Lembrou-se ainda de outras lendas: a história dos Pzanns aventureiros,

que, mais de cem anos antes, haviam tentado explorar a floresta, e

muitos dos quais tinham desaparecido sem deixar vestígios, e outros

tinham regressado, contando que o rio corria eternamente por entre

árvores gigantes, e que os perigos aumentavam a cada dia de viagem.

Mas nada disto desalentava o nómada. A sua curiosidade e a sua coragem

crescia a cada rumor da noite, a cada emboscada que ele entrevia nas

sombras.

Permaneceu largo tempo, sem sono debaixo da faia. Mas quando, enfim, o

cansaço lhe oprimiu o corpo, foi buscar a sua canoa e transportou-a para

a margem; depois, tendo encontrado um lugar seco, estendeu ali a pele

do espeleu e, virando a canoa, cobriu-se com ela, resguardando-se contra

surpresas muito rápidas. E, com a clava numa das mãos e a zagaia noutra,

adormeceu.

Nem nessa noite nem nas seguintes foi Vamiré atacado pelos carnívoros.

Não porque os monstros da sombra não girassem à volta da sua canoa; mas

é que nenhum tentou o assalto.

Vamiré acampava ora em ilhotas, ora nas margens silvestres. Em meio da

abundância de tudo, não lhe faltou carne nem frutos que mantivessem a

força do homem.

Mais de uma vez, diante da interminável floresta, de onde manavam grandes

ribeiras afluindo ao rio, chegou a arrepender-se da aventura, e a

tristeza tomava-lhe a alma. Pensava em que o regresso seria mais difícil

que a ida; a memória inquietava-se-lhe com a história dos que não tinham

regressado; e o coração enchia-se-lhe de saudade, ao lembrar-se de Zom e

Namir, seus geradores, e de seus irmãos e irmãs, mais novos que ele.

É verdade que Zom e Namir o tinham já esperado por outras vezes durante

dois ou três quartos de lua, e se haviam acostumado às ausências dele;

mas agora, que duração teria a viagem?

Os obstáculos acumulavam-se, especialmente as cachoeiras, que Vamiré não

podia transpor, senão levando a canoa pelas margens.

Por entre espinhais e grossas raízes que ressaíam da terra, por cima da

acidentada areia movediça, por entre répteis e feras alapadas, árdua era

a passagem; mas estes próprios obstáculos, à proporção que ele os vencia

em maior número, estimulavam-no à perseverança, pela ânsia de perigos

sem recompensa.

Um dia, despertou quando as aves findavam o hino da alvorada, quando o

orvalho escorria das árvores como chuva ligeira. Um ruído de ramagens

chamou a sua atenção. Viu avançar então um vulto cor de freixo, de

andadura oscilante, aos pulos, acocorado nas mãos posteriores; a sua

estatura excedia a da pantera. As suas quatro mãos, o seu rosto, os seus

olhos circulares, as suas orelhas delicadamente contornadas, lembraram a

Vamiré palavras de Sboz, aquele que de entre os Pzanns penetrara até

mais longe no desconhecido da floresta: naquele extraordinário ser, de

braços desmedidos e peito largo, reconheceu Vamiré o _homem das

árvores_. Estranho aos povos da Europa e quase aos da Ásia, cada período

o impelia para as regiões ardentes: cem mil anos depois do êxodo da

raça, as florestas meridionais, raras e espessas, conservavam apenas

algumas famílias solitárias.

Vamiré teve um movimento de simpatia. Levantando-se, soltou o grito de

chamar, próprio dos Pzanns. O homem das árvores parou, inquieto,

espreitando com os olhos redondos, por baixo da espessura da ramaria.

Vamiré, desviando as frondes, descobriu-o de súbito.

--Hoi!... Venturoso sejas!

O homem das árvores pôs-se em pé. Coberto de pelos penugentos, de raros

cabelos, de menor estatura que o nómada, mas mais largo de ombros,

parecia dotado de uma força extraordinária.

Vamiré admirou-lhe a fisionomia feroz, as maxilas enormes, as

sobrancelhas emaranhadas por cima das pupilas amarelas, a sua epiderme

escura e granulosa, sem que diminuísse a simpatia, o prazer de encontrar

um semelhante, depois de uma semana de solidão; e, acompanhando as

palavras com o gesto, Vamiré tornou:

--Vamiré, amigo..., amigo!

O homem das árvores rosnou, entreabrindo os beiços, certamente hesitante

sobre as intenções do outro.

O nómada, vendo a inutilidade das palavras, recorreu aos gestos, mas sem

outro resultado, senão aumentar a desconfiança do desconhecido.

Sem se importar disso, Vamiré deu alguns passos em frente; mas então, de

punhos cerrados e pupilas trémulas, o homem das árvores bateu no peito e

ameaçou o troglodita. Este irritou-se:

--Vamiré não teme o leão, nem o mamute, nem as ciladas dos homens...--

O homem das árvores rosnou outra vez, sem avançar todavia para o Pzann,

mantendo-se na defensiva.

À vista do que, Vamiré calou-se, já sem ira, e com uma curiosidade

crescente.

Os dois contemplaram-se por algum tempo.

Esta pausa pareceu inspirar alguma confiança ao homem das árvores. A sua

fisionomia desvincou-se, manifestando uma paz de herbívoro. Embora menos

analista que Vamiré, percebia também que estava na presença de um

semelhante. Vagos instintos porém, talvez recordações directas, temores

atávicos, não lhe tornavam agradável tal presença.

Sentiria ele que outrora, ao dissolver-se o período terciário, ele

ocupava a mesma escala do grande dolicocéfalo que estava em pé diante

dele? Que, por misérias e vivendas depressivas, a sua raça estava

agonizante e a do outro vitoriosa? Traria ele, gravadas na sua carne, as

dores, as revoltas, as nostalgias, os êxodos perpétuos, as campanhas

perdidas, tudo que se transmite de geração a geração, de sangue a

sangue, e cujo despertar indefinido, entressonho de vidas passadas,

ressurgidas subitamente nas fibras hereditárias, equivale à memória

directa e precisa?...

E o homem das árvores, desajeitado, continuava, embora menos

desconfiado, a espreitar Vamiré. O Pzann, deixando de gesticular, e

convencendo-se da impossibilidade de se fazer compreender, retirou-se

para a sua canoa, a fim de a pôr a flutuar.

Quando chegou ao rio, voltou-se e viu que o homem das árvores o tinha

seguido e o olhava com curiosidade.

Embarcado Vamiré, uma certa benevolência se desenhou na boca cinzenta,

sobreposta de nariz chato, do homem das árvores, que com os braços

peludos esboçou um vago gesto de amigo. Vamiré correspondeu-lhe

imediatamente, sorrindo, e desculpando ao selvagem a desconfiança.

Por muito tempo, e enquanto a débil canoa se afastava, entre o raizame

das margens deixou-se ver imóvel uma face atenta; e uma admiração pânica

e uma impressão mista e selvática como as sarças marginais, vagueavam no

cérebro do homem inferior, no crânio moroso do homem das árvores.

VI

Contra-anúncio

Mais alguns dias, e sempre a floresta! Vamiré começou a duvidar de que

ela terminasse. Porque não seria ela a fronteira do mundo?

E contudo as cachoeiras iam diminuindo. À excepção do assalto de uma

pantera, que do alto de uma árvore o atacou, e cujas entranhas ele fez

em pedaços, à excepção da tortura dos infinitamente pequenos que sem

cessar lhe perseguiam o corpo, à excepção das ameaças dos répteis,

Vamiré só tivera que vencer os obstáculos do inanimado, as ciladas da

terra pantanosa e das plantas emaranhadas das angras. Cada vez mais

hábil em adivinhar os perigos, ao simples aspecto da terra e das águas,

acostumara-se a rir de tais obstáculos, e maior altivez palpitava no seu

coração e nas suas carnes.

Ao sexagésimo dia, a vegetação começou a clarear-se. Por duas ou três

vezes se avistaram clareiras, novos recantos silvestres em que as

árvores eram mais acanhadas e mais raros os colossos seculares.

Por outros indícios ainda, pela presença de animais que preferem a

proximidade dos espaços livres, pela própria natureza do terreno, Vamiré

pôde pressentir o bom êxito da sua empresa.

Dois dias depois, haviam desaparecido as suas últimas duvidas. A margem

esquerda mostrou-lhe velhas estepes, ligeiramente arborizadas, e onde as

árvores se disseminavam muito.

Ao meio do sexagésimo oitavo dia, amarrou a canoa numa calheta

escolhida, armou-se com as zagaias e a clava, e empreendeu uma excursão

a pé, para o lado do Ocidente.

O solo era firme; as gramíneas e as plântulas predominavam, cada vez

mais, entre as árvores.

Depois de algumas horas, Vamiré chegou acima de um outeiro, de onde

avistava um amplo horizonte. Ao Norte, uma perspectiva verde, violácea,

atrigueirada, a floresta-oceano, por onde se escoavam os encantos da

luz, onde a vida se alastrava em expansões inúmeras e subtis. Ao Sul, a

inclinação das estepes, entrecortadas de oásis, a perspectiva de uma

região de caça e transito livre, o novo pais que Vamiré desejava

conhecer, e cuja aparição lhe encheu triunfalmente o peito.

Rindo consigo, pensava na surpresa dos Pzanns, na satisfação de Zom e de

Namir, quando lhes contasse a sua viagem.

Ficou extático, por muito tempo, sobre a colina. Mas o firmamento, por

cima dele, tornou-se ardente. Juntaram-se grossas nuvens, carbunculosas,

orladas de fosforescências. Um sopro angustioso, giratório, ascensional,

comprimia as plantas; os raios caíram majestosamente sobre a floresta.

Vamiré gostou da tempestade; o seu organismo absorveu a força e o

movimento dela, tão acordes com o estado da sua alma. Quando se

despenhavam as águas do céu, Vamiré desnudou os ombros e recebeu com

voluptuosidade a fresca inundação.

Calmou-se entretanto a tormenta, esfarrapados os nimbos, bebidos pela

tepidez firmamental, desfeitos pelos choques eléctricos. Apenas as

gramíneas guardavam a humidade fluvial: a terra ávida tudo absorvera.

Depois da chuva, Vamiré marchou deliciado para a paisagem. Os últimos

vestígios silvestres tinham-se desvanecido. Nada havia já, se não

estepes imensas, entrecortadas de verdes maciços.

As nuvens disseminadas desmanchavam-se em pedaços efémeros adiante do

sol, e uma ligeira sombra, de instante a instante, refrescava as

perspectivas.

Ia chegando a noite. À hora do crepúsculo, Vamiré, parou à beira de um

oásis e passou ali a noite. No outro dia, prosseguiu na marcha,

resolvido, se não sobreviesse alguma aventura, a regressar, visto como

havia descoberto o que desejava: novas terras de caça.

Pegadas de uros, de aurocos, de veados, de cavalos, convenceram-no da

fecundidade do terreno, e projectou uma grande expedição de moços

Pzanns, para o ano seguinte. Mas, ao segundo terço daquele dia, ocorreu

uma aventura importante.

Foi durante uma paragem, quando o nómada acabava de comer um par de

codornizes, caçadas durante a marcha. Abrigado sob umas figueiras

silvestres, viu aproximar-se uma mulher.

Vinha vestida de fibras vegetais, entretecidas de gramíneas da planície.

Vamiré encobria-se; a onda que nele se agitava, do coração ao cérebro,

traduzia ansiedade e satisfação.

A certeza de que ela era moça demonstrava-se não só ao simples aspecto,

à proporção que ela se aproximava, mas também pela cadência do andar e

pela flexível vacilação das ancas.

Quando ela chegou a trinta passos, viu-se que atingia apenas a

puberdade, mimosa virgem de grandes olhos, surpreendendo Vamiré pela

dissemelhança com a rapariga vulgar da Europa, de crânio alongado e

compleição robusta.

O seu rosto, um pouco redondo, pálido como as nuvens primaverais, os

seus cabelos iguais à melânia dos lagos em noites sem estrelas, a sua

cintura breve, mais comparável à circunferência dos freixos que à dos

choupos, e o porte da sua figura, e a forma dos seus lábios e da sua

fronte, e o talho das suas pálpebras, tudo lembrava a raça longínqua, a

humanidade que se engrandecera, após milhares de séculos sem contacto

com as hordas nómadas do Ocidente.

Vamiré,--da mesma forma que o herbívoro, estranho desde séculos às

regiões bravias, guarda o instinto atávico de reconhecer o grande

tigre,--Vamiré percebia a distância entre o seu organismo e o da

adolescente. Previu coisas inteiramente novas naquele recanto do mundo,

aonde o levara um capricho seu; e esta presciência do desconhecido

abalou-o. Hesitava o nómada em assaltar aquela presa de amor, e uma

horripilação atravessava-lhe as fibras, como a aproximação de uma

tempestade nos nervos de um pássaro. Mas na sua imaginação bárbara,

agitada por um sangue eléctrico e por todo o amor de Maio, a estrangeira

pareceu infinitamente apetitosa.

Filho da arte, propenso à voluptuosidade dos contrastes, sentiu-se

atraído pelos longos cílios de frouxel negro, pelo andar oscilante, pela

precisão dos contornos, pela encantadora viveza das pupilas, e

resolveu-se.

Mas, enquanto hesitava, a viandante abeirou-se do oásis. Vamiré

levantou-se de um salto, com a rapidez de um garanhão.

Sentindo rumor e voltando-se, a virgem viu chegar Vamiré. Assombrada e

gritando plangentemente, tentou fugir. Pisava as grandes ervas, correndo

ligeira, mas sem esperança de escapar ao formidável caçador, e por duas

ou três vezes procurou ladear, encobrindo-se com as moitas, tomando por

tangentes. Vamiré perseguia-a, cada vez de mais perto, retardado

simplesmente pelo prazer de ver flutuar os cabelos da fugitiva e

requebrar-se seu tenro corpo em curvas tentadoras. A virgem sentiu-o

enfim junto de si, e na cabeça o hálito do caçador.

Parou e voltou-se. Com o susto a reflectir-se nas pupilas, e o peito

turgescente sob as fibras do vestuário, ergueu os braços suplicante, em

meio de uma caudal de palavras confusas.

O nómada ficou imóvel diante dela, convencido da impossibilidade de

compreender aquela linguagem, mais rápida e mais sonora que a sua. Mas a

linguagem da natureza, o terror impresso nos lábios e nas pálpebras da

desconhecida, moveram-no à piedade. Menos vivas e mais profundas,

percorreram-lhe o organismo novas impressões, esboço de poema selvagem e

retraimento de brutalidades voluptuosas diante da ternura.

Teria ela a compreensão, o instinto sequer, do seu triunfo sobre o

grande ocidental de cabelos claros?

Menos tremula, continuou a murmurar silabas, mescladas de uma indecisa

malícia. Vamiré tentou responder, significar-lhe que não queria

fazer-lhe mal. Mas os seus gestos de estatuário eram novos para ela, que

os observava atentamente. Filha de raças não plásticas, de raças

cultuais, não compreendia senão movimentos amplos e monótonos, distantes

da natureza. Mas ainda mais que pelos gestos, pareceu surpreendida

quando Vamiré, desprendendo um dos seus enfeites de marfim, lho

ofereceu: não sem desconfiança, a virgem contemplou as linhas gravadas

na pequena lâmina,--a corrida de um uro, perseguido por uma fera,--e

pegava no artefacto em sentido contrário sem o compreender. O nómada,

sorrindo, pôs-se a indicar a direcção dos traços, a representar o

desenho por gestos, perturbando-a ainda mais.

Entretanto, os olhos e as interjeições de Vamiré iam-na tranquilizando a

pouco e pouco.

A desconhecida já sorria também. Então, cheio de alegria, Vamiré pôs-lhe

a mão no ombro. Ela recuou, voltando à desconfiança.

--Vamiré é bom!--murmurou ele.

De repente, a desconhecida, estendendo os olhos pelo horizonte, deu um

salto e bateu as mãos. Vamiré, seguindo-lhe a direcção do olhar, viu,

contrariado, aproximar-se, correndo, um grupo de homens, enquanto ela,

com um gesto, um tanto travesso, fazia sinal ao nómada para que fugisse.

Vamiré, crispando as mãos, tacteava as suas armas e contava os

sobrevindos, que eram doze, armados de grandes arcos e lanças.

Diante da impossibilidade da luta, deixou-se possuir de uma desesperação

de idílio frustrado e de orgulho ferido.

--Vamiré não tem medo,--disse ele altivamente. E, como a estrangeira se

ia afastando, seguiu-a e segurou-a por um braço. Ela debatia-se,

gritando alto. Irritado, Vamiré apertou-a contra si e levantou-a.

Aterrada por ver que era leve como uma cabrinha sobre o peito do nómada,

defendeu-se sem violência, timidamente.

Não obstante o fardo, Vamiré tomou caminho, e pôs-se a correr, com uma

velocidade surpreendente, excitado pelo grito dos que o perseguiam, e,

pelo menos nos primeiros minutos, foi ele o vitorioso.

Os que lhe iam na cola, membrudos, e de raça menos encorpada que a dele,

não pareciam perseguidores de presas, homens de jarretes de fera, como

os dolicocéfalos ocidentais.

Ágeis contudo, não cansariam tão depressa como Vamiré, a menos que este

não abandonasse o fardo. Mas ele não pensava nisso, dominado pelo seu

temperamento de lutador.

Vamiré corria para leste, para a margem onde deixara a canoa. Supondo-se

mesmo que mantivesse a sua velocidade, não poderia chegar lá antes de

metade de um dia, muito depois do crepúsculo, depois que a lua estivesse

no zénite.

Passados alguns minutos, a donzela deixou de se defender. Mulher afinal,

levada por um homem que a não tratava severamente, começou a sentir uma

vaga curiosidade, deixando descansar a cabeça e a parte superior do

peito no ombro de Vamiré.

Ao longe, na planície, via os homens da sua tribo, distinguia-lhes os

gestos. Armados de grandes arcos e lanças velozes, cobertos de mantos

tecidos com fibras de plantas e lã de animais, eram por ela confusamente

cotejados com Vamiré, vestido com a pele do espeleu e armado de clava e

zagaia; desejaria sem duvida que eles triunfassem, e contudo desejaria

também salvar a vida do seu raptador. Uns longes de vaidade, a impressão

feminina de que a violência do homem não era uma injuria, a força de

Vamiré, a atracção do desconhecido, todas estas coisas vagueavam no seu

espírito semibárbaro, não permitindo a fixidez de um desejo.

Decorreu uma hora de terrível correria, em que Vamiré aumentou sempre a

dianteira que tomara.

Mais suave, mais inclinada, a luz cobria de âmbar a planície, e a sombra

do caçador e da sua presa galopava, projectando-se imensa para leste.

Voltando-se subitamente, Vamiré não viu os perseguidores. Subiu a um

montículo e avistou-os a mais de quinhentos cúbitos. Abriu os lábios num

sorriso triunfal e gritou:

--Eô! Eô!

E, voltando-se para a virgem:

--Vamiré é o mais forte!--

Ela voltava a cabeça, ofendida por aquele sorriso e por aquele grito. O

caçador sentou-a, e ficaram em silêncio por minutos.

A respiração de Vamiré, rouca e desagradável pouco antes, foi-se

regularizando; o peito arquejava-lhe mais rítmico.

O nómada murmurou então algumas palavras. Ela abriu os olhos, e o seu

olhar encontrou o dele. O olhar de Vamiré era sereno e terno. Ela

encrespou as pálpebras, deixando ler no rosto uma temeridade feminina,

maliciosa, desdenhosa.

Vamiré inquietava-se e encantava-se com isso: achava-a assim mais

amável, e repetia, com menor convicção:

--Vamiré é o mais forte!--

Os perseguidores aproximavam-se: era necessário recomeçar a fuga.

Vamiré retomou a dianteira que levara, e pareceu então evidente que os

outros, e não ele, cansariam primeiro. Demais, os perseguidores, que até

então corriam juntos, começaram a desunir-se, e três ou quatro

apresentavam-se muito fatigados para prosseguir. Os outros

conservavam-se quase em grupo, sem que nenhum curasse de se adiantar aos

companheiros, dominado pelo misterioso da aventura e pela estatura

elevada e agilidade extraordinária do dolicocéfalo.

Ia-se entretanto extinguindo o dia. Era a hora da cor de jalde. Na

planície, um silêncio sem vibrações, uma atmosfera melancólica e fresca,

um estádio de repoiso.

Os oásis esparsos difundiam vida em torno de si; os nemóceros voavam em

altas colunas por cima das superfícies húmidas; por toda a parte

despertava um frémito eufónico, balbuciações de pássaros. Hora de

segurança e bem-estar, em que os animais diurnos não tinham que recear o

vaguear das feras, hora em que os grandes ruminantes se deitavam na

planície com uma segurança encantadora, e em que alguma coisa do viço

matinal voltava, ao cair do dia.

A corrida de Vamiré tornava-se frouxa e difícil; mas, atrás dele, a

perseguição parecia abandonada.

Na extrema do horizonte, o vulto dos archeiros fora-se esvaindo; e

debalde o caçador procurou avistá-los, subindo a um montijo. Descansou

pela segunda vez, poisando a desconhecida.

Esta, melancólica, quedou-se de pé, ao lado dele, compreendendo a

inutilidade de qualquer tentativa de fuga.

Quanto a ele, sentia-se agora muito fatigado para exprimir o seu

triunfo, e inquietava-se por ver que não poderia recomeçar a corrida.

Consolava-o contudo a ideia de que os seus perseguidores deviam estar

também extenuados.

E ficaram ambos silenciosos.

Chegava o crepúsculo. Com uma lentidão majestosa, os mundos do colorido

iam-se apagando sobre o Poente, e Vamiré estremeceu, vendo a sua

companheira inclinar-se, estender os braços para o horizonte e falar ao

disco do sol. Filho dos ocidentais não hieráticos, vagamente

supersticioso mas sem culto, não compreendia o acto da oriental e

olhava-a com curiosidade, com inquietação talvez.

Quando ela terminou, demoraram-se ainda algum tempo, até que a lua se

ergueu.

--Vem,--significou Vamiré.

Ela compreendeu o gesto e, sem resistência, marchou ao lado dele.

Depois, na solidão da noite, enquanto o lobo e o chacal começavam a

uivar sobre as estepes, ele era um apoio. A estrangeira admirava

profundamente a grande clava do caçador, lançada ao ombro e fixada por

ligaduras. Era já um principio de intimidade, de confiança, de

resignação mais calma. Mas Vamiré, cheio de cansaço, não tinha o ardor

de pouco antes, esgotado nas suas artérias o sangue de Maio, cheio de

poderosas moléculas.

Marcharam por muito tempo os dois vultos, enquanto subia a lua

pré-histórica. Começava a estepe a cobrir-se de mais numerosos oásis; as

árvores, multiplicando-se em moitedos, anunciavam a proximidade da

floresta; os raios do luar incidiam mais prateados sobre as ervas, e

Vamiré entendeu que a sua companheira devia ter fome e sono. Ele tinha

sobretudo sede.

--Descansa!--disse ele; Vamiré vai caçar.

Ela assentou-se, submissa. Era debaixo de três figueiras silvestres,

robustas e cheias do perfume da primavera. O sonho infiltrava-se por

entre as ramarias, o eterno sonho da lua e das constelações; e a filha

dos orientais entregou-lhe a sua alma confusa. Sonhando, percebia a

fragilidade do seu ser; a sua família e a sua tribo, o larário da noite,

os sacerdotes, os rebanhos de bois asiáticos, povoavam-lhe a mente e

torturavam-na até as lágrimas; mas, ali sozinha, não chegava a odiar o

homem que a roubara, antes o considerava como barreira única diante da

noite formidável.

Vamiré, na planície observava atento o horizonte. Perfis de felinos

apareciam a espaços. Muito ao longe, um cervídeo ia fugindo. Mas eis que

um lobo, de focinho erguido, se aproxima das três figueiras; quase ao

mesmo tempo, saltou assustado um animalzito, uma lebre.

Postado em linha obliqua, Vamiré esperou o ponto em que lhe ficasse mais

próxima a carreira dela; depois, a sua zagaia ergueu-se, sibilou, e o

pequeno animal rolou entre as ervas. Ao salto do caçador, o lobo fugiu e

Vamiré foi apanhar a lebre.

Esfolou-a rapidamente e suspendeu-a de uma frança. Depois, ajuntando

ramos e ervas secas, tirou de um saquete o sílex com que os

dolicocéfalos faziam lume, estendeu as fibras mais secas e fez saltar

centelhas.

Depois de algumas tentativas, a chama levantou-se, pequena ao principio,

mas avivada depois por mancheias de combustível, acertadamente

dispostas, e a lebre começou a assar-se.

A asiática, à vista do lume, inclinou-se, como fizera diante do sol

poente, e com igual melopeia de palavras.

Vamiré, impassível, acabou de assar a lebre. Depois, convidou a sua

companheira, e ambos comeram em silêncio.

A refeição foi breve. O cansaço de um e a comoção de outra não lhes

permitiam comer muito; mas atormentava-os uma viva sede: era mister

prosseguir na marcha até se achar água.

Puseram-se em marcha, e, antes de mil passos, Vamiré começou a ouvir o

murmúrio de águas e, logo após, avistou um regato, onde se

dessedentaram.

--Dormir!--deu a entender o homem.

Ela compreendeu o gesto. Perturbou-se, perscrutou Vamiré, que, à palidez

do luar, tinha um aspecto triste, abatido, nada feroz. Sentou-se então

contra um vidoeiro e, um tanto receosa ainda, entrecerrou as pálpebras,

em luta com o cansaço. A natureza dominou-a, e ela cedeu à semi-morte

quotidiana.

Sentado à beira do regato, Vamiré contemplava as facetas da água, as

retículas da vegetação, as ombreiras dos salgueiros interpostos diante

da lua.

Vamiré: Romance dos tempos primitivos · 第 2 / 8 段