Separaram-se como amigos,--os tardígrados avançando para o Oriente, os

antropóides dirigindo-se para o Sul,--depois da troca de presentes: o

homem deu clavas ao macaco; e o macaco deu ao homem ovos tirados dos

mais altos ninhos.

E havia apenas três horas que a separação se dera, quando os vermívoros

viram os primeiros sintomas da fuga dos animais, que ao depois tanto

inquietou Vamiré. Primeiro, viam-se os hóspedes vulgares daquela região,

élafos, javalis, e por isso não se impressionaram muito os tardígrados;

mas horas depois, avistavam-se, como companheiros de êxodo, os gamos,

refluindo em bandos consideráveis.

E então os vermívoros, tomados igualmente de pânico, retrocederam

também.

XIX

Na ilhota

Na expectativa de extraordinário acontecimento, Élem e Vamiré

conversavam.

Agora, já o Pzann podia compreender e exprimir as ideias fundamentais da

linguagem dos braquicéfalos. Julgava oportuno interrogar a filha do

Oriente; mas, nas suas reminiscências, nada ela encontrava, que

esclarecesse a situação. No seu crânio supersticioso perpassavam apenas

as antigas lendas do _Animal das águas_, expulsando das florestas todos

os seres animados, a fim de investir o homem na posse delas. Os animais

foram salvos pelo _Elefante cornígero_, que reina em as montanhas; e a

_Serpente_, rival do _Animal das águas_ e inimiga do homem, opôs-lhe o

ser imundo que se alimenta de vermes, e a quem as tribos sagradas

aniquilarão...

Estas coisas falavam pouco ao espírito do nómada e até o indignavam.

Acaso o homem não vive de carne? e que seria das florestas e planícies,

sem animais?

Depois, Vamiré não podia imaginar um animal invisível. As suas duvidas

abalavam as crenças de Élem, a qual, todavia, continuava a murmurar as

suas orações, e a resguardar-se a si e ao seu amante, com práticas

religiosas; e o mesmo faria até a hora da morte, e porventura até

depois, se o destino lhe concedesse filhos, porque as coisas místicas,

embora nasçam lentamente, são como o pigmento da carne ou a forma dos

crânios, que só o tempo transforma e aniquila.

Inclinados sobre o rio, aguardavam a noite, que vinha chegando. O clarão

do Crepúsculo era vívido e roxo a um tempo, duplicado pelo reflexo. Sob

aquele clarão, a margem parecia muito distante, semelhando, sobre a

floresta, uma fronteira alvorescente em face das sombras eternas; na

margem, moviam-se animais fugitivos, os seus corpos escuros limitados

por traços de luz, os espinhaços roliços ou sinuosos, lisos ou eriçados,

as cabeças delicadas e longas, ou largas e volumosas, as armas

pontiagudas do élafo, a vasta fronte do gamo, a crina ondeante do

cavalo, o tronco flexível e serpentiforme da lontra, o dorso corcovado

do urso...

Quando a noite se ia cerrar enfim, e as árvores e o rio se engolfavam

lentamente na sombra, houve uma suspensão. Cada vez mais raros, já se

não viam senão animais vagarosos, insectívoros ou carnívoros vermiformes

que fugiam de uma vivenda próxima. Vamiré e Élem redobraram a atenção, e

perceberam um rumor muito distante, semelhante ao uivo dos lobos ou ao

lamento dos chacais.

Quase ao mesmo tempo, avistou-se na margem um bando considerável de

_comedores de vermes_. Mostravam-se fatigados, recurvados, cobertos de

lama e de sangue. Transportavam em braços grande número de feridos, e,

diante da impossibilidade de transpor com estes últimos o rio,

quedavam-se amargurados. Vigias de retaguarda surgiam da espessura a

cada instante, com gestos de alarma, mas ninguém tugia, ninguém pensava

em atravessar o rio sem os feridos, e muitos dispunham estoicamente as

suas clavas para uma luta extrema, quando Vamiré saltou para a sua

piroga, dirigindo-se para eles.

O bando, que ele encontrara quatro dias antes, reconheceu o gigante

loiro e manifestou alegria. Os outros, prostrados de fadiga,

estupefactos, viram chegar aquele homem.

Vamiré chegou à margem, e fez sinal para que transportassem dois

inválidos para a canoa. Os que se recordavam dele obedeceram; os demais

confiaram-se passivamente à ventura.

Vamiré fez uma quinzena de travessias, e todos os feridos se acharam na

ilhota; os outros alcançaram-na a nado.

Vamiré facultou-lhes as suas provisões. A tiros de frecha, matou três

gamos fugitivos e um pequeno cavalo de focinho papudo. Os _comedores de

vermes_, tranquilizados, iam buscar as presas e esfolavam-nos

rapidamente, sob as indicações do grande nómada.

Vamiré desvelou-se por eles, consternado pelo desgosto de Élem; tratou

dos feridos zelosamente, indicou a cada um lugar de dormida, porque os

vermívoros, depois da refeição, caíram logo no sono; e foi juntar-se à

sua companheira, que estava em observação na outra extremidade da

ilhota.

Conversaram em voz baixa. Élem propôs que subissem o rio, naquela mesma

noite; mas Vamiré opôs à proposta que o temporal da véspera avolumara o

rio, que arrastava troncos de árvores, perigosos para a canoa; e também

ponderou que os _comedores de vermes_ estavam debaixo de sua protecção.

Élem resignou-se, e tomou lugar no barco, comodamente abrigada por uma

pele de urso. Quanto a ele, ficou de vela, alimentando o lume, acabando

de esfolar as presas e de as partir em quartos, que ele punha logo a

assar, para os conservar bem.

As trevas envolviam tudo, e mal se distinguiam as margens.

De quando em quando, Vamiré aplicava o ouvido. O vago rumor de pouco

antes tornava-se agora mais distinto, já da esquerda, já da direita. Às

vezes parecia extinguir-se, mas depois ouvia-se, sempre mais próximo.

A viração dava linguagem às folhas, a chama das fogueiras reflectia-se

na água; a intervalos, o mergulho de um corpo e o ofegar do nadador:

depois, o silêncio e a solidão, debaixo de um formoso céu constelado,

sem luar.

Finalmente, à orla da floresta, assomou um perfil humano, movendo-se

indistintamente na sombra; e quase ao mesmo tempo viu-se uma ondulação

rasteira, como formada de centenares de corpos em bando; e ouviu-se um

estrépito de tempestade, o reboar de latidos multiplicados pelos ecos,

um transbordar de vida e de alvoroto, quebrando o silêncio das trevas.

Élem, desvairada, correu para junto de Vamiré, e segredou-lhe uma

palavra desconhecida do Pzann, tendo distinguido a voz do cão das

grandes planícies estéreis.

Os _comedores de vermes_ despertaram também, e, ao clarão da fogueira,

procuravam o nómada. Este, com gravidade e altivez, procurava devassar a

sombra e conhecer a ameaça que fazia tremer Élem e os tardígrados.

Durante a sua marcha lentíssima, os _comedores de vermes_ tinham sido

atacados pelos cães. O animal, todavia, respeitava ordinariamente o

homem antigo, cujos bandos emigrantes atravessavam as vivendas caninas.

Mas, por muitas vezes, os asiáticos tinham-se servido dos seus aliados

quadrúpedes para atacar as tribos errantes; e, com receio de um ataque

deste género, os _comedores de vermes_ tinham retrocedido de pronto.

Retrocedendo, encontraram outros bandos de irmãos, de maneira que o seu

número se elevava a muitos centenares.

Defendiam-se entretanto com energia, e chegavam quase sempre a repelir o

seu terrível inimigo, quando, a meio dia do rio, depois de uma longa

paragem, foram novamente assaltados.

O número dos seus adversários ia crescendo sempre, e por isso sofreram,

neste último encontro, perdas consideráveis. Demais, convencidos, pela

marcha lenta do quadrúpede, que os asiáticos o guiavam, precipitaram a

sua retirada.

Chegando à beira do rio, carregados de feridos, e horrorosamente

fatigados, já não esperavam senão a morte, quando Vamiré os salvou...

Surpreendidos no sono pelo grito do cão, reuniram-se ao grande nómada,

como ao seu protector único. Este convocou os chefes, e designou-lhes

lugar de combate nas ribanceiras da ilhota, encarregando-os de formar os

seus grupos. Como instruções, apenas levantou acima da cabeça uma das

antigas clavas, baixando-a sobre um inimigo imaginário. Este movimento

foi perfeitamente compreendido, e todos se encheram de coragem, animados

pelo belicoso aspecto do Pzann, pelos seus belos olhos que chispavam

altivez, pelo seu arcaboiço, dilatado nas previsões da luta.

Vamiré fez reavivar as fogueiras, e foi pôr-se de atalaia.

A margem oposta pouco tempo se conservou escura, pois a iluminou

rapidamente uma grande fogueira.

Nesse momento, a alguma distância da fogueira, quase na estrema do

espaço iluminado, Vamiré avistou o cão.

Élem apontava-lho com insistência, pronunciava-lhe o nome, referia-lhe a

ferocidade quando conduzido pelo homem, a sua organização em vivendas, a

sua aliança com os braquicéfalos.

O Pzann escutava-a atentamente.

O clarão da fogueira, menos enfumarado, banhava de claridade o

quadrúpede; e, ao vê-lo mais semelhante à hiena do que ao lobo, com a

sua larga mandíbula, a sua alta corpulência, a sua flexibilidade, Vamiré

compreendeu que ele devia ser um perigoso adversário.

Desviou-se porém a sua atenção, porque, adiante da fogueira, se interpôs

um vulto humano, e uma voz ressoava em meio do grande silêncio e sobre

as águas do rio.

Vamiré e Élem reconheceram a voz do chefe oriental. Élem dizia:

--Homem das regiões desconhecidas, escuta a voz daquele, cujos cabelos

são brancos, e a quem fala, na solidão, o espírito do saber. As minhas

palavras significam paz. Aliados com o cão, poderíamos encarar a guerra

sem receio. Que poderias tu, homem das nascentes do rio, contra as

inumeráveis legiões do animal, auxiliado de frechas e braços humanos?

Aceita a paz. Mutuemos o sangue de nossas veias.--

Com a ajuda de Élem, Vamiré compreendeu-lhe as palavras. Voltando para a

sua clareira, aceitou-as, gritando:

--Velho, o Pzann te saúda. Ouviu a filha da tua tribo, e está pronto a

mutuar o próprio sangue com o teu. Afasta o animal, e salvem-se os

comedores de vermes!--

Na margem oposta, os três moços haviam-se reunido, e o grupo dos

braquicéfalos animou-se.

Não podiam fraternizar com os filhos da Serpente. O velho tendia para a

clemência; mas um dos moços, fanático exaltado, pregou a vontade

implacável do _Animal das águas_, a lei das tribos sagradas; e todos,

repassados de desgosto e ódio, pareciam convencidos.

O chefe voltou-se de novo e clamou:

--Porque é que o homem irmão toma o partido do ser imundo? É melhor

deixar essa presa ao cão.--

Mas Vamiré indignou-se:

--O Pzann não ousaria aparecer entre os outros Pzanns, se abandonasse os

seus aliados; o Pzann quer a paz, mas quere-a para todos que estão com

ele.--

Formaram os orientais novo conciliábulo, e todos os moços, mais

desejosos de uma vitória do que de uma solução pacífica, tendiam para a

guerra.

O chefe não se atreveu a opor-se abertamente, mas referiu-se à coragem

de Vamiré, à glória de uma expedição para as bandas do Norte depois do

Inverno, à necessidade de estar em paz com os povos longínquos.

Dois dos moços pareciam convencidos, ao passo que o fanático baixava os

olhos, obstinado. Aproximou-se, até, da margem, e, apontando a frecha

ervada a um dos vermívoros:

--O Conselho diz: nunca a tua frecha hesite em ferir o imundo!--

E a frecha descrevia a sua parábola mortal, ferindo o tardígrado num

ombro.

O doloroso grito do homem foi acompanhado de um grito colérico do homem

loiro, e de um rumor de censura, entre os orientais.

--Homem,--clamou o velho,--perdoa a exaltação de um sangue muito novo!--

Mas Vamiré, cheio de indignação, replicou:

--O meu sangue também é novo, e não perdoaria a perfídia!--

Armou o arco, e a sua frecha atravessou o peito do agressor.

Depois, correu para junto do tardígrado ferido. Os companheiros chupavam

o sangue da ferida, extraindo assim o veneno. Vamiré buscou um antídoto,

folhas alcalinas, cuja seiva ele espremeu na ferida aberta, em que

depois as estendeu.

No campo dos orientais, o velho tratava do ferido. Este persistia em

soltar injurias contra os comedores de vermes; e todos estavam

indignados, porque o nómada ferira um homem, para vingar uma criatura

ignóbil.

XX

Assalto à ilhota

Prolongaram-se as tréguas.

Os orientais recuaram a sua fogueira para o abrigo do matagal. Os cães

estavam invisíveis, mas os seus uivos trovejavam na espessura.

Os _comedores de vermes_ recaíam no sono, à parte alguns velhos mais

resistentes.

Vamiré fortificava o retiro de Élem com grossas ramadas e preparava as

suas armas. O fumo das fogueiras flutuava sobre a água, entre clarões

purpúreos.

Não se ouviu mais uma palavra de paz. Parecia que de ambos os lados se

faziam preparativos para uma luta próxima.

Vamiré trabalhava e velava.

De uma vez, pareceu-lhe avistar um oriental que, a pouca distância da

água, se erguia, desaparecendo depois no mato. De outra vez, um bando de

cães veio beber ao rio; mas nada anunciava uma investida. Julgou

portanto que o chefe oriental aguardaria a manhã, e recomeçaria as

negociações.

Acabava de depor a seu lado a décima segunda frecha, untada de veneno,

quando notou um rápido movimento e o formigar de muitos vultos na

margem.

--_Eô! Eô!_--gritou ele, enquanto os tardígrados arrancavam do sono os

companheiros.

Lá adiante, impetuosos, os cães mergulhavam e nadavam, aos milhares, de

olhos fosforescentes em suas cabeças húmidas e luzidias, fazendo, com a

sua imersão, erguer o nível das águas nas costas da ilhota. Silenciosos

e terríveis, nadavam intrepidamente, sob a saraivada de pedras, ossos e

achas, com que eram acolhidos.

Vamiré, verificando que entre eles não havia nenhum homem, depôs o arco

e empunhou a clava.

Élem, armada de uma lança, poderia defender o seu abrigo.

Os tardígrados, animados pelo Pzann, mostravam-se enérgicos, postados em

pequenos grupos, de costas para o centro, com espaço livre para

manejarem os seus bastões.

Antes que tocassem terra, os cães foram atacados tão vigorosamente, que

recuaram para fora de alcance. Mas de pronto se dividiram em duas fortes

colunas, uma das quais singrou para o ponto mal fortificado da ilha,

defendido por Vamiré, enquanto a outra retomava directamente a ofensiva.

A precipitação dos tardígrados em auxiliar o seu salvador poderia tornar

eficaz aquela táctica dos agressores. Mas Vamiré repeliu energicamente o

reforço, e obrigou cada um a reocupar o seu posto.

Apenas a coluna, contra ele dirigida, tocou em terra, a carnificina do

Pzann espalhou nela o terror.

A sua alta corporatura, a sua clava enorme, a sua formidável destreza em

despedaçar crânios, a agilidade dos seus movimentos, a sua voz

autoritária, soberbamente humana, tudo isto pareceu produzir nos animais

uma impressão como que supersticiosa.

Cheios de pânico, latindo desordenados, foram recuando.

Entrementes, a segunda coluna conseguira invadir a ilhota, sem

desconcertar todavia a táctica dos _comedores de vermes_, sempre

reunidos em grupos, e defendendo-se sem desanimo.

Do lado dos cães, as perdas eram consideráveis, e os tardígrados

contavam uma vintena dos seus, postos fora de combate.

O animal sentia-se vencido, quando algumas frechas ervadas, partindo da

margem, fizeram duas vítimas. Produziu isso um certo terror, e os grupos

da costa aproximaram-se do centro. Os cães redobraram o seu furor, e, a

pouco trecho, era terrível o número dos feridos humanos.

No entretanto Vamiré, depois da sua vitória, notara que os asiáticos

despediam frechas, quase a descoberto, de trás dos arbustos. Por seu

turno, tendido o arco, despediu algumas frechas.

Os orientais tiveram que se retirar para trás de grandes troncos, de onde

os seus tiros eram muito incertos; e contentavam-se em açular os seus

aliados quadrúpedes, os quais, respondendo-lhes com latidos formidáveis,

assaltaram com mais vigor os seus adversários. A situação agravava-se,

tanto mais que a coluna, repelida por Vamiré, tinha entrado pela outra

extremidade da ilhota, levando reforço.

O pobre tardígrado viu-se perdido, e o seu grito de guerra tornou-se

plangente como um gemido de agonia.

Mas o grande nómada do Ocidente levava-lhe já o auxílio do seu braço, e

a sua clava abria caminho por entre crânios e espinhaços despedaçados.

De todos os lados, o animal, inquieto, aterrorizado, reconhecia naquela

voz e naquela força a força e a voz das raças vitoriosas, por forma que

os tardígrados retomavam coragem, e os cães, repelidos para a água,

voltavam ao campo dos asiáticos.

Uma ebriedade de vitória inflamava os olhos dos _comedores de vermes_.

Voltando-se para o homem loiro, cantaram a melopeia do triunfo, a que

Vamiré correspondeu com um belicoso clamor.

Na outra margem, à beira das florestas seculares, resoava o latir

furioso dos cães e as maldições dos homens do Oriente.

Decorreu a noite naquele tumultuar terrível, repercutido pelos ecos, e

em que os dois bandos inimigos exaltavam o seu valor não vencido e

prenuncio de novos combates.

Os tardígrados trataram acuradamente dos seus feridos, e, para maior

segurança, foram colocá-los perto do sitio, em que Vamiré acampava com

Élem. Dos cães, postos fora de combate, desembaraçaram-se os

tardígrados, lançando-os à água, em que alguns acabavam de morrer, ao

passo que outros, ao grado da corrente, chegavam à outra margem.

Vamiré fora ter com a sua companheira. Cheia ainda do desgosto que lhe

causavam os _comedores de vermes_, Élem permanecera no seu abrigo, sem

necessidade de se defender.

Vamiré falava-lhe da vitória, do número das vitimas, da ferocidade dos

assaltantes, da probabilidade de novos recontros; e ela escutava-o,

pensativa e triste por aquele incidente, fazendo votos pelo advento de

uma paz imediata.

Manifestava a esperança de que as negociações se retomariam de

madrugada, e o nómada aprovava, mas esquivava-se a quaisquer concessões,

relativamente aos tardígrados.

Fatigada, Élem adormeceu por fim. A maior parte dos vermívoros também

dormia. Vamiré velava sempre.

XXI

A derrota

Foi decorrendo a noite. A ronda dos astros atravessava as calmas

profundezas do rio; uivavam cães feridos; as fogueiras dos orientais

ardiam por trás das ramadas, iluminando os braços negros e contorcidos

do arvoredo e as densas e flexíveis cumeeiras da floresta.

Vamiré aproximou-se do rio, e ali se quedou alguns instantes, como para

dar ensejo a palavras de conciliação. Mas teve de se furtar a uma frecha

que vibrou.

Vibraram outras frechas, que, descrevendo vigorosas parábolas, iam quase

todas cair inofensivas no meio da ilhota.

O Pzann guardou-as, satisfeito de ver que se iam esgotando as munições

contrarias; mas os orientais, compreendendo logo a inutilidade daquele

tiroteio, suspenderam-no, e, com gritos e açulamentos, fizeram

reaparecer os cães, formigando na margem e latindo furiosamente.

Um vago perfil humano se desenhou entre os cães, acocorando-se logo;

outro perfil apareceu na ribanceira, em observação; e depois uma voz

humana, irrompendo do rio, denunciou um nadador.

E daqui concluiu Vamiré que, desta feita, os asiáticos acompanhariam a

expedição.

Em tais condições, o assalto era grave.

Sem perda de tempo, despertou toda a sua gente. Armou com arpões de

pontas fixas e de zagaias seis velhos mais sagazes, anexou, para seu

uso, uma lança à sua clava, e pôs-se de atalaia em bom lugar.

Os cães acabavam de se atirar à água. Seguidamente, a presença do homem

revelou-se em nova táctica: formaram-se três colunas; uma seguiu para a

frente; outra para o pontal, onde estava Élem; e a terceira, deixando-se

ir ao grado da corrente, rodeou a ilha, para a assaltar por trás.

Então Vamiré, para concentrar a defesa, fez evacuar o pontal oposto

àquele em que se achava, e fez guarnecer o outro lado da ilhota,

organizando tudo de forma, que toda a gente se agrupasse com ele, sendo

necessário.

Depois, enristando a lança, aguardou.

Os orientais não se viam. O seu plano devia ser o dirigir o ataque,

intervindo nele apenas no momento decisivo, e, para isso, nada melhor do

que estar na retaguarda. Tinham provavelmente mascarado os rostos, para

melhor se confundirem entre as cabeças dos cães.

A dez metros da ilha, as colunas da frente estacaram contra a corrente,

aguardando um sinal do bando que fora por trás da ilha. Quando chegou o

sinal, todas as forças atacaram a um tempo.

Parecia que aumentara a coragem dos cães. Luziam-lhes os dentes e o

fósforo azulado dos seus olhos rasgava as trevas.

Antes de assentar o pé em terra, sofreram, como antes, consideráveis

perdas; mas, desde que lá chegaram, muitos tardígrados das primeiras

filas pereceram estrangulados; a heróica defesa dos outros, postos fora

de combate centenares de cães, salvou-os do desbarato, e a luta seguiu

curso regular, com fortuna vária.

Ao princípio, dando pela ausência do Pzann, dois orientais haviam-se

adiantado e, primeiro a tiros de frecha, e depois com ligeiras lanças,

sustentaram o ataque.

O contacto dos inimigos aterrorizara os _comedores de vermes_, que

certamente se não salvariam da derrota, se os seis velhos, armados de

arpões e zagaias não aguardassem corajosamente os asiáticos. Estes,

envolvidos num círculo ameaçador, compreenderam a imprudência de

arrostar armas ervadas, e debandaram em retirada, não intervindo na luta

senão com brados e alguns tiros de frecha em momentos oportunos.

Do lado de Vamiré, os cães, açulados pelas vozes distantes, tinham

efectuado a invasão.

Vamiré não os esperou; marchou contra eles com tal vigor, a sua clava e

a sua lança fizeram tão numerosas vitimas, que os animais aguentaram

apenas o primeiro embate e fugiram, deixando a descoberto um oriental,

armado simplesmente de uma zagaia.

Vamiré, com uma pancada, partiu a frágil haste da arma inimiga, e,

segurando o homem pela nuca, lançou-o aturdido no chão, manietou-o,

deu-o a guardar a Élem, e correu a socorrer os seus aliados.

Estes lutavam bizarramente. Mas as hordas caninas, sempre renovadas,

estimuladas pela voz dos asiáticos, encarniçavam-se e era de recear que

aos homens chegasse a hora fatal do cansaço.

Ao grito de guerra, soltado por Vamiré, os cães recuaram, mas retomaram

o assalto, porque os orientais, da espessura da floresta, dirigiam mais

activamente a batalha, e recebiam a aproximação de Vamiré com basto

tiroteio de frechas.

Os seis velhos, armados de arpões e lanças delgadas, agruparam-se de

novo, fazendo rosto ao inimigo, prontos em auxiliar a estratégia do

nómada. Este, na frente, procurou aproximar-se dos asiáticos, mas não o

conseguiu, porque os animais se opuseram firmes, não obstante os

estragos que neles produzia a clava.

Demais, sobreveio um incidente, que poderia trazer desastrosas

consequências: os _comedores de vermes_, que defendiam as traseiras da

ilhota, refluíram para a frente, produzindo um princípio de pânico, que

tornou indispensável a presença de Vamiré.

A peleja travava-se nas trevas. Os orientais, sempre que podiam;

disseminavam as fogueiras, para estimular a coragem dos cães. Os

tardígrados deixavam os lugares sombrios, e acercavam-se dos seus

brasidos, que eles alimentavam cuidadosamente. Gemiam ali numerosos

feridos, fechando com a mão ferimentos terríveis. Geralmente, tinham

mordidas as pantorrilhas e as coxas, ao passo que os mortos patenteavam

gargantas rasgadas, ventres estripados.

A purpura de sangue avivava-se ao clarão vermelho das fogueiras, e os

gritos de guerra mesclavam-se às agonias do estertor, ao clamor das

vidas que se extinguiam, como os latidos do animal se mesclavam à

enrouquecida respiração dos homens.

Do esconso das moitas, a horda dos cães emergia incessantemente para a

luz. Encarniçados com os gritos agudos dos orientais, que reboavam

naquela confusão, sacrificavam-se, aos centos, mas invadiam, mordiam,

aterrorizavam.

Os _comedores de vermes_, já impressionados pelo contacto dos homens das

grandes estepes, e cuja coragem era apenas mantida pela presença de

Vamiré, viam, além de tudo, aproximar-se-lhes o cansaço, sentiam os seus

braços menos lestos em erguer a clava, e tendiam a concentrar-se em

grupos numerosos.

Vamiré compreendeu a situação. Num impulso terrível, arremessou-se de

repente para a vanguarda, obrigando os cães a recuar. Depois, fez sinal

aos velhos, armados de arpões e zagaias, para que se lhe juntassem.

Eles obedeceram, imitando-os os mais vigorosos de entre os demais.

Vamiré: Romance dos tempos primitivos · 第 7 / 8 段