Era o fim. Vamiré procura escapar-se. A sua clava é brandida ainda uma

vez, e faz ainda uma vitima...; depois, apanha apressadamente uma lança

e um arpão, corre para o rio, salta para a canoa e três remadas

confiam-no à corrente.

Os seus adversários medem o perigo de uma luta aquática. O chefe proíbe

que tentem o perigo... Todos então empunham os arcos; mas o tiro é

inútil, porque a barca desaparece por trás de uma ilhota.

XI

Vamiré

Estendido no fundo da pequena barca, Vamiré cobria com a mão o seu

ferimento, coberto de sangue coagulado.

Havia uma hora que ele esperava uma reacção favorável para abicar na

margem, porque a perda de sangue o mantinha prostrado, num suave

meio-deliquio, em que ia perdendo a nítida concepção do seu ser. As

coisas figuravam-se-lhe pequeninas, quase imperceptíveis, ao passo que o

coração lhe vogava nas delicias de uma onda morna, asfixiante,

confrangente.

Passou afinal a crise. Com a febre, renasceu a força. O Pzann pôde

impelir a barca até à margem, desembarcou, e apanhou folhas balsâmicas e

resina para o penso da ferida. Depois, lavou a ferida na água corrente,

refrescou os lábios, e estendeu na ferida uma compressa de folhas

embebidas de resina, e, por cima, uma atadura de pele. Este penso, de

uma solidez a toda prova, permitia evaporação suficiente, e dava até

lugar à supuração. Ao cabo de oito dias, seria mister renová-lo; mas,

até lá, graças às folhas aromáticas e à resina, pouco havia que recear.

Vamiré sentiu grande alivio; a inquietação, que toda doença importa,

desapareceu, e um grande orgulho despertou, uma alegria de vencedor:

comeu e bebeu voluptuosamente, e pôs-se depois em cata da madeira

necessária para o fabrico de novas armas. De pronto adquiriu as hastes:

doze, pequenas, para zagaias, e uma, grande, para lança.

Quando trabalhava, sentiu a tentação de ter um arco e frechas, à maneira

oriental, feitas de madeira endurecida ao fogo. A banda do arco era

chata, mas larga, com um encalhe redondo, para dirigir a frecha. Vamiré

arrancou um pequeno freixo, cujas extremidades queimava, e passou depois

longas horas a desgastar o tronco, servindo-se alternadamente do fogo e

do sílex.

Era sol posto. Vamiré não concluíra o seu trabalho, e calculou que

precisava de dois dias, afora o tempo para aguçar as frechas. De forma

que, ao passo que buscava abrigo nocturno, planeava acabar primeiro a

lança, as zagaias, os arpões, para se precaver contra qualquer ataque,

aliás improvável.

Os orientais, com os seus dois mortos, com os seus feridos, entre os

quais o chefe, não pensariam logo em reabrir hostilidades; e, de facto,

dirigiam-se apressadamente para as suas estepes, levando consigo Élem.

Vamiré sorria, ao pensar que eles a não possuiriam definitivamente, e

adormeceu tarde, excitado pelos estratagemas que ele estudava para a

readquirir.

No outro dia, ao despertar, uma grande fraqueza o prendia ao solo.

Começava a cicatrização... Arrastou-se com dificuldade até à margem,

onde adormeceu, depois de se ter dessedentado, em risco de ser devorado

pelas feras.

Quando acordou, ia o sol a pino. Vamiré dessedentou-se de novo. A cabeça

ardia-lhe, as veias latejavam, as ideias eram confusas.

Compreendeu que o dia estava perdido, resignou-se, e meteu-se na barca,

junto à ribanceira. Com intervalos, em que ele ia matar a sede como

sonâmbulo, as trevas envolveram-lhe a existência, até a alvorada

próxima. Abeirou-se do Nada. Em toda noite, a sua robusta organização

agonizou nas sombras. Os períodos da crise sucediam-se como ondas de

maré. Mas, com a alvorada, chegara a calma, o sono fora vigorificante,

e, no quarto dia, Vamiré acordou com fome.

Examinou o penso. As dores haviam desaparecido. As carnes, quase unidas,

mostravam apenas um pequeno lanho. A vermelhidão desaparecia do peito. A

cabeça desanuviava-se.

Vamiré foi à procura de alimento, armado apenas de um arpão e uma lança,

as únicas armas que lhe restavam. Debaixo das árvores, naquela ocasião,

poucos recursos havia, e, além de tudo, só a emboscada era possível,

porque o ferido não teria forças para um assalto às feras.

Decorreram três horas, em que apenas se lhe depararam pequenos

carnívoros, de carne repugnante; e já a fome começava a atormentar

vivamente o estômago do caçador, quando apareceu um bando de cervas,

guiado por um belo alce, macho.

Era caça grossa e perigosa, mas tanto mais tentadora, quanto os cornos

do alce proporcionariam quanto era preciso, para pontas de lança, de

arpões e de zagaias.

Vamiré sentiu deveras, naquela hora, o não ter arco, que lhe permitisse

o ataque de longe, porque o alce costumava vingar energicamente o

morticínio das suas cervas.

O alce era um veado colossal, do tamanho dos maiores cavalos da

actualidade, e as suas pontas espalmavam-se-lhe por cima da cabeça, como

ramos de faia desfolhada; duas forquilhas primeiro, e depois um

tabuleiro guarnecido de pontas recurvas.

O troglodita, encoberto pelas ramadas, com infinitas precauções,

aproximou-se do bando; mas a distância era ainda bastante, para esperar

que arremessaria proficuamente o seu único arpão. Esperou pois.

Os animais pasciam, e saltavam, por forma que uma das cervas foi pulando

até o alcance da mão do homem. O arpão silvou, embebeu-se; um bramir de

agonia, e o animal prostrou-se, enquanto o rebanho, espantado, desfilava

pelo balsedo, deixando o alce imóvel, a devassar com os olhos a

espessura da mata.

Um minuto depois, o grande veado aproximou-se da vitima, e escarvou

nervosamente o solo, dominado, ao mesmo tempo, pelo desejo da vingança e

o receio do desconhecido.

Entrementes, a soberba e comovida atitude da fera impressionou Vamiré;

por um movimento de irreflexão e fraqueza, o caçador saiu do esconso, de

lança em riste.

O herbívoro hesitou, estirando a pupila oblonga pela melania do matagal.

Mas o homem já recuava, e o instinto da fera viu nisso uma fraqueza. A

súbitas, baixando a cabeça até o solo, atirou-se contra o bárbaro. Este

viu-a aproximar-se, suspendeu-lhe das pontas o seu pesado manto; e,

enquanto o cervo se desembaraçava do manto com um movimento formidável,

o caçador cravou-lhe a lança entre as costelas, fazendo-a entrar até o

coração.

O animal caiu, e Vamiré sentou-se, extenuado pelo esforço. A pouco

trecho porém, levantou-se, acendeu lume, e assou uma posta de cerva.

Satisfeito o apetite, assaltou-o grande tristeza: faltava-lhe Élem. E,

ausente, parecia-lhe mais preciosa ainda, com os seus olhos pretos e o

seu ar, altivo e terno a um tempo. Lembrou-se das peripécias daquela

luta, em que ela o não abandonara. O olhar dele procurou-a por entre as

sebes, e Vamiré sentiu confranger-se-lhe o coração, intoleravelmente.

Chamou-a pelo seu nome, e meditou, amargamente, nos meios de a reaver.

Hora de calma, silêncio nos bosques. O sol espelhava-se no rio, e

coava-se, por pequenas elipses, através da folhagem das balsas. As

ramarias repoisavam como grandes nuvens, e o espaço, velado pelas mais

altas frondes, entremeadas de clarões esparsos, tinha perspectivas

confusas, profundezas de abismos.

Repassado de dor e de solidão, a contemplação destas coisas abalava todo

o ser do troglodita, até o sofrimento. Ora sentia o desejo de dormir,

ora o de trabalhar; perpassava na memória o dia em que ele, nas

cavernas, esculpiu um bastão de comando, e isto lhe trouxe à ideia o

alce e as novas armas.

Provido de um sílex serreado, pôs-se a trabalhar. À noite, havia já

cortado as pontas da cabeça do alce.

Sentiu alguma febre então, porque o vaivém do braço lhe irritava o

ferimento.

Descansando, e não podendo dormir, espicaçava-o o desejo de uma

expedição, em procura de Élem. Meteu-se na barca e acompanhou a

corrente.

A noite abrigava-o em manto de trevas. O rio parecia uma voz de segredo,

baixa, murmurosa, de que apenas ressaía o rouco e triste coaxar dos

batráquios. Nas superfícies, em que se alternavam as sombras e os

reflexos, o voo do morcego perdia-se e reaparecia, incessantemente. A

faixa de céu estrelado, dilatada para cima das árvores, cavava um abismo

nas águas.

Com algumas remadas, Vamiré aproximou-se da margem, onde combatera com

os orientais; depois, deixou-se ir ao grado da corrente, abaixando-se de

maneira, que o barco pudesse parecer de longe um tronco de árvore.

Primeiro, atravessou solidões conhecidas, em que a fauna permanecia

tranquila; depois, vagos indícios que poderiam sugerir receios. Por fim,

avistou montões de pedras, que designavam túmulos; e, decorrida uma

hora, o clarão de uma fogueira denunciou-lhe a vigília dos inimigos.

Vamiré quedou-se observando, por muito tempo. Élem deveria estar deitada

defronte do brasido. Fazia sentinela um guerreiro, que, de quando em

quando, para não adormecer, erguia para o céu uma das mãos. A fogueira

projectava este movimento numa sombra enorme para além do rio.

O Pzann apertava o seu arpão, calculava a eventualidade de um ataque,

impelindo-o para a temeridade a sua febre e a sua fraqueza.

O rumor dos bosques crescia com o roçar da viração. A água iluminava-se

de uma fosforescência pálida, de um fundo de halo, em que viviam

ramagens longínquas, calhetas povoadas de caniços. O trabalho das nuvens

alterava a cada momento a superfície das águas, lançando sobre elas um

véu plúmbeo, uma luzinha trémula, ou um arroio de constelações.

Um drama conturbou a alma de Vamiré. Atrás do brasido, com os olhos

fixos na fogueira, deixou-se ver Élem.

Ah! tornar a possui-la, levá-la consigo, como noutro tempo! Mas, com o

esforço interior, reconheceu mal fechada a sua ferida, impotente o seu

braço!

Contudo, alguns dias mais, e ele teria readquirido todas as suas

energias. No entretanto, seguiria a pista, e escolheria a sua hora.

Depôs vagarosamente o arpão, empunhou o remo, e, antes de voltar à sua

última paragem, deixou-se levar pela corrente à margem oposta. Dali,

remou com prudência, lentamente ao princípio, e depois com progressiva

velocidade.

Decorrida uma hora, a barca vogava com dificuldade, se bem que Vamiré

seguisse a ribanceira. Afora o impulso da corrente, tinha de lutar com

as algas, em que se embaraçava a proa e que lhe sobrecarregavam o remo.

Estava quase resolvido a saltar para terra, quando o animou uma espécie

de canal entre os caniços.

Impeliu para ali a barca e, durante alguns minutos, navegou com

facilidade; mas, em seguida, cerrou-se o canal com longas plantas

aquáticas.

Com a esperança de achar águas livres a pouca distância, o Pzann desviou

o obstáculo, e entrou.

Salvo curtos intervalos, os pântanos cobertos de lentilhas, os caniços,

as algas, os juncos, continuaram a travar-lhe o andamento, a ponto de

que um extremo cansaço se apoderou do homem, e este teve de estender-se

por algum tempo no fundo da sua piroga.

Ia adiantada a noite. O zénite empalidecia aos prenuncios da alvorada; e

erguia-se da espessura o canto dos galos silvestres. O ligeiro rumorejar

da folhagem, o chapinhar de uma lontra, o eterno murmúrio do rio,

entremeado de notas claras, eram os únicos ruídos daquela solidão. As

coisas pareciam emergir em bruma pardacenta, meio-transparente; apenas,

da outra banda do rio, se avistava a orla negra da floresta, entre as

águas e o céu.

Vamiré ergueu-se. Sentia extraordinário entorpecimento, que o convidava

ao sono. Teve pressa de achar o fundeadoiro, e calculou a distância da

margem. Pareceu-lhe considerável, até porque a vegetação aquática se

tornava cada vez mais espessa.

Chegou a pensar em desistir de fundear e adormecer na canoa; mas, a

qualquer movimento, poderia voltar-se a embarcação, e o ferimento ainda

não permitia o gesto largo do nadador.

Resignado, prosseguiu, ajudando-se com o remo, ensanguentando as mãos

nas folhas cortantes dos caniços, empurrando a frágil embarcação,

parando de espaço a espaço, fatigado, nervoso.

Rompia a manhã, e tudo pareceu pálido ao homem extenuado: as águas, o

céu, a floresta. O grande rio saía de um horizonte de cinza, e em cinza

se alongava ainda.

A ribanceira enfim! Vamiré desembarcava. Desviando as hastes mais altas,

avistou uma pantera em briga com um mamute, ainda novo. O pequeno

herbívoro, coitado, debalde tentava desviar com a tromba o seu

adversário. Avistava-se ao longe a corrida impetuosa da fêmea, em

socorro da sua progénie; e o grito do macho entre os caniçais anunciava

que se dirigia a nado para a margem. Mas a pantera, de um salto, ficou

sobre o dorso do pequeno elefante; já penetrava com as garras o espesso

coiro, e dirigia os dentes para o ventre da presa, quando interveio o

compassivo nómada. Soltou um grito de guerra, arremessou o arpão e

caminhou para o felino.

O arpão fizera apenas sangue na pele mosqueada. A pantera recuou,

rugindo, quando surgiu a cabeça enorme do mamute macho. Quase ao mesmo

tempo, apareceu a fêmea.

Então a pantera refugiou-se na selva, e os enormes proboscidios,

pendulando as suas trombas, afastaram-se.

Vamiré viu-os desaparecer ao longe, radiante de alegria e ufano da sua

coragem. Depois, tomou a piroga aos ombros, internou-se na mata, e

empregou as suas últimas forças em apanhar alguns ramos, para consolidar

o seu abrigo sob a piroga.

Cansado, trôpego, começava a cravar na terra, junto de uma árvore, os

ramos mais apropriados àquele fim, mas teve de interromper essa tarefa:

dominou-o um entorpecimento mais forte, e, quando procurava sentar-se,

caiu prostrado pelo sono.

XII

O mamute

Era uma clareira entre faias, carvalhos e olmos. Crescia ali a tabua e o

joio, de mistura com ranúnculos, cardos frocosos e urtigas dióicas.

Sob os gladíolos da erva, nas folhas, nas flores, nas hastes, nas

raízes, havia o mundo dos insectos, esboço material do futuro mundo do

homem, praticando a física, a química, as industrias do utensílio e do

ácido, criando a broca, a verruma, a serra, a espátula, a fieira, a

escavação na pele, a perfuração com cáusticos, as galerias de mina, a

habitação social, a sineta do escafandro, a espada, a armadura, a luz, a

seda, o tecido, a cera, o açúcar, o mel.

A madrugada achava-os trabalhando. Nos primeiros alvores, voluteava a

grande mosca madaleneana, traçando ângulos; a vespa explorava corolas;

agitavam-se, com as suas asas aveludadas, enormes piérides; voltavam do

rio nuvens de mosquitos, a abrigar-se nas folhas; as formigas, em

legiões, transportavam pulgões, estames, grãos, os despojos das

minúsculas batalhas da vida; a cicindela, de emboscada, espreitava uma

presa; o necróforo, com as suas extremidades palidamente orladas,

procurava a carcaça, em que devia pôr os ovos; o fura-pau batia com a

tromba na casca dos olmos; o grilo, fatigado das suas vibrações,

adormecia; as forfículas embebiam as suas pinças no fundo das corolas;

e, semelhante ao tigre, o grande cárabo sobre o escaravelho.

Amodorrado o homem, a floresta parecia inquieta. A zona limitada pela

outiva, pela visão, pelos penetrantes perfumes dos exploradores de

troncos e ramadas, tudo começou a decrescer, pouco a pouco, à volta do

rei bípede: os narizes microscópicos, as sensíveis trompas auditivas, as

pérolas negras de olhos salientes, as longas barbas-antenas,

perscrutaram as essências, que emanavam do homem, e conheceram a sua

própria fraqueza. Apareceram ratos, atraídos pelas correias untadas de

tutano; depois, eram as cabeças curiosas dos arganazes e esquilos,

espiados pelo grande lince quaternário, das pôlas das altas ramarias.

Decorreram horas. O sol banhou a clareira. A corrente da vida engrossou

com os raios solares, com os turbilhões de moscas que traçavam o seu voo

enigmático, com os zângões, com as abelhas, mais rápidas e mais sonoras,

com o enxamear das aves à sombra do moitedo.

No entretanto, uma hiena, baldada a sua digressão nocturna, claudicava

esfaimada entre os espinhais. A sua pituitária reconheceu o odor humano,

entre o do coiro e o do unto. Aproximou-se. Os ratos debandaram; e a

necrófaga, sem sair do seu esconso, compreendeu que o homem não estava

morto. A esperança fe-la alapardar-se na sombra, numa semi-sonolência.

A luz continuava a coar-se, em fios cetineos, através dos interstícios

das ramagens; a sombra atingiu o seu mínimo, e depois foi aumentando.

Vamiré dormia ainda, espreitado pela hiena. As aves iam-se calando; as

grandes árvores emudeciam; a formiga trepava aos gladíolos da erva; o

besoiro segurava-se na haste franzina das flores, curvando-a; as moscas

zumbiam doidamente, e bandos de cabritos monteses partiam as plantas, na

sua carreira veloz.

Pelas duas horas depois do meio dia, o fétido da hiena deu no faro de

chacais, que se abeiravam do mato, onde ela se agachara. Por seu turno,

emboscaram-se também na espessura, e a sua comoção de glutões, os seus

gritos sinistros, desvendaram aos corvos a perspectiva de um opulento

repasto.

Os corvos chegaram crocitando; com as asas negras escureceram por um

pouco a clareira, e depois empoleiraram-se numa faia. A quatro mil

metros de altura, três abutres reconheceram a comoção dos corvos, e

caíram vertiginosamente sobre uma árvore vizinha.

Enquanto Vamiré dormia, os carnívoros gizavam o seu plano, desejando os

nocturnos que chegasse a noite, e temendo os diurnos que findasse o dia.

A hesitação mantinha-os quietos e de atalaia; depois, os chacais

afastaram-se mais da hiena; o pânico dispersou, por um momento, os

abutres. Nada prevaleceu contra os corvos, que se reuniam aos centos, e

que, com a afiada tesoira do seu bico, se aprestavam para o ataque.

Abriram eles o espectáculo: graves e cómicos nos ramos da sua faia,

começaram por uma espécie de dança, avançando para a extremidade dos

poleiros, até que um deles caísse; este esvoaçava por um pouco,

crocitava furiosamente e voltava a reunir-se à fila.

O jogo e os gritos espantaram os nocturnos; e quando, numa nuvem, com o

ruído do granizo em floresta, os palreiros baixaram sobre o homem, a

hiena escafedeu-se, e o medo invadiu os chacais.

Os corvos, entretanto, iam andando, como míopes, astutos e grotescos, de

terríveis mandíbulas que simulavam um grande nariz, e de corpo ondeado

de azul-escuro.

A dois metros de Vamiré, hesitaram. Deixaram de crocitar; e os mais

velhos formaram conciliábulo, em vozes baixas, como gorgolejos,

alternados de saltos.

Um movimento do Pzann determinou a debandada. Os corvos voltaram para os

ramos.

Pausa. Ouve-se rir a hiena e chorarem os chacais. Restabelecido o

silêncio, a asa dos abutres soou pesadamente e as três aves de rapina

baixaram sobre o solo. Os pescoços nus emergiam firmes de um colar de

guarnição branca, e a cabeça longa, de um cinzento pálido, parecia a

cabeça de um mamífero inofensivo, camelo, canguru, antílope.

Quedaram por muito tempo, como sentinelas imóveis. Os ângulos do número

apareciam nas espáduas altas e pontiagudas; o colo parecia jorrar do

peito, e as asas eram mantos, guarnecidos de uma bela franja clara de

penas rudes. De raça forte, a envergadura do seu voo ia até oito pés; as

suas garras potentes, ávidas em remexer carnes mortas, aferravam presas

animadas, nas horas de fome...

Ponderariam eles a agonia do homem, o resto da energia dos seus músculos

soberanos, o seu peito arquejante, a sua cabeça de uro?

Estavam silenciosos, mas os caninos famélicos, cansados de esperar,

deslizaram pelo mato. Então, os corvos retomaram o seu lugar, com ruído;

os chacais, assombrados, pararam; e o abutre mais velho caminhou para a

cabeça loira de Vamiré.

A cabeleira, esparsa nas faces, velava um tanto os olhos; o grande

bigode fulvo estremecia ao passar do hálito febril; uma espécie de riso

provocante soerguia o lábio, entre a resignada tranquilidade dos vincos

da boca.

O ombro seminu parecia de pedra polida; os cabos retorcidos do tríceps

denunciavam o poema das fibras em milhares de feixes, subordinados às

mesmas funções; e o pêlo do espeleu encobria o tronco, em que pulsava o

coração agitado.

A floresta realizava, em silêncio, o seu trabalho de cidade colossal. A

vida, repleta, dormitava nos fojos, nos ninhos, e até nas galerias dos

insectos.

Os corvos, interessados no procedimento do abutre, portavam-se com

discrição; os chacais, bocejando, fechavam os olhos deslumbrados; e a

hiena escarvava o solo com as patas dianteiras. Ouviam-se pequenos

ruídos, indecisos cantos, o cair de frutos maduros,--como difuso

tiquetaque do relógio das coisas.

Entrementes, o abutre olhava, através do interstício da cabeleira de

Vamiré, a pálpebra semi-cerrada, que deixava entrever a esclerótica.

Arrancar os olhos é o instinto da ave de rapina: o abutre decidiu-se ao

assalto. Aproximou-se lentamente. Então, os seus companheiros chegaram

também, e um deles pôs a garra no ombro nu.

A mão de Vamiré, inconscientemente, acudiu ao ponto ameaçado, caindo

sobre a asa da ave; esta ripostou com uma bicada no pulso.

O ferimento despertou no homem as faculdades defensivas: como num sonho,

os seus punhos de atleta acharam o pescoço de abutre... As garras

aduncas fincaram-se, por dois minutos, na pele do espeleu; depois, veio

a asfixia e a morte, antes que os dedos de Vamiré largassem a presa.

As asas dos sobreviventes feriram o ar; os seus vultos ergueram-se até

as cimas das árvores. Ali, hesitaram por um momento, e, saindo por uma

larga abertura, desapareceram.

O grande nómada, depois daquele incidente, recaiu na sua letargia. Tinha

a aparência de um cadáver, e os corvos delegaram dez, de entre si, para

se esclarecer. Os outros celebraram conferência, em que as vozes

entre-cortadas respondiam a sons roucos, fundindo-se depois estes e

aquelas.

Os dez verificaram que a grande presa era perigosa; mas, como os

tentasse o cadáver do abutre, trataram de o explorar.

O homem conservava esse cadáver na sua mão crispada. Com minuciosa

circunspecção, deram volta ao animal, e atacaram-lhe o colo nu: abriram

brecha, as tesoiras aprofundaram-na e, dentro em pouco, nas mãos de

Vamiré estava apenas a cabeça do abutre. Depois, num esforço comum, os

corvos levaram a presa para alguma distância.

Os chacais acharam favorável o ensejo. Ganindo e uivando, foram-se

chegando, com um ruído semelhante ao de um aguaceiro na folhagem.

Os dez corvos ergueram voo, com um _croaa_ furioso. Mas, reunidos aos

outros, caíram aos centos sobre o espinhaço dos carnívoros, que

prontamente fugiram, perante a imprevista agressão.

O bando negro ficou senhor do campo de batalha, e começou a devorar o

abutre.

A hiena deixara de fugir. As exigências do estômago impeliam-na para a

audácia. Embora altiva ainda, a sua raça ia decaindo, perdendo

sucessivamente a índole ofensiva. Já estávamos longe do monstro daquele

género, de maquerodo, que, com os seus caninos de dupla lâmina, do

tamanho de um côvado, agredia os proboscídeos. Talvez que a grande

hiena, nesse tempo, arrastasse ainda para as cavernas herbívoros

palpitantes; mas esta, hiena mosqueada, não obstante possuir caninos e

molares, os mais sólidos na animalidade daquela época, e capazes de

partir o fémur de um auroco, limitava-se a preferir a carne morta, ou

atacava, em suas galerias os pequenos fossadores, a toupeira, o arganaz.

Adiantou-se lentamente, baixando-se como um animal que rasteja, e

estendendo a cabeça a farejar o homem, cada vez mais inquieta.

A um salto de distância, calculou, e fixou o pescoço, planeando o

assalto do cão e do lobo: a estrangulação...

Mas, toda nervosa, e raspando o colo, não se atreveu.

Enquanto ela hesitava, reacendia-se a luta, entre os chacais e os

corvos. Os caninos fizeram uma sortida e, durante um desvio do

adversário, puderam conquistar os restos do abutre. Magra refeição, sem

duvida! De olhos vivos, pestanejando sob a acção da luz, trincavam os

ossos do volátil, com ar de precaução.

Despertado o apetite, pensaram na grande presa. A hiena não se opôs, e

até parecia que de ambos os lados se estimulava a audácia. Os risos e os

uivos cruzavam-se com as corridas, os saltos de lado, e a exibição

sugestiva das dentaduras.

As moitas entreabriram-se com fragor, o mato partiu-se com um rumor de

tempestade, e apareceu um mamute, de fronte bojuda e de quinze pés de

altura.

Vamiré: Romance dos tempos primitivos · 第 4 / 8 段