SAUDOSO

DE PERNAMIRIM, E POR OCCASIÃO DE HAVER VISTO NA VILLA DE S. FRANCISCO,

ONDE ESTAVA, UM MOLEQUE CHAMADO MOÇORONGO, ESCREVE A UM AMIGO D’AQUELLE

SITIO

ROMANCE

Veiu aqui o Moçorongo

Tão occulto e escondido,

Que não sei si o tenha a elle,

Si a vós por meu inimigo.

Chegou terça feira á tarde,

Metteu-se em casa de Chico,

Passou a tarde e a noite,

E o peior é que dormindo.

Porque havia de dormir

O Moçorongo maldicto,

Sabendo que estava eu

Desvelado e affligido?

Amanheceu quarta feira,

Chegou o nosso Arcebispo,

Gastou-se toda a manhã

Com visitas e visitos.

Deu meio dia, e fui eu

Para casa dos amigos

Esfaimado como um cão,

E como um lobo faminto.

Quando o cão do Moçorongo

Sahiu do seu escondrijo,

E sem lhe occorrer o encontro

Deu de focinhos commigo.

Alegrei-me, e enfadei-me,

Que ha casos em que é preciso

Que se mostre ao mesmo tempo

Alegre um peito e mofino.

Amofinou-me a traição

Com que elle esteve escondido,

E alegrei-me de encontrar

Com gente d’esse districto.

Perguntei logo por vós,

Por Ignacio e Antonico,

Por Luzia e por Catona,

E mais gente d’esse sitio.

Todos estão com saude,

Me disse o crioulo esquivo,

Um tanto triste da cara,

Pouco alegre do focinho.

Mas eu fiz-lhe muita festa,

Assim por ser seu amigo,

Como por ser cousa vossa,

E neste pasto nascido.

Perguntei si me escreveras,

Zombou d’isso, e deu-me um trinco

Zombou com cara risonha,

Trincou com dedo tangido.

D’isto formo a minha queixa,

D’isto fico mui sentido,

Pois sei que tendes papel,

Tinteiro, penna e juizo.

Mais andar lá nos veremos,

E vereis que de sentido

Vos hei de estrugir a vozes,

E me hei de espojar a gritos.

Meus recados a Luzia,

E que estou já de caminho,

Porque só ella me farta,

E á fome aqui me entizico.

ESCREVE

TAMBEM QUEIXOSO A SEU AMIGO IGNACIO, MORADOR EM PERNAMIRIM, EM QUEM

FALLA NO ROMANCE ANTECEDENTE.

ROMANCE

Senhor Ignacio, é possivel

Que quizestes desdizer

D’aquella boa opinião

Que eu tinha na vossa fé?

É possivel que um amigo,

De que tanto confiei,

Nem por escripto me falla,

Nem em pessoa me vê?

É possivel que uma ausencia

Tanta potestade tem,

Que ao vivo morto reputa

No que toca ao bem querer?

Si isto em vós a ausencia faz,

Como em meu peito o não fez?

Não sois vós o meu ausente,

Que em meu peito viveis?

O certo é, meu amigo,

Disse amigo, mas errei,

Que não sois amigo já,

Sois o meu socio talvez.

Fostes socio nos caminhos

D’aquella terra infiel,

Onde Luzia traidora,

E Catona descortez,

Me privaram dos sentidos,

E me deixaram crueis

O corpo uma chaga viva

A golpes de seus desdens.

Mas eu me não queixo d’ellas,

Que de nenhuma mulher,

Má ou boa, ha de queixar-se

Homem que juizo tem.

Queixo-mo de vosso tio,

Que se foi por me empecer

Esta terceira jornada

Para acabar o entremez.

Praza a Deus que ache Simoa,

A quem amante foi ver,

Como ha de achar Antonica

Farta de xesmininez.

D’aquella Antonica fallo,

Que pôz no negro poder

Das Quitas, para que a guardem,

E a guardarem ao revez.

Que a Silvestre a entregaram,

O qual, como vós sabeis,

Apezar dos dias sanctos

Lhe deu tanto que fazer.

Mas pois em Pernamirim,

E em suas cousas toquei,

Neste mesmo assumpto quero

Me façais uma mercê.

Dizei-me si está o Antonio

Recolhido a seu vergel,

Onde era geral Adão

Das Evas que Deus lhe deu.

E si acaso tiver vindo,

Vos peço que lhe mandeis

Este romance fechado

Em um molhado papel.

Porque no molhado veja

O chôro com que lancei

Estes versinhos tão tristes

Por amar e querer bem,

A elle, que me fugiu

D’esta casa, ha mais de um mez,

E á Catona que o imita

No esquivo e no infiel.

E com isto, e outro tanto

Que me fica por dizer,

Adeus, até que tenhais

Quem vos traga a meu vergel.

Á ANTONIO DE ANDRADE

SENDO DESPENSEIRO DA MISERICORDIA

Senhor Antonio de Andrade,

Não sei si vos gabe mais

As franquezas naturaes,

Ou si a christã charidade:

Toda esta nossa Irmandade,

Que á pasmos emmudeceis,

Vendo as obras que fazeis,

Não sabe decidir não

Si egualaes o amor de irmão,

Ou si de pae o excedeis.

Ou, senhor, vós sois parente

De toda esta enfermaria,

Ou vos vem por recta via

Ser pae de todo o doente:

Quem vos vê tão diligente,

Tão caritativo e tão

Inclinado á compaixão,

Dirá de absorto e pasmado,

Que entretanto mal curado,

Só vós fostes homem são.

Aquella mesma piedade,

A que vos move um doente,

Vos mostra evidentemente

Homem são na qualidade:

De qualquer enfermidade

São aphorismos não vãos,

Que enfermarão mil irmãos:

Mas si o contrario se alude

Somente a vossa saude

Foi contagio de mil sãos.

Quem não sarou d’esta vez

Fica muito temeroso,

Que lhe ha de ser mui penoso

Acabar-se-vos o mez:

Ninguem jámais isto fez,

Nem é coisa contingente

O ficar toda esta gente

Com perigo tão atroz,

Que se acabe o mez á vós

Para mal de outro doente.

AO CAPITÃO

JOÃO RODRIGUES DOS REIS, HOMEM GENEROSO E ALENTADO, GRANDE AMIGO DO P.

Meu capitão dos Infantes,

Que por vossas boas artes,

Sois homem de muitas partes,

Nascendo só em Abrantes:

Por vossos ditos galantes,

Discretos e cortezãos,

E por largueza de mãos

Á todos nos pareceis

Não sómente João dos Reis,

Si não o rei dos Joãos.

O principe, que de juro

Senhorêa os corações,

Como lá disse Camões,

Que sois vós o conjecturo:

Tanto nisto me asseguro,

Que em ver como procedeis,

Presumo que descendeis

De algum principe de França,

D’onde tendes por herança

Esse appellido dos Reis.

A boa arte de reinar

Em um coração rendido,

A não serdes vós nascido,

Não se pudera imitar:

Vós não podeis ensinar

Com paridades e apodos

Os bons meios e os bons modos,

Com que todo o mundo embaça,

Porque sempre estaes de graça,

Por fazer-nos graça á todos.

O generoso da mão,

O coração varonil,

Onde vos cabe o Brazil,

E sobeja coração:

Com pobres a compaixão,

Com ricos o liberal,

Na amizade tão leal,

Na palavra tão massiço,

Para mim tudo é feitiço,

Sendo tudo natural.

DESPEDE-SE

O P. DA BAHIA QUANDO FOI DEGRADADO PARA ANGOLA

Adeus, praia; adeus, cidade,

E agora me deverás,

Velhaca, dar eu a Deus

A quem devo ao demo dar.

Quero agora que me devas

Dar-te a Deus, como quem cahe,

Sendo que estás tão cahida,

Que nem Deus te quererá:

Adeus, povo; adeus, Bahia,

Digo canalha infernal,

E não fallo na nobreza,

Tabula era que se não dá.

Porque o nobre emfim é nobre,

Quem honra tem, honra dá,

Picaros dão picardias,

E ainda lhes fica que dar

E tu, cidade, és tão vil,

Que o que em ti quizer campar

Não tem mais do que metter-se

A magano, e campará.

Seja ladrão descoberto,

E qual aguia imperial

Tenha na unha o rapante,

E na vista o prespicaz.

A uns compre, a outros venda,

Que eu lhe seguro o medrar,

Seja velhaco notorio,

E tramoeiro fatal.

Compre tudo e pague nada,

Deva aqui, deva acolá,

Perca o pejo e a vergonha,

E si casar case mal.

Porfiar em ser fidalgo,

Que com tanto se achará:

Si tiver mulher formosa,

Gabe-a por esses poiaes;

De virtuosa talvez,

E de entendida outro tal;

Introduza-se ao burlesco

Nas casas onde se achar.

Que ha donzellas de belisco,

E aos punhos se gastára,

Tracte-lhes um galanteio,

E um....., que é o principal.

Arrime-se a um poderoso,

Que lhe alimente o gargaz,

Que ha pagadores na terra

Tão duros como no mar

A estes faça alguns mandados

A titulo de agradar,

E conserve o affectuoso

Confessando desegual.

Intime-lhe a fidalguia,

Que eu creio que lh’o crerá,

E que fique ella por ella

Quando lhe ouvir outro tal.

Vá visitar os amigos

No engenho de cada qual,

E comendo-os por um pé

Nunca tire o pé de lá.

Que os Brazileiros são bestas,

E estarão a trabalhar

Toda a vida, por manterem

Maganos de Portugal.

Como se vir homem rico,

Tenha cuidado em guardar,

Que aqui honram os mofinos,

E mofam dos liberaes.

No Brazil a fidalguia

No bom sangue nunca está,

Nem no bom procedimento:

Pois logo em que póde estar?

Consiste em muito dinheiro,

E consiste em o guardar,

Cada um a guardar bem,

Para ter que gastar mal.

Consiste em da-lo a maganos

Que o saibam lisongear,

Dizendo que é descendente

Da casa de Villa Real.

Si guardar o seu dinheiro,

Onde quizer casará,

Que os sogros não querem homens,

Querem caixas de guardar.

Não coma o genro, nem vista,

Que esse é genro universal,

Todos o querem por genro,

Genro de todos será.

Oh! assolada veja eu

Cidade tão suja e tal,

Avesso de todo o mundo,

Só direita em se entortar.

Terra, que não se parece

Neste mappa universal

Com outra; e ou são ruins todas,

Ou ella sómente é má.

FIM DO TOMO PRIMEIRO

INDICE DO TOMO I

Introducção V

Vida do dr. Gregorio de Mattos Guerra pelo licenceado

Manuel Pereira Rebello 1

Aos vicios: tercetos 41

Benze-se o P. de varias acções que observava na sua

patria 45

Reprovações 48

Verdades 53

Justiça que faz o P. na honra hypocrita pelos estragos

que anda fazendo na verdadeira honra 67

Dialogo entre o Demonio e a Alma 73

Contra os ingratos murmuradores do bem que actualmente

recebem da mãe universal, que os affaga, se

queixa a Bahia, confessando-se das culpas, que lhe

dão, pelos preceitos do Decalogo 77

Á gente da Bahia 100

Observações criticas sobre varias materias por occasião

do cometa apparecido em 1680 109

A fome que houve na Bahia no anno de 1691 116

Retrato do governador Antonio Luiz da Camara Coutinho 120

Milagres do Brazil. Ao padre Lourenço Ribeiro, homem

pardo, que foi vigario da freguezia de Passé 126

A um homem humilde que se metteu a fidalgo 130

A uma briga que teve certo vigario com um ourives

por causa de uma mulata 134

A prisão de duas mulatas por uma querella que d’ellas

deu o celebre capitão Domingos Cardoso, de alcunha

o Mangará, pelo furto de um papagaio 138

Epigramma sobre varios assumptos 141

Descreve o P. racional e verdadeiramente queixoso os

extravagantes meios com que os extranhos dominam

indignamente sobre os naturaes na sua patria 144

Retrato do governador Antonio de Sousa de Menezes,

chamado o Braço de Prata: sylva 154

Ao confessor do arcebispo d. frei João da Madre de

Deus 159

Em 1686 diminuiram aquelle valor a que se havia

erguido a moeda quando o P. estava na côrte, onde

então com seu alto juizo sentiu mal do arbitrista

que assim o aconselhára a el-rei, & 164

Retrato do padre Damaso da Silva 168

Marinicolas 172

Ao Braço Forte, estando preso por ordem do governador

Braço de Prata 180

Á D. João de Alencastre, que vindo do governo de

Angola por escala a Bahia, e estando nella hospede

do governador Antonio Luiz Gonçalves da Camara

Coutinho, seu cunhado, em cujo desagrado se

achava o P., se queixou de que este o não houvesse

visitado, pedindo-lhe que ao menos lhe fizesse

uma satyra por obsequio 185

Á João Gonçalves da Camara Coutinho, filho do dito

governador Antonio Luiz Gonçalves da Camara,

tomando posse de uma Companhia de infantes em

dia de S. João Baptista, assistindo-lhe de sargento

seu tio dom João de Alencastre 188

Á Pedro Alvres da Neiva, quando embarcou para Portugal:

romance 191

No Boqueirão de S. Antonio do Carmo, dentro de uma

peça de artilharia descavalgada esteve muitos dias

uma cobra surucucú assaltando aos que passavam

com morte de varias pessoas, sendo governador

Antonio Luiz Gonçalves da Camara Coutinho

(é este o assumpto da poesia): romance 197

Á Brites, uma parda dama, vulgarmente chamada

Betica, pedindo-lhe cem mil réis: romance 200

Á Annica, outra similhante parda, pedindo-lhe um cruzado

para pagar uns sapatos: romance 204

Á umas moças que costumavam ir a uma roça: romance 207

Á mulata Joanna Gafeira, estando queixosa do P. a

haver satyrisado 209

Á Damazia, outra mulata que chamava seu um vestido

que trazia de sua senhora: romance 212

Á uma dama por nome Ignacia Paredes: romance 215

Á uma moça por nome Barbara: romance 219

Satyrisa allegoricamente a varios ladrões da republica:

romance 223

Ao padre Damaso da Silva: romance 232

Á Bento Pereira: romance 237

Aos cavalleiros que correram na Festa das Virgens no

anno de 1685, primeiro do govêrno do marquez das

Minas 239

Á cavallaria da Festa das Virgens no tempo do governo

de João de Alencastre, sendo juiz Gonçalo Ravasco

Cavalcante de Albuquerque 249

Chegando o marquez das Minas a governar o Estado

com o conde do Prado, seu filho, tractou logo de

alliviar os magnates da Bahia, chamando-os do

desterro em que padeciam, amedrontados do seu

antecessor pela morte que outros deram ao alcaide

mór Francisco Telles, e por acção de graças lhe fez

o secretario de Estado Bernardo Vieira Ravasco

esta decima, que o P. glozou com os primeiros

costumados metaphoricamente 264

Á uns clerigos, que indo ao exame do cantochão para

ordens sacras na presença do arcebispo d. João

Franco de Oliveira, desafinaram perturbados 270

Epistola ao conde do Prado: romance 273

Á tres freiras do Convento da Rosa, todas irmãs, a

quem ouviu o auctor cantar, e a uma tanger rabecão 277

Á duas moças pardas 280

Á sogra de Gonçalo Dias, mandando-lhes uns sonhos 283

Á Brites, uma dama pretendida de muitos e de nenhum

lograda 286

Conversa que teve o auctor em uma roça com a mesma

dama 289

Á mesma Brites, arrependida de haver casado 291

Á uma moça chamada Thereza, de côr trigueira 294

Á uma dama a quem o P. em certa occasião achou

mais formosa do que costumava ver 296

Á uma dama esquiva 299

Dando uma que da á vista de uma dama, que se entende

ser a celebrada Babú 302

Julga o P. com subtileza a culpa de acontecimentos

iniquos no tempo abstracto. Entende-se ser esta

obra satyra ao governador Antonio de Sousa de

Menezes, por alcunha o Braço de Prata 305

Á Luiz Cesar de Menezes, governador de Angola, pedindo-lhe

de Carconda certo favor ou despacho

por titulos de comedias 309

Redargue o P. a doutrina ou maxima do bem viver

que muitos politicos seguem de involver-se na

confusão de homens perdidos o nescios, para passarem

com menos incommodo esta humana vida 312

Descreve o rico feitio de um celebre Gregorio de Negreiros,

em que varias vezes falla, moço com quem

gracejava com divertimento naquelle sitio 318

Á Henrique da Cunha, chegando do sitio da Itapema

á Cajahyba 321

Pedindo-se a soltura de um mulato á seu senhor 326

Á Antonia, moça parda de Pernamirim chamada vulgarmente

Catona 329

Á mesma Catona, despedindo-se o auctor de Pernamirim

para a villa de S. Francisco 332

Á Annica, uma mulata da Cajahyba 335

Á uma mulata de Pernamirim chamada Luzia 338

Á Antonia, moça parda, chamada a Marimbonda, que

morava na rua da Poeira, e a viu o P. no Campo

da Palma debaixo de uma urupemba em casa de

uma amiga. Allude ao remedio sympathico de se

queimar a casa dos marimbondos, para se extinguir

logo a dôr das suas picadas 341

Saudoso de Pernamirim e por occasião de haver visto

na villa de S. Francisco, onde estava, um moleque

chamado Moçorongo, escreve a um amigo d’aquelle

sitio: romance 344

Escreve tambem queixoso a um seu amigo Ignacio, morador

em Pernamirim, em quem falla no romance

antecedente: romance 347

Á Antonio de Andrade, sendo dispenseiro da Misericordia 351

Ao capitão João Rodrigues dos Reis, homem generoso

e alentado, grande amigo do P. 354

Despede-se o P. da Bahia quando foi degradado para

Angola 357

Obras poeticas de Gregorio de Mattos Guerra - Tomo I · 第 11 / 11 段