Gostou da clareira, parou, balanceou a sua enorme corpulência,

arrancando com a tromba algumas ervas, num capricho de colosso pueril, e

deitou-se: gozou a semi-sonolência dos grandes animais, perpassou-lhe na

mente o devaneio, o inesgotável fluxo das formas e dos movimentos que

durante o dia lhe haviam impressionado a retina.

A hiena e os chacais, alapardados no esconso da vegetação próxima,

recuaram de pronto. Um animal indolente, pesado, desajeitado, rompia

vagarosamente do matagal e exibia-se em toda a luz: um urso.

O mamute, tranquilo, viu-o chegar. O plantígrado parou, consultando o

proboscídeo. Despertado no seu fojo, à beira-rio, atraíra-o o barulho

dos chacais; e, para o repasto do dia, contava agora com o homem

estendido, esperando a neutralidade do grande elefante, porque sabia

quanto este era pacifico, fora das épocas do amor.

Este cálculo pareceu acertado desde logo, pois que o elefante se ergueu

e começou a andar, afastando-se; mas, a dez metros do homem, atentou

nele, virou a tromba na direcção de Vamiré, aproximou-se, farejou,

olhou. E, mugindo ameaçador, apresentou as suas defesas ao urso. Este

sentiu a cólera funda, cega e obstinada da sua raça. Grunhiu, pôs-se de

pé, atrás de um choupo, e a mímica das suas patas e o ricto do seu beiço

exprimiram sede de represálias.

Com a tromba erguida em semicírculo, as defesas tocando no solo, com o

seu corpo gigantesco potentemente especado, o elefante esperou...

Eram dois poderosos animais. O urso mostrava os braços peludos, armados

de garras colossais, os seus caninos, a sua musculosa maxila. Podia, de

pé, agarrar e sufocar. A sua pele espessa, oscilante, não o embaraçava

na luta contra as feras, como o leopardo e até o leão; o peso ajudava-o,

e os seus gestos vagarosos eram de uma exactidão terrível.

Mas a força do mamute era incomparável. Os seus pequenos olhos, ao invés

dos do urso, viam perfeitamente; a sua admirável tromba excedia, na

agilidade e nos músculos, o braço do antropóide; as suas defesas

recurvadas, do comprimento de dez côvados, jogavam e perfuravam como os

cornos do auroco. Todo o seu corpo, em cima das quatro colunas das

pernas, e sob o pêlo arruivascado e a abundante e negra crina mediana,

mostrava-se a destreza e a facilidade de se voltar. Na floresta, na

planície, nos desfiladeiros, em toda a parte, era ele o vitorioso senhor

herbívoro, relíquia dos colossos de tromba, do período terciário, o

_dinotério_, o _elefante meridional_, o _elefante antigo_.

O hipopótamo, o rinoceronte e ele representavam, todos três, o escol da

era tapiriana, a monstruosa fauna alimentada do glúten da planta, o

triunfo das grandes corporaturas e dos grossos músculos, o triunfo da

paz armada, a coiraça, as pontas, as defesas, a tromba, contra a sanha

dos carnívoros, a agilidade de locomotores, os caninos e garras de aço.

Perante o plantígrado míope, o proboscídeo foi o primeiro em deixar a

expectativa. Naquele crânio, banhado de ondas de sangue, a embriaguez do

furor toca, muitas vezes, as raias da loucura. O mamute soltou um mugido

formidável e arrojou-se. A árvore salvou o urso, podendo este subir por

ela até grande altura. O outro, com a espádua, fez agitar o tronco da

grande árvore, e o urso, para não ser atirado ao solo, teve de

socorrer-se das suas garras de três polegadas, cravadas na casca do

choupo.

Mas o elefante insistiu, e, de repente, o urso caiu-lhe sobre o dorso.

Os dentes do urso fixaram-se em a nuca do elefante, e as garras junto às

orelhas. Mas o paquiderme sacudiu-se, como um animal que sai da água, e,

com um formidável impulso da tromba, fez cair o inimigo, que rebolou na

erva. Depois, apanhou-o com a tromba, colocou-o sobre as defesas,

ergueu-o, e atirou-o para cima de um silvado; e como o gigantesco animal

se dirigisse ainda para o inimigo, este levantou-se, fugindo com

dificuldade.

Misericordioso, o herbívoro aceitava este desenlace, e já se ia

afastando, quando o urso reapareceu, atirando-se, às cegas, contra a

tromba, arranhando-a e mordendo-a cruelmente.

O mamute, com um mugido de dor, dobrou o jarrete e abanou a cabeça. Com

este movimento, o plantígrado perdeu o equilíbrio e caiu entre as

defesas. A tromba segurou-o ali; depois o marfim enorme entrou-lhe no

ventre, e, depois ainda, as grossas colunas do paquiderme esmagaram-lhe

a caixa toráxica, e o urso exalou o seu derradeiro grunhido.

Por alguns segundos, o mamute encarniçou-se furioso nos despojos da

vitima; e, em seguida, arremessou o cadáver para longe da clareira. E a

hiena e os chacais tiveram que comer.

Satisfeita a sua vingança, o proboscídeo voltou para junto do homem.

Farejou-o novamente e, colocando-se a alguns côvados de distância, mugiu

longamente. A fêmea apareceu com a cria; e ficaram todos três em volta

de Vamiré.

Era quase noite agora. A grande mosca azul pré-histórica procurava o

abrigo da folhagem; os nemóceros partiam em nuvens para as águas; o

grilo recomeçava a sua vibrante arieta; as formigas transportavam a

última colheita para os seus celeiros subterrâneos; a larva da cicindela

dormia no fundo do seu poço; os necróforos lidavam no enterramento de um

cadáver de arganaz; o chilrear da passarada esmorecia nas ramarias; e os

corvos tinham levantado voo. Os raios difusos, mais rubros, mais

escuros, fixavam-se nas extremidades da grama e da tabua; depois,

escureciam mais, deixando apenas, aquém e além, algumas palhetas claras.

Mas da erva ressaía ainda uma fosforescência, e os graves mamutes

recebiam nas pupilas serenas estas últimas luminosidades, enquanto de

entre o bosque saía o clamor sinistro dos chacais, e o rir da hiena,

enfartada da carne do urso pardo.

Caíram enfim as trevas, estendendo o seu misterioso véu na floresta e no

rio; no mato brilhavam pirilampos; perseguidas pelo morcego, esvoaçavam

falenas, de asas lanuginosas; a coruja suspirou no côncavo dos

carvalhos; e ouviu-se a voz das feras, proclamando as suas carnificinas

triunfais.

Mais de um leopardo, mais de uma alcateia de lobos, aspirou os eflúvios

do homem estendido; mas nenhum ousou perturbar a invencível família do

grande mamute peludo, de cabeça bojuda.

Até às quatro horas depois do alvorecer, estiveram de atalaia. Vamiré

saiu então do seu longo entorpecimento, refrescado e fortificado, como

de um banho fluvial em dias calmosos.

Pôs-se em pé. Distendeu os braços e o peito, e notou, de relance, a

partida dos proboscídeos.

Esta partida relacionava-se, na sua mente, com a aventura da manhã

anterior, e teve para os mamutes palavras de boas-vindas, embora não

soubesse quanto lhes devia. Soube-o depois, quando descobriu o cadáver

do urso, com os ossos partidos; e o seu coração comoveu-se vivamente.

XIII

Entre os orientais

Decorridos cinco dias de enfadonha marcha, com amiudadas paragens,

notavam-se grandes melhoras nos feridos orientais. Na paragem do sexto

dia, adquiriram a esperança de tornar a ver o acampamento da tribo,

antes de finda a incipiente lunação.

Entre os primeiros que se punham a pé, o chefe não soltava uma queixa.

Suportava o ferimento do ombro como velho robusto e estóico, cujos

sofrimentos parciais não influíam no organismo geral. De manhã e à

noite, passava em revista a sua gente, tratava o seu ferimento e os dos

seus homens, aplicava drogas conhecidas para se evitar a inflamação, e

pronunciava palavras mais benéficas que o bálsamo.

Durante o dia, silenciosa e torva, Élem acompanhava o bando; mas, de

noite, acordava frequentemente, recordava-se e chorava. À sua alma de

primitiva faltava o grande nómada, de face clara, docemente enérgica,

ombros largos e músculos de ferro. E os ímpetos dele, as expansões

alegres, a superioridade intelectual, o olhar azul, a preocupação da

arte e do trabalho, tudo agitava a sua carne viçosa, impelindo as

afinidades de raça para propícios cruzamentos. Suspirava de amor,

enquanto as horas decorriam, e pensava em evadir-se, pelo receio de ser

sacrificada por seus irmãos.

Começavam já a carregar o semblante, com os louvores que ela tributava

ao Pzann, quando a interrogavam. Apenas o chefe, observador reflexivo,

adoptava um inquérito tranquilo; e ouvia com interesse os pormenores

acerca da força, da agilidade e, mais ainda, da indústria e da arte do

homem fulvo, e acerca dos costumes da região longínqua. Os seus ódios,

que a idade acalmara, engolfaram-no no encantado enigma. Sentia que não

tivesse sido aprisionado o grande homem loiro, porque talvez este

soubesse até onde se estendia a floresta, de onde vinha o rio, e onde a

terra tocava no céu.

De costumes mais selvagens, menos artistas que os grandes dolicocéfalos

das planícies do Ocidente, os orientais haviam aceitado desde o

principio as jerarquias sagradas. Nas férteis regiões do Levante,

alimentavam o devanear monótono e imóvel do pastor. Era mais perfeita a

sua organização social; mas aquelas raças não tinham o destino das raças

plásticas, aventureiras, laboriosas e individualistas da Europa.

Nómadas e caçadores, os orientais exploravam já o vegetal, preparavam

massas farináceas com diversos grãos, aumentando assim a sua

estabilidade. As colheitas de feno permitiam-lhes sustentar alguns

rebanhos de cavalos e de bois asiáticos, contidos dentro de cerrados,

porque o animal, pouco domesticado ainda, esquivava-se a aplicações

metódicas, e apenas servia para alimentação do homem.

Tudo isto, e a fertilidade das suas terras, tornava as incursões dos

braquicéfalos da Ásia menos extensas que as dos dolicocéfalos da Europa.

Nas suas florestas, uma fauna de transição vivia onde já se encontravam

espécies emigradas do Ocidente, raras variedades de bugios, chacais,

gamos misturados com os animais das estepes frias,--mamute, urso, hiena,

auroco, uro, boi almiscarado. Na época do regelo, começava o êxodo dos

bugios, dos chacais, dos gamos, para os grandes bosques meridionais;

atraía-os o verão.

Nas savanas de leste, os asiáticos haviam-se aliado com o cão, cujas

vivendas se dilatavam, e que, menos vencido que o antropóide, dispunha

de disciplina e de inteligência, lutava como o homem contra as grandes

feras, e ajudava-o a caçar o uro ou o chacal, sob a condição de

compartilhar os despojos.

À semelhança do homem, os cães haviam compreendido o benefício da

sociabilidade, formavam assembleias deliberativas, organizavam exércitos

masculinos, tinham chefes encanecidos pelo roçar dos tempos... Nas

idades lendárias, foram o inimigo terrível da raça nascente. Já o pai do

neandertal lacerava a face do leão e domava o dinotério de defesas

invertidas; já a terra estremecia sob os passos vagarosos de um

entre-sonhador da génese civilizadora, esboçada nos mundos do insecto, e

ainda o cão defendia o seu império. E quem poderia prever o desfecho,

visto que o antropopiteco se restringia aos agrupamentos familiares, à

primitiva horda, enquanto o outro confederava as suas tribos, ampliava a

pátria, levantava exércitos, fortificava as suas cidades e educava seus

filhos!

Os velhos encanecidos, sabedoria das tribos nómadas, sopeavam o instinto

da ferocidade, cheios de emulação no ensino dos conhecimentos, cheios do

mistério das coisas, aventurando explicações rudimentares sobre as fases

da lua, sobre o curso das estrelas.

Devia-se-lhes a aliança com os cães, e estimulavam as tentativas de

domesticação, com respeito aos insectos, às aves, ao uro, ao cavalo, ao

urso, ao lobo. Ocupava isto capitulo extenso em seus anais.

Conheciam o capricho dos animais, e sabiam que, se alguns cedem à força,

outros preferem a morte à violência.

Iam a consideráveis distâncias ver as tribos das chuvas, onde o

feiticeiro Nadda criava abelhas; a tribo da lua, onde os guerreiros

moços cavalgavam poldros; a tribo do trovão, onde três ursos viviam com

os homens.

Em meio de tais recordações, o chefe oriental sentia crescer o despeito

de não ter conhecido Vamiré. Quanto seria para desejar a paz com aqueles

gigantes loiros, laboriosos e ousados! Os dois afastados povos, postos

em comunhão através da distância, teriam ampliado o património do homem.

Explorar-se-iam paragens desconhecidas: seria descerrado o grande

abismo, conhecer-se-ia a região dos elefantes cornígeros; ver-se-ia a

serpente monstruosa, tudo que a lenda referia, havia séculos.

Protegeu Élem. Não só proibiu qualquer violência contra ela, mas até lhe

dispensou inteira liberdade de acção. De dia e de noite, consentia que

ela vagueasse a seu grado, adiantando-se ou atrasando-se na marcha, e

reprimia de tal maneira o azedume dos seus homens, que não aventuravam

uma observação.

Élem reconhecia a generosidade do velho chefe. Com o decorrer dos dias,

a sua mágoa amadurecia, como um fruto ao sol do Estio. Solitária, erguia

os braços para o Invisível, orava, suplicava. Os seus olhos exploravam

atentos o rio, o rio amigo, em que a barca do Pzann a trouxe durante

semanas. O aspecto das plantas aquáticas, dos nevoeiros errantes,

inebriava-a, sufocava-a. Uma sede mortal, um profundo instinto de

sobrevivência, sangue rubro e ardente, prestes a jorrar das veias, um

sentimento de insubmissão e de capricho, tudo isto, que inda hoje é o

perigo dos nossos amores, a perturbava e a tornava mortalmente amante e

desesperada.

Ao sétimo dia porém, chegou um momento de calma. Através das brumas da

alvorada, Élem julgou avistar entre os caniçais a barca de Vamiré.

Estava longe, não distinguia bem, mas, com toda a sua energia de

primitiva, convenceu-se da presença do Pzann.

Muitas vezes, durante a marcha, teve tentações de se extraviar a bater

mato, a quedar-se nas ribanceiras. Distraída e meditabunda, quando

chegou a hora do sono, não pôde dormir, e os seus olhos semicerrados

devassavam as trevas.

XIV

Reconquista

Ora, enquanto o bando dormia, de noite, o velho chefe lia na fogueira o

evolar desordenado da vida dos ramos; fogueira que se desatava em

numerosos seres subtis e coloridos, impulsiva e crepitante, matizada de

fino azul, de amarelo claro, de purpura; rasteira sobre as cinzas, de

vibrações rápidas, alta e ondulante sobre os ramos, esparsa na extrema

do fumo, que, a revezes, se iluminava e se rasgava; fogueira, de onde

surgiam mil quimeras, grutas, florestas, grandes lagos rutilantes, um

mundo transitório, ateado ou apagado por sopros desconhecidos, mundo que

se exaltava e se acalmava e se tornava mais furioso, dominado e

terrível, devorador de florestas, subjugado pela mão de uma criança.

E o oriental dizia:

--Salve, fogo, mais belo que a água, tua inimiga, suave para a terra,

que tu fecundas, suave para o homem, que tuas caricias aquentam.--

E pareceu meditar profundamente. Talvez ele pressentisse então a grande

maravilha do futuro, a era da metalurgia. Já o calor fundia partículas

de terra ou de pedra, e na cinza se deparavam pequenas barras

solidificadas. E guardavam-se com desvelo estas lágrimas de metal.

Havia-as de diversas cores: amarelas, pardas, brancas. Batendo-as com

uma pedra, davam-lhes formas diversas, ou as partiam em lâminas; mas

estas lâminas eram frágeis, flexíveis ou quebradiças, e ninguém supunha

ainda que estivesse ali o competidor da pedra, do osso, do chifre.

--O fogo corre em nossas veias,--murmurou o velho, voltando ao seu

misticismo;--e por isso é que a nossa boca expele fumo, como um brasido

em que se deita água.--

Respirou voluptuosamente, ufano daquela ideia, e, ao contemplar a noite,

dilatava-se-lhe o coração.

O clarão da fogueira amortecia as estrelas zenitais; mas tremeluziam

numerosas e pequeninas no horizonte do rio.

--O fogo da lua, o das estrelas, é um fogo frio como o olhar dos

homens...--

Calou-se. O ruído nocturno dos sarçais parecia mais frouxo. Muito ao

longe, bramia um leão, e a sua bela voz guerreira parecia emergir das

cavidades abissais, ou ser eco de montanha, desmedidamente poderosa e

grave.

Não corria uma aragem. Sobre a claridade do rio, espalmavam-se aqui e

além as manchas de vegetação, e as sombras coavam angustias na alma.

O velho sentiu a impressão de tudo isto. Ergueu-se. A fogueira iluminou

toda a sua forte corporatura.

Pareceu inquietar-se de ver que Élem tinha os olhos abertos, e aplicou o

ouvido.

Um ligeiro ruído, como de animal que rasteja, vinha da escuridão da

selva; logo após, agitou-se o mato, e ouviu-se um pequeno choque, como

de uma pedra contra outra.

--A pé!--bradou ele, de arco tenso na direcção do ponto suspeito.

Uma frecha rompeu do matagal, roçando a cabeça do chefe; e ainda os

orientais estavam meio estendidos, e já Vamiré, de um salto, se achava

junto da fogueira.

Por seu turno, o velho despediu uma frecha, mas esta perdeu-se, passando

à esquerda do Pzann.

Vamiré, de clava erguida, ia esmagar o seu único adversário, quando Élem

interveio, suplicante. Imediatamente, o grande nómada dirigiu-se aos

homens estendidos e, num gesto, significou-lhes claramente que mataria o

primeiro agressor.

Reconhecendo-se vencidos, os orientais aguardavam as ordens de Vamiré. O

velho olhava sem receio para o intruso, e fez sinal aos seus, para que

sossegassem.

--Fala, e não prefiras a violência à justiça.--Vamiré compreendeu que

podia ditar as suas condições, e, com a sua mímica, indicou que desejava

Élem.

--Vai!--disse o velho a Élem.--Mas porque levas, à força, uma rapariga

das nossas tribos? Funda-se o teu sangue com o nosso, e reúna a paz os

filhos da Luz com os homens das regiões desconhecidas.--

Élem pegou na mão de Vamiré e conduziu-o, com palavras doces, para junto

do chefe. O Pzann deixou-se conduzir, cativado pela voz austera e nobre

do oriental; mas, atrás de si, os orientais levantaram-se

inopinadamente, com um clamor entusiástico.

Vamiré acreditou numa perfídia, segurou Élem e começou a fugir. A alguma

distância, nas trevas, parou.

--Velho burlador,--clamou ele,--a tua voz canta a paz, mas o teu

espírito quer a guerra. Vamiré despreza-te.--

Entrementes, armava o arco e apontava. Élem interpôs-se novamente. A

frecha, desviada, internou-se nas trevas. Os outros armavam-se então;

mas Vamiré desapareceu, enquanto o chefe, consternado, impedia a

perseguição:

--Não marcheis para a morte... Ele não compreendeu as minhas palavras, e

os vossos gritos assustaram-no!

A fogueira recebeu novo combustível; e, enquanto ela se ateava clara, os

orientais tornaram a deitar-se, desgostosos daquela cena, em que a

ingenuidade de se julgarem compreendidos inutilizava a prudência do

chefe.

XV

Reforços

A alvorada difundia-se por cima da floresta, e o velho permanecia ainda

indeciso. Além de tudo, era impossível lutar com segurança contra o

homem fulvo; a sua força, consideravelmente superior, dificultaria um

combate franco; e a sua prudência inutilizaria qualquer cilada. Pedir

auxilio a tribos, que demoravam longe, a algumas semanas de caminho,

impossível. Reconhecer primeiro o território inimigo, e levar lá depois

um exército? Mas não surgiriam obstáculos invencíveis? E a floresta

teria limites?

As orações e os ritos cantavam-lhe longamente na alma. O seu olhar

buscou a chave do enigma nos pálidos lampejos das achas, nos arabescos

da ramaria. Mas não disse uma palavra: a sabedoria das tribos exige que

o chefe prudente opere, sem fazer hesitar a caprichosa inexperiência da

gente moça.

Tomou as suas armas; estudou a direcção da sombra; observou o voar de

certas aves, e levou consigo os companheiros.

Todos reconheceram, logo, que marchavam para o Sul. Desse lado,

estendiam-se, até o sopé de altas colinas, grandes planícies estéreis, a

que se aventuravam raros exploradores; era o território dos cães. Um

pouco mais para o Levante, com seis paradas de um dia, poderiam chegar

às tribos amigas.

Os moços admiravam-se, mas nada diziam.

Decorreu o dia, interrompido de breves paragens, e manteve-se a

orientação até à noite.

A noitada foi áspera. Uma chuva torrencial caiu sobre a floresta, quatro

horas antes de amanhecer. Apagou-se o lume, e os corpos tiritavam

encharcados.

Foi mester construir um abrigo e, quando prosseguiram na marcha, era

manhã clara.

Os quatro homens marchavam em silêncio. Uma espécie de ferocidade

emanava das coisas: a chuva fustigava as ramadas; a terra prendia os pés

na lamacenta argila; o vaguear das feras nos moitedos era ameaça

terrível; os lobos, em alcateia distante, começavam de seguir os

orientais, na previsão de carnagem; as serpentes multiplicavam-se,

sinistramente estendidas nos braços das árvores.

O receio do Inverno estimulava o apetite: foi preciso disputar aos lobos

uma presa já morta.

A nostalgia das cabanas e das grutas insinuou-se no peito dos orientais,

que se sentiram invadidos pelo devaneio e pelos encantos do lar. Só o

velho, impenetrável, curvava a cabeça às contrariedades, aceitando a

sorte adversa.

Principalmente a segunda noite foi frigidissima. Felizmente, descobriram

uma larga clareira, à borda da qual chegaram a acender uma fogueira de

folhas secas.

De manhã cedo, puseram-se a caminho; e o musgo das árvores, e o voo de

certas aves na direcção das planícies, foram-lhes orientação bastante.

Mas esta era já menos segura, e impunha-lhes numerosas paragens. Os

novos entreolhavam-se furtivamente, sombriamente, e voltavam-se amiúde

para Leste. Pelas oito horas, começaram a trocar palavras em voz baixa,

e parecia que os animava um fermento de revolta.

O velho todavia continuava a marchar, altivo e robusto. Sucedia-lhe

pensar alto, gravemente, e rir, até, com uma espécie de entusiasmo.

Sagaz, como podia sê-lo um primitivo, dir-se-ia que tinha vista longa e

dupla, e uma voz reveladora no seu intimo.

O sol, ao meio dia, rasgou as nuvens. Da terra ergueu-se uma névoa, com

um cheiro morno, suavíssimo. O velho estendeu as mãos, dirigiu orações

ao astro, e depois voltou-se para os seus companheiros:

--Quem há que tenha o direito de se esquivar à obediência? Se o Conselho

quer a tua cabana, deves-lhe a tua cabana; se quer o teu braço,

deves-lhe o teu braço; se quer a tua vida, deves-lhe a tua vida. Não sou

eu, entre nós, apesar da idade, o mais forte e o mais discreto? Os

vossos cabelos ainda não branquejam, e os Espíritos não vos falam ainda.

Abatei o vosso orgulho, ou grandes males vos advirão!--

O arrependimento e o terror encheram então a alma dos novos; e estes,

prosternados, reconheceram, mais uma vez, a autoridade da experiência.

O chefe anunciou-lhes que depois do crepúsculo chegariam às raias; o que

foi confirmado pela presença dos grandes quadrúpedes migradores, amigos

das planícies.

Reapareceu a confiança e a esperança, não obstante a chuva, e o negrume

da floresta, em que vagueavam mais numerosas as feras nocturnas. Seis

lobos pereceram sob as frechas ervadas; os outros dispersaram-se; o

homem pareceu retomar o seu ceptro.

Mas as cataratas jorravam mais copiosamente; um vento impetuoso sacudiu

as árvores; as feras, inquietas, irromperam da sombra; a situação dos

homens tornou-se lamentável.

Os lobos tornaram a agrupar-se; no esconso da mata, tornou-se mais vivo

o rir das grandes hienas. A aproximação da noite duplicou os ruídos de

hostilidade, o odioso clamor das feras.

Os orientais largaram a passo forçado. Atrás deles, ofegava a respiração

dos lobos, e a rajada do vento atirava-lhes aos olhos folhas mortas.

As pálpebras da noite fecharam-se rápidas em meio do temporal. O chefe

parou então.

O lobo, de pupilas fosforescentes, fechava adiante o seu círculo, e

uivava, de beiços erguidos sobre os agudos caninos.

Havia poucas frechas, e o lume era impossível. Era forçoso resignarem-se

os orientais a marchar de noite, com infinitas precauções. Demais, a

raia era a salvação.

Lentamente, mantendo os lobos em respeito com tiros de zagaia, os

asiáticos prosseguiram na marcha...

À terceira hora de trevas, a nona depois do meio-dia, avistaram a aberta

que dava para a planície.

O chefe ia na retaguarda, cheio de resistência nas suas fibras

ressequidas, espantando sempre a desordenada horda dos lobos, mas

prestes a sucumbir.

Aos vitoriosos clamores dos homens responderam latidos a distância. Os

lobos uivaram angustiosamente; depois, ouviu-se um agitar de mato, e

passarem por ele centenares de corpos invisíveis, ladridos raivosos e a

debandada dos lobos, a sua fuga, em meio de murmúrios de raiva e gritos

de matança e de agonia.

Vamiré: Romance dos tempos primitivos · 第 5 / 8 段