Á medida que através as interpellações bruscas do Pedro, ell

A CIDADE DO VICIO

PORTO: 1882—TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

62, Cancella Velha, 62

FIALHO D’ALMEIDA

A CIDADE

DO VICIO

_PORTO_

_Ernesto Chardron, Editor_

1882

_A_

Joaquim Xavier de Figueiredo e Mello Oriol Pena

_Segundo Livro_

DE

CONTOS

SYMPHONIA DE ABERTURA

Insupportavel, em Lisboa—o thermometro subindo sem attender a supplicas,

subindo e putrefazendo tudo, os despojos subterraneos e a frescura das

mulheres, a carne de venda a retalho e a carne de aluguer, os artigos dos

jornaes diarios e os artigos alimenticios. Em Lisboa transpira-se muito,

pela pelle e pelos criados. E ás vezes, sob o influxo de uma hora de sol

ou publicidade, qualquer pessoa se arrisca a ficar com a roupa alagada, e

com a reputação em fanicos.

No verão, similhante phenomeno exagera-se com violencias equatoriaes;

nem gelados nem discrição, logram attenuar-lhe os impetos—é soffrer ou

partir. Eu parti.

Não imaginam que simplicidade hollandeza de _toilette_ e que frescura

de linhos, expendidas em _vestons_ sem forro e pantalonas sem feitio!...

Botões de madreperola do diametro de relogios, altas polainas atando na

perna por correias em cruz, o cinturão de coiro com cabaça para agua,

chapeu tyrolez e bordão ferrado, tendo a mochila dependurada na ponta.

Sobre isto, excellente saude, pouco dinheiro, muita alegria e nenhum peso

de consciencia. Magnifico ser novo e saber desprezar os tolos, pois não?

N’estas digressões de andarilho só me entristece não levar alguem ao lado.

Tenho amigos, mas são os peores inimigos de que dou signal—e por esses

cafés, tabacarias e alamedas, dando-nos o tu da leal camaradagem,

trocando charutos, rindo e enlaçando os braços, é de vêr com que risonha

perfidia nos sabemos detestar reciprocamente. Esta hostilidade sagaz,

enluvada e fina, que se chama ahi confraternisação litteraria, e sob cuja

egide se dão jantares no Gibraltar, elogios nas gazetas, e impagaveis

desandas em conclaves reconditos, não passa d’um voltarete elegante,

ganho pelos que sabem rir, e sempre pago pelos que esverdeiam de coleras

refreadas. Resumindo, parti só. Junho, sabem, quando empalidecem os

trigos espigados e seccos, as cigarras chiam nas oliveiras, e o azul

é caustico. Começam pela provincia n’esse tempo romagens aos rusticos

eremiterios, e as feiras de gado chamam a turba-multa dos lavradores e

maioraes.

Portas fóra, as mobilias da Baixa abalavam raras ainda, caminho dos

oasis burocratas, Sete-Rios, Campo Grande, Bemfica e Lumiar, em que

todo o bom official de repartição, merceeiro ricaço e tisico pobre, vão

tonificar-se pelo bom ar dos campos, sem deixar todavia os seus mesteres

intramuros.

O typho fazia já propaganda por esses bairros, nas azas do miasma evolto

de toda a banda, das portarias surdas, das consciencias gangrenadas, das

loterias da Misericordia, dos quarteis, dos tribunaes e dos canos.

Theatros fechados, livrarias ás moscas, tudo esbaforido, e soldados

parando ás esquinas a soletrar grandes cartazes, annunciando—_O Hereje_,

as _Machinas de Familia_ (?), _A Orgia_, e o _Fiacre n.º 13_, que segundo

me contam é revolucionario tambem—e modonho, c’os diabos!...

O campo em junho, despoetisa-se no paiz cerealifero. Grandes zonas

amarellecidas de seara, pastos seccos vestindo a charneca, barrancos

sem poça d’agua, silvados deixando pender as amoras em cachos, e toda

a legião de migradores que veem de cruzar o Estreito, rolas, cegonhas,

cucos... Nos montes de rocha, murtaes irrompem d’entre penedos calvos;

os alecrins dão flôres em espiguilhas esguias; ascende a vinha arvores

acima, vestindo os troncos em pampanos esplendentes; estão copadas,

metallicas e redondas de folhagem, as figueiras picadas dos primeiros

capa-rôtas. E á margem das ribeiras, nas terras gordas e marnosas,

os meloaes expandem-se em fructos de meridianos finos, traçando de

antemão as bellas talhadas a partir nas melancias rubras e frescas,

e n’esses ricos melões de cheiro, que em jantares de ceremonia tanta

pessoa séria teem compromettido. Depois aboboras, frades, gilas,

descançando em feno á borda das rigueiras, e picando a monotonia dos

caules cellulosos, que rastejando vão na terra sequiosa das hortas. Todo

o pomar maduro—laranjaes florindo para os fructos novos, e mostrando

ainda pendentes os fructos velhos; a interminavel colonia das ameixas e

abrunhos; os damascos de fallas mansas e contactos velludosos; a pera

ventruda e monotona de casca; a ginja e a cereja tão pittorescas e

picantes á paizagem e ao paladar. E fechando cortejo...

Os pecegos!...

Adorei já uma mulher que gostava d’elles, e tinha uma graça infinita

a mordel-os com os seus brancos dentinhos de roedora. Se tomando-lhe

a barba com as pontas dos dedos, dôcemente a forçava a vergar-se toda

nas costas da cadeira, para na concha rosea da orelha lhe depôr algum

segredo irritante, a sua vermelha bocca gottejante dos succos perfumados,

matava-me de sêde e endoidecia-me d’amor. Pobre quinquilharia loira!...

Tamanha voracidade a possuia ante esses fructos voluptuosos e quentes,

que d’uma vez enguliu os caroços e partiu para o cemiterio.

Na sua cova, como lição a incautos, viridente pecegueiro todos os annos

carrega de fructos, brotado d’esse corpo que foi vaporoso como uma nudez

de Fragonnard, e branco da inexplicavel brancura que dir-se-hia feita

com primeiras _nuances_ de hortensia, pennugens ventraes de cegonhas, e

corações de rosas brancas.

* * * * *

Como peregrino, que de logarejo em logarejo e cabana em cabana, vai

seguindo em busca de alguem que lhe foge, assim de bordão e esclavina

como a bella D. Auzenda, eu me aventuro por esses campos e terreolas,

fazendo sésta nos moinhos, convivendo com as boiadas leaes, pernoitando

nas eiras sob o olhar das estrellas, passando a vau os rios, cruzando

estradas, e detendo-me a colher ás horas de sêde torrida, os medronhos

bravios das espessuras. Esta existencia de cigano reconforta-me e

endurece-me. Tenho a pelle tostada, crescida uma grande barba, e os

musculos das pernas e braços, estriados como um aço de rija tempera.

Janto o rolão corneo dos cavadores, sardinha salgada com um pichel de

vinho alemtejano por cima. Não leio jornaes, o que explica a singular

lucidez que em mim refloresce a espaços.

Todas as manhãs, o sol me encontra de chapeu na mão e assobio de melro,

nas chapadas adustas que os valles dominam, como pulpitos sobre as naves

rumorosas dos templos. De redor de mim, esfarrapam-se as gazes da nevoa

matinal; serranias confusas nos longes; faias, salgueiros e platanos

desenham a curva sinuosa das ribeiras, onde o rebanho converge a beber

manso e manso, n’um rhythmo de chocalhos distantes. E sobre laivos verdes

de vegetaes rasteiros, tons pardos de olival, pedaços de seara madura,

cannaviaes e hortejos, andam esparsas em pulverisações de branco, as

casinholas de montes, aldeias, moinhos e conventiculos.

Os gallos tocam alegremente a alvorada; vão lá baixo trabalhadores de

chapeirão e alforge; tudo canta, sol, gallos, velas de moinhos, gente que

passa, quem vôa nos ares, quem saltita nos ramos, quem de pedra em pedra

corre no fundo dos limos verdes, quem nos fios telegraphicos vibra, e até

quem chora—tão phantastica a resonancia d’esta cupula cérula, extasiada

na luz do sol occidental!

Na travessia emprehendida, aponto as differenças do typo, os usos,

a emphase de linguagem, os vestuarios, as habitações, os processos

decorativos de interior, a hospitalidade para estranhos, côr de pelle e

vivacidade ingenita de cada povo e provincia. Ha contos populares, que

começam devotos no Minho e acabam equivocamente no Algarve.

O tom das cantigas, em que se surprehende a indole, crenças e viver

intimo das gentes, decresce em alegria de norte a sul, e occidente para

oriente, á medida que nos vamos afastando da agua, que a vegetação é mais

secca, a terra arida, menos profusos os rios, e mais distante o oceano.

Comparo a _Canninha Verde_, o _Verde-Gaio_ e as _farandoles_ das romagens

do Minho e Douro, com a monotonia repassada de tristeza, vagarosa e

funebre, das cantigas do Baixo-Alemtejo; e sinto através d’ellas o

_paiz_ extremando-se em zonas de cultura menos e menos profusa—no Minho

as risonhas veigas ensopadas de agua, inteiramente em cultura, verduras

radiantes á luz de um sol claro, humidas de bruma matinal, toda a erupção

da vida esparsa em fremitos por uma população enorme e fecunda, que é

bella e sadia, com o instincto colorista que em vestuarios garridos, dá a

essa paizagem exuberante, accessorios maravilhosos—no Alemtejo, charneca

quasi sempre, arida, interminavel, retalhada a siroco, reverberando no

verão ardores mortaes, n’uma luz crua que vai crestando implacavelmente

as epidermes e os olhos. E aqui começam as difficuldades da vida pela

inclemencia hostil do meio, faltam as pescarias que são fartura e

felicidade, falta a carne, as ricas hortaliças, grande parte dos fructos.

Diluida n’essa área formidavel a população rareia, deixando a agricultura

sem braços. Em pontos a raça é mal cruzada pela fatalidade dos casamentos

consanguineos, impostos pela distancia que medeia entre povoado e

povoado, e ainda porque quasi sempre, aldeias e villas tiveram por nucleo

uma familia ou duas, enfraquecendo-se a descendencia pelo mau passadio,

e regressão a um mesmo typo uniforme, de certas em certas gerações.

Outra vegetação implantada n’outro solo, começou porém a surgir passo

a passo, um dia, não sei quando, depois de longo caminhar. Scintillava

ao largo um espelho caustico, movediço e sem balisas. Veio o pinhal

em massas desconformes primeiro, e após rareando em avançadas, contra

a grande areia relampejante das dunas. Mudava o clima, adoçando-se

de humidade salgada, dos cheiros da maresia e resinas da floresta.

E sempre ante mim essa coriscação da agua sem termo, espumando nas

cristas, e tendo a bocados, mosaicos de azul e ouro. Na altura em que ia

detive-me então commovido, a olhar por tempo a feerica decoração assim

extraordinariamente atravessada de luz. E tirei reverente o meu chapeu,

para cumprimentar o Oceano.

* * * * *

A convivencia do mar, profunda e larga, faz o homem bom, e simples o

espirito, pela contemplação d’essas superficies tranquillas e azues,

imagem da pureza e da força, sobre que os olhos vogam idealmente, como

medreporas em villegiatura. No mar ha um extraordinario mundo de sêres

pittorescos e fecundos, cortados nas fórmas mais caprichosas, e cheios

dos mais bellos cambiantes. E as povoações littoraes, risonhas na

penedia e na areia, com as succursaes fluctuantes dos barcos de pesca

e das rêdes, offerecem aos nervos do _touriste_, finas sensações que o

desenervam d’essa vida cardiaca e brusca dos centros cultos, que faz

velhos os homens de trinta annos, e cynicos os que não teem ainda barba.

Porque estamos n’um periodo secco, analysta e vertiginoso, que leva á

loucura os mais delicados, e a desalentos senis os mais robustos. Não

contentes de disseccarmos os outros, de os desfibrarmos por uma especie

de sensualidade, no intimo das suas sensações, das suas ideias, dos seus

vicios e dos seus males, vamos tambem pondo a nú pelo escalpello o nosso

organismo, viscera a viscera, nervo a nervo e vaso a vaso, buscando o

segredo da vida nas experiencias do amphitheatro, querendo sentir pelo

requinte de descrevermos a impressão, querendo soffrer para viviseccarmos

as nossas dôres, n’uma crueldade consciente que fatiga e mata. Vejam

as obras de arte modernas. Foi-se a idealisação translucida dos bellos

corpos perfeitos e brancos, foi-se o requinte aristocratico das paixões

academicas e nobres, em que as figuras ostentavam, nos quadros, nas

estatuas, nos poemas e romances, attitudes gloriosas, harmonicas,

reguladas e altivas. Por ellas, só o bello vivia, eram heroes os homens,

a vida não se convulsionava em miserias torpes, o proprio vicio era

bello e a desgraça sympathica. Agora não! Cada artista fixa na tela, no

livro ou no marmore, o que vê, e ás vezes o que só consegue attingir por

um illuminismo interior, posto ao serviço de resolver algebricamente o

complicado problema psychologico.

Deixando de consagrar-se exclusivamente aos regalados do mundo, nobres,

opulentos e reis, para descer á generalidade das massas e baixas classes,

a obra de arte tem, para ser util, de ser sincera—e para ser sincera, de

copiar a vida laboriosa, mortificada e doentia das populações modernas,

os _ateliers_, as fabricas, os bordeis, a rua, _ménages_ tristes de

burocratas, e todos os enrodilhamentos da promiscuidade mendicante,

coberta de vermine e de pustulas—essa vida que calleja as mãos, atrophia

os membros, escava as physionomias, macera as epidermes e perturba o

jogo da circulação, que faz do cerebro uma monstruosidade pathologica,

pela actividade sem repouso que lhe imprime, definhando as mais visceras

em proveito da sua avidez de funcção, fazendo chispar de encontro a

tudo, essas centelhas que a certo ponto condensadas são o genio, de cujo

exacerbamento resultam a loucura e a morte.

Esta violencia de arte embota os sentidos depressa, gastando precocemente

as molas intimas dos espontaneos impulsos, da dedicação, da abnegação,

do amor e da coragem, tornando o homem n’um sêr artificial e mecanico,

com pontos de vista scenicos nos seus movimentos e discursos,

desconsoladamente egoista e cynico. Não ha força nervosa que resista a

este abuso de vibração, e dias ha em que as ideias se nos varrem, uma

ignorancia imbecil nos estrangula, e brumosas tristezas de carcere vem

descendo aos nossos olhos e aos nossos labios, no lethargico cansaço

que chega sempre, após semanas de mentalidade exagerada. Ficamos então

com ar de sonambulos, olhamos sem vêr, tudo doe, um desespero surdo nos

tortura. E o estomago não digere bem, o pulmão recusa-nos a sua mecanica

de folle, o sangue é tumultuoso, um pulso cortado de silencios, doem as

articulações, doe-nos a cabeça, doe-nos tudo—é um aniquilamento sombrio,

um odio contra livros, contra deuses e contra homens!

N’estas crises morbidas da alma na besta, nada como a intimidade das

aguas, para reconstruir, para reconduzir, para repousar. Faz-se em nós

uma limpidez provocada pela serenidade impeccavel do mar, extenso e liso

como um espelho magico. Quando muito ás vezes, uma ellipsoide de espuma

fervilha no dorso de alguma aspiração mais rebelde, desejo, orgulho

refreado, dissabor ou paixão—como a vaga que destacando pura da granda

massa, se orla de branco ao rebentar na praia.

Com que quietação interior me não estendi então nas areias, coberto de

poeira, coberto de azul e bemdizendo tudo! Não me lembro em que ponto da

costa isto foi—mas era magnifico.

Que vastidão de paizagem, que deboche de azul, que luz irradiante!...

Para um lado iam agrupamentos plutonicos, penedias a prumo, esburacando

em cavernas sonoras da onda que ia e vinha, chapinhando e refluindo.

Promontorios irregulares sahiam da grande mole côr de ferrugem, em

trombas que se alongavam para beber. Da esquerda, planuras de areia

faiscavam em circo, a chicotadas de sol. Deante o mar, e a duna cortando

a retirada por ultimo, onde phalanges de pinheiros socegadamente

bivacavam. Sobre uma insula escalvada em pinaculo, o pharol sahia da

agua, negro no ceu luminoso, e expandia-se na plataforma da lanterna em

setteiras aluidas, com agudas torrelas nos cantos.

Era assim um dedo de colosso, sobre cuja unha roida aos gritos,

vortilhando por centenas, aves marinhas vinham pousar com tremuras de

azas, goelanos, alcyons, gaivotas, andorinhas do mar... Os pescadores

lançavam cantando ao largo, as suas rêdes. Vinham sobre a agua badaladas

de algum sino mysterioso. Todo esse viver feliz, sem rebeldias nem

artificios, me commoveu pela simpleza, pela probidade, e graça primitiva

e rude. Tive uma saudade aspera, não sei de que outra existencia vivida

por mim, por meu pai, ou qualquer da minha raça, em não sei que tempos

historicos e esquecidos. Sentia como uma volta á patria, reconhecia as

fórmas, e tornava a respirar nos ares perfumes amigos, que me extoxicavam

de uma especie de innocencia e de uma especie de alegria. A minha

actividade era repartida entre as companhas dos barcos de pesca, longas

palestras no barracão do salva-vidas, ou a concertar rêdes á porta das

cabanas. Assim eu aprendi a vêr e a recompôr esses grandes typos do mar,

fulvos e crentes, com os seus olhos pequenos de pupilla inquieta, japona

azul nos hombros quadrados, pernas nuas, barba rara, ageis e gigantes,

com uma profunda melancolia de face. As linguas da onda vinham lambendo

a praia humildemente, como um cão fiel que afaga o dono. Em bandos, os

pequenos nús rolavam-se na areia, ou faziam de mergulho espadanar a agua.

E eu sem saber qual mais puro e transparente, se o céo se o mar! Á noite

recolhia as minhas impressões rabiscando o _carnet_, e no palôr sonambulo

da lua, dormiam as cabanas acalentadas pela voz do Oceano e a lanterna

girante do pharol encandeava as aves do mar, fazendo-as suppôr que era o

dia a romper.

Tres mezes assim. Quando uma noite despertei ao estrepito das vagas. A

bruma viera, fazendo deslocações de fumarada compacta, cinza claro pelos

effeitos da phosphorencia, que fazia do mar um _punch_ em flamma, que

a colhér do vento fosse remexendo procellosamente. E em revolta a agua

urrava, tripudiava nas cavernas, soluçava, cantava e ria. Praia fóra,

despertados de chofre, os pescadores gritavam em côro, não achando os

barcos na amarra. Ia começar o mau tempo. Eu tinha alinhavado este livro

nos ocios da bella estação que se morria. E n’essa manhã parti.

OS NOVILHOS

Vespera de S. João, na aldeia.

As doze pancadas do sino acabavam de dar por uma quente noite de estio,

luminosa de lua e perfumada de fenos. Nada mais dôcemente calmo, que a

contemplação da paizagem de vinhas e olivedos que se gozava na ladeira

da aldeia, caminho da fonte. No cimo da encosta, a fachada da egreja

estendia sobre o azul pallido, as agulhas brancas das torres, onde,

attenta a santidade da hora e da vespera, nem as corujas soltavam pio.

Conforme o uso, quando a ultima badalada tocou, as raparigas em cabello,

capellas de jasmins no penteado, de que pendiam pequenas ameixas rosadas

e peras de Santo Antonio, saias curtas garridamente enfeitadas de

vermelho, pés ligeiros e um borboletear de cantigas que envergonhavam

nos campos os rouxinoes das balseiras, puzeram ao quadril as quartas

de barro, e aos pares, trocando confidencias, desceram pelo corrego

até á fonte. A fonte era o monumento da aldeia, com o seu largo boccal

de feição biblica, boa pedra vincada pelos fundos dos cantaros, amplos

cadeirões de granito em redor para quem chegava cansado, uma dorna

inclinada onde bebia o gado, e meia penumbra tremula, de chorões e

pimenteiras.

Vespera de S. João á meia noite, a agua das fontes é santa, santa como

os remedios efficazes, como a benção nupcial que um velho padre estende

aos noivos, como os vestidos e os bentinhos das imagens, como a cruz dos

adros desertos, como os mentrastres das ermidas distantes e os cordeiros

dados de fogaça pelas festas da paschoa. Quem a bebe, viva áquella hora,

junto da fonte onde o luar se espelha, e em cujo fundo dormem suavemente

os reflexos das estrellas, é feliz todo o anno, fecundo se é mulher e bom

trabalhador se é homem.

Bom S. João, todo risonho e nú, no seu altar da egreja, cordeirinho

branco a um lado, bandeirola do outro, e a polpuda mãosinha de creança

abençoando com graça innocente as cabeças que se lhe curvam deante!...

As raparigas passavam em volta das quartas de Extremoz, os baraços de

tirar agua, e na limpidez da fonte, sentia-se o _plhau!_ sonoro de

vasos mergulhando. Tão fresca a agua, tão sapida de philtros de luar e

perfumes de amor! Oh, como é bom ser novo!

Toca a encher as enfusas. Algumas das moças entravam nas vinhas a colher

parras para ornar de grinaldas as cintas finas, as cabeças loiras e os

bojos porosos dos cantaros arabes. E aos pares, ondulando os quadris, iam

subindo a encosta cheias de esperanças e radiosas de sonhos, e o rumor

das cantigas fluctuava no tranquillo ar da meia noite, em cuja limpidez o

S. João benevolente, estendia as suas mãos cheias de promessas.

Ora a Rosaria só desceu da herdade á uma hora, a grande preguiçosa! E

sósinha por entre as arvores, n’uma pallidez de audacia que lhe ficava

bem! Tudo no monte ficára a dormir, o pae estiraçado na eira, a mãe

resonando na alta cama de casamento, os rapazes por cima das moreas de

trigo, bois deitados por baixo das azinheiras da pastagem. Dois novilhos

sómente, quasi bois feitos, retouçavam nos fenos, pulando, rebolando-se,

furtando-se os corpos vigorosos, n’uma alegria de titans em bacchanal.

E todos brancos, mansissimos e perfumados, dir-se-hiam principes

encantados, esquecidos dos seus palacios de oiro, n’aquella metamorphose

exigida por alguma velha fada rabugenta.

Rosaria ainda esteve um bocado a miral-os.

Era o novilho da vacca _Mourisca_, mais a novilha do visinho Pedro,

pastor da herdade proxima.

—Diacho, disse ella a rir para comsigo, cantaro ao quadril, tão novitos

ainda, e já namorados. E a cantar desceu a ladeira. Que luar que

fazia, que silencio se alastrava!... Nem um ai de rouxinol noctivago,

nem um echo de cantigas esmorecendo nas quebradas. Um pouco além, no

cabeço do outeiro, o portal formidavel de um dolmen negro, desenhando

como um branco de olho malicioso, rebolado em fervores de lascivia. E

atravessando n’um feixe esse portal, a poeirada fina da lua, vinha em

aureola cercar de uma vaporisação phantastica, esse perfil de zagala

israelita. Quando chegou á fonte viu a clareira coberta de ovelhas,

que empurrando-se em silencio, furando, cahindo e mordendo o pó que

levantavam, tinham pressa em chegar á grande pia de pedra, para beber. Em

pé sobre as lages da fonte, o pastor tirava agua com um grande balde de

cobre, enchendo a pia, que logo tornava a ficar sem gotta. Rosaria ergueu

a voz:

—Eh lé, visinho Pedro.—O pastor parára de chapinhar na agua. Gritou-lhe:

—Eh lê, Rosaria!

E ambos immoveis, sem querer avançar, ficaram a olhar-se no turbilhão do

rebanho.

—Bonita noite, disse um.

—É verdade, fez o outro.—E um grande silencio.

—Então vens á de S. João?

—Tal e qual!

—Pois isto é tarde por aqui, juntou vagarosamente o pastor.

Rosaria teve um sobresalto, o monte ficava longe, não andava viv’alma,

e tão fóra de horas!... Então olhando para si, reparou que estava em

collete, braços nús, pernas núas, as primeiras redondezas do seio

em evidencia. N’isto, os novilhos brancos romperam na clareira, ás

cambalhotas.

—Tambem!... disse o pastor. E sobre o lagedo da fonte, ficára immovel,

bebendo o largo, narinas frementes, circulação de novilho nas fórmas

athleticas que tinham á lua, soberbos detalhes de musculatura.

* * * * *

As ultimas ovelhas tinham já bebido, e ainda por duas vezes, o Pedro

mergulhou na agua santa o grande balde de cobre, para encher o cantaro

de Rosaria. Tremula e muda, a pobre achegava-se sem ousar fital-o,

receando a primeira palavra, qualquer ousadia permittida pelo abandono do

sitio. Eram quasi da mesma edade, tinham brincado creanças, esfarrapados

e trigueiros, rolando-se nas relvas com essa alegria selvagem dos que

convivem longo tempo com o gado, e sem saber o imitam nas suas cabriolas.

Sem o menor resaibo de amargura, a voz do Pedro disse-lhe:

—Hontem estavas a fallar com o boieiro do Monte-de-Trigo. Diz que não?

—Estava, sim. A irmã tem andado doente. E como é rapariga da minha

aquella...

—Olha cá, para que vieste só, a esta hora? Diz, anda.

—Estava a dormir. E vai, fez-se tarde.

—Sabes, moça? Se encontrasse ahi algum, não o deixava comer mais pão. Não

me salve!

—Não ha medo, homem. É procurar!

Á medida que através as interpellações bruscas do Pedro, ella lhe sondava

os receios, adivinhando o culto em que era tida, ia recuperando socego.

Sentindo-o vencido então, a deixar vêr nas ameaças surdas o receio que o

esmagava, era Rosaria quem fallava alto agora, pujante da sua felicidade

e orgulhosa de dominar. Assim estiveram encostados no boccal da fonte,

immoveis, olhando sem scintillas um para o outro, como se já tivessem

dormido. Em roda, as ovelhas ajoujavam-se aqui e além, fartas do repasto

da noite e cansadas de cabriolar nas encostas. Vigilantes, nos longes do

arraial, os dois rafeiros iam e vinham, encalmados e tropegos, fazendo

tilintar enormes colleiras erriçadas de gumes, e farejando os mattos, de

orelha fita, á procura.

—Já fallei c’o teu pai outra vez, disse o Pedro.

—O anno vai mau, aventurou a rapariga, sabendo o que elle ia dizer.

—E a gente fica assim toda a vida?

—Ai, não! Mas quem faz casa, necessita que lhe metter dentro. Tu bem

sabes, Pedro. Inda que uma creatura, sim, seja pobre, ninguem casa sem

arranjos. Cá da minha banda, pouco falta.

E ia dizendo, uma por uma, as peças do enxoval—lençoes de estopa, duas

fronhas de renda, coberta encarnada, seis toalhas, dois vestidos, e

camisas, uma arca nova...

O Pedro não ia tão bem, não! Todo o anno a velha estivera de cama,

algumas seis cabras mortas, a damnada inverna sem largar a sementeira,

o favalito cheio de alforra. Quem nasce para burro, com licença, nunca

chega a cavallo. E os dous suspiravam. Mas cada vez mais perto, os

novilhos se perseguiam e acariciavam, n’uma febre de primeiro amor,

espicaçado pela resistencia da femea, que de patas estendidas se punha á

espera que o macho formasse salto. E sentindo-lhe o focinho nas ancas,

furtava de repente o corpo para deante, fazendo-o cahir nos pastos.

Aquillo succedia-se por dezenas de vezes. Cansado então, o novilho parava

afastando as pernas, resfolegar sibilante, a baba correndo em grandes

fios da focinheira, que um laivo rosa sombreava em tons de carne sadia.

E de cabeça alta quedava-se a fital-a, mugidos surdos, repassados de uma

ternura physica que parecia deleitar a femea, cuja cauda voluvel açoutava

de manso, a bella anca roliça. Nada era mais lascivo, ondulante e

gracioso, que a anatomia agil da vaquinha branca, orelha e narina moveis,

esboçando attitudes de uma graça infinita, saltos de pequena fera,

bruscas contracções de pannos musculares, espreguiçamentos de desafio

e vagas ternuras de esperança. E essa scena de tentação, que primeiro

passára desapercebida ao pastor, ia-lhe agora despertando attenções

minuciosas e complicadas ideias. De olhos avidos elle seguia o jogo

teimoso da novilha, que se difficultava á medida que a raiva do macho

ia crescendo, crescendo. E um alvoroço interior acudia-lhe em remoinho,

fazendo-lhe bater as fontes e pondo lhe a saliva espessa. Não era bem

Rosaria, a imagem com que elle, mentalmente, reproduzia a scena que

estava vendo. Deante da rapariga, as suas audacias de homem quebravam-se,

e as suas raivas de novilho mordiam o freio de uma virgindade montanheza

e feroz, que os tinha defendido a ambos da culpa. Era sim, uma femea

meio mulher meio vacca, constructura toda animal, harmonica com o seu

instincto brutal de pastor, capaz de sentir e incapaz de pensar, vida

rudimentar em corpo de redondezas duras e contactos bovinos, imposta

pelas fatalidades da procreação. Rosaria que se contrahia sob a descarga

das fulvas scentelhas, que saltavam dos olhos d’elle, dilatados em colera

sob sobrancelhas frementes, teve um medo algido a invadil-a toda. E ao

mesmo tempo, do fundo do seu sêr e do coração das mais pequeninas regiões

do seu corpo, um esbrazeamento, uma angustia, uma incoherencia de gozos

innatos, subiam-lhe á epiderme, alargando-se, chispando, occultando as

suas vibrações fulminantes sob a mascara da tranquilla postura que tomára.

Pedro chegára-se mais contra ella. Os novilhos tinham-se enlaçado

afinal e rolavam nos fenos, mugindo no exhuberante prazer de uma

força esbanjada. Então Rosaria que o encarou de face, viu-lhe bem a

rijeza das fórmas negras, o tronco arquejante, que pinhas de musculos

disformes enfloravam, a redondeza núa dos deltoides cinzelando-lhe

magnificamente os hombros de titan, bicipedes formidaveis contrahidos sob

a tortura de um desejo esmagado, e na rude face de fundibulario celta,

uma rigidez que apenas de longe em longe, o fulvo corisco das pupillas

conseguia desmentir. Ella não pôde mais, e na meia nudez em que viera,

atirou-se-lhe contra o peito, beijando dôcemente esse bronze latejante,

mesmo sobre o coração. As mãos de Pedro apanharam-na pelas espádoas e

cingiram-na pelos rins, hesitantes n’um delirio que o fazia cambalear

como um touro ferido entre os cornos, e não sabendo se cingil-a até lhe

fazer estalar os ossos, se arrojal-a lá para o largo, onde a não visse

mais n’aquelle abandono desleixado.

Aquillo durou um instante, no final do qual os braços do hercules tinham

novamente cahido, a iris ficára tranquilla e toda essa torre cessára de

tremer.

—Adeus, disse-lhe elle um pouco triste. E baixo, n’um segredo de infinita

ternura, em que chorava a rude voz, transfigurada pelos ardores da

juventude:

—Quando formos casados, sim?

Agarrou no balde, esteve a enrolar a corda á cintura por um bocado,

metteu dois dedos na bocca para assobiar aos rafeiros. E voltando as

costas á fonte, poz-se a arrebanhar as ovelhas, enxotando-as com o grande

cajado, pelas pastagens acima. E mais além a sua voz de montanhez cantava

já, n’uma toada dolente, em que transparecia a tenacidade de um mesmo

amor, idealisado por uma vida inteira de esperanças e sonhos castos.

Rosaria inda ficou a vêl-o, ladeiras acima, de manta ao hombro, desolada

pela recusa e quasi cheia de desprezo por similhante honestidade. E

caminho do monte ia furiosa, com ganas de se dar ao novilho branco

da _Mourisca_. Ao passar na eira, entre duas moreas, o boieiro do

Monte-de-Trigo, que estava de guarda aos calcadouros ergueu a cabeça.

E alli mesmo, esfaimada como uma bacora, Rosaria se entregou.

NOITE NO RIO

Tinha-se afogado de todo no poente a ultima tinta paludosa da tarde, e

uma sombra egual, atravessada de scintillas de estrellas e palpitações de

atomos, cahia de cima dissolvendo os contornos das coisas, e escorregando

na agua do rio, que se fizera densa e viva como uma carne de annelideo,

gelatinoso e murmuro. A guiga em que nos mettemos, leve como uma penna,

toda esguia ondulando á menor arfagem da onda, dir-se-hia um pequenino

tumulo branco e ouro, em que seria delicioso partir coroado de lichens

e algas, para os reinos do coral, no fundo d’esses paizes submarinos,

em que as cidades são feitas de galeões submersos, as cupulas de

conchas côr de saphira, e as columnatas de phantasiosas incrustações

de molluscoides. Emquanto Lia se punha ao leme, n’um _deshabillée_ de

noite em crepe da China, a alta golilha afogada acolchetando no pescoço

por alamares de contas e rasgando _fenetre_ no seio, uma nudez de

braços polida, cinzelada na brancura das carnes hystericas, e abrindo

alabastros luminosos entre a dragona a contas do corpete e canhão rugoso

das luvas de ponto, ia eu de remos em punho, aventurando o barco bem

para lá do caes, áquella hora adormecido. O meu vestuario não era bem o

d’um barqueiro, nem era bem o d’um banhista. A camisola escarlate sem

mangas, deixava-me os braços livres e nús; tinha o chapeu de palha, com

abas reviradas, cahido á banda, e descoberta uma pouca de espadua fulva,

onde pannos musculares contrahidos, avincavam por vezes a sua estriada

dentadura, de luctador glorioso. O homem é vaidoso da sua força, se dos

olhos da mulher que adora, desce uma especie de radiação voluptuosa, como

a vestir-lhe a nudez. Lia, que era ardente pelo sangue da sua raça, tinha

pela fórma mascula o culto altivo das zagalas biblicas, que nos velhos

tempos atravessavam sósinhas desertos e tribus hostis, para vir desposar

o sonhado do seu coração, pastor como ellas, herculeo e timido, olhos

obliquos e dôces, onde n’um fulgor amoroso se rimava todo o poema do paiz

das palmas, dos figueiraes e dos lagos. Fôra a sua agulha que espalhára

na flanella que me cobria o peito e o ventre, esses relevos exoticos

de flôres vivas, n’um labyrintho de grinaldas, que se enroscavam em

torno de ninhos, symbolisando dizia ella, a tenacidade do seu amor e a

aspiração infinita da sua alma, que era ser mãe. E era ella quem, na

ferocidade da sua ternura, se entregava comigo ás ondas por aquella noite

calida, na leve guiga branca, que os meus remos faziam voar. Não imaginam

talvez, que orgulho eu tinha d’aquelles ciumes de leôa fecunda, em cujos

dedos a certas horas, sentia crispações de garras, e em cujos olhos

inexprimiveis, de tão singular expressão, que n’elles podia lêr a emoção

mais vaga, desde a que se traduz na voz pelo grito, pela palavra ou pela

phrase, até á que a linguagem articulada não póde dar, e quando muito se

crystallisa dos labios pelo sorriso, dando uma perola ou uma estrophe—em

cujos olhos, dizia eu, ás mesmas horas vibrava n’um galvanismo

instantaneo, a intima dolora de uma alma perlada de juventude e paixão.

Sabia bem quantos ficavam para sempre feridos no rastro da sua belleza e

quantos desejariam apunhalar-me n’um antro, dizendo-me criminoso, porque

era feliz.

Lia não tinha nada da esculptura antiga, linhas consagradas de modelo

napolitano, seios altos, tinta baça, nariz grego, cabeça de Juno, onde

torvelinhassem cabellos de noite. Era uma rapariga tão fresca como

uma creança e tão branca como uma camelia. As linhas do seu corpo

instrumentavam uma symphonia purissima, sem relevos superabundantes ou

energias lubricas. Musical, toda essa organisação de que um tepido

perfume de morbideza excentrica, se escapava em risos, sobresaltos e

canções! Sob a coloração da sua pelle luminosa, tão fina que me dava

calafrios ao contacto, e sob a fragilidade etrusca da sua cinta tenra e

dos seus punhos magnificamente moldados, ninguem podia sonhar sequer a

tenacidade altiva, a rija vontade e teimosia d’esse espirito jactitante,

todo incoherente de pequenos requintes e anckilosado dos mais estranhos

prejuizos. De feito, era necessario vir de uma raça atormentada e tenaz,

grandiosa na sua miseria e filtrando por seculos sem numero, através

dos cataclysmos da terra e das maldições do Deus irado, hoje errante

nas asperezas do captiveiro, depois prosperando sob os reinos da edade

gothica, após azorragada para o exilio, logo entregue ao carrasco e á

fogueira, roubada, espesinhada e maldita, para assim engastar como joia

rara, no fragil involucro de um corpo adolescente, esse genio caprichoso,

que parecia tecido dos vôos da andorinha, do angelus de Massenet, de

gottas de luar, e do travor bravio dos fructos silvestres, genio que

era bom e mau ao mesmo tempo, luminoso e negro, leve, rhythmico, vivo

até á doidice, mas que por vezes, vinha bater a aza de uma melancolia

negra—talvez a hereditaria saudade d’essa patria ideal, perdida na bruma

dos longiquos continentes, onde contemplativas repousam as ruinas dos

templos, sobre cujos capiteis destroncados eternamente dorme a sombra do

Sinay!

Pela agua irritada de fremitos, a guiga corria em silencio, fóra do

quadro aduaneiro. Lia tivera a ideia de uma pescaria nocturna, que

nos furtasse n’aquella noite de Casino, á convivencia de banhistas

pretenciosos e mulheres fatigadas. A noite estagnava n’uma quietação

abafadiça, sem brisas e toda uniforme no seu lucto. Da cidade, o gaz

traçava na sombra como um plano de edificio monstruoso, pontuações

vermelhas que se alongavam em formidavel escala, desde a Torre de Belem

cravada na ponta de uma linha arenosa e curva, até á outra balisa, que o

accumulado das casas de Alfama parecia occultar. E de tamanha fabrica,

vinha um fervor de respiração convulsa, que á flôr da agua se afinava com

subtilezas acusticas, estremando cada ruido na sua gradação, e decompondo

por espaços através dos sons, toda a vida complicada da cidade, desde o

hausto de uma valvula de fabrica, até ao grito indistincto de um vendedor

de jornaes. Olhada assim de longe, d’aquelle fundo de sombra salgada,

Lisboa tinha o ar de uma grande cidade entregue á nevrose tragica

do vicio, pois que se apagavam na noite as frontarias dos edificios

burguezes, as architecturas hybridas dos palacios e dos templos, a

uniformidade das ruas geometricamente alinhadas, e no tremeluzir dos

lampeões se podia evocar alguma d’essas necropoles torvas, onde as

festas resumiam a vida, as carnes das mulheres se cobriam de lhamas

de ouro em purpuras radiantes, a musica embalava a embriaguez dos

soldados e capitães, e do homem nada vivia senão a besta, tripudiando em

concupiscencias phenomenaes.

Em meio do rio e nos torvos concavos na nevoa gordurosa, esgarça aqui

e além pelos caprichos do ar e da noite, os barcos ganhavam dimensões

temerosas, e de vela frouxa sobre as varas curvas dos mastros, faziam

pensar em azas mortas de albatrozes escorregando na agua negra, que se ia

somnolentamente contra o mar.

Á força de prescrutar as sombras, a retina falseava as imagens

alargando-as, enchendo com ellas os ares, fazendo-as mover entre crepes

n’um rhythmo funebre, e esboçando assim carvões rembranescos, d’uma

energia desconforme. N’esse pavor do negro, perdia-se ao leme o perfil de

Lia, n’um fugitivo albor, immobilisado em singular recolhimento.

Ás vezes as suas mãos mexiam distrahidamente no regaço, havia o resoar

das contas agitadas—e se o froco descahia um pouco, o marmore dos braços

abria claridades eburneas no lucto do _deshabillée_.

Em espiralitas claras, cortados muito curtos, os cabellos faziam-lhe

_capoul_ á banda, sobre a testa baixa, d’onde o nariz serio e sem

proeminencias, um pouco obliquo de azas, nascia dôcemente, como n’uma

mascara de sphinge. Em volta, no drama errante das sombras, as arestas

tocavam-se ás vezes de uma luz, filetes tenues de phosphorencia rolando

no dorso da onda, reticulos argenteos espelhados das estrellas, gottas

perola vogando como algas de luz nos palpos da maré, alguma coisa de

fogos-fatuos ou pyrilampos d’agua, esvoaçando n’uma vida abrazada e

inquieta, de vertice em vertice e foco em foco, para subtilmente bordarem

como inconstantes melodias, por todo esse claro-escuro. No entanto o ceu

tinha formigueiros de estrellas, retalhados com os regatos de tinta das

nuvens lançadas por camadinhas obliquas. E a cada passo ella dizia uma

palavra guttural, vestindo n’essa estranha musica a fugitiva ideia que

lhe pipiára na mente. O estranho dialecto, sifflante, torvelinhando,

cheio de breves, do aspirados em _ah_, e _eth_, vibrava na voz de Lia com

expressão metallica, fina, viril, cheia de paixão. Era a lingua em que

ella me insultava nos seus periodos de orgulho judeu, de ardencia, de

desejo, de embriaguez e de amor. Cahida do meu pescoço pelos seus braços

em collar, quasi núa e cingida a mim, os pés rojando, crespos cabellos

em nimbo na pureza impeccavel da testa, narinas debatendo-se d’ancia,

e a bocca em momo escaldando n’esse terrivel escarlate dos sangues

orientaes, muitas manhãs eu lhe ouvira palavras d’aquellas, primeiro

ciciando divinos segredos, e a cabecita escondia-se na minha, cahindo-me

no hombro desnudado. Depois a respiração subia n’um começo de cyclone,

estrangulava-lhe a voz, e o seu dizer era offegante e frenetico. E d’alli

para cima, que coleras fuzilavam por ella! Cada molecula da sua pelle

era um centro de sensação tumescido em fluidos de amor e rebentando por

descargas de gozo, sob a fecundação de cada beijo.

Essa radiação de mulher adolescente transfigurada ao calor de um

homem, ganhava de subito energias do deserto, reminiscencias de estado

barbaro, sensualidades tigrinas, cujo ardor a agua do baptismo parece

ter resfriado nas christãs. E como faisca espadanando no embate violento

das fragas, aquella linguagem mesclada, indefinivel, obscena talvez,

e encantadora, fazia-me lavas no sangue como um ultimo requinte de

voluptuosidade!

E a guiga vogando manso, como n’um pedaço de lenda rhenana, sem ruido,

tendo a mulher de negro ao leme...

Evitavamos os navios ancorados, como conspiradores em perigo; uma vez

ou outra porém, tinhamos de contornar alguns d’esses cetaceos immoveis,

que affrontados pela prôa pareciam crescer desmedidamente nos ares,

multiplicando a confusão de vergas, escadas e cordagens, e accendendo

pelos oculos das camaras, fulgores sanguinolentos de olhos estoirados,

sem movimento e sem palpebra.

—E a pesca? disse Lia, em voz baixa. Aproximámo-nos da outra margem.

Cahiam de cima as arestas dos montes, fazendo trevas na sombra. A maré

descia vagarosamente, embalando no dorso das ondas alastramentos de algas

verde-negras. Accendi á pôpa um archote, e fizemos alto. Em volta, a

chamma abria uma photosphera geometrica, raios que se quebravam na agua,

torvelinhando em rêdes de sangue, e na penumbra da noite se amorteciam,

á medida que se alongavam. Immovel no seu banco, Lia tinha a cabeça

distrahida, envolta n’um froco atado por baixo da barba, a narina quieta,

e uma serenidade de face a cada passo desmentida pela caustica dos seus

olhos de hebrêa.

—E a pesca?—foi em toda a noite o unico portuguez que disse, n’um fluido

de abstracção monotona, sem sentido e sem alma, com voz que era antes

um echo. Nem um instante porém, esses olhos me largaram, spasmos n’um

deslumbramento de luz, a principio tranquilla e dôce, depois tenaz,

depois feroz, e inquietadora por fim. Não sei explicar, nem ha coisa

alguma que o explique, por que vibrações infinitesimas iam passando as

fibrilhas d’essa iris, que dentro de mim illustrava com illuminuras

divinas todo o fulvo poema de uma paixão selvatica. Parecia-me, na

incoherencia em que oscillava, o seu amor uma serpente que se enroscava

frenetica a mim, inoculando peçonhas no meu sangue e loucura no meu

cerebro, invertendo a polarisação dos meus instinctos e contaminando

a nobreza dos meus ideaes, tornando-me feroz, grosseiro e cobarde, e

deixando pela algidez da minha vida, um rastro de maldição e estupor! E

por mais esforços que fizesse, a contemplação d’esse typo de Herodiade,

embaraçava-me, cançava-me, fundia-me! Em pleno rio e longe do bulicio,

a sua figura transfigurava-se de immovel, e através d’ella eu via irem

desfilando em procissão phantastica, tunicas de linho ao vento, cabellos

ornados de sequins, e olhos de terrivel belleza, todos os estranhos typos

da judia lendaria, desde Maria, a suprema innocencia, até Thamar, a

suprema culpa!

—E a pesca? hão de os senhores perguntar. Bom Deus, nem me recordo!...

Nem sei inda agora explicar, porque o archote se apagou sem nós

sentirmos, e o primeiro sol nos veio surprehender abraçados no fundo da

guiga!

Oh! a deliciosa pescaria!...

ABANDONO DO POMBAL

O Domingo tinha sido uma loucura para Maria de Jesus. Houvera festa em

Santo Antonio, branco oratorio que de cima do outeiro sorria de ingenuo,

aos arvoredos e aos cevadaes. E Maria de Jesus que era buliçosa e sadia,

no pleno desabrochar de uns dezoito annos magnificos, tinha ido mais as

primas, gozar no adro sonoro de bailados e cantigas, da estranha harmonia

perfumada e larga, d’aquella tarde primaveral. Em março, o cahir do sol

deixa nos campos ainda, reminiscencias humidas do longo inverno, tão

enfadonho de passar nas herdades e aldeias; o chão está esponjoso ainda

pela infiltração da agua; relvas perladas afogam os pés em frescuras

doentias; passa um friosito cortante nas ramadas nuas das figueiras e

sobreiraes, e o mesmo luar de pallor indefinivel, tem o quer que seja de

um gelo de sudario estendido sobre o cadaver da terra, e todo pregado com

alfinetes de estrellas. O bando de raparigas desceu tarde do outeiro,

quando já os bailaricos desmanchavam e os ceus esmaeciam de amor. No

silencio da vereda, que entre piteiras e silvados, vinha entroncar

na estrada da villa, as vozes timbradas de juventude e cascalhando

em risinhos, tinham um acalentar gracioso, e quebrando-se, subindo,

_smorzando_, saltitavam de valle em valle e corrego em corrego, tornando

musica a exhalação torporosa das plantas. Maria de Jesus pouco afeita

áquelles passeios do campo, deixava-se penetrar do encanto tonico d’essa

frescura que lhe fazia picadas nos pulmões, dando-lhe uma embriaguez de

vida sem egual.

Chegaram á villa já noite, em tropel, chailes nos braços, tranças cahidas

e braçados de flôres, um remoinho de palavras e risos, que não era já

palestra, mas lhes vinha como resultante d’aquella avigorentação de seiva

e mocidade, provocada pela travessia dos campos. Só em casa, ella reparou

que molhára as botinas, tinha a garganta presa, e por vezes sentia um

peso estranho de cabeça.

—É fadiga do passeio! dizia a rir, contando a alegria da festa, os

promenores dos bailaricos e a garridice sem exemplo do Santantoninho da

ermida. Precisava porém de ouvir-se para estar bem, e a cada silencio sem

saber porque, cerravam-se-lhe as palpebras, a espinha dorsal cahia-lhe

dorida, e uma tristeza vaga, feita de estupor e devaneio, entorpecia-a

toda, em narcotismos de banho russo.

Foi agitado o dormir, essa noite. O Santo Antonio tomava-lhe no sonho

dimensões colossaes, e de olhos estoirados, barretina na cabeça, corria a

ameaçal-a com a cruz, bramindo com a sua rude voz de pregoeiro.

Não podia estar na cama, voltava-se, sentava-se, bebia agua, e vinham-lhe

oppressões teimosas, pasmos fugitivos, um tremor febril de membros.

Por duas vezes cuidou que estava um vulto embuçado aos pés da cama, a

encaral-a do fundo de um grande capuz negro, barba fulva, onde lagrimas

corriam.

E de manhãsinha, annunciou-se a tosse, a grande fadiga continuava, e um

fio de sangue correu-lhe a um canto da bocca. A mãi fizera-se branca

áquelle terrivel signal, que ia dizer com outro mais terrivel ainda,

apparecido no dia anterior sobre o leito da pobre pequena—uma pennita de

pombo, toda negra, immovel sobre o travesseiro.

Queriam dissuadir a pobre velha e chamal-a ás coisas praticas, não

haveria nada, tolice acreditar em signaes... Mas os olhos d’ella, fitos

no pombal não viam senão esses casaes brancos ou cinza, alguns manchados

de côres, alguns de pescoço irisado, dois ou tres todos negros, enormes

como corvos, arrulhando altivamente nos beiraes da casa, voando contra

as ventanas do pombal, ou vindo a espaços bater nas vidraças, com azas

funestas, de que abalavam ao vento, pequeninas plumas agourentas.

—Os pombos, os pombos!... dizia n’um fundo d’assombro a pobre, como se

ante ella surgisse alguma evocação pavorosa.

* * * * *

Dia agreste, cheio de incertezas no alto, com alternativas de sol e

contramarchas de nuvens, que muito baixas, deixando farrapos pelos

cabeços, a espaços truncavam a cordilheira, embaciando a transparencia

viva das verduras. Nos esqueletos das arvores punha a rajada volitações

de folhas, vinha um frio doloroso dos longes; e por massas, na opacidade

do ar, troncos cruzados, ramadas vibrantes na symphonia dos ventos,

toda a confusão regelada dos bosques que vão rebentando a medo, davam

uma sensação de amargura e d’abandono. Como iam grossas as aguas por

esses barrancos e corregos, alagavam-se os terrenos baixos, exhumavam-se

radiculas tortuosas côr de ferrugem, das barreiras que resistir queriam

ao turbilhão, e vinha das relvas zurzidas pela enxurrada, das attitudes

contrafeitas e bruscos gestos do arvoredo, uma fadiga imbecil e attonita

dôr, que quasi trahiam impotencia. Terrenos fóra alastravam-se ainda

calvas aridas, bocados de chão velho hirsutos de cans vegetaes, aqui e

além pintalgados de germinações timidas, pallidas, finas, caminhando em

filões, com o effeito de pinceladas ao acaso. Por toda a banda começava

o cevar de hyena, da herva nova que se lustra, engorda e alimenta do

cadaver da herva velha, e em vaidades de debochada, a vai pisando,

humilhando e roendo, com uma especie de implacavel ciume.

A cidade do vicio · 第 1 / 17 段