cães aliados, e dirigidos por um chefe, aguardavam os seus amigos.
XVI
A chuva
Aproximava-se o período diluviano do Estio, que todos os anos vinha
ensombrar o céu quaternário. O vento arrefecia então, o frio matava,
muitas vezes, a flor ou o fruto no ramo, e grandes fomes sucessivas
exterminavam os frugívoros. Transbordavam rios e ribeiros; e o homem,
encerrado na gruta da região alta, aprovisionado, hibernava, passando as
horas a fabricar utensílios e armas.
Vamiré, prevendo aqueles dias nefastos, remava todo o dia. Élem,
submissa, dominada, ajudava-o. A carne de élafo assado servia para a
alimentação; e acresciam frutos silvestres, raízes tenras, ovos tirados
dos ninhos serôdios.
Vamiré velava ternamente por Élem; e as noites, que eles passavam nas
margens do rio, trescalavam a poesia imensa das infâncias.
Abrigavam-se perfeitamente contra o ímpeto da chuva; a barca, sustentada
por quatro espeques, servia de tecto; a pele do espeleu tapava o lado do
vento; e grandes ramos pendiam da barca, de todos os lados.
Foi naqueles dias que o grande nómada do Ocidente se tornou esposo da
filha dos países desconhecidos...
O ruído da chuva, o fragor da floresta açoitada pelo vendaval, isto, de
per si, já falava de invernia e do prazer do refugio.
As primeiras friagens confirmaram o prognóstico. Vamiré, desagasalhado
em favor de Élem, tiritava ao sopro do nordeste prematuro. Teve de
gastar a manhã inteira do dia seguinte, em descobrir algum animal
felpudo; e, de emboscada, surpreendeu um urso, atravessando-lhe o
coração com a zagaia.
O cérebro do animal, misturado com o cerebelo e a medula de uma rena,
serviu para untar a pele, previamente esfregada e desembaraçada da
gordura e dos tendões.
Desde então, puderam ambos estar quentes, durante o sono. Élem,
encantada do conforto, ria docemente, com uma confiança infinita. Mas
Vamiré mantinha a preocupação das grandes chuvas próximas, durante as
quais a floresta era inabitável. As feras, mais agressivas então, as
hordas de lobos perigosamente esfomeados, iam amplificar a luta nos
bosques. Em combates contínuos, as armas partir-se-iam. Era preciso
estacionar, durante semanas, em alguma gruta, para renovar arpões e
zagaias, para conjurar os perigos nocturnos de um acampamento volante e
as torrenciais chuvadas ao ar livre.
Por menos suave que fosse o inicio do período diluviano, Vamiré poderá
chegar às grutas em fins de Julho, sob a condição de se apressar e de
não perder tempo. Não se desprecatou; e, desde a aurora ao crepúsculo, a
sua mão vigorosa fazia andar a piroga. Infelizmente, à barca sobrevieram
avarias, e foi preciso despender três dias em reparos.
Por fim, a barca foi de novo lançada à água. O rio, com a enchente,
tomava a cor do barro, e transbordava já para as margens mais baixas. A
corrente, além disso, opunha-se; era preciso ir junto da terra; grandes
troncos flutuavam ameaçadores, e algas terríveis emaranhavam as suas
meadas.
Élem passava grande parte do dia, envolta na pele felpuda, e amodorrada
pela monotonia da água corrente. O repasto era a sua principal ocupação.
Amarrava-se então a barca em qualquer calheta. Graças à provisão de
folhas secas em lugar coberto, o lume era suficiente para acabar de
assar uma posta de élafo, um palmípede, um peixe arpoado em viagem.
O clima seco e frio dos tempos madaleneanos nas estepes da Europa, posto
que moderado no Oriente meridional, comportava todavia o súbito regresso
do frio antes do equinócio do Outono. Este facto ocasionava emigrações
parciais de símios, de gamos, de chacais, de roedores, de aves
palmípedes e pernaltas. O antropóide recuava então para o trópico,
enquanto as hordas do mamute chegavam mais numerosas, e os pais do
elefante indiano, os filhos do grande _Anticus_ de Chelles desciam das
montanhas.
Vamiré fazia parar, às vezes, a piroga, se um bando de gamos ou de
chacais chegava, em marcha, à beira do rio; mas o que verdadeiramente o
apaixonava era o êxodo dos macacos, que, desfilando, e saltando de
ilhota para ilhota, passavam à outra margem. Cabriolavam, clamorosos,
aos centos, baloiçando-se, saltando a vinte côvados, apanhando de novo
um ramo de árvore, suspendendo-se e prosseguindo aos saltos. A face
deles tinha trejeitos, que pareciam determinados por ideias. Tinham
gestos inteiramente humanos, coçando a cabeça, catando-se, assentados,
descascando frutos com os dedos e com os dentes. As suas orelhas bem
caireladas, os seus olhos de visão recta, a finura, a inteligência dos
seus movimentos, encantavam extremamente Vamiré.
Sucedeu que uma fêmea, furiosa, atirou um filhito para o caniçal.
Debalde gemeu ferido o pequeno macaco: os outros pareceram não cuidar em
não avolumar a sua coluna com um inválido. Comovido, o grande nómada
correu a apanhar o pequerrucho. Encontrou-o gemendo, de mãos estendidas
no peito. Agasalhado, alimentado de frutos, o animalzito tornou-se
estimável: gostava de dormir no colo de Élem, de se encarrapitar no
ombro de Vamiré, beber água na mão dele, de se arrufar com a sua própria
imagem na face do rio; e nada satisfazia o coração de Vamiré, como o ver
o macaquito, inquieto, caprichoso, brincão.
Seria aquilo uma raça de homens anões?
Consultou Élem a este respeito, e soube que a linguagem deles era
desconhecida, e que viviam como animais. Entretanto, Élem falou-lhe do
homem das árvores, construtor de cabanas, e Vamiré recordou-se do ente
de olhos de âmbar, cabelos raros e corpo peludo, que encontrara outrora.
Um dia, à hora em que o vermelho indeciso, tremulando em fundo claro,
anuncia o desaparecimento do astro soberano, Élem soltou um grito, e o
Pzann suspendeu o remo. Na margem direita, apareciam homens. Eram de
baixa estatura, curvados, e em seu rosto estereotipava-se uma fealdade
triste e humilde. Armados apenas da antiga clava; e os seus cabelos,
dispostos em pequenos anéis, desciam-lhes até o queixo.
--São os _comedores de vermes_,--murmurou Élem, contrariada.--No Estio,
entram nas florestas e sustentam-se de bichos moles, contidos nas
conchas; no tempo das chuvas, descem para a beira-mar, e nenhuma tribo
sagrada tolera a sua vizinhança.
Vamiré, com interesse febril, observava os vermívoros. Tinham
proeminente a maxila; a testa descia levemente até os enormes
sobrecenhos arqueados; o cerebelo, desmedido, parecia pesar-lhes; não
tinham os rins arqueados, e, marchando, apoiavam-se na clava.
Durante algum tempo, procuraram raízes e frutos de pevide entre as
plantas aquáticas, e todos depunham a sua colheita, num monte, diante do
chefe. O montão era já considerável, porque eles, pelo caminho, haviam
já empilhado moluscos univalves, tubérculos, folhas hortenses.
Ao cair da tarde, agruparam-se em volta do chefe, que equitativamente
distribuiu por eles os mantimentos.
--Conhecem a justiça!--murmurou Vamiré, satisfeito.
Depois, vendo que eles acendiam lume, cedeu ao impulso do seu coração, e
dirigiu para eles a piroga, com gestos de fraternidade.
Impressionaram-se, ao principio; mas o pequeno número dos adventícios
tranquilizou-os.
Silenciosos e graves, contemplavam o grande nómada e a sua companheira.
A estatura do homem, desconhecida no Oriente, assombrou-os; mas via-se
que simpatizavam com ele, ao passo que visivelmente desconfiavam de
Élem, em quem reconheciam o tipo dos mais ferozes perseguidores dos
vermívoros.
Entre estes não havia mulheres: as mulheres, em hordas confusas,
seguiam-nos de muito longe. A primavera reunia os sexos em paragens
tradicionais; depois, o bando masculino abandonava o bando das fêmeas
durante o Estio, o Outono e o Inverno.
Eram como vencidos, os vermívoros. Saídos cedo da matriz antropomorfa do
período terciário, lançados nas vias _externas_ do humano pela adopção
de armas, de métodos de sociabilidade, já muito distanciados do processo
animal, para que nele reentrassem sem fraquejar, tinham perdido, em
frente do vigoroso quaternário, a esperança orgânica, esta força
singular que abandona o velho tipo do Vermelho perante o Árico.
Demais, relegados nas estepes áridas ou na profundeza das florestas,
fracos, mal armados para a caça da ligeira fauna silvestre, descambavam
progressivamente na fitofagia, adestrados em descobrir os tubérculos que
há debaixo da terra, em conhecer as hastes e raízes comestíveis, fazendo
provisões de pevides de melancias, de grãos de helianto, gulosos de
moluscos, passando o Inverno nas costas do Cáspio ou do Mar-Negro, onde
se alimentavam de pesca rudimentar.
Uma bondade, um instinto adorável, tornava a vida do individuo preciosa
para a comunidade. As partilhas eram reguladas pela mais estrita
igualdade, e cada qual tinha a maior dedicação em salvar o companheiro
da garra das feras. Por isso, eram ainda senhores do leão, do urso, do
leopardo e até do antropóide; mas tinham medo enorme dos braquicéfalos,
caçadores das estepes fecundas: é que tinham visto perecer milhares dos
seus, sob os golpes das frechas e zagaias.
Nunca se aproximavam dos acampamentos inimigos, a menos de seis dias de
marcha, e até evitavam os grupos insulados.
Vamiré cativou-os pelo seu riso ingénuo, e pela generosidade com que
lhes ofereceu alimentos da sua barca: postas de élafo e de esturjão,
ovos de adem. Também estas provisões foram repartidas, com gáudio do
Pzann. Este, brindando o chefe com uma pele de raposa, todo se tomou de
surpresa, quando viu que a pele era gravemente retalhada e distribuído
um pedaço a cada um do bando.
O seu riso franco, e a sua tentativa de fazer compreender o absurdo
daquela prática, sugeriram alguma desconfiança aos vermívoros; e
manifesto ainda era o terror que Élem lhes inspirava, e o desgosto dela;
a ponto que Vamiré, mau grado seu, decidiu separar-se deles.
Reembarcou pois. Já a distância, escondido pelos caniçais, fixou
longamente a vista, com exclamações em voz baixa; os comedores de
vermes, activando as suas fogueiras, agrupavam-se à roda delas; e,
depois de construírem com ramos uma ligeira choupana, em que o chefe se
recolheu, acocoraram-se sobre os calcanhares, ao ar livre, com a cara
entre os joelhos, as mãos na cabeça, e assim adormeceram.
O Pzann sentiu então grande piedade para com a sorte dos seus irmãos
inferiores. Ao amarrar a barca, passava em seus lábios um murmúrio de
tristeza. Mostrou-se sombrio, à refeição da noite, e adormeceu tarde.
Acordou antes da aurora, e observou a partida dos vermívoros. Viu-os
atravessarem o rio a nado, e desaparecerem ao nascente. Quando já os não
via, suspirou melancolicamente, acordou a sua companheira, e desamarrou
a piroga.
Quatro dias decorreram no labor da viagem. Em a noite do quarto,
desencadeou-se uma furiosa tempestade, que derrubou árvores
ruidosamente, levantou no rio enormes vagas e fez tremer toda a
floresta.
Abrigado numa lapa, Vamiré dormiu, resignado e tranquilo. Élem passou a
noite em suplicas, orando ao Desconhecido.
O furacão sibilava, insinuando-se nos sarçais, e curvava as altas
ramarias, onde se perdiam clamores em som confuso.
A tempestade declinou de madrugada. O dia amanheceu suave, as nuvens
deixaram passar réstias de sol, e a floresta ressurgiu para uma vida
húmida e tépida.
O rio, barrento, largo, engrossado e tranquilo, carreava os despojos da
batalha da véspera.
Começava a descida para o mar dos peixes que sobem aos rios, e que iam
passando em chusmas, adelgaçados, extenuados pelo trabalho da
fecundação.
Élem, fatigada, dormia; Vamiré, de bom humor, remava para a pátria
longínqua.
Em horas monótonas, a ideia do espaço a transpor, a vertigem da
andadura, adormentava o cérebro do Pzann. Vamiré já não era senão uma
vontade tensa, um organismo mergulhado no sono dos fluidos, a água, o
ar; o marulho daquela e o infinito afago deste entorpeciam as suas
carnes, imobilizavam a sua memória sobre algumas palavras, sobre a
imagem de seu pai, de sua mãe, do seu valente irmão Guni ou da sua
irmãzita, que saltava como uma cabra montesa; mas não chegava a realizar
o esforço que relaciona as coisas e as faz falar.
Mas à sexta hora depois do meio-dia, deu-se um incidente inquietador,
que atraiu toda a atenção do grande nómada.
XVII
Os aliados
Animais corredores, ligeiros,--élafos, gamos, elãos,--chegavam
espavoridos ao rio e atravessavam-no. Formavam bandos consideráveis,
dominados do pânico herbívoro. O seu número ia crescendo com o declinar
do dia, e com eles se misturavam cavalos e alguns uros.
Vamiré, espantado, baldadamente procurava uma causa simples daquela
extraordinária fuga: incêndio, emigração...
Interrompia o remar, e Élem murmurava esconjurações.
E o galope dos animais ia-se acelerando. Aos cervídeos, aos bovídeos,
aos cavalos, juntaram-se lobos, chacais, raposas. O ruído do mato
patenteou a corrida de animais menores,--lebres, doninhas, fuinhas e
lontras. Apareceram enfim carnívoros,--ágeis panteras e ursos de marcha
pesada. Ao longe, os macacos clamavam alarma, como sentinelas
escrupulosas, e o seu clamor atravessava, como um furacão, as altas
ramadas, transpunha o rio e difundia-se nas regiões desconhecidas.
Anunciava-se formosa a noite: nenhum sinal de tempestade, nenhum sintoma
de perturbação atmosférica. Mas, como um prodígio misterioso, a fuga das
feras despertava no intimo do homem e da mulher os mais sinistros
presságios.
Todas as vozes, na serenidade do crepúsculo, vibravam de um medo enorme,
e espalhavam o contágio do terror... Vamiré entrevia, não o receio do
animal perante a natureza, mas o receio dos seres perante outros seres,
o êxodo das raças vencidas, o desalento de uma espécie perante a espécie
dominadora.
Era mister entretanto precaução contra a extraordinária ameaça, e
segurança contra o perigo de ser esmagado pela cega corrida de
herbívoros, que prosseguia nas trevas.
Vamiré avistou, a meio do rio, uma ilhota, em que cresciam freixos.
Dirigiu para lá a embarcação, e acendeu pequenas fogueiras, pondo-se
assim a salvo de ataque directo e em posição excelente para observar
tudo.
Depois da refeição, nem ele nem a companheira pensaram em dormir.
Rio abaixo e rio acima, findara a corrida dos animais. Uns
aventuravam-se contra a corrente, outros seguiam-na; e este curioso
movimento tinha a singularidade curiosa de se efectuar nas duas
direcções, em sentido inverso, como se os animais que seguiam para cima
e os que seguiam para baixo procurassem fugir da zona florestal, que
terminava quase em frente da ilhota.
XVIII
Os vermívoros
Os comedores de vermes marchavam na direcção do grande-lago. Ainda que
tristes em geral, à sua exploração não era estranha uma certa satisfação
no inicio das paragens. Espalhavam-se então, e, como a colheita da manhã
era individual, tinham exclamações a cada bom achado, e mostravam
puerilmente o que colhiam, túbaras, caracóis, raízes doces de
umbelíferas, frutos agridoces...
Sob os longos e negros topetes, com a sua cara proeminente, a disposição
daqueles topetes sobre o rosto tornava-os mais parecidos a qualquer cão
do que a um antropóide. Os seus braços curtos, o seu peito em quilha, o
indeciso ganido do seu rir, completavam a semelhança.
Demais, entre as tribos braquicéfalas corria a lenda, de que tinha
existido ou devia existir no extremo Oriente uma raça de homem-cão,
aniquilada a pouco e pouco pelos verdadeiros homens, pelos filhos do
animal, das águas, únicos e legítimos possuidores da Estepe e da
Floresta, do Rio e dos Grandes-Lagos.
E assim, ou folgando entre os vastos arvoredos, ou perseguindo-se
através dos matagais, de ventre em forma de odre cheio, de dorso curvo,
marchando muitas vezes a quatro patas, conservavam a instintiva
orientação que guia os animais emigradores.
A linguagem, reduzida a alguns sons, exprimia o medo, a alegria, a fome,
a sede. Quanto ao mais, serviam-se da mímica animal, e ainda da
comunicação oculta, da transmissão simpática do terror ou da ira.
Os velhos, sem ferocidade, eram os guias. Dois deles comandavam uma
vanguarda de batedores; outro, o mais velho, fechava a marcha. Quando
atravessavam os fojos das grandes feras, os chefes, com um grito agudo,
reuniam a coorte; e, então de clava pronta, não se pode imaginar que
solidariedade corajosa os impelia a investir sem temor contra o urso ou
o leopardo.
Depois do meio-dia, reuniam as provisões comuns, as que serviam para o
repasto da noite, antes de adormecer. Cada um ali depunha a sua colheita
individual, sem lhe tocar com os dentes.
Feita a divisão, junto de um regato ou de uma fonte, comiam e bebiam
sobriamente, e todos adormeciam, fatigados do seu trabalho diário, com
sonhos tão vagos, como os do leão ou do lobo, que rosnam dormindo.
Marchavam. A floresta húmida espalhava sobre eles a sua sombra. Graves e
pueris, a sua atenção desviava-se constantemente, acendia-se o seu pobre
riso e apagava-se, como os fogos que flutuam nos pântanos; e a sua vida
expandia-se em ligeiras comoções, em esboços de ideias, em artifícios de
quem amamenta um aborto, em lineamentos de memória e previsão.
Lavasse-lhes a chuva os crânios duros, açoitasse-lhes o vento as nucas
com varas de frio, fizessem-lhes os espinhos sangrar os pés,
perfurassem-lhes a epiderme milhares de parasitas, eles tudo aceitavam.
Acumulava-se-lhes no cérebro uma herança inteira de resignação.
Depois que o homem de braços longos chegou através dos tempos, tinham
deixado de progredir: conservavam-se. Nada mais havia para eles. A terra
imensa desprezava-os; e, entrementes, a vida esgotava-lhes os meios,
endurecendo-lhes a epiderme, erguendo-lhes velos no peito, e
estendendo-lhes refegos de gordura à volta dos quadris.
Mas o circulo das raças rivais ia-se-lhes sempre fechando adiante, e o
pobre homem antigo tinha de durar menos que as feras carniceiras, porque
estava desarmado pela longa crise de transição, em que as forças
musculares se reduzem e se transformam, na luta contra as adaptações que
o cérebro realiza no mundo exterior.
Na penumbra dos arvoredos, tinham companheiros de êxodo, aos quais se
haviam desacostumado de fazer mal: numerosos bandos de gamos e chacais,
dirigindo-se para o Sul, ou o tugir dos roedores, que se encaminhavam
para o Poente. Saudavam com um longo clamor o pacifico barrito do
elefante oriental, o buzinar dos pequenos cavalos de boca papuda, cujas
hordas militares cruzavam as suas.
Na noite do segundo dia da sua viagem, o chefe dormia na sua choupana de
ramos, a fogueira nocturna ia-se apagando, e os tardígrados, acocorados,
encolhiam-se com o frio, quando o grito do vigia pôs todos a pé.
A palavra, que significava o leão, trocou-se entre eles, e um grande
terror lhes fez bater os queixos. O chefe agrupou os mais corajosos, e
todos se reuniram, de clava erguida.
O pavoroso vulto do leão entrou no âmbito, frouxamente iluminado pela
fogueira que se extinguia, e estacou, por um minuto, diante dos clamores
belicosos dos homens.
Mas, ou porque tivesse escasseado a caça, ou porque preferisse a carne
dos primatas à dos outros animais, abaixou-se, arremessou-se com um
salto prodigioso, e caiu sobre a horda. Esta havia recuado, abrindo
espaço, segundo uma táctica milenária, e mais de cinquenta clavas
desceram sobre o crânio, sobre o focinho, sobre os olhos, sobre o
espinhaço da fera.
O leão defendeu-se, levantou-se, e com três lances de garras prostrou
quatro adversários. Os outros, estimulados à luta, tornaram-se mais
audaciosos, atacaram o focinho ensanguentado; e o hércules do grupo, com
uma pancada, partiu uma das pernas dianteiras do animal, ao passo que
mais dez pancadas paralisavam as pernas traseiras.
Vencido, o leão procurou fugir, mas os vermívoros, tornando-se ferozes,
não lho consentiram. Arrojaram-se todos contra ele; e, enquanto uns o
seguravam, procuravam outros estrangulá-lo. Não o conseguiram logo, e
receberam golpes terríveis; mas, afinal, tendo o chefe enterrado a clava
na goela aberta, o leão entrou de estertorar; e então, ferozes e
vingativos, todos acabaram com ele.
Viu-se que dois companheiros expiravam e cinco estavam gravemente
feridos. Os mortos, longamente pranteados, foram depositados no fetal, e
os feridos foram desveladamente tratados. De manhã, quando prosseguiram
na marcha, os mais feridos foram levados em braços.
Os tardígrados, não obstante as suas perdas, ufanavam-se de, mais uma
vez, haver dado lição severa ao seu temível antagonista, e erguiam
galhardamente a clava, mutuando gestos de triunfo e confiança.
A floresta agora parecia-lhes melhor. Os seus pés descalços pulavam
ligeiros pelo caminho, a sua estatura aprumava-se quase, e os seus
pobres olhos de deserdados pareciam brilhar.
É certo que, perante a simples possibilidade da vitória, uma expansão de
seiva lhes teria dilatado o crânio; mas as vitórias restringiam-se ao
animal: como uma pressão material, como uma ligadura das artérias, como
uma degenerescência dos pulmões, o medo dos braquicéfalos acanhava-os,
imobilizava-os; aniquilava-os, até de longe. E, assim, o circulo das
suas ideias era tão limitado como o da sua vivenda, ou porque não
ousavam pensar no que não podiam realizar, ou porque não podiam pensar
no que não tinham realizado.
Desde a fresca alvorada até um terço da manhã, não houve incidente na
marcha. No agradável arvoredo, só havia animais inocentes. O sol tornava
tépido o humo das clareiras, e os seus raios penetravam na espessura. A
tal ponto a vida se expandia, que eles se puseram a cantar.
Por volta do meio-dia, a vanguarda de quinze homens recuou vivamente.
Achavam-se num azinhal interminável. Todos se alimentavam de trufas.
Abundavam os javalis, fugindo adiante dos emigradores; e, por cima das
trufeiras, esvoaçavam legiões de moscas gulosas.
Marchando, parando para escavar, a vanguarda avistara uma fêmea de
antropóides.
Era raro que os antropóides atacassem os vermívoros, sobretudo quando
estes não levavam mulheres no seu bando; pelo contrário, uma espécie de
confraternidade animava o grande macaco, e os tardígrados já nele tinham
tido um precioso auxiliar contra o urso e os felinos.
Formou-se conselho, e resolveu-se destacar um pequeno grupo, que fosse
assegurar as suas pacificas intenções ao homem das árvores.
Aquele grupo, devidamente vigiado, atraiu a atenção dos antropóides, com
gritos de alegria e sinais de benevolência.
Surpreendidos a principio, os antropóides pareceram logo reconhecer
aliados, e assim o mostraram, gesticulando com gravidade, e avançando
lentamente.
Minutos depois, estavam reunidas as duas hordas. Os vermívoros
ofereceram aos antropóides uma refeição de túbaras, pevides e folhas
tenras. Os homens das árvores aceitaram estas coisas com prazer, porque
o seu regime alimentício era idêntico ao dos tardígrados.
As duas raças deserdadas ficaram depois em silencio, por muito tempo. A
sua natureza parecia comportar um fundo comum de melancolia; e a
melancolia do grande macaco parecia mais pesada que a do tardígrado,
como se fosse proporcional ao vigor dos músculos e à largura do peito.
De maneira que o homem foi o primeiro a rir, a brincar, enquanto o
macaco permanecia grave e meditabundo. Mas um deles pareceu
impressionar-se com uma recordação longínqua, despertada pela analogia
das circunstâncias. Entrou em laboriosas explicações. Os tardígrados,
inclinados, escutavam-no, sem chegar a compreendê-lo; mas a recordação
pareceu germinar noutros antropóides, que se juntaram ao primeiro; a
confusão porém era cada vez maior, até que um deles se lembrou de
apanhar uns ramos secos e indicar o movimento de uma chama.
Os vermívoros viram então que os antropóides se referiam ao lume; e,
cheio de orgulho, o chefe tirou de dois pedaços de pau seco o fogo
necessário.
Quando se fez a chama e se difundiram as línguas amarelas, entre volutas
azuladas, os homens das árvores ficaram, por um momento, receosos e
assombrados, enquanto os tardígrados riam de boa vontade.
Era a comunhão dulcíssima de parias nas fronteiras da animalidade; um
prazer reciproco em se compreenderem; e como que uma curiosidade do
Espírito das coisas em conhecer os progressos por ele realizados na
disposição da matéria.