O fez tão perfeitamente,
Que sendo em sangue parente,
Era na destreza irmão:
Pelo forte em conclusão
Deixou de si tal memoria,
Para sua e nossa gloria;
Mas deixando aos mais em calma,
Fez pouco em levar a palma
Quem é filho da Victoria.
Do Bolatim a cavallo
Dizia o povo gostoso
Que era da festa o gracioso,
E eu digo, que era o badalo,
Quem chegou á pondera-lo
Correndo sobre a rocina,
Revirar a culatrina,
Pernil aberto para o ar,
A que o póde acommodar
Mais que a um sino que se empina.
Ao Araujo famoso
No principio da carreira
Resveiou-lhe a dianteira
O cavallo de furioso;
Cego, arrojado e fogoso
Entre uns Baetas metteu-se,
Quem sentado estava ergueu-se,
Porém o baixel violento,
Como ia arrazado em vento
Deu nuns bancos e perdeu-se.
Cahido o moço infeliz
Houve grita e alarido,
Sendo que cabe o entendido
Em tudo o que se lhe diz;
Ergueu-se em menos de um triz,
E pondo-se na vereda
Correu com cara tão leda,
Que causou admiração
Em todos, porque já então
Tinha elle com todos queda.
Um sobrinho do Frizão
Ao cheiro acudiu dos patos,
Porque é em publicos actos
Muito ouzado um patifão;
Prezea a redea a um arpão,
Nos estribos dous arpeus,
Puz eu os olhos nos céus,
E disse que bem podiam
Louvar a Deus os que viam
A cavallo um louva-Deus.
Uma aguilhada por lança
Trabalhava á meio trote,
Qual servo de dom Quixote,
A quem chamam Sancho Pança;
Na cara infame confiança,
Na sella infame perneta,
E com tramoia secreta
Eia sôbre o seu jumento
Pelo arreio e nascimento
Á bastarda e á gineta.
Elle andou tão desastrado,
Que para dar-lhe sentido,
O cavallo era o corrido
E elle o desavergonhado;
Estava o Frizão pasmado
De gosto babando o freio,
Por ser de razão alheio
Vêr-se com tão pouco abalo
Não no centeio o cavallo,
Mas no cavallo o centeio.
A este filho universal,
Com tres paes e tres padrastos,
Todo vestido de emplastos
Se emprestado o mesmo val;
Se seguia um sigarral,
De quem tomaram modelos
Para a corcova os camellos
Cuja perna dobradiça
Sempre a memoria me atiça
Da rua dos Cotovellos.
No menino Ascanio fallo,
Que o pae Eneas a murro,
Devendo de o pôr num burro,
O mandou pôr a cavallo;
Este menino ia ao gallo,
E encontrou-se co’a galhofa,
Onde servira de mofa
Os dias, que alli gastára,
Si um braço lhe não quebrára,
E mandaram numa alcofa.
Lá vem o Chico ás carreiras,
Dando esporadas crueis;
Numa sella de alambeis,
Vestido de bananeiras;
Nas laranjadas primeiras
Teve tão adversa estrella
Que foi cahir na esparrella,
Não como rôla em verdade,
Porque queda foi de frade,
Pois logo agarrou da sella.
Ás festas não deu desmaio
Nenhum d’estes entremezes,
Que não ha ouro sem fezes,
Nem comedia sem lacaio:
Qualquer correu como um raio,
E fez sua obrigação,
Excepto o boi do sertão,
Sendo que alguem lhe cubiça
O resistir á justiça,
E dar co’ a forca no chão.
O lindo Eusebio da Costa,
Escrivão das Onze mil,
Por assombrar o Brazil,
Fez tudo de sobre a posta;
C’os passados deu á costa,
E excedeu á toda a lei,
E assim eu sempre direi
Hoje, em toda a occasião,
Que o ser por casta Reimão,
Lhe vem por ter mão de Rei.
Á CAVALLARIA
DA FESTA DAS VIRGENS NO TEMPO DO GOVERNO DE D. JOÃO DE ALENCASTRE,
SENDO JUIZ GONÇALO RAVASCO CAVALCANTE DE ALBUQUERQUE
Foi das Onze mil donzellas
Juiz o juiz mais nobre
De quantos no Brazil cobre
O manto azul das estrellas:
Nesta festa sem cautellas
Gastou com liberal mão;
E para mais devoção
Usar de escrivão não quiz,
Sendo o primeiro juiz
Que serviu sem escrivão.
Bem mostra que de Bernardo
Tem herdado o natural,
Além de ser principal
O seu amigo galhardo:
Applausos grandes aguardo,
E de Camena melhor,
Que publiquem seu primor,
Que a minha Thalia nova
Hoje admirações approva
Por mais heroico louvor
Seis dias de cavalleiros
Houve com bastante graça,
Foram bons e maus á Praça
Em ginetes e sendeiros:
Tambem houve aventureiros
Premios e mantenedor,
Touros que foi o melhor:
Porém sem ferocidade,
Que os touros nesta cidade
Não são de muito furor
E pois eu chronista sou
D’esta gran festividade,
Tenho de fallar verdade
E dizer o que passou:
Agaste-se quem andou
Mal, que á mim se me não dá;
Sem saber não fôra lá;
E si lhe der isto espanto,
Quando eu fizer outro tanto
Tambem de mim fallará.
Bem sei que é culpa fatal,
E contra a razão sossobra
Dizer mal de quem bem obra,
E bem de quem obra mal:
Mas nesta festa cabal
Com meu fraco entendimento,
Aos cavalleiros intento
Julgar sem odio nenhum,
Applaudindo á cada um
Conforme o merecimento.
Nestes dias festivaes
Com summa gala e grandeza,
Assistiu toda a nobreza
Dos homens mais principaes,
Ministros, officiaes
De guerra e damas mui bellas,
Que em palanques e janellas
Mostravam com arrebol,
Que estando alli posto o sol,[5]
Bem podiam ser estrellas.
[5] Refere-se ao governador.
Posto o sol alli se via,
Porém com notavel gosto,
Quando vi que era o sol posto
Mais o Terreiro luzia:
Dois soes[6] postos na Bahia
Vi com differença atroz
Um Saturno que se poz,
Outro posto na janella
Sol de luz mais clara e bella,
Que hoje nasce para nós.
[6] Allude aos dois governadores d. J. de Aloncastre e Camara Coutinho,
que se achavam presentes.
Desterrando sombras mil
De um sol que causou desmaios,
Nasce com benignos raios
Este sol para o Brazil:
Oh quem tivera a subtil
De Apollo lyra discreta,
Da fama a aguda trombeta,
Para que pudesse ousado,
Sem temor, nem perturbado
Descrever este planeta.
Mas é fraco o meu engenho
Para de um sol sem desmaios
Querer ventilar os raios
Quando olhos de aguia não tenho:
E si a tão sublime empenho,
Onde o mais sabio delira,
Meu pensamento subira,
Logo d’essa esphera clara
Como Phaetonte rodára,
Ou como Icaro cahira.
Quando o planeta maior
Á vista humana se expõe,
É que a seus raios se oppõe
Atrevido algum vapor:
E si neste sol melhor
Nenhuns eclypses se vêm,
Não se atreverá ninguem
Sem ter de nescio desmaios
Querer contemplar os raios
Esclarecidos que tem.
Quando da esteril mulher
Nasceu o maior do mundo
Admirações e profundo
Pasmo veiu a gente a ter:
E si com João nascer
Houve tanta admiração,
Á Bahia outro João,
Sol de claro nascimento
Nasce com merecimento
Para a mesma suspensão.
E como não pasmarei
Eu, e este povo tambem,
De ter por General, quem
Sceptro merece de rei?
Pois a ventura e a lei
Divina dispoz, senhor,
O seres Governador,
Com tudo sabemos nós,
Que um foi de vossos avós
De Pedro progenitor.
D’aquelle em tudo primeiro
João era nada segundo
Sois, e bem conhece o mundo,
Descendente verdadeiro:
Tambem da Casa de Aveiro
Muita nobreza alcançaes:
Alencastre vos chamaes,
De Duarte Inglez potente
Clarissimo descendente:
Silva sois, não digo mais.
Com branca e encarnada pluma
Galan vestido de verde,
Que inda a esperança não perde
Do Neto da clara espuma:
Capitão de graça summa
André Cavallo sahiu:
Logo o povo se sentiu;
Porque de incidente novo
Os olhos levou do povo
Quando no Terreiro o viu.
Num branco bruto corria
Mais ligeiro do que o vento,
Tanto que c’o pensamento
Correr parelhas podia:
Veloz desapparecia
Das pernas ao leve abalo,
E não podia julga-lo
O povo que alli se achava,
Si era vento que levava
Pelos ares o Cavallo.
Poz André com bizarria
Todas as lanças mui bem,
E inda assim não faltou quem
Murmurasse todavia.
Soube elle da zombaria,
Que se fez e presentiu
Quem fôra o que alli se riu,
E no outro dia com brio
Um cartel de desafio
Fixou, mas ninguem sahiu.
No cartel que poz, mostrava
Que a qualquer que se julgassem
Tres lanças que se tirassem,
Mil cruzados offertava:
O delinquente acceitava
O desafio esta vez,
Porém que sem interêz
Com gosto perder queria
Nesta contenda e porfia
Não só mil cruzados, tres.
Pede licença ao senhor,
Que no nome a graça traz;
Mas elle como sagaz
O aconselha com primor:
Diz-lhe que fôra melhor
Esta contenda escuzar;
Porém o mancebo alvar,
Fiado em ser cavalleiro
E fiado em ter dinheiro,
Não quiz o pacto acceitar.
Porque se não vence não;
Dizia o moço magnata,
Nem por ouro, nem por prata
O seu sangue de Aragão;
E vendo o senhor dom João
Que si a licença negava
A André Cavallo ultrajava,
Pois podiam presumir,
Si ao Campo o não vissem ir,
Que o dinheiro lhe faltava.
Lhe disse que não só tres
Si corressem mil cruzados,
Si não que depositados
Tinha André Cavallo dez:
Mas o moço Aragonez
Vendo esta resolução,
Por temer a perdição,
A que punha o seu dinheiro,
Toma conselho primeiro
Co’o reverendo Frizão.
O padre, que sem estudo
As leis entende civis,
E com manhosos ardis
Obra mal e entende tudo;
Lhe diria mui sizudo
Com aspecto venerando,
Rindo-se de quando em quando,
Que assim seus enganos lavra:
«Não se lhe dê da palavra,
Diga que estava zombando.»
Assim foi que o desafio
Veiu a parar em burrada,
Que a palavra não val nada,
Si na occasião falta o brio:
E para que com desvio
Não fossem mais inimigos,
Evitando alguns perigos,
Em boa paz os chamou
O General e tractou
De que ficassem amigos.
Depois das pazes, emfim
Lhes pediu que cavalgassem,
E um par de lanças tirassem
Cada qual em seu rossim:
Elle lhe disse que sim,
E de improviso avisou
Ao irmão que não tardou
Com trazer-lhe bons arreios,
Cavallos, sellas e freios,
E com elles se embarcou.
Num dia dos derradeiros
Ao Terreiro os dous chegaram,
E ambos se separaram
Logo dos mais cavalleiros:
Cuidam que são os primeiros
Fidalgos que a terra tem;
E nescios não antevem
Que diz o povo, e não erra,
Que são Fidalgos da Terra,
E outros na Terra ha tambem.
Empinou-se-lhes a Ruça,
E de quatro companheiros,
Sem mais outros cavalleiros,
Fizeram a escaramuça:
O General se debruça,
Para mette-los bem nella,
Na janella com cautela;
Porém usou de revoltas,
Porque mettendo-os nas voltas,
Mandou fechar a janella.
A escaramuça acabada
Fizeram a cortezia,
E todo o povo seria
Vendo a janella fechada:
Nas voltas não viram nada;
Que com notavel trabalho
No ay hombre cuerdo á cavallo;
Porém depois que acabaram,
E o General não acharam,
Ficaram de vinha d’alho.
Com rostos descoloridos,
Desesperados agora
Iam por dentro e por fóra
Da propria côr dos vestidos:
Os que são desvanecidos
E, sem prudencia e razão,
Presumem mais do que são,
Emendem seus pensamentos,
Que para seus desalentos
É vivo o senhor d. João.
Não presumam porque tem,
Que são mais que os pobres, nobres,
Pois ha muitos homens pobres
Mui bem nascidos tambem:
Ao pequeno não convém
Por pequeno desprezar,
Que si este quizer fallar,
Achar póde algum defeito,
Que nenhum ha tão perfeito
Em quem se não possa achar.
Seguia-se um cavalleiro
Ao famoso André Cavallo,
Que levou sem intervallo
De cada golpe um carneiro:
Tambem foi aventureiro
De um premio, mas com defeito
Dava ao corpo um grande geito,
E ficou passado e absorto
De que fosse ao premio torto
E o premio a outro direito.
Ao famoso Braz Rabello
Razão é de mestre o apode,
Pois dar dias sanctos póde
Nesta arte ao que fôr mais bello;
E si com louco desvelo,
Do que digo algum se abraza,
Attenda á razão que é raza,
E verá se faz espantos
Que dar possa os dias sanctos
Quem tem Domingas de Casa.
Nas lanças que poz mui bem
Teve de premios ganança,
E certo que pela lança
Não o ha de vencer ninguem:
Dos cavalleiros que tem
Modernos hoje a Bahia
Leva Braz a primazia,
Porque não ha nesta Praça
Quem se ponha com mais graça,
Fortaleza e bizarria.
Tambem aquella fatal
Emulação de Mavorte,
Para os inimigos forte,
Para os amigos leal;
Applauso merece egual;
Pois nesta cavallaria
Si aos mestres não excedia
Por mais antigos nesta arte,
Aos modernos nesta parte
Elle leva a primazia.
Tambem no Machado fallo,
Que é razão por elle accuda,
Pois sempre ao Cavallo ajuda,
Mas não o ajuda o Cavallo:
Inda assim posso louva-lo
Dando-lhe varios apodos,
Porque conheço em seus modos,
E mui bem posso affirmar
Que nisto de cavalgar
Leva vantagens á todos.
Em mau cavallo corria,
Mas um premio mereceu:
Veja-se quem o perdeu
Que cavalleiro seria?
Aposto que alguem diria,
Vendo que ás carreiras passa
Sem fortaleza, nem graça,
Que o moço com seu sendeiro
É nos fumos cavalleiro,
Porém não cá para a Praça.
Outro cavalleiro airoso
Andou na festividade,
E vi na velocidade
Com que corre ser Velloso;
Por cavalleiro famoso
O povo o acclamou de novo,
E eu só admirando o louvo,
E acho discrição calar,
Porque é escusado fallar
Quando por mim falla o povo.
O Ricardo valeroso
Andou bem, porém sem sorte,
Porque tem pouco de forte,
Si bem tem muito de airoso:
Perdeu pouco venturoso,
Mas sem nenhum sentimento,
Um premio que Braz attento
Ganhou; porque não se atreva
Á aquillo que tambem leva
Com as palavras o vento.
CHEGANDO O MARQUEZ DAS MINAS
A GOVERNAR O ESTADO COM O CONDE DO PRADO SEU FILHO, TRACTOU LOGO DE
ALLIVAR OS MAGNATES DA BAHIA, CHAMANDO-OS DO DESTERRO EM QUE PADECIAM,
AMEDRONTADOS DO SEU ANTECESSOR PELA MORTE QUE OUTROS DERAM AO ALCAIDE
MÓR FRANCISCO TELLES, E POR ACÇÃO DE GRAÇAS LHE FEZ O SECRETARIO DE
ESTADO BERNARDO VIEIRA RAVASCO ESTA DECIMA, QUE O POETA GLOZOU COM OS
PRIMORES COSTUMADOS METAPHORICAMENTE
DECIMA
De flores e pedras finas
Floresce e enriquece o Estado,
Floresce sim pelo Prado,
E enriquece pelas Minas[7]:
As aves que peregrinas
Aos montes se retiraram,
Nesta manhã já cantaram
Com tão doce melodia,
Que a noite se tornou dia
Porque as penas se acabaram.
[7] Refere-se ao conde do Prado e ao marquez das Minas.
GLOZA
Já da primavera entrou
A alegre serenidade,
Com que toda a tempestade
Do triste inverno acabou:
Já Saturno declinou
Nas operações malignas:
Com influencias benignas
Jupiter predominante
Nos promette anno abundante
De flores e pedras finas.
Si d’estes aspectos taes
Bem se calcula a figura,
Teremos grande fartura,
Não ha de haver fome mais:
Mostras temos e signaes
De um tempo muito abastado:
Porque bem considerado
D’elle tem o proprio effeito,
Já vemos que a seu respeito
Floresce e enriquece o Estado.
Para ser enriquecido
Este Estado e florescente,
Temos a causa patente
No planeta referido:
Não se equivoque o sentido
No effeito aqui declarado,
Porque sendo bem notado,
O Estado (como parece)
Si pelo mais não floresce
Floresce sim pelo Prado.
Pelo Prado flôr á flôr
Se vai a terra esmaltando,
Com que o clima está mostrando
Temperamento melhor:
Do luminar superior
Por taes influencias dignas,
Sendo as pedras o boninas
Da terra unicos primores,
Pois se esmalta pelas flores
E enriquece pelas Minas.
Na terra já se experimentam
Virações tão temperadas,
Que as aves exterminadas
Tornar aos ninhos intentam:
Já não sentem, não lamentam
Tempestuosas ruinas;
Pois com salvas matutinas
Se mostram tão prasenteiras,
Que mais parecem caseiras
As aves que peregrinas.
Sua peregrinação
Influxo foi de Saturno,
Planeta sempre nocturno,
E muito importuno então:
Todas nessa conjuncção
Si os doces ninhos deixaram,
E tanto se receiaram
Do nocivo temporal,
Que escolhendo o menor mal
Aos montes se retiraram.
Porém tanto que sentiram
Haver no tempo mudança
Sem receio e sem tardança
Aos ninhos se reduziram:
Outros ares advertiram,
Outra clemencia notaram,
Com que alegres publicaram
Dos astros os movimentos,
E com festivos accentos
Nesta manhã já cantaram.
Cantaram para mostrar
Com repetidas cadencias
Singulares excellencias
De um planeta singular:
Tal doçura no cantar
Não se ouviu nesta Bahia,
Ouvindo-se na harmonia
Modulações tão suaves,
Que nunca cantaram aves
Com tão doce melodia.
Cada qual com voz sonora
Nos mottetes que cantaram,
Por mil modos explicaram
De todo o Estado a melhora:
Cada instante e cada hora
A musica mais se ouvia,
No Prado resplandecia
Por modo maravilhoso
Um lustre tão luminoso,
Que a noite se tornou dia.
Entre as aves modulantes,
Que este nosso paiz tem,
Todas cantaram o bem
De que são participantes:
Dos males que foram antes
Todas tambem se queixaram;
Assim que todas mostraram
Com alegrias notorias
Que começaram as glorias
Porque as penas se acabaram.
A UNS CLERIGOS
QUE INDO AO EXAME DO CANTOCHÃO PARA ORDENS SACRAS NA PRESENÇA DO
ARCEBISPO D. JOÃO FRANCO DE OLIVEIRA, DESAFINARAM PERTURBADOS
Senhor, os padres d’aqui
Por b quadro e por b mol
Cantam bem re mi fa sol,
Cantam mal la sol, fa mi:
A razão que eu nisto ouvi,
E tenho para vos dar,
É que como ao ordenar
Fazem tanto por luzir,
Cantam bem para subir,
Cantam mal para baixar.
Porém como cantariam
Os pobres perante vós?
Tão bem cantariam sós,
Quão mal onde vos ouviam:
Quando o fa bordão erguiam
Cada um parece que berra,
E si um dissona, outro erra,
Mui justo me pareceu,
Que sempre á vista do céu
Fica abatido o que é terra.
Os padres cantaram mal,
Como estava presupposto,
E inda assim vos deram gosto,
Que eu no riso vi o signal:
Foi-se logo cada qual
Direito ás suas pousadas,
Á estudar nas taboadas
Da musica os sete signos,
Não por cantar a Deus hymnos,
Mas por vos dar badaladas.
Vós com voz tão doce e grata
Enleastes meus sentidos,
Que ficaram meus ouvidos
Engastados nessa prata:
Tanto o povo se desata
Ouvindo os vossos esp’ritos,
Que com laudatorios gritos
Dou em fé que uma donzella
Disse, qual outra Marcella,
O Cantico Benedictus.
EPISTOLA AO CONDE DO PRADO
ROMANCE
D’aqui d’esta praia grande
Onde á cidade fugindo,
Conventual das arêas
Entre mariscos habito:
A vós, meu conde do Prado,
A vós, meu principe invicto,
Illustrissimo Mecenas
De um poeta tão indigno,
Enfermo da vossa ausencia,
Quero curar por escripto
Sentimentos, saudades,
Lagrimas, penas, suspiros.
Ausentei-me d’esta Terra,
Porque esse povo maldicto
Me poz em guerra com todos,
E aqui vivo em paz commigo.
Graças a Deus que não vejo
Neste meu doce retiro
Hypocritas embusteiros,
Velhacos intromettidos.
Não me entram nesta palhoça
Visitadores prolixos,
Politicos enfadonhos,
Ceremoniosos vadios.
Visitam-me o lavrador
Sincero, simples e liso,
Que entra co’a bocca fechada,
E sahe co’o queixo cahido.
Dou na varanda um passeio,
Ouço cantar passarinhos
Docemente, ao que entendo,
Excepto a lettra e tonilho.
Vou-me logo para a Praia,
E vendo os alvos seixinhos,
De quem as ondas murmuram,
Por mui brancos e mui limpos,
Os tomo em minha desgraça
Por exemplo expresso e vivo,
Pois eu por limpo e por branco
Fui na Bahia mofino.
Queimada veja eu a Terra
Onde o torpe idiotismo
Chama aos entendidos nescios,
E aos nescios chama entendidos.
Queimada veja eu a Terra,
Onde em casa e nos corrilhos
Os asnos me chamam asno;
Parece cousa de riso.
Eu sei de um clerigo Zote,
Parente em grau conhecido
D’estes que não sabem musa,
Mau grego e peior latino,
Ambicioso avarento,
Das proprias negras amigo,
Só por levar a gaudere
O que aos outros custa gimbo;
Que si acaso em mim lhe fallam
Torcendo logo o focinho,
«Não me fallem neste asno»,
Responde em todo o seu sizo.
Tambem sei que um certo Beca,
No Pretorio presidindo,
Onde é salvage em cadeira,
Me pôz asno de banquinho.
Por signal que eu respondi
A quem me trouxe este aviso,
Si fôra asno, como eu sou,
Que mal fôra á esse ministro.
Era eu em Portugal
Sabio, discreto, entendido,
Poeta, melhor que alguns,
Douto como os meus vizinhos.
E chegando á esta Terra,
Logo não fui nada d’isto,
Porque um direito entre tortos
Parece que anda torcido.
De noite vou tomar fresco
E vejo em seu epicyclo
A lua desfeita em quartos,
Como ladrão de caminhos.
Faço versos mal limados
Á uma moça como um brinco,
Que hontem foi alvo dos olhos,
E hoje é negro dos sentidos.
Esta é a vida que passo,
E no descanso em que vivo,
Me riu dos Reis de Hespanha
Em seu celebre Retiro.
Si à quem vive em solidão
Chamou beato um gentio,
Espero em Deus que hei de ser
Por beato inda bemquisto.
Mas aqui e em toda a parte
Estou tão offerecido
Ás coisas do vosso gosto,
Como ás do vosso serviço.
Á TRES FREIRAS
DO CONVENTO DA ROSA, TODAS IRMÃS, A QUEM OUVIU O AUCTOR CANTAR, E A UMA
TANGER RABECÃO
Clara sim, mas breve esphera
Ostenta em purpureas horas
As mais bellas tres Auroras,
Que undoso o Tejo venera;
Tantos raios reverbera
Cada qual quando amanhece
Nas almas á que apparece,
Que não foi muito esta vez,
Que sendo as Auroras tres,
Pela tarde amanhecesse.
Clara na brancura rara
E de candidez rica,
Com ser freira Dominica,
A julguei por freira Clara;
Tanta flor, á flor da cara
Dada em tão varias maneiras,
Que entre as cinzas derradeiras
Jurou certa maripoza,
As mais por freiras da Rosa
Clara por Rosa das freiras.
Branca si por varios modos
Airosa o arco conspira,
Inda que a todos atira,
É Branca o branco de todos;
Mas deixando outros apodos
Dignos de tanto esplendor,
Vibrando o arco em rigor
Parece em traje fingido
Venus, que ensina a Cupido
Atirar settas de amor.
Maria a imitação
Por seu capricho escolheu,
Ser freira branca no véu,
Já que as mais no nome o são;
E em tão candida união
Com as duas irmãs se enlaça,
Que jurada então por graça,
Chove-lhe a graça em maneira,
Que sendo a Graça terceira,
Não é terceira na graça.
Entoando logo um solo
Em consonancia jocunda
Prima terceira e segunda,
A lyra formam de Apollo;
Vaguei um e outro polo,
Mas foi diligencia vã,
Porque a cara mais louçã
Cotejando-a nas brancuras
Com as tres irmãs formosuras,
Não vi formosura irmã.
Vendo tão raros primores,
Para em retrato adorar-vos,
Tractaram de retratar-vos
Estes meus versos pintores;
E me tendo já de côres
Essas vossas luzes puras
Entre metricas pinturas
Ficam, de muito emendados,
Meus versos os retratados,
E não vossas formosuras.
Á DUAS MOÇAS PARDAS
Altercaram-se em questão
Thereza com Mariquita
Sôbre qual é mais bonita,
Si Thereza, si Assumpção:
Eu tomo por conclusão
Nesta questão altercada,
Que Assumpção é mais rasgada,
E Thereza mais senhora,
E o galante que as namora
Verá a conclusão provada.
Si Thereza é mui bonita,
Mulata guapa e bizarra,
Com mui bom ar se desgarra
A mestiça Mariquita:
Ninguém á uma e outra quita
Serem lindissimas cambas,
E o Cupido, que d’entre ambas
Quizer escolher a sua,
Escolha vendo-as na rua,
Que eu para mim venero ambas.
As damas d’esta cidade,
Ainda as que são mais bellas,
Não são nada diante d’ellas,
São bazofias da beldade:
São patarata em verdade,
Si ha verdade em pataratas,
Porque brancas e mulatas,
Mestiças, cabras e angolas
São o azeviche em parolas,
E as duas são duas pratas.
Jámais amanhece o dia,
Porque sahe a Aurora bella,
Si não porque na janella
Si põem Thereza e Maria:
Uma manhã em que ardia
O sol em luzes divinas,
Pelas horas matutinas
Vi eu Thereza assistir,
Ensinando-a a luzir
Como mestra de meninas.
Á SOGRA DE GONÇALO DIAS
MANDANDO-LHE UNS SONHOS
Senhora velha, si é dado
Á quem é vosso valido
Applicardes-lhe o sentido,
Ouvi vosso apaixonado:
Dá-me notavel cuidado
Saber como ides urdindo
Um e outro sonho lindo,
Porque me atrevo á dizer
Que, para taes sonhos ter,
Sempre estivera dormindo.
Diz um portuguez rifão
Nascido em tempo dos monhos,
Que ninguem creia em seus sonhos,
Porque sonhos, sonhos são:
Eu sigo outra opinião
Dês que os vossos sonhos vi,
E tão firmemente os cri,
Que si os tenho por verdade,
É porque na realidade
Os masquei e os engoli.
Eu dormira todo o dia,
E a vida desperdiçando
Sempre estivera sonhando,
Só por sonhar que os comia:
O sonhar é phantasia
Da alma que quando descança
Não larga a sua lavrança,
O seu trabalho e tarefa,
E como a minha alma é trefa,
No que lida é na papança.
Não são sonhos enfadonhos
Sonhos tão adocicados,
Que em vez de sonhos sonhados,
São sempre engolidos sonhos:
Outros sonhos ha medonhos,
Que um homem deixam turbado
Depois do sonho acordado:
Os vossos tal não farão,
E ao menos me deixarão
Mel pelos beiços untado.
Á BRITES
UMA DAMA PRETENDIDA DE MUITOS E DE NENHUM LOGRADA
Senhora, estou já em crer,
Que não é vosso rigor
Crueldade, mas temor,
Que tendes de vos render:
Hei de dar-vos á entender,
Por mais vos desenganar,
Que só pretendo adorar
Isento e independente,
Que o querer do pretendente
É mui distincto do amar
Bem posso, sem ser amado,
Amar-vos, minha senhora,
Porque amor sempre melhora
O fino em o desgraçado.
No impossivel adorado
Está o affecto maior;
Que quem aspira ao favor
Em sua dor importuna,
Faz lisonjas á fortuna,
E não serviços á amor.
Si do meu conhecimento
Nasceu a minha vontade,
Não pague uma divindade
Ter eu este entendimento.
Que mais agradecimento,
Quer uma amante paixão
Que amar e amar com razão!
E si é preciso querer
Ao bello, porque ha de ser
Merito a obrigação?
O amar correspondido
Não é o mais perfeito amar,
Que não se hão de equivocar
Amante e agradecido.
Sempre contingencia ha sido
O rigor ou a clemencia,
E si da correspondencia
Nascêra sempre a vontade,
Não fôra amor divindade,
Porque o fôra a contingencia.
O amante que procura
Ser em seu amor ditoso,
Tem ambição ao formoso,
Não amor á formosura.
Quem idolatra á luz pura
Da belleza rigorosa,
Cora fineza generosa,
Ame sempre despresado,
Porque o ser eu desgraçado,
Não vos tira o ser formosa.