Não ser de vós admittido

Acredita o meu cuidado;

Logo á ser tão despresado

Devo estar agradecido.

Rigores peço soffrido,

Não clemencia, nem piedade;

Porque inutil é a vontade,

Que deixa em sua fineza

Pelos logros da belleza

Respeitos da divindade.

CONVERSA

QUE TEVE O AUCTOR EM UMA ROÇA COM A MESMA DAMA

_Brit._ Ao velho que está na roça

Que fuja ás moças direi:

_Poet._ Abofé não fugirei,

Em quanto Brites fôr moça:

_Brit._ Si lhe não fazeis já móssa,

Porque não heis de fugir?

_Poet._ Porque? porque hei de cumprir

Com a obrigação de cascar,

Dando-lhe sete ao entrar,

E quatorze ao despedir.

E já que em vosso sujeito

Ha fidalguia estirada,

Honrae-me que a que é honrada

Não perde a um velho respeito:

_Brit._ Tendes commigo máu pleito

Pelas cans que penteaes.

_Poet._ Nisso mais vos enganaes,

Que eu penteio desenganos,

Não pelo pêzo dos annos,

Pelo pezar que me daes.

Á MESMA BRITES

ARREPENDIDA DE HAVER CASADO

Vós casada e eu vingado,

Tudo o meu coração sente,

Mas a vingança presente

Mais que o aggravo passado

No aggravo já perdoado,

Pelas desculpas que daes,

Menor dor me occasionaes,

Por ser contra o meu respeito:

Que o que contra vós é feito

Força ó que me dôa mais.

Chorar vosso casamento

É sentir a minha dor:

E agora me obriga amor

Á sentir vosso tormento.

Vosso descontentamento

Do meu mal distancia encerra.

Que o meu coração não erra,

Censurando um e outro sim,

Pois de vós vai tanto á mim

Como vai do céu á terra.

A um só coração assestam

Os pezares de quem ama;

Mas os pezares da dama

A dois corações molestam:

Si duas vidas infestam

Males de que estaes sentida,

Com razão, prenda querida,

Dois prantos faço em commum,

Pela minha vida um,

E outro pela vossa vida.

Levae prudente e sagaz

Esse cargo, essa pensão,

Porque o êrro da eleição

Comsigo outros erros traz:

Si é de remedio incapaz

O êrro do casamento,

Dissimule o soffrimento

Esse êrro, porque maior

Não façam o êrro de amor

Erros do arrependimento.

Á UMA MOÇA

CHAMADA THEREZA DE CÓR TRIGUEIRA

Seres Thereza formosa,

Sendo trigueira, me espanta;

Pois tendo belleza tanta

É sôbre isso milagrosa.

Como não será espantosa,

Si o adagio me assegura,

Que quem quizer formosura

A ha de ir na alvura ver,

E vós sois linda mulher

Contra o adagio da alvura.

Mas o nosso adagio mente,

E eu lhe acho a repugnancia

De que a belleza é substancia,

E a alvura é accidente:

Si na esphera tão luzente

D’essa cara prazenteira,

O sol como por vidreira

Se duplica retratado,

Sendo vós sol duplicado

Que importa seres trigueira.

Á UMA DAMA

A QUEM O P. EM CERTA OCCASIÃO ACHOU MAIS FORMOSA DO QUE COSTUMAVA VER

Tenho por admiração,

Menina, e por cousa rara,

Que mudasseis vós de cara,

Porém não de condição:

Vendo-vos nesta occasião

De feições tão desmentida,

Mais dura e mais sacudida,

Vos julguei, porque o revele,

Qual cobra que muda a pelle,

Mas não põe emenda á vida.

Como não terá desgosto

Quem adora uma belleza,

Si sem mudar natureza,

Tão mudada está de rosto?

Para vós me dares gosto

E pagares minha fé,

O que haveis de fazer é,

Por dar-me algum galardão,

Mudares de condição:

Mas de cara para que?

Cara que já me agradára,

Por bonita e por graciosa,

Commigo é mudança nova,

Comvosco é mudança cara.

Si amor vos desenganára,

Que me parecieis bem,

Não tivereis vós por quem

Fazer esta variação,

Sendo varia na feição,

E tão firme no desdem.

Não digo, minha senhora,

Mal da vossa perfeição:

Quero Marianna de então,

E não Marianna de agora;

Que quem vos ama e adora

Tão firme e constantemente,

Quer que saiba toda a gente

Que minha alma enamorada

Não dá Marianna passada

Por Marianna presente.

Quem faz mudanças na cara,

Bem que não no coração,

Sempre deixa a presumpção

Que por pouco se mudára.

Eu a amar-vos não chegára,

Sem ter por delicto atroz

Que haja mudança entre nós;

Pois não só mudar se chama

Ires vós para outra dama,

Como de vós para vós.

Ou mudada ou não mudada,

Vos affirmo reverente

Que sois mais moça ao presente,

Para ser fructa passada.

E está tão idolatrada

De mim essa cara bella,

Que ou seja esta ou aquella,

O que agora importa é

Que deis um geito com que

Eu pobre me logre d’ella.

Á UMA DAMA ESQUIVA

Filena, eu que mal vos fiz,

Que sempre a matar-me andaes,

Uma vez quando me olhaes,

Outra quando me fugis?

Vi-vos e logo vos quiz

Tão inseparavelmente,

Que nem a vista o presente,

Nem menos sabe dizer-me

Entre o ver-vos e o render-me

Qual foi primeiro accidente.

Vós sois tão esquiva e tal,

Que outras coisas não sabendo,

Da vossa esquivança entendo

Que meu amor vos faz mal:

Não cabe em meu natural

Fugir de quem me maltracta,

E si me sahir tão barata

A vingança de adorar-vos,

Quero querer-vos e amar-vos,

Porque fiqueis mais ingrata.

Não sinto esta pena atroz

Que me fazeis padecer,

Antes folgo de morrer,

Vendo que morro por vós:

E si com passo veloz

Presinto a morte chegar,

Não sinto o ver-me acabar,

Sinto a gloria que vos cresce,

Que uma ingrata não merece

A gloria de me matar.

Vivam vossas esquivanças

E vossa crueldade viva,

Que a sem razão de uma esquiva

Acredita as esperanças.

Tudo tem certas mudanças,

Tambem se muda o rigor;

E si amor me dá valor

Para soffrer-vos e amar-vos,

Claro está que hão de mudar-vos

Firmezas do meu amor.

DANDO UMA QUEDA

Á VISTA DE UMA DAMA QUE SE ENTENDE SER A CELEBRADA BABÚ.

Filena, o ter eu cahido

Nenhum susto me tem dado,

Porque a vossos pés prostrado

Me julgo então mais subido:

Direis que fiquei sentido,

Mas sabei que não sentira,

Inda que me não subira

A cahir onde cahi,

Si como no chão me vi,

Com vosco em terra me vira.

Porém que isso me succeda,

Por mais quédas que inda dê,

Não creio, pois vejo que

Não tenho com vosco quéda.

Vossa crueza me veda

Este bem que eu tanto abraço:

Quem viu similhante passo,

Que encontre meu desvario,

Filena, em vosso desvio

A minha quéda embaraço.

Confesso que então cahido

Fiz tenção de me sangrar,

Mas não me quiz mais picar,

Porque assaz fiquei corrido.

Não andei pouco advertido,

Fallo como quem vos ama;

Porque eu sei, formosa dama,

Que por mais que me sangrasse,

Livre estou de que chegasse

A vêr-me por vós na cama.

E com toda essa desgraça

Por satisfeito me dera

Si com cahir merecêra

Siquer cahir-vos em graça:

Mas porque, Filena, faça

D’esta quéda estimação,

Inda sobeja razão,

Si a quéda motivo é

De prostar-me a vosso pé

Para beijar-vos a mão.

Dizeis que quereis tomar,

Para dar, vosso conselho:

Quereis conselho de velho?

Nunca o tomeis para o dar:

Os olhos se hão de fechar

Para o dar, e abrir da mão,

Com razão ou sem razão,

Que os negocios que se tractam,

Com conselhos que dilatam,

Nunca se conseguirão.

Si conselhos não tomaes,

Quando alvedrios rendeis,

Como conselhos quereis,

Quando alvedrios pagaes?

Sem conselho me mataes,

E daes-me a vida em conselho?

Este estylo é já tão velho

Na eschola da tyrannia,

Que da mais tyranna harpia

Podereis vós ser espelho.

JULGA

O P. COM SUBTILEZA TODA A CULPA DE ACONTECIMENTOS INIQUOS NO TEMPO

ABSTRACTO. ENTENDE-SE SER ESTA OBRA SATYRA AO GOVERNADOR ANTONIO DE

SOUSA DE MENEZES, POR ALCUNHA O BRAÇO DE PRATA

Tempo, que tudo trasfegas,

Fazendo aos pelludos calvos,

E pelos tornar mais alvos

Até os bigodes lhe esfregas:

Todas as caras congregas,

E á cada uma pões mudas;

Tudo acabas, nada ajudas:

Ao rico pões em pobreza,

Ao pobre dando riqueza,

Só para mim te não mudas.

Tu tens dado em malquerer-me,

Pois vejo que dá em faltar-te

Tempo só para mudar-te,

Si é para favorecer-me:

Por conservar-me e manter-me

No meu infeliz estado,

Até em mudar-te has faltado,

E estás tão constante agora,

Que para minha melhora

De mudanças te has mudado.

Tu que esmaltas e prateias

Tanta guedelha dourada,

E tanta face encarnada

Descoras, turbas e affeias:

Que sejas pincel não creias,

Si não dias já passados,

Mas si esmaltes prateados

Branqueam tantos cabellos,

Como branqueando pellos,

Não me branqueias cruzados?

Si corres tão apressado,

Como paraste commigo?

Corre outra vez, inimigo,

Que o teu curro é meu sangrado:

Corre para vir mudado,

Não pares por mal de um triste;

Porque si pobre me viste,

Paraste ha tantas Auroras,

Si de tão infaustas horas,

O teu relogio consiste?

O certo é, que és um caco,

Um ladrão da mocidade,

Por isso nessa cidade

Corre um tempo tão velhaco:

Farinha, assucar, tabaco

No teu tempo não se alcança;

E por tua intemperança

Te culpa o Brazil inteiro;

Porque sempre és o primeiro

Movel de qualquer mudança.

Não ha já quem te supporte,

E quem armado te vê

De fouce e relogio, crê

Que és o precursor da morte:

Vens adeante de sorte

E com tão fino artificio

Que á morte forras o officio;

Pois ao tempo de morrer,

Não tendo já que fazer,

Perde a morte o exercicio.

Si o tempo consta de dias,

Que revolve o céu opaco,

Como tu, tempo velhaco,

Constas de velhacarias?

Não temes que as carestias,

Que de ti se hão de escrever,

Te darão á aborrecer

Tanto ás futuras edades,

Que ouvindo as tuas maldades

A cara te hão de trocer.

Si porque penas me dês,

Páras cruel e inhumano,

O céu sancto e soberano

Te fará mover os pés:

Esse azul movel que vês

Te fará ser tão corrente,

Que não parando entre a gente

Preveja a Bahia inteira

Que has de correr a carreira

Com pregão de delinquente.

Á LUIZ CESAR DE MENEZES

GOVERNADOR DE ANGOLA, PEDINDO-LHE DE CARCONDA CERTO FAVOR OU DESPACHO

POR TITULOS DE COMEDIAS

Meu príncipe, d’esta vez

Espero que o plectro obre,

Ainda que para um pobre

Tudo succede al revéz:

O que tão raro me fez,

Levante-me hoje de raso,

Que é já meu timbre em tal caso

Querer por solo querer,

Porfiar hasta vencer

Los empenos de un acaso.

Tanta tragedia e inopia

Tenho em Angola soffrido,

Que em mim se vê el parecido

Del mentir de la Ethiopia:

De tal retrato e tal cópia

Foi causa um general zêlo,

Mas por divino modelo

Quem tanto me fez cahir,

Tanto me viu resurgir:

Lo que juizios del cielo!

Senhor: favores tão grandes

Nunca os poderei pagar:

Mas eu hei de vos mandar

Un valiente Negro en Flandes:

Ao senhor Vasco Fernandes,

A quem por fé tanto adoro,

Por quien a Cruz Sancta imploro,

Que lhe dê Sancta Cruz Neto,

Tambem mandar-lhe prometto

Un esclavo en grilhos de oro.

Dois negros são não pequenos,

Que offereço de antemão;

E posto que só dois são

Pocos bastan, si son buenos:

A El-rei, quando não dê menos,

Ao menos o servirei

Com muita amigavel lei,

E prometto desde aqui

Que tenha em Carconda em mi

El maior Amigo El-rei.

REDARGUE

O P. A DOUTRINA OU MAXIMA DO BEM VIVER QUE MUITOS POLITICOS SEGUEM DE

INVOLVER-SE NA CONFUSÃO DE HOMENS PERDIDOS E NESCIOS, PARA PASSAR COM

MENOS INCOMMODO ESTA HUMANA VIDA

Que nescio que eu era então

Quando cuidava o não era!

Mas o tempo, a edade, a era

Puderam mais que a razão:

Fiei-me na discrição,

E perdi-me, em que me pez,

E agora dando ao travez,

Vem no cabo á conhecer

Que o tempo veiu a fazer

O que a razão nunca fez.

O tempo me tem mostrado

Que, por me não conformar

Com o tempo e com logar,

Estou de todo arruinado:

Na politica de estado

Nunca houve principios certos,

E posto que homens expertos

Alguns documentos deram,

Tudo o que nisto escreveram

São contingentes acertos.

Muitos por vias erradas

Têm acertos mui perfeitos,

Muitos por meios direitos

Não dão sem erro as passadas:

Cousas tão disparatadas

Obra-as a sorte importuna,

Que de indignos é columna.

E si me ha de ser preciso

Lograr fortuna sem sizo,

Eu renuncio á fortuna.

Para ter por mim bons fados

Escuso discretos meios,

Que ha muitos burros sem freios

E bem afortunados:

Logo os que andara bem livrados,

Não é propria diligencia,

É o ceu e sua influencia,

São forças do fado puras,

Que põem mentidas figuras

No theatro da prudencia.

De diques de agua cercaram

Esta nossa cidadella,

Todos se molharam nella,

E todos tontos ficaram:

Eu, á quem os céus livraram

D’esta agua, fonte da asnia,

Fiquei são da fantasia

Por meu mal, pois nestes tratos

Entre tantos insensatos

Por sisudo eu só perdia.

Vinham tontos em manada,

Um simples, outro doudete,

Este me dava um moquete,

Aquell’outro uma punhada:

Tá: que sou pessoa honrada,

E um homem de entendimento,

Qual honrado ou qual talento?

Foram-me pondo num trapo,

Vi-me tornado um farrapo,

Porque um tolo fará cento.

Considerei logo então

Os baldões que padecia,

Vagarosamente um dia,

Com toda a circumspecção:

Assentei por conclusão

Ser duro de os correger,

E livrar do seu poder,

Dizendo com grande magua:

Si me não molho nesta agua,

Mal posso entre estes viver.

Eia: estamos na Bahia,

Onde agrada a adulação,

Onde a verdade é baldão,

E a virtude hypocrisia:

Sigamos esta harmonia

De tão fatua consonancia,

E inda que seja ignorancia

Seguir erros conhecidos,

Sejam-me a mim permittidos

Si em ser besta está a ganancia.

Alto pois com planta presta

Me vou ao Dique botar,

E ou me hei de nelle afogar,

Ou tambem hei de ser besta:

Do bico do pé até a testa

Lavei as carnes e os ossos:

Ei-los vêm com alvoroços

Todos para mim correndo,

Ei-los me abraçam dizendo:

«Agora sim que é dos nossos.»

Dei por besta em mais valer,

Um me serve, outro me presta,

Não sou eu de todo besta,

Pois tractei de o parecer:

Assim vim á merecer

Favores e applausos tantos

Pelos meus nescios encantos,

Que emfim e por derradeiro

Fui gallo do seu poleiro

E lhes dava os dias sanctos.

Já sou na terra bem visto,

Louvado e engrandecido,

Já passei de aborrecido

Ao auge de ser bemquisto:

Já entre os grandes me alisto,

E amigos são quantos topo:

Estou fabula de Esopo,

Vendo fallar animaes,

E fallando eu que elles mais,

Bebemos todos num copo.

Seja pois a conclusão,

Que eu me puz aqui a escrever

O que devia fazer,

Mas que tal faça, isso não:

Decrete a Divina mão,

Influam malignos fados,

Seja eu entre os desgraçados

Exemplo da desventura,

Não culpem minha cordura,

Que eu sei que são meus peccados.

DESCREVE

O RICO FEITIO DE UM CELEBRE GREGORIO DE NEGREIROS EM QUE VARIAS VEZES

FALLA, MOÇO COM QUEM GRACEJAVA COM DIVERTIMENTO NAQUELLE SITIO

ROMANCE

Eu vos retrato Gregorio,

Desde a cabeça á tamanca,

Co’ um pincel esfarrapado

Numa pobrissima tabua.

Tão pobre é nossa gadelha,

Que nem de lendias é farta,

E inda que cheia de aneis,

São aneis de piassaba.

Vossa cara é tão estreita,

Tão faminta e apertada,

Que dá inveja aos Buçacos,

E que entender ás Thebaidas.

Tende dois dedos de testa

Porque da frente á fachada

Quiz Deus e a vossa miseria

Que não chegue á pollegada.

Os olhos dois ermitães,

Que em uma lobrega estancia

Sempre fazem penitencia

Nas grutas da vossa cara.

Dois arcos quizeram ser

As sobrancelhas, mas para

Os dois arcos se acabarem

Até de pello houve falta.

Vosso pae vos amassou,

Porém com miseria tanta,

Que tremeu a natureza

Que algum membro vos faltára.

Deu-vos tão curto o nariz,

Que parece uma migalha,

E no tempo dos defluxos

Para assoar-vos não basta.

Vós devieis de ser feito

No tempo em que a lua se acha

Pobrissima já de luz,

Correndo á minguante quarta.

Pareceis homem meminho,

Como o meminho da palma,

O mais pequeno na rua,

E o mais pobresinho em casa.

Vamos aos vossos vestidos,

E peguemos na casaca,

Com tento, porque sem tento

A leva qualquer palavra.

Anda tão rota, senhor,

Que tenho por coisa clara

Que no Tribunal da Rota

De Roma está sentenciada.

A vossa grande pobreza

Para perpetua lembrança

Dedico á de Manuel Trapo,

Que foi no mundo affamada.

Á HENRIQUE DA CUNHA

CHEGANDO DO SITIO DA ITAPEMA Á CAJAHYBA

ROMANCE

Senhor Henrique da Cunha,

Vós que sois lá na Itapema

Conhecido pelo brio,

Graça, garbo, e gentileza:

Vós que aonde quer que estais

Todo o mundo se vos chega

A escutar a muita graça,

Que vos chove á bocca cheia:

Vós que partindo de casa,

Ou seja ao remo, ou á vela,

Bem que venhais sem velame,

Vindes fiado na verga:

E apenas tendes chegado

A esta Cajahyba amena,

Logo São Francisco o sabe,

Logo Apollonia se enfeita:

Logo chovem os recados,

Logo a canôa se apresta,

Logo vai, e logo encalha,

Logo a toma, volta e chega:

Logo vós a conduzis

Para a Casa das galhetas,

Onde o melado se adoça,

Onde a garapa se azeda:

Entra ella, e vós tambem,

Assenta-se, e vós com ella

E assentada lhe brindais

Á saude das parentas.

Vós: mas baste tanto vós,

Si bem que a Musa burlesca

Anda tão desentoada,

Que em vez de cantar, vozea.

Ás vossas palavras vamos,

Vamos ás vossas promessas,

Que com serem infinitas,

Não são mais que as minhas queixas.

Promettestes-me, ha dois annos,

De fazer-me aquella entrega

Da viuva de Naim,

Que hoje é gloria da Itapema.

Não me mandastes comboy,

Necessaria diligencia,

Para um triste que não sabe

Nem caminho, nem carreira.

Tão penoso desde então

Fiquei com tamanha perda,

Que ou a pena ha de acabar-me,

Ou ha de acabar-se a pena.

Mas inda fio e confio

Na Senhora Dona Tecla

Que nas dez varas de hollanda

Hei de amortalhar a peça.

Disse amortalhar, mal disse,

Melhor resurgir dissera,

Que em capello tal resurge

A mais defuncta potencia.

Vós me tirastes o ganho:

Sois meu amigo, paciencia;

Por isso diz o rifão

Que o maior amigo apega.

Só vós soubestes logra-la,

Que sois com summa destreza

Grande jogador de gorra,

Pela branca e pela negra.

Jogais a negra e a branca,

E tudo na eschola mesma,

Bem haja escrava e senhora,

Que uma de outra se não zela.

Esta é a queixa passada,

Porém a presente queixa

É que a todos os amigos

Mandastes mimos da Terra.

A uns peças de piassabas,

A outros fizeste a peça,

E eu já essa peça tomára,

Por ter de vós uma prenda.

Enviar-me alguma cousa,

Mais que seja um pau de lenha,

Terei um pau para os caens,

Que é o que ha na nossa terra.

Lembre-vos vosso compadre,

Que o tal Duarte de Almeida

Co’ a obra parou, emquanto

A piassaba não chega.

Mandae-me uma melancia,

Que ainda que é fruita velha,

Não importa o ser passada,

Como de presente venha.

Mandae-me um par de tipoyas,

Das que se fazem na Terra,

A dois cruzados cada uma,

Que eu mandarei a moeda.

Mandae-m’as sem zombaria,

Que eu vo-las peço de veras,

Porque não peço de graça

Quanto a dinheiro se venda.

Mandae-me boas novas vossas,

E em que vos sirva e obedeça,

Que como vosso captivo

Irei por mar e por terra.

Mandae-me novas da mãe,

Das filhas muitas novellas,

Pois em faze-las excedem

Cervantes e outros poetas.

E perdoae disparates

De quem tanto vos venera,

Que por em tudo imitar-vos

Vos quer seguir na pespega.

PEDINDO-SE

A SOLTURA DE UM MULATO Á SEU SENHOR

Não estamos nos Ilheos,

Que é terra de meus peccados,

Mas estamos melhorados

Aqui na Madre de Deus:

E si aquelles tabaréus

Por vossa mesma verdade

Dão tão geral liberdade

Aos delinquentes da terra,

Vós c’o peccador que erra

Como usaes tal crueldade?

Um castigo tão tyranno,

Uma prisão tão severa,

Satisfaria a uma fera,

E eu cuidei que ereis humano:

Ha pouco menos de um anno

Que está esse peccador

Purgando com grande dor,

E com trabalho infinito,

Á principio o seu delicto,

E agora o de seu senhor.

E si na festividade

D’aquelle martyr frechado

Se dá á todo o culpado

Remissão e liberdade,

De Deus na Natividade,

Á que já de agora assisto,

Muito mais logar tem isto,

E com tanta mais razão

Quanto vai por medição

De São Sebastião á Christo.

Nós os abaixo assignados

Pedimos com humildade,

Ou fundados na piedade,

Ou na amizade fiados,

Que d’esses grilhões malvados

Por seu duro e infame tracto,

Solteis o prêzo malato,

Porque tem bons fiadores

Nestes vossos servidores,

De que ha de ser bom mulato.

Á ANTONIA

MOÇA PARDA DE PERNAMIRIM CHAMADA VULGARMENTE CATONA

Que pouco sabe de amor

Quem viu, formosa Catona,

Que ha nessa celeste zona

Astro ou luminar maior.

Tambem a violeta é flor,

E mais é negra a violeta,

E si bem póde um poeta

Uma flor negra estimar,

Tambem eu posso adorar

Nos céus um pardo planeta.

Catona é moça luzida,

Que á pouco custo se asseia,

Entende-se como feia,

Mas é formosa entendida:

Escuza-se commedida,

E ajusta-se envergonhada,

Não é tão desapegada

Que negue á uma alma esperança,

Porque emquanto a não alcança,

Não morra desesperada.

Piza airoso e compassado,

Sabe-se airosa mover,

Calça que é folgar de ver,

E mais anda a pé folgado:

Conversa bem sem cuidado,

Ri sizuda na occasião,

Escuta com attenção,

Responde com seu desdem,

E inda assim responde bem,

E bemquista a sem razão.

É parda de tal talento,

Que a mais branca e a mais bella,

Podéra trocar com ella

A côr pelo entendimento

A um prodigio, um portento;

E si vos espanta ver,

Que adrêde me ando a perder;

Dá-me por desculpa amor,

Que é femea trajada em flor,

E sol mentido em mulher.

Á MESMA CATONA

DESPEDINDO-SE O AUCTOR DE PERNAMIRIM PARA A VILLA DE S. FRANCISCO

Não vos pude merecer,

Pois vos não pude agradar,

Mas eu hei de me vingar,

Catona, em mais vos querer;

Vós sempre á me aborrecer

Com odio mortal e atroz,

E eu a seguir-vos veloz,

Si sois veremos emfim

Mais firme em fugir-me a mim,

Que eu em seguir-vos á vós.

Quizera vos persuadir,

Porque vos saibaes haver,

Que sou mais firme em querer,

Que vós ligeira em fugir:

Eu não hei de desistir

D’esta minha pretenção,

Quer vós o approveis, quer não,

Porque vêr me importaria

Si talvez faz a porfia

O que não fez a razão.

Mil vezes o tempo faz

O que á razão não conveio,

Metterei pois tempo em meio,

Porque elle nos metta em paz:

Vós estaes muito tenaz

Em dar-me um e outro não,

E eu, levado da affeição,

Espero tempo melhor,

Onde o que não obra amor

Vença o tempo, obre a razão.

Catona, a minha esperança

Me dá por conselho são,

Que espere, porque o rifão

Diz que quem espera alcança:

Tudo tem certa mudança,

O bem males ameaça,

O mal para bem se passa,

Que como a fortuna joga,

O braço que hoje me affoga,

Talvez amanhã me abraça.

Á ANNICA

UMA MULATA DA CAJAHYBA

Annica, o que me quereis,

Que tanto me enfeitiçaes,

Uma vez quando cantaes,

E outra quando appareceis?

Si por matar-me o fazeis,

Fazei esse crime atroz

De matar-me sós por sós,

Para que eu tenha o soccorro,

Que vendo que por vós morro,

Viva de morrer por vós.

Matar-me eu o soffrerei,

Mas soffrei tambem chegar-me,

Que ter asco de matar-me

Jámais o consentirei:

Fugir e matar não sei,

Anna, como o conseguis?

Mas si a minha sorte o quiz

E vós, Anna, o intentaes,

Não podeis matar-me mais

Do que quando me fugis.

Chegae e matar-me já:

Não chegando estou já morto;

Coisa que se me tem absorto,

Matar-me quem não me dá:

Chegae, Anna, para cá,

Para dar-me essa ferida,

Porque fugir de corrida

E matar-me d’essa sorte,

Si o vejo na minha morte,

O não vi na minha vida.

Não sei que pós foram estes

Que na alma me derramastes?

Não sei com que me matastes?

Não sei o que me fizestes?

Sei que aqui me apparecestes,

E vendo-vos com antolhos,

Topei com tantos abrolhos

Na vossa dura conquista,

Que me tirastes a vista

E me quebrastes os olhos.

Á UMA MULATA

DE PERNAMIRIM CHAMADA LUZIA

Parti o bolo, Luzia,

Que a mim mesmo me acommoda:

Não deis a fatia toda,

Dae-me parte da fatia:

Quem pede como eu pedia,

Pede tudo o que lhe importa

E acceita o que se lhe corta,

E quem dá com manha e arte

Seus dados sempre reparte,

Si tem mais pobres á porta.

Não é bem que tudo eu cobre,

E é bem que um pouco me deis;

Dae-me um pouco e alegrar-me-heis:

Com pouco se alegra o pobre;

Não deis coisa que me sóbre,

Dai-me siquer um bocado;

Mas o que vos persuado

Que deis com manha e com arte,

Dando vós e de tal parte,

Sempre será grande o dado.

Si á todos cinco sentidos

Não tendes coisa que dar,

Dae ao de vêr e apalpar,

Os dois sejam preferidos:

Não deis que ouvir aos ouvidos,

Mas dae aos olhos que vêr

E ao tacto em que se entreter;

Deitemos á bom partir

Os dois sentidos a rir

E os demais a padecer

As mãos folgam de apalpar,

Os olhos folgam de vêr,

Os dois logrem seu prazer,

Os tres sintam seu pezar:

Que depois que isto lograr,

Virá o mais por seu pé,

Que inda que ninguem me dê,

Nem eu o tome á ninguem,

Morrerá vosso desdem

Ás forças de minha fé.

A ANTONIA

MOÇA PARDA, CHAMADA A MARIMBONDA, QUE MORAVA NA RUA DA POEIRA, E A VIU

O P. NO CAMPO DA PALMA DEBAIXO DE UMA URUPEMBA EM CASA DE UMA AMIGA.

ALLUDE AO REMEDIO SYMPATHICO DE SE QUEIMAR A CASA DOS MARIMBONDOS, PARA

SE EXTINGUIR LOGO A DÓR DAS SUAS PICADAS

Fui hoje ao Campo da Palma,

Onde com subito estrondo

Me investiu um marimbondo,

Que me picou dentro da alma:

Era já passada a calma,

E eu me sentia encalmado,

Corrido e injuriado,

Porque sendo obrigação

Metter-lhe eu o meu ferrão,

Eu fui o que vim picado.

Fiz por fecha-lo na mão,

Mas o marimbondo azedo

Me picava em qualquer dedo

E escapava por então:

Desesperada funcção

Foi esta, pois me fui pondo

Tão abolhado em redondo

Por cara, peito e vasios,

Que estou com febres e frios

Morrendo do marimbondo.

Dizem que a vingança está

Em lhe saber eu da casa,

Porque deixando-lh’a em braza,

Um fogo outro abrandará:

Mas temo não arderá,

Por mais que toda uma matta

Lhe applique com mão ingrata,

Porque o que eu lhe hei de pôr

Ha de ser fogo de amor,

Que inda que abraza, não mata.

Nesta afflicção tão penosa

D’onde me virá o soccorro?

Morrerei, pois por quem morro,

Morro uma morte formosa:

Esta dôr tão tormentosa

Me levará de maneira,

Que, ou ella queira ou não queira,

Em chegando á sua rua,

Si acaso se mostrar crua,

Tudo irá numa poeira.

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I · 第 10 / 11 段