Amortecido pela fadiga, toda aquela aventura se lhe esboçava em notas
lentas, profundas, eternas. A ascensão da lua, o uivo dos animais, o
murmúrio dos fluidos, os fantasmas arborescentes erguidos na planície,
pareciam conceder-lhe o tempo e o espaço. Por ter trazido consigo a
donzela, parecia-lhe sua, como a pele do espeleu, que lhe pendia dos
ombros.
Mas o firmamento começou-lhe a vacilar, as árvores iam-se transmudando
em fisionomias movediças. Por sua vez, Vamiré sentiu o ambiente pesado,
o seu ser retraído e as suas carnes cedendo ao repoiso. Deu vagamente
alguns passos por baixo do vidoeiro, segurou com a mão a veste da
adormecida e estendeu-se sobre as ervas.
Correu tempo. A lua começou a declinar e estava a menos de trinta graus
do horizonte, quando Vamiré despertou.
Com um lance de olhos, assegurou-se da presença da sua companheira e
pôs-se de pé, observando a planície. Mas nada viu de duvidoso, e
concluiu que os perseguidores tinham desistido do intento ou que a sua
fadiga, maior que a dele, os condenara ao repoiso.
Como se sentia bem disposto e com as forças restabelecidas, resolveu
aumentar ainda aquela boa disposição e pôr-se a caminho.
Restava um pedaço de lebre; partiu-o em dois e comeu um. Depois, tendo
refrescado a cabeça no regato, ficou, por alguns minutos, contemplando a
adormecida.
Estava estendida agora sobre o solo. A delicada cabeça apoiava-se no
cotovelo. O seu corpo, dobrado em ziguezague, tinha um estranho encanto,
que alvoraçava Vamiré.
Uma onda de sangue rugiu nas fontes do caçador; reaparecia nele o
instinto selvagem.
O homem abaixou-se. Mas que instinto ou que doçura poética o fez erguer,
cheio de piedade?
Incapaz de a analisar, sem que ela por isso o impressionasse menos,
acordou a sua companheira, tocando-lhe levemente. Ela ergueu-se
lentamente, assustada, estremunhada. Depois, readquirida a percepção das
coisas, ficou triste e estendeu um olhar sombrio às estepes lunares, à
queda avermelhada do astro nos abismos ocidentais. Entretanto, foi-a
invadindo uma vaga satisfação, pois que o dia se aproximava, e as suas
carnes viçosas eram uma invocação à felicidade.
De maneira que não recusou a ligeira refeição, oferecida por Vamiré, e
até, renascendo-lhe o apetite, sentiu prazer em mordiscar a coxa assada
da lebre. O caçador, encantado, admirava-lhe os dentes de lobo, a
cabeladura desprendida ao longo do pescoço; e não sei que sentimento de
maternidade se mesclava ao amor crescente do moço pré-histórico.
Furtivamente, de olhos baixos, ia-se ela acostumando à presença do
caçador, achava-o mais belo e mais robusto ainda do que na véspera, mas;
a sagrada recordação da tribo interpunha-se aos dois e enchia-a de
saudades.
VII
A perseguição
Pouco depois do alvorecer, Vamiré e a sua companheira chegaram enfim ao
rio.
A abandonada canoa lá estava ainda na moita onde ele a escondeu: teve só
que tomá-la aos ombros e pô-la a nado. Mas quando nela quis meter a
estrangeira, esta manifestou violenta repugnância. Foi quase preciso
empregar a força. Entretanto, desde que ela se viu embaraçada,
voltou-lhe a resignação, o seu fatalismo de oriental.
Vamiré, acompanhando a margem, por onde a corrente era mais branda,
pôs-se a navegar rio acima, lentamente.
Era deliciosa a hora, os raios do sol oblíquos, e toda a natureza
rejuvenescia nas estepes. Árvores mais numerosas anunciavam a
proximidade da floresta, e Vamiré esperava chegar lá, antes que o sol
estivesse a meio caminho do zénite.
Mas haveria apenas meia hora que ele pangaiava, quando teve um rebate. O
seu olhar perspicaz descobria além, na planície, uma multidão confusa de
homens ou animais. Minutos depois, não restava duvida: eram homens
parecidos aos perseguidores da véspera e provavelmente os mesmos. Graças
ao cortinado das árvores, Vamiré tinha a vantagem de que eles não
descobririam prontamente a canoa, ao passo que ele, próximo dessas
árvores, cujos intervalos lhe serviam de observatório, estava em posição
de lhes seguir os movimentos pela planície inclinada que levava ao rio.
Demais, não traziam pressa; paravam amiúde, e desde logo percebeu o
nómada que eles lhes seguiam a pista, com todas as paragens inerentes a
este modo de perseguir.
Vamiré não descobriu a impressão à sua companheira, e começou a pangaiar
com mais ardor, no intuito de atingir a floresta e desembarcar na outra
margem. Mas, após alguns minutos, a rapariga avistou por sua vez os que
a procuravam, e a sua fisionomia animou-se. Soltou uma exclamação, e,
voltando-se para o seu raptador, dirigiu-lhe um olhar suplicante e
humilde.
Vamiré baixou os olhos, comovido. Mas depois veio-lhe o despeito, uma
resolução rude, que lhe fez dizer, como na véspera:
--Vamiré é o mais forte!--
Ela conservou-se firme, indiferente na aparência, observando
obliquamente a vinda dos outros.
Vamiré calculou que, não sendo visto no momento em que eles chegassem à
margem para conhecer as condições do rio entre a vegetação que o
ladeava, hesitariam necessariamente entre três ideias: que ele teria
descido a corrente; que a teria subido; ou que teria atravessado o rio e
continuado o seu caminho para leste.
Mantendo-se a velocidade actual da canoa, seria possível chegar à ilhota
longa e estreita, coberta de arvoredo, que ele avistava mais acima, a
dois mil cúbitos. Chegando lá e voltando à direita, nada poderia ser
observado pelos perseguidores. Calculando bem as velocidades
respectivas, a sua salvação dependia de uma dezena de cúbitos.
Empenhou todas as suas forças num impulso supremo, e abeirou-se
rapidamente da ilha. Mas ao mesmo tempo chegavam os outros ao rio.
Naquele momento, foi enorme a inquietação de Vamiré: um dos asiáticos,
pondo a mão em pala sobre a testa, parecia olhar na direcção dos
fugitivos. Pela maneira como deixou cair a mão, pareceu a Vamiré que ele
nada tinha visto; mas não era menos certo que o cortinado das árvores se
tornava menos opaco para os outros e podia ser sondado por algum deles.
Felizmente a ilha estava próxima: mais algumas remadas, e Vamiré estaria
no pontal.
Mas, de repente, a sua companheira, percebendo-lhe a estratégia
desesperada, ergueu-se em pé e soltou um grito. Sem reagir, Vamiré deu
as últimas remadas, dobrou o pontal, e, à sombra, invisível, tomou terra
numa pequena calheta, e levantou-se furioso:
--Cala-te!--
A sua mão rude levantou a rapariga, sacudindo-a. Ela assustou-se,
calou-se, dominada, entregue ao seu fatalismo.
Vamiré conservou-se irritado dois minutos, com os temporais latejantes.
Depois, serenou, convencido de que o grito não chegara à margem, e
pôs-se a perscrutar a estepe.
Devidamente, ele estava de melhor partido. Os outros, lá em baixo, mais
vagarosos, mais hesitantes, chegados a uma zona, em que as pegadas de
uros se confundiam com os vestígios de Vamiré, certamente não podiam
ainda explorar o rio. Vamiré apontou-os, triunfantemente com o dedo à
oriental:
--Nunca mais te haverão..., nunca mais!--
E, obrigando-a a sentar-se de novo na canoa, retomou o remo e continuou
a costear a ilhota.
A pequena embarcação singrou silenciosamente por algum tempo. A ilha
ia-se alargando, recoberta de áspera vegetação, de árvores devoradas por
cipós. De espaço a espaço, descobriam-se sapos colossais, aves
pernaltas, palmípedes.
Através do incenso primaveral, da alegria perfumada das corolas, emanava
das sombras um bafio de humo, de madeira bolorenta, de organismos
sáurios. Aqui e ali, pontais a dobrar e plantas fluviais sobrenadando,
atravancavam a canoa. As ogivas dos ameeiros e dos freixos roçavam
Vamiré e a sua companheira; e a imagem trémula das coisas ressaltava das
águas, revestida, ao mesmo tempo, de uma graça mais discreta e de uns
revérberos vertiginosos.
E assim foi chegando Vamiré até meio da costa; depois, a ilha começou a
estreitar-se, a afilar-se, à feição de proa.
As águas azulejaram. Avistou-se enfim a ponta da ilha; o rio mostrou-se
largo e límpido; a floresta ostentou-se a três mil cúbitos.
O nómada entendeu que, ficando à esquerda, a interposição da
ilhota-navio o tornaria seguramente invisível, enquanto os seus inimigos
não chegassem ao ponto marginal correspondente ao centro, dado que eles
continuassem a persegui-lo. Ainda mesmo que eles passassem para a outra
margem,--caso em que o perigo seria mais próximo,--ele chegaria
provavelmente à região florestal antes de ser avistado, e ali a
dificuldade da marcha para eles dava toda a vantagem à canoa, vogando
livremente sobre as águas...
VIII
Noite na floresta
Ainda a noite! A vida imensa e minúscula; o mistério das forças; léguas
de floresta; o choque das moléculas e dos seres; o contacto interminável
da terra; o eriçar-se dos organismos imóveis, de veias frias,
estremecendo ao roçar da aragem; o divagar da fome, das angustias, dos
amores; e um astro de âmbar pálido rolando nas solidões do firmamento.
Entre musgosos montijos, Vamiré construiu provisório abrigo, coberto e
fechado por grossos ramos, entrelaçados de enrediças. Fortaleza sólida.
Se uma fera tentasse violá-la, Vamiré teria tempo de a ferir
mortalmente, pelos interstícios, com a ponta da zagaia, embebida num
veneno subtil e encabada numa haste de freixo.
Ao meio da noite, Vamiré, despertado por certo rumor, abriu os olhos e
observou. Em torno do abrigo, vagueavam lobos; uma pantera ia passando
na dúbia claridade do mato. Soaram entretanto uns gemidos roucos: Vamiré
avistou o vulto de um grande tigre, que devorava um antílope, ainda
vivo.
--Élem!--murmurou ele.
A doçura penetrou-lhe na alma, diante da braveza da noite. O nome, que
pronunciou, era o da sua companheira, nome que ele obtivera na paragem
do meio dia, quando a apertava com perguntas gesticuladas.
É a terceira noite que passam na floresta, sem que o nómada saiba se são
perseguidos ou não. A fuga fora penosa, o rio cheio de sinuosidades, a
floresta abundante de ciladas, mas tudo vencera o caçador. Àquela, hora,
as peripécias da travessia vinham-lhe à mente, de envolta com o nome da
sua companheira.
--Élem!... Vamiré é o senhor de Élem!--Contempla-a, adormecida. Débeis
ondas de luz, entremeadas de sombras, escoavam-se dos orifícios do
abrigo sobre o rosto da virgem. Vamiré palpitava diante daquele perfil
indefinido, e recompunha-lhe mentalmente os traços pálidos.
À proporção que ele vinha fugindo, à proporção que lutara por ela e
contra ela, que acumulara fadigas para a raptar, mais preciosa se lhe
tornara ainda.
O desenvolvimento da sua ternura coincidia com afectuosidades subtis,
delicadezas de sentimento, até ali desconhecidas. Se se sente rudemente
impelido a levar a aventura até ao desenlace, se deseja Élem apesar
dela, e apesar de todos os perigos, sente-se, em compensação, cheio de
piedade e de paciência.
Só a iminência de um perigo, o medo de a perder ou de morrer poderiam
devolvê-lo à brutalidade de troglodita... Demais, ela incute-lhe um
religioso temor; perturba-o com o seu silêncio, com os seus grandes
olhos, imóveis durante horas, com a sua misteriosa prosternação perante
o sol poente e o sol nascente, com as palavras que ela então profere,
lentas, monótonas, rítmicas...
Estalam ramos. Ouvem-se na clareira passos pesados; os lobos afastam-se.
Por baixo das ramarias, apoiado nas colunas redondas das suas pernas,
com as suas defesas brancas cintilando à frouxa claridade, eis o colosso
quaternário, o grande mamute da decadência. Agita-o uma certa
inquietação ou febre primaveral, um desejo de refrescar-se nas águas do
rio. Adianta-se majestosamente, e o próprio tigre recua, levando a sua
presa.
Vamiré, estremecendo, admira o enorme animal. Conserva por ele o
respeito que os velhos transmitiram, sabe que é valente e pacifico e
conhece a história melancólica da sua decadência.
--Lô! Lô!--
O mamute continua a andar; o perfil da sua larga cabeça torna-se mais
nítido na penumbra, e Vamiré distingue-lhe a crina e a pelagem, a tromba
escura que se baloiça sincronicamente, e os flancos enormes.
O animal roça o abrigo do caçador, afasta-se na direcção do rio, e
Vamiré, deitando-se, julga que pode ter uma hora de sono, e fecha as
pálpebras. As ideias chocam-se confusamente; afastam-se depois, e a
respiração igual atesta o sono, o descanso.
Abrem-se então os olhos negros da sua companheira, que se põe à escuta,
suspirando. Assalta-a uma ideia de libertação; se ela ousasse, enquanto
ele dorme, desmanchar o entrelaçamento dos ramos do abrigo e fugir para
o Ocidente, para as regiões da sua tribo?
Mas Vamiré ouviria certamente o ruído, acordaria, e ela estremece, só à
ideia do seu grito de cólera. Entretanto assoma-lhe aos lábios um
sorriso, um desvanecimento feminil e não se supõe simplesmente uma
vencida. Porque ela viu-o embaraçado e tímido, e fez recuar os apetites
do bárbaro. Tudo isto ela compreende tão bem como as filhas do homem que
hão de viver em longínquo futuro, e das quais ela possui a ciência
confusa e, ao mesmo tempo, subtil.
Por isso os seus receios são mesclados de indulgência, sem todavia poder
esquecer-se daqueles entre quem passou a infância; dos seres da sua
raça, da sua família, dos moços que falam a sua língua.
Se ela ousasse... Mas, acima da cólera de Vamiré, apavora-a a floresta
que a rodeia, abundante de meandros e carnívoros; e reconhece quanto é
fraca, sem a clava e a zagaia do raptador.
IX
O idílio nascente
Nos dias daquela fuga febril, em que o gigante loiro a arrancava ao
sono; nas paragens nocturnas, e durante a comoção das caçadas, começara
a formar-se o idílio na alma de Élem.
Em todos os seus sonhos, e através das pálpebras, surgia o cenário da
floresta e o vulto de Vamiré em movimento, enquanto as estepes natais e
as tribos pastorís se confundiam e se desvaneciam nos confusos
horizontes da memória.
Mas, quando recrescia o instinto de resistência extrema, o receio da
maternidade, o desejo de sorte menos inquieta, e quando surgia a ideia
da união dos dois, na convivência, no contacto dos corpos, mais
distantes pareciam um do outro, esquivos, concentrados.
Algumas vezes porém, as horas que ao meio do dia dominam a carne e ao
crepúsculo o pensamento, quebravam aquela indiferença.
Então, a virgem morena, amortecida ao calor da atmosfera, ou embalada
nos vagos rumores do sonho, distendia a vontade rude, poisava os olhos
nos olhos do homem, permitia um pouco de intimidade. Indispunha-a porém
contra ele uma fera que rugia, um relampaguear de tormenta, um súbito
receio dos lobos nocturnos.
Vamiré conseguiu algumas vezes que ela cantasse as melopeias, com que a
sua tribo acompanhava o trabalho. Escutava-a, encantado pela sua candura
de selvagem, seguia a cadência, embebia-se na musica de uma língua
desconhecida. Como uma criança balbuciante, repetia o canto,
inclinando-se às articulações misteriosas.
Porque ele ia aprendendo o dialecto estrangeiro, já sabia designar
objectos e vocalizar movimentos.
Por seu lado, ela interessava-se pelas armas, pelas zagaias, de que
Vamiré empregava muitas espécies;--as de bases abertas para receberem a
haste; as de pontas que se embebiam num buraco da haste; as de arpões
chatos ou de varetas; as de lâminas como punhais; as de raspadeira; mas
o que ela admirava sobretudo era a fina agulha de fundo aberto, e o fio
para coser, tirado dos tendões da rena,--coisas desconhecidas da tribo
dela, a qual, se bem que já sabia a arte de entrelaçar as folhas
vegetais, ainda empregava unicamente o furador.
E não admirava menos a escultura e a gravura, espantada da paciência, da
segurança dos entalhes, da verdade das análises. Escutava com
curiosidade Vamiré, que procurava explicar o modo de vida dos Pzanns; e
seguia a gesticulação do homem, que indicava dimensões, figurava
cerimónias, descrevia habitações.
De uma vez, quis ela informar-se da sorte das mulheres e, depois de
alguns esforços, compreendeu a repartição em famílias, sob a direcção
dos anciãos. Admirou-se muito, porque provinha das tribos monógamas em
que havia uniões periódicas com as tribos amigas, sendo os filhos
criados pelas mães, e os pais reciprocamente guarda-costas das esposas e
protectores vigilantes da prole.
Os raptos de donzelas eram habituais; pelo quê, a cólera dos orientais
não procedia do rapto de Élem, mas de que Vamiré tivesse cometido esse
rapto sem aliança prévia, e, mais ainda, essa cólera procedia da viva
aversão a uma raça longínqua.
Entretanto, Vamiré e Élem compreendiam-se mal, pela impossibilidade das
minúcias.
Na marcha, na caça, na cozinha, iam decorrendo longas horas. Viviam em
comum, tocavam-se ingenuamente, como duas crianças perdidas na floresta
imensa. Ela obedecia a todas as necessidades estratégicas, deixava-se
quase guiar, mas, a cada paragem, assumia uma atitude mesclada de temor
e galantaria.
Vamiré mantinha não sei que nobre doçura; entristecia às vezes; era rude
com as coisas, pisando os ramos de árvores, correndo contra os lobos e
as panteras; mas, para ela, não tinha a menor violência.
Quando havia uma passagem perigosa, e ele tomava nos braços a
companheira, submergia-se-lhe o coração numa onda de fogo, mas ele
conservava a humildade do leão diante da sua fêmea, uma nobreza de
bárbaro distinto. Além de que, ele sabia que nas cavernas da sua tribo
os esponsais eram precedidos de preparações e provas, que eram já uma
delicada compreensão dos transes fecundos do amor--alegrias e penas,
febres sufocadas, lutas intimas, destinadas a converter-se em grandes
batalhas da futura humanidade.
Vamiré aceitava as provas que deviam engrandecer a espécie,--a sedução
lenta, a ventura recebida aos poucos, sem triunfos grosseiros; e é por
isso principalmente que as gerações, dele procedentes, seriam gloriosas
através dos tempos.
X
Combate
Depois da alvorada, voga a canoa, por entre a frescura das margens,
sobre o rio que se alarga; alto dia, vai correndo pelo amplo intervalo
que separa as ramarias. Ao longe, algumas ilhotas formam escalão e a
imagem das árvores marginais, a sua cor escura, a vida que nelas
palpita, têm uma beleza vertiginosa.
Em torno, a floresta é como um antro escuro de mil aberturas hiantes,
toda povoada pelos rumores da vida, abrigo formidável da eterna luta,
asilo de raças contrárias, propicia às ciladas do ataque e aos redutos
da defesa, grande despensario de mantimentos, comum ao animal frugívoro
e ao carnívoro, ao réptil e à ave.
Vamiré empunha o arpão, no intuito de ferir algum peixe. Está tranquilo.
Depois das corridas dos últimos dias, a necessidade de descanso prende-o
a quaisquer entretenimentos: a Reparação das armas ou do vestuário; a
espera de caça apetitosa.
Nesta manhã, entretém-se com a pesca. Já duas vezes errou a vitima,
porque o animal das águas foge mais rapidamente na esteira do seu
hélice, do que a mão do homem se move.
Abaixa-se o arpão pela terceira vez, e Vamiré, segurando a haste, crava
a ponta aguda no flanco de um pequeno esturjão. O peixe ondula e
ressalta; as empolgueiras opõem-se à saída da arma; mas, com os saltos
eléctricos da presa, os liames estão em risco de se partir, e é mister
que Vamiré manobre habilmente, para evitar os repelões muito fortes ou
muito perpendiculares.
Vai pangaiando com a mão esquerda e impelindo a presa adiante de si, até
à borda do rio; chegado ali, crava ainda mais o arpão, levanta enfim o
esturjão ensanguentado e atira-o para a margem.
Vai preparar a refeição. Os ramos secos, as hastes herbáceas, devoradas
pelo fogo, produzem um acervo de cinzas pardas, onde se embebem pedaços
da presa, e de onde se retiram, transmudados em carne tenra e saborosa,
que Vamiré e Élem comem com apetite.
Um pouco entorpecidos pela boa refeição, estiram vagamente os olhos pela
diversidade das coisas; acham-se a bastante distância da margem, numa
clareira, ladeada de faias giganteias. Abundam as sarças, que vão
recosendo os rasgões, ali abertos por alguma catástrofe antiga, e
refazendo a integridade da floresta. Desabrocham robustas compósitas com
uma flor amarga; e crescem cardos colossais, hirsutos, farpados,
soberbos e terríveis.
Élem e Vamiré devaneiam suavemente em completa tranquilidade; mas eis
que uma frecha passa a dois palmos do Pzann. Este levanta-se, e empunha
as armas. O seu olhar adestrado descobre perfis humanos atrás dos
troncos das faias.
Aqueles perfis emergem a súbitas, e uma nuvem de frechas dilata-se no
espaço.
Naquela hora de perigo, o instinto encosta Élem ao peito de Vamiré, ao
passo que a luta se anuncia, ao passo que os inimigos, em número de
sete, se aproximam céleres. São atarracados, são os homens do Oriente,
de olhos de Érebo. Conhecem a agilidade de Vamiré e, formando leque,
caem sobre ele, por forma que lhes não possa escapar. Já os arcos estão
tendidos, as frechas envenenadas vão descrever as suas terríveis
parábolas, mas erguem-se vozes, indicando o perigo de Élem, e todas as
mãos substituem a frecha pela lança.
Vamiré encara-os altivamente, e o seu grito de guerra perturba o coração
dos mais valentes. Reconhece nos seus inimigos a raça de Élem, crânio
largo, pele trigueira, olhos escuros. Trazem tatuados os braços e a
testa, e comanda-os um velho robusto.
Vamiré empunhara a zagaia... os homens trigueiros resguardam-se com os
troncos mais próximos... Então Vamiré sobraça Élem, e vai recuando para
o rio, onde espera poder embarcar... A uma ordem do chefe, chovem as
frechas, que o Pzann desvia lestamente, acelerando a retirada.
Táctica hábil, com que os orientais se irritam, e adiantam-se três
deles. Mas a zagaia de Vamiré atravessa o mais ágil, e o Pzann solta o
riso triunfal da sua raça, entendendo que os dois sobreviventes não
terão a coragem de lutar contra ele... A sua clava gira no espaço, a
provocá-los; do seu peito hercúleo saem rugidos ferozes; o seu braço
dispõe-se ao extermínio... O chefe antevê a perda dos seus, ordena-lhes
que parem, e eles obedecem.
Um momento de tréguas. Os asiáticos coleiam por entre os espinhais,
procurando cortar a retirada de Vamiré. No cinzento das faias que
formavam polistilos obscuros, na eterna penumbra sotoposta às frágeis
padieiras de ramaria, Vamiré entrevê-os, com um olhar de melancolia
belicosa, e entretanto o sol ilumina a grande arena, o cerrado
espinhoso, de onde os orientais espiam o inimigo. Na cabeça longa do
Pzann, através da febre da luta, a impressão de um recontro
impertinente, o receio de perder Élem, e de se ver, por muito tempo,
rodeado apenas do mutismo petrificante das coisas.
Para arremessar, tem apenas o arpão. O chefe oriental quer um assalto em
massa, em que, se algum perecer, possam os demais vingá-lo.
Disseminados, para não constituírem alvo muito certo, correm sobre o
raptador... O arpão, arremessado, não faz vitimas, separando-se da haste
o chifre. Mas Vamiré descobre novo recurso num sílex ovóide, que ele
traz consigo, e serve-se dele como projéctil, ferindo o velho chefe.
Este verga-se, estóico, em luta silenciosa contra a dor. Vence-a,
levanta-se, junta-se ao bando, e no seu semblante espelha-se o
sofrimento e o ódio.
Vamiré tenta ainda fugir. Sobraça Élem, mas fraqueja. Seguem-nos as
frechas: uma ferida seria a morte... Demais, carregado com Élem, em
pequeno espaço, quase sem dianteira, será apanhado à beira do rio, antes
que a barca possa vogar ao largo. Depõe Élem, deixa-a livre. Ela porém
não se retira, cheia de ansiedade pelo Pzann. Este compreende-a, e,
levantando o pensamento a Zom, a Namir, às cavernas e às grandes
planícies, aceita o combate...
Corpo a corpo, impossibilitado o êxito das frechas, a refrega começa mal
para os orientais: uma lança é despedaçada pela clava de Vamiré; outra é
tomada por ele; e, terrível, ambidextro, faz, ao mesmo tempo, uso das
duas armas... Recuando, avançando, segundo a oportunidade, chega a
manter em respeito os cinco braquicéfalos, e fere até um deles,
ligeiramente, no peito...
Mas estas peripécias afastaram-no de Élem... vê-a em poder dos inimigos,
e adianta-se para a reaver... Fere-o de lado uma lança; corre o
sangue... Em desforra tremenda, parte o crânio de um oriental, e prostra
outro no solo, com um ombro escalavrado, enquanto com uma lançada
atravessa a coxa do chefe...
O Pzann todavia sente-se fraquejar, e todas as suas forças se congregam
na defensiva.
Élem solta doloridos clamores; os da sua raça dispõem-se para o assalto
final; e o ardor belicoso arrasta o próprio velho para junto do inimigo
ferido...