o ar, as roupas fóra,

mãos acima da cabeça, o pobre, sósinho no armazem enorme, pensava com

saudades, na fogueira que em Santa Comba, deante do casebre natal

ardia a essas horas da noite, e os irmãositos saltavam alegremente em

cabriola ruidosa. Pela rua fóra, tudo seriam fogueiras, colmos em montes,

canavouras de favas estalando na labareda rubra, e em torno dos mastros

verdes, bailaricos alegres, bichas interminaveis de rapazio, rumorejos

de guitarras e explosões de pandeiretas. Sobre a villa acordada em

descantes, uma corôa de luz poria nas nuvens, o oiro-rosa das alvoradas

de maio. As frontarias esclarecidas seriam alegres, e o relogio da

egreja iria badalando a meia noite de S. João, quando o chavelho da lua

mingoante, symbolico e triste, se fosse a sumir por traz de cabeços

solitarios, vestidos de pinhaes sem termo. E abandonado para alli,

emquanto escamugidos da loja como larapios, os outros andavam gozando

pela cidade, elle fazia por dormir, sem poder. A porta da loja ficára

unida, para quando os senhores entrassem. Que triste ser pobrinho e

desgraçado!

Em tres annos de mourejar, apenas para comer tinha ganho. E tinha já

vergonha de se vêr sebentão pelo armazem, e ao levar aos freguezes de

estima no grande cabaz da loja, as mercearias encommendadas, ficava-se

acabrunhado e tremulo antes de bater á porta, receoso que o expulsassem,

cuspissem de nojo ao vêl-o, e o descompuzessem pelos rasgões da camisa,

pelos calçotes de cotim gordurento, tão curtos que se lhe viam as

canellas, vergastadas pela orla de coiro dos sapatorros montanhezes.

Duas vezes ou tres, pela alta manhã, lhe quiz parecer que andava gente

no armazem. Inda chegou a erguer-se da cama. Procurou os phosphoros,

tinham-lhe esquecido na cozinha. E pondo o ouvido á escuta, apenas

percebeu que as arganassas roiam nas cestas do macarrão, ou pelo lagedo

arrastando papeis, armavam as correrias das mais noites. Demais, ia-o

embebendo a modorra da madrugada. Fôra penoso o dia—moer café toda a

santa tarde, arrumar garrafas que tinham vindo, limpar o bolor dos

queijos...

A cidade do vicio · 第 2 / 17 段