Sobretudo a agulha revelava uma engenhosa indústria: esquiro

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Notas de transcrição:

Este texto é uma transcrição do original de 1905, tendo-se

actualizado a grafia para a variante europeia da língua

portuguesa (pré-acordo ortográfico de 1990).

Foram corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.

VAMIRÉ

ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS

Traduzido de J. H. Rosny

POR

CÂNDIDO DE FIGUEIREDO

LISBOA

LIVRARIA EDITORA

VIÚVA TAVARES CARDOSO

5, Largo do Camões, 6

1905

VAMIRÉ

ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS

Porto--TIP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA, SUCESSORA.

Rua da Cancela Velha, 70

VAMIRÉ

ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS

Traduzido de J. H. Rosny

POR

CÂNDIDO DE FIGUEIREDO

LISBOA

LIVRARIA EDITORA

VIÚVA TAVARES CARDOSO

5, Largo do Camões, 6

1905

PALAVRAS DO TRADUTOR

Há dez ou doze anos, li numa Revista estrangeira uma extraordinária

narrativa romântica, que o seu autor, o sr. J. H. Rosny, intitulava

_Vamiré_.

Referia-se a narrativa aos tempos primitivos da humanidade, e atestava

tão raros predicados de artista e tão vasto conhecimento da pré-história

natural, que senti a tentação de a verter para a nossa língua.

Não obstante a dificuldade de uma versão exacta do romance, procurei

remover ou atenuar essa dificuldade, e estampei alguns capítulos na

imprensa periódica desse tempo, verificando que o conceito de

apreciadores competentes autorizava o conceito que a obra me inspirava.

Decorreram alguns anos e, relendo o meu desambicioso trabalho, ainda

entendi que valia a pena reduzi-lo a livro, não pela tradução em si, mas

pelos predicados essenciais da obra do sr. J. H. Rosny.

Já aludi à dificuldade da tradução, e lealmente confesso que mais de uma

vez hesitei sobre se devia pôr de lado o meu tentame, para não

desrespeitar a _estilização_ do autor, ou se devia acatar estritamente a

ousada originalidade da forma, ou se me cumpriria conciliar essa

originalidade com as exigências normais do idioma português.

Com efeito, a prosa do sr. J. H. Rosny, no _Vamiré_, abunda em vocábulos

que, se não foram criados pelo autor, são, pelo menos, estranhos aos

léxicos correntes da língua francesa; a adjectivação é, por vezes, de um

arrojo, que deve ter feito calafrios à Academia Francesa; e o

pensamento, de longe em longe, aperta-se em sínteses tão cerradas, que

não ressalta facilmente a olhos desprevenidos.

Mas todas estas qualidades se relacionam, até certo ponto, com o

estranho cenário que o _Vamiré_ nos desenrola, com os cambiantes

misteriosos da linguagem nascente, e com a vaga psicologia do homem

primitivo. De maneira que poderá capitular-se de beleza o que, a

revezes, se antolhe obscuridade e nimio arrojo ao leitor vulgar.

E, assim, eu próprio, seduzido porventura pelo brilho encantador da

concepção do sr. Rosny, e pelo esplendor imprevisto da sua linguagem,

reproduzi formas, que eu relegaria de trabalhos originais meus, mas que

são características de um grande talento insubmisso, que se espraia,

poderoso e intemerato, nas estepes e florestas do mundo pré-histórico.

Os puristas absolver-me-ão pois de uma ou outra condescendência com

brilhantes ousadias, e os leitores de romances terão neste livro um

salutar correctivo à romançada piegas, que entulha as livrarias, e

desvela as noites da mocidade ingénua.

Lisboa, 1 de Janeiro de 1905.

_C. de F._

VAMIRÉ

ROMANCE DOS TEMPOS PRIMITIVOS

I

Guerra nocturna

Foi há vinte mil anos.

O pólo Norte defrontava com uma estrela da constelação do _Cisne_.

Nas planícies da Europa, ia extinguir-se o mamute, as grandes feras

emigravam para o pais da Luz; a rena fugia para o setentrião. O

auroco[1], o uro[2], o veado apascentavam-se na erva das florestas e das

planícies. O urso colosso, muitos tempos antes, havia já passado além da

região das cavernas.

[1] Espécie de uro. Os franceses chamam-lhe _auroche_, palavra

alemã, de _auer_, planície, e _ochs_, boi. (_N. do trad._).

[2] Espécie de boi selvagem. (_N. do trad._).

Os homens da Europa, os grandes dolicocéfalos[3], achavam-se então

disseminados desde o Báltico ao Mediterrâneo, desde o Ocidente ao

Oriente. Habitantes das cavernas, mais relacionados que os seus avós da

idade da pedra, mas sempre nómadas, a sua indústria elevava-se, a sua

arte era graciosa. Esboços traçados a buril fraco, tímidos mas fiéis,

representavam a luta do cérebro no encalço do sonho, contra a

brutalidade dos apetites. Séculos depois, com a invasão asiática, a arte

decairá, e o gracioso tipo daquela indústria só reaparecerá ao cabo de

longos períodos.

[3] Homens de crânio oval. (_N. do trad._).

Era no Oriente meridional, na estação em que as plantas abotoam.

A noite ia em dois terços. Na claridade cinzenta de um grande vale,

reboavam as vozes dos animais carnívoros. Nos intervalos de silêncio, um

rio cantava a vida dos fluidos, a eufonia das ondas. Os amieiros e os

álamos respondiam em murmúrios, em harmonias intermitentes. A estrela

_Vénus_ engastava-se no Levante. A teoria das constelações imortais

descortinava-se entre as nuvens erradias; _Altaír_, _Vega_, a _Carreta_

rodeavam lentamente a _Polar_ do _Cisne_.

Em quanto a vida palpitava nas trevas, feroz ou apavorada, arrojada às

festas e às batalhas do amor ou da alimentação, veio juntar-se-lhe um

pensamento. À beira do rio, no pontal de uma rocha solitária, um vulto

ressaiu da caverna dos homens, e ficou imóvel, taciturno, atento,

olhando a revezes a estrela do Levante. Algum devaneio, algum esboço de

estética astral, menos raro entre estes avoengos da arte do que em

muitas populações históricas, preocupava o madrugador. O vigor e a

felicidade palpitavam nas suas veias; o hálito da noite perfumava-lhe o

rosto; e ele, na plena consciência da sua força, fruía, intemerato, os

murmúrios e a calmaria da natureza virgem.

Entrementes, por baixo da estrela _Vénus_, transpareceu um pequenino

clarão. O alfange da lua apontou, os seus raios estenderam-se pelo rio e

pelas árvores, entremeados de longas sombras. O homem exibiu então as

suas formas de corpulento caçador, de ombros cobertos de uma pele de

uro. O seu rosto pálido, pintado com traços de minio, era largo, sob um

crânio alongado e resistente. A sua zagaia, de ponta córnea,

projectava-lhe no corpo sombras em ziguezague; e na sua mão direita

firmava-se uma enorme clava de carvalho.

Ao estirarem-se os raios lunares, a paisagem entrou numa existência

menos selvagem. Nos amieiros, havia frémito de asas dos elitros brancos;

na planície, nesgas entreabertas de paraíso; em todas as coisas uma

palpitação sensível; tímidos protestos contra os pavores da sombra.

O homem, fatigado da imobilidade, caminhava ao longo do rio, com o passo

cauteloso de quem procura presa. A quinhentos cúbitos, parou, à

espreita, de zagaia firme, na altura da testa. Pela orla de um bosquete

de bordos, aproximou-se um vulto ágil, um grande veado de dez pontas.

O caçador hesitou; mas a sua tribo devia estar muito provida de caça,

porque o animal, sem ser perseguido, foi-se afastando, projectadas sobre

a claridade avermelhada as pernas delgadas, a cabeça repuxada para trás,

todo o gracioso organismo em carreira.

--Lô! Lô!--disse o caçador, num movimento de simpatia.

O instinto predizia-lhe a aproximação de inimigo feroz, algum potente

felino, que andaria caçando. Efectivamente, meio minuto depois, surgiu

da banda de além da rocha dos trogloditas um leopardo, aos pulos,

ligeiro como um raio. O homem preparou a zagaia e a clava, atento, de

nariculas latejantes e nervos inquietos. O leopardo atravessou o rio

como uma porção de escuma, e imergiu nas sombras da perspectiva. E

todavia o delicado ouvido do caçador ainda, durante alguns minutos,

percebeu os passos da fera sobre a terra mole.

--Lô! Lô!--repetiu ele, levemente comovido, numa atitude de provocação

grandiosa.

Decorreram minutos. As pontas da lua tornavam-se mais nítidas; pequenos

animais agitavam levemente as moitas da ribanceira; grandes batráquios

coaxavam sobre as plantas fluviais.

O homem libou a simples voluptuosidade de viver ante a magnificência das

grandes águas, a mesclada difusão dos claros e dos escuros; depois,

afastou-se de novo, à escuta, de olhos afeitos às penumbras, espreitando

as ciladas da noite.

--Hoi?--murmurou ele interrogativamente, refugiando-se na sombra de um

moitedo.

Um rumor de galope, vago ao principio, aproximava-se, evidenciava-se. O

veado reapareceu, tão rápido mas menos exacto na direitura da carreira,

suando, de respiração alta, ofegante. A cinquenta passos, o leopardo,

sem fadiga, gracioso, já triunfante.

O homem admirava, desgostoso, a pronta vitória do carnívoro, com um

desejo crescente de intervir, quando sobreveio uma peripécia terrível.

Lá em baixo, à orla da moita de bordos, em pleno luar, ressaía um vulto

maciço, em que, pelo rugido cavo, pelo salto de vinte cúbitos, e pela

farta crina, o homem reconheceu a quase soberana fera,--o leão.

O pobre veado, desorientado pela surpresa, deu uma volta precipitada e

desastrosa, retrocedeu, e achou-se logo sob as garras cortantes do

leopardo.

Luta rápida, sangrenta; o arranco do veado agonizante; e o leopardo,

sobressaltado, ficou imóvel: o leão aproximava-se tranquilamente. A

trinta passos, estacou, com um bramido, sem preparar assalto. O leopardo

quaternário, corpulento, hesitou, furioso de se lhe ter malogrado o

esforço, e pensando em aventurar-se a combater. Mas a voz do dominador,

agora mais alta, reboou pelo vale, dando sinal de ataque, e o leopardo

cedeu, afastando-se vagarosamente, de cabeça voltada para o tirano, com

um miar de raiva e de humilhação. O outro despedaçava o veado; devorava,

a grandes pedaços, a presa roubada, sem pensar no vencido, que

prosseguia na retirada, devassando a penumbra com os seus olhos de

oiro-esmeralda.

O homem, a quem a vizinhança do leão aconselhava prudência,

aconchegava-se cautelosamente no seu abrigo frondoso, mas sem terror,

disposto para qualquer aventura.

Depois de alguns instantes de deglutição furiosa, o leão interrompeu-se:

perturbação, dúvidas, transpareceram em todo o seu aspecto, no tremor da

juba, no espreitar angustioso. De repente, com a força de uma convicção,

tomou o veado, deitou-o para as costas e pôs-se em fuga. Teria andado

quatrocentos cúbitos, quando junto a orla, onde ele tinha aparecido,

surgiu um animal monstruoso. Intermediário ao leão e ao tigre no aspecto

e na forma, mas mais colossal, soberano das florestas e planícies, era o

símbolo da força, erecto, sob a vaporosa claridade. O homem tremeu,

abalado no intimo das suas entranhas.

Após ligeira pausa debaixo dos freixos, o animal prosseguiu na caça.

Devastador como um ciclone, abrindo caminho sem esforço, perseguia o

leão em fuga para o Oeste, enquanto o leopardo, parando, contemplava a

cena. Os dois vultos foram desaparecendo, e o homem pensou em deixar o

seu retiro porque o leopardo o inquietava pouco, quando a cena se

complicou: o leão regressava obliquamente, por ter achado algum

obstáculo, pântano ou fosso.

O homem sorriu, chasqueando o leão, por não ter calculado melhor a fuga,

e retraiu-se para o seu esconderijo, porque os dois colossais

antagonistas vinham na direcção dele. Como era natural, retardado pelo

desvio e pelo peso do veado, o fugitivo perdia terreno.

Que fazer? O caçador estendeu a vista em torno de si: para alcançar

algum choupo era mister galgar duzentos cúbitos e, além disso, o

espeleu[4] trepava às árvores. Quanto à rocha dos trogloditas, ficava

ainda a uma distância dez vezes maior. Preferiu sujeitar-se à ventura.

[4] Corpulento animal felino dos tempos pré-históricos, _felis

spelaca_.

A sua hesitação foi rápida.

Em dois minutos, as feras atingiam a beira do seu retiro. Ali, o leão,

vendo que a fuga era inútil, deixou cair o veado, e esperou. Foi um

momento de tréguas, uma suspensão como a de há pouco, quando o leopardo

segurava a presa. Em volta, o silêncio, a hora da anunciação, a hora em

que os nocturnos vão dormir e os diurnos renascem para a luz. Claridades

de sonho, cimos de árvores embebendo-se em algodoamentos pálidos,

guarnições de graminias lanceoladas meneando-se ao sopro hesitante do

Poente, e, por toda a parte, o vago, o confuso, a emboscada da natureza,

feita de fronteiras arborescentes, de clareiras, de faixas cetinosas de

céu.

Lá em cima, os astros despertos, o salmo da eterna vida.

Sobre um montículo, o espeleu recortava na claridade lunar o seu perfil

altivo de dominador, a crina pendente sobre uma peladura mosqueada de

pantera, a testa chata, as maxilas proeminentes,--rei outrora da Europa

cheleana, em decadência hoje, reduzida a estreitas faixas de território.

Mais abaixo, o leão, de respiração rouca, a pesada garra assente sobre o

veado, hesitante em face do colosso, como pouco antes o leopardo diante

dele, uma fosforescência nas suas pupilas, mesclada de receio e cólera.

Na penumbra, já familiarizado com o drama, o homem.

Um rugido surdo se espraiou; o espeleu sacudiu a crina e começou a

descer. O leão, em recuo, de dentes descobertos, largou por dois

segundos a presa; depois, desesperado, estimulado pelo orgulho, voltou

com um rugido mais estrepitoso que o do seu adversário, e assentou de

novo a garra no veado.

Queria dizer que aceitava o combate. O espeleu não obstante a sua força

prodigiosa, não respondeu logo. Parado, acuado, examinava o leão,

calculava-lhe a força e a agilidade. O outro, com a altivez da sua raça,

conserva-se de pé, de cabeça erguida. Novo rugido do agressor, uma

réplica retumbante do leão, e achavam-se a um salto de distância.

--Lô! Lô!--murmurou o homem.

O espeleu transpôs a distância, a sua garra monstruosa levantou-se ante

as unhas do inimigo. Por dois segundos, a pata ruiva e a pata mosqueada

defrontaram-se num armistício final. Depois, o ataque, uma confusão de

crinas e maxilas, bramidos ferozes, enquanto o sangue escorria.

Ao principio, o leão dobrou-se, sob o tremendo assalto. Desembaraçado em

seguida, fez um salto transversal, atacou de flanco e a batalha

tornou-se indecisa, amortecido o arrojo do espeleu. De repente, o

frenesim dos organismos, a agitação dos músculos de bronze, a indecisão

de esforços malogrados, o revoltear das crinas ao clarão da lua, um

despegar de carnes igual às palpitações de uma onda no mar, a escuma das

goelas e a fosforescência das pupilas fulvas, bramidos semelhantes ao

restrugir das tempestades nas franças dos carvalhos...

Finalmente, o leão, ferido por um golpe terrível, caiu, rolando; e o

espeleu, como um raio, atirou-se sobre ele e começou a rasgar-lhe o

ventre.

Debateu-se o leão, rugindo medonhamente. Conseguiu porém levantar-se

ainda, de entranhas pendentes e juba ensanguentada. Compreendendo não só

a impossibilidade de fugir, senão também que o outro não se apiedaria

dele, fez rosto sem fraqueza, e reentrou no combate com tal fúria, que,

durante minutos, o espeleu não pôde dominá-lo.

Mas o desenlace aproximava-se, as forças do vencido decresciam

rapidamente: dominado de novo, deitado em terra, veio o suplicio, o

encarniçamento do mais forte, as vísceras do leão arrancadas, os seus

ossos partidos entre arpéus poderosíssimos, a sua face triturada e

disforme..., e os rugidos da agonia, repercutidos através do horizonte,

cada vez mais roucos, mais débeis, transmudados logo em suspiros, em

estertores, em tremor de vértebras... Enfim, uma convulsão de garganta,

um arranco lamentoso, e o soberano animal expirava.

O espeleu encarniçou-se no cadáver, na carne ainda vibrante, com a

voluptuosidade da vingança e o receio de uma ressurreição. Por fim,

assegurando-se de que era infundado o receio, repeliu desdenhosamente o

cadáver, celebrou com um rugido o seu triunfo e o seu repto às

penumbras, com as espáduas e tórax sangrando de largas chagas.

Rompia a manhã. Ao fundo do horizonte, uma viva filtração de prata, o

arco da lua esmaecendo, evaporando-se.

O espeleu, depois de lamber as feridas, sentiu que a fome voltava, e

caminhou para a carcaça do veado. Cansado, muito distante do covil,

procurou um retiro, onde pudesse comer, à sombra. A moita próxima, em

que se abrigava o caçador, atraiu o seu olhar, e cuidou de arrastar para

ali a sua presa.

Entrementes, fascinado pela magnificência do combate, o homem

contemplava ainda o vencedor, quando viu que ele se dirigia para a

moita.

Um estremecimento de espanto e de terror lhe percorreu o corpo, sem lhe

tirar o instinto da luta e do cálculo.

Pensou que, depois de tal combate, e ávido de descanso e de alimento, o

espeleu não o inquietaria naquele retiro.

Entretanto, não tinha disso a certeza; recordava as lendas dos velhos,

referidas em noites veladas, o ódio do espeleu contra os homens. O

grande felino, raro já, em decadência contínua, parecia ter o instinto

do papel dos primatas para a extinção do homem, e satisfazia o seu

rancor desordenado, sempre que se lhe deparava um individuo solitário.

Ao tumultuarem-lhe no cérebro estas lembranças, o homem hesitava sobre o

que, em caso de ataque, seria preferível: se o abrigo, se a planície

rasa. Aquele amorteceria o ímpeto da fera; a planície tornava mais fácil

o tiro da zagaia e os golpes de clava.

A hesitação não podia durar muito: o espeleu começava a afastar a

folhagem da moita. Decidida rapidamente a escolha, o homem deu um salto,

e saiu por um atalho, em ângulo recto com a linha que o monstro seguia.

Ao agitarem-se os ramos, o espeleu inquietou-se, rodeou a moita, e,

vendo surgir um vulto humano, rugiu. Ante esta ameaça, desvanecida

qualquer tergiversação, o caçador, de músculos ágeis e destros, ergueu a

zagaia e apontou. A arma vibrou, seguiu direita o seu caminho e foi

cravar-se no pescoço do felino.

--Eô! Eô!--gritou o homem, brandindo a clava com ambas as mãos.

Depois, tornou-se imóvel, firme, belo gigante, herói das idades de luta,

de olhar lúcido.

O espeleu avançou, calculando o salto. O homem, com uma destreza

maravilhosa, fez um movimento obliquo, deixou passar o monstro, a sua

clava desceu como um martelo formidável, e estalaram vértebras. Um

rugido estrangulado de pranto, a queda, a imobilidade imediata do

colosso; e o homem repetiu vitorioso o seu grito de guerra:

--Eô! Eô!

Continuava todavia na defensiva, temendo a repetição do ataque,

contemplando a fera, os seus grandes olhos amarelos, abertos, as suas

garras do comprimento de meio cúbito, os seus músculos enormes, as suas

goelas escancaradas e ainda cheias do sangue do leão e do veado, todo

aquele admirável organismo bélico, de ventre pálido, sob a pelagem

amarela, mosqueada de negro...

Mas estava bem morto o espeleu, e já não tornaria a encher de pavor as

trevas.

O homem sentiu no peito um grande bem-estar, uma plenitude de orgulho

dulcíssimo, uma dilatação de personalidade, de vida, de confiança em si,

que o pôs nervoso e contemplativo, ante as flores que a aurora

iluminava.

As musicas e a brisa da manhã ergueram-se ao mesmo tempo no horizonte.

Os animais diurnos foram abrindo as suas pupilas, as aves pipilaram de

encantadas, voltando-se para o Levante, entumecidas as suas pequenas

cornamusas. Sob transparente névoa, o rio parecia de estanho levemente

embaciado; depois, mergulharam nele os esplendores do vapor e nele se

reflectiu um mundo de formas e matizes. Os cimos dos grandes choupos e

das pequenas graminias da planície estremeceram, ao mesmo hálito quente

de vida. O sol já se elevava acima da floresta distante, e os seus raios

estiravam-se pelo vale, entremeados de sombras de árvores delgadas e

intermináveis. O homem estendia os braços, numa religiosidade vaga, sem

culto determinado, compreendendo a força e a eternidade do sol, e o

efémero da sua personalidade. Depois, teve um grito, o seu grito de

triunfo:

--Eô! Eô!--

E, à borda da caverna, apareceram os homens.

II

A horda

Aos sorrisos da manhã, quando a aragem afagava, regeneradora e

voluptuosa, o rio e a planície, os tições da primeira refeição

extinguiam-se à beira da caverna dos homens.

A árvore-sepulcro[5] de cem cúbitos de alto, estendia os seus braços,

cheios de esqueletos pálidos, de trogloditas extintos. Ao frouxo embate

da viração, o ossário aéreo emitia cânticos suspirosos, eufonias

silábicas; e um velho, apoiando o tronco em os calcanhares, punha os

olhos présbitos em tais ou tais crânios que surgiam de entre as sombras

ramusculares, reconstruía mentalmente os anais de tal ou tal caçador

glorioso, de tal ou tal companheiro da mocidade, devorado pelo nada.

[5] Refere-se o autor à árvore, que os nómadas escolhiam, para nela

dependurar os esqueletos dos seus mortos. (_N. do trad._).

A horda de Pzanns, espalhada, ressentia-se do encanto daquela hora. As

crianças saltavam pelo campo, até à fronteira das águas; entre os

salgueiros, misteriosamente, alguma rapariga semi-nua avivava a sua

frescura e os seus enfeites, enlaçava as ondas fulvas dos seus cabelos;

os homens compraziam-se em projectos de caça ou de trabalho, quase todos

corpulentos e musculosos, de crânios alongados e cheios de energias

belicosas. Em tigelinhas de sílex, alguns guerreiros moíam e misturavam

o minio vermelho com medula de uro, e pintavam o rosto e o peito com um

fino pincel de fibras: parábolas mal-feitas, fios entre-cruzados, vagas

representações do natural, pequenos anéis, traços irradiantes. Outros

prendiam aos joelhos, ao pescoço, à testa, aos pés, ornatos bárbaros,

pingentes de caninos furados à nascença, (dentes de leão, de lobo, de

urso, de auroco, de veado), vértebras de peixe, cristais com reflexos de

ametista, seixos gravados, e a miúda joalharia marinha: a

porcelana-lúrida, lapas, litorinas.

A horda representava uma humanidade já propensa ao ideal, industriosa e

artista, caçadora mas não belicosa, que aceitava o mistério das coisas

sem ter ainda conhecido culto, dominada apenas por vagos simbolismos.

Eram filhos da grande raça dolicocéfala, dominadora da Europa

quaternária, vivendo em paz, de horda para horda, estranhos à degradação

da escravatura; caracterizava-os uma nobreza rude, uma grandeza e uma

bondade que não mais se encontrarão no decurso da neolítica[6]. Eram

largos os seus campos e tão ricos de alimentos, que ainda não surgira o

instinto de apropriação directa nem sombra de astúcia vil. Os condutores

de tribo, sem autoridade efectiva, livremente escolhidos e seguidos, por

virtude da sua seriedade e experiência, ainda não haviam entronizado o

despotismo. Unicamente as questões de amor e rivalidade manchavam,

algumas vezes, a terra com o sangue de homem, derramado por homem...

[6] Segundo período da idade de pedra, chamado também idade da

pedra-polida.

Terminada a refeição e dispostos os enfeites, começou o trabalho das

mulheres e dos homens que não entravam na caça desse dia. Ah! desde o

sílex de Thenay[7], desde o taciturno antropopiteco, agora que no seio

da fauna ia surgir o antepassado cheleano, quantas fronteiras

ultrapassadas, dentro do universo cerebral!--divisão do trabalho,

tradição de utensílios, soberania da natureza, organismo multiplicador

das forças humanas, esboços artísticos...

[7] Os sílex de Thenay são os primeiros e os mais grosseiros

vestígios da indústria humana, atribuídos a uma espécie de

homem-macaco ou antropopiteco, precursor do nosso antepassado da

época cheleana.

Com delicada agulha, muitos cosiam pelicas, depois de abrir nelas

pequenos orifícios com um punção de pedra; outros, com polidor e

raspadeiras trabalhavam em peles frescas; alguns, em bancos de pedra ou

de madeira, ao ar livre, martelavam, afiavam as machadas, as facas, as

serras, os burís. O corte, fazendo saltar pequenas estilhas, e feito com

uma destreza e paciência admiráveis, deixava aparecer, lentamente, as

lâminas e as pontas, e mui raramente o artista deixava de descobrir as

direcções convenientes à percussão, familiarizado com a matéria, dotado

da previsão que se adquire com a longa prática. Tarefa mais delicada

ainda, contornavam outros as pontas, os anzóis, os arpéus de osso e

corno, munindo-se de utensílios finos e perfeitos, tais que a humanidade

não poderá excedê-los, senão em passando da pedra para o metal.

Sobretudo a agulha revelava uma engenhosa indústria: esquirolas

arredondadas por meio de sílex denteado e com entalho; polidura e

alisamento com grés fino; escavação do fundo na ponta curva, com uma

lentidão calculada, com mil perigos de se partir a obra.

Em quanto os trabalhos começavam, um grupo de caçadores reunia-se junto

da caverna.

Ao rochedo mais alto subiu um moço, de olhar penetrante, a explorar as

perspectivas. À sua esquerda, sob reflexos de ametista embaciada, frouxa

e vaga, a floresta esbatia-se no horizonte, prolongando-se até o rio. Em

frente, os valeiros, as quebradas das estepes, a ondulação suave dos

outeiros, oásis semelhantes a nenúfares num pântano, o espelho sinuoso

das águas fecundas. Atrás, perdida na poeira da tíbia claridade das

nuvens, a região das montanhas; e por toda a parte perfis diminutos de

animais pascendo em planícies: o caçador contou uma horda de cavalos e

um rebanho de uros. Com uma voz atroadora, anunciou-os aos seus

companheiros, traçando com o dedo a direcção da caça. Àquele aviso,

todos tomaram as armas: o arco, o arpéu, a zagaia, a clava. Depois, no

momento da partida, a velho chefe, lançando um olhar em roda, bradou:

--Vamiré!--

Então, no portal das grutas, apareceu o moço que vencera o espeleu.

Hesitou entre o desejo de prosseguir na preparação da manta que talhara

na pele do monstro e que começara na véspera, e o desejo da caça.

Decidiu-o a mocidade, a atracção dos vales rejuvenescidos, as

exclamações dos seus companheiros. Reentrou na caverna, e reapareceu

logo, armado de arco e clava, e o bando pôs-se em marcha para o Norte.

Cheios de vivacidade ao principio, excitados os cérebros bárbaros pela

marcha e pelas belezas matinais, foram-se tornando depois silenciosos.

De súbito, um rebanho de uros apareceu-lhes no alto de uma colina. Os

grandes herbívoros espalhavam-se em triângulo, em número de muitos

centenares, numa área de dois mil cúbitos. Os toiros, de flanco leonino,

crânio volumoso e pelo avermelhado, circulavam, a passos lentos, entre

as fêmeas e os machos tenros. Aquele rebanho enorme realizava um

esplendor de vidas tranquilas, de majestade pacifica e de força social.

À voz do condutor, (um toiro colossal, postado no ângulo mais agudo do

triângulo), os outros machos agruparam-se para o combate. Uma

inteligência selvagem,--inteligência atrofiada, entre os seus irmãos da

Ásia, por uma servidão que já existia desde muito,--tornava-os aptos

para a táctica, para a espontaneidade.

Os caçadores pararam. Encobertos por um cabeço, discutiam o plano de

ataque. A configuração do terreno e a situação das feras davam lugar a

duas alternativas: atacá-las, ao mesmo tempo, à direita e à esquerda,

aproveitando a série de outeiros transversais, ou contornar a planície,

e surgir lá de baixo, a duas léguas, de uma densa mata de figueiras

silvestres.

Depois de alguns minutos, a maioria optou pelo primeiro método, porque o

outro, embora mais produtivo em caso de bom êxito, era evidentemente

menos seguro, podendo qualquer pânico afastar os uros, antes de serem

assaltados.

O bando dos caçadores dividiu-se em dois troços, guiado um pelo velho

que empunhava um bastão de comando com esculturas, e o outro dirigido

por um colosso de idade madura.

De ambos os lados, a marcha foi organizada segundo as regras, utilizados

sabiamente os acidentes do terreno; e a horda do velho, avançando

rapidamente, aproximava-se, estava já a distância de tiro, quando o

grande uro condutor pareceu inquietar-se. Erguendo a cabeça vermelha,

constelada de luas brancas, farejou o horizonte, e ficou suspenso numa

perscrutação profunda. Depois, a sua voz ergueu-se, bela e grave, como a

voz dos leões. Os herbívoros dispersos assustaram-se, e concentraram-se.

Um minuto de duvida; um estremecimento de espinhaço; a convicção enfim

de que estava próximo o inimigo, o implacável inimigo vertical, tão

conhecido das feras; e logo o sinal de fuga, a partida inopinada da

enorme caravana, acelerando-se num trote, que fazia latejar o vale.

Renunciando o ardil, os trogloditas subiram a cadeia de outeiros que os

encobria, os mais ágeis apareceram na cumeeira; mais de dez tiros de

arco os distanciavam dos retardatários do rebanho de uros. Estes andavam

rápidos, sem estorvo dos novilhos; mas, desde o primeiro assalto dos

caçadores, era evidente que a expedição chegava ao seu terreno. Os mais

ardentes, verdadeiros bárbaros de raça vitoriosa, sem cálculo,

empenhavam-se numa luta de emulação, insensíveis à palavra dos guias. Em

poucos minutos, três de entre eles chegaram a menos da distância de um

tiro, e as frechas silvaram, um toiro caiu, outro urrou formidavelmente.

--Eô! Eô!

Partiram outras frechas. Ficou estendido um toiro e depois uma fêmea;

cinco caçadores tinham os uros ao alcance de tiro.

Então, sacrificando-se, dois dos bovídeos machos fizeram alto.

Escarvando o solo por um minuto, e fixando no espaço os grandes olhos

perturbados, arrojaram-se à luta, nobres protectores da sua raça.

Mais frechas; mais golpes profundos; mas as belicosas alimárias não

pareciam senti-los, cada vez mais próximas sempre, sempre mais ferozes.

Confiados nas pernas, os caçadores dispersaram-se, pela maior parte; mas

dois moços, entre-olhando-se, e dominados por um orgulho de valentia e

destreza, esperavam imóveis. Os outros então, facto curioso, fizeram

semicírculo.

O primeiro toiro, de cerviz baixa, e com uma velocidade terrível, correu

directamente contra o mais alto dos moços caçadores. Este, com um

movimento elegante, pôs-se de esguelha e cravou a sua lança na ilharga

do toiro.

Sangrado, o animal parecia desfalecer, mas voltou de soslaio, menos

ligeiro e mais cauteloso. Mas nem por isso evitou melhor o bote: a arma

entrou-lhe de novo nas entranhas, mais penetrante, mais cruel.

Cambaleante, ajoelhado, o uro pareceu vencido, em posição de receber o

golpe supremo.

Mas, no momento em que a lança se levantava de novo, ele ressaltou, e

com o corno esquerdo levantou o homem. Levado na parte convexa daquele

crescente e não na ponta, o guerreiro desembaraçou-se a tempo, e o seu

terceiro golpe, decisivo, em pleno coração, assegurou-lhe a vitória.

--Terann matou o grande uro,--rugiu ele.

Ao lado, a luta empenhava-se de outra forma. Quando Terann aniquilava o

seu adversário, outro toiro se arrojava contra o caçador da clava.

Postado em frente, temerário, o homem desceu a arma e julgou esmigalhar

o crânio da alimária. Mas, vindo de lado, e por um desvio de cornadura,

a pancada não sortiu todo o efeito; e o toiro, precipitando-se como um

raio, arrastava o nómada pelo espaço de dez cúbitos.

Inerme, maltratado, espezinhado, viam-se já as entranhas do desgraçado,

e ouvia-se-lhe o estalido dos ossos.

Depois o sangue jorrou: feridas enormes esburacaram o peito; e, na

perturbação dos caçadores, apenas algumas frechas soaram dos arcos,

despedidas pelos melhores archeiros. Depois ainda, como o toiro se

encarniçava no corpo do vencido, muitos arrojaram-se com grande clamor.

A monstruosa alimária não os esperou.

Convicta, talvez, de que morreria, mas desejando cair como guerreira,

marchou altivamente contra os assaltantes. Nuvens de dardos foram

embeber-se nos seus belos flancos, sem lhe sustar a velocidade, e

prontamente atingiu um novo antagonista, um velho que fugia sem

agilidade, e lançou-o por terra.

Baixando a cornadura, dispunha-se a arrebatá-lo, mas um tiro de zagaia

nas espáduas do uro salvou o homem e o flexível perfil de Terann veio

interpor-se.

--Terann! Terann!--clamaram os caçadores. Terann evitou o ataque do uro;

mas o seu segundo tiro, mal dado, roçou apenas uma omoplata.

Por sua vez, rolou pelo chão; por sua vez, viu baixarem-se as agudas e

velozes pontas da cornadura, e todos o julgaram perdido. Mas, de

repente, ágil como o salmão que sobe um rio, apareceu, de clava erguida,

Vamiré. Teve apenas tempo de retirar Terann e arrojá-lo ao acaso,

enquanto os trogloditas bradavam:

--Vamiré é forte como o mamute!--

Com um aceno, Vamiré desviou qualquer auxilio. Depois, colocando-se a

seis cúbitos do toiro, falou-lhe assim:

--Retira-te, valente..., tão digno de viver e de conservar a grande raça

dos uros, tão digno de pastar por muito tempo as boas ervas da planície.

Imóvel, o bovídeo fitava no caçador as suas largas pupilas azuladas; e

uma piedade misericordiosa segredava, na alma de Vamiré, penas por

aquela grandiosa alimária, sacrificada à fatalidade das lutas.

Entretanto, triste, já sem arrojo e com as artérias exaustas, o toiro

baixava ainda a cornadura, aguardando o ataque do homem. E Vamiré

prosseguiu:

--Não, valente..., Vamiré não tocará no grande uro vencido... Vamiré

sentiria que as planícies ficassem privadas do valente, que pode

proteger a sua raça contra o leão e o leopardo...

Dobrado sobre os joelhos, o uro parecia escutar o caçador, num sonho

dilatado e vago. Depois, a sua cabeça oscilou, um eco débil de rugido

estremeceu-lhe na garganta... O toiro prostrou-se, as suas pálpebras

entrecerraram-se, e o seu último alento exalou-se sobre as gramíneas.

Assim findou a caça, numa grave tristeza; e os cinco uros, que jaziam

dispersos na planície, haviam custado a vida a um filho dos homens,

porque se viu que Vanhab, filho de Djeb, acabava de restituir o seu ser

às coisas. E os guerreiros Pzanns ainda uma vez reconheceram a força e a

coragem do uro; mas, por um sentimento de indefinida discrição, sentiam

agora mais amargura que cólera. Associados às últimas palavras de

Vamiré, sabiam que a existência do herbívoro é necessária à dos homens;

e é por este profundo sentimento que eles, muitos milhares de anos antes

da domesticação da alimária, tinham aprendido a dispor moderadamente de

qualquer vida, salvo da dos carnívoros e parasitas, e a mostrar-se

generosos com os uros valentes, para que as hordas de veados, os

rebanhos de bovídeos e as caravanas de cavalos estivessem fortalecidas

contra as grandes feras.

III

O funeral de Vanhab

Ao cair da tarde, transformado o sol num braseiro circular, os velhos

surgiram da caverna, seguidos pela melancólica horda.

Dois guerreiros moços transportavam o cadáver de Vanhab; e o vermelho

clarão do sol poente, sobre o pálido crânio e através da caixa toráxica,

caía como um símbolo de profunda amargura, avessa a um dia primaveral,

sobre as ruínas de um moço que desaparecera para sempre no abismo das

metamorfoses.

A horda desfilou lentamente através da planície, e os lamentos surdos da

esposa e da mãe interrompiam a taciturnidade da cena.

Quando subiram a colina e chegaram à árvore-sepulcro, viu-se um velho

colocar-se ao pé de Vanhab, e todos aguardaram a sua fala, porque tinha

fama de saber falar aos outros homens.

O velho conservou-se imóvel por algum tempo, para que lhe chegassem à

memória coisas antigas, confusas sínteses adquiridas pela sua raça que,

dominada pela natureza, ainda não tinha concebido mistério algum além

das formas materiais. E falou:

--Homens... Vanhab, filho de Djeb..., nascido entre nós..., era um

caçador intrépido e um trabalhador destro. O uro, o leopardo, a hiena,

conheceram-lhe a força... Retalhou os despojos de alimárias, e deles fez

vestidos e armas... Fabricou utensílios da pedra beneficente...

Homens... Vanhab, filho de Djeb, saiu da vida..., não caçará mais, não

mais despojará a alimária, nem mais fabricará utensílios da pedra

beneficente... E porque era um companheiro fiel e prudente..., nós

deploramos Vanhab, filho de Djeb.

--Nós deploramos Vanhab, filho de Djeb,--repetiram as vozes da horda.

Depois, houve pesado silêncio, e as cabeças dos trogloditas ergueram-se

para ver subir à árvore-sepulcro um ágil caçador, que passou de ramo em

ramo, por entre os esqueletos dos avoengos. Quando chegou a um ramo

livre, suspendeu-se Vanhab, filho de Djeb, ao cordão entrançado, em cuja

extremidade pegava o trepador, e os restos do finado subiram por entre a

folhagem.

Do horizonte morno e do grande zénite manava uma languidez tão doce, um

sopro de vida tão encantador, e uma majestade tão serena, que os

companheiros de Vanhab, sua mãe e sua viuva esqueciam a dor e o terror

da morte.

O cadáver, seguro enfim, oscilou um pouco, e a horda começou a debandar

sob a penumbra do crepúsculo. Nos pontais das suaves colinas, à beira do

rio, as naturezas contemplativas viram repartir-se a luz em mil

figurações efémeras.

Dentro em pouco, debaixo da árvore, havia apenas o núcleo dos

companheiros íntimos e dos parentes.

A sombra sucedeu aos esplendores do céu. Mais um dia desapareceu nas

profundezas do passado. Mais uma noite desenrolou o manto do infinito.

Impressionados então, com imaginações embrionárias, com o pensamento da

morte e da noite associadas, os humildes pré-históricos, fiéis a Vanhab,

juntaram um sonho aos milhões de sonhos, de que nasceram os cultos, de

que nasceram as alianças do terror, do sobrenatural e da imortalidade.

Entretanto, a jovem esposa estava prostrada sobre a erva, com os cabelos

esparsos sobre as gramíneas, como as flores dos salgueiros que choram

sobre os nenúfares dos lagos; e Terann, o vencedor, amigo de Vanhab,

apiedou-se dela e sentiu estremecer o coração, porque o cabelo da mulher

era formoso e o seu pescoço arredondado e branco, à claridade final do

dia.

Terann teve então palavras doces, e ela ergueu os olhos... Ponderou que

Terann era forte entre os fortes, e sem ferocidade para as mulheres e

crianças. E, quando as trevas se cerraram, ficou um ao lado do outro,

sem movimento, sem palavras, mas sentindo raiar em si um porvir,

enquanto os lobos vagueavam na planície, e a hiena gargalhava à borda do

rio, e os grandes carnívoros sentiam dilatar-se-lhes a força.

IV

A ilhota

Vamiré, filho de Zom, não obstante a sua juventude, era o assombro da

horda dos Pzanns. Caçador experto e valente, belo de estatura e forte

como o auroco, possuía também os dons misteriosos da arte. As formas do

animal e da planta cativavam a sua imaginação.

Era daqueles que divagam sozinhos sobre as colinas e que cruzam a

floresta, ou vogam pelo rio, ou se embebem nas trevas, pelo jubilo de

surpreender as coisas secretas.

De homens tais não motejavam os dolicocéfalos da Europa, antes estimavam

profundamente Vamiré, porque sabia manejar o buril que grava no osso e

no corno, e o cinzel, e o formão que desbasta a madeira e o marfim.

Apaixonado pela sua arte, tornara-se o mais famoso dos artistas entre as

tribos que, na primavera, chegavam ao Oriente meridional.

Durante dias e semanas inteiras, saía do meio dos seus companheiros,

explorando solidões, trabalhando em algum retiro longínquo; e os

artefactos que ele trazia das suas excursões eram o espanto da sua

horda. Nem Zom seu pai, nem Namir sua mãe, se inquietavam muito com

essas ausências, porque muito fiavam da fortuna do filho.

Ora, um dia de manhã, embarcou ele, e foi, rio abaixo, na sua pequena

embarcação, que estremecia à menor ondulação das águas, cortadas pelo

remo.

À proporção que ele perdia de vista a caverna dos trogloditas, o rio era

mais largo e menos profundo, e grandes pedaços de rocha dificultavam a

navegação, vestidos de musgos e líquenes. Havia ali o hino das águas

extensas, o baixo grave da corrente, os rumores da pedra batida da água,

um encanto de ressonâncias, às vezes penedos dispostos com simetria

arquitectural em galerias abertas aos quatro ventos, nas quais soluçavam

vozes de abismo.

Até às margens virgens chegava a floresta, orlada de salgueiros frágeis,

povoada de choupos grisalhos, freixos plangentes, bétulas nos cabeços;

atrás, a população de árvores gigantes, o cosmos dos cipós e das

plântulas em briga, o mistério da natureza criadora, forças livres, a

renascença sobre o hino milenário, numa penumbra de templo e de

emboscada, onde palpita eternamente a alegria, o terror e o amor.

Vamiré largou os remos, dominado pela solenidade do espectáculo,

encantado pela vacilação das sombras das árvores sobre a água, pelo

perfume agreste da paragem, enquanto por entre varas e ervas iam

passando focinhos de herbívoros, e bandos de esturjões subiam a

corrente, roçando os penedos erráticos.

Entrementes, apareceu uma ilhota.

Vamiré pôs-se a remar, e foi amarrar a canoa numa angra, entre

salgueiros, no limite meridional da pequenina ilha. Batráquios,

galinholas, e um adem espantaram-se. Vamiré desviou a folhagem e

achou-se numa clareira, onde a terra parecia calcada e as ervas

silvestres mondadas intencionalmente.

Sorrindo ligeiramente, Vamiré meteu a mão na cavidade de um ameeiro, e

tirou de lá raspadeiras, lâminas, pontas de sílex, pedaços de osso, de

corda, de madeira de carvalho.

Ficou por um instante em contemplação diante de uma estatueta, indecisa

ainda, cuja cabeladura, testa e olhos estavam quase concluídos; e

deixou-se tomar de uma beatitude religiosa, estética:

--Estará concluída, antes da lua cheia.--

Depois, arrojou o manto, foi à canoa buscar os dentes e os ossos que

tinha levado, e, por muitos minutos, hesitou sobre se continuaria a

estatueta, ou se trabalharia em gravuras.

Tentavam-no principalmente os caninos do espeleu. Pegou neles uma e

muitas vezes. Piscando os olhos e apertando os lábios entre os

incisivos, esboçou com a ponta do buril de sílex contornos imaginários.

Depois, espalhando a vista em redor, e passeando pela ilhota, pareceu

buscar algum modelo,--árvore, ave, peixe.

Apanhou numa enseada um grande ranúnculo aquático de corola pálida, e

examinou-o atentamente.

Uma doçura inteligente, a subtileza de estar em contacto cerebral com a

natureza, uma concentração de artista, avincavam-lhe a fronte e as

pálpebras. Grandes pétalas de verniz suave, anteras tenuíssimas,

pedúnculo matizado de rosa, tudo isto ele apreciou, como amante da

forma, com a sua retina voluptuosa, mas principalmente as linhas

terminais, os contornos que o seu buril poderia reproduzir, as

fronteiras da flor.

Fixando-a no solo e escorando-a com ramúsculos, tentou restituir-lhe a

posição natural e aguçou o seu utensílio.

Finalmente, tomando um dos caninos do espeleu, e profundamente absorto,

gravemente apaixonado, começou a traçar um ligeiro perfil, um esboço do

ranúnculo.

Firme, e de bom tacto, a sua mão musculosa de atleta prestava-se ao

trabalho artístico; entreviam-se já uns traços graciosos, o

desabrochamento das pétalas, os pontos das anteras sobre as débeis

hastezinhas.

Comovido, Vamiré quedou-se, de olhos meio cerrados e lábios mais

nervosamente apertados entre os incisivos: os minutos foram bem

empregados; a flor aparecia belamente sobre o fino marfim.

O homem riu-se em voz baixa e cruzou os braços sobre o peito. Em seguida

porém, descontente de alguns traços, apagou-os com a raspadeira,

recomeçou-os, até que surgiu a contrariedade, a luta, o momento em que o

trabalho se torna pesado, eivado de cólera. Com gestos de

criança-colosso, exprobrações à matéria, descaídas de braços ao longo do

tronco, duas ou três vezes largou o buril.

Mas a obstinação da sua raça fazia-o retomar o trabalho, até que

terminou o esboço, corrigindo as linhas imperfeitas.

Cansado, então, ergueu-se, e não quis olhar mais para a sua obra.

Abatido diante da natureza, sentiu que a melancolia lhe invadia o

cérebro.

Demorou-se largamente à beira do rio. Era a grande estação fecundadora:

as águas enchiam-se de uma nuvem de animais inferiores, muitos dos quais

vinham do mar, subindo as correntes. As enchentes do equinócio haviam

cessado mais de um mês antes, e raramente se avistavam ramos e troncos

de árvores desarraigadas.

Chegou o meio dia, o grande sol, as sombras diminuídas, o ar trémulo de

calor, colunas de ar ascencionais; mas, na lentura da ilhota, debaixo

dos salgueiros e ameeiros frescos, era deliciosa aquela hora.

Além, na margem distante, mostrou-se um grande animal cornígero, em que

Vamiré reconheceu o auroco. Vamiré adiantou-se, sem pressa, até à beira

do rio ao longo de uma espécie de molhe.

O coração do caçador palpitou, à vista do enorme mamífero. Admirou-lhe a

cabeça larga, inclinada sobre o rio, as pernas altas, o peito musculoso:

--Eô! Aqui está Vamiré!... Vamiré!--gritou ele ao animal, com voz

retumbante.

O auroco levantou a cabeça, assombrado, e o nómada repetiu:

--Vamiré consente que vivas!--

O auroco, acabando de beber, afastou-se.

Vamiré tinha levado, para conservação sua, uma posta de uro, previamente

assada. Deglutiu-a, estendeu-se no chão e adormeceu.

Passado tempo, um rumor acordou-o em sobressalto. Vamiré viu fugir meia

dúzia de ratos aquáticos.

Levantou-se de um salto, estremunhado, e pensou logo na gravura

incompleta do canino. Quando a retomou, foi agradável a sua surpresa: em

vez do esboço duvidoso que ele imaginava, era um bosquejo firme, exacto,

de linhas elegantes.

Pegou no buril, aprofundou cuidadosamente os contornos; depois, fazendo

um buraco para suspensão, na raiz do dente, sorriu de alegria diante do

seu novo e belo artefacto. Apenas, por aquele dia, o seu poder criador

achava-se esgotado: tentou em vão retomar a estatueta: um enfado

invencível, uma desabilidade contínua, acompanhavam cada um dos seus

esforços.

Descoroçoado, repôs os seus materiais e os seus utensílios na cavidade

do ameeiro e ergueu a vista ao firmamento, para calcular a hora. A noite

vinha ainda longe, o sol ia a meio caminho do Poente, se bem que a

fresquidão se sentia já no prolongamento das sombras.

Os nemóceros zumbiam em colunas, e por cima da floresta iam-se formando

nuvens translucidas.

Então um aborrecimento pesou no coração do dolicocéfalo,--um

aborrecimento de saúde opulenta, de força acumulada. Esvoaçaram no seu

crânio desejos indefinidos, desejos de caça, de trabalhos perigosos, de

procriação.

Tentavam-no as regiões de além, a jusante do rio. Desconhecidas pelos da

sua raça, excitavam-lhe a curiosidade rude, audaciosa e pueril. Porque

não havia de ir vê-las? Na sua juventude intrépida, propensa a ásperos

empreendimentos, acostumada aos errores solitários, no seu cérebro de

artista, de imaginação ardente, aquele desejo engrandeceu-se,

definiu-se.

Inspeccionou então cuidadosamente as suas zagaias, a sua clava, o seu

arpéu duplamente denteado; assegurou-se de que nenhuma veia de água

ameaçava a sua canoa, e, retomando o remo, embarcou de novo.

À proporção que ele se adiantava remando, a floresta tornava-se cada vez

mais densa, as margens menos definidas, formadas de humo viscoso de

aluviões movediças, de escombros silvestres. A água, mais escura, era

também mais vagarosa; os penedos já não apareciam; velhas árvores de

mil anos erguiam-se de espaço a espaço; grandes répteis dormiam nos

promontórios; e a gritaria dos papagaios encobria os murmúrios augustos

da vida.

V

O homem das árvores

Quando a noite escureceu o rio, Vamiré percebeu que estava imensamente

longe dos confins da floresta. Assou algumas postas de um esturjão

arpoado na passagem, e, mitigada a fome, vieram-lhe à memória as lendas

vagas dos Pzanns:

--«Tah, ancião de cento e vinte Invernos e memória lúcida, narrava o

desmoronamento das montanhas. Três gerações antes de Tah, o Oriente

meridional era limitado por lagos e serras, que nem os Pzanns, nem povo

algum conhecido dos Pzanns tinham jamais transposto. Mas os fogos

subterrâneos expandiram-se, e o ventre das montanhas entreabriu-se.

«O abismo bebeu os grandes lagos. O espanto dominou os homens, e,

desenvolveu-se uma geração inteira, sem que ninguém se atrevesse a

devassar as novas regiões. Depois, Harm, o grande caçador, acompanhado

pelo pai de Tah e por moços valentes, aventurou-se aos desfiladeiros

cavados pelo cataclismo. E foi assim que se descobriram as grandes

planícies do Oriente meridional...»--

Sentado sob uma faia de franças trémulas, comovido por aquelas lendas,

Vamiré desejou ser, como Harm, um daqueles que descobrem terras

distantes.

Vamiré: Romance dos tempos primitivos · 第 1 / 8 段